HISTÓRIA DA AMÉRICA A Guerra de Secessão – Norte contra Sul As diferenças entre Norte e Sul, iniciadas desde o início da colonização inglesa na América do Norte, tornaram-se cada vez maiores durante a primeira metade do século XIX, distanciando as duas regiões cada vez mais, situação sintetizada nas palavras do historiador norte-americano Leo Huberman “...o país se chamava Estados Unidos, mas só no nome, não na realidade”. Tais diferenças datavam do período colonial e geraram dois polos que se opunham, mas que também se complementavam no processo de desenvolvimento do capitalismo norte-americano. O Norte, manufatureiro, vendia os seus produtos industriais ao Sul, agrícola e escravocrata, e deste comprava matérias primas, em especial o algodão. O problema das tarifas alfandegárias e o da expansão do escravismo alimentava a rivalidade política entre as duas regiões, que teve como consequência a Guerra de Secessão (1861-1865). 1. A Sociedade Industrial no Norte Especialmente na região da Nova Inglaterra, o desenvolvimento manufatureiro datava do período colonial, quando ali se desenvolveram indústrias de ferro, vidro, panos, além de produtos ligados à pesca e surgiram companhias de comércio e navegação, incrementando as atividades comerciais internas e externas. Essa indústria, que começou incipiente, teve um momento de grande avanço e crescimento, por ocasião das guerras napoleônicas (1805-1815) e da Segunda Guerra de Independência (1812-1814), quando as importações diminuíram e o mercado interno passou a ser abastecido pelas manufaturas locais. Por volta de 1810, a indústria do Norte, em franco progresso, beneficiou-se da abundância de ferro, carvão e energia hidráulica na região. a) O problema da mão de obra Um grave problema apresentava-se aos empresários industriais do Norte: a falta de mão de obra. Sendo a terra abundante e barata, os imigrantes europeus que chegavam à Nova Inglaterra, após ‘juntar’ alguns recursos”, preferiam ir para o Oeste, onde se tornavam pequenos proprietários trabalhando para si próprios, a trabalhar em fábricas insalubres, nas quais a jornada de trabalho durava das cinco e meia da manhã às sete e meia da noite, com dois intervalos de meia hora para café e almoço. Só se sujeitavam à condições de trabalho tão degradantes na Costa Leste, pois tinham como objetivo a conquista da própria terra. A falta de mão de obra fez com que os salários nos Estados Unidos se tornassem relativamente altos, quando comparados com os da Europa. Em algumas épocas chegavam a ser o dobro, fato que atraiu milhões de imigrantes europeus para os Estados Unidos no século XIX, além da possibilidade de tornarem-se proprietários e trabalhadores livres. Para contornar o problema da mão de obra, os empresários norte-americanos utilizaram em larga escala o trabalho de mulheres e crianças. Além disso, passaram a investir grandes capitais para financiar invenções das mais variadas máquinas e técnicas de produção, visando poupar mão de obra, ao mesmo tempo que aumentavam a produção e barateavam o preço final do produto, tornando-o mais competitivo. Em pouco tempo, os Estados Unidos tornaram-se o país onde anualmente se registrava o maior número de patentes dos mais variados inventos. b) A política tarifária A indústria do Norte tinha importantes mercados no Sul e no Oeste em expansão, e necessitava, cada vez mais, de tarifas alfandegárias1 altas que a protegessem da concorrência estrangeira, principalmente da inglesa. Os Estados agrícolas do Sul opunham-se a essas tarifas, que aumentavam o custo das mercadorias, das quais dependiam, visto terem uma economia agrário-exportadora, razão que fazia com que o Sul defendesse o livre comércio. John Randolph, político da Virgínia, falava, na década de 1830, sobre como o Sul considerava as tarifas altas: Vem a ser isto: se você, como plantador, irá consentir em pagar impostos, a fim de pagar um outro homem para trabalhar numa oficina de sapateiro, ou estabelecer uma máquina de fiação [...] Não, eu comprarei onde o artigo fabricado for mais barato; não concordarei em taxar os cultivadores do solo, a fim de encorajar os fabricantes; porque afinal de contas, obteríamos coisas piores por preço mais alto, e nós, os que cultivamos o solo, no fim pagaríamos por tudo [...] Por que pagar a um homem muito mais do que ele vale, para transformar o nosso próprio algodão em roupas, se, vendendo a matéria prima, eu posso comprar minha roupa muito mais barato, e de qualidade melhor, de Dacca? Dessa forma, o Sul aceitava plenamente as ideias de uma divisão internacional do trabalho defendidas pelo liberalismo econômico. 