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ECONOMIA E CUSTOS SOCIAIS
ECONOMIA E CUSTOS SOCIAIS
SINÉSIO PIRES FERREIRA
Economista, Gerente de Análise Socioeconômica da Fundação Seade
A
tualmente, muito se tem dito sobre as vantagens
da flexibilidade que caracteriza o mercado de
trabalho nos Estados Unidos, imputando-se a
ela a grande capacidade de geração de empregos que a
economia desse país apresentou nos últimos anos e a conseqüente estabilização de sua taxa de desemprego. O objetivo deste artigo é tentar caracterizar melhor o comportamento recente daquele mercado, mostrando que, embora
distinto do observado nos países europeus, também foi
marcado pela deterioração das condições de trabalho que
acompanha o processo mais amplo de transformações
experimentado pela economia mundial desde os anos 70.
Marion Shaw enfatiza na introdução à sua antologia
de textos literários sobre trabalho e gênero que o trabalho
desempenha um papel central em nossas vidas, não somente por nos permitir o acesso aos meios de sobrevivência através da renda que proporciona, como também
por nos conferir um status social. Ter trabalho, segundo
essa perspectiva, significa estar conectado com o mundo,
dispor de um lugar na sociedade; o contrário implica uma
espécie de exílio, de punição. Nossa própria identidade é
permeada pelo trabalho: somos reconhecidos pelos outros – e talvez por nós mesmos – muito mais pelo que
fazemos do que por qualquer atributo que possamos ostentar (Shaw, 1995). A perspectiva de um mundo em que
parcela expressiva das pessoas é privada de trabalho, portanto, não se limita à questão de como garantir a sobrevivência dos excluídos.
A incapacidade de se gerar empregos em número suficiente para tornar o desemprego uma situação excepcional e passageira não é apenas uma hipótese pessimista
quanto ao futuro da economia. É algo que já se verifica
hoje, inclusive nos chamados países desenvolvidos. As
taxas de desemprego na maioria dos países europeus são
superiores a 8%, chegando em alguns casos a ultrapassar
os 10%, como na França, ou mesmo os 20%, como na
Espanha. Nos Estados Unidos, têm oscilado em torno de
6% – bem abaixo, portanto, daquelas registradas na Europa –, mas sua manutenção neste patamar tem implicado pesados custos à força de trabalho do país.
Desde a década de 60, observa-se uma desproporção
entre as taxas de crescimento do PIB e do emprego nos
países centrais, que se acentuou a partir dos anos 70: entre 1976 e 1985, o PIB dos países da União Européia cresceu em média 2,3% ao ano, enquanto o nível de emprego
manteve-se praticamente inalterado. A situação foi mais
favorável nos Estados Unidos, com o PIB crescendo 2,9%
ao ano e o nível de emprego, 2,2% (Botsas, 1995).
Este comportamento distinto do nível de emprego dos
países europeus e dos Estados Unidos pode ser constatado também pela evolução das respectivas taxas de desemprego: nos anos 80, a taxa de desemprego do conjunto
dos países europeus da OCDE passou a superar a dos
Estados Unidos, revertendo o padrão histórico de taxas
de desemprego mais elevadas neste país (Freeman, 1988).
A Tabela 1 mostra que, ao longo da década de 90, a diferença ampliou-se ainda mais, uma vez que a taxa de desemprego norte-americana em 1995 encontra-se no mesmo patamar de 1990, enquanto nos demais países,
sobretudo nos europeus, situa-se em níveis muito superiores aos registrados no início da década, chegando a elevar-se em cerca de 35%, nos casos da França e da GrãBretanha.
Duas questões centrais decorrem das constatações acima sumarizadas: qual a origem da incapacidade de se gerar
empregos num ritmo ou com qualidade adequada às ne-
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cessidades sociais destes países? Quais as razões de comportamentos tão distintos entre os mercados de trabalho
europeus e norte-americano? O objetivo deste texto é levantar algumas hipóteses que possam auxiliar nas respostas a tais questões.
que busca feroz e crescentemente lucros de curto prazo e
dificulta – ou mesmo impede – a gestão das políticas monetária e cambial pelos bancos centrais.
