EDUCAÇÃO DA PAZ

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2 EDUCAÇÃO DA PAZ?
Há dois mil anos, em nossa civilização, em todas as cátedras, em todas as cidades, em todos os povoados,
nós ouvimos pregar o amor, o amor, o amor. .. É a mensagem central e imperiosa da religião cristã. E, no
entanto, foi inoperante em nossa história que, de todas as histórias que a humanidade conheceu, é uma das mais
carregadas de ódio, de violência, de desprezo. A mensagem de amor não estaria, portanto, ultrapassada?
Infelizmente, ela passa bem demais! Contorna todas as regiões sombrias que, justamente, favorecem o oposto
do amor, e isso no próprio centro da dita religião que incitou cruzadas particularmente assassinas e odiosas,
como as dos albigenses, entre outras.
Da mesma forma, a mensagem de paz passa bem demais. Paz, paz, paz, a aceitamos e, infelizmente
também, quanto mais se repetem essas palavras, mais elas se enfraquecem e mais se diluem. Todos nós
sabemos que devemos lutar diante de um primeiro paradoxo: que a aspiração à paz e ao desarmamento, a
vontade de paz, não podem se fechar na palavra "pacifismo". Além disso, freqüentemente escutamos a
expressão bastante sintomática do "combate" pela paz, o que significa que a paz necessita do mesmo
vocabulário, por assim dizer, que seu contrário. Portanto, eu queria, por algumas indicações, por algumas
sondagens insuficientes, sublinhar a complexidade de um problema tão contemporâneo, mas também histórico,
sociológico, antropológico.
Quando digo complexidade, refiro-me à multiplicidade dos componentes e das dimensões do problema, a
todas as incertezas que com
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portam, à dificuldade de tratar de uma forma "racional" todos os seus aspectos, separando-as umas das outras.
Nós também encontramos a complexidade do problema no princípio da etologia da ação: infelizmente, uma
ação não obedece às intenções e à vontade de seus promotores, mas, uma vez que ela entra no circuito da vida
política e social, experimenta interações e retroações e, finalmente, pode se orientar no sentido contrário da
intenção de seus promotores. É o que se pode chamar de "efeito bumerangue": você lança o instrumento apontando para um alvo, mas, na realidade, o bumerangue volta para você, que o recebe na cabeça. Isso é o que se
conhece atualmente como" efeito perverso", ou seja, um efeito nefasto, inesperado, que resulta de uma ação
que se queria benéfica. É o que, historicamente, aconteceu aos movimentos chamados "pacifistas", anteriores à
Segunda Guerra Mundial. A questão que se levanta, então, é esta: por que o pacifismo mostrou-se
historicamente débil e contra-eficiente?
Antes de mais nada, para poder se desenvolver e para ser eficiente, o pacifismo requer não somente uma
poderosa força de opinião, mas a simultaneidade e a sincronicidade dos movimentos nas nações adversas.
Essas condições quase ideais pareciam preenchidas, antes da guerra de 1914, quando existiam uma socialdemocracia alemã e um partido socialista francês muito fortes. Esses partidos conduziam uma ação intensa e
elucidativa contra a guerra e pela paz. Ambos eram animados pela idéia internacionalista e, no entanto, bastaram alguns disparos para que essas massas pacíficas, pacifistas, se reencontrassem, de ambos os lados, presas
na histeria da guerra. As condições de sincronismo, de simultaneidade e de compacidade do movimento não
foram, portanto, suficientes. Algo de mais obscuro, de não descoberto, agitou-se no próprio espírito dos
sociais-democratas alemães e dos socialistas franceses, que se colocaram, tanto uns quanto os outros, na união
sagrada, na defesa visceral de suas nações, apresentadas como vítimas do ignóbil inimigo agressor.
Ora, os anos que precederam a Segunda Guerra Mundial carregavam um desequilíbrio capital. O
pacifismo não podia, absolutamente, se desenvolver na Alemanha hitlerista, um Estado totalitário, ao passo
que, na França, podia fazê-Io livremente, de maneira que uma das conseqüências dessa situação foi a
debilitação da possibilidade de defesa da França e de seus aliados diante de uma agressividade crescente e
guerreira da Alemanha hitlerista. Eis um caso típico de
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etologia da ação em que o sentido final de uma ação se inclina para seu contrário. Evidentemente, tudo isso nos
mostra que o problema da luta pela paz está ligado às liberdades e aos direitos do homem, pois, se as
liberdades políticas não existem, a paralisia total da ação pela paz é sua conseqüência. Além disso, sabemos
também que o problema da paz não pode se deixar encerrar na palavra "paz". Existem problemas de submissão
e de liberdades tais como, em um dado momento, a idéia de paz significa aceitar a subordinação. Ora, eis aqui
um paradoxo histórico no qual mergulhamos há muito tempo.
