TEXTOS PROJETO 3

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TEXTOS PROJETO 3
TEXTO 1
O Projeto de Arquitetura
Irajá Gouvêa/ Walnyce Scalise
O desenho arquitetônico é uma especialização do desenho técnico
normatizado voltada para a execução e representação de projetos de Arquitetura.
O desenho de arquitetura, portanto, manifesta-se como um código para uma
linguagem, estabelecida entre o emissor e o receptor.
O Projeto de Arquitetura é um conjunto abrangente de estudos precedido
por estudos de viabilidade técnica, econômica e avaliação de impacto ambiental,
estudos preliminares, anteprojeto, projeto básico e caracteriza-se por ser um projeto
executivo com detalhamento, que se caracterizam por uma determinada forma porque
as informações técnicas produzidas no anteprojeto de arquitetura devem ser
apresentadas mediante documentos técnicos em conformidade com os padrões
estabelecidos nas normas pertinentes através de representação gráfica, constando:
a) planta de situação ( implantação)
b)
c)
d)
e)
f)
plantas dos pavimentos em escala legível
plantas das coberturas
cortes ( longitudinal e transversal)
elevações (frontal e lateral)
perspectiva da edificação ou maquete
g) memorial justificativo/ memorial descritivo
h) especificação técnica de materiais e equipamentos
i) detalhes técnicos construtivos (plantas, cortes, elevações e perspectivas) de
elementos da edificação e de seus componentes (portas, janelas, bancadas, grades,
forros, beirais, parapeitos, revestimentos e seus encontros, impermeabilizações e
proteções);
Implantação
REPRESENTAÇÃO GRÁFICA
- Planta de locação: Representa a implantação da obra no terreno, locando e
dimensionando em especial, a(s) edificação(ões), acessos, áreas livres,
estacionamentos, piscinas, quadras esportivas, recuos, afastamentos, cotas e níveis
principais e quadro geral de áreas (totais, por setor, pavimento e/ou bloco, úteis e/ou
construídas).
- Planta de situação: Representa a localização do terreno ou lote na quadra ou
loteamento.
Implantação- Escala 1:200 ou 1:500. Deverão ser orientadas conforme planta
de situação, contendo:
1. Localização do terreno em relação ao seu entorno urbano; posição com relação ao
Norte
2. Localização da edificação (se ocupar parte do imóvel, indicar claramente a
localização do estabelecimento a legalizar dentro do imóvel) e identificar os serviços
e/ou edificações confrontantes com os respectivos usos;
3. Localização da edificação em relação às circulações horizontais e verticais (caixa de
escada e elevador) do andar respectivo;
4. Acessos de pedestres, veículos, estacionamento, estacionamento com marcação de
vagas (não esquecer as vagas dos deficientes em edificações públicas);
5. Cotas parciais e gerais da edificação e do terreno, cotas de nível do terreno e
indicação de escadas, arrimos e taludes, cotas de afastamentos e recuos bem como
indicação de vias de acesso, estacionamentos, área total do terreno, área total
construída e área total de cada pavimento;
6. Indicar: medidores(água, luz, gás), coleta de lixo, centrais de máquinas, de
tratamento de água, de tratamento de esgoto(se houver) e abrigo de resíduos sólidos.
Memoriais: Descrevem e/ou justificam a solução arquitetônica a proposta
relacionando-a ao programa de necessidades, às características do terreno e seu
entorno, à legislação arquitetônica e urbanísticas pertinentes e/ou outros fatores
determinantes na definição do partido adotado.
MEMORIAL JUSTIFICATIVO- Texto explicativo
Parte integrante do Projeto de arquitetura que compõe com palavras, em linhas gerais,
uma descrição da proposta adotada.
Deve abranger, sucintamente, tópicos referentes ao terreno escolhido, implantação, a
arquitetura, o partido arquitetônico, estrutura e infra-estrutura. Permite ao cliente
visualizar o projeto a partir das intenções do projetista. Proporciona melhor
entendimento e avaliação da proposta.
Tópicos geralmente abordados:
1-Terreno - situação, acessibilidade, entorno, topografia, vegetação, recursos naturais,
vistas.
2- Implantação- solução adotada, aterramentos, cortes, nivelamento, paisagem
natural, insolação.
3- Arquitetura- descrever o partido adotado a partir de possíveis aspectos
conceituais, do desenho, elementos gráficos e formas propostas.
3.1- aspectos conceituais- programa adotado, contribuições, aproveitamento dos
recursos naturais, consumo de energia, segurança, aspectos econômicos, sociais ,
políticos, etc.
3.2- desenho- fluxos, distribuição espacial das funções, horizontal/ vertical,
hierarquia dos espaços, setorização, soluções formais adotadas.
4- Estrutura- sistema construtivo proposto, tipo(s) de estrutura e sua utilização,
fundação, vigas, pilares, vedação, coberturas, locais de utilização, materiais, técnicas,
etc...
OBS: Caso não seja possível a apresentação gráfica de alguns itens pensados, o autor poderá
ou deverá justificar no texto/ memorial do projeto.
Alguns Exemplos de Memorial Justificativo
http://www.joaodiniz.com.br/scala.htm
http://www.joaodiniz.com.br/iab.html
http://www.joaodiniz.com.br/ufjf.html
O PARTIDO Arquitetônico
Partido Arquitetônico seria uma consequência formal derivada de uma série de
condicionantes ou determinantes; o resultado físico da intervenção arquitetônica
sugerida. Os principais determinantes ou condicionantes do partido seriam:
- atendimento aos requisitos técnicos, construtivos, legais, econômicos e funcionais
- cuidado com aspectos do terreno, clima, condições físicas e topográficas e seu
entorno
- beleza e conforto de uma maneira atrativa e acolhedora tanto para os usuários como
para os visitantes.
- a implantação a partir dos principais eixos, da topografia, da insolação etc...
- edificações com formas geométricas simples, localizadas adequadamente no terreno
- aspectos do programa, pré-setorizacao, acomodando todas as funções previstas.
- opção por edificação de caráter horizontal ou vertical (por questões técnicas, de
circulação, estética e psicológica)
- melhor utilização para diversas atividades de caráter público
- simetrias e geometrias
- luz e ventilação
- jardins, paisagismo, conforto ambiental
- integração com o meio natural
- tipo de estrutura
.
Envolvidos na criação desse partido arquitetônico encontram-se tanto os aspectos
de qualidade do ambiente projetado como as questões estéticas inerentes ao
partido adotado.
Uma “arquitetura adequada à dinâmica da contemporaneidade”, que deve ter
como fundamentos:







Programação participativa;
A incorporação, nas idéias e nos projetos, da questão ambiental como parte
estrutural do repertório arquitetônico;
Adequação à cultura de cada época, com a utilização evolutiva do conhecimento
de base científica das ciências humanas;
O avanço tecnológico e a utilização de tecnologias limpa;
O aprofundamento equilibrado e harmônico do conhecimento científico e do
conhecimento sensível;
Imprimir ao projeto a visão de processo que nunca se esgota, com o contínuo
aprimoramento das várias linguagens arquitetônicas;
O uso de novas ferramentas de trabalho na formação e nas atividades
profissionais.
Segundo Zanettini, seria essa a definição de arquitetura contemporânea: a
relação equilibrada entre conhecimento racional e conhecimento sensível, ou
seja, o resultado físico e espacial do equilíbrio harmonioso entre o mundo
racional e o mundo sensível. A arquitetura encontra-se no meio disso. Perceber
que não pode resolver a arquitetura sem uma base estrutural tecnológica
fortíssima, mas também sensível e extremamente bem resolvida, conseguindo
equilibrar isso de maneira harmoniosa e eficaz, bem como Renzo Piano,
Richard Rogers e Helmut Jahn, entre outros, que também trabalham esses
aspectos.
Em relação ao tratamento do “corpo” arquitetônico, a busca da leveza, transparência,
uma certa desmaterialização do objeto e elaborada articulação volumétrica e espacial,
constituem conquistas do Movimento Moderno totalmente incorporadas ao
Contemporâneo, articuladas à utilização de novas geometrias e sistemas de desenho
assistidos por computador.
Nos últimos anos, o tratamento das superfícies, incluindo as fachadas dos edifícios,
passou a receber uma atenção crescente como meio de relacionamento e de
inserção no entorno, deslocando a atenção dada anteriormente ao “lugar”.
Cada local específico de atuação implica agora empírica, histórica e intelectualmente,
um ponto de partida diferente para cada projeto. A expressividade perde importância
dando lugar a um tratamento abstrato do edifício,
A referência à geometria como estrutura básica da configuração arquitetônica
continua sendo, desde antes de “Vers une Architecture”, de LE CORBUSIER, um
recurso “moderno” também válido na atualidade. Mas, se os arquitetos modernos
trabalhavam ainda com um referencial euclidiano, hoje as novas geometrias
expandiram o campo das possibilidades de manipulação volumétrica, permitindo um
grau de abstração muito maior que em qualquer outra arquitetura.
A arquitetura atual busca uma arquitetura sem metáforas ou símbolos, o que não
significa que não exista significado. Este se manifesta pela própria aparência da
arquitetura e como se experimenta, com ênfase às sensações visuais, espaciais e
táteis.
Revisando: PARTIDO ARQUITETÔNICO
O Partido arquitetônico pode surgir:
1- Da análise do terreno- Localização / Fotos do local / Entorno / Visitas /
Ligações / Acessos.
2- Do programa de necessidades – Setorizarização/ Arranjo vertical / horizontal
3- Dos Aspectos da implantação-Orientação / Insolação / Luz natural / Privilegiar
o meio ambiente existente.
4- Dos Aspectos Construtivos - Materiais / Partido estrutural
5- Do Volume pretendido - Forma / Fachadas / Movimento / Transparência / Cor /
Linhas curvas ou retas
6- Dos Fluxos - Distribuição espacial das funções / Circulação principal /
Integração espacial / Eixo norteador.
7- Da Identidade - Imagem do lugar
8- Dos Aspectos conceituais - Tema / História...
9- Dos Critérios de viabilidade do Projeto - Econômica / Tecnico-construtiva /
Respeito ao Meio Ambiente
10- Da Posição Arquitetônica - determinado Arquiteto e/ou Tendência
Contemporânea
11- De Teorias / Idéias (Fruto de leituras, análises de projeto e reflexão sobre o
tema).
12- Da necessidade de Flexibilidade do projeto ( para crescimento futuro e/ou
adaptações possíveis)
13- Da legislação regulamentadora ( Código de obras, Leis de uso do solo,
Ambiental,etc..)
....“enquanto satisfaz apenas às exigências técnicas e funcionais - não é ainda
arquitetura; mas quando - popular ou erudita - aquele que a ideou pára e hesita ante a
simples escolha de um espaçamento de pilar ou de relação entre altura e largura de
um vão e se detém na procura obstinada da justa medida entre cheios e vazios, na
fixação dos volumes e subordinação deles a uma lei e se demora atento ao jogo de
materiais ao seu valor expressivo - quando tudo isso vai a pouco somando,
obedecendo aos mais severos preceitos técnicos e funcionais, mas também àquela
intenção superior que seleciona, coordena e orienta em determinados sentido toda
essa massa confusa e contraditória de detalhes, transmitindo assim ao conjunto ritmo,
expressão, unidade e clareza - o que confere à obra o seu caráter de permanência.
Isto sim é arquitetura" Lúcio Costa
MEMORIAL DESCRITIVO- texto que descreve as etapas da obra, os
materiais, os locais onde serão utilizados e a maneira.
Itens do Memorial Descritivo:
1. CONDIÇÕES LOCAIS: do Terreno (medidas, topografia, rede de água e esgoto,
iluminação na rua, necessidade de tapume e muros..
2. FUNDAÇÕES - tipo, materiais
3. IMPERMEABILIZAÇÃO DOS ALICERCES- materiais
4. ALVENARIA - material, espessuras, reforços,...
5. CONCRETO ARMADO- locais, ferros,..
6. FORROS - tipo, materiais,..
7. TELHADO - material inclinação,..
8. REVESTIMENTO DAS PAREDES
9. PREPARAÇÃO PARA PISOS
10. PISOS - locais, materiais, etc
11. PEITORIS / GESSO
12. ESQUADRIAS METÁLICAS
13. ESQUADRIAS DE MADEIRA
14. INSTALAÇÃO HIDRÁULICA E APARELHOS SANITÁRIOS
a)
b)
c)
d)
e)
água
esgoto
águas pluviais
gás
instalação de Prevenção e Combate a Incêndios:
15. ELETRICIDADE E TELEFONE
a)eletricidade
b)telefone e sistema de segurança:
c) pára- Raios:
d) minuteiras:
e) tubulação para antena coletiva:
f) gerador e iluminação de emergência
16. VIDROS
17. PINTURA
18. CASA DE MÁQUINAS, CENTRO DE MEDIÇÃO, DEPÓSITOS E INCINERADOR /
ELEVADORES
TEXTO 2 Arquitetura, projeto e conceito (1)
Carlos Alberto Maciel- Carlos Alberto Maciel é arquiteto e urbanista, mestre em Teoria e Prática de
Projeto pela EA-UFMG, professor no Unicentro Izabela Hendrix e na Universidade de Itaúna, possui projetos premiados
em diversos concursos nacionais, como o Centro de Arte Corpo, o 4o Prêmio Jovens Arquitetos e a 4a Bienal
Internacional de Arquitetura de São Paulo.
A realização de um projeto de arquitetura, como qualquer outro trabalho, tem
premissas que lhe são próprias: há um programa a ser atendido, há um lugar em que
se implantará o edifício, e há um modo de construir a ser determinado. Esse conjunto
de premissas é elaborado graficamente em um desenho que opera como mediador
entre a idéia do projeto e sua realização concreta.
Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, Affonso Eduardo Reidy, 1953. O MAM é um exemplo de
resposta inventiva do arquiteto às demandas de uso, do lugar e da construção. A estrutura externa em
pórticos que atiranta a laje do segundo pavimento permite a liberação integral do pavimento e a abertura
integral dos espaços internos, descortinando a paisagem da Baía da Guanabara. A solução do apoio em
“V” equilibra os esforços na base do pórtico por gerar um momento contrário devido ao apoio da laje
arqueada do 1o pavimento no segmento menor do pilar. Esse recurso, que torna a estrutura mais esbelta
pela redução da resultante de momento fletor na base do pórtico, sugere um conhecimento consistente do
comportamento das estruturas por parte do arquiteto, gera economia em relação a outras soluções menos
engenhosas e resulta na forma final do edifício. Foto do autor
A idéia de um conceito que participe como elemento indutor do processo de projeto é
de modo recorrente compreendida como algo externo a essas premissas, uma ficção,
analogia, metáfora ou discurso filosófico que, servindo como ponto de partida, daria
relevância ao projeto e milagrosamente articularia todos os condicionantes em uma
forma significativa. Essa estratégia reduz a importância de dados existentes do
problema e valoriza elementos que em princípio sequer existem como premissas
necessárias para a realização da arquitetura. Na ausência de um grande padrão ideal
legitimador das ações do arquiteto, já diagnosticada desde a emergência do
pensamento pós-moderno, a busca de ficções legitimadoras isoladas como algo que
confira qualidade à arquitetura tem sido uma estratégia usual tanto entre arquitetos
que ocupam posições dominantes no cenário internacional como na produção local,
prática e acadêmica.
Em contrapartida a essa tendência, proponho pensar o conceito como o esforço do
arquiteto em compreender, interpretar e transformar os dados pré-existentes do
problema arquitetônico, que se constituem em fundamento para seu trabalho: o lugar,
o programa, e a construção. Esta abordagem não procura determinar um
procedimento lógico e racional que concatenaria uma seqüência de resultados obtidos
cientificamente a partir da observação dos condicionantes. Tal entendimento do
processo de projeto – e por conseqüência, do conceito -, em oposição extrema à
primeira abordagem citada, suporia a eliminação completa da subjetividade do
arquiteto. Contudo, no processo de projeto, a compreensão e interpretação de cada
aspecto colocado como premissa exige por parte do arquiteto a tomada de sucessivas
decisões. Cada uma dessas decisões é um ato racional, operado a partir do
conhecimento específico do problema, relativizado pela experiência vivida do arquiteto
e pelo momento em que se realiza o projeto. Como esclarece Brandão acerca da
leitura ou fruição de uma obra acabada, “[t]oda compreensão é histórica e emerge da
situação existencial e da experiência vivida por aquele que se propõe à tarefa de
compreender ou interpretar alguma coisa” (2). Assim, a aparente restrição que a
delimitação clara de um campo de ação sobre o qual o arquiteto opera durante o
processo de projeto não se constitui em eliminação da subjetividade, mas, pelo
contrário, exige um direcionamento desta subjetividade como algo operativo sobre os
problemas efetivamente colocados pelo mundo ao arquiteto. Enquanto a busca pelo
conceito por parte do fruidor ou usuário parte da interpretação do objeto em si, no ato
do projeto o objeto é o que se busca realizar, e portanto não se dá ao conhecimento
do autor para que dele se extraiam, se compreendam ou se estabeleçam conceitos.
Sendo assim, é necessário recuar nesta busca por algo concreto que, antes da
realização do edifício, já esteja disponível ao conhecimento do arquiteto e que permita
sua interpretação. No caso do projeto, o que se coloca como concreto à compreensão
do arquiteto são, na grande maioria dos casos, as demandas e determinações
relativas ao lugar, ao programa e à construção.
Casa de Canoas, Oscar Niemeyer, 1953. A casa é exemplar na relação com o lugar pela consideração
da topografia e da paisagem; reedita os padrões de ordenação tradicional dos usos ao inverter as
hierarquias tradicionalmente aceitas entre público e privado, ocultando a área íntima sob a plataforma e
abrindo os espaços de convívio para a paisagem, com a integração e continuidade entre interior e
exterior; é ainda uma exploração radical das possibilidades da estrutura em concreto armado, atingindo
alto índice de esbeltez dos pilares e aparente leveza da laje curvilínea que demarca a interferência
humana na paisagem. Geralmente identificada e conhecida pela laje curvilínea pousada sobre o patamar
com a pedra e a piscina, a casa apresenta sob a plataforma a base em pedra, pouco conhecida, que
abriga a área íntima, estabelecendo um contraste radical entre o peso, a massa, e o fechamento da base
e a leveza e abertura do pavimento superior. Essa diferenciação reforça a exploração dos diversos
sistemas construtivos, das diferenciações entre público e privado e da relação com o terreno e a
paisagem. Foto do autor
Lugar
E delinearia meu projeto, tendo em conta a intenção dos humanos que iriam
me pagar; atento à localização, às luzes, às sombras e aos ventos; feita a
escolha do terreno, de acordo com suas dimensões, sua exposição, seus
acessos, terras contíguas, e a natureza profunda do subsolo... (3)
A geografia, a topografia e a geometria do terreno, sua conformação geológica, a
paisagem física e cultural, a estrutura urbana, o sol, os ventos e as chuvas e ainda a
legislação de uso e ocupação do solo são dados pré-existentes que podem ser
extraídos de uma análise cuidadosa do lugar. Cada um desses aspectos se coloca de
antemão ao conhecimento do arquiteto: tudo já está ali, demandando apenas um
esforço rigoroso de observação. Buscar compreender as implicações de cada um
destes aspectos nas relações de uso e no processo de construção é fundamental
tanto sob o ponto de vista técnico como conceitual.
Sob o ponto de vista pragmático e técnico, a compreensão do lugar em todos os
aspectos citados traz o conhecimento necessário para se evitarem equívocos banais
que podem comprometer a habitabilidade dos espaços, gerando incompatibilidades
em relação ao clima e à natureza, que interferem na vida cotidiana e exigem remendos
posteriores, nem sempre pertinentes. Essas correções a posteriori, na maioria dos
casos, interferem nas soluções formal e construtiva pretendidas para o edifício e
chegam a comprometer a arquitetura nas suas relações de uso. Esses mesmos
equívocos decorrentes da desconsideração do lugar podem implicar ainda em graves
incompatibilidades técnicas na relação entre a construção e o sítio, agindo
negativamente sobre o equilíbrio das forças naturais e acarretando ao edifício
desgaste mais acelerado pela ação do tempo em virtude da inadequação da sua
inserção, seja no que diz respeito à relação com o terreno natural ou com os aspectos
do clima ou mesmo com uma estrutura urbana pré-existente. Podem acarretar ainda
aumentos consideráveis no custo de final de construção e manutenção do edifício,
comprometendo sua viabilidade e por vezes inviabilizando sua construção.
Sob o ponto de vista conceitual, a compreensão e a interpretação do lugar podem
contribuir para gerar o espaço arquitetônico, na medida em que tem o potencial de
induzir modos diferenciados de ordenação da construção e das relações de uso que
ali acontecem. A conformação pré-existente do terreno natural, sua planimetria e
altimetria, e ainda a sua relação com a estrutura urbana, com a paisagem e com os
aspectos naturais inerentes ao sítio, relativos ao clima, permitem a identificação de
diretrizes latentes de ordenação do espaço e da forma. Tais diretrizes, uma vez
interpretadas pelo arquiteto, podem se repercutir diretamente na configuração final do
objeto arquitetônico, seja de modo a reafirmar os aspectos espaciais e formais préexistentes no lugar, seja de modo a negá-los, ou ainda de modo a incluí-los como
referência parcial à realização da construção, em uma dialética permanente entre as
determinações do lugar, do programa e da construção.
Programa
Acreditava que um navio, de algum modo, deveria ser criado pelo
conhecimento do mar, como que moldado pela própria onda!... Mas, na
verdade, esse conhecimento consiste em substituir o mar, em nossos
raciocínios, pelas ações que ele exerce sobre um corpo, - como se se tratasse,
para nós, de descobrir as outras ações que a essas se opõem, defrontandonos tão somente com um equilíbrio de poderes, uns e outros extraídos da
natureza, onde não se combatiam utilmente (4).
Os usos e atividades que geralmente dão origem à demanda por um edifício são em
geral colocados no início do processo de projeto. Também são colocadas as restrições
relativas à economia, um aspecto geralmente desconsiderado ou subestimado pelos
arquitetos (5).
Desconsiderar as definições relativas às limitações econômicas ou entendê-las como
uma restrição à criação é recorrer à exclusão do problema para buscar uma solução
mais simples e fácil (6). A consideração das questões de economia, quando se opera
com recursos limitados, característica recorrente no contexto brasileiro, é antes de
tudo uma premissa que pressupõe a viabilidade da construção. Sendo assim, ignorar
as restrições e limitações de ordem econômica representa em um contexto de
escassez um ato de irresponsabilidade em relação ao usuário, no caso de uma
relação particular entre arquiteto e cliente, ou em relação à sociedade, no caso em que
o cliente se trate de uma instituição pública. Representa ainda um descompromisso do
arquiteto com a realização concreta de sua obra. A necessidade da atenção à
economia remete à questão do decoro, apontada por Vitruvio: “o decoro é o aspecto
correto da obra, que resulta da perfeita adequação do edifício, no qual não haja nada
que não esteja fundado em alguma razão” (7). Mesmo em situações em que a
escassez não é condição para a realização da arquitetura, o dispêndio excessivo e
supérfluo implica em última instância na inserção direta do trabalho do arquiteto no
mundo do consumo desenfreado, a promover a não preservação dos recursos naturais
disponíveis para o homem no planeta. Como aponta Moneo,
A construção de um edifício requer um empenho enorme e um grande
investimento. Arquitetura em princípio, quase por princípio econômico, deve ser
durável. Os materiais devem assegurar vida longa aos edifícios. Antes um
edifício era construído para durar para sempre ou, pelo menos, certamente não
esperávamos que desaparecesse (8).
Ao se estabelecer um programa, surge a necessidade da determinação de dimensões
dos espaços a fim de acomodar as diversas atividades propostas para o edifício. Esse
dimensionamento se constitui em parte fundamental da interpretação do programa.
Como aponta Le Corbusier, a noção da dimensão deve ser algo que ultrapassa a
abstração da reprodução de padrões métricos universalmente aceitos, considerando
as dimensões e a escala do homem como referência para a determinação dos
espaços:
O metro é apenas uma cifra sem corporeidade [...] As cifras do Modulor são
‘medidas’, e, por conseguinte, feitos em si que têm corporeidade; [...] os objetos
que se deve construir [...] são, de qualquer modo, ‘continentes do homem’ ou
prolongamentos do homem. Para escolher as melhores medidas vale mais ‘vêlas e apreciá-las com a separação das mãos’ do que pensá-las somente (isso
para as medidas muito próximas da estatura humana). [...] A arquitetura (e com
essa palavra englobo a quase totalidade dos objetos construídos) deve ser tão
carnal e substancial como espiritual e especulativa (9).
Para além das questões relativas às proporções da forma, o domínio efetivo das
dimensões permite a atuação ativa do arquiteto sobre a construção a fim de definir
espaços qualitativamente distintos. A definição da ambiência de um espaço de
permanência ou de um percurso e a demarcação de seu caráter público ou privado
são diretamente determinados pelas suas dimensões. Portanto o dimensionamento é
fundamental, em primeira instância, para um domínio das demandas de espaço a que
correspondem as diversas atividades e, em segunda instância, para a definição de
hierarquias e demarcação de diferenciações claras entre os espaços de naturezas
distintas.
Em relação aos usos e atividades demandados em um programa, para além de um
atendimento imediato às questões utilitárias entendidas em um sentido funcionalista, é
possível buscar como parte desta estratégia conceitual a investigação dos diversos
modos de vida dos usuários, conhecidos ou imaginados, a fim de buscar nesses
modos de vida as especificidades que sugiram o espaço mais apropriável e mais
adequado para que estes hábitos tomem lugar. Como aponta Brandão,
Os conceitos, como aqueles que elaboramos durante a produção de um
projeto, não surgem do nada, mas da reflexão sobre a nossa própria
experiência dos espaços e daquilo que nos fornece a tradição que lhes
concerne. Assim, (...) cumpre elaborar a reflexão sobre nossa experiência
desses espaços, sobre a imagem, os significados e sentidos que a tradição nos
transmite e que se depositou como repertório da cultura (10).
Essa compreensão da tradição pode aqui ser tomada como uma interpretação do
repertório acumulado da cultura a fim de transformá-lo em proposições adequadas
para o presente, ao invés de reproduzir padrões de espaço culturalmente
desenvolvidos ao longo da história para esta ou aquela finalidade. Nesse sentido,
parece mais fértil, como sugere Valéry, construir o navio a partir da compreensão das
forças que o mar lhe impõe, ou seja, pensar o espaço fisicamente construído a partir
das forças e tensões que as diferenciações entre os domínios do individual e do
coletivo nele determinam. A partir deste entendimento, parece possível interpretar e
interferir nestes diferentes modos de vida, a partir da reelaboração dos padrões
recorrentes na tradição, promovendo articulações variadas entre as atividades e os
domínios territoriais, a fim de estabelecer no espaço físico continuidades e
descontinuidades, integrações, separações e fragmentações, ora controladas pelas
necessárias transições, ora justapostas em demarcações e rupturas violentas entre os
domínios do público e do privado.
A demarcação de territórios com caracterizações distintas em suas relações de
privacidade evoca a premissa de que a arquitetura se funda na necessidade de
mediação das relações humanas (11). A partir desse entendimento, é possível superar
uma visão funcionalista, que definiria o espaço como atendimento objetivo a atividades
específicas, passando ao entendimento da questão dos usos e da ocupação humana
do espaço edificado a partir da compreensão das diversas possibilidades de vivência
do edifício no cotidiano. Habitamos simplesmente o espaço, mesmo quando nele
momentaneamente não desenvolvemos qualquer atividade, ou seja, o habitar não
passa pela noção da função ou da utilidade imediata.