2. A Sociedade Escravocrata do Sul No término do período colonial, os Estados do Sul produziam arroz, fumo, anil e algodão. Existia um grande número de pequenas propriedades e a escravidão negra era pouco desenvolvida, acreditando-se que em breve estaria extinta. A produção de algodão era reduzida, uma vez que o descaroçamento era feito manualmente e tal técnica tornava muito cara a produção da fibra. Em 1793, processou-se uma revolução na produção algodoeira: foi inventado um descaroçador mecânico que diminuía, de forma radical, a utilização de mão de obra naquele trabalho. O tecido de algodão, a partir de tal invento, iria tornar-se extremamente barato e de largo consumo. Em poucos anos, as plantações de algodão passaram a dominar os Estados do Sul. As pequenas propriedades e as culturas tradicionais cederam lugar a um sistema de plantation, isto é, grandes fazendas monocultoras, utilizando mão de obra escrava, produzindo e exportando algodão para a Inglaterra e para os Estados do Norte. A empresa monocultora de algodão, utilizando técnicas extremamente simples, produziu uma rápida expansão do escravismo do Sul. A empresa monocultora se caracterizava em um tipo de exploração extensiva do solo, que tendia a exauri-lo, a esgotá-lo rapidamente, tornando-o improdutivo. As terras dos 1 Taxas cobradas sobre os produtos importados por um país, com o objetivo de encarecê-los, desestimular a importação e estimular a produção e consumo internos. Estados sulistas passaram a valer cada vez menos, como decorrência do seu esgotamento e, ao mesmo tempo, tornou-se frequente o “espetáculo” de grandes fazendas abandonadas, enquanto o “rei algodão” expandia-se à procura de novas terras, encontradas nos territórios do Oeste. Nos Estados de solo esgotado, passou a existir uma nova atividade econômica, que era a venda de escravos para as regiões de expansão agrícola. Muitos desses velhos Estados passaram a ser “Estados criadores”, isto é, criavam negros escravos para vendê-los. Tal atividade tornou-se extremamente lucrativa, pois o preço dos escravos aumentava continuamente desde que, em 1808, o Congresso norte-americano havia proibido o tráfico negreiro do exterior para os Estados Unidos2. Os principais Estados criadores eram: Virgínia, Maryland, Carolina do Norte, Kentucky, Tennessee e Missouri. Para eles, bem como para os outros Estados do Sul, passou a ser fundamental que a escravidão se expandisse para os territórios do Oeste. Para os Estados criadores, quanto mais Estados se tornassem escravistas mais lucros teriam com o comércio interno de escravos e, para o Sul, significava mais força política e maior poder político a nível nacional. 3. Rivalidade Norte-Sul O Sul dominou a política norte-americana durante a primeira metade do século XIX. Os sulistas eram maioria no Senado e elegeram um grande número de presidentes. No entanto, a supremacia dos sulistas começou a ficar ameaçada pelo crescimento da riqueza e da população dos Estados do Norte. O crescimento populacional deu ao Norte a maioria na Câmara dos Deputados, onde o número de representantes era proporcional ao tamanho da população de cada Estado. Acrescentava-se ao aumento do poder político do Norte a sua supremacia econômica. O Sul, apesar de sua riqueza agrícola, dependia economicamente do Norte, para onde exportava grande parte do seu algodão e de onde recebia produtos manufaturados. Um político sulista chamado Helper resumia o relacionamento entre as duas regiões da seguinte forma: A verdade é, entretanto, que a cultura do algodão é de valor muito pequeno para o Sul. A Nova Inglaterra 3 e a Inglaterra Velha, usando de sua sagacidade e empreendimento bem superiores, fazem-no reverter em seu benefício. O algodão é carregado em seus navios, fiado nas suas fábricas, tecido nos seus teares, segurado nas suas agências de seguros, devolvido a nós, novamente nos navios nortistas, e, como acréscimo do duplo frete e da manufatura, é vendido a nós sulistas por um preço bem alto. De todas as partes interessadas no transporte e manufatura do algodão, o Sul é a única que não tem lucro. O antagonismo entre as duas regiões não parou de crescer durante a primeira metade do século XIX, principalmente por causa de quatro problemas: as tarifas alfandegárias, a utilização de verbas federais, a escravidão e a criação dos novos Estados. a) Problema com as tarifas O debate sobre as tarifas assumiu um aspecto mais radical em 1832, quando a Carolina do Sul ameaçou separar-se da União, exigindo tarifas baixas4. Essa primeira ameaça de secessão foi evitada mediante um acordo no Congresso, pelo qual haveria baixa progressiva das tarifas nos dez anos seguintes. b) A questão dos gastos federais Para o Norte era fundamental a construção de estradas de ferro e canais, de forma a escoar a sua produção manufatureira, especialmente para os Estados do Oeste. Essas obras, pela sua grandeza, deviam ser financiadas pelo governo federal e sofriam oposição dos representantes do Sul no Congresso, pois, alegavam eles, tais gastos beneficiavam apenas o Norte. 