Como observou Tavares (1993), “as flutuações das
taxas de câmbio e de juros, acompanhadas de fortes movimentos de capitais, modificaram as condições de financiamento do Estado e de rentabilidade da grande empresa dentro dos países centrais, forçando a um aumento da
competição internacional que, por sua vez, obrigou a uma
rápida transformação industrial e tecnológica”.
Pode-se associar estes movimentos – o acirramento da
concorrência internacional e a transformação tecnológica – a algumas das visões mais influentes sobre os problemas que afetam o mercado de trabalho nas economias
centrais. Segundo Amadeo (1995), há essencialmente duas
teses em voga a respeito desta questão: a do secretário do
trabalho norte-americano, Robert Reich, e aquela atribuída ao economista Paul Krugman.1 A primeira considera
que o crescente ingresso de produtos manufaturados produzidos por países onde a remuneração do trabalho é muito
baixa, como é o caso dos países em desenvolvimento, é
um dos fatores importantes para explicar a ampliação do
desemprego e/ou a queda dos salários, em especial de trabalhadores menos qualificados, na Europa e Estados Unidos. Seu corolário, afirma Amadeo, “é que está em curso
um processo de equalização internacional dos preços dos
fatores de produção, com os salários dos trabalhadores
menos qualificados dos países ricos tendendo para o mesmo patamar dos trabalhadores (pouco qualificados) dos
países mais ou menos pobres”. A segunda destaca o viés
tecnológico, poupador de trabalho, principalmente de trabalho não qualificado, que vem produzindo efeitos negativos e irreversíveis sobre os níveis de emprego e a distribuição de renda. Não se pretende aqui discutir tais teses,
mas apenas ressaltar que ambas, a partir de óticas teóricas e políticas diversas, apontam para uma perspectiva
pessimista, com a crescente heterogeneização do mercado de trabalho, o que, de fato, já vem sendo captado nos
levantamentos empíricos cujos resultados foram acima
parcialmente sintetizados.
Sob a ótica da organização industrial – e recorrendo
mais uma vez às observações de Amadeo (1995), – as principais ações que vêm sendo realizadas pelas firmas são a
desverticalização e o downsizing,2 o que implica a descentralização das atividades empresariais e a maior participação das pequenas e médias empresas e do trabalho
autônomo nas atividades econômicas ou, de forma sintética, a redução da presença de mecanismos extramercado
nas relações econômicas. É interessante notar que, no
passado, a estratégia empresarial dominante era, inversamente, a de maior centralização das atividades no interior das empresas, com menor participação, portanto, da
TABELA 1
Taxas de Desemprego
Países Selecionados – 1990-1994
Em porcentagem
Países
Canadá
França
Alemanha Ocidental
Itália
Japão
Grã-Bretanha
Estados Unidos
1990
1994
1995(1)
8,1
9,2
5,2
7,0
2,1
6,9
5,5
10,4
12,7
5,8
11,4
2,9
9,6
6,0
9,7
12,5
6,5
12,2
3,0
9,3
5,5
Fonte: U.S. International Trade Comission; U.S. Department of Labor.
(1) Refere-se ao primeiro trimestre de 1995.
TRANSFORMAÇÕES ECONÔMICAS
E MERCADO DE TRABALHO
As profundas alterações nas condições de funcionamento das economias capitalistas, a partir da década de 70,
são bastante conhecidas e foram objeto de vários estudos. Os arranjos institucionais estabelecidos no pós-guerra,
associados à particular situação política internacional,
permitiram a emergência de um período de excepcional
estabilidade das principais variáveis macroeconômicas e
uma combinação virtuosa de crescimento econômico e
pleno emprego. Como sintetizou Mattoso (1994), “o mercado de trabalho, crescentemente homogêneo, registrou
níveis de desemprego praticamente inexistentes. Os salários articularam-se estreitamente com a elevação da produtividade e dos preços e ampliaram seu poder de compra. Os salários indiretos obtiveram aumentos, sendo que
parcelas significativas do custo do trabalho foram assumidas socialmente pelo Estado. As relações de trabalho
adquiriram um caráter mais padronizado e a contratação
coletiva exerceu uma função econômica favorável à administração da demanda agregada”.
