módulo 1

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MATERIAL DE FILOSOFIA
Prof. Everton Rodrigues
MÓDULO 1- O QUE É FILOSOFIA?
Na história do pensamento ocidental, a filosofia nasce na Grécia por volta do século VI
(ou VII) a.C. Por meio de longo processo histórico, surge promovendo a passagem do
saber mítico ao pensamento racional, sem, entretanto, romper bruscamente como todos
os conhecimentos do passado. Durante muito tempo, os primeiros filósofos gregos
compartilhavam de diversas crenças míticas, enquanto desenvolviam o conhecimento
racional que caracterizaria a filosofia.
Se considerarmos filosofia a atividade racional voltada à discussão e à explicação
intelectualizada das coisas que nos circundam, tem-se o século VI como a data mais
provável da origem da filosofia. Nessa época temos a instituição da moeda, do
calendário e da escrita alfabética, a florescente navegação, que favoreceu o intenso
contato com outras culturas, esses acontecimentos propiciaram o processo de
desdobramento do pensamento poético em filosófico.
De acordo com a tradição histórica, a fase inaugural da filosofia grega é conhecida
como período pré-socrático. Esse período abrange o conjunto das reflexões filosóficas
desenvolvidas desde Tales de Mileto (623-546 a.C.) até Sócrates (468-399 a.C.).
Já datamos o início da filosofia, mas o que é filosofia?
A filosofia é um modo de pensar, é uma postura diante do mundo. A filosofia não é
um conjunto de conhecimentos prontos, um sistema acabado, fechado em si mesmo.
Ela é antes de mais nada, uma prática de vida que procura pensar os acontecimentos
além de sua pura aparência. Assim, ela pode se voltar para qualquer objeto. Pode
pensar a ciência, seus valores, seus métodos, seus mitos; pode pensar a religião; pode
pensar a arte; pode pensar o próprio homem em sua vida cotidiana. Até mesmo uma
história em quadrinhos ou uma canção popular podem ser objeto da reflexão
filosófica.
A filosofia parte do que existe, critica, coloca em dúvida, faz perguntas importunas,
abre a porta das possibilidades, faz-nos entrever outros mundos e outros modos de
compreender a vida.
A filosofia incomoda porque questiona o modo de ser das pessoas, das culturas, do
mundo. Questiona as práticas política, científica, técnica, ética, econômica, cultural e
artística. Não há área onde ela não se meta, não indague. E, nesse sentido, a filosofia é
"perigosa", "subversiva", pois vira a ordem estabelecida de cabeça para baixo.
Talvez a divulgação da imagem do filósofo como sendo uma pessoa "desligada" do
mundo seja exatamente a defesa da sociedade contra o "perigo" que ela representa.
O trabalho do filósofo é refletir sobre a realidade, qualquer que seja ela, redescobrindo seus significados mais profundos.
Filósofos diferentes têm posturas diversas com relação a imagem institucional de
sabedoria e compreensão.Embora com motivações diferentes, deram a sua importante
contribuição para o alargamento das fronteiras.
A filosofia quer encontrar o significado mais profundo dos fenômenos. Não basta
saber como funcionam, mas o que significam na ordem geral do mundo humano. A
filosofia emite juízos de valor ao julgar cada fato, cada ação em relação ao todo.
Assim, filosofar é uma prática que parte da teoria e resulta em outras teorias.
Desse modo, embora os sistemas filosóficos possam chegar a conclusões diversas,
dependendo das premissas de partida e da situação histórica dos próprios pensadores,
o processo do filosofar será sempre marcado pela reflexão rigorosa, radical e de
conjunto.
O MÉTODO FILOSÓFICO
Método é um conjunto de processos para a pesquisa e demonstração da verdade.
Somente a prática e vivência do método filosófico nos poderá fornecer, do mesmo,
uma noção nítida, viva e perfeita.
A primeira condição de pesquisa filosófica é uma certa disposição para sentir os
problemas e mistérios do universo.
A segunda é o espírito de exatidão e o hábito de rigor no pensamento.
Na solução dos problemas filosóficos, Sócrates empregou o diálogo, que podia
assumir a forma de ironia maiêutica- série de questões tendentes a encaminhar a
solução de quesitos propostos, mas mais adequada aos discípulos do que ao próprio
pesquisador.
Platão aperfeiçoou o método Socrático, convertendo-o no que denominou de
"dialética".
Aristóteles desenvolveu o método dialético, acrescentando-lhe as leis do silogismo.
Thomaz de Aquino combinou e entrosou melhor os métodos Platônico e Aristotélico.
O método preconizado por Descartes foi o da intuição, isto é, a obtenção de uma
evidência clara e distinta pela intuição direta da verdade.
Schelling e Hegel empregaram a intuição intelectual.
Bergson utilizou o método intuitivo, em caráter efetivo ou emocional, assim ocorrendo
com outros filósofos que submeteram o método cartesiano a diferentes modificações.
Sintetizando, existem três métodos fundamentais:
a-) o Platônico - a dialética - que consiste em partir de uma hipótese inicial, para, em
seguida, fazer a crítica dessa hipótese, bem como das afirmações dela divergentes.
b-) o Aristotélico - o silogismo - ou seja a demonstração através da lógica racional.
c-) o Cartesiano - a intuição - ou a comprovação das asserções através da análise e
estudo dos diversos aspectos secundários que a caso apresentem, até que se tenha
formado o panorama de seu conjunto.
Os demais métodos filosóficos apresentados e empregados por diversos filósofos, em
última análise, não tem passado de combinações dos métodos fundamentais ou da
introdução de pequenas variantes nas linhas gerais.
Os diversos métodos de pesquisas filosóficas não se opõem entre si, mas se auxiliam
mutuamente.
A inteligência, entretanto é o instrumento por excelência da investigação filosófica.
DIVISÃO FILOSÓFICA
A filosofia compreende a Filosofia Especulativa, que procura conhecer por conhecer, e
a Filosofia Prática que procura conhecer para agir e produzir.
A Filosofia Especulativa compreende a Metafísica e a Filosofia da Natureza.
A Filosofia Prática abrange a Filosofia Moral ou ética e a Filosofia da Arte ou
Estética.
A Lógica é uma introdução ao estudo da filosofia, porque fornece os meios
necessários à aquisição do saber.
A Metafísica é a ciência das causas primeiras e primeiros princípios: divide-se em
Teodicéia, Ontologia e Crítica do Conhecimento.
A Filosofia da Natureza é o estudo do ser concreto e particularizado nos diversos
gêneros e espécies do plano fenomenal; divide-se em: Cosmologia Racional,
Antropologia Racional e Psicologia Racional.
A Filosofia Moral ou Ética é o estudo do Agir Humano, enquanto livre e pessoal.
A Filosofia da Arte ou Estética é o estudo do Fazer Humano, sob o ponto de vista dos
princípios universais que o devem orientar.
A PALAVRA FILOSOFIA
A palavra filosofia é grega. É composta por duas outras: philo e sophia. Philo deriva-se
de philia, que significa amizade, amor fraterno, respeito entre os iguais. Sophia quer
dizer sabedoria e dela vem a palavra sophos, sábio.
Filosofia significa, portanto, amizade pela sabedoria, amor e respeito pelo saber.
Filósofo: o que ama a sabedoria, tem amizade pelo saber, deseja saber.
Assim, filosofia indica um estado de espírito, o da pessoa que ama, isto é, deseja o
conhecimento, o estima, o procura e o respeita.
Atribui-se ao filósofo grego Pitágoras de Samos (que viveu no século V antes de Cristo)
a invenção da palavra filosofia. Pitágoras teria afirmado que a sabedoria plena e
completa pertence aos deuses, mas que os homens podem desejá-la ou amá-la,
tornando-se filósofos.
Dizia Pitágoras que três tipos de pessoas compareciam aos jogos olímpicos (a festa mais
importante da Grécia): as que iam para comerciar durante os jogos, ali estando apenas
para servir aos seus próprios interesses e sem preocupação com as disputas e os
torneios; as que iam para competir, isto é, os atletas e artistas (pois, durante os jogos
também havia competições artísticas: dança, poesia, música, teatro); e as que iam para
contemplar os jogos e torneios, para avaliar o desempenho e julgar o valor dos que ali se
apresentavam. Esse terceiro tipo de pessoa, dizia Pitágoras, é como o filósofo.
Com isso, Pitágoras queria dizer que o filósofo não é movido por interesses comerciais não coloca o saber como propriedade sua, como uma coisa para ser comprada e vendida
no mercado; também não é movido pelo desejo de competir - não faz das idéias e dos
conhecimentos uma habilidade para vencer competidores ou “atletas intelectuais”; mas
é movido pelo desejo de observar, contemplar, julgar e avaliar as coisas, as ações, a
vida: em resumo, pelo desejo de saber. A verdade não pertence a ninguém, ela é o que
buscamos e que está diante de nós para ser contemplada e vista, se tivermos olhos (do
espírito) para vê-la.
EXERCÍCIOS DE FIXAÇÃO
1- A partir da leitura do texto, responda as questões:
É assim que a filosofia que a filosofia sempre foi considerada pela maioria dos grandes
filósofos de todos os tempos (...) como ciência universal, no sentido em que nenhum
campo lhe fica vedado e que se utiliza de todos os métodos ao seu alcance; como uma
ciência de questões-limite e de fundamentos, e por isso uma ciência radical, que não se
contenta com os pressupostos das outras ciências, mas que investiga mais além, até às
raízes.
BOCHENSKI
a) Indica o significado etimológico da palavra filosofia.
b) O texto afirma que à filosofia ‘nenhum campo lhe fica vedado’. Indica dois aspectos
que constituem o objeto da filosofia.
c) Explica duas características do método da filosofia.
2- Observe o texto:
O valor da Filosofia
“O valor da filosofia encontra-se, de fato na sua própria incerteza. O homem sem
rudimentos de filosofia passa pela vida encarcerado nos preconceitos derivados do
senso comum, das crenças habituais do seu tempo ou da sua nação, e de convicções que
se desenvolveram no seu espírito sem a cooperação ou o consentimento da sua razão
ponderada. Para tal homem, o mundo tem tendência a tornar-se definido, finito, óbvio;
os objetos comuns não levantam questões, e as possibilidades estranhas são
desdenhosamente rejeitadas.
