Artigo 06

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Relato de Caso
Condroma Nasal: Relato de Caso
Nasal Chondroma: Case Report
Resumo
Introdução: Condromas são lesões benignas compostas por
cartilagem hialina madura. Condromas nasais são raros, sendo
sua origem mais comum em septo nasal, ossos próprios do nariz,
seios paranasais e, por fim, cartilagens alares. Os sintomas de
tumores cartilaginosos da cavidade nasal e sítios adjacentes
dependem do local, do tamanho e da taxa de crescimento
tumoral. Além disso, a difícil distinção entre os diagnósticos
diferenciais, como o condrossarcoma, muitas vezes induz ao
erro de diagnóstico inicial. Objetivo: Relatar um caso clínico de
condroma nasal. Relato de caso: Paciente, feminino, 34 anos,
com história de massa nasal, de provável origem em corneto
inferior, com 5 meses de evolução, apresentando obstrução nasal
e episódios de epistaxe intermitentes e recorrentes. Tomografia
computadorizada de seios paranasais evidenciou lesão expansiva,
bem delimitada, com invasão de palato duro e septo nasal. Foi
submetida a tratamento cirúrgico com abordagem via rinotomia
lateral esquerda e exérese de lesão de aproximadamente 3,0 x 3,5
x 2,5 cm. Análise histopatológica confirmou tratar-se de condroma,
uma tumoração benigna. Após dois anos de seguimento pósoperatório, não houve recidiva da lesão. Comentários finais:
Condromas nasais são neoplasias benignas raras, mais comuns
em jovens, que devem ser, sempre que possível, diferenciadas
de lesões malignas, como os condrossarcomas. O tratamento de
escolha é cirúrgico com baixas taxas de recidiva local.
Daniel de Sousa Michels 1
Amanda da Mota Silveira Rodrigues 2
Viviane Menezes 3
Gustavo Subtil Magalhães Freire 4
Luiz Augusto Nascimento 5
Abstract
Introduction: Chondromas are benign lesions composed of
mature hyaline cartilage. Nasal chondromas are rare, and their
common origin is in the nasal septum, nasal bone, paranasal
sinuses and alar cartilages. Symptoms of cartilage tumors of the
nasal cavity and adjacent sites depend on the location, size and
tumor growth rate. Furthermore, the difficult distinction between
differential diagnoses such as chondrosarcoma, often leads to
initial misdiagnosis. Objective: Report a case of nasal chondroma.
Case Report: A 34-year-old female presented left nasal
obstruction and intermittent and recurrent episodes of epistaxis
of 5 months duration. Anterior rhinoscopy revealed a nasal mass
of which probable origin was the inferior turbinate. Computerized
tomography images showed a well-defined mass, with hard
palate and nasal septum invasion. The patient underwent surgical
treatment by left lateral rhinotomy approach and a 3.0 x 3.5 x
2.5 cm mass was removed. Histopathology confirmed a benign
tumoral lesion. No recurrence was seen after two years of followup. Final comments: Nasal chondromas are more common in
young people, and should be differentiated from malignant lesions
such as chondrosarcoma. The treatment is surgical with low rates
of local recurrence.
Key words: Nasopharyngeal Neoplasms; Chondroma;
Chondrosarcoma
Descritores: Neoplasias; Condroma; Condrossarcoma.
Introdução
Condromas são lesões benignas bem delimitadas
compostas por tecido cartilaginoso maduro. Somente
10% dos tumores cartilaginosos se originam em área de
cabeça e pescoço, sendo a maioria destes em laringe
e região esfenoetmoidal. Desde sua primeira descrição
por Morgan em 18421, somente 150 casos de condromas
em cabeça e pescoço foram descritos na literatura de
língua inglesa. Condromas podem se originar de ossos
ou tecidos moles, como por exemplo, cavidade nasal,
vértebra cervical, palato mole, nasofaringe, tuba auditiva,
língua, gengiva, mucosa bucal e laringe. Condromas
nasais podem ter sua origem em seios paranasais, ossos
próprios do nariz, septo e, mais raramente, cartilagens
alares.2 O objetivo do artigo é, dada a baixa prevalência
desse tipo de tumor na população mundial, relatar um
caso de condoma em cavidade nasal.
1)Médico, Universidade Católica de Brasília. Médico Residente, Hospital Universitário de Brasília.
2)Graduanda em Medicina pela Universidade de Brasília. Acadêmica.