A crise do padrão monetário internacional, a partir dos
anos 70, e as tentativas de superá-la – em especial as políticas de ajuste do balanço de pagamentos norte-americano e de sustentação do dólar – não somente implicaram
profunda instabilidade das principais variáveis macroeconômicas, sobretudo das taxas de câmbio e de juros, como
também levaram à reestruturação industrial a que se vem
assistindo nas principais economias do mundo. Simultaneamente, formou-se, à revelia dos Estados nacionais e
fora de seu controle, um verdadeiro cassino financeiro,
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ECONOMIA E CUSTOS SOCIAIS
mediação do mercado nas transações econômicas. Mas,
“num ambiente mais competitivo e mais volátil”, sustenta Amadeo, “os custos de coordenação de diferentes atividades tornam-se maiores, favorecendo a descentralização” (Amadeo, 1995).
As conseqüências deste movimento são muitas, podendo ser relacionadas às dificuldades de coordenação interempresarial e à menor capacidade de realização de certos investimentos, em particular aqueles de custo fixo
muito elevado ou cuja escala mínima é muito superior à
possibilidade de uso individual (Amadeo, 1995). A rigor,
o atual ambiente econômico pode estar afetando negativamente a realização de qualquer investimento que implique aumento da capacidade instalada. Embora sejam
necessários maiores estudos empíricos para sustentar esta
hipótese – numa situação de alta instabilidade das principais variáveis macroeconômicas, de redução da capacidade de consumo das famílias, quer pelo aumento do desemprego, quer pela redução dos níveis reais dos salários
e das restrições aos gastos públicos –, pode-se afirmar que
dificilmente ocorrerá uma grande onda de novos investimentos, salvo em alguns segmentos muito específicos.
Os atuais movimentos de aquisições e fusões empresariais e a pressão pelas privatizações de empreendimentos
públicos talvez sejam a outra face desta moeda, diante de
uma enorme massa de capitais buscando opções de valorização.
As mudanças na organização industrial relacionam-se
ainda com a crise fiscal e do welfare state nos países desenvolvidos. Para Tavares (1993:64-65), além de acarretar alterações nas estruturas demográfica e ocupacional –
que resultaram na informalização das relações de trabalho e na conseqüente redução da base de arrecadação das
contribuições sociais, tornando-as insuficientes para a cobertura da seguridade social –, essas mudanças na organização industrial afetam de várias formas a capacidade
arrecadadora das economias nacionais. Sintetizando suas
observações, destaque-se: a desconcentração e a internacionalização da produção, que implicaram a redução da
base tributária sobre os lucros dos grandes grupos econômicos; o apoio do Estado à reestruturação das grandes empresas, inclusive bancárias, através de várias formas de
transferências patrimoniais que, em última instância, significam a socialização das perdas e a privatização dos
lucros a favor de tais empresas; e, finalmente, o grande
número de pequenas empresas surgidas a partir da reestruturação industrial que, embora modernas, muitas têm
pelo menos um ponto em comum com o velho setor informal, característico dos países latino-americanos, ou seja
o não pagamento de impostos.
É importante ressaltar que, em praticamente todo o
mundo desenvolvido, tem havido iniciativas no sentido
de restringir salários e gastos sociais, exatamente no momento em que o desemprego atinge níveis tão elevados.
Em alguns casos, como ocorre na Inglaterra, propõem-se
reformas na organização dos sistemas de seguridade social baseadas nos mesmos princípios que presidiram a
reestruturação do setor privado, como se “as mudanças
econômicas tivessem a mesma natureza das mudanças climáticas, algo que não depende da vontade humana e cujos efeitos talvez possam ser mitigados, mas nunca evitados” (Woollacott, 1996:13).
Há ainda outros elementos que afetam negativamente
a situação das finanças públicas, desde o aumento das
despesas correntes com os serviços financeiros da dívida
pública – relacionado com as tentativas dos Estados nacionais de regular os desequilíbrios do balanço de pagamentos – até a chamada financeirização da riqueza
(Braga, 1993) – que, além de produzir efeitos perversos
na distribuição de rendimentos, dificulta enormemente a
capacidade pública de tributação sobre os titulares deste
patrimônio e das rendas que produz (Tavares, 1993:66).
