Probabilidade: discursos produzidos sobre a bissexualidade Probability: discourses produced about bisexuality Renata Silva Pamplona Doutoranda no Programa de Pós- Graduação em Educação, Universidade Federal de São Carlos. [email protected] Nilson Fernandes Dinis Professor associado no Departamento de Educação da Universidade Federal de São Carlos. Pesquisador bolsista do CNPQ. Doutor em Educação. [email protected] Agradecemos a Capes pelo apoio financeiro concedido para realização dessa pesquisa. Resumo Este artigo objetiva analisar como são produzidos os discursos sobre a bissexualidade em um vídeo educativo. Toma-se como corpus de análise o vídeo: Probabilidade, que narra o dilema vivenciado pelo adolescente Leonardo, diante da possibilidade de estabelecer experiências afetivo-sexuais com garotas e garotos. A confusão de Leonardo diante da necessidade de nomear sua orientação sexual é solucionada numa aula de probabilidade. Esse vídeo compõe parte do material educativo Kit anti-homofobia. Como opção metodológica trabalhar-se-á a partir da arqueogenealogia foucaultiana, uma vez que esse acontecimento se insere numa ordem de saber e poder. A conclusão é de que o vídeo ao produzir a bissexualidade atrelada ao discurso probabilístico arquiteta um discurso da racionalidade, expresso pelo argumento de que pessoas bissexuais possuem mais chances de estabelecer relações amorosas do que pessoas homossexuais ou heterossexuais. Com isso, deixa de priorizar a discussão de diversas vertentes das práticas homofóbicas endereçadas às pessoas bissexuais. A bissexualidade é apresentada como uma prática efêmera, ressaltando assim a heterossexualidade como padrão hegemônico. Palavras-chave: Kit anti-homofobia, Bissexualidade, Probabilidade, Homofobia. Abstract This article aims to analyze how discourses on bisexuality are produced in an educational video. It will be taken as corpus analysis the video Probability, which narrates the dilemma experienced by the adolescent named Leonardo facing the possibility of establishing affective and sexual experiences with girls and boys. Leonardo`s trouble to the need of labeling his sexual orientation is solved in a class of probability. This video makes up part of the teaching material named Kit anti-homophobia. As methodological option, we will work with Foucauldian Arqueogenealogy, given that this event falls within the domain Comunicações • Piracicaba • Ano 20 • n. 2 • p. 97-112 • jul.-dez. 2013 • ISSN Impresso 0104-8481 • ISSN Eletrônico 2238-121X DOI: http://dx.doi.org/10.15600/2238-121X/comunicacoes.v20n2p97-112 97 of knowledge and power. The conclusion is that the video by producing bisexuality linked to probabilistic discourse, architects a discourse of rationality expressed in the argument that bisexual people have more chances to establish romantic relationships than homosexual or heterosexual people. With that idea, the discussion of the different aspects of homophobic practices addressed to bisexual people is put aside. Bisexuality is presented as an ephemeral practice, thus highlighting the hegemonic heterosexuality as standard pattern. Key-words: Anti-homophobia kit, bisexuality, probability, homophobia. A bissexualidade rompe com a ordem compulsória comumente esperada entre sexo, gênero e desejo, delineada por Judith Butler (2003). A indefinição de uma orientação sexual categórica por um/uma parceiro/a do sexo oposto ou do mesmo sexo expressa um limiar frente aos exercícios discriminatórios, operados tanto por pessoas heterossexuais e homossexuais. Essa orientação sexual apresenta importantes questões para discussão das práticas normativas e de resistência endereçadas às diferenças sexuais. Nessa direção e partilhando de um viés teórico foucaultiano, este trabalho se propõe a realizar uma análise a respeito de como o discurso da bissexualidade é produzido em um vídeo educativo que se propõe a combater a homofobia no contexto escolar. Tomar-se-á como corpus1 de estudo um vídeo que narra o dilema vivenciado pelo adolescente Leonardo diante da possibilidade de estabelecer experiências bissexuais. Esse vídeo compõe parte do material educativo Kit