Mal começamos a filosofar, pelo contrário, descobrimos (...) que até as coisas mais
corriqueiras levantam problemas a que só podemos dar respostas muito incompletas. A
filosofia, apesar de ser incapaz de nos dizer com certeza qual é a resposta verdadeira às
dúvidas que levanta, tem a capacidade de sugerir muitas possibilidades que alargam os
nossos pensamentos e os libertam da tirania do hábito. Assim, apesar de diminuir a
nossa sensação de certeza quanto ao que as coisas são, a filosofia aumenta em muito o
nosso conhecimento do que podem ser; elimina o dogmatismo algo arrogante daqueles
que nunca viajaram no território da dúvida libertadora, e mantém vivo o nosso sentido
de deslumbramento ao mostrar coisas familiares sob um aspecto estranho.”
RUSSELL, Bertrand, Os Problemas da Filosofia, 1912, p. 90.
A partir da leitura do texto, qual seria a grande preocupação da Filosofia?
MÓDULO 2 - FILOSOFIA GREGA
Pode-se perceber que os dois primeiros períodos da Filosofia grega têm como referência
o filósofo Sócrates de Atenas, donde a divisão em Filosofia pré-socrática e socrática.
PERÍODO PRÉ-SOCRÁTICO OU COSMOLÓGICO
Os principais filósofos pré-socráticos foram:
● filósofos da Escola Jônica: Tales de Mileto, Anaxímenes de Mileto, Anaximandro de
Mileto e Heráclito de Éfeso;
● filósofos da Escola Itálica: Pitágoras de Samos, Filolau de Crotona e Árquitas de
Tarento;
● filósofos da Escola Eleata: Parmênides de Eléia e Zenão de Eléia;
● filósofos da Escola da Pluralidade: Empédocles de Agrigento, Anaxágoras de
Clazômena, Leucipo de Abdera e Demócrito de Abdera.
As principais características da cosmologia são:
É uma explicação racional e sistemática sobre a origem, ordem e transformação da
Natureza, da qual os seres humanos fazem parte, de modo que, ao explicar a Natureza, a
Filosofia também explica a origem e as mudanças dos seres humanos.
Afirma que não existe criação do mundo, isto é, nega que o mundo tenha surgido do
nada (como é o caso, por exemplo, na religião judaico-cristã, na qual Deus cria o mundo
do nada). Por isso diz: “Nada vem do nada e nada volta ao nada”. Isto significa: a) que o
mundo, ou a Natureza, é eterno; b) que no mundo, ou na Natureza, tudo se transforma
em outra coisa sem jamais desaparecer, embora a forma particular que uma coisa possua
desapareça com ela, mas não sua matéria.
O fundo eterno, perene, imortal, de onde tudo nasce e para onde tudo volta é invisível
para os olhos do corpo e visível somente para o olho do espírito, isto é, para o
pensamento.
O fundo eterno, perene, imortal e imperecível de onde tudo brota e para onde tudo
retorna é o elemento primordial da Natureza e chama-se physis (em grego, physis vem
de um verbo que significa fazer surgir, fazer brotar, fazer nascer, produzir). A physis é a
Natureza eterna e em perene transformação.
Afirma que, embora a physis (o elemento primordial eterno) seja imperecível, ela dá
origem a todos os seres infinitamente variados e diferentes do mundo, seres que, ao
contrário do princípio gerador, são perecíveis ou mortais.
Afirma que todos os seres, além de serem gerados e de serem mortais, são seres em
contínua transformação, mudando de qualidade (por exemplo, o branco amarelece,
acinzenta, enegrece; o negro acinzenta, embranquece; o novo envelhece; o quente
esfria; o frio esquenta; o seco fica úmido; o úmido seca; o dia se torna noite; a noite se
torna dia; a primavera cede lugar ao verão, que cede lugar ao outono, que cede lugar ao
inverno; o saudável adoece; o doente se cura; a criança cresce; a árvore vem da semente
e produz sementes, etc.) e mudando de quantidade (o pequeno cresce e fica grande; o
grande diminui e fica pequeno; o longe fica perto se eu for até ele, ou se as coisas
distantes chegarem até mim, um rio aumenta de volume na cheia e diminui na seca,
etc.). Portanto o mundo está em mudança contínua, sem por isso perder sua forma, sua
ordem e sua estabilidade.
A mudança - nascer, morrer, mudar de qualidade ou de quantidade - chama-se
movimento e o mundo está em movimento permanente.
O movimento do mundo chama-se devir e o devir segue leis rigorosas que o
pensamento conhece. Essas leis são as que mostram que toda mudança é passagem de
um estado ao seu contrário: dia-noite, claro-escuro, quente-frio, seco-úmido, novovelho, pequeno-grande, bom-mau, cheio-vazio, um-muitos, etc., e também no sentido
inverso, noite-dia, escuro-claro, frio-quente, muitos-um, etc. O devir é, portanto, a
passagem contínua de uma coisa ao seu estado contrário e essa passagem não é caótica,
mas obedece a leis determinadas pela physis ou pelo princípio fundamental do mundo.
Os diferentes filósofos escolheram diferentes physis, isto é, cada filósofo encontrou
motivos e razões para dizer qual era o princípio eterno e imutável que está na origem da
Natureza e de suas transformações. Assim, Tales dizia que o princípio era a água ou o
úmido; Anaximandro considerava que era o ilimitado sem qualidades definidas;
Anaxímenes, que era o ar ou o frio; Heráclito afirmou que era o fogo; Leucipo e
Demócrito disseram que eram os átomos. E assim por diante.
PERÍODO SOCRÁTICO OU ANTROPOLÓGICO
Com o desenvolvimento das cidades, do comércio, do artesanato e das artes militares,
Atenas tornou-se o centro da vida social, política e cultural da Grécia, vivendo seu
período de esplendor, conhecido como o Século de Péricles.
É a época de maior florescimento da democracia. A democracia grega possuía, entre
outras, duas características de grande importância para o futuro da Filosofia.
Em primeiro lugar, a democracia afirmava a igualdade de todos os homens adultos
perante as leis e o direito de todos de participar diretamente do governo da cidade, da
polis.
Em segundo lugar, e como conseqüência, a democracia, sendo direta e não por eleição
de representantes, garantia a todos a participação no governo, e os que dele
participavam tinham o direito de exprimir, discutir e defender em público suas opiniões
sobre as decisões que a cidade deveria tomar. Surgia, assim, a figura política do
cidadão. (Nota: Devemos observar que estavam excluídos da cidadania o que os gregos
chamavam de dependentes: mulheres, escravos, crianças e velhos. Também estavam
excluídos os estrangeiros.)
Ora, para conseguir que a sua opinião fosse aceita nas assembléias, o cidadão precisava
saber falar e ser capaz de persuadir. Com isso, uma mudança profunda vai ocorrer na
educação grega.
Quando não havia democracia, mas dominavam as famílias aristocráticas, senhoras das
terras, o poder lhes pertencia. Essas famílias, valendo-se dos dois grandes poetas
gregos, Homero e Hesíodo, criaram um padrão de educação, próprio dos aristocratas.
Esse padrão afirmava que o homem ideal ou perfeito era o guerreiro belo e bom. Belo:
seu corpo era formado pela ginástica, pela dança e pelos jogos de guerra, imitando os
heróis da guerra de Tróia (Aquiles, Heitor, Ájax, Ulisses). Bom: seu espírito era
formado escutando Homero e Hesíodo, aprendendo as virtudes admiradas pelos deuses
e praticadas pelos heróis, a principal delas sendo a coragem diante da morte, na guerra.
A virtude era a Arete (excelência e superioridade), própria dos melhores, os aristoi.
Quando, porém, a democracia se instala e o poder vai sendo retirado dos aristocratas,
esse ideal educativo ou pedagógico também vai sendo substituído por outro. O ideal da
educação do Século de Péricles é a formação do cidadão. A Arete é a virtude cívica.
Ora, qual é o momento em que o cidadão mais aparece e mais exerce sua cidadania?
Quando opina, discute, delibera e vota nas assembléias. Assim, a nova educação
estabelece como padrão ideal a formação do bom orador, isto é, aquele que saiba falar
em público e persuadir os outros na política.
Para dar aos jovens essa educação, substituindo a educação antiga dos poetas, surgiram,
na Grécia, os sofistas, que são os primeiros filósofos do período socrático. Os sofistas
mais importantes foram: Protágoras de Abdera, Górgias de Leontini e Isócrates de
Atenas.
Que diziam e faziam os sofistas? Diziam que os ensinamentos dos filósofos
cosmologistas estavam repletos de erros e contradições e que não tinham utilidade para
a vida da polis. Apresentavam-se como mestres de oratória ou de retórica, afirmando ser
possível ensinar aos jovens tal arte para que fossem bons cidadãos.
Que arte era esta? A arte da persuasão. Os sofistas ensinavam técnicas de persuasão
para os jovens, que aprendiam a defender a posição ou opinião A, depois a posição ou
opinião contrária, não-A, de modo que, numa assembléia, soubessem ter fortes
argumentos a favor ou contra uma opinião e ganhassem a discussão.
O filósofo Sócrates, considerado o patrono da Filosofia, rebelou-se contra os sofistas,
dizendo que não eram filósofos, pois não tinham amor pela sabedoria nem respeito pela
verdade, defendendo qualquer idéia, se isso fosse vantajoso. Corrompiam o espírito dos
jovens, pois faziam o erro e a mentira valer tanto quanto a verdade.
Sócrates (470 - 399 a.C.)
Sócrates não fundou uma escola como diversos outros filósofos. Era um pregador que
ensinava em locais públicos e não escreveu nada de seus pensamentos. Suas idéias
chegaram até nós através dos escritos dos seus discípulos, principalmente Platão que faz
de Sócrates porta voz de muitas de suas idéias, sendo difícil separar o pensamento dos
dois. O mesmo ocorre com os outros autores que escreveram sobre Sócrates.
O Conhecimento do Homem
Ele acreditava na imortalidade da alma e que ele próprio recebeu em sua vida uma
missão do deus Apolo para que ele defendesse o Conhece-te a Ti Mesmo. Dessa forma a
filosofia torna-se um incessante exame de si e dos outros colocando o homem e os seus
problemas como centro dos interesses da filosofia. A sabedoria passa a ter como objeto
de pesquisa o homem. A Sabedoria Humana é o quanto o homem pode saber sobre o
próprio homem. Sócrates busca responder a questão de qual é o ser, a natureza última, a
essência do homem. A essa pergunta Sócrates responde que o homem é a sua alma, e a
alma do homem é a sua razão. A alma do homem é a sua consciência. A alma é o que dá
ao homem a sua personalidade intelectual e moral. Cuidar de si mesmo é cuidar da
própria alma mais do que do corpo. O educador tem assim por tarefa ensinar os homens
a cuidar da própria alma. Sócrates considerava-se um educador e como tal tinha por
tarefa ensinar as pessoas a cuidar da alma mais do que do corpo e das riquezas. Ele
buscava a virtude e a virtude não nasce da riqueza nem do culto ao corpo, tão próprio
dos atenienses da época. O corpo tem que ser um instrumento da alma, da sabedoria.