De maneira geral, pode-se afirmar que as forças centrífugas que caracterizam a economia contemporânea vêm
ampliando e aprofundando as diferenças sociais e limitando as perspectivas de progresso a segmentos cada vez
mais restritos da população, num momento em que as
possibilidades objetivas – e mesmo subjetivas – da ação
pública de contrabalançar estas forças são extremamente
frágeis.
DOIS MODELOS?
Não há dúvidas de que vem ocorrendo uma precarização das condições de funcionamento do mercado de trabalho nos países centrais. Na Europa, isto é facilmente
constatado pela elevação das taxas de desemprego. Nos
Estados Unidos, embora estas taxas se mantenham estáveis, essa precarização evidencia-se na qualidade dos
empregos gerados e no comportamento desfavorável da
distribuição dos rendimentos. A despeito disto, vários
analistas consideram o “modelo” norte-americano mais
adequado ao novo ambiente econômico internacional, ao
contrário do que se dizia há alguns anos. O secretário do
Trabalho do governo Clinton, Robert Reich, em discurso
pronunciado em 1994, apontou ironicamente para este
fato: “(...) há alguns anos, a visão convencional era a de
que a Europa e o Japão agiam sempre corretamente e tudo
o que os Estados Unidos faziam era errado. O que quer
que se pudesse aprender, deveríamos aprender com eles
e eles nada tinham a aprender conosco. Hoje, a nova visão convencional é diametralmente oposta: tudo o que
fazemos está certo e tudo o que fazem Europa e Japão
está errado. Nenhuma destas posições está correta”.3
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SÃO PAULO EM PERSPECTIVA, 10(1) 1996
A atual visão convencional destaca uma série de características institucionais do mercado de trabalho dos
países europeus – a despeito de toda flexibilização que já
promoveram – como causas da ampliação extrema do desemprego naquelas economias, quais sejam: maior importância da ação sindical, que implica menor flexibilidade
dos mercados de trabalho; maior presença do Estado na
regulação dos mercados de trabalho; custos do trabalho
não-salariais mais elevados, como, por exemplo, as contribuições para a seguridade social que, nos Estados Unidos, correspondem a cerca de 20% dos salários, enquanto na Europa chegam a 30%, ou as férias remuneradas
que, nos Estados Unidos, são, anualmente, no mínimo,
de cerca de duas semanas, contra aproximadamente seis
semanas na Europa (Botsas, 1995:3); custo mais elevado
do seguro-desemprego, decorrente do maior prazo de pagamento do benefício, que contribuiria para a maior duração do desemprego nestes países em comparação com
os Estados Unidos.4 Em síntese, a visão convencional indica que a maior proteção social de que gozam os trabalhadores europeus em relação aos norte-americanos tem
um custo, que é a menor eficiência econômica e a menor
capacidade de investir. Reside aí a explicação para o fato
de terem sido criados apenas oito milhões de empregos
nesses países, desde 1970, contra mais de 40 milhões nos
Estados Unidos. 5
As objeções a este tipo de percepção da realidade socioeconômica dos países desenvolvidos são muitas e de
distintas naturezas. Deixando de lado discussões sobre as
bases teóricas em que se assenta esta visão, sumarizamse a seguir algumas observações que a questionam.