Ess~ introdução rápida queria indicar as dificuldades da idéia de
paz que, de um lado, não deve se fechar em si mesma, no pacifismo integral, e, de outro, não pode se diluir.
Porque, se ligamos ao problema da paz o problema da liberdade, da fome etc., diluimos o problema da paz: eis
aí a nossa dificuldade. Como não encerrar essa noção de maneira abstrata e como não a diluir no conjunto dos
problemas mundiais que nos assaltam? Eis aí nosso problema de pensamento.
Antes de chegar a esse problema de pensamento, eu queria, no entanto, fazer algumas considerações
antropológicas. Inicialmente, porque falamos aqui de problemas de pesquisa, de educação e de ensino e que,
efetiva e absolutamente, temos necessidade de uma consciência do que quer dizer a noção de homem. Com
efeito, o problema da guerra é também o problema da relação com o outro, o outro concebido individual e
coletivamente como o estrangeiro; ele é não somente o estrangeiro, mas o inimigo.
O ponto cte vista antropológico nos desvela o extremo da diversidade, mas também a espantosa unidade
da espécie humana. A hipótese do tronco único de homo sapiens, que se situaria na África Austral e que teria
se espalhado por todo o planeta, não está absolutamente assegurada. Entretanto, a totalidade das
transformações genéticas, anatômicas, cerebrais etc., que levaram da humanização à humanidade, puderam se
produzir de maneira diversa. Em todo o caso, o que é impressionante na humanidade não é simplesmente sua
extraordinária unidade anatômica, a despeito das cores e das aparências diferentes, é sua excepcional unidade
cerebral. Conseqüentemente, temos de nos defrontar com o mesmo tipo de cérebro, qualquer que seja a raça e
qualquer que seja a civilização. Os cérebros de Einstein e de Mozart já estavam presentes, há 50.000 anos,
no homo sapiens. Nós podemos dizer, portanto, que a humanidade é alguma coisa que se
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"diasporou" e que começa a reconhecer seus membros dispersos, desde a descoberta da América, de nossa
entrada na era planetária, desde a descoberta da finitude e da esfericidade da Terra.
Evidentemente, essa consciência de nossa origem e de nosso destino comuns deve ser uma consciência
firme. Digo firme e enraizada, pois todo o problema, no que diz respeito à paz, à fraternidade, à igualdade etc.,
é transformar uma consciência epifenomenal, epicerebral, vacilante e oscilante em uma consciência firme e
profunda, que desce às regiões mais enraizadas de nosso ser, de nosso sentimento e de nosso pensamento. É
viver um sentimento de fraternidade humana. É esse o problema. Não se trata de saber o que todo o mundo
sabe, trata-se de como saber e como torná-Io operacionaL
Um outro ponto importante diz respeito à cultura humana. Desde a pré-história, nas sociedades de
caçadores-apanhadores, nós podemos pensar que se realizaram sacrifícios, atos de canibalismo, talvez crimes,
mas podemos pensar também que as guerras eram extremamente raras e, de qualquer maneira, muito
ritualizadas, pois o fenômeno da guerra se desenvolve com as chamadas sociedades históricas. Essas
sociedades históricas compõem-se de um Estado (que não existia nas pequenas sociedades dos caçadoresapanhadores) e, naturalmente, de um exército especializado. Foi lá que apareceu a agricultura que conduziu ao
armazenamento dos recursos alimentares, que se tornaram um espólio para aqueles que deles são desprovidos.
Surgiram povoados e cidades (isto é, concentração de espólios e de presas) e, com eles, a possibilidade de pôr a
mão em territórios que encerrassem riquezas de toda sorte. A guerra, se pode existir sob formas esporádicas e
menores em sociedades de caçadores-apanha dores, ganha formas sistemáticas e maiores que marcam toda a
história humana a partir da formação dos Estados e das nações. Isso quer dizer que nós saberíamos ver o fator
primeiro e original das guerras na agressividade humana. Está aí um tema sobre o qual se debateu muito no fim
dos anos setenta, devido a algumas concepções etológicas. Dizia-se: o homem é um animal predador, é um
caçador, mas, uma vez que cessou de ser predador e caçador, torna-se agressivo no interior do mundo humano.