anti-homofobia, elaborado pelo MEC nos anos de 2008/2010, com objetivo de enfrentar e combater a homofobia2 em instituições escolares públicas no Brasil. Esse material tem motivado uma ampla polêmica, fomentada pelas distintas mídias brasileiras, entre educadoras/es, psicólogas/os, políticos, militantes da comunidade LGBTTT3, pais, mães, alunas/os, com discursos de ordens diversas a respeito de possíveis contribuições ou mesmo danos que o material ofereceria ou oferecerá para a formação (em especial, no que se faz referência à constituição da sexualidade) de alunos e alunas nos espaços escolares, o que fez o material até o momento ser suspenso por meio de um veto da presidente Dilma Rousseff. Neste artigo, de maneira específica, interessa tomar como corpus de estudo o vídeo: Probabilidade que é um dos cinco vídeos que compõem o Kit anti-homofobia. O material todo foi apelidado de kit gay pela imprensa, o que remete a um sentido contrário a que se destina, ou seja, ter por função contribuir para oportunizar reflexões sobre a diversidade sexual. O nome kit gay parece sugerir uma aula referente a como ser homossexual, o que contraria as motivações da elaboração do material didático de se destinarem ao enfretamento do preconceito e das práticas homofóbicas nas escolas. A palavra kit tem “(...) corpus como discurso efetivamente pronunciado”(BARBOSA, 2004, p. 110). A homofobia [...] transcende tanto aspectos de ordem psicológica, quanto a hostilidade e a violência contra pessoas homossexuais, bissexuais, travestis, transexuais e interse-xos etc. Ela, inclusive, diz respeito a valores, mecanismos de exclusão, disposições e estruturas hierarquizantes, relações de poder, sistemas de crenças e de representação, padrões relacionais e identitários, todos voltados a naturalizar, impor, sancionar e legitimar uma única seqüência sexo-gênero-sexualidade, centrada na heterossexua-lidade e rigorosamente regulada pelas normas de gênero (JUNQUEIRA, 2009, p. 375). 3 Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Transgêneros. 1 2 98 Comunicações • Piracicaba • Ano 20 • n. 2 • p. 97-112 • jul.-dez. 2013 • ISSN Impresso 0104-8481 • ISSN Eletrônico 2238-121X DOI: http://dx.doi.org/10.15600/2238-121X/comunicacoes.v20n2p97-112 origem inglesa e entre outras definições, significa o “Conjunto de elementos vendidos com um esquema de montar e que o próprio comprador pode armar: kit de aeromodelo. Jogo de elementos ou peças: kit de ferramentas” (DICIONÁRIO..., 2012, s. p.), o que sugere uma flexibilidade discursiva oferecida pela palavra kit. Da mesma forma que o utensílio, a palavra kit pode ser armada e utilizada a partir de um jogo minucioso de interesses. O projeto do governo federal que se iniciou com o nome Escola sem homofobia resultou na elaboração do material didático intitulado kit anti-homofobia e que, posteriormente, ganhou na mídia o apelido de kit gay. Visto pela definição anterior, o kit é um conjunto de material vendido para ser facilmente armado e montado; nesse sentido, não parece indevido pensar a expressão kit gay como uma estratégia de venda pejorativa do projeto Escola sem homofobia e do material didático produzido, como materiais de qualidade duvidosa, ou antes, impróprios. Com o nome kit gay constrói-se um discurso maléfico, demonizando o material educativo, bem como, os sujeitos ali apresentados. Assim arquitetam-se percepções, entendimentos e julgamentos a respeito do kit, cria-se um arsenal de discursos em torno do acontecimento Escola sem Homofobia, os quais engendram novos saberes sobre a pluralidade sexual nas escolas, ao mesmo tempo em que restauram antigos entendimentos. O vídeo tomado como corpus de análise foi nomeado pelos produtores do kit anti-homofobia de Probabilidade, palavra comumente reconhecida por seu pertencimento à linguagem matemática. O vídeo narrado em terceira pessoa, conta a história de Leonardo, um garoto que está num processo de mudança de sua cidade natal e vive os dilemas próprios dessa transição e da separação dos/das amigos/as, e da namorada. Mas o maior enfoque pretendido pelo vídeo é a descoberta por Leonardo de sua bissexualidade e como ele reage frente a essa novidade