Artigo Estadão - Fernando Reinach

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A geopolítica da gripe suína
A gripe mata no inverno, mas foi na primavera que a gripe suína surgiu no México. Entre abril e junho ela se espalhou
rapidamente pelos EUA, Europa e Japão. Para espanto dos epidemiologistas os casos de gripe suína continuam
aumentando mesmo com a chegada do verão nos EUA e na Europa.
O pouco que aprendemos sobre o comportamento da gripe suína do vírus H1N1é o resultado de observações feitas
durante a primavera e o verão em países ricos. Não só desconhecemos o comportamento do vírus no inverno como
desconhecemos seus efeitos sobre a população de países pobres. A grande maioria dos afetados até agora reside em
países desenvolvidos, cuja população dispõe de hospitais bem equipados e amplos estoques de anti-retrovirais. Neste
ambiente a primeira onda de infecção foi relativamente branda. Excluindo o fato de o vírus atacar jovens adultos e
continuar atuando durante o verão, o vírus não causou grandes estragos. Mesmo a taxa de morbidade (fração dos
infectados que morrem) é provavelmente muito menor que os 0,4% calculados a partir dos dados informados para a
Organização Mundial da Saúde (OMS). Isto porque o número de infectados é sempre subestimado enquanto o número
de mortos é mais confiável. Nos EUA, onde o número de mortos é de 140, o número de infectados reportado à OMS é
de 28.000, mas o governo estima que mais de um milhão de pessoas já contraíram a gripe.
Nas últimas semanas diversos epidemiologistas têm declarado que será importante observar o comportamento da
gripe suína nos países do hemisfério sul. Em bom português o que desejam saber é o estrago que este novo vírus pode
fazer quando ataca populações pobres, que vivem em favelas e têm a saúde debilitada pela subnutrição e por outras
doenças. Como a epidemia vai se desenvolver em países com hospitais mal equipados e sem estoques significativos
de drogas anti-retrovirais? No hemisfério sul o vírus começou a se espalhar de maneira exponencial exatamente no
início do inverno. E será aqui, no sul do planeta, onde se concentra grande parte do terceiro mundo, que nos próximos
meses observaremos como o H1N1 se comporta durante o inverno.
O pouco que sabemos sobre os efeitos do vírus sobre populações pobres foi publicado esta semana. É a descrição do
progresso da doença nos pacientes com H1N1 que foram internados em um hospital para pacientes sem seguro saúde
na Cidade do México. A amostra é pequena e só nos resta esperar que ela não seja representativa do que vai ocorrer
nas favelas do hemisfério sul. Os pacientes foram internados três dias após o aparecimento dos sintomas, grande parte
teve que ser colocada em ventiladores mecânicos e 39% morreram, em média, nove dias após a internação.
Enquanto dura o inverno e este inevitável experimento epidemiológico se desenrola no hemisfério sul, no hemisfério
norte as empresas produtoras de vacina correm contra o tempo para desenvolver uma vacina contra o H1N1 e produzir
um número suficiente de doses que permita vacinar parte da população já em outubro de 2010. Se esta corrida for bem
sucedida a população do hemisfério norte enfrentará seu primeiro inverno de H1N1 já vacinada. Praticamente toda a
produção futura de vacina já está comprada antecipadamente e menos de 10% do total das doses produzidas vai ser
doada para a OMS.
Se um deus maligno fosse o responsável pela criação do H1N1 ele seguramente teria escolhido a primavera e o
hemisfério norte para soltar o vírus entre os homens.
Mais informações: Pneumonia and Respiratory Failure from Swine-Origin influenza A (H1N1) in Mexico.
N.Engl.J.Med. 10.1056/NEJMoa0904252 2009
Fernando Reinach ([email protected])
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