Em primeiro lugar, é freqüentemente mencionado que
o “modelo” norte-americano, se não elevou em demasia
a taxa de desemprego, implicou outras formas de deterioração das condições de trabalho. Mishel e Bernstein
(1993) realizaram um estudo que se constitui num panorama da situação do mercado de trabalho norte-americano no início da década de 90, cujas principais conclusões
são as seguintes:
- a recuperação econômica experimentada na década de
80 foi atípica, na medida em que a situação da maioria
dos norte-americanos era pior em 1989 que no final dos
anos 70;
- o crescimento da renda das famílias entre 1979 e 1989
foi mais lento que em qualquer outro período de recuperação econômica desde a II Guerra e não afetou a todas
na mesma proporção: aquelas no topo da distribuição (1%
mais ricas) tiveram sua renda acrescida em mais de 60%,
enquanto as 60% mais pobres sofreram perdas. Ademais,
este movimento foi acompanhado da ampliação das horas trabalhadas e da entrada de um número maior de mulheres, em especial casadas, no mercado de trabalho. Com
a queda da atividade econômica, o rendimento médio real
das famílias diminuiu 4,4%, entre 1989 e 1991;
- o principal determinante do desempenho da renda familiar foi o comportamento dos salários que, na média, reduziram-se em 4,9%, entre 1979 e 1989. Esta queda foi
mais intensa entre os jovens com segundo grau completo
e a população masculina;
- o crescimento do emprego entre 1979 e 1989 foi de 1,7%
ao ano. Embora lento, foi acompanhado da diminuição
da taxa de desemprego (de 5,8% para 5,3%). A explicação para esse fenômeno reside antes na pequena expansão da população em idade ativa (0,9% a.a.) e na queda
da taxa de participação (-0,25% a.a.) que na expansão do
emprego;6
- os novos postos de trabalho criados no período em questão foram, em sua maioria, de baixa qualidade. O emprego em tempo parcial – normalmente associado a salários
baixos, menores requisitos de qualificação, pequenas chances de promoção, menor tempo de permanência, poucos
benefícios e status inferior – correspondia, em 1989, a
18,9% do total de empregos no país, enquanto em 1973
este percentual era de 16,6%. Esta expansão deu-se, principalmente, pelo aumento do número daqueles que involuntariamente exercem atividades com esta característica, ou
seja, trabalham em tempo parcial, embora desejassem e
tivessem disponibilidade para exercer jornada completa
(cujo percentual passou de 3,1% para 5,4%, no período).7
Outra forma de inserção produtiva que se ampliou no
período foi o “múltiplo emprego” (multiple jobholding),
reflexo da deterioração salarial já mencionada. A proporção de trabalhadores nesta situação passou de 4,9%, em
1979, para 6,2%, em 1991, o que equivale a dizer que mais
2.500.000 pessoas passaram a fazer parte deste contingente,
no período considerado. Embora não existam estatísticas
seguras sobre o assunto, há indicações importantes sobre
o crescimento do emprego de trabalhadores temporários.
As três formas mais usuais de se contratar este tipo de
trabalhadores são: a manutenção pelas próprias empresas
de um pool de trabalhadores temporários que são acionados eventualmente (internal temporary worker pool); o
recurso a empresas especializadas em colocação de mãode-obra temporária; e a contratação direta de trabalhadores autônomos. A partir de pesquisas distintas, nota-se que
as três formas de contratação vêm se ampliando desde
1986, ano em que tais informações passaram a estar disponíveis. Por último, o crescimento do número de trabalhadores autônomos (self-employed), cuja participação no
emprego total passou de 7,1%, em 1979, para 7,8%, em
1991. Na maior parte dos casos, os trabalhadores autônomos auferem rendimentos muito menores que os assalariados, sobretudo quando do sexo feminino.8
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ECONOMIA E CUSTOS SOCIAIS
Em resumo, pode-se inferir dessas informações que a
redução dos salários reais implicaram uma compressão
do rendimento das famílias que, por seu turno, induziu
tanto uma inserção mais acentuada das mulheres – em
especial, as casadas – no mercado de trabalho, quanto o
exercício do trabalho em mais de um emprego.9 Por outro lado, os empregos gerados foram, em boa medida, de
tempo parcial ou temporários, reduzindo os benefícios do
trabalho, dificultando a ação sindical e, por conseqüência, diminuindo ainda mais os salários.
Estas informações dão suporte a argumentos como de
Freeman, segundo o qual “há um custo substancial associado à criação de empregos nos Estados Unidos”. Primeiro, porque “os Estados Unidos pagam pela criação de
empregos com menor crescimento dos salários reais e da
produtividade”; e, segundo, “se algumas pessoas entraram no mercado de trabalho em resposta aos menores rendimentos do chefe de domicílio, seu emprego reflete muito
mais uma deterioração do que uma melhoria do bem-estar econômico” (Freeman, 1988:298-299).
O desempenho do mercado de trabalho nos Estados
Unidos pode também ser questionado, relacionando-o ao
déficit das contas públicas (Freeman, 1988:299), que aumentou muito nos últimos governos republicanos, o que
se teria constituído numa importante fonte de crescimento do emprego na década passada (Faux, 1994:2), além
de levar o país a se tornar o maior devedor do mundo e,
mais importante, com implicações negativas sobre sua
capacidade de garantir aos cidadãos, no futuro, um padrão de vida semelhante ao atual.