A arquitetura pode surgir do conhecimento e da interpretação dos condicionantes
impostos pela vida cotidiana. Quando entendida assim, resulta mais circunstancial e
menos ideal. Nesse sentido, cada projeto é um ato único, que deve incorporar as
contradições específicas surgidas do embate entre seus condicionantes. A forma é
portanto algo que resulta deste embate, e é mais relevante quando evita os gestos
retóricos que procuram, por um lado, a determinação de uma linguagem a priori e, por
outro lado, a caracterização de um discurso sobre algum dos aspectos envolvidos na
sua realização.
A arquitetura pode prescindir do discurso, desvestir as pretensões excessivas que
extrapolam seus fundamentos primeiros e cuidar daquilo que lhe é mais caro, e tem
sido mais abandonado, que é a importância do conhecimento da construção como o
único meio de viabilização do espaço físico destinado à habitação pelo homem.
Construção
Eupalinos era senhor de seu preceito. Nada negligenciava. Prescrevia o corte
das tábuas no veio da madeira, a fim de que, interpostas entre a alvenaria e as
vigas que nelas se apoiassem, impedissem a umidade de penetrar nas fibras,
embebendo-as e apodrecendo-as. Prestava a mesma atenção a todos os
pontos sensíveis do edifício. Dir-se-ia tratar-se de seu próprio corpo. Durante o
trabalho da construção, raramente afastava-se do canteiro. Conhecia todas as
suas pedras: cuidava da precisão de seu talhe, estudava minuciosamente
todos os meios de evitar que as arestas se ferissem ou que a pureza dos
encaixes se alterasse. Ordenava a prática da cinzeladura, a reserva dos
calços, a execução de biséis no mármore dos adornos, dispensava o mais fino
cuidado ao reboco que aplicava nos muros de simples pedra (12).
A definição das fundações, da estrutura, das proteções contra as intempéries, das
instalações complementares, dos processos construtivos e dos detalhes, bem como a
eleição dos materiais, são escolhas do arquiteto que visam a viabilizar a realização do
espaço imaginado e resultam na forma arquitetônica. Assim como nos aspectos
relativos ao lugar e ao programa, é possível identificar diretrizes latentes de ordenação
do espaço e da forma em cada aspecto relacionado à construção. Pensar cada um
desses aspectos para além de suas determinações técnico-funcionais, da viabilização
do abrigo, implica em pensar o elemento da construção como gerador de espaço, e
não o contrário. Respeitar as especificidades de cada solução técnica, compreender o
comportamento dos elementos em relação às forças da natureza, em especial a
gravidade, implica em explorar conceitualmente as possibilidades da construção.
Nesse sentido, cabe concordar com Joaquim Guedes, que aponta que “[h]á que
aprender a imaginar o objeto e ao mesmo tempo inventar sua construção” (13).
O conhecimento da construção é a única possibilidade de se viabilizar concretamente
a idéia do objeto arquitetônico. Sua desconsideração é a garantia da falência da
arquitetura – e do arquiteto -, na medida em que deixa para outro a responsabilidade
fundamental das definições que em última instância implicam na geração da forma
visível e tangível do edifício, e na definição da ambiência e da conformação do espaço
interior destinado à vida humana. Desconhecer os procedimentos para a construção
do objeto é operar apenas sobre a imagem pretendida para o edifício e seu espaço
interior, é o simulacro da decoração e do ornamento supérfluo. Se há algum caminho
possível para a arquitetura nesse momento, acredito ser sua realização através da
manipulação ativa de sua lógica de construção, operando a partir de seus
fundamentos para atingir uma resposta concreta, fisicamente edificada, que faça
repercutir no objeto arquitetônico, de modo complexo, o conhecimento, a interpretação
e a transformação de todas as restrições e determinações do lugar, do programa e das
próprias possibilidades de construção.
O desenho como mediador
Sou avaro em divagações. Concebo como se executasse (14).
A representação gráfica é, e parece que por muito tempo continuará sendo, o modo de
mediação entre a idéia e a sua realização concreta, a construção. Portanto, o desenho
é o ponto crítico no processo, pois não é apenas a representação final de uma idéia
pensada de antemão, mas é a própria construção da idéia. Enquanto desenha, o
arquiteto testa hipóteses de resolução das diversas contradições que surgem do
embate entre as demandas impostas pelo sítio, pelo programa e pela construção.
Como confirma Brandão,
a expressão gráfica (...) não é apenas representação de uma idéia mas um
momento de compreensão e construção dessa idéia. (...)Dizer que essa
relação é dialógica significa dizer que ela se desenvolve a partir do jogo de
perguntas e respostas que são colocadas entre os dois momentos. Esse jogo
se desenvolverá também para estabelecer a relação entre o projeto e a obra e,
depois, entre a obra e o habitante. Cumpre reafirmar, desde já, que a própria
definição do conceito é mediatizada pelas perguntas colocadas pela
construção, pela contextualização e pela fruição da obra (15).
Como mediador que visa a concepção e a realização do edifício, o desenho deve
explicitar com clareza os procedimentos para a construção do objeto. Se tratado de
modo abstrato e desvinculado da lógica e das implicações da construção, o desenho
perde sua relação direta com o objeto arquitetônico, e deixa de ser o meio para sua
realização. Arrisca-se assim a não realização do edifício como previsto, por mera
impossibilidade ou divergência entre a técnica possível e o espaço e volume
imaginados. A deficiência da representação decorre do desconhecimento da
construção. Portanto, a representação, para ser suficiente e para viabilizar a
construção de um edifício qualquer, deve se fundamentar no conhecimento de todas
as premissas que interferem nesta realização do objeto. Rafael Moneo confirma essa
hipótese:
Muitos arquitetos atualmente inventam processos e ensinam técnicas de
desenho sem a preocupação com a realidade da construção. A tirania dos
desenhos é evidente em muitos edifícios em que o construtor procura seguir
literalmente o desenho. A realidade pertence ao desenho, não ao edifício. [...]
Os edifícios se referem tão diretamente às definições do arquiteto e estão tão
desconectados com a operação da construção que a única referência é o
desenho. Mas um verdadeiro desenho de arquitetura deve implicar sobretudo o
Conhecimento da construção (16).
A necessidade do conhecimento acumulado associado à observação acurada dos
aspectos específicos que dizem respeito a cada projeto sugere uma possibilidade de
abordagem metodológica do projeto arquitetônico. O ato de projetar pode ser
entendido como um trabalho reflexivo, um esforço de equilíbrio entre o construir, o
habitar e o pensar colocados como premissa para este debate. É um ato de pensar a
construção, o hábito e o lugar, de modo a transformar a situação pré-existente em algo
novo, que configure um suporte habitável, no sentido pragmático da configuração do
abrigo e da proteção que o conhecimento da técnica viabiliza, e no sentido específico
da mediação das relações humanas, que somente se realiza a partir do conhecimento
da vida cotidiana e da atuação intencional do arquiteto sobre as articulações físicas do
espaço e da construção. A linguagem e a forma surgem como decorrência imediata,
mas não óbvia, deste trabalho reflexivo sobre os dados pré-existentes do problema.
Fiar-se em relatos legitimadores externos, ainda que eleitos caso a caso, é cometer o
mesmo erro dos herdeiros desavisados de arquiteturas do passado, que entenderam a
arquitetura de sua época como um padrão baseado em um repertório formal a ser
reproduzido, reduzindo a importância da consideração efetiva dos condicionantes reais
que surgem da vida cotidiana.
Notas
1 -Este artigo foi elaborado originalmente para publicação e apresentação em mesa redonda do Seminário Arquitetura
e Conceito, promovido pelo Núcleo de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo da Escola de Arquitetura da UFMG,
em julho de 2003, sob o Tema: “Construir, Habitar, Pensar, hoje. O que é Projetar?”, sob a coordenação do prof. Dr.
José dos Santos Cabral Filho.
2-BRANDÃO, Carlos Antônio Leite. “Linguagem e arquitetura: o problema do conceito”. Revista de Teoria e História da
Arquitetura e do Urbanismo. vol.1, n.1, novembro de 2000. Belo Horizonte: Grupo de Pesquisa "Hermenêutica e
Arquitetura" da Escola de Arquitetura da UFMG. Disponível: <http://www.arq.ufmg.br/ia>. Acesso em 25 jun. 2003.
3-VALÉRY, Paul. Eupalinos ou O Arquiteto. Tradução Olga Reggiani. São Paulo: Editora 34, 1996, p. 175.
4-Idem, ibidem, p. 155.
5-Vitruvio aponta a economia como um importante definidor da arquitetura, sendo um pressuposto à utilidade. Daí
resulta a abordagem, neste trabalho, da economia em conjunto com as questões referentes ao uso, configurando as
demandas relativas ao programa. Sobre isso, cf. VITRUVIO, Marco Lucio. Los diez libros de arquitectura. Tradução
direta do latim, prólogo e notas por Agustín Blanquéz. Barcelona: Editorial Iberia, 1955, p.16.
6-Robert Venturi aponta a simplificação decorrente da exclusão de problemas como uma estratégia para assegurar
uma pré-determinação da forma. Contrapõe a essa tendência a necessidade da busca por uma complexidade que
inclua efetivamente na resolução da forma as diversas demandas que comparecem no processo de projeto. Cf.
VENTURI, Robert. Complexidade e Contradição em Arquitetura. Tradução Álvaro Cabral. São Paulo: Martins Fontes,
1995.
7-VITRUVIO. Op. cit., p.14.
8-”The construction of a building entails an enormous amount of effort and a major investment. Architecture in principle,
almost by economic principle, should be durable. Materials should provide for the buildings's long life. A building
formerly was built to last forever or, at least, we certainly did not expect it to disappear”. MONEO, Rafael. “The solitude
of Buidings”. Kenzo Tange Lecture, Harvard University Graduate School of Design, março, 1985. (discurso). Disponível:
<http://web.arch-mag.com/3/recy/recy1t.html>. Acesso em 05 jun 2003, s/p.
9-LE CORBUSIER. El modulor: Ensayo sobre uma medida armonica a la escala humana aplicable universalmente a la
arquitectura y a la mecánica. Buenos Aires: Editorial Poseidon, 1961, p. 56-57.
10-BRANDÃO, Carlos Antônio Leite. Op. cit., s/p.
11- Para aprofundar o entendimento da arquitetura como mediação dos códigos de ética da sociedade, cf. CABRAL
FILHO, José dos Santos. Formal games and interactive design. Sheffield: School of Architectural Studies, 1996. (Tese),
seção 1.3.1. Disponível: <http://www.arquitetura.ufmg.br/lagear/cabral/phd/index.html>. Acesso em 15 mar. 2000.
12-VALÉRY, Paul. Op. cit., p. 39.
13-GUEDES, Joaquim. “Geometria Habitada”. In: VALÉRY, Paul. Eupalinos ou O Arquiteto. Tradução Olga Reggiani.
São Paulo: Editora 34, 1996 (Prefácio), p.12.
14-VALÉRY, Paul. Op. cit., p. 51.
15-BRANDÃO, Carlos Antônio Leite. Op. cit., s/p.
16- Many architects today invent processes or master drawing techniques without concern for the reality of building. The
tyranny of drawings is evident in many buildings when the builder tries to follow the drawing literally. The reality belongs
to the drawing, not to the building. [...] The buildings refer so directly to the architect's definition and are so unconnected
with the operation of building that the only reference is the drawing. But a truly architectural drawing should imply above
all the Knowledge of construction. MONEO, Rafael. Op. cit., s/p.
( Extraído de http://www.vitruvius.com.br/arquitextos/arq000/esp211.asp )
TEXTO 3 A casinha de Artigas: reflexos e transitoriedade
Marcio Cotrim
Marcio Cotrim Cunha, arquiteto e urbanista, professor do CUBM-RP e da UNAR, mestre em História da Arquitetura
pela UPC/UFMG, doutorando pela UPC Barcelona (orientado pelo Prof. Dr. Fernando Alvarez Prozorovich),
colaborador do ULUCK Arquitetos Associados, de Barcelona
A casinha, como ficou conhecida, foi construída em 1942, cinco anos após Vilanova Artigas ter
se formado arquiteto-engenheiro pela Escola Politécnica de São Paulo, tendo trabalhado com
Oswaldo Bratke e Warchavchik além de paralelamente manter sua construtora – Marone e
Artigas – onde, até 1942 construiu aproximadamente 40 casas. No entanto, a casinha foi a
primeira construída para si, fato que lhe outorga uma liberdade não alcançada nos projetos
desenvolvidos até então.
Residência J. B. Vilanova Artigas, 1942. Fonte: ACAYABA, Marlene Milan
Planta da residência J. B. Vilanova Artigas, 1942. Fonte: Fundação Vilanova Artigas
Ainda que sua importância seja relativamente pequena, quando comparada a outros projetos
posteriores, faz-se importante considerarmos algumas questões levantadas por Artigas neste
pequeno projeto, sobretudo questões que dizem respeito às inúmeras rupturas em relação à
planta da casa tradicional paulista, que ainda carregava valores vinculados a uma estrutura
colonial-escravocrata.