Ora, a agressividade animal está profundamente ligada a necessidades vitais. Jamais se viram lobos atacarem
presas além de suas necessidades; ademais, as sociedades de lobos são extremamente civilizadas e, se de fato
existem rivalidades entre machos, so
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bretudo na partilha das fêmeas, elas se resolveriam por ritos de apaziguamento. Nossas sociedades humanas
também trazem códigos, ritos de apaziguamento, para inibir uma agressividade ou uma inquietude potencial, e
nós as exercemos todos os dias estendendo a mão ao nosso interlocutor, dizendo-lhe: "Como vai? A saúde vai
bem?". Em outras palavras, vivemos continuamente entre mil pequenos ritos de apaziguamento que,
infelizmente, não atenuam a agressividade em grandes cidades como Paris. Mas o problema em si da pulsão
agressiva humana não é o problema central. Ou, antes, passa a sê-Io no âmbito de nossas sociedades, onde
estão os Estados-nações que, por assim dizer, se tornam seus estimuladores e incitadores. É um problema
muito importante, uma vez que, finalmente, o Estadonação é uma instância dominante, dominadora, que não
concebe absolutamente nada acima de si mesma. O drama dos Estados-nações éque, efetivamente, eles não
conhecem outra regra além da sua nem outro direito além do seu! Eles são regulados apenas pela intimidação
mútua que praticam uns para com os outros. Nós temos de nos haver com o que um psico-antropólogo italiano
chama de "monstros paranóicos" .
Essa espécie de onipotência do Estado-nação, fenômeno histórico que se manifesta desde a Antigüidade,
vai ganhar formas cada vez mais desenvolvidas nos tempos modernos. O que vão trazer os tempos modernos?
O que é a nação moderna, tal como surgiu na França, na Inglaterra, na Espanha, em seguida, em outros países
europeus e, enfim, no mundo inteiro? Para o historiador Toynbee, é um sistema que cria sua própria religião. O
Estado-nação é uma substância matri-patriótica. Digo "matri-patriótica" porque encontramos, nesse termo, a
substância mítica da mãe, do amor que se deve à mãe, e a substância mítica do pai, da obediência que se deve a
ele, transferindo para uma entidade coletiva de milhões de indivíduos os laços de
apego que sentimos quase visceralmente apenas por nossos pais, nossos irmãos, nossos filhos. Além disso, a
temática da religião nacional manifesta-se no "Allons enfants de ia Patrie";1 somos irmãos, filhos da mesma
mãe Pátria, e devemos obedecer ao nosso Estado-pai, a fim de protegê-Io contra o inimigo hereditário ignóbil.
A França venceu, as
1. Referência ao primeiro verso do hino nacional da França. (N. T.)
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sim, vários séculos de inimigos hereditários: ingleses, depois alemães. Foi no século passado que se manifestou
a idéia internacional que tentava pôr um freio na religião do Nacionalismo. O sonho era até mesmo abolir o
Estado. O enfraquecimento do Estado é uma grande idéia do socialismo, mesmo marxista. Infelizmente, o
internacionalismo, o mundialismo, o federalismo internacional fracassaram. No decorrer das últimas décadas,
muitos de nós tiveram uma atitude bastante ambígua em relação aos Estados-nações: sendo partidários da
emancipação dos povos colonizados, das nacionalidades dominadas pelos grandes imperialismos ocidentais,
entre eles o francês, nós estávamos favoráveis à constituição de nações e de Estados emancipados. Mas,
infelizmente, uma vez emancipados, esses Estados, essas nações se tornaram dominadores e suscitaram os
mesmos tipos de problemas que nossa história conheceu: problemas de conflitos de fronteiras, problemas de
etnias e de secessão de tal etnia ou de tal religião no que diz respeito às etnias ou religiões dominantes etc. Se
forças supranacionais de congelamento de conflitos não tivessem existido, guerras seriam constantemente
deflagradas nos territórios recentemente libertados.