Há várias outras fontes de dúvidas quanto a uma eventual vantagem do “modelo” de funcionamento do mercado de trabalho norte-americano em relação ao europeu:
a evolução dos níveis de produtividade das respectivas
economias; o comportamento econômico divergente;10 a
rigidez macroeconômica do Banco Central alemão, cuja
política monetária restritiva vem dificultando uma retomada consistente da atividade econômica européia (Faux,
1994:3-5); entre outras. A despeito da importância que
se possa atribuir a tais questões, as que foram anteriormente destacadas são suficientes para se concluir que,
tanto no “modelo” norte-americano quanto no europeu,
os custos do ajuste recaíram sobre o emprego da força de
trabalho – em termos de número e/ou de qualidade – e
sobre o Estado.
O discurso dominante aponta como saída para esta situação mais flexibilização, o que garantiria maior competitividade às economias que a adotassem. Há várias
questões que põem em dúvida esta afirmação: em primeiro
lugar, as disparidades salariais entre as várias economias
do mundo são tão grandes que esperar que possam ser
eliminadas pelo jogo do mercado é uma perigosa ilusão.11
Por outro lado, diante da importância que têm hoje as receitas financeiras para as grandes empresas e as várias
opções de atuação num mercado financeiro com tal grau
de liberalização, o peso dos custos salariais para sua maior
ou menor competitividade é praticamente nulo (Tavares,
1994:67 e ss.). Muito mais relevante é a forma de inserção no mercado internacional, tanto no que diz respeito
aos canais de comercialização quanto aos de financiamento (idem). Por último, a noção de competitividade, sobretudo quando referida a um país, é tão ambígua que carece
de qualquer sentido (Krugman, 1994:28 e ss; Faux,
1994:8).
O fato é que no final do século XX, após tantos avanços políticos, institucionais e técnicos, as economias mais
desenvolvidas do planeta apresentam duas estratégias de
organização socioeconômica que, como se procurou demonstrar, são, a rigor, uma só: a exclusão de parcelas crescentes da população dos frutos do desenvolvimento econômico. Mais grave, trata-se de uma estratégia que,
embora indesejável, aparece no debate político como a
única viável economicamente, por mais frágeis que sejam os argumentos que a sustentam. Seria de se esperar
que qualquer solução que rompesse com este círculo vicioso passasse por algum tipo de cooperação internacional. O problema é que nenhum país hoje tem condições
de coordenar os interesses internacionais no sentido de
promover a adoção de políticas cooperativas como contrapartida à atual situação, em que é cada vez mais visível a deterioração das condições sociais. Nem mesmo no
âmbito da União Européia – onde é maior o esforço na
busca de ações coordenadas e cooperativas –, tal problema foi superado. Ao contrário, os distintos interesses nacionais, sobretudo da Grã-Bretanha e da Alemanha, vêm
se acentuando de forma progressiva.
A outra saída, cujas conseqüências são imprevisíveis,
aponta para o retorno do nacionalismo e dos conflitos
comerciais. Para Krugman (1994:41-42), esta é uma conseqüência quase natural do que ele chama de obsessão
pela competitividade: “O que ocorreria se, a despeito de
todos os esforços, um país não parecesse estar sendo bem
sucedido ou sofresse uma crise de confiança? Nestas situações o diagnóstico da competitividade inevitavelmente sugere que fechar as fronteiras é melhor do que arriscar-se a que estrangeiros tomem para si empregos bem
remunerados ou setores muito valorizados”. Nesta linha,
insere-se a sugestão do Prêmio Nobel de Economia de
1988, Maurice Allais, de que a União Européia deve promover um fechamento comercial, por meio do controle
quantitativo das importações de outros países ou, se a UE
não o desejar, que a França o faça isoladamente.12 A importância de temas como “protecionismo” e “isolacionismo” na atual campanha eleitoral norte-americana, revi-
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SÃO PAULO EM PERSPECTIVA, 10(1) 1996
rial norte-americano. Já para se igualarem os salários pagos na França ou na
Inglaterra com os da China, os primeiros teriam de ser reduzidos 30 vezes (Tavares, 1994:69).
vendo uma tradição partidária do século XIX, demonstram que esta última opção não é improvável.