Conhecer a si mesmo é conhecer a própria alma.
A missão de Sócrates é conhecer a realidade humana, investigar o homem e a sua alma.
A filosofia deve levar o homem a conhecer a si mesmo, conhecer os seus limites, as
suas possibilidades. Busca a justiça e a solidariedade. A relação do homem com ele e
com os outros e a relação dos outros com ele. Para ele o limite de sua sabedoria era a
sua própria ignorância ? Só sei que nada sei. Os erros que cometemos em nossa vida são
culpa da nossa ignorância. Não se proclamava sábio e tentava fazer com que as pessoas
se sentissem ignorantes e que admitissem a sua ignorância e fazia isso através do
perguntar e do questionar, Sócrates tanto fez isso que conquistou diversas inimizades.
A Virtude
Para Sócrates as pessoas deveriam concentrar os seus esforços em serem virtuosos, para
si mesmos, para seus amigos e para a comunidade a que pertencem pois a virtude deve
ser conquistada também pelo grupo humano, pela polis. Esse é um dos motivos pelo
qual não fugiu da sua sentença de morte, acreditava que fugir da sua comunidade e da
sentença que ela lhe impôs era deixar de ser virtuoso e isso era ir contra todos os seus
princípios.
Para os gregos a virtude era a qualidade essencial que faz do ser o que ele é, assim é
virtuoso o homem que tenta ser bom e perfeito utilizando a razão e o conhecimento para
atingir esse objetivo porque essas qualidades são próprias do homem. O contrário da
virtude é o vício que é caracterizado basicamente pela ignorância que é a ausência da
razão e do conhecimento.
O melhor modo de homem virtuoso viver segundo Sócrates é buscando o
desenvolvimento da sua razão e do seu conhecimento e não buscando riquezas materiais
que geralmente desviam o homem do caminho da virtude. A virtude é o bem mais
precioso que a pessoa pode ter. Os reais valores não estão ligados ao que é exterior ao
homem como a fama o poder e a riqueza, nem aos atributos do corpo como a beleza e o
vigor físico, mas nos atributos da alma que são caracterizados principalmente pelo
conhecimento. Os outros valores quando estiverem ligados ao conhecimento também
podem ser virtuosos.
O homem para ser virtuoso não precisa renunciar aos prazeres, a virtude deve levar o
homem a uma vida perfeita não a negação dessa vida.
A Maiêutica
É a forma encontrada por Sócrates para fazer com que as pessoas através da
interrogação feita de forma organizada e direcionada cheguem ao conhecimento. A
Maiêutica é um estímulo para a pesquisa, através dela ele buscava fazer "parir" nas
pessoas as idéias, os conhecimentos. Ele próprio se declarava sem sabedoria e não criou
nenhuma organização metodológica e doutrinal. Era o parteiro das idéias nos outros e
não podia parir conhecimentos em si mesmo.
Através da Maiêutica a pessoa que parece ignorante pode achar em si conhecimentos
que desconhecia ter, Sócrates somente ajuda a pessoa nessa pesquisa, mas não lhe
ensina nada.
Política
Sócrates era contrário a aristocracia democrática, defendia que a república deveria ser
governada por filósofos. Pensava também que em algumas situações os tiranos podem
até ser mais legítimos que a democracia. Os filósofos seriam os perfeitos governadores
do estado, pois somente eles tem a capacidade de entender os mais profundos
conhecimentos.
Religião
Ele não era ateu, mas afirmava que acreditava em uma divindade particular, filha dos
deuses tradicionais que ele chamava daimonion que era um ser inferior aos deuses, mas
superior aos homens. Mesmo assim ele era contra os deuses nos quais a cidade
acreditava.
Sócrates se dizia atormentado por essa voz divina interior que ele ouvia não tanto para o
indicar a pensar e agir, mas para o dissuadir de fazer determinada ação.
Para ele os cultos religiosos devem fazer parte da vida de todos os cidadãos. Aconselha
as pessoas a que sigam os cultos e aos costumes da sua cidade. Os deuses são a
expressão do princípio divino. Esse princípio divino pode trazer aos homens o supremo
bem que é a virtude. A religião pra Sócrates é a sua filosofia. Seu Deus é a inteligência
que pode conhecer todas as coisas e que pode também ordenar essas coisas.
Platão (430 – 347 a.C.)
Platão em sua filosofia determinou algumas das idéias centrais do pensamento
ocidental como as idéias políticas que aparecem nos escritos Diálogos e na República,
nas teorias psicológicas que expõe em Fedro, na cosmologia de Timeu e na filosofia das
ciências abordas na obra Teeteto.
Platão fundou a Academia de Atenas, escola onde estudou Aristóteles. Escreveu sobre
diversos temas como epistemologia, metafísica, ética e política. Em seus diálogos um
dos personagens freqüente é Sócrates de quem Platão foi discípulo. Em muitos
momentos é difícil dividir o pensamento dos dois filósofos.
Em seus diálogos Platão utiliza diversos personagens históricos como Górgias,
Parmênides e Sócrates para através de suas falas expor suas teorias filosóficas. Uma de
suas teorias mais conhecidas é a das Idéias em que afirma que o mundo que
conhecemos através dos cinco sentidos, o mundo sensível, é um mundo imperfeito e
falho, mera sombra do real mundo das idéias. O Mundo das Idéias é muito superior ao
mundo sensível. O mundo que sentimos é somente uma cópia apagada do mundo das
idéias pois as idéias são únicas e imutáveis e as coisas do mundo sensível estão
constantemente mudando. Esse pensamento aparece no livro República e é conhecida
como Mito da Caverna. Para Platão a única forma para conhecermos a realidade
inteligível é através da razão pois os nosso sentidos podem nos enganar.
Ele divide o mundo em três partes, na primeira estão os objetos perceptíveis pelos
sentidos. Na segunda estão as coisas que não podem ser percebidas pelos sentidos mas
podem ser entendidos pelo espírito humano como a matemática e a geometria. Na
terceira parte de sua divisão Platão coloca as idéias superiores como a virtude e a justiça
que somente podem ser conhecidas pela inteligência através da utilização de outras
idéias.
Platão escreveu ainda sobre diversos assuntos como a melhor forma de governo e sobre
o Estado, para ele a sociedade deveria ser dividida em três partes que correspondem e se
relacionam com a alma dos indivíduos. A primeira parte é a vontade ou o apetite e
corresponde aos trabalhadores braçais. A segunda parte é a do espírito e é relacionada
aos guerreiros e aventureiros que tem que ser destemidos, fortes e espirituosos. A
terceira parte é reservada aos filósofos e aos governantes, é a parte da razão e é
reservada aos inteligentes e racionais, qualidades essas mais apropriadas para indivíduos
que vão tomar decisões representando toda sociedade. É portanto a razão e a sabedoria
que devem governar, os filósofos devem governar como reis ou os reis devem ser
filósofos para governar com racionalidade.
Em seu escrito A República Platão descreve a maneira que se pode passar de um
regime político a outro e classifica os regimes de governo em cinco formas: 1- O
governo dos filósofos ou aristocracia que ele define como o governo dos mais capazes.
Esse é para ele o regime perfeito pois corresponde ao ideal do filósofo-rei que reúne
poder e sabedoria em uma só pessoa. Esse regime é seguido por quatro regimes
imperfeitos: 2- A timocracia, regime fundamentado sobre a honra; 3- Oligarquia,
fundamentado sobre a riqueza; 4- Democracia que se fundamenta sobre a idéia de
igualdade e 5- Tirania que se funda no desejo do tirano e representa o fim da política
porque nele são abolidas as leis.
Sobre Epistemologia Platão elabora a teoria da reminiscência segundo a qual aprender
é recordar-se. Para ele as idéias são imutáveis, eternas, incorruptíveis e não criadas,
estas idéias estão hospedadas no hiperurânio que está localizado num mundo suprasensível. Esse mundo é parcialmente visível para as almas que estão desligadas do
próprio corpo. Quando nossa alma estava desligada do nosso corpo ela viu e conheceu
as idéias do hiperurânio e quando entraram novamente em um corpo, reencarnando-se,
nossa alma esqueceu a visão que teve das idéias. O trabalho do filósofo é fazer com que
as pessoas recordem dessas idéias através do diálogo. Mas é impossível aos seres
humanos conhecer completamente o mundo das idéias que é acessível somente aos
desuses, o melhor conhecimento a que os humanos conseguem atingir é o conhecimento
filosófico, o amor pelo saber e a incansável busca da verdade. Para Platão o homem tem
necessidade de conhecimento e ele não teria necessidade de conhecimento se não
tivesse visto nunca esse conhecimento. O homem busca o conhecimento porque ele não
o tem mais, porque ele o perdeu.
O mito é uma forma de conhecimento inferior à filosofia porque é baseado sobre a
intuição que não tem como ser demonstrada. E a ciência é um saber inferior porque
necessita ser demonstrada e porque é baseada sobre hipóteses, mas na falta de
conhecimentos melhores mesmo o mito e a ciência são conhecimentos que podem ser
utilizados pelos filósofos para alcançar as idéias. O único conhecimento que o filósofo
não pode aceitar é a opinião.
Na questão ética Platão liga beleza e bondade, tudo aquilo que é belo é também
verdadeiro e bom e vice-versa. É a beleza das idéias que atraem a inteligência do
filósofo e o bem, também por ser belo, atrai a sabedoria.
O amor para Platão é uma forma de delírio divino que se manifesta no afeto à uma
pessoa a um objeto ou até mesmo à uma idéia. Esse afeto é acompanhado da idéia de
que a satisfação desse desejo pode ser uma forma de elevar a existência. Ele distingue o
amor através das suas diferentes finalidades condenando o amor carnal e exaltando o
amor pela sabedoria que é expresso pela filosofia que contempla o verdadeiro belo. O
amor é o desejo de beleza e ela é desejada porque ela é o bem que torna as pessoas
felizes. A primeira beleza que aparece é a beleza do corpo, em seguida vem a beleza de
todos os corpos, acima dela está a beleza da alma que é inferior à beleza das leis e das
organizações humanas, acima dela está a beleza das ciências e acima de tudo está a idéia
de beleza, é a beleza em si que é eterna e fundamenta todas as outras belezas. O amor é
ainda insuficiência pois ele deseja qualquer coisa que não tem e ele deseja essa coisa
porque ele precisa dessa coisa e se ele precisa de algo é porque ele é imperfeito.