As inúmeras formas de ecletismo ou de neocolonial que sistematicamente marcaram as
residências dos bairros de classes média e alta na cidade de São Paulo nos trinta primeiros
anos do século determinaram certos avanços, como, por exemplo, a libertação dos limites do
lote, encorajados principalmente pelos modelos implantados nos bairros-jardins que se
espalharam nestes anos. Entretanto guardavam inúmeros aspectos herdados do período
colonial. Fato que Nestor Goulart nos exemplifica de forma objetiva:
“Pode-se perceber facilmente que essas casas conservavam as mesmas tendências de
valorização social e arquitetônica de certos espaços e desvalorização de outros, que se
encontravam nas moradias das classes mais abastadas. Jardins na frente e fachadas
rebuscadas, em escala reduzida, ás vezes mesmo de miniaturas, acentuavam a
importância das frentes e ocultavam as modéstias dos fundos. Essa disposição,
imutável, fazia com que, nos exemplares mais estreitos, a circulação de serviço se
realizasse através das salas, até mesmo para as retiradas de lixo. Os inconvenientes
de tal situação eram suportados corajosamente com o intuito de preservar uma “lógica”
absurda mas que conseguia garantir uma aparência de decoro e ocultar um conjunto
de “ vergonhas” tanto mais penosas quanto mais humildes os moradores. De fato as
possibilidades de uma eventual visita as cozinhas das casas abastadas nem de longe
se comparavam ao sofrimento que tal indiscrição daria a uma dona de casa de classe
média, freqüentemente obrigada a realizar serviços que as tradições haviam reservado
aos escravos... Os fundos e por vezes, a lateral mais estreita, como áreas de serviço,
eram locais de completa desvalorização social, verdadeiro desprestigio, quase tabu
herdado dos tempos em que ali estariam os escravos e acomodando agora os filhos
daqueles.” (1)
Frente a essa situação é importante ressaltar alguns esforços como os do engenheiro-arquiteto
Oswaldo Bratke, com sua casa/ateliê da Rua Avanhandava, de 1947, e a casa do arquiteto
Rino Levi, de 1944.
Projetos que – como a casinha de Artigas – propunham questionar, à margem do oficial, os
valores e padrões estabelecidos pela sociedade paulistana até então. Nos três casos,
desvinculados de qualquer rotulo modernista, forjaram seus questionamentos na própria vida
domestica, e apoiavam-se na casa norte-americana, (re) inventada por Frank Lloyd Wright.
As mudanças propostas pela casinha frente ao establishment, poderiam ser divididas em 3
pontos: implantação, o tratamento das fachadas e a distribuição interna. Pontos sugeridos pelo
próprio Arquiteto:
“A casinha é de 1942. Foi um rompimento formal meio grande. A partir dela, foi à
primeira vez que fiz e tive coragem de fazer porque era para mim, me libertei
inteiramente das formas que vinham vindo. Libertei-me da planta porque a cozinha
passou a se integrar na sala. Marcou uma nova fase em todo tratamento volumétrico
daquilo que podia se chamar fachada, porque a fachada desapareceu”. (2)
A casa foi implantada em 45º no terreno de maneira a desfazer qualquer tipo de hierarquia
entre fachada principal, frente e fundo, desaparecendo com isso uma relação já caduca,
herdada do período colonial, entre lote urbano e edifício.
Essa solução – abandonada posteriormente, devido às condições do lote padrão em São
Paulo, estreito e comprido – determina perspectivas no lugar das quatro fachadas, ressaltadas
também pela preocupação no desenho e composição das vistas.
Desaparece também nesta casa outro tipo de hierarquia – a separação entre áreas nobres e
não nobres – através da disposição das áreas de serviços, agora unidas de maneira racional,
tanto em função do uso quanto da economia. Trazendo desta forma a edícula para junto do
corpo da casa, integrando também a cozinha à sala – sem o uso de portas ou paredes –
estruturando toda a circulação a partir de um volume central, no caso o banheiro e a lareira,
funcionando como uma espécie de pivô, solução que, à margem de questões formais, nos
aproxima do esquema das prairie houses de Wright.
Esquema The Prairie Square Versus, Frank Lloyd Wright. Fonte: WRIGHT, Frank Lloyd
Essas mudanças na morfologia da casa determinam uma planta praticamente sem divisões
internas, ainda que as paredes estivessem vinculadas diretamente à estrutura. Os outros
elementos do programa, como dormitório e estúdio, são definidos por dois meio níveis,
integrando tanto um ao outro – por meio de um pé-direito duplo – quanto à sala.
Estratégia que terá importante papel estruturador nas plantas projetadas por Artigas nos anos
posteriores, setorizando os espaços de acordo com seus usos e sem o auxílio de paredes.
Por outro lado, a aproximação a Wright, comentada anteriormente, ainda se dá através de
outras estratégias: o uso de grandes beirais prolongando o espaço interno, as janelas até a
laje, a preocupação com a textura dos materiais e a planta quadrada. Estabelecendo-as
principalmente a partir de três âmbitos:



ética e verdade quanto ao uso dos materiais;
busca de identidade como caminho paralelo à escola carioca;
democracia americana x totalitarismo europeu.
Diálogo que se deve em grande parte a uma série de reflexos, estabelecidos entre as
Américas, sobretudo a partir da segunda metade dos anos 30.
Reflexos
A capital paulista após a primeira Guerra Mundial, já estabelecida como um dos pólos
industriais mais importantes do país, encontra nos Estados Unidos uma espécie de modelo,
não só no âmbito arquitetônico, mas através de um processo de americanização muito mais
amplificado, que tem no cinema seu principal elemento propagandista. Destacando-se através
dele e da publicidade o papel da casa como núcleo gerador do estilo de vida americano.
Neste último caso, Frank Lloyd Wright materializa-se para Artigas como referência moral do
estilo de vida daquele país, forjado através da democracia norte-americana frente ao
totalitarismo europeu. Segundo Artigas, Wright foi um “Humanista, que soube exprimir os ideais
democráticos de seu mestre Sullivan”. (3)
Os ideais democráticos de que comenta Artigas parecem estar contidos na formulação de uma
nova linguagem para as casas norte-americanas que propõe a obra de Wright. Ainda segundo
Artigas: “Protótipos americanos, que substituíssem as velhas soluções européias em conflito
com o comportamento Ianque”. (4)
A idéia de protótipo sugere que Wright passa a vida buscando desenvolver uma tipologia para
a casa norte-americana. Nisso, Artigas parece segui-lo, ainda que abandone em final dos anos
quarenta a referência formal direta às prairie houses.
Entretanto é a partir da segunda metade da década de trinta, com uma série de articulações
relacionadas à divulgação da arquitetura moderna nos Estados Unidos, que se introduziram
novos personagens fundamentais para a definição da casa moderna americana e como
conseqüência a casa moderna paulista.
A exposição do MoMa de 1932 – Internacional Style – é o passo inicial deste processo. Ainda
que não reivindicasse uma arquitetura moderna norte-americana, foi um importante passo para
estender o ideário moderno europeu ao novo mundo. Extensão que ganha força no final dos
anos 30 com a ida de personagens como Gropius, Breuer e Giedion para os Estados Unidos.
Como resultado de uma série de conferências em Harvard, Sigfried Giedion publica em 1940 o
livro Space, time and architecture, que se torna o livro de cabeceira dos estudantes norteamericanos da época.
Enquanto o livro introduzia a idéia de precedentes modernos na arquitetura norte-americana,
reivindicando através de capítulos como “Evolução na América” a comunhão entre o moderno e
uma tradição americana, Gropius construía casas modernas, partindo das mesmas
concepções.
Somados a isso, se faz necessário considerar a importante circulação no meio profissional de
inúmeras publicações de revistas americanas especializadas: como Architectural Record,
Pencil Points, Architectural Forum, Progressive Architecture e Arts & Architecture, também
livros como Modern House, que Hugo Segawa destaca como “ literatura produzida no momento
que circulou o mundo conduzindo uma ideologia modernizadora, analisando e divulgando
obras de vanguarda arquitetônica” (5) onde apareciam arquitetos como Marcel Breuer e William
Wilson Wurster, este último participante do Case Study Houses Program, idealizado por John
Enteza, editor da revista Arts & Architecture.
Fatos que nos sugerem um jogo de espelhos, uma triangulação entre as Américas e Europa,
estabelecida pelo nomadismo de personagens e produções.
Enquanto nos anos 40 o Brasil exportava Brazil Buildings para o mundo, Artigas construía sua
singela casinha wrightiana na cidade de São Paulo, Breuer e Gropius se estabeleciam como
Arquitetos na América, o programa Case Study Houses de John Enteza, influenciava gerações
de arquitetos Europeus e Americanos com sua industrialização redentora, e Louis Kahn viajava
por segunda vez a Europa antes de projetar o Yate Galerie.
Uma triangulação sem caminhos pré-estabelecidos, reflexo de um jogo de espelhos, reflexo
talvez dos primeiros indícios da crise de um ideário (6).
Residência J. B. Vilanova Artigas, 1942. Estado Atual. Fonte: Fundação Vilanova Artigas. Foto Julio Artigas
Notas
1 GOULART, Nestor. Quadro da arquitetura no Brasil. São Paulo, Perspectiva, p. 68.
2 ARTIGAS, João Batista Vilanova. Vilanova Artigas: arquitetos brasileiros. São Paulo, Instituto Lina Bo e P. M. Bardi /
Fundação Vilanova Artigas, 1977, p. 36.
3 ARTIGAS, Vilanova. A função social do arquiteto. São Paulo, Fundação Vilanova Artigas / Nobel, 1989 (São Paulo, LECH,
1981).
4 ARTIGAS, Vilanova. Idem.
5 SEGAWA, Hugo. Oswaldo Bratke. São Paulo, ProEditores, 1997.
6 Outras fontes consultadas: 1. ACAYABA, Marlene Milan. Residências Paulistas 1947–1975. São Paulo: Projeto, s.d.; 2.
IRIGOYEN, Adriana. Wright e Artigas: duas viagens. São Paulo, Ateliê Editorial, 2002; 3. SMITH, Elizabeth A.T; SHULMAN,
Julius. The Complete Case Study House Program 1945-1966; 4. WRIGHT, Frank Lloyd. An organic architecture: the
architecture of democracy. Cambridge, Massachussets: MIT Press, 1970. Facsímil, London: Lund Humhries, 1941
( Extraído de http://www.vitruvius.com.br/arquitextos/arq061/arq061_01.asp )
TEXTO 4 A ARQUITETURA COMO INSTRUMENTO DE
INCLUSÃO SOCIAL
Arquiteta Sandra Perito
Doutora em Arquitetura e Urbanismo - Diretora-Presidente do Instituto Brasil Acessível
Os progressos da medicina têm permitido que cada vez mais pessoas tenham a vida
prolongada, acarretando uma profunda mudança no perfil demográfico da sociedade
brasileira: pessoas idosas representam, hoje, uma significativa parcela da população.
Todavia, mesmo com todo o desenvolvimento tecnológico, dificilmente se poderá
acabar com todas as disfunções orgânicas decorrentes do envelhecimento.
Com o avançar da idade, o tempo de permanência e uso da habitação tornam-se cada
vez mais intensos; ao mesmo tempo, as pessoas mais velhas continuam tendo a
necessidade de participar em convívio social a que estão habituadas. Seu isolamento,
sob qualquer ótica, é pernicioso, sendo responsável, muitas vezes, por quadros de
depressão, desesperança e dependência facilmente verificáveis em núcleos
destinados a abrigar idosos.
O desejo máximo do brasileiro está na aquisição da casa própria, bem maior que as
pessoas almejam e, na grande parte dos casos, o de maior valor que adquirem ao
longo da vida. Em vista disso, é o bem que requer mais tempo e esforço para ser
adquirido e, portanto, a satisfação com esse “produto” deveria ser total. Porém, não é
assim que acontece, na grande maioria das vezes essa aquisição é baseada no custo,
ficando os aspectos de qualidade, durabilidade, adequabilidade e conforto relegados a
segundo plano.
É característica do brasileiro considerar a casa para a vida toda, principalmente entre
os idosos, que têm pouca opção de mudança. A idade avançada traz consigo um
vínculo muito forte com a moradia, principalmente quando não se tem perspectiva de
aquisição de outro imóvel.
No Brasil, país com sérios problemas de distribuição de renda, a maioria da população
tem baixos rendimentos, o que gera uma violência urbana bastante acentuada. As
classes sociais mais baixas são as maiores vítimas dessa violência que, muitas vezes,
resulta em limitações físicas graves, principalmente nos adolescentes e jovens
adultos. Também as classes menos favorecidas têm baixíssima mobilidade residencial
e, após a conquista da casa própria, se ela ocorre, é nela que viverão o resto da vida,
quaisquer que sejam as circunstâncias.
As políticas nacionais de financiamento de moradia, geralmente de longos prazos e
com contratos de difícil transferência, também influenciam na permanência prolongada
na mesma habitação, fixando os indivíduos aos imóveis por muitos anos.
A habitação, nos moldes tradicionais, não considera as alterações que podem ocorrer
ao longo da vida do homem, o que pode gerar um descompasso no seu uso. Projetos
habitacionais geralmente não abordam, de forma sistemática, o uso futuro pelos
moradores.
A estrutura da sociedade é um fluxo em constante mudança. O que se espera de uma
casa hoje é diferente do que se esperava há cinqüenta anos atrás. Atualmente as
pessoas buscam maior flexibilidade e capacidade do ambiente em adaptar-se às
condições que se alteram, como uma mudança na estrutura familiar, uma deficiência
temporária ou permanente, uma limitação do usuário do ambiente construído.
O crescente déficit habitacional brasileiro é uma realidade indiscutível bem como o
envelhecimento da população. É necessário que os órgãos competentes continuem
fomentando e aprimorando soluções e leis habitacionais, mas é também indispensável
que a classe técnica não se omita no sentido de propor soluções adequadas, dignas e
economicamente viáveis para as moradias, considerando todo o ciclo de vida dos
usuários. Os novos programas habitacionais devem se adequar a essa nova realidade.
Uma arquitetura inclusiva garante ambientes apropriados, não só para idosos ou
pessoas portadoras de deficiência, mas para todos. Quando se planeja um
empreendimento, a questão do custo da construção é inevitável. Todavia, projetar
incorporando características universais ou adaptáveis ao conceito de projeto, desde o
início, normalmente gera pouco custo adicional à obra, por permitir que
especificidades sejam adicionadas apenas quando necessárias. Além disso, todos os
custos devem ser considerados: econômicos, estéticos, funcionais e humanos, além
do custo social de se ignorar grande e importante parcela da população, os baixa
renda e os idosos.
Os projetos de habitação devem caminhar em direção a uma arquitetura universal,
preocupada com o futuro e o bem-estar do usuário, e que se adapte às mudanças
decorrentes do passar dos anos. Se aplicadas desde projeto, a acessibilidade e a
adaptabilidade não serão escondidas e nem caras, e seus aspectos estarão fundidos
no conceito arquitetônico do edifício.