em sua vida e como os colegas de escola se relacionam com a diversidade sexual no ambiente escolar. Ao se propor a realizar a análise desse vídeo, partilha-se do entendimento de Araújo, para quem analisar o discurso “não é interpretá-lo para chegar a seu âmago, isto é, o que ‘realmente se quis dizer’ (sentido literal). Os discursos não possuem âmago, não são um conjunto de significações” (ARAÚJO, 2004, p. 236). De forma que não se pretende uma ancoragem que busque desvelar cada sentido engendrado pela produção do vídeo, mas sim buscar “...pelas séries de acontecimentos que a ordem do saber produz e controla” (idem), o intuito é antes olhar para os emaranhados e pequenas minúcias daquilo que o acontecimento discursivo pronuncia e produz. Visando ao conhecimento do leitor com o material, transcrever-se-á a partir do próximo parágrafo o conteúdo do vídeo Probabilidade que será analisado neste artigo. Este é Leonardo e este é seu quarto, pelo menos por enquanto, pois Leonardo precisa se mudar, ele sempre morou na mesma casa, e de repente vai ter que ir para outra cidade. Dentro dessas caixas Leonardo está guardando suas coisas mais preciosas, discos, livros, fotos, mas a única coisa que ele realmente quer levar não pode ser guardada numa caixa. Leonardo precisa se separar de Carla e isso o deixa muito triste, ele nunca tinha ficado com uma garota antes, e agora que eles se encontraram ele precisa ir para longe. Comunicações • Piracicaba • Ano 20 • n. 2 • p. 97-112 • jul.-dez. 2013 • ISSN Impresso 0104-8481 • ISSN Eletrônico 2238-121X DOI: http://dx.doi.org/10.15600/2238-121X/comunicacoes.v20n2p97-112 99 Leonardo tem medo de nunca mais gostar de alguém como gosta de Carla, ele também tem medo de não conseguir encontrar novos amigos e não sabe nada sobre a escola em que irá estudar. Quando o diretor da escola apresentou Leonardo para a sua nova turma ele ficou envergonhado, os alunos estavam fazendo um trabalho em grupo e não pareciam interessados em saber quem ele era. Ainda bem que apareceu Mateus. Mateus foi muito legal com Leonardo e o chamou para entrar no seu grupo. Mateus apresentou Leonardo aos seus amigos. Quanto mais Leonardo conhecia Mateus mais gostava dele. Os dois foram descobrindo que tinham diversas coisas em comum, e o que parecia incrível, Mateus também colecionava discos de vinil. Enquanto Leonardo contava para o novo amigo sobre sua antiga escola e as coisas que tinha feito, Mateus apresentava para Leonardo sua nova cidade, e felizmente Mateus conhecia muitos lugares e pessoas legais. Um dia Leonardo estava andando na escola com Mateus e alguns garotos começaram a apontar para eles e rir. Os garotos gritavam e ridicularizavam os dois, chamando-os de namoradinhos. Leonardo pensou em reagir, mas Mateus o impediu. Depois Mateus contou para Leonardo uma coisa que nunca tinha tido coragem de dizer para nenhum outro amigo, Mateus contou que era gay. A princípio Leonardo ficou chocado com a revelação de Mateus, porque Mateus tinha demorado tanto para contar, afinal eles não eram amigos? Depois Leonardo lembrou dos garotos no corredor, seus dedos apontados, e entendeu os motivos de Mateus, entendeu os motivos do amigo, percebeu que o amigo confiava nele. Leonardo teve vontade de fazer mais perguntas, mas ficou com vergonha, acabou agindo como se nada tivesse acontecido, e os dois continuaram tão amigos quanto antes. Um dia durante o recreio Mateus convidou os colegas para a festa de despedida de um primo. Leonardo gostou da idéia, pois ainda não tinha ido a nenhuma festa desde que se mudara. Quando Leonardo chegou à festa ficou um pouco tímido, pois não conhecia ninguém além de Mateus, mas logo Mateus apresentou Leonardo para seu primo Rafael. Mateus contou para Leonardo que Rafael também iria mudar de cidade e que estava triste por deixar a escola e os amigos. Leonardo achou engraçado quando se viu dando conselhos para Rafael. Rafael achou legal conhecer alguém que tinha acabado de passar por uma situação como a sua, vendo como Leonardo já tinha feito amigos e estava gostando de sua nova cidade, Rafael se sentiu mais confiante com a mudança e pela primeira vez pensou que coisas boas