2 Apesar da proibição do tráfico, a escravidão continuou no país até 01.jan.1863, quando foi abolida por decreto do presidente Abraham Lincoln, mas só acabando definitivamente após o final da Guerra de Secessão com a derrota do Sul. 3 Estados do Norte ou Nova Inglaterra, na época formado por Connecticut, Massachusetts, New Hampshire e Rhode Island. 4 Leia com atenção as palavras do político sulista Helper e você entenderá uma das causas da insatisfação do Sul em relação ao Norte. Para os Estados sulistas, a manutenção das tarifas baixas daria a eles liberdade de comprar dos países europeus e diminuir sua dependência do Norte. c) A escravidão e novos Estados A grande maioria da população do Norte não era contra a escravidão. Aceitavam o escravismo no Sul e apenas não desejavam a sua expansão para os Estados que eram criados no Oeste, à medida que o incentivo do governo federal pela ocupação das novas terras, traziam mais e mais imigrantes europeus para os Estados Unidos. Existiam no Norte, partidários da abolição organizados em várias sociedades e realizando intensa pregação antiescravista. No entanto, esses abolicionistas eram encarados, pela maioria dos nortistas, como perturbadores da ordem social. O confronto Norte e Sul, no tocante à escravidão, ligava-se ao problema dos novos Estados. Para o Sul, era fundamental que a escravidão fosse permitida nos Estados do Oeste, porque dessa forma, manter-seia alto o valor dos escravos5. Além disso, existia o problema da representação no Congresso, especialmente no Senado, onde os sulistas ainda possuíam maioria. Caso a escravidão fosse permitida nos novos Estados, estes possuiriam uma base econômica semelhante à do Sul, e os seus representantes tenderiam a fortalecer o bloco sulista no Congresso. No caso de possuírem uma economia baseada no trabalho livre, os novos Estados tornar-se-iam aliados do Norte. 4. Crises que Antecederam a Guerra Desde a década de 1820, as tensões entre Norte e Sul aumentavam de forma incessante, em alguns momentos, a forma de conflitos agudos que poderiam levar a uma guerra. - O Compromisso do Missouri, 1820 A primeira grande crise desencadeou-se em 1822, quando o território do Missouri, onde existia escravidão, foi elevado à categoria de Estado, aumentando a força do Sul no Congresso. Os representantes do Norte não queriam aceitar o novo Estado, e os debates foram extremamente acirrados. Chegou-se finalmente a um acordo, o chamado Compromisso do Missouri, baseado nos seguintes pontos: 1º) era criado o Estado do Maine6, onde não existia escravidão; 2º) a partir daquele momento, os Estados seriam criados aos pares: um escravista e outro livre, tendo sempre como referência o paralelo 36º30’, sendo que ao norte deste paralelo, todos os estados seriam não escravistas e ao sul, escravistas; 3º) com exceção do Missouri, a escravidão não seria permitida a partir do paralelo 36º30’. O Compromisso do Missouri manteve uma certa paz entre os Estados durante dez anos. Em 1832, a Carolina do Sul ameaçava separar-se da União por causa do problema das tarifas. A crise de 1832 foi resolvida, mas as tensões continuaram a aumentar. No Norte, mesmo sofrendo forte oposição, crescia a agitação abolicionista com a criação de serviços de proteção aos negros fugidos do Sul. Crescia também a luta pela aprovação de tarifas que protegessem a indústria. No Sul, ganhava grande número de seguidores a ideia de que a secessão era inevitável, pois acreditava-se que as ideias predominantes e os interesses defendidos no Norte arruinariam os Estados sulistas. Os novos territórios, anexados ao México pela guerra de 1848, só fizeram aumentar a polêmica sobre a escravidão no Oeste. No mesmo ano, surgiu no Norte, o Partido do Solo Livre, visando impedir a propagação do escravismo. A Califórnia contribuiu para acirrar os ânimos quando, em 1849, organizou-se como Estado e proibiu a escravidão em seu território, desequilibrando a balança política em favor do Norte. 5 Seguindo a lógica da Leia da Oferta e da Procura, quando maior a procura por escravos, mais os Estados criadores ganhariam, pois a procura por esta “mercadoria” (mercadoria humana) era sempre maior que a oferta. 