Projetos residenciais adaptáveis, que considerem as mudanças fisiológicas, físicas,
sensoriais e psíquicas do homem, em todas as fases da vida, produzem boas
soluções ambientais, livres de estereótipos e capazes de aumentar a autonomia e
independência do usuário. E os arquitetos devem estar atentos à sua responsabilidade
social, propondo edificações que considerem a diversidade humana e que garantam
melhor qualidade de vida a todas as pessoas.
( Extraído de http://www.ycon.com.br/artigo_19_master.htm )
TEXTO 5 Antropometria. Sobre o homem como parte integrante
dos fatores ambientais. Sua funcionalidade, alcance e uso (1)
José Almeida Lopes Filho e Sílvio Santos da Silva
José Almeida Lopes Filho é arquiteto especialista e professor universitário em "Acessibilidade para Todos". Membro da
Rehabilitation International; Membro do Centre for Accessible Environments; Formador em “Arquitetura Inclusiva” pelo
Fundo Social Europeu; e Consultor da JALF ACCESS Arquitetura e Consultoria.
Sílvio S. Silva tem mestrado em Integração de pessoas portadoras de deficiência pela Universidade de Salamanca, na
Espanha e Universidade de Nice, na França. Professor formado em “Arquitetura Inclusiva” pelo Fundo Social Europeu.
É consultor da Jalf Access Arquitetura e Consultoria
“O homem é a medida de todas as coisas”
Protágoras
Antropometria e ergonomia
Este artigo nasceu a partir de uma salutar conversa no telefone, com a indagação da
amiga Rosário Toscano, terapeuta ocupacional/Portugal, sobre noções de pessoa,
espaço e deficiência na história da arquitetura.
Consideramos a antropometria como o milenar processo ou técnica de mensuração do
corpo humano ou de suas várias partes.
Quanto ao espaço físico, o ambiente no qual o homem esta inserido, Vitrúvio (Sec. I A.
C.) lega para a arquitetura o exemplo do próprio homem com as respectivas
dimensões de suas várias partes do corpo. Este entendimento para o bom uso dos
espaços edificados pelo homem - e para uso do homem - é até hoje uma norma
seguida. A arquitetura tem por dogma refletir a exemplar regularidade do corpo
humano.
Isto acompanha a evolução do homem desde os seus primórdios nas sombras das
protetoras cavernas.
Conseqüência do advento da Revolução Industrial pela qual passou a Europa e,
posteriormente, o mundo, a ergonomia ganha no século XX grande destaque. A
relação do homem com a máquina; a relação do homem com o seu ambiente físico de
trabalho; a produtividade desejada e os recursos para que se produza cada vez mais,
fazem da ergonomia o estudo da possibilidade e limites do desempenho do homem no
trabalho. A ergonomia analisa as interações entre o homem e os outros elementos de
um dado sistema, visando melhorá-los quanto a respostas motoras, conforto, fadiga,
esforço e bem-estar.
Vitrúvio, o homem e a arquitetura
No Renascimento, os ensinamentos de Vitrúvio passam novamente a ganhar grande
importância. É nessa época que os seus livros são traduzidos para a língua italiana.
Os dados antropométricos apresentados por ele, são desenhados por Leonardo Da
Vinci (± em 1490) no seu célebre trabalho “L’Uomo di Vitruvio” (O Homem de Vitrúvio).
Homem de Vitruvio
Modulor amarelo
Nessa referida ilustração são apresentadas as teorias de Vitrúvio. Um dos exemplos é
colocar um homem com os braços e mãos bem estendidos. A medida obtida entre
uma mão até a outra é equivalente à medida da sua altura. Coisa simples! Mas é com
isto que Vitrúvio demonstra a proporcionalidade entre as partes do corpo do homem e
chama a atenção para o entendimento do projetar as edificações a partir do mesmo
princípio. As diferentes partes do corpo do homem formam um interessante conjunto
de proporções que cabem em um círculo, bem como em um quadrado. Para Vitrúvio a
arquitetura deveria seguir o mesmo entendimento de ter a proporcionalidade das
partes para completar o todo harmoniosamente, pois as partes formam o todo. Para
ele a composição dos “recintos dos deuses imortais”, ou seja: os templos, depende da
proporção. Para ele “nenhum templo pode ser bem composto sem que se considere
alguma proporção ou semelhança, a não ser que tenha exatas proporções, como as
dos membros segundo uma figura humana bem constituída”.
O belo e o desprezível na plasticidade e formas arquitetônicas e humanas
Assim, o homem forte, com o corpo construído ou “edificado” na robustez e
proporções harmoniosas, denotando firmes alicerces, simetrias, regularidade,
preenchendo o espaço de maneira geometricamente calculada, tem por base uma
“figura humana bem constituída”.
Este é um exemplo evidente que a construção de conceitos, ou concepções,
referentes à pessoa portadora de deficiência, é um fator sócio-histórico sedimentado
pelos séculos.
A importância social do homem sempre foi analisada ou atribuída mediante a sua
capacidade de produção. Constituir-se em um ser produtivo frente aos mecanismos
sociais sempre foi o desafio para a aceitabilidade ou exclusão.
Desde a Antiguidade agro-pecuária de Senhores e sub-humanos, a Idade-Média de
Nobres feudais e servos, o Renascimento com o Novo Humanismo, à Modernidade
asfixiada pelas várias fases de evolução do Capitalismo, as pessoas se dividem em
produtivas e não produtivas.
Historicamente a pessoa portadora de deficiência representou no coletivo social o não
produtivo. Em uma abordagem sócio-político-econômica o conceito de pessoa
portadora de deficiência faz dela um produto não produtivo. Ela representou o não
rentável, um peso para o social, sendo ela, portanto, por séculos, o exterminável,
desprezível, intolerável, abandonável, enclausurável, institucionalizável, Foram estas
as várias formas de dizer ‘banível’ que no passado a avaliação social de produtividade
impôs à pessoa portadora de deficiência.
Modulor colorido
Modulor colorido
Sobre as fases da vida à pirâmide funcional
Após ter feito uma pequena incursão nos valores sócio-históricos, apontamos o
caminho tomado pela arquitetura teórica de Vitrúvio, é momento de agregar evolução,
complicar o já complexo. Em 1946 o arquiteto Le Corbusier(1887-1965), dentro dessa
mesma corrente, estabelece o seu “Modulor” com dimensões para a escala humana,
aplicável universalmente na arquitetura.
Mas apontamos que ainda se tratava da escala humana para o homem de Vitrúvio,
para a “figura humana bem constituída”. Sabemos que um módulo é uma medida
reguladora das proporções de uma obra arquitetônica. Com o seu trabalho Le
Corbusier quis mostrar que a natureza é matemática. Ele criou a sua escala humana
por entender ser complicada a existência e uso de dois sistemas de medidas: o anglosaxão e o métrico decimal. Suas pesquisas sobre a escala humana se basearam nos
estudos de Leonardo Pisano Fibonacci(1170-1250), na seção áurea e na procura da
harmonia visual na arquitetura. No entanto é importante lembrar que os sistemas
métricos e o de polegadas dificultam a aproximação e entendimento dos diferentes
países quando dos tratados de antropometria, de ergonomia, das normas e critérios de
acessibilidade para pessoas portadoras de deficiência ou pessoas idosas.
Mas estes detalhamentos são tão interessantes e complexos que dariam um outro
tema de estudos.
Harmonia visual e funcionalidade humana.
Junto ao entendimento do papel da arquitetura, da antropometria e da ergonomia para
garantir o homem produtivo e banir o não produtivo, vemos hoje que é importante
analisar e comparar os aspectos dimensionais e funcionais da relação homemambiente, pois vários conceitos caíram e novos foram forjados sobre o
desenvolvimento e o papel do homem em relação a sua potencialidade e capacidade.
A partir da década de 60 muitas coisas mudaram nas sociedades. Constantes
questionamentos sobre os direitos sociais; maior quantidade e diferentes estudos
sobre as populações; novos embasamentos técnicos e demográficos, auxiliaram para
que essas mudanças ocorressem.
A constatação do grande número de pessoas portadoras de deficiência, as
necessidades das pessoas idosas e os avanços da medicina, impulsionaram para o
completo entendimento de que os homens não são iguais.
São os países nórdicos e a Inglaterra que iniciaram o questionamento de que o
entendimento vitruviano da “figura humana bem constituída” pode ser substituído pelo
do homem concebido, respeitado e analisado dentro da sua diversidade de
capacidades e, também, incapacidades. O questionamento está sobre a idéia secular
do homem padrão cheio de força, de capacidades físicas, locomotoras, sensoriais e
cognitivas. Começou-se aí a exigir que o homem seja aceito como indivíduo em
constante evolução. Para isto inicia-se o entendimento da pirâmide da evolução
durante as idades da vida. Nesta pirâmide o indivíduo apresenta diferentes
capacidades ou incapacidades de acordo com o avanço de sua idade. E esta evolução
também acontece com as pessoas portadoras de deficiência.
Então, é nesse contexto presente na década de 60 que Selwyn Goldsmith torna-se um
dos primeiros autores a introduzir nas medidas antropométricas as variantes de sexo,
idade e capacidades das pessoas. A pessoa adulta em cadeira de rodas passa a
figurar nos manuais de antropometria. A partir deste fato, os objetos, as dimensões
nas edificações, e o mundo, também poderiam a ser vistos, tendo por base a realidade
do homem em uma cadeira de rodas, as suas possibilidades de alcance e uso do meio
onde vive.
Depois, na década de 80, o “Human Scale”, de H. Dreyfuss, acrescenta a figura da
criança nos seus conhecidos estudos antropométricos. E no caso, também a criança
em cadeira de rodas. Portanto tínhamos o homem e a mulher adultos e a pessoa
adulta em cadeira de rodas. Com Dreyfuss passamos a ter também a criança e a
criança em cadeira de rodas.
As ajudas e barreiras dos fatores ambientais e as incapacidades latentes do
homem
Recentemente Selwyn Goldsmith, pensando no desenho arquitetônico para todos,
formatou uma nova pirâmide constituída por oito diferentes realidades nas quais as
pessoas estão inseridas. Nesta pirâmide, as pessoas se agrupam de acordo com as
características funcionais que elas apresentam. Isto independe do seu sexo, da sua
idade; depende exclusivamente dos seus aspectos funcionais frente aos fatores
ambientais nos quais ela está inserida. Como exemplo temos os edifícios de uso
público que podem representar grandes obstáculos para as pessoas. Esses edifícios
nem sempre são pensados para garantir o uso das pessoas nas suas diferenças e
diversidade de habilidades, na sua funcionalidade e incapacidade de acordo com as
diferentes esferas da existência. Essas pessoas são desde as que pulam, saltam,
sobem escadas, carregam bagagem; pessoas hábeis, mas não com habilidades
atléticas; pessoas com necessidade de ir com maior freqüência no sanitário
(necessidade de quantificação racional de sanitários na edificação) ou necessidade de
sentar-se ou descansar; pessoas idosas que começam a perder ou apresentar a
diminuição de algumas de suas habilidades, pessoas empurrando carrinhos; pessoas
com deficiência ambulatória parcial; pessoas em cadeira de rodas com sua locomoção
autônoma; pessoas em cadeira de rodas que necessitam de auxílio de terceiros para a
sua locomoção; pessoas totalmente dependentes.
O papel da arquitetura pensada para o conforto e uso do homem, para servir e acolher
o homem – além dos valores estéticos, simbólicos, culturais – está em seu novo
paradigma vinculativo do entendimento da discriminação arquitetônica como o grande
antônimo do conceito da arquitetura inclusiva.
Discriminação Arquitetônica x Arquitetura Inclusiva
Agir na dicotomia discriminação arquitetônica/arquitetura inclusiva é atuar, sobretudo,
nos dados antropométricos. Ter a compreensão das medidas das várias partes do
corpo humano nos possibilita o cálculo da área necessária para o alcance e
possibilidade de manipulação, uso ou acionamento de um objeto.
Quanto mais os projetos forem pensados para atender conjuntamente as
necessidades funcionais do maior número possível de pessoas, mais estaremos
praticando a arquitetura inclusiva.
Para a realização dos projetos de arquitetura, ou mesmo de ergonomia, é capital a
existência de dados da mensuração da população do país. É evidente que cada país
deve arquitetar, prover os seus projetos, levando em consideração a média
antropométrica da população. Com estes dados torna-se viável, mais racional e
eficiente a intervenção nos espaços naturais ou construídos. A partir desses dados
podemos melhor solucionar as necessidades de mobilidade, visuais, táteis, cognitivas
e auditivas das pessoas.
A arquitetura inclusiva deve exercer o papel de compensador e facilitador das
diferentes capacidades de uso apresentadas pelas pessoas.
As regras de acessibilidade devem seguir os dados antropométricos. Devem refletir e
basear-se nos dados médios da população e apresentar critérios que atendam o uso
do maior número possível de pessoas. Sem esse princípio as normas não serão
igualitárias e correm o risco de atender somente uma parcela específica da população,
ou tipos específicos de incapacidades de uma porcentagem da população.
O homem em sua diversidade
Modulor sentado
Eixo de excelência
Como exemplo desse amálgama podemos colocar juntas pessoas de uma mesma
origem: um homem adulto em pé, uma mulher adulta em pé, uma pessoa adulta em
cadeira de rodas e uma criança em pé. Estas pessoas terão a altura de sua mão
sempre dentro do que chamamos “eixo de excelência”. Alturas muito próximas umas
das outras, independentemente se estão sentadas ou em pé. Quem está em pé pode
abaixar o braço e quem está sentado pode esticar o braço e a criança pode erguer o
braço. O eixo de excelência está em média entre 0,80 m do chão até 1,10 m de altura.
É dentro deste princípio no plano horizontal que se estabelece a colocação dos
objetos como acessórios, maçanetas, botoeiras, pegadores, barras de apoio, corrimão,
guarda-corpo, interruptor, teclado de computador, telefônicos públicos, mobiliário
urbano, entre outros.