também poderiam surgir, que iria conhecer pessoas e lugares diferentes. O fato é que os dois conversaram a noite inteira e gostaram muito um do outro No fim da noite Leonardo ficou triste, pensando que no dia seguinte Rafael iria se mudar. E quando foram se despedir Leonardo sentiu uma coisa que nem ele mesmo esperava, depois de um longo abraço ele teve vontade de beijar Rafael. Leonardo saiu da festa muito confuso. Nessa noite Leonardo não conseguiu dormir, tamanha sua surpresa, será que ele era gay?! Nunca tinha sentido vontade de ficar com um menino antes, mas tinha gostado de Rafael e inegavelmente sentiu atração por ele, mas e Carla? Ele também tinha sentido a mesma coisa por ela, o que estava acontecendo? 100 Comunicações • Piracicaba • Ano 20 • n. 2 • p. 97-112 • jul.-dez. 2013 • ISSN Impresso 0104-8481 • ISSN Eletrônico 2238-121X DOI: http://dx.doi.org/10.15600/2238-121X/comunicacoes.v20n2p97-112 No dia seguinte Leonardo mal conseguia prestar atenção à aula de matemática, pois estava cheio de dúvidas: será que Mateus poderia ajudá-lo? Leonardo olhou para o lado e viu Bia, que também estava olhando para ele, fazia tempo que os dois estavam numa troca de olhares animadora. Leonardo teve certeza que se tivesse oportunidade também ficaria com Bia. E foi copiando a lição de probabilidade, que Leonardo teve um estalo. Porque precisaria decidir entre ficar só com garotas ou com garotos, se ele se interessava pelos dois? E ele não era de se interessar por qualquer um, pelo contrário, era difícil ele querer ficar com alguém, mas, quando ele gostava, não importava se era garoto ou garota, e gostando dos dois a probabilidade de encontrar alguém por quem sentisse atração era quase cinquenta por cento maior, tinha duas vezes mais chances de encontrar alguém. Leonardo sabia que não seria aceito por todos, que assim como Mateus teria que lidar com o preconceito, mas também tinha certeza de que valia a pena enfrentar essas dificuldades para ficar do lado das pessoas de quem gostasse e esperava ainda ter a chance de conhecer muitas pessoas especiais (MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO, 2011, p. s.). O nome probabilidade, próprio do universo matemático, racional, chama a atenção ao ser escolhido para intitular um vídeo educativo que trata sobre bissexualidade e se propõe a combater a homofobia nas escolas. A probabilidade em apreço se refere à chance que o protagonista Leonardo tem de encontrar duas vezes mais um companheiro ou uma companheira, ou seja, de acordo com a narrativa do vídeo, “cinquenta por cento a mais de chances do que heterossexuais ou homossexuais teriam para estabelecer um relacionamento afetivo” (MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO, 2011, p.s). Os argumentos exploradores dessa dimensão quantitativa são enfáticos ao amarrar e concluir a exibição do vídeo e do desfecho da questão apresentada, priorizando essa gama da vantagem lucrativa, quase consumista. Segundo o dicionário Aurélio a etimologia da palavra probabilidade possui os seguintes significados: [Do lat. probabilitate] s.f. 1. Qualidade de provável. 2. Motivo ou indício que deixa presumir a verdade ou a possibilidade dum fato; verossimilhança. 3. Mat. Número positivo e menor que a unidade, que se associa a um evento aleatório, e que se mede pela frequência relativa da sua ocorrência numa longa sucessão de eventos (FERREIRA, 1999, 1640, s.p). A partir dessa compreensão percebe-se pela segunda definição que a probabilidade alude a uma razão que propõe uma suposta verdade, sendo esse o discurso norteador e condutor do vídeo para falar de bissexualidades. Já no Vocabulário de Foucault de Edgardo Castro, a palavra bissexualidade (Bisexualité) é definida como: “a propósito dos gregos, pode-se falar em bissexualidade, apenas se com isso se quer fazer referência ao fato de que se podia amar simultaneamente a um jovem ou a uma jovem. Mas, nisso, não se reconheciam duas espécies de desejo ou pulsão” (CASTRO, 2009, p. 60). Essa concepção vincula a bissexualidade ao amor simultâneo por homens e mulheres, ou seja, o afeto é posto em destaque. Em um sentido contrário, é difícil deixar de reconhecer que