Outro ponto importante da filosofia de Platão é a questão da justiça pois para ele
nenhuma sociedade pode manter-se sem justiça. A justiça é o que fundamenta o estado e
ela acontece quando os cidadãos pertencentes a um estado cumprem a tarefa que
pertence a cada um deles. A justiça é o que une o estado, ela é a união do indivíduo com
o estado. Para que o estado seja justo devem ser cumpridas duas condições, a primeira é
a eliminação da riqueza e da pobreza e a segunda é o fim da vida familiar dando às
mulheres igualdade de participação no estado. Os filhos seriam criados pelo estado que
assim seria uma única e grande família.
Platão acreditava que o papel do filósofo é amar conhecer todas as coisas e não
somente algumas coisas e somente é possível conhecer as coisas que são pois o que não
é, não é também cognoscivel. O ser é a ciência que é o verdadeiro conhecimento e o não
ser é a ignorância. A opinião é o meio termo entre o conhecimento e a ignorância. A
arte imitativa, como a pintura e a poesia, são condenáveis por serem somente ilusões. A
pintura representa uma imitação de uma pequena parte da aparência dos objetos e a
poesia vai representar somente uma parte da alma que são as emoções. Ambas são
imitações incompletas e de pouco valor.
O mito da caverna
Imaginemos uma caverna subterrânea onde, desde a infância, geração após geração,
seres humanos estão aprisionados. Suas pernas e seus pescoços estão algemados de tal
modo que são forçados a permanecer sempre no mesmo lugar e a olhar apenas para
frente, não podendo girar a cabeça nem para trás nem para os lados. A entrada da
caverna permite que alguma luz exterior ali penetre, de modo que se possa, na semiobscuridade, enxergar o que se passa no interior.
A luz que ali entra provém de uma imensa e alta fogueira externa. Entre ela e os
prisioneiros - no exterior, portanto - há um caminho ascendente ao longo do qual foi
erguida uma mureta, como se fosse a parte fronteira de um palco de marionetes. Ao
longo dessa mureta-palco, homens transportam estatuetas de todo tipo, com figuras de
seres humanos, animais e todas as coisas.
Por causa da luz da fogueira e da posição ocupada por ela, os prisioneiros enxergam na
parede do fundo da caverna as sombras das estatuetas transportadas, mas sem poderem
ver as próprias estatuetas, nem os homens que as transportam.
Como jamais viram outra coisa, os prisioneiros imaginam que as sombras vistas são as
próprias coisas. Ou seja, não podem saber que são sombras, nem podem saber que são
imagens (estatuetas de coisas), nem que há outros seres humanos reais fora da caverna.
Também não podem saber que enxergam porque há a fogueira e a luz no exterior e
imaginam que toda luminosidade possível é a que reina na caverna.
Que aconteceria, indaga Platão, se alguém libertasse os prisioneiros? Que faria um
prisioneiro libertado? Em primeiro lugar, olharia toda a caverna, veria os outros seres
humanos, a mureta, as estatuetas e a fogueira. Embora dolorido pelos anos de
imobilidade, começaria a caminhar, dirigindo-se à entrada da caverna e, deparando com
o caminho ascendente, nele adentraria.
Num primeiro momento, ficaria completamente cego, pois a fogueira na verdade é a luz
do sol e ele ficaria inteiramente ofuscado por ela. Depois, acostumando-se com a
claridade, veria os homens que transportam as estatuetas e, prosseguindo no caminho,
enxergaria as próprias coisas, descobrindo que, durante toda sua vida, não vira senão
sombras de imagens (as sombras das estatuetas projetadas no fundo da caverna) e que
somente agora está contemplando a própria realidade.
Libertado e conhecedor do mundo, o prisioneiro regressaria à caverna, ficaria
desnorteado pela escuridão, contaria aos outros o que viu e tentaria libertá-los.
Que lhe aconteceria nesse retorno? Os demais prisioneiros zombariam dele, não
acreditariam em suas palavras e, se não conseguissem silenciá-lo com suas caçoadas,
tentariam fazê-lo espancando-o e, se mesmo assim, ele teimasse em afirmar o que viu e
os convidasse a sair da caverna, certamente acabariam por matá-lo. Mas, quem sabe,
alguns poderiam ouvi-lo e, contra a vontade dos demais, também decidissem sair da
caverna rumo à realidade.
O que é a caverna? O mundo em que vivemos. Que são as sombras das estatuetas? As
coisas materiais e sensoriais que percebemos. Quem é o prisioneiro que se liberta e sai
da caverna? O filósofo. O que é a luz exterior do sol? A luz da verdade. O que é o
mundo exterior? O mundo das idéias verdadeiras ou da verdadeira realidade. Qual o
instrumento que liberta o filósofo e com o qual ele deseja libertar os outros prisioneiros?
A dialética. O que é a visão do mundo real iluminado? A Filosofia. Por que os
prisioneiros zombam, espancam e matam o filósofo (Platão está se referindo à
condenação de Sócrates à morte pela assembléia ateniense)? Porque imaginam que o
mundo sensível é o mundo real e o único verdadeiro.
EXERCÍCIOS DE FIXAÇÃO
1- (UFU/2002)
“Mas quem fosse inteligente (…) lembrar-se-ia de que as perturbações visuais são
duplas, e por dupla causa, da passagem da luz à sombra, e da sombra à luz. Se
compreendesse que o mesmo se passa com a alma, quando visse alguma perturbada e
incapaz de ver, não riria sem razão, mas reparava se ela não estaria antes ofuscada
por falta de hábito, por vir de uma vida mais luminosa, ou se, por vir de uma maior
ignorância a uma luz mais brilhante, não estaria deslumbrada por reflexos
demasiadamente refulgentes [brilhantes]; à primeira, deveria felicitar pelas suas
condições e pelo seu gênero de vida; da segunda, ter compaixão e, se quisesse troçar
dela, seria menos risível esta zombaria do que aquela que descia do mundo luminoso.”
(A República, 518 a-b, trad. Maria Helena da Rocha Pereira, Lisboa: Fundação Calouste
Gulbenkian, 1987. )
Sobre este trecho do livro VII de A República de Platão, é correto afirmar.
I - A condição de quem vive nas sombras é digna de compaixão.
II - O filósofo, sendo aquele que passa da luz à sombra, não tem problemas em retornar
às sombras.
III - O trecho estabelece uma relação entre o mundo visível e o inteligível, fundada em
uma comparação entre o olho e a alma.
IV - No trecho, é afirmado que o conhecimento não necessita de educação, pois quem se
encontraria nas sombras facilmente se acostumaria à luz.
Marque a alternativa que contém todas as afirmações corretas.
A) II e III
B) I e IV
C) I e III
D) III e IV
2- (UFU 2 fase SETEMBRO de 2002 )
Leia, abaixo, o trecho de Platão, extraído da Apologia de Sócrates.
“(…) descobrem uma multidão de pessoas que supõem saber alguma coisa, mas que na
verdade pouco ou nada sabem. (…) e afirmam que existe um tal Sócrates (…) que
corrompe a juventude. Quando se lhes pergunta por quais atos ou ensinamentos, não
têm o que responder; não sabem, mas para não mostrar seu embaraço apresentam
aquelas acusações que repetem contra todos os que filosofam: ‘as coisas do céu e o que
há sob a terra; o não crer nos deuses; fazer prevalecer o discurso e a razão mais
fraca’. Isso porque não querem dizer a verdade: terem dado prova de que fingem saber,
mas nada sabem.” Apol., 23 c-e.
A partir do trecho apresentado acima, responda às seguintes questões.
A) Para Platão, qual a verdadeira acusação que se faz contra Sócrates?
B) Quais elementos característicos da filosofia socrática podem ser extraídos deste
trecho?
C) Que acusações, tendo em vista as características específicas da filosofia de Sócrates,
são apresentadas como não tendo fundamento?
3- (UEL-2005)
“- Mas a cidade pareceu-nos justa, quando existiam dentro dela três espécies de
naturezas, que executavam cada uma a tarefa que lhe era própria; e, por sua vez,
temperante, corajosa e sábia, devido a outras disposições e qualidades dessas mesmas
espécies.
- É verdade.
- Logo, meu amigo, entenderemos que o indivíduo, que tiver na sua alma estas mesmas
espécies, merece bem, devido a essas mesmas qualidades, ser tratado pelos mesmos
nomes que a cidade”. (PLATÃO. A república. Trad. de Maria Helena da Rocha Pereira.
7 ed. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1993. p. 190.)
Com base no texto e nos conhecimentos sobre a justiça em Platão, é correto afirmar:
a) As pessoas justas agem movidas por interesses ou por benefícios pessoais, havendo a
possibilidade de ficarem invisíveis aos olhos dos outros.
b) A justiça consiste em dar a cada indivíduo aquilo que lhe é de direito, conforme o
princípio universal de igualdade entre todos os seres humanos, homens e mulheres.
c) A verdadeira justiça corresponde ao poder do mais forte, o qual, quando ocupa cargos
políticos, faz as leis de acordo com os seus interesses e pune a quem lhe desobedece.
d) A justiça deve ser vista como uma virtude que tem sua origem na alma, isto é, deve
habitar o interior do homem, sendo independente das circunstâncias externas.
e) Ser justo equivale a pagar dívidas contraídas e restituir aos demais aquilo que se
tomou emprestado, atitudes que garantem uma velhice feliz.
4- (UEL_2003) - “Tales foi o iniciador da filosofia da physis, pois foi o primeiro a
afirmar a existência de um princípio originário único, causa de todas as coisas que
existem, sustentando que esse princípio é a água. Essa proposta é importantíssima...
podendo com boa dose de razão ser qualificada como a primeira proposta filosófica
daquilo que se costuma chamar civilização ocidental.”
(REALE, Giovanni. História da filosofia: Antigüidade e Idade Média. São Paulo:
Paulus, 1990. p. 29.)
A filosofia surgiu na Grécia, no século VI a.C. Seus primeiros filósofos foram os
chamados pré-socráticos. De acordo com o texto, assinale a alternativa que expressa o
principal problema por eles investigado.
a) A ética, enquanto investigação racional do agir humano.
b) A estética, enquanto estudo sobre o belo na arte.
c) A epistemologia, como avaliação dos procedimentos científicos.
d) A cosmologia, como investigação acerca da origem e da ordem do mundo.
e) A filosofia política, enquanto análise do Estado e sua legislação.