Sabemos também que muitas pessoas portadoras de deficiência fazem uso de cadeira
de rodas, bengalas, muletas, andador, ou andam com auxílio de um acompanhante ou
um cão guia. Com isto os espaços devem ser dimensionados não somente para a
pessoa, mas também para bem receber e não obstaculizar a órtese, o acompanhante
ou o cão-guia.
Como tentamos mostrar nos exemplos acima, as pessoas não são idênticas, nem em
dados antropométricos, nem em funcionalidades. Cada pessoa possui as suas
particularidades e é muito difícil normatizar o homem em sua diversidade. O ser
humano sofre muitas alterações com o passar dos anos. Isto possibilita a aquisição de
muitas habilidades ou também a perda de capacidade.
Para além do normológio, do normodotado, a arquitetura inclusiva nos edifícios, meios
urbanos, veículos, objetos, mobiliários, equipamentos de saúde, entre outros,
desempenha um papel de extrema importância para propiciar a participação das
pessoas com incapacidades na sociedade. Prover a arquitetura inclusiva a partir de
estudos minuciosos, abrangentes, seguros, que levem em consideração as fases da
vida, a antropometria, o design inclusivo, a funcionalidade e a tecnologia, é
fundamental para não gerarmos inadequação, segregação, exclusividade, prioridades
de uso. Ela é essencial para propiciarmos a participação e o reconhecimento de todos.
Do Inclusivo – A arquitetura e design
Em resumo, o homem só pode produzir bem e satisfatoriamente se as ajudas técnicas
estiverem ao seu favor. Na maioria dos casos as ajudas técnicas são nada mais que
um batalhão de profissionais das mais diversas áreas, trabalhando e produzindo para
que as pessoas portadoras de deficiência consigam exercer o máximo da sua
capacidade. A arquitetura e design (arquitetura inclusiva e design inclusivo) são
ferramentas importantes para este propósito. Como simples exemplo pode-se imaginar
que eles estão presentes nos espaços edificados dos escritórios (rampa, elevador,
altura de janelas, revestimento de piso, cores, iluminação, corredores) bem como nos
seus mobiliários e equipamentos (dimensões de mesas, cadeiras, armários, teclado de
computador, aparelho de telefone, maçaneta de portas e de armários) desenhados
para atender as necessidades dos usuários. Este é o papel da arquitetura inclusiva em
cooperar com o atual conceito/concepção sócio-histórico da deficiência, possibilitando
condições biologicamente fundadas sobre a diversidade humana para que as pessoas
portadoras de deficiência tenham igualdade de oportunidades, respeitando-se as suas
limitações na atividade, mas adequando os fatores ambientais para que elas possam
se mostrar produtivas, integradas.
Se pegamos todos estes recursos e colocamos em altura, lugar ou para prioridade
desta ou daquela pessoa, não temos uma Arquitetura Inclusiva, temos somente uma
proposta de adequação ou adaptação na arquitetura. Tão exclusiva quanto
excludente.
Notas
1
Artigo elaborado com base no publicado originalmente na Revista Nacional de Reabilitação, Ano VI,
número 30, janeiro/fevereiro 2003, paginas 13 à 15, São Paulo.
Todas as imagens são figuras editadas e modificadas na JALFACCESS Arquitetura e Consultoria com o
enfoque da acessibilidade e incapacidade
( Extraído de http://www.vitruvius.com.br/arquitextos/arq000/esp204.asp )
Ver também http://www.casasegura.arq.br/
TEXTO 6 A Moderna Construção Sustentável*
Márcio Augusto Araújo, consultor do IDHEA – Instituto para o Desenvolvimento da Habitação
Ecológica, www.idhea.com.br, [email protected]
A moderna Construção Sustentável é um sistema construtivo que promove
intervenções sobre o meio ambiente, adaptando-o para as necessidades de uso,
produção e consumo humano, sem esgotar os recursos naturais, preservando-os para
as gerações futuras.
A Construção Sustentável faz uso de ecomateriais e de soluções tecnológicas e
inteligentes para promover o bom uso e a economia de recursos finitos (materiais,
água e energia não-renovável), a redução da poluição e a melhoria da qualidade do ar
no ambiente interno e o conforto de seus moradores e usuários.
As linhas-mestras da Construção Sustentável são as seguintes:
• Gestão da obra: Estudo de impacto ambiental; Análise de Ciclo de Vida da obra e
materiais; Planejamento Sustentável e Aplicação de Critérios de Sustentabilidade;
Gestão dos resíduos na obra; Estudos de consumo de materiais e energia para
manutenção e reforma; Logística dos materiais;
• Aproveitamento passivo dos recursos naturais: iluminação natural, conforto térmico e
acústico, formação e interferências no clima e microclima;
• Eficiência energética: racionalização no uso de energia pública fornecida e, quando
possível, aproveitamento de fontes de energia renováveis, como eólica (vento) e solar;
uso de dispositivos para conservação de energia
• Gestão e economia da água: uso de sistemas e tecnologias que permitam redução
no consumo da água; uso de tecnologias que permitam o reuso e recirculação da água
utilizada na habitação (fins não potáveis); aproveitamento de parte da água de chuva
para fins não-potáveis e até potáveis (dependendo da região e do tratamento
aplicado);
• Gestão dos resíduos gerados pelos usuários: criação de área(s) para coleta seletiva
do lixo, destinação e reciclagem;
• Qualidade do ar e do ambiente interior: criação de um ambiente saudável, respirante,
não-selado/plastificado, isento de poluentes (tais como partículas em suspensão,
COVs/ compostos orgânicos voláteis), com uso de materiais biocompatíveis, naturais
e/ou que não liberem substâncias voláteis;
• Conforto termo-acústico: uso, se preciso for, de tecnologias eco-inteligentes para
regular a temperatura e som compatíveis com o ser humano; umidade relativa do ar
adequada
• Uso de ecoprodutos e tecnologias sustentáveis para todas as instâncias da obra
• Não-uso ou redução no uso de materiais condenados na Construção Sustentável,
como PVC, amianto, chumbo e alumínio, dentre outros.
Construção Sustentável e Construção Ecológica
A Construção Sustentável difere da Ecológica por ser produto da moderna sociedade
tecnológica, utilizando -ou não- materiais naturais e produtos provenientes da
reciclagem de resíduos gerados pelo próprio modo de vida de seus habitantes.
Outra característica da Construção Sustentável é que ela nunca é intuitiva. Mesmo
quando emprega produtos ou processos artesanais (por ex. blocos de adobe ou
paredes erguidas em taipa de pilão), o faz conscientemente, buscando o sucesso
ambiental integral da obra, mesclando técnicas tradicionais a moderna tecnologia caso das belíssimas construções em terra encontradas na Califórnia e Novo México
(EUA) e na Austrália.
Já a Construção Ecológica ou Natural pode ser definida como aquela que permite a
integração entre homem e natureza, com um mínimo de alteração e impactos sobre o
meio ambiente.
À maneira das habitações de outros seres vivos (como castores, abelhas e formigas),
a Construção Ecológica usa recursos naturais locais de maneira integrada ao meio,
sendo, muitas vezes, instintiva e intuitiva, com aplicação de autotecnologias[1], modos
de autoconstrução[2] e com pouca necessidade do uso de energia para obtenção,
transformação e transporte dos materiais utilizados. Este é o caso das habitações
indígenas, das construções de terra pré-islâmicas nos países árabes e dos iglús, dos
esquimós. Esse tipo de habitação, que de fato merece o nome de ecologicamente
correta, é quase impraticável nos modernos centros urbanos, onde a heterogeneidade
de povos e culturas e o estilo de vida e produção exigem materiais oriundos de lugares
distantes e uma construção civil executada por profissionais.
Como denominador comum, Construção Sustentável e Ecológica têm o fato de
gerarem habitações que preservem o meio ambiente e de buscarem soluções locais
para problemas por elas mesmas criados.
A obra sustentável
A sustentabilidade de uma obra moderna é avaliada pela sua capacidade de
responder de forma positiva aos desafios ambientais de sua sociedade, sendo ela
mesma um modelo de solução. A Casa Sustentável deve(ria): a) usar recursos
naturais passivos e de design para promover conforto e integração na habitação; b)
usar materiais que não comprometam o meio ambiente e a saúde de seus ocupantes
e que contribuam para tornar seu estilo de vida cotidiano mais sustentável (por
exemplo, o usuário de embalagens descartáveis deveria usar produtos reciclados a
partir dos materiais que, em algum momento, ele mesmo usou); c) resolver ou atenuar
os problemas e necessidades gerados pela sua implantação (consumo de água e
energia); d) prover saúde e bem-estar aos seus ocupantes e moradores e preservar ou
melhorar o meio ambiente.
Todos esses desafios teriam de ser considerados em todo o ciclo de vida da
habitação, sendo esta pensada como uma obra aberta: sempre passível de ampliação
e melhoramentos.
Casa Saudável
Não há casa sustentável sem ser saudável. A finalidade de uma construção
sustentável não é apenas preservar o meio ambiente, mas também ser menos
invasiva aos seus moradores. Ela não pode ser geradora de doenças, caso de prédios
que geram a 1Síndrome do Edifício Doente (SEE*). A Casa Sustentável deve
funcionar como uma segunda ou terceira pele do próprio morador, porque ela é sua
extensão, como ensina o geobiólogo espanhol Mariano Bueno. Ela é seu ecossistema
particular, e, assim como no planeta Terra, todas as interações devem ocorrer
reproduzindo ao máximo as condições naturais: umidade relativa do ar, temperatura,
alimento, geração de resíduos e sua transformação, conforto, sensação de segurança
e bem-estar, etc.
Escolha dos materiais
A escolha dos materiais na Construção Sustentável deveria, em princípio, obedecer a
critérios de preservação, recuperação e responsabilidade ambiental. Isso significa que,
ao se iniciar uma construção, é importante considerar os tipos de materiais que estão
de acordo com o local (como sua geografia, ecossistema, história, etc.) e que podem
contribuir para conservar e melhorar o (meio) ambiente onde será inserida. Materiais
que guardam relação direta com o estilo de vida do local e do usuário devem ser
avaliados. Por exemplo, se o morador reside e trabalha em uma área urbana,
possivelmente comprará alimentos envolvidos por embalagens plásticas descartáveis;
é muito provável também que utilize um automóvel para se deslocar da casa para o
escritório e vice-versa.
Assim sendo, nada mais justo que este mesmo usuário/consumidor/cliente opte,
conscientemente, pelo uso de um produto resultante de um resíduo gerado para
atender às suas necessidades -no caso, as embalagens descartadas poderiam
retornar no formato de telhas e a areia de fundição usada para manufaturar os moldes
que deram origem às peças de seu automóvel ganha uma nova etapa de seu ciclo de
vida, como blocos de concreto reciclados.
Deve-se lembrar que toda Construção Sustentável é saudável. Esse tipo de obra
caracteriza-se pelo uso de materiais e tecnologias biocompatíveis, que melhoram a
condição de vida do morador ou, no mínimo, não agridem o meio ambiente em seu
processo de obtenção e fabricação, nem durante a aplicação e em sua vida útil. Que
produtos convencionais estariam fora dessa lista? Por exemplo, todos aqueles que
emitem gases voláteis (os COVs – compostos orgânicos voláteis), como tintas,
solventes, resinas, vernizes, colas, carpetes sintéticos e espumas. Em seu lugar, a
solução mais simples e de mercado é buscar sempre produtos à base de água ou
100% sólidos (isto é, que em contato com o oxigênio não emitem gases ou odores).
É importante evitar também materiais que reconhecidamente estão envolvidos com
graves problemas ambientais, e sobre os quais hoje há consenso entre todas as
entidades sérias que trabalham com Construção Sustentável e Bioconstrução no
mundo, caso do PVC (policloreto de vinil) e o alumínio. Outros produtos, considerados
aceitáveis na ausência de outras opções, devem ser usados de maneira bastante
criteriosa principalmente no interior de casa, como compensados e OSBs (colados
com cola à base de formaldeído). O mesmo vale para madeiras de reflorestamento
tratadas por autoclave (sistema CCA), as quais são imunizadas com um veneno à
base de arsênico e cromo –este tipo de madeira, em consenso entre a EPA (Agência
de Proteção Ambiental norte-americana) e fabricantes nos EUA, está proibida naquele
país desde dezembro de 2003.
As empresas, os governos e as ONGs não são as únicas responsáveis pelos materiais
de construção e pelo estado atual do meio ambiente. O consumidor, ao optar por um
produto A, B ou C, é também co-responsável por todo o processo, já que é para ele
que se destinam todos os produtos e, por extensão, as construções. Ele é o “target” do
mercado e, com uma nova consciência, pode ajudar a alterar as regras do mercado.
Tendências da Construção Sustentável
A Construção Sustentável é uma síntese das escolas, filosofias e abordagens que
associam o edificar e o habitar à preocupação com preservação do meio ambiente e
saúde dos seres vivos. Para ela convergem tendências como: arquitetura ecológica,
arquitetura antroposófica, arquitetura orgânica, arquitetura bioclimática, bioconstrução,
ecobioconstrução, domobiótica, arquitetura sustentável, construção ecológica,
construção e arquitetura alternativas, earth-ship (navio terrestre/construção com
resíduos), arquitetura biológica e permacultura. É importante, no entanto, frisar que a
Construção Sustentável não é um método exclusivo de engenheiros e construtores,
assim como a arquitetura ecológica não é restrita aos arquitetos.
Na verdade, a Construção Sustentável reúne aspectos e disciplinas do conhecimento
humano que deveriam ser considerados e aplicados antes mesmo de se projetar uma
obra. A Construção Sustentável reúne conhecimentos de arquitetura, engenharia,
paisagismo, saneamento, química, eletrônica, mas também de antropologia, medicina,
sociologia, psicologia, filosofia e espiritualidade. Uma Casa Sustentável é um
microcosmo, representando em pequena escala as relações entre o ser e o seu meio.