Falei da religião nacional: assim como eu penso que é completamente natural que exista um sentimento
comunitário para pessoas que participam da mesma cultura, da mesma linguagem, da mesma herança histórica,
de tradições, de literaturas, de poesias comuns, do mesmo modo a afirmação etnocêntrica da superioridade de
sua cultura, de sua língua, de seu pensamento é uma coisa a se repudiar totalmente, se quisermos ter
consciência do problema da guerra e da paz.
Há também o problema da ideologia, um termo de que se fala muito. O que se pode entender por
ideologia? Para mim, uma ideologia é um sistema de idéias e nada mais. O que em geral se chama, de maneira
depreciativa, de "ideologia", é o que eu chamaria de "doutrina". O que é uma doutrina? É um sistema de idéias,
porém, fechado em si mesmo, que encontra, em si mesmo, sua própria confirmação e que exclui qualquer
possibilidade de outra verdade que não a sua. O que é uma teoria? Pode ser o mesmo sistema de idéias, mas
que aceita eventualmente ser refutado nesse ou naquele ponto. Uma teoria está sempre aberta: é próprio de uma
teoria científica, sempre pronta a se deixar refutar por argumentos, por experiências, por observações lógicas.
Já uma doutrina, esta é sempre invulnerável, ela tem sempre
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razão porque se refere, apesar de tudo, à palavra sagrada do pai fundador e porque encontra em si mesma sua
própria confirmação. E ainda aí tocamos no problema do ensino e da laicidade. No meu entender, a verdadeira
abertura não se situa somente no termo tolerância que, enfim, pode ter se tomado extremamente insípido, mas
na não-pretensão ao monopólio exclusivo da verdade. Ele está na acepção do jogo, da confrontação e da
oposição das idéias ou crenças que têm como única regra a recusa do esgotamento físico e moral do adversário.
Tão logo uma religião, uma nação, um nacionalismo, uma ideologia aceitem essa regra do jogo da competição
ideológica, religiosa ou outra, temos um grande progresso. Na minha opinião, a noção de laicidade responde à
vontade de instaurar uma regra do jogo para que as teorias possam se confrontar. Em outras palavras, o
problema aqui não é unificar em uma teoria comum aquilo que ambas podem trazer para a paz, para a guerra,
para o homem etc. O problema é instaurar uma regra do jogo para que haja competição entre essas contribuições. Além disso, não podemos, e não devemos, jamais eliminar os conflitos, os antagonismos da vida
intelectual e da vida social. O que é importante é aceitar uma regra do jogo, como existe no futebol, mesmo se
os jogadores dão rasteiras por trás.
Agora, há o problema da complexidade própria da nossa realidade humana. Se o homem é
potencialmente um animal agressivo, sua agressividade desenvolve-se apenas em condições culturais, sociais e
históricas. Assim, é a hipercivilização urbana que desenvolve uma agressividade desconhecida no interior das
comunidades arcaicas. Ademais, entramos na "era planetária" no século XVI, mas estamos sempre na "idade
do ferro planetária". Interações e interdependências formam um tecido cada vez mais estreito entre todos os
constituintes do planeta. Existe uma solidariedade fantástica entre um poço de petróleo no Oriente-Médio e a
própria vida nas potências européias, entre Norte e Sul, Leste e Oeste. Entramos numa época de intersolidariedade real em todo o planeta, e há uma possibilidade de organização federativa que os sistemas de
comunicações permitem, que nos permitem comunicar em segundos com qualquer ponto da terra, e
possibilitam, de pronto, uma organização federativa do planeta Terra. Porém, ao mesmo tempo, desencadeiam
forças bárbaras, racismos, nacionalismos, explorações, servilismos etc. Estamos, portanto, na idade de ferro
planetária, uma época agônica, tomando a palavra agonia no senti
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do mais radical, primeiro, agon, um conflito interior tremendo, em que não sabemos se se trata de uma agonia
de nascimento ou de morte. Todo fenômeno de nascimento é agônico, provoca dores terríveis. Efetivamente,
nós nos encontramos numa época de nascimento possível de um mundo que, infelizmente, não chega a nascer.
O drama de nosso tempo é a humanidade que não chega a nascer enquanto humanidade, nesta esfera planetária.