5- (UEL-2003) Ainda sobre o mesmo tema, é correto afirmar que a filosofia:
a) Surgiu como um discurso teórico, sem embasamento na realidade sensível, e em
oposição aos mitos gregos.
b) Retomou os temas da mitologia grega, mas de forma racional, formulando hipóteses
lógico-argumentativas.
c) Reafirmou a aspiração ateísta dos gregos, vetando qualquer prova da existência de
alguma força divina.
d) Desprezou os conhecimentos produzidos por outros povos, graças à supremacia
cultural dos gregos.
e) Estabeleceu-se como um discurso acrítico e teve suas teses endossadas pela força da
tradição.
6- (UEL-2004)- “Entre os ‘físicos’ da Jônia, o caráter positivo invadiu de chofre a
totalidade do ser. Nada existe que não seja natureza, physis. Os homens, a divindade, o
mundo formam um universo unificado, homogêneo, todo ele no mesmo plano: são as
partes ou os aspectos de uma só e mesma physis que põem em jogo, por toda parte, as
mesmas forças, manifestam a mesma potência de vida. As vias pelas quais essa physis
nasceu, diversificou-se e organizou-se são perfeitamente acessíveis à inteligência
humana: a natureza não operou ‘no começo’ de maneira diferente de como o faz ainda,
cada dia, quando o fogo seca uma vestimenta molhada ou quando, num crivo agitado
pela mão, as partes mais grossas se isolam e se reúnem.” (VERNANT, Jean-Pierre. As
origens do pensamento grego. Trad. de Ísis Borges B. da Fonseca. 12.ed. Rio de
Janeiro: Difel, 2002. p.110.)
Com base no texto, assinale a alternativa correta.
a) Para explicar o que acontece no presente é preciso compreender como a natureza agia
“no começo”, ou seja, no momento original.
b) A explicação para os fenômenos naturais pressupõe a aceitação de elementos
sobrenaturais.
c) O nascimento, a diversidade e a organização dos seres naturais têm uma explicação
natural e esta pode ser compreendida racionalmente.
d) A razão é capaz de compreender parte dos fenômenos naturais, mas a explicação da
totalidade dos mesmos está além da capacidade humana.
e) A diversidade de fenômenos naturais pressupõe uma multiplicidade de explicações e
nem todas estas explicações podem ser racionalmente compreendidas.
7- (UEL-2004) “Mais que saber identificar a natureza das contribuições substantivas
dos primeiros filósofos é fundamental perceber a guinada de atitude que representam. A
proliferação de óticas que deixam de ser endossadas acriticamente, por força da tradição
ou da ‘imposição religiosa’, é o que mais merece ser destacado entre as propriedades
que definem a filosoficidade.” (OLIVA, Alberto; GUERREIRO, Mario. Présocráticos:
a invenção da filosofia. Campinas: Papirus, 2000. p. 24.)
Assinale a alternativa que apresenta a “guinada de atitude” que o texto afirma ter sido
promovida pelos primeiros filósofos.
a) A aceitação acrítica das explicações tradicionais relativas aos acontecimentos
naturais.
b) A discussão crítica das idéias e posições, que podem ser modificadas ou
reformuladas.
c) A busca por uma verdade única e inquestionável, que pudesse substituir a verdade
imposta pela religião.
d) A confiança na tradição e na “imposição religiosa” como fundamentos para o
conhecimento.
e) A desconfiança na capacidade da razão em virtude da “proliferação de óticas”
conflitantes entre si.
MÓDULO 3- A FILOSOFIA DE ARISTÓTELES (384 – 322a.C)
Passados quase quatro séculos de Filosofia, Aristóteles apresenta, nesse período, uma
verdadeira enciclopédia de todo o saber que foi produzido e acumulado pelos gregos em
todos os ramos do pensamento e da prática considerando essa totalidade de saberes
como sendo a Filosofia. Esta, portanto, não é um saber específico sobre algum assunto,
mas uma forma de conhecer todas as coisas, possuindo procedimentos diferentes para
cada campo de coisas que conhece.
Além de a Filosofia ser o conhecimento da totalidade dos conhecimentos e práticas
humanas, ela também estabelece uma diferença entre esses conhecimentos,
distribuindo-os numa escala que vai dos mais simples e inferiores aos mais complexos e
superiores. Essa classificação e distribuição dos conhecimentos fixou, para o
pensamento ocidental, os campos de investigação da Filosofia como totalidade do saber
humano.
Cada saber, no campo que lhe é próprio, possui seu objeto específico, procedimentos
específicos para sua aquisição e exposição, formas próprias de demonstração e prova.
Cada campo do conhecimento é uma ciência (ciência, em grego, é episteme).
Aristóteles afirma que, antes de um conhecimento constituir seu objeto e seu campo
próprios, seus procedimentos próprios de aquisição e exposição, de demonstração e de
prova, deve, primeiro, conhecer as leis gerais que governam o pensamento,
independentemente do conteúdo que possa vir a ter.
O estudo das formas gerais do pensamento, sem preocupação com seu conteúdo, chamase lógica, e Aristóteles foi o criador da lógica como instrumento do conhecimento em
qualquer campo do saber.
A lógica não é uma ciência, mas o instrumento para a ciência e, por isso, na
classificação das ciências feita por Aristóteles, a lógica não aparece, embora ela seja
indispensável para a Filosofia e, mais tarde, tenha se tornado um dos ramos específicos
dela.
Em 1996, descobriu-se em Atenas, Grécia, o sítio arqueológico onde funcionou o Liceu
- a escola fundada por Aristóteles (384-322 a.C.), para concorrer com a Academia, a
escola anterior, fundada por seu antigo professor, Platão (427-347 a.C.). A fundação do
Liceu não reflete nenhuma ingratidão do discípulo com seu mestre, que por sinal já
havia morrido cerca de dez anos quando a escola aristotélica surgiu (336 a.C.).
Aluno de Platão, a quem reconhecia o gênio, Aristóteles passou a discordar de uma
idéia fundamental de sua filosofia e, então, o pensamento dos dois se distanciou. Talvez
seja esse o ponto de partida para se falar da obra filosófica aristotélica.
Platão concebia a existência de dois mundos: aquele que é apreendido por nossos
sentidos - por assim dizer, o mundo concreto -, que está em constante mutação; e um
outro mundo - abstrato -, o mundo das idéias, imutável, independente do tempo e do
espaço, que nos é acessível somente pelo intelecto.
O mundo da experiência
Para Aristóteles, existe um único mundo: este em que vivemos. Só nele encontramos
bases sólidas para empreender investigações filosóficas. Aliás, é o nosso
deslumbramento com este mundo que nos leva a filosofar, para conhecê-lo e entendê-lo.
Aristóteles sustenta que o que está além de nossa experiência não pode ser nada para
nós. Nesse sentido, ele não acreditava e não via razões para acreditar no mundo das
idéias ou das formas ideais platônicas.
Porém, conhecer o mundo da experiência, "concreto", foi um desejo ao qual Aristóteles
se entregou apaixonadamente. Assim, ele descreveu os campos básicos da investigação
da realidade e deu-lhes os nomes com que são conhecidos até os nossos dias: lógica,
física, política, economia, psicologia, metafísica, meteorologia, retórica e ética.
Aliás, ele inventou também os termos técnicos dessas disciplinas e eles também se
mantêm em uso desde então. Exemplos? Energia, dinâmica, indução, demonstração,
substância, essência, propriedade, categoria, proposição, tópico, etc.
O que é ser?
Filósofo que sistematizou a lógica, Aristóteles definiu as formas de inferência que são
válidas e as que não são, além de nomeá-las. Durante dois milênios, estudar lógica
significou estudar a lógica aristotélica.
Aristóteles aplicou a lógica, antes de mais nada, para responder a uma questão que lhe
parecia a mais importante de todas: o que é ser?, ou, em outras palavras, o que significa
existir? Primeiramente, o filósofo constatou que as coisas não são a matéria de que se
constituem.
Por exemplo, uma pilha de telhas, outra de tijolos, vigas e colunas de madeira não são
uma casa. Para se tornarem casa, é necessário que estejam reunidas de um modo
determinado, numa estrutura muito específica e detalhada. Essa estrutura é a casa; e os
materiais, embora necessários, podem variar.
Com o tempo, nosso corpo está em constante mutação - transforma-se da infância para
adolescência, desta para a idade adulta e, finalmente, para a velhice. Nem por isso
deixamos de ser nós mesmos. Da mesma maneira, um cão é um cão em virtude de uma
organização e estrutura que ele compartilha com outros cães e que o diferencia de outros
animais que também são feitos de carne, pelos, ossos, sangue...
As quatro causas
Para Aristóteles uma coisa é o que é devido a sua forma. Como, porém, o filósofo
entende essa expressão? Ele compreende a forma como a explicação da coisa, a causa
de algo ser aquilo que é. Na verdade, Aristóteles distingue a existência de quatro causas
diferentes e complementares:
Causa material: de que a coisa é feita? No exemplo da casa, de tijolos.
Causa eficiente: o que fez a coisa? A construção.
Causa formal: o que lhe dá a forma? A própria casa.
Causa final: o que lhe deu a forma? A intenção do construtor.
Embora Aristóteles não seja materialista (vimos que a forma não é a matéria), sua
explicação do mundo é mundana, está no próprio mundo. Finalmente, para o filósofo, a
essência de qualquer objeto é a sua função. Diz ele que, se o olho tivesse uma alma, esta
seria o olhar; se um machado tivesse uma alma, esta seria o cortar. Entendendo isso,
entendemos as coisas.
Mas o pensamento aristotélico não se limitou a essa área da filosofia que podemos
chamar de teoria do conhecimento ou epistemologia. Deixando de lado os domínios que
deram origem a outras ciências e nos limitando à filosofia propriamente dita, Aristóteles
ainda refletiu sobre a ética, a política e a poética (que, no caso, compreende não apenas
a poesia, mas a obra literária e teatral).
Ética e política
No campo da ética, segundo Aristóteles, todos nós queremos ser felizes no sentido mais
pleno dessa palavra. Para obter a felicidade, devemos desenvolver e exercer nossas
capacidades no interior do convívio social.
Aristóteles acredita que a auto-indulgência e a autoconfiança exageradas criam conflitos
com os outros e prejudicam nosso caráter. Contudo, inibir esses sentimentos também
seria prejudicial. Vem daí sua célebre doutrina do justo meio, pela qual a virtude é um
ponto intermediário entre dois extremos, os quais, por sua vez, constituem vícios ou
defeitos de caráter.