3)Médica, Universidade de Brasília. Médica.
4)Especialista em Otorrinolaringologia Universidade de Brasília. Otorrinolaringologista.
5)Doutor em Medicina, UNIFESP. Chefe do serviço CCP, UnB.
Instituição: Departamento de Otorrinolaringologia e Cirurgia de Cabeça e Pescoço do Hospital Universitário de Brasília.
Brasília / DF – Brasil.
Correspondência: Daniel de Sousa Michels - SHIS QI 11 conjunto 7 casa 1 – Brasília / DF - Brasil - CEP: 71625-270.
Artigo recebido em 02/08/2014; aceito para publicação em 21/01/2016; publicado online em 28/02/2016.
Conflito de interesse: não há. Fonte de fomento: não há.
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Condroma Nasal: Relato de Caso.
Michels et al.
APResentAção Do cAso cLÍnIco
Paciente de 34 anos, gênero feminino, apresentouse com quadro de epistaxe volumosa, intermitente
e recorrente à esquerda, com 5 meses de evolução.
Associado ao quadro, queixava-se de obstrução nasal
à esquerda, cefaléia frontal, parestesia e dor em região
maxilar ipsilaterais, de forte intensidade, não aliviadas
com o uso de analgésicos comuns. À rinoscopia anterior,
notava-se a presença de tumoração avermelhada em
fossa nasal esquerda, bem delimitada, de consistência
firme, originando-se dos cornetos, tocando assoalho
nasal e obstruindo parcialmente a fossa nasal esquerda.
Não havia adenomegalias palpáveis em cadeias
cervicais.
A tomografia computadorizada de seios paranasais
evidenciou lesão expansiva em fossa nasal esquerda,
homogênea, bem delimitada, com densidade compatível
com tecidos moles, invadindo palato duro e septo nasal
(Figuras 1 e 2). A análise histopatológica da biópsia
da lesão não foi capaz de diferenciar a lesão entre
condroma e condrossarcoma de baixo grau, sendo
indicado tratamento cirúrgico.
O acesso à lesão foi realizado por meio de uma
rinotomia lateral esquerda sob anestesia geral. A peça
cirúrgica possuía 3,0 x 3,5 x 2,5 cm3 (Figuras 3 e 4).
A análise histopatológica evidenciou tecido
cartilaginoso hialino bem diferenciado formado por
condrócitos neoplásicos em lacunas com pequenos
núcleos hipercromáticos (Figura 5).
Após dois anos de seguimento pós-operatório, a
paciente encontra-se assintomática, e sem sinais de
recidiva da lesão.
Figura 3. Aspecto intraoparatório da lesão.
Figura 1. TC de seios paranasais (corte axial).
Figura 4. Visão após exérese da lesão.
Figura 2. TC de seios paranasais (corte coronal).
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Figura 5. Lâmina com exame histopatológico.
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Condroma Nasal: Relato de Caso. Michels et al.
Discussão
as imagens radiológicas mostram erosão em ossos
corticais adjacentes. Os condromas, por sua vez,
Apenas 10% dos condromas originam-se na região da geralmente não são radiopacos, sendo vistos como
cabeça e pescoço, sendo mais comumente observados massas homogêneas com limites bem definidos. Se a
na região esfenoetmoidal (50%). Outras regiões diferenciação por imagem continua duvidosa, deve-se
encontram-se acometidas em menor frequência, como solicitar ressonância magnética, na qual os condromas
a maxila (18%), septo nasal (17%), palato duro (6%), apresentam hipersinal em T2, quando comparado a T1,
nasofaringe (6%) e cartilagens alares (3%).3,4 Apesar de da mesma forma que o condrossarcoma.2 Os achados
raros, adquirem características de malignidade em dois histológicos de um condrossarcoma bem diferenciado
terços dos casos.4
incluem mitoses anormais, células atípicas e necrose.