Ela deve ser uma extensão do próprio planeta Terra. O morador ou usuário da
edificação deve considerar seu imóvel como uma referência clara de seu bem-estar.
Não se deve esquecer que mais de 2/3 do tempo de vida humana é passado dentro de
algum tipo de construção. Seja trabalhando, dormindo, em lazer, em atividades
religiosas etc.
Trabalhar para que um imóvel seja sustentável (e não ecológico, como erroneamente
se fala) é de fundamental importância para a saúde do indivíduo e do planeta. A
verdadeira Construção Sustentável o é não apenas porque não esgota os recursos
empregados para sua edificação e uso, mas também porque sustenta aqueles que a
habitam. Ela é a base para suas realizações, segurança, alegria e felicidade. Essa
visão deveria permear qualquer projeto ou idéia de construção sustentável ou
habitação sustentável.
Tipos de Construção Sustentável
Os principais tipos de Construção Sustentável resumem-se, praticamente, a dois
modelos: a) construções coordenadas por profissionais da área e com o uso de
ecomateriais e tecnologias sustentáveis modernos, fabricados em escala, dentro das
normas e padrões vigentes para o mercado; e b) sistemas de autoconstrução (que
incluem diversas linhas e diretrizes), que podem ou não ser coordenados por
profissionais (e por isso são chamados de autoconstrução). Incluem grande dose de
criatividade, vontade pessoal do proprietário e responsável pela obra e o uso de
soluções ecológicas pontuais (para cada caso).
Construídas com materiais sustentáveis industriais – Construções edificadas com
ecoprodutos fabricados industrialmente, adquiridos prontos, com tecnologia em escala,
atendendo a normas, legislação e demanda do mercado. É a mais viável para áreas
de grande concentração urbana, porque se inserem dentro do modelo sócioeconômico vigente e porque o consumidor/cliente tem garantias claras, desde o início,
do tipo de obra que estará recebendo. Raras vezes quem opta por este tipo de
construção –clientes de médio e alto padrão- utiliza soluções artesanais ou caseiras.
Construídas com resíduos não-reprocessados (Earthship), reuso de materiais de
origem urbana, tais como garrafas PET, latas, cones de papel acartonado, etc.
Comum em áreas urbanas ou em locais com despejo descontrolado de resíduos
sólidos, principalmente onde a comunidade deve improvisar soluções para prover a si
mesma a habitação. É também um modelo criativo de Autoconstrução, que ocorre
muito nas periferias dos centros urbanos ou junto a profissionais com espírito criativo.
Construídas com materiais de reuso (demolição ou segunda mão). Esse tipo de
construção incorpora produtos convencionais e prolonga sua vida útil, e requer
pesquisa de locais para compra de materiais, o que reduz seu alcance e
reprodutibilidade. Este sistema construtivo emprega, em geral, materiais
convencionais fora de mercado. É um híbrido entre os métodos de Autoconstrução e a
construção com materiais fabricados em escala, sendo que estes não são
sustentáveis em sua produção.
Construção alternativa. Utiliza materiais convencionais, encontrados no mercado,
conferindo-lhes funções diferentes das originais. É um dos modelos principais no seio
das comunidades carentes. Exemplo: aquecedor solar que utiliza peças de forro de
PVC como painel para aquecimento de água e caixa d´água comum como boiler.
Sistema de Autoconstrução que se assemelha muito ao Earthship.
Construções naturais. Faz uso de materiais naturais disponíveis no local da obra ou
adjacências (terra, madeira, bambu, etc.), utilizando tecnologias sustentáveis de baixo
custo e dispêndio energético. Exs.: tratamento de efluentes por plantas aquáticas,
energia eólica por moinho de vento, bombeamento de água por carneiro hidráulico,
blocos de adobe ou terra-palha, design solar passivo. Método construtivo adequado
principalmente para áreas rurais ou quando se dispõe de áreas que permitam boa
integração com elemento vegetal, nas quais haja pouca dependência das habitações
vizinhas e dos fornecimentos (água, luz, esgoto) pelo Poder Público. Sistema que se
insere nos princípios da Autoconstrução (caso da Permacultura).
Ref,:
1 – Autotecnologia. Tecnologia desenvolvida pelo próprio morador e/ou comunidade,
com aplicação no próprio local.
2 – Autoconstrução. Sistema construtivo em que o próprio morador e/ou comunidade
constrói sua habitação, com ou sem a ajuda de um profissional da área.
3 - Síndrome do Edifício Enfermo (SEE). Patologia catalogada pela OMS (Organização
Mundial da Saúde) cuja ocorrência se dá em prédios e edifícios com má ventilação e
baixa dispersão de poluentes internos (gás carbônico, fumaça de cigarro e automóvel,
emissão e acúmulo de compostos orgânicos voláteis). Considera-se que um edifício
está “enfermo” quando cerca de 20% de seus moradores ou usuários apresentam
sintomas semelhantes como: irritação nasal e ocular, problemas respiratórios e malestares em geral.
( Extraído de www.idhea.com.br )
TEXTO 7 Four horizons: a casa auto-suficiente
Ana Rosa de Oliveira
Ana Rosa de Oliveira é engenheira florestal e doutora em Arquitetura pela Universidade de Valladolid. É co-autora do
livro Ecotecture-Ecological Architecture (Loft, Barcelona, 1999). Na França trabalhou com os paisagistas Daniel
Laroche (Montpellier) e Guéric Pére (Lion). No Brasil, no Instituto Estadual de Florestas de Minas Gerais. Atualmente é
professora e pesquisadora do PROPAR - Programa de Pós Graduação e Pesquisa em Arquitetura, UFRGS e bolsista
recém-dr, CNPq
A casa Four Horizons se ergue sobre um alcantilado no interior da Floresta Estadual
de Watagan, recentemente transformada em Parque Nacional. Situa-se a 150 Km de
Sydney, 430m, acima do nível do mar e se abre a espetaculares vistas do vale do rio
Hunter.
O essencial desse projeto é a concepção da casa. O lugar em que se situa, com seu
relativo isolamento geográfico e a ausência de qualquer serviço público (rede de água
e esgotos, eletricidade, telefone) leva a pensar na vontade do seu autor e cliente de ir
mais além, de realizar um experimento em condições extremas, já que se a casa não
definisse sua auto-suficiência energética e de serviços, provavelmente estaria
condenada ao fracasso.
Desse modo, a utilização do lugar é feita para que seus mecanismos de ajuste, como
todo sistema auto-regulado não se voltem contra os interesses humanos. Nesse
sentido, não se tratou de dispor a casa tentando "proteger" a natureza (ela mesma se
autoprotege), mas de organizar nela a sustentabilidade da presença humana.
Isso confere novos conteúdos à casa, que deve se encarregar de obter, controlar e
gerir suas próprias fontes de energia. O objetivo foi servir-se de materiais e
tecnologias facilmente disponíveis, reciclar os resíduos gerados e viabilizar atividades
de baixo impacto ambiental.
A provisão de água é feita por coleta e aproveitamento da água da chuva. A energia
solar é utilizada para o aquecimento da água, geração de eletricidade e acionamento
de uma rádio que unifica telefone/fax/e-mail. A orientação da casa e as soluções
construtivas permitem a climatização natural. Os resíduos gerados são tratados e logo
lançados outra vez ao ambiente, cuidando para minimizar o impacto sobre o seu
entorno. A lenha é usada para cozinha e calefação.
A casa se instala paralelamente aos alcantilados para aproveitar o sol da manhã no
inverno e as brisas frescas do verão, voltando sua parte posterior aos ventos
dominantes. Externamente dispõe-se uma série de placas solares , os geradores, as
dependências de garagem e estábulo, unidas a um jardim fechado que conforma um
pátio.
O sistema de coberturas da casa é resolvido com um teto a duas águas, construído
com estrutura metálica e chapa ondulada galvanizada, seguindo o padrão das naves
agrícolas australianas. Esta primeira cobertura é separada da casa propriamente dita,
para regular a ventilação, as temperaturas e a entrada de luz, além de aportar uma
grande superfície de sombra e de coleta de água da chuva. A água coletada na
cobertura da casa armazena-se em tanques com uma capacidade muito superior à
utilizada diariamente (600l) e garante uma reserva para muitos meses de consumo.
Sob essa estrutura são dispostos dois módulos habitáveis com sub-tetos metálicos
curvados, que abrigam por um lado, a área comunitária e as salas de estar, cozinha e
despensa e de outro, um estúdio e dois quartos com seus respectivos banheiros.
Estas duas dependências da casa separam-se através de um estreito corredor ao ar
livre que possibilita maior eficiência térmica, ao mesmo tempo que atua como isolante
de ruídos e atividades.
As soluções construtivas são adequadas às condições térmicas das diferentes
disposições. Enquanto que, internamente, os muros de alvenaria (concreto) são
expostos, o lado que dá ao exterior é revestido com poliester/lã isolante, mini-esferas
de aço e tábuas de eucalipto, possibilitando o seu isolamento térmico.
Essas condições, associadas às propriedades físicas e a clara disposição de outros
elementos como os brises, a cobertura, os tijolos perfurados, o corredor ao ar livre e
as dependências externas, conduzem à uma boa resposta térmica da casa que
mantém uma diferença de menos 10°C com a temperatura externa no verão e,
inversamente no inverno.
No âmbito tradicional da casa unifamiliar australiana esta residência também se
destaca pela sua economia energética. Em Four Horizons, a situação, orientação,
seleção de materiais, o método construtivo, o cuidadoso manejo de recursos e
resíduos gerados, foram orientados por uma concepção integral do processo. A
apresentação desse projeto supõe também um desafio, ele estabelece que uma
arquitetura ecológica e sustentável pode ser estabelecida como norma e integrada ao
cotidiano.
( Extraído de http://www.vitruvius.com.br/arquitextos/arq000/esp014.asp )
TEXTO 8 Residência da Arquiteta
Projeto: Consuelo Jorge Arquitetura
In http://www.metalica.com.br/pg_dinamica/bin/pg_dinamica.php?id_pag=1285
Projetada e construída por Consuelo Jorge e seu marido, o engenheiro Sergio
Cordeiro, esta casa localizada em Campo Belo possui ambientes iluminados,
integrados e funcionais.
Sem descuidar a preocupação pela ecologia e a preservação ambiental, a arquiteta
utiliza aço, vidro, recursos tecnológicos, e bom design em um projeto com ambientes
integrados e características de loft, concluída em apenas 9 meses.
A busca da racionalidade do projeto arquitetônico se estendeu aos materiais
construtivos:
• Estrutura metálica aparente com vigas "I" de 300 mm e pilares de 150 x 150 mm,
visando a redução do tempo de obra e conseqüentemente dos custos finais, além de
permitir um visual moderno e amplos vãos livres.
• Lajes sysdeck agilizaram a execução e eliminaram gastos com formas e
escoramentos além de permitirem uma obra limpa.
• A cobertura curva é de telhas metálicas fixadas sobre vigas treliça, com isolamento
termo-acústico em lã de rocha e acabamento interno com forro de madeira.
• O predomínio do vidro e do branco conferiu aos espaços ainda mais amplidão
reduzindo o consumo de energia, e a iluminação artificial racionalizada com o uso de
controle automatizado, dimerização, e sensores de presença que acendem a apagam
luzes gerando segurança e economia.
A casa possui um mínimo de paredes, com pé direito triplo propiciando a integração
dos ambientes, e cercada de vidro. Para evitar o desconforto visual que poderia surgir
devido a tantas janelas, o uso de cortinas blecaute, persianas e brises móveis
metálicos permitem controlar e filtrar o excesso de luz.
A passarela de vidro e metal que cruza o espaço na altura do primeiro andar faz a
comunicação entre dois blocos distintos, ligando a ante-sala do quarto do filho à ala do
casal.
A suite principal é uma das poucas áreas não integradas da casa, preservando sua
privacidade, reforçada com uso de cortinas tipo blecaute e vidro especial de 12mm,
que minimiza o barulho da rua.
A residência possui uma ambientação cuidada em que o paisagismo e os detalhes da
decoração se aliam para obter um resultado moderno, leve e acolhedor. Os móveis
que fazem parte da decoração dos ambientes são assinados pela arquiteta.
Logo na entrada uma cascata ajuda a resfriar chapas de aço. Por trás, corre uma
tubulação que leva para dentro da sala ar fresco e úmido. É um ar-condicionado
ecológico, que reduz a temperatura da casa em até 5 graus centígrados.
Uma parede de 10 m de altura foi preparada para escalada esportiva, incluindo um
elemento lúdico e de descontração ja que o casal tem um filho de 10 anos.
As principais estratégias desenvolvidas pela arquiteta e seu marido para economizar
energia elétrica e água são:
1.) Ar–condicionado ecológico – Existe um sistema de ventilação que traz para o
interior o ar resfriado por duas cascatas que correm sobre chapas de aço. Ao passar
pela cortina de água, o ar é filtrado, e as impurezas, retidas. A ventilação acontece por
meio de grelhas inseridas no piso e no teto.
2.) Energia alternativa – painéis com células fotovoltaicas implantados no telhado,
convertem a luz do sol em eletricidade usada para esquentar a água do banho. Em
dias nublados, um equipamento movido a gás natural entra em cena e aquece a água.
3.) Reuso de água – Após a utilização, a água dos chuveiros, lavatórios, máquina de
lavar e tanque passa por dois filtros e vai para uma caixa -d´água sob o deck, onde é
clorada e transportada por meio de uma bomba até a segunda caixa localizada no
telhado. Depois de purificada, a água está novamente pronta para ser usada em
descargas.
Água da chuva – coletada no telhado, a água de chuva é filtrada, clorada e
armazenada. Posteriormente, é usada para a irrigação do jardim e as torneiras
externas. A água ácida e poluída, coletada após longos períodos de estiagem, é
descartada por meio de um programa de computador que controla os reservatórios.
4.) Aproveitamento do calor – sistema que capta o ar frio junto ao piso, o aquece numa
câmera de ar em torno de lareira e retorna para o ambiente através de grelhas com a
ajuda de um motor.