Por exemplo, a generosidade é uma virtude que se situa entre o esbanjamento e a
mesquinharia. A coragem fica entre a imprudência e a covardia; o amor-próprio, entre a
vaidade e a falta de auto-estima, o desprezo por si mesmo. Nesse sentido, a ética
aristotélica é uma ética do comedimento, da moderação, do afastamento de todo e
qualquer excesso.
Para Aristóteles, é a ética que conduz à política. Segundo o filósofo, governar é permitir
aos cidadãos viver a vida plena e feliz eticamente alcançada. O Estado, portanto, deve
tornar possível o desenvolvimento e a felicidade do indivíduo. Por fim, o indivíduo só
pode ser feliz em sociedade, pois o homem é, mais do que um ser social, um animal
político - ou seja, que precisa estabelecer relações com outros homens.
O papel da arte
A poética tem, para Aristóteles, um papel importantíssimo nisso, na medida em que é a
arte - em especial a tragédia - que nos proporciona as grandes noções sobre a vida, por
meio de uma experiência emocional. Identificamo-nos com os personagens da tragédia e
isso nos proporciona a catarse, uma descarga de desordens emocionais que nos purifica,
seja pela piedade ou pelo terror que o conflito vivido pelas personagens desperta em
nós.
Tudo isso é, evidentemente, um resumo ultra-sintético do pensamento aristotélico. Sua
obra é gigantesca, apesar de a maior parte dela ter se perdido ao longo dos tempos. O
que chegou até nós corresponde a 1/5 de sua produção. São notas suas e de seus
discípulos que passaram nas mãos de estudiosos da Antigüidade, da Idade Média (parte
dos quais em países islâmicos), e que foram reorganizadas pela posteridade.
Principalmente em função disso, a leitura de Aristóteles é difícil e seus textos não
possuem a qualidade artística que encontramos nas obras de Platão.
EXERCÍCIOS DE FIXAÇÃO
1- (UFU 2 fase Janeiro de 1999)"E se indagamos quais são os princípios ou elementos
das substâncias, relações e quantidades – se são os mesmos ou diferentes - é claro que
quando os nomes das causas são usados em vários sentidos as causas de cada um são as
mesmas, mas quando distinguimos os sentidos elas são diferentes".
(Aristóteles - Metafísica - Editora Globo - Porto Alegre.)
O texto de Aristóteles refere-se à distinção das causas em sua teoria da causalidade.
Quais são as causas aristotélicas? Descreva a especificidade de cada uma delas.
2- (UFG-2004 ) Há na espécie humana indivíduos tão inferiores a outros como o corpo
o é em relação a alma ou a fera ao homem; são os homens nos quais o emprego da força
física é o melhor que dela se obtém. Partindo dos nossos princípios, tais indivíduos são
destinados por natureza à escravidão, porque, para eles, nada é mais fácil de obedecer.
Aristóteles, Política. Rio de Janeiro: Ediouro, s.d., p.26.
Aristóteles escreveu esse texto no IV século a. C., momento do início da expansão
macedônica sobre as cidades-Estados gregas escravistas. A partir do fragmento,
identifique dois argumentos que justificavam a escravidão no mundo greco-romano.
3- (UFU/2002)
“Todos os homens são mortais.
Sócrates é homem.
Logo, Sócrates é mortal.”
Sobre o silogismo em geral e, sobre este em particular, é correto afirmar que:
I - é um raciocínio indutivo, pois parte de duas premissas verdadeiras e chega a uma
conclusão também verdadeira.
II - o termo médio homem liga os extremos e, por isso, não pode estar presente na
conclusão.
III - é um raciocínio válido, porque é constituído por proposições verdadeiras, não
importando a relação de inclusão (ou de exclusão) estabelecida entre seus termos.
IV - as premissas, desde que uma delas seja universal, devem tornar necessária a
conclusão.
Marque a alternativa que contém todas as afirmações corretas.
A) II e IV
B) I e II
C) II e III
D) III e IV
grego.
4- (UEL-2004) Observe a charge e leia o texto a seguir.
Animal Político Não alimente
Fonte: LAERTE. Classificados. São Paulo: Devir, 2001. p. 25.
“É evidente, pois, que a cidade faz parte das coisas da natureza, que o homem é
naturalmente um animal político, destinado a viver em sociedade, e que aquele que, por
instinto, e não porque qualquer circunstância o inibe, deixa de fazer parte de uma
cidade, é um ser vil ou superior ao homem [...].” (ARISTÓTELES. A política. Trad. de
Nestor Silveira Chaves. Rio de Janeiro: Ediouro, 1997. p. 13.)
Com base no texto de Aristóteles e na charge, é correto afirmar:
a) O texto de Aristóteles confirma a idéia exposta pela charge de que a condição
humana de ser político é artificial e um obstáculo à liberdade individual.
b) A charge apresenta uma interpretação correta do texto de Aristóteles segundo a qual a
política é uma atividade nociva à coletividade devendo seus representantes serem
afastados do convívio social.
c) A charge aborda o ponto de vista aristotélico de que a dimensão política do homem
independe da convivência com seus semelhantes, uma vez que o homem basta-se a si
próprio.
d) A charge, fazendo alusão à afirmação aristotélica de que o homem é um animal
político por natureza, sugere uma crítica a um tipo de político que ignora a coletividade
privilegiando interesses particulares e que, por isso, deve ser evitado.
e) Tanto a charge quanto o texto de Aristóteles apresentam a idéia de que a vida em
sociedade degenera o homem, tornando-o um animal.
5- (UEL-2004)“Uma vez que constituição significa o mesmo que governo, e o governo
é o poder supremo em uma cidade, e o mando pode estar nas mãos de uma única pessoa,
ou de poucas pessoas, ou da maioria, nos casos em que esta única pessoa, ou as poucas
pessoas, ou a maioria, governam tendo em vista o bem comum, estas constituições
devem ser forçosamente as corretas; ao contrário, constituem desvios os casos em que o
governo é exercido com vistas ao próprio interesse da única pessoa, ou das poucas
pessoas, ou da maioria, pois ou se deve dizer que os cidadãos não participam do
governo da cidade, ou é necessário que eles realmente participem.” (ARISTÓTELES.
Política. Trad. de Márioda Gama Kury. 3.ed. Brasília: Editora UNB, 1997. p. 91.)
Com base no texto e nos conhecimentos sobre as formas de governo em Aristóteles,
analise as afirmativas a seguir.
I. A democracia é uma forma de governo reta, ou seja, um governo que prioriza o
exercício do poder em benefício do interesse comum.
II. A democracia faz parte das formas degeneradas de governo, entre as quais destacamse a tirania e a oligarquia.
III. A democracia é uma forma de governo que desconsidera o bem de todos; antes,
porém, visa a favorecer indevidamente os interesses dos mais pobres, reduzindo-se,
desse modo, a uma acepção demagógica.
IV. A democracia é a forma de governo mais conveniente para as cidades gregas,
justamente porque realiza o bem do Estado, que é o bem comum.
Estão corretas apenas as afirmativas:
a) I e III.
b) I e IV.
c) II e III.
d) I, II e III.
e) II, III e IV.
6- (UFU - 2 fase Junho de 2003) “Sendo, pois, de duas espécies a virtude, intelectual e
moral, a primeira, por via de regra, gera-se e cresce graças ao ensino - por isso requer
experiência e tempo; enquanto a virtude moral é adquirida em resultado do hábito,
donde ter se formado o seu nome ética [êthiké] por uma pequena modificação da
palavra hábito [éthos]. Por tudo isso, evidenciase também que nenhuma das virtudes
morais surge em nós por natureza; com efeito, nada do que existe naturalmente pode
formar um hábito contrário à sua natureza. Por exemplo, a pedra que por natureza se
move para baixo não se pode imprimir o hábito de ir para cima, ainda que tentemos
adestrá-la jogando-a dez mil vezes no ar; nem se pode habituar o fogo a dirigir-se para
baixo, nem qualquer coisa que por natureza se comporte de certa maneira a comportarse de outra”. Aristóteles. Ética a Nicômaco. São Paulo: Abril Cultural, 1973. Coleção
“Os Pensadores”. p. 267.
A partir da análise do texto acima, estabeleça, em primeiro lugar, a distinção entre
virtude intelectual e moral; mostre, a seguir, por que a virtude moral não surge em nós
por natureza.
7- (UFU 2 fase Janeiro de 2004) No livro V da Metafísica, Aristóteles serviu-se das
seguintes palavras para definir
acidente: .Acidente significa: (1) o que adere a uma coisa e dela pode ser afirmado com
verdade, porém não necessariamente, nem habitualmente; por exemplo, se alguém ao
cavar um buraco para plantar uma árvore, encontra um tesouro. Esse fato . o encontro
do tesouro . é um acidente para o homem que cavou o buraco, pois nem uma coisa
provém necessariamente da outra ou vem depois dela, nem é habitual descobrir tesouros
quando se planta uma árvore..
ARISTÓTELES. Metafísica [livro V, 30, 1025a 1-25] Trad. De Leonel Vallandro. Porto
Alegre: Globo, 1969, p. 140.
Com base na descrição de Aristóteles apresentada acima, explique qual é a causa
responsável pelo acidente.
8- (UFU 1 fase Janeiro de 2004) Observe o silogismo abaixo:
Muitas pessoas com mais de trinta anos são chatas.
Esta pessoa tem mais de 30 anos.
Esta pessoa é chata.
Considerando, respectivamente, as premissas e a conclusão do silogismo, é correto
afirmar que:
a) as premissas são absolutamente inválidas e a conclusão do silogismo é verdadeira.
b) as premissas são verdadeiras, logo, a conclusão do silogismo é verdadeira.
c) as premissas podem ser verdadeiras, porém, a conclusão do silogismo é inválida.
d) as premissas são logicamente inválidas, portanto, a conclusão do silogismo é falsa.
9- (UEL_2005) “A busca da ética é a busca de um ‘fim’, a saber, o do homem. E o
empreendimento humano como um todo, envolve a busca de um ‘fim’: ‘Toda arte e
todo método, assim como toda ação e escolha, parece tender para um certo bem; por isto
se tem dito, com acerto, que o bem é aquilo para que todas as coisas tendem’. Nesse
passo inicial de a Ética a Nicômacos está delineado o pensamento fundamental da Ética.
Toda atividade possui seu fim, ou em si mesma, ou em outra coisa, e o valor de cada
atividade deriva da sua proximidade ou distância em relação ao seu próprio fim”.
(PAIXÃO, Márcio Petrocelli. O problema da felicidade em Aristóteles: a passagem da
ética à dianoética aristotélica no problema da felicidade. Rio de Janeiro: Pós-Moderno,
2002. p. 33-34.)