12. Citado por Tavares (1994:91).
NOTAS
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
1. Para um melhor conhecimento das posições destes estudiosos, ver Reich (1992)
e Krugman e Lawrence (1994).
AMADEO, E. “Contra a inevitabilidade dos paradigmas: uma agenda de política industrial”. In: REIS VELLOSO, J.P. (coord.). O real e o futuro da economia. Rio de Janeiro, José Olympio, 1995.
2. Segundo Faux (1994), 85% das 500 empresas citadas pela Fortune adotaram
esta prática nos últimos cinco anos e 100% pretendem fazê-lo nos próximos cinco anos.
BOTSAS, E. Unemployment in the industrial countries. 1995, mimeo.
BRAGA, J.C.S. “A Financeirização da riqueza”. Economia e sociedade. Campinas, IE-Unicamp, n.2, ago.1993.
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FREEMAN, R.B. “Evaluating the european view that the United States has
no unemployment problem”. AEA Papers and Proceedings. v.78, n.2, maio
1988.
3. Citado por Faux (1994:1).
4. Para uma visão distinta do desemprego nos Estados Unidos, inclusive quanto
à duração, ver Clark e Summers (1979).
5. Estas cifras são citadas por Faux (1994:1).
6. A respeito destes fluxos de entrada e saída da PEA, ver Clark e Summers
(1979).
7. Estes autores utilizam também uma taxa de desemprego alternativa
(underemployment rate), que inclui os desempregados (segundo a definição do
Bureau of Labor Statistics), os que trabalham involuntariamente em tempo parcial (involuntary part-timers) e os “desalentados” (discouraged workers). Este
indicador correspondia a 9,7% da PEA, em 1979, e a 12,0%, em 1991 (Mishel e
Bernstein, 1993:215 e ss.).
KRUGMAM, P. “Competitiveness: a dangerous obsession”. Foreing Affairs. Nova
Iorque, v.73, n.2, mar./abr. 1994.
KRUGMAN, P. e LAWRENCE, R.L. “Trade, jobs and wages”. Scientific
American. Nova Iorque, abr. 1994.
8. Em média, os autônomos do sexo masculino auferem rendimentos equivalentes a 67% do recebido pelos empregados, proporção que se reduz para 31% no
caso das mulheres (Mishel e Bernstein, 1993:248).
MATTOSO, J. A desordem do trabalho. São Paulo, Scritta, 1995.
MISHEL, L. e BERNSTEIN, J. The State of Working America. Armonk: Economic
Policy Institute Series, 1993.
REICH, R. The work of nations. Nova Iorque, Vintage Books, 1992.
9. A este respeito, Faux (1994:10) reproduz parte de um artigo publicado no New
York Times a respeito da geração de empregos de baixa remuneração, onde o
jornalista, entrevistando um casal em que marido e mulher tinham dois empregos que lhes proporcionavam um rendimento anual de 18 mil dólares, afirmalhes que a economia americana está gerando 2 milhões de empregos por ano, ao
que o marido responde: “É claro, só nós já conseguimos quatro. E daí?”
SALM, C., “Crescimento e emprego”. In: REIS VELLOSO, J.P. (coord.). O real
e o futuro da economia. Rio de Janeiro, José Olympio, 1995.
SHAW, M. (ed.). Man does, woman is. Londres, Faber and Faber, 1995.
TAVARES, M. da C. “Ajuste e reestruturação nos países centrais: a modernização conservadora”. In: TAVARES, M. da C. e FIORI, J.L. (Des)ajuste global e modernização conservadora. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1993.
10. Este argumento traz consigo uma questão que, embora relevante, está praticamente ausente das discussões contemporâneas: para a expansão do emprego
continua sendo importante o crescimento da atividade econômica. Ver a respeito
Salm (1995), um dos poucos analistas que incansavelmente destaca esta questão, cuja dimensão se amplifica quando se discutem as perspectivas da economia brasileira.
__________ . Lições contemporâneas de uma economista popular. Rio de Janeiro, s. ed., 1994.
11. Faux (1994:8) estima que, admitindo que o nível de salários mexicano cresça a 4% a.a., seriam necessários cerca de 50 anos para atingir o atual nível sala-
WOOLLACOTT, M. “A bitter pill that offers scant relief”. The Guardian Weekly.
Londres, v.154, n.7, fev.1996.
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