5.) Automação – Toda a iluminação da casa é comandada por três centrais de
automação (uma por andar). Cada central, que pode ser acionada por controle remoto,
cria diferentes atmosferas de luz, além de comandar as cortinas e o telão do home
theater.
Técnicas e Sistemas Construtivos:
1. Estrutura metálica reduzindo o impacto ambiental e eliminando o desperdícios na obra;
2. Telhado com isolamento termo-acústico, melhorando o conforto térmico;
3. Ventilação natural conferida pelos grandes vãos, e exaustão no pé-direito triplo central;
4. Brises fixos e móveis controlando a entrada de luz e calor;
5. Cobertura Móvel automatizada racionalizando a entrada de luz e chuva;
6. Ar condicionado ecológico:circulação do ar atrás da cascata (resfria, umidifica e limpa o ar);
7. Lareira que recupera o ar aquecido abaixo da câmara de combustão para aquecer melhor;
8. Persianas rolo acionadas por controle remoto filtram a passagem do Sol;
9. Aquecimento Solar da água controlada por central aciona aquecimento a gás caso
necessário;
10. Água da chuva é coletada para irrigação automatizada do jardim e nas torneiras externas;
11. Água servida nos lavatórios, tanque e chuveiros é filtrada e reutilizada nas bacias;
12. Controle dos níveis de água dos reservatórios é feito por uma central computadorizada;
13. A iluminação é comandada por central, reduzindo gastos e possibilita variações da luz;
14. Torneiras com sensores reduzem o consumo de água;
15. Iluminação de emergência com rotas de fuga e nas principais dependências ;
PROJETO E DETALHES DA ESTRUTURA
Para conferir os detalhes da estrutura e visualizar as plantas, cortes e fachadas do
projeto http://www.metalica.com.br/pg_dinamica/bin/pg_dinamica.php?id_pag=1286
(O Projeto Arquitetônico, Detalhes da Estrutura Metálica, Vigas, Passarela e Cobertura)
TEXTO 9 Partido contrapõe rigidez do vidro à flexível alvenaria
Reinach Mendonça Arquitetos Associados
Residência, Bragança Paulista-SP
A comunicação entre interior e exterior é uma das funções da área envidraçada
A casa de veraneio está implantada em lote de esquina com generosas dimensões. Em vez
de acompanhar o paralelismo de algumas divisas, o eixo de implantação tem sentido nortesul. O partido privilegiou a vista e agrupou os ambientes em dois volumes que se
diferenciam pela estrutura, uso e fechamentos.
A área de estar - composta por hall, sala, rampa e varanda - é abrigada por volume de
estrutura metálica e fechamento com amplos caixilhos de alumínio e vidro. Com planta
retangular e pé-direito de seis metros, mais de dois terços dessa parte da construção se
destinam a um estar aberto, também com altura dupla.
Com pé-direito de seis metros, o pavilhão de vidro destaca-se em relação ao gabarito do bloco de alvenaria
O contato com a natureza e com a área de lazer, preocupações típicas numa casa de
campo, motivou essa transparência, que levou os arquitetos Henrique Reinach e Maurício
Mendonça a chamá-la de “casa de vidro”, como a que Philip Johnson criou em 1949 (leia
PROJETO DESIGN 301, março de 2005).
E tal como na residência norte-americana, a contraposição surge com todos os
outros espaços da edificação - salas de jantar e televisão, zona de serviço e área íntima agrupados em volumes fechados, com aberturas convencionais. Mas aqui os dois corpos
estão unidos, pois a área em alvenaria possui planta em L que circunda duas das quatro
laterais do pavilhão envidraçado.
O partido adotado contrapõe a área envidraçada
ao volume de alvenaria
“Onde eram necessários vãos maiores, adotamos estrutura metálica; no restante,
utilizamos estrutura convencional de concreto armado e fechamentos em alvenaria”, relata
Reinach. A ampliação e a composição do volume opaco permitem afirmar que à
rigidez do bloco de vidro contrapõe-se a flexibilidade da alvenaria - o que pareceria
um contra-senso, já que o aprendizado comum diz que o grande vão é que dá flexibilidade.
Por isso o partido foi positivo no desenvolvimento do projeto, que sofreu acréscimos e
subtrações ao longo do trabalho.
A suíte principal, por exemplo, inicialmente seria assobradada, sobre a sala de jantar.
Também no segundo piso, sobre o pé-direito duplo do estar, estaria o mezanino com a sala
de TV. Por questões de custo - a circulação aumentava a área construída -, os clientes
optaram por colocar o quarto principal junto à zona íntima, aumentando o volume de
massa branca, flexível o bastante para passar por acréscimos ou subtrações sem perdas
estéticas. Na outra extremidade, acrescentou-se o espaço da sala de TV ao lado
daquele destinado às refeições. Torna-se visível, então, que no desenho original a casa
era mais compacta e o bloco de alvenaria em L, mais puro.
A construção acomoda-se à topografia do lote, em dois níveis, o que é freqüente no
conjunto da obra residencial da dupla de arquitetos. Enquanto a área social e a de serviço
estão na mesma cota, toda a zona íntima situa-se meio nível acima. Voltando à idéia
inicial - suíte e mezanino em piso superior -, fica mais fácil entender a opção pela rampa,
que seria dupla, com dois lances paralelos. “Talvez nunca fizéssemos uma rampa para
vencer meio nível”, comenta Reinach
a proteger a área de estar do excesso de sol
Brise de alumínio e telas metálicas no beiral ajudam
A área do terraço corresponde a mais de duas vezes a da sala de estar
Com a maior fachada voltada para o nascente, o pavilhão de vidro é parcialmente
protegido por brise de alumínio situado junto ao estar. Também auxiliam na proteção
térmica as telas metálicas que fecham parte do perímetro da cobertura - corresponden-te ao
beiral - do bloco envidraçado. Internamente, este possui forro de madeira e, na
interface entre os dois volumes, uma pequena abertura deixa entrar luz no vão entre a
alvenaria e o metal. Poucos são os materiais de acabamento: placas de concreto no piso,
cerâmicas nas cozinhas e banheiros e massa raspada no revestimento da alvenaria. Ambos
os volumes são cobertos por telhas metálicas.
Todos os caixilhos da casa são de alumínio
A rampa situa-se no eixo
da porta de entrada
O piso é composto por placas de concreto
As portas possibilitam grandes aberturas, aumentando a permeabilidade
http://www.arcoweb.com.br/arquitetura/arquitetura590.asp
TEXTO 10
Abílio Guerra
Quatro projetos do grupo MMBB (1)
Abilio Guerra é professor da FAU PUC-Campinas e da Belas Artes, editor do Portal Vitruvius e co-autor de
Rino Levi – arquitetura e cidade (São Paulo, Romano Guerra Editora, 2001)
A obra dos arquitetos Angelo Bucci, Fernando de Mello Franco, Marta Moreira e Milton
Braga (2), do grupo MMBB, se insere na tradição específica da chamada “Escola
Paulista”, arquitetura que se disseminou em São Paulo a partir dos anos 50 liderada
por Vilanova Artigas e que têm na inventividade construtiva de severas estruturas de
concreto armado aparente sua marca registrada. O jovem grupo mantém um profícuo
diálogo com Paulo Mendes da Rocha, maior expressão desse ideário nos dias atuais e
de quem herdou um gosto especial pelo experimentalismo nas soluções estruturais,
nas esquadrias e nos vedos. Os quatro projetos apresentados aqui têm como ponto
comum o prisma reto original e o desenho geométrico rigoroso e pouco propenso às
exceções, que reverbera até mesmo no detalhamento bem apurado das peças
menores e dos engates entre materiais distintos.
A agência de propaganda DPTO (São Paulo, projeto 1994, inauguração 1994) é uma
construção compacta de 800 m2, que abrigava originalmente salas e espaços amplos
de escritório nos pisos com iluminação natural e um estúdio fotográfico, hoje
desativado, no subsolo parcialmente enterrado. A estrutura é de peças pré-fabricadas
apoiadas de forma isostática, com todos pilares e vigas na periferia do volume. Os
pisos são constituídos por lajes “Pi” colocadas lado a lado e orientadas no sentido do
vão maior de 9,50 metros, decisão que sacrifica o desempenho para a obtenção de
um vazio frontal em todo o edifício. Aqui se alojará a escadaria de metal, com lances
que vencem integralmente a altura de cada piso, solução engenhosa que permite a
transmissão do peso para as vigas de bordo, evitando uma estrutura subsidiária que
inevitavelmente macularia a sobriedade de seu desenho.
São justamente as diagonais dos lances da escada que dão dinâmica à elevação
frontal envidraçada como as demais, quebrando a regularidade ortogonal reiterada
pelas lâminas horizontais dos quebra-sóis de alumínio. A concentração da circulação
vertical na área frontal possibilita que em todos os pisos sejam alocadas nos fundos as
salas menores para direção e usos específicos, como banheiros, instalações, etc.
A agência de propaganda DPTO, São Paulo
A casa Mello (Ribeirão Preto, 2000/2002) retoma o tema recorrente em Vilanova
Artigas e seguidores da estrutura sustentada por apenas quatro pilares. Aqui a solução
ganha uma versão híbrida, com duas vigas invertidas de porte correndo em paralelo
por cima da laje de cobertura e apoiados nos quatro pilares, retraídos em relação às
quatro faces, o que implica em balanços expressivos. Quatro tirantes de metal
engastados nas vigas e dispostos próximos das faces cooperam na sustentação da
laje inferior suspensa do solo e engastada nos pilares. A concentração dos esforços
nestas duas linhas permite grandes planos de vidro no vão integral e recortes amplos
nas duas lajes, conformando um pátio interno lateral que abrigará a piscina e a única
escada de entrada.
A planta em forma de “U” facilita o agenciamento dos cômodos segundo o princípio de
divisão funcional, locando-se a área social na frente do lote, a área íntima de quartos e
banheiros no fundo e a entrada, área de serviço e circulação na área voltada para a
lateral direita do lote. O já mencionado experimentalismo ganha aqui grande
expressão. Visando aliviar o peso na periferia da laje inferior, são usados nos
fechamentos opacos painéis industriais de papel kraft prensado.
O clima quente em grande parte do ano justifica a sustentação dos vidros fixos
deslocados para fora do alinhamento da laje inferior, permitindo uma ventilação
constante. Na impermeabilização da laje de cobertura foi resgatado o espelho d’água
instalado durante o processo de cura do concreto, artifício desenvolvido e utilizado
largamente por Mendes da Rocha desde a década de 60.
Casa Mello, Ribeirão Preto
A casa Mariante (Aldeia da Serra, 2000/2002), um caixote de concreto e vidro
implantado em lote de 20 m X 40 m no subúrbio de São Paulo, é formada por duas
lajes nervuradas sobrepostas. As lajes quadradas – com 16,20 m de lado e com
alvéolos de 90 X 90 cm – são suspensas do solo por quatro vigorosos pilares, de
secção quadrada de 45 cm de lado, que distam um do outro 9,90 m na ortogonal.
Na cobertura, o espelho d’água que impermeabiliza a laje é recoberto por elevados
pisos quadrados de concreto. A repetição geométrica quase obsessiva é subvertida
por uma série de decisões projetuais dissonantes, que regulam os usos e as visuais.
As duas escadas sobrepostas, que levam do solo ao piso principal e deste à
cobertura, se alojam no vão equivalente a dois alvéolos de largura por dez de
comprimento, ocupando uma posição levemente deslocada do centro, assimetria que
permite a adequada disposição dos espaços internos.
Nas faces frontal e posterior abrem-se grandes vidraças corridas, sendo que na
primeira impera um talude gramado que é truncado pela entrada no canto esquerdo,
desequilíbrio compensado na parte superior, onde a caixa d’água é sustentada pela
coluna frontal direita. Na face voltada para o quintal temos duas pontes em cotas e
posições diferentes conectando em nível a casa com o terreno em aclive. As faces
correspondentes aos quartos e à grande sala são mais homogêneas, mas o efeito de
suspensão da primeira é contestada pelo peso conferido à segunda pelos volumes da
lareira e das instalações de serviço no piso térreo.
Casa Mariante, São Paulo
A Clínica de Odontologia (Orlândia, 2000/2002), outro caixote de concreto e vidro
suspenso do solo, subverte a clareza estrutural presente nos outros projetos com um
jogo de dissimulação. O projeto parece ao olhar desatento sustentado por quatro
pilares locados dois a dois nos lados menores do volume, embutidos em paredes de
concreto que não tocam o chão nem o teto.
Os pilares sustentam duas grandes vigas invertidas que correm na direção longitudinal
por cima da laje de cobertura de 7 m X 21,5 m, o que permitiria a suspensão do
volume por cima. Mas o real desempenho das cargas é outro. Dispostos a cada seis
metros no alinhamento das vigas e pilares de concreto, seis delgados pilares metálicos
de secção circular, dissimulados em geral nas paredes divisórias do piso superior,
descarregam parte substancial da carga da laje de cobertura em alguns dos pequenos
pilares de concreto que mantém a laje inferior erguida a 1,48 m do solo. Estes pilares
inferiores, de secção quadrada, com intercolúnio de 2 metros, servem como ponto de
fixação da vidraçaria do piso inferior, que fica semi-enterrado e retraído cerca de um
metro em relação ao alinhamento da fachada. É justamente nesse espaço entre as
faces maiores envidraçadas e os pilares metálicos que se dão as circulações de
clientes e funcionários, a primeira voltada para a rua, a segunda para o pequeno
quintal e conectada com as escadas que levam ao exterior e ao piso inferior.
A sala de entrada, de onde partem os dois corredores, fica em um dos extremos,
contíguo ao alpendre externo coberto e protegido pela empena lateral. A proteção
solar é potencializada por painéis móveis de ripado de madeira estruturados em peças
metálicas, uma reminiscência longínqua das treliças de madeira da arquitetura
colonial.
Clínica de Odontologia, Ribeirão Preto
Veja os Projetos Completos no Link de
http://www.vitruvius.com.br/arquitextos/arq056/arq056_02.asp
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