Embora os tumores cartilaginosos da cabeça e
A cirurgia é a base do tratamento para ambos os
pescoço sejam raros, quando ocorrem, os malignos tumores benignos ou malignos. A rinotomia lateral é o
são duas vezes mais frequentes que os benignos.4 acesso cirúrgico de escolha quando do envolvimento de
O conceito mais aceito na oncogênese de condromas seios paranasais. No caso de condroma septal, a excisão
nasais é a teoria do resto celular de Ringertz (1938), local é possível em tumores de pequenas dimensões.5
que pode explicar a condrogênese de seios paranasais,
No entanto, grandes condromas septais são
cornetos, palato duro e a parte posterior do septo.5
geralmente vistos no fundo da cavidade nasal e Takimoto
O quadro clínico é variável, a depender do sítio de e col têm defendido uma abordagem transpalatina
origem, do tamanho e da taxa de crescimento tumoral. Os para aqueles casos em que há lesões disseminadas na
condromas nasais apresentam-se freqüentemente como cavidade nasal e nasofaringe, sem o envolvimento dos
tumorações de crescimento lento e consistência firme a seios paranasais.5
endurecida, podendo ser erroneamente diagnosticados
Em relação às terapias adjuvantes, a radioterapia
como pólipos nasais. Clinicamente costumam se é de pouco valor para os tumores benignos, mas pode
manifestar por obstrução nasal e epistaxe, podendo se ser oferecido para o tratamento primário de tumores
associar a deformidades ósseas em virtude dos efeitos cartilaginosos malignos recorrentes. O seguimento a
compressivos provocados pelo tumor.4
longo prazo do condroma benigno com exame de imagem
Em geral, a incidência de condromas é mais e endoscópico é necessário devido à possibilidade de
expressiva durante a sexta década de vida, no entanto, transformação maligna.6
o condroma de esqueleto facial geralmente ocorre
durante a adolescência e início da idade adulta6, como a Comentários finais
paciente citada no caso relatado.
Condromas nasais são lesões raras que devem
É de grande importância a definição do diagnóstico
pré-operatório por meio de exame histopatológico para estar entre as hipóteses diagnósticas na investigação
que se possa planejar o tratamento cirúrgico da lesão. de massas nasais. É importante, sempre que possível,
Algumas características clínicas devem levantar a estabelecer o diagnóstico pré-operatório, uma vez que
suspeita de malignidade, incluindo idade mais avançada a diferenciação entre uma lesão benigna ou maligna
na apresentação, crescimento rápido e invasão de modifica o planejamento cirúrgico. O tratamento de
escolha é a exérese cirúrgica e as taxas de recidiva
estruturas adjacentes.6
A paciente apresentada estava na quarta década tumoral são baixas.
de vida e tinha como provável sítio de origem tumoral
o corneto inferior da fossa nasal esquerda, porém Referências
apresentou rápida progressão da lesão com invasão de
1. Kurozumi N, Kamiishi H. Nasal chondroma: a case report. British
palato duro e septo nasal em 5 meses de evolução.
Journal os Plastic Surgery. 1984. 37:247-9.
Diante disso, optou-se pela abordagem cirúrgica com 2. Ozturan O, Degirmenci N, Yenigun A. Chondroma of the Nasal Tip.
excisão ampla da lesão, por meio de rinotomia lateral The Journal of Craniofacial Surgery. 2012. 24(2):e153-5.
esquerda, devido a incerteza da benignidade do tumor. 3. Patanakar T, Armao D, Mukherji SK. Nasal Chondroma. American
Porém, como o diagnóstico diferencial histológico Journal of Roentgenology. 2000;174:1166.
4. Chien CY, Tai CF, Ho Ky, et al. Nasal Septum Chondroma: A Case
inclui a diferenciação condróide em osteossarcomas, Report. Kaohsiung J Med Sci. 2005;21:142-5.
encondromas, condrossarcoma bem diferenciado e 5. Mishra A, Shukla GK, Mishra SC, et al. Anterior Septal Chondroma.
condroma periosteal, a difícil distinção entre eles muitas Indian Journal of Otolaryngology and Head and Neck Surgery.
vezes leva a erros de diagnóstico inicial.7 Vinte por 2004;56(4):303-5.
6. Sreedharan, S, Kamath MP, Hedge MC, Sundar S, Lobo FD, Raju,
cento dos condrossarcomas de cabeça e pescoço são PK. Chondroma of the nasal bone: a case report. 2006. 85(1):44-6.
4
inicialmente diagnosticados como benignos.
7. Lee DH, Jung SH, Yoon TM, Lee JK, Joo YE, Lim SC. Low grade
Os exames tomográficos podem se apresentar chondrosarcoma of the nasal septum. World Journal of Clinical Cases.
como como lesão composta por matriz hipodensa 2013. 1(1): 64-6.
com calcificações. Em casos de condroma periosteal,
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