Com base no texto e nos conhecimentos sobre a ética em Aristóteles, considere as
afirmativas a seguir.
I. O “fim” último da ação humana consiste na felicidade alcançada mediante a aquisição
de honrarias oriundas da vida política.
II. A ética é o estudo relativo à excelência ou à virtude própria do homem, isto é, do
“fim” da vida humana.
III. Todas as coisas têm uma tendência para realizar algo, e nessa tendência
encontramos seu valor, sua virtude, que é o “fim” de cada coisa.
IV. Uma ação virtuosa é aquela que está em acordo com o dever, independentemente
dos seus “fins”.
Estão corretas apenas as afirmativas:
a) I e IV.
b) II e III.
c) III e IV.
d) I, II e III.
e) I, II e IV.
10- (UEL-2005) “[...] não é ofício do poeta narrar o que aconteceu; é, sim, o de
representar o que poderia acontecer, quer dizer: o que é possível segundo a
verossimilhança e a necessidade. Com efeito, não diferem o historiador e o poeta por
escreverem verso ou prosa [...] diferem, sim, em que diz um as coisas que sucederam, e
outro as que poderiam suceder. Por isso a poesia é algo de mais filosófico e mais sério
do que a história, pois refere aquela principalmente o universal, e esta o particular”.
(ARISTÓTELES. Poética. Trad. de Eudoro de Souza. São Paulo: Nova Cultural, 1987.
p. 209.)
Com base no texto e nos conhecimentos sobre a estética em Aristóteles, é correto
afirmar:
a) A poesia é uma cópia imperfeita, realizada no mundo sensível, sob a inspiração das
musas e distante da verdade.
b) Os poetas, de acordo com a sua índole, representam pessoas de caráter elevado, como
ocorre na tragédia, ou homens inferiores, como na comédia.
c) A poesia deve ser fiel aos acontecimentos históricos e considerar os fatos em sua
particularidade.
d) A poesia deve a sua origem à história e a compreensão daquela supõe o entendimento
da própria natureza do ser humano.
e) A imitação, que ocorre na tragédia, representa uma ação completa e de caráter
elevado, de uma forma narrativa e não dramática.
MÓDULO 4- A FILOSOFIA MEDIEVAL
SÉCULO I ao SÉCULO VII - PATRÍSTICA
Inicia-se com as Epístolas de São Paulo e o Evangelho de São João e termina no século
VIII, quando teve início a Filosofia medieval.
A patrística resultou do esforço feito pelos dois apóstolos intelectuais (Paulo e João) e
pelos primeiros Padres da Igreja para conciliar a nova religião - o Cristianismo - com o
pensamento filosófico dos gregos e romanos, pois somente com tal conciliação seria
possível convencer os pagãos da nova verdade e convertê-los a ela. A Filosofia
patrística liga-se, portanto, à tarefa religiosa da evangelização e à defesa da religião
cristã contra os ataques teóricos e morais que recebia dos antigos.
Divide-se em patrística grega (ligada à Igreja de Bizâncio) e patrística latina (ligada à
Igreja de Roma) e seus nomes mais importantes foram: Justino, Tertuliano, Atenágoras,
Orígenes, Clemente, Eusébio, Santo Ambrósio, São Gregório Nazianzo, São João
Crisóstomo, Isidoro de Sevilha, Santo Agostinho, Beda e Boécio.
A patrística foi obrigada a introduzir idéias desconhecidas para os filósofos grecoromanos: a idéia de criação do mundo, de pecado original, de Deus como trindade una,
de encarnação e morte de Deus, de juízo final ou de fim dos tempos e ressurreição dos
mortos, etc. Precisou também explicar como o mal pode existir no mundo, já que tudo
foi criado por Deus, que é pura perfeição e bondade. Introduziu, sobretudo com Santo
Agostinho e Boécio, a idéia de “homem interior”, isto é, da consciência moral e do
livre-arbítrio, pelo qual o homem se torna responsável pela existência do mal no mundo.
Para impor as idéias cristãs, os Padres da Igreja as transformaram em verdades
reveladas por Deus (através da Bíblia e dos santos) que, por serem decretos divinos,
seriam dogmas, isto é, irrefutáveis e inquestionáveis. Com isso, surge uma distinção,
desconhecida pelos antigos, entre verdades reveladas ou da fé e verdades da razão ou
humanas, isto é, entre verdades sobrenaturais e verdades naturais, as primeiras
introduzindo a noção de conhecimento recebido por uma graça divina, superior ao
simples conhecimento racional. Dessa forma, o grande tema de toda a Filosofia
patrística é o da possibilidade de conciliar razão e fé, e, a esse respeito, havia três
posições principais:
1. Os que julgavam fé e razão irreconciliáveis e a fé superior à razão (diziam eles:
“Creio porque absurdo”).
2. Os que julgavam fé e razão conciliáveis, mas subordinavam a razão à fé (diziam eles:
“Creio para compreender”).
3. Os que julgavam razão e fé irreconciliáveis, mas afirmavam que cada uma delas tem
seu campo próprio de conhecimento e não devem misturar-se (a razão se refere a tudo o
que concerne à vida temporal dos homens no mundo; a fé, a tudo o que se refere à
salvação da alma e à vida eterna futura).
SANTO AGOSTINHO (354 -430)
De fato, além de filósofo, Agostinho era um escritor primoroso, expoente da literatura
em língua latina, o que pode ser confirmado principalmente pela leitura das suas
Confissões, uma obra-prima. No entanto, infelizmente, mesmo lido em português, não
se trata de um livro fácil para o leitor de hoje.
Quem quiser se aventurar a conhecê-la deve se lembrar de que só se pode ver o
panorama esplendoroso do pico de uma montanha depois de empreender uma difícil
escalada. Da mesma maneira, é difícil explicar em poucas linhas a obra de Agostinho,
que conta com cerca de 5 milhões de palavras.
Aspectos biográficos
Agostinho ou Aurelius Augustinus (354-430) foi um homem que viveu num momento
limite: o Império romano se esfacelava: com a queda de Roma terminava o mundo
antigo e tinha início a Idade Média, por isso, talvez, o filósofo tenha produzido uma
obra que é essencialmente a síntese do pensamento de Platão com o cristianismo.
Seus pais se esforçaram para mandá-lo estudar na Universidade de Cartago, a grande
metrópole da África romana.
Independentemente disso, Agostinho leu o filósofo e orador romano Cícero (10643a.C.) e, influenciado por ele, deu início a uma busca filosófica pela verdade, que o
levou a adotar as mais diversas posições filosóficas e religiosas (maniqueísmo,
ceticismo) até abraçar o cristianismo aos 32 anos. Mais tarde se tornaria bispo da cidade
de Hipona (atual Annaba, na Argélia).
O tempo
Segundo ele mesmo relata, obteve nesse momento uma revelação divina, juntamente
com sua mãe (Santa Mônica), e mudou de vida, embora seu pensamento, desde então,
evoluísse gradativamente, com as idéias amadurecendo ao longo do tempo. O tempo,
aliás, foi objeto de suas reflexões, que, sobre esse tema, anteciparam o pensamento de
Descartes (1596-1650), Kant (1724-1784), e Schopenhauer (1788-1860).
Para Agostinho, o tempo não tem realidade em si, é uma invenção do homem,
constituído por três nadas: o passado, que não existe mais; o futuro, que ainda não
existe; e o presente, tão fugaz que é uma mistura de passado e futuro. É a partir daí que
se compreende com certa facilidade a concepção agostiniana de Deus.
Assim como Platão (427-347 a.C.), Agostinho concebe Deus como uma entidade que
pertence a um reino de verdades atemporais, perfeitas e imateriais, com o qual só temos
contato de maneira não-sensorial: tendo sido feitos à imagem e semelhança de Deus,
uma parte desse reino existe dentro de nós (e pode ser identificado com a alma).
Interioridade
Dentro é outra palavra chave para conhecer o pensamento de Agostinho: em sua busca
filosófica, ele deixou de lado a reflexão sobre o mundo exterior, e fez uma profunda
introspecção para descobrir a sua interioridade, a essência do ser humano.
Para encerrar, convém lembrar que o cristianismo - antes de Agostinho - pouco tinha de
filosófico: consistia da crença num Deus criador que se fez homem e num conjunto de
instruções morais. Por isso, o filósofo pôde conciliá-lo sem contradições ao platonismo.
SÉCULO VIII ao SÉCULO XIV - MEDIEVAL
Abrange pensadores europeus, árabes e judeus. É o período em que a Igreja Romana
dominava a Europa, ungia e coroava reis, organizava Cruzadas à Terra Santa e criava, à
volta das catedrais, as primeiras universidades ou escolas. E, a partir do século XII, por
ter sido ensinada nas escolas, a Filosofia medieval também é conhecida com o nome de
Escolástica.
A Filosofia medieval teve como influências principais Platão e Aristóteles, embora o
Platão que os medievais conhecessem fosse o neoplatônico (vindo da Filosofia de
Plotino, do século VI d.C.), e o Aristóteles que conhecessem fosse aquele conservado e
traduzido pelos árabes, particularmente Avicena e Averróis.
Conservando e discutindo os mesmos problemas que a patrística, a Filosofia medieval
acrescentou outros - particularmente um, conhecido com o nome de Problema dos
Universais - e, além de Platão e Aristóteles, sofreu uma grande influência das idéias de
Santo Agostinho. Durante esse período surge propriamente a Filosofia cristã, que é, na
verdade, a teologia. Um de seus temas mais constantes são as provas da existência de
Deus e da alma, isto é, demonstrações racionais da existência do infinito criador e do
espírito humano imortal.
A diferença e separação entre infinito (Deus) e finito (homem, mundo), a diferença
entre razão e fé (a primeira deve subordinar-se à segunda), a diferença e separação entre
corpo (matéria) e alma (espírito), O Universo como uma hierarquia de seres, onde os
superiores dominam e governam os inferiores (Deus, arcanjos, anjos, alma, corpo,
animais, vegetais, minerais), a subordinação do poder temporal dos reis e barões ao
poder espiritual de papas e bispos: eis os grandes temas da Filosofia medieval.
Outra característica marcante da Escolástica foi o método por ela inventado para expor
as idéias filosóficas, conhecida como disputa: apresentava-se uma tese e esta devia ser
ou refutada ou defendida por argumentos tirados da Bíblia, de Aristóteles, de Platão ou
de outros Padres da Igreja.