Isso está ligado a uma outra tragédia: contrariamente ao que crêem muitas pessoas, não estamos de modo
algum no momento do cumprimento último do saber, da onisciência, da razão triunfante, do conhecimento
generalizado da natureza, mas na barbárie do espírito humano; nossa ciência apenas começa; mal começamos a
compreender os espantosos mistérios do universo, do cosmos, da vida, e conhecemos ainda muito maio que é o
homem e o que é a sociedade. Estamos, portanto, efetivamente, na pré-história da mente humana.
Dito isso, vamos aos nossos problemas contemporâneos e tomemos um exemplo bastante interessante, o
dos países da Europa, cujos conflitos provocaram as duas guerras mundiais desse último século. Desde 1945,
esses formidáveis chauvinismos e agressividades nacionais, essas fontes de conflitos, atenuaram-se de uma
maneira consideráveL Essa regressão dos chauvinismos nacionais pode parecer um fenômeno positivo e é. A
educação teve aí um papel muito pequeno; os intercâmbios, o turismo igualmente, mas um outro elemento, este
inquietante, esteve em jogo: o inimigo locomoveu-se, a ameaça também.
Desde o surgimento das armas nucleares e o desenvolvimento das duas superpotências, o verdadeiro
problema para os países europeus não é mais a pretensão da Alemanha em relação à Alsácia-Lorena, ou os
conflitos entre os pescadores bascos e os pescadores franceses. Tudo o que antes era motivo de guerra, como
uma bofetada dada em um embaixador ou um telegrama falsificado, desapareceu completamente. É que a
ameaça não é mais uma ameaça de fronteira, vinda do
vizinho; a ameaça é difusa; a ameaça é nuclear; a ameaça é ideológica; ela vem das relações entre as duas
superpotências e da presença dos foguetes, ao mesmo tempo, russos (5520) e americanos (Pershing) em solo
europeu.
Como fenômeno histórico, as guerras entre as nações tornaram-se cada vez mais cruéis, uma vez que têm
como objeto as populações e
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não mais apenas os exércitos. Não esqueçamos o papel dos bombardeios durante a Segunda Guerra Mundial.
Somos desse século que viu nascer o totalitarismo, forma nova de organização da sociedade. Depois de 1945,
vimos surgir o exterminacionismo. Totalitarismo e exterminacionismo desencadeiam um duplo
desapossamento do cidadão no que diz respeito à política. Em um Estado totalitário, não hámais cidadãos, estes
não podem influir diretamente na política, por um voto, por uma ação, por um artigo de jornal. Porém, o
exterminacionismo, inclusive nos países democráticos, ou mais ou menos democráticos, ele nos despoja
totalmente da estratégia. Despoja até mesmo os parlamentos: a qualquer instante, o presidente pode apertar o
botão vermelho. Eis-nos, portanto, despossuídos.
Anteriormente, nós, cidadãos, dispúnhamos de uma capacidade estratégica, designada como" café do
comércio"; podíamos nos encontrar, discutir uma maneira não menos pertinente do que aquela das estratégias
profissionais. O cidadão estava na estratégia. Agora, estamos completamente despossuídos, visto que, pelo viés
dos computadores, as coisas escapam ao cidadão. Entramos, então, em um paradoxo termonuclear: há aumento
estatístico dos riscos de uma guerra nuclear, uma vez que as armas se multiplicam, se generalizam, se
miniaturizam; porém, ao mesmo tempo, diminuição do risco de uma guerra mundial de 1945 a 1985. O fator
positivo foi a aproximação do nada, a consciência do nada, o pavor, mas o pavor se deu, infelizmente, no
âmbito dos chefes das superpotências, de tal maneira que essas armas eram bastante difusas e ameaçavam
biologicamente eles próprios. Creio que chegamos ao fim dessa era providencial, porque as armas atômicas
táticas se multiplicam. Elas podem entrar nos quadros de uma guerra tida como "normal"; de sua parte, os
mísseis alcançam uma precisão tal que podem atingir um alvo a alguns metros e, em breve, a alguns
centímetros. Assim, a ameaça difusa, generalizada, da arma termonuclear torna-se uma ameaça cada vez mais
precisa, manipulável e localizada, de maneira que nossa imunologia relativa vai cessar. O importante é o pavor.
Os chefes de Estado estão apavorados com a idéia de que eles próprios poderiam sofrer as conseqüências desse
aniquilamento. Nós não vivemos o bastante esse temor, essa presença do nada, nós o exorcizamos.