6 A partir da divisão do Estado de Massachusetts. - O Compromisso Clay, 1850 O Compromisso de 1850 ou Compromisso Clay, foi um conjunto de iniciativas legislativas, que em 1850 foram firmadas tentando resolver uma série de tensões surgidas com a colonização da Califórnia, impulsionada pela chamada febre do ouro, e pela anexação de territórios depois da intervenção estadunidense no México (1846-1848), que deram lugar a conflitos territoriais e à discussão sobre a legalidade da escravidão nos novos Estados. Dentre as diversas leis fruto do citado compromisso destacam-se: 1º) a criação da Califórnia como um estado sem escravidão, apesar de estar localizada na região Sul, onde segundo o Compromisso do Missouri (1820), deveria ser permitido o trabalho cativo; 2) a lei do escravo fugido, segundo a qual um negro fugitivo em um estado sulista poderia ser perseguido em um estado nortista, podendo ser reclamada sua captura por uma simples declaração de seu proprietário, ficando as autoridades locais obrigadas na perseguição e captura. Outras leis se referiam à criação, delimitação de fronteiras, e existência de escravos nos novos estados do Texas e Novo México. No ano de 8154, políticos do Norte fundavam o Partido Republicano, que possuía no seu programa o objetivo de não permitir a escravidão no Oeste. No mesmo ano, desencadeou-se no Kansas, uma luta armada entre escravistas e abolicionistas. O conflito terminou sem vitória de qualquer dos lados, mas era um indício de que o apelo às armas substituiria a polêmica dali para frente. 5. A Guerra de Secessão (1861-1865) O clima que precedeu as eleições presidenciais de 1860 foi extremamente tenso, com os sulistas exigindo que a escravidão fosse aceita nacionalmente e que se pusesse fim às atividades abolicionistas no Norte. Nas eleições, o Partido Democrático e o Sul dividiram-se entre dois candidatos, possibilitando a vitória do republicano Abraham Lincoln. Filho de uma família de pioneiros do Illinois, o advogado Abraham Lincoln, como boa parte da população do Norte, não se opunha à escravidão no Sul. Como presidente, tentando evitar a guerra com o Sul, ele declarou: “Não sou, nem nunca fui, a favor de que se chegue, seja de que maneira for, à igualdade social e política das raças branca e negra”. No entanto, Lincoln era radicalmente contra a escravidão nos novos Estados, e a sua eleição representava uma derrota definitiva para o Sul, na questão da expansão do escravismo. Esperava-se que ele usasse do poder presidencial para impedir definitivamente o surgimento de Estados escravistas no Oeste. a) O desenrolar da guerra Conhecidos os resultados das eleições, em dezembro de 1860, a Carolina do Sul declarou-se separada da União, apregoando o lema: “Resistir a Lincoln é obedecer a Deus”. Logo depois, em fevereiro de 1861, sete Estados do Sul fundaram os Estados Confederados da América, elegendo Jefferson Davis o seu presidente. No dia 12 de abril de 1861, tropas confederadas atacavam o Forte Sumter, uma guarnição federal em frente ao porto de Charleston. Desencadeava-se um conflito que, depois de quatro anos, terminou pela total derrota do Sul. Os sulistas obtiveram alguns êxitos iniciais, mas terminaram derrotados pela superioridade populacional, industrial e financeira do Norte. A população nortista era de 22 milhões, enquanto a do Sul mal chegava a 9 milhões, com mais de 4 milhões de escravos. O Norte, industrializado, fabricava os seus armamentos, inclusive os navios que bloqueavam o Sul, impedindo que este recebesse do exterior, principalmente da Inglaterra, os armamentos de que necessitava. Em meio à guerra, no dia 1º de janeiro de 1863, a escravidão foi abolida nos Estados confederados por decreto do presidente Lincoln. Tal medida, que Jefferson Davis declarou ter sido “o ato mais execrável da história humana...”, impediu qualquer conciliação, levando os sulistas a combater até o esgotamento total de suas forças. Em abril de 1865, o comandante dos exércitos confederados, general Robert Lee, rendeu-se, na aldeia de Appomatox, ao general Ulisses Grant, comandante das forças da União, terminando a guerra. b) Os resultados da guerra Sobretudo para o Sul, a guerra teve resultados trágicos: 260 mil mortos, um número ainda maior de feridos e estropiados, devastação e ocupação militar. A perda dos escravos aprofundava a ruína econômica. O poder da União foi extremamente fortalecido e permaneceu nas mãos da burguesia do Norte. Foi imposto ao país um sistema de tarifas protecionistas altas, que permitiu um espetacular avanço da indústria do Norte nos anos do pós-guerra. Nesse momento desenvolveu-se também o grande negócio do capitalismo norte-americano e, particularmente, dos empresários do Norte: a construção de estradas de ferro, que recebeu do governo federal toda sorte de ajuda, principalmente terras e dinheiro. Começava na História dos Estados Unidos, o período que Mark Twain denominou “a época paurea”, também chamada “a era dos barões gatunos”.