Assim, uma idéia era considerada uma tese verdadeira ou falsa dependendo da força e
da qualidade dos argumentos encontrados nos vários autores. Por causa desse método de
disputa - teses, refutações, defesas, respostas, conclusões baseadas em escritos de outros
autores -, costuma-se dizer que, na Idade Média, o pensamento estava subordinado ao
princípio da autoridade, isto é, uma idéia é considerada verdadeira se for baseada nos
argumentos de uma autoridade reconhecida (Bíblia, Platão, Aristóteles, um papa, um
santo).
Os teólogos medievais mais importantes foram: Abelardo, Duns Scoto, Escoto Erígena,
Santo Anselmo, São Tomás de Aquino, Santo Alberto Magno, Guilherme de Ockham,
Roger Bacon, São Boaventura. Do lado árabe: Avicena, Averróis, Alfarabi e Algazáli.
Do lado judaico: Maimônides, Nahmanides, Yeudah bem Levi.
SÃO TOMÁS DE AQUINO (1225-1274)
Deus existe? É possível provar sua existência? Razão e fé são incompatíveis? Tais
questões foram centrais na filosofia medieval, que, por mais de mil anos
(aproximadamente, entre os séculos II a.C. e XIII d.C.), subordinou especulações
filosóficas aos dogmas das escrituras sagradas, sob o domínio da Igreja Católica.
A partir da Renascença, o período passou a ser conhecido como Idade Média, para
caracterizar uma era de "trevas" para a razão, localizada entre o florescimento da
filosofia helenística na Antiguidade e sua retomada no fim do século XIII. Mas, ao
contrário, a Idade Média foi uma época de consideráveis avanços em filosofia,
principalmente no campo da lógica, e cujos temas permanecem atuais.
O outro período, a Escolástica (século VIII a XIV), assim chamada em razão dos
professores das universidades medievais, os escolásticos, foi marcada pela tentativa de
conciliação entre razão e fé. Um dos mais importantes nomes da filosofia medieval e
maior representante deste período foi Santo Tomás de Aquino (1225-1274).
Aristóteles
Na época de Tomás de Aquino começaram a ser difundidos na Europa escritos de
Aristóteles (384 a.C. - 322 a.C.), grande parte graças a filósofos árabes como Averróes e
Avicena.
Mas, ao contrário de Platão, cuja filosofia idealista incluía, por exemplo, uma noção de
alma imortal (e, deste modo, pôde se adequar mais facilmente ao cristianismo), o
pensamento aristotélico, com seu caráter mais científico, representava uma ameaça à
política.
Coube a Tomás de Aquino tornar a metafísica aristotélica não somente aceitável para os
cânones papais como também um fino tecido argumentativo em favor da fé cristã.
Razão e fé
Oposto à Patrística, o pensamento tomista é construído em bases racionais e empíricas,
separando filosofia de teologia, apesar de subordinar a primeira à segunda. Assim, o
papel da razão é demonstrar e ordenar os mistérios revelados pela fé.
Razão e fé puderam ser, enfim, harmonizadas, apesar de serem distintas, mesmo no que
diz respeito às verdades que podem alcançar, conforme afirma Tomás de Aquino em
"Súmula contra os gentios": Com efeito, existem a respeito de Deus verdades que
ultrapassam totalmente as capacidades da razão humana. Uma delas é, por exemplo,
que Deus é trino e uno. Ao contrário, existem verdades que podem ser atingidas pela
razão: por exemplo, que Deus existe, que há um só Deus etc. Estas últimas verdades, os
próprios filósofos as provaram por via demonstrativa, guiados que eram pelo lume da
razão natural.
EXERCÍCIOS DE FIXAÇÃO
1- (UFU 1/1999) Pedro Abelardo foi um filósofo medieval que participou de uma
acirrada disputa filosófica no século XII. Essa disputa centrava-se sobre:
a) a existência de Deus.
b) o predomínio da fé sobre a razão.
c) a questão da existência dos universais.
d) a presença do mal no mundo.
e) a morte da alma.
2- (UFU 09/2002) A Patrística, filosofia cristã dos primeiros séculos, poderia ser
definida como:
a) retomada do pensamento de Platão, conforme os modelos teológicos da época,
estabelecendo estreita relação entre filosofia e religião.
b) configuração de um novo horizonte filosófico, proposto por Santo Agostinho,
inspirado em Platão, de modo a resgatar a importância das coisas sensíveis, da
materialidade.
c) adaptação do pensamento aristotélico, conforme os moldes teológicos da época.
d) criação de uma escola filosófica, que visava combater os ataques dos pagãos,
rompendo com o dualismo grego.
3- (UFU 09/2002) Agostinho formula sua teoria do conhecimento a partir da máxima
“creio tudo o que entendo, mas nem tudo que creio conheço”. A posição do autor não
impede que cada um busque a sabedoria com suas próprias forças; o que ainda não é
conhecido pode ser revelado mediante a consulta da verdade interior.
Com
base
neste
argumento,
assinale
a
alternativa
correta.
a) É incorreto afirmar que a verdade interior que soa no íntimo das pessoas seja o
Cristo; e o arbítrio humano é consultado sobre o que não se conhece.
b) As coisas que ainda não conhecemos só podem ser percebidas pelos sentidos do
corpo e podem ser comunicadas facilmente por intermédio das palavras.
c) A verdade interior está à disposição de cada um e encontra-se armazenada na
memória, de modo que o uso da memória dispensa a contemplação da luz interior.
d) A verdade interior só pode ser percebida pelo homem interior, que é iluminado pela
luz desta verdade interior, que é contemplada por cada um.
4- (UFU- Março de 2002) “Diz o profeta: ‘Se não credes, não entendereis’; certamente
não diria isto se não julgasse necessário pôr uma diferença entre as duas coisas.
Portanto, creio tudo o que entendo, mas nem tudo que creio também entendo”.
Sto. Agostinho. De Magistro. Coleção “Os Pensadores”. São Paulo: Abril Cultural,
1973.
Explique a idéia central desse fragmento a partir da relação entre Fé e Razão no
contexto da Filosofia Patrística
5- (UFU 1ª fase Janeiro de 2004)Agostinho escreveu a história de sua vida aos 43
anos de idade. Nas Confissões, mais do que o relato da conversão ao cristianismo,
Agostinho apresenta também as teses centrais da sua filosofia. Tanto é assim que, ao
narrar os primeiros anos de vida e a aquisição da linguagem, o autor já fazia menção à
teoria da iluminação divina. Vejamos:
“ Não eram pessoas mais velhas que me ensinavam as palavras, com métodos, como
pouco depois o fizeram para as letras. Graças à inteligência que Vós, Senhor, me destes,
eu
mesmo aprendi, quando procurava exprimir os sentimentos do meu coração por
gemidos,
gritos e movimentos diversos dos membros, para que obedecessem à minha vontade.”
AGOSTINHO. Confissões. Trad. de J. Oliveira Santos e A. Ambrósio de Pina. São
Paulo: Nova Cultural, 1987, p. 15.
Analise as assertivas abaixo.
I . A condição humana é mutável e perecível, por isso, não pode ser a mestra da verdade
que o homem busca conhecer, ou seja, conhecimento da verdade não pode ser ensinado
pelo homem, somente a Luz imutável de Deus pode conduzir à verdade.
II . A inteligência, dada por Deus, é idêntica à Luz imutável, que conduz ao
conhecimento da verdade, ambas proporcionam a certeza de que o entendimento
humano é divino e dotado da mesma força do Verbo de Deus, que a tudo criou.
III . A razão humana é iluminada pela luz interior da verdade. Assim, Agostinho
formulou, pela primeira vez, na história da filosofia, a teoria das idéias inatas, cuja
existência e certeza são independentes e autônomas em relação ao intelecto divino.
IV . O conhecimento daquilo que se dá exclusivamente à inteligência não é alcançado
com as palavras de outros homens, porque elas soam de fora da mente de quem precisa
aprender. Portanto, esta verdade só é ensinada pelo mestre interior.
Assinale a alternativa que contém as assertivas verdadeiras.
a) I e III
b) I e IV
c) II e III
d) II e IV
6- (UFU 1/1999) O filósofo grego que maior influência exerceu sobre Santo Tomás de
Aquino foi:
a) Platão.
b) Aristóteles.
c) Sócrates.
d) Heráclito.
e) Parmênides.
7- (UFU 1ª Fase Janeiro de 2004) Em O ente e a essência, Tomás de Aquino
argumenta sobre a existência de Deus, refutando teses de outras doutrinas da filosofia
escolástica. Com este propósito ele escreveu:
“Tampouco é inevitável que, se afirmarmos que Deus é exclusivamente ser ou
existência, caiamos no erro daqueles que disseram que Deus é aquele ser universal, em
virtude do qual todas as coisas existem formalmente. Com efeito, este ser que é Deus é
de tal condição, que nada se lhe pode adicionar. (...) Por este motivo afirma-se no
comentário à nona proposição do livro Sobre as Causas, que a individuação da causa
primeira, a qual é puro ser, ocorre por causa da sua bondade. Assim como o ser comum
em seu intelecto não inclui nenhuma adição, da mesma forma não inclui no seu intelecto
qualquer precisão de adição, pois, se isto acontecesse, nada poderia ser compreendido
como ser, se nele algo pudesse ser acrescentado."
AQUINO, Tomás. O ente e a essência. Trad. de Luiz João Baraúna. São Paulo: Nova
Cultural, 1988, p. 15. Coleção .Os Pensadores..
Tomás de Aquino está seguro de que nada se pode acrescentar a Deus, porque:
a) sua essência composta de essência e existência é auto-suficiente para gerar
indefinidamente matéria e forma, criando todas as coisas.
b) sua essência simples é gerada incessantemente, embora não seja composta de matéria
e forma, multiplica-se em si mesmo na pluralidade dos seres.
c) é essência divina, absolutamente simples e idêntica a si mesma, constituindo-se,
necessariamente, uma essência única.
d) é ser contingente, no qual essência e existência não dependem do tempo, por isso,
gera a si mesmo eternamente, dando existência às criaturas.
BIBLIOGRAFIA
ARANHA, M. L. A.; MARTINS, M. H. P. Filosofando: introdução à filosofia. 2. ed.
rev. atual. São Paulo: Moderna, 2002.
CABALLERO, A. Filosofia do Humano I. São José do Rio Preto: Rio-pretense, 2000.
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São Paulo: Paulus, 2001.
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JOLIVET, R. Curso de Filosofia. 20. ed. Rio de Janeiro: Agir, 2001.
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PAIVA, V. Filosofia, encantamento e caminho: introdução ao exercício do filosofar.
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