Eu queria proceder a algumas rápidas conclusões sobre o problema do ensino. Este está desarmado diante
da realidade da nação.
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É impressionante que não exista uma teoria da nação desde os grandes pensadores do século XIX, como Renan
ou como Fichte. A sociologia, a ciência política, o marxismo são muito pobres na nação. É necessário fazer a
teoria da nação. É preciso pensar a realidade da nação para compreender o que é o Monstro paranóico do
Estado-nação. Além disso, na agressividade nacional ou racial, há um problema psicanalítico: o de nossa
relação com o outro; é nossa aptidão para perceber, em certas condições, o outro como inimigo, de sentir nele a
ameaça: é o que, aconteceu historicamente, quando o alemão veio a ser o inimigo que nos ameaçava em 1914 e
vice-versa; é o que ocorre a partir do momento em que se sente a fácies norte-africana como uma ameaça
potencial.
Há um problema de civilização extremamente significativo. O drama é que não se pode abstrair o
problema das relações internacionais do problema das relações de si com o outro, e eu diria até de si consigo
mesmo. Existe igualmente o problema supranacional. Já que não teremos consciência de uma solidariedade
supranacional, tudo o que podemos fazer é bater os pés. Infelizmente, o exemplo histórico nos mostra que, até
o presente momento, as solidariedades se construíram "contra": a solidariedade francesa formou-se contra
inimigos que ameaçavam a vida da França. Ora, se a humanidade se unisse, contra quem iria ela? Você me
dirá: contanto que cheguem extra-terrestres ameaçadores! Mesmo assim, eu não o desejo.
Pela primeira vez, devemos visar a uma solidariedade" a favor" . É um salto mental extremamente difícil.
Milhares de coisas po
dem ser consideradas. Poderíamos trocar manuais de história entre nós. A cultura nacional é algo de muito
profundo que se aprende na escola, com tudo o que ela tem de emocionante, a identificação com os heróis e os
mártires da Nação, com Vercingetorix, com Joana d' Arc, etc. Ao mesmo tempo, porém, ela está carregada de
exclusivismo, de etnocentrismo. É no nível elementar da escolaridade, do aprendizado da história, que há
alguma coisa a se fazer e de múltiplas formas. Seria necessário elaborar uma história européia, e eu diria até
mesmo uma história mundial. Porque a história, como sabemos hoje, apareceu há 10 mil anos, como
conseqüência de uma evolução pré-histórica justamente humana. Nós devemos reimplantar nossas histórias em
algo de mais profundo que é a evolução antropológica.
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o problema da paz, portanto, não é jogado unicamente no território conceitual da paz. Ele é
multidimensional. Não se deve esquecer que o homem é também um ser de loucura, de furor e de erros. Nós
sabemos que foi também a evolução histórica da civilização européia que engendrou a era planetária e que nos
trouxe o totalitarismo e o exterminacionismo.
Dizer isso tem o efeito sinistro de desencorajar meus ouvintes. Mas aqueles que experimentam o
desencorajamento são os que procuram o que jamais será dado, ou seja, a chave universal, a palavra-mestra, a
fórmula de saudação. Eles devem ser salutar e totalmente desencorajados. Creio que as grandes
transformações, as grandes revoluções são o fruto de conjunções, de associações, de miríades de ações, cada
uma míope, cada uma trabalhando em um campo limitado, mas que, em um dado momento, se organizam e
constituem uma nova unidade. Foi, enfim, dessa maneira que nasceu a vida. Quando moléculas de toda espécie
se reuniram, constituíram uma nova unidade. Tudo isso não depende de nós, não temos o segredo, não temos a
fórmula do futuro; cada um de nós deve, entretanto, trabalhar em nosso domínio, em nosso rasto, considerando
que os esforços dos outros não são antagônicos, mas complementares em relação aos nossos. Acredito que isso
não tem nada de debilitante e de desencorajador; ao contrário. Isso nos impele ao trabalho que seja mais
apaixonante: a busca de uma complexificação de nossa forma de pensamento e de uma consciência
antropológica, ou seja, a idéia de uma política do homem, de uma política planetária. Eis, portanto, esse problema diante de meus olhos, múltiplo e um, um verdadeiro nó górdio.
Evidentemente, o problema que se coloca a todos os educadores é o problema que tinha levantado Karl
Marx em uma famosa tese, a saber: "Mas quem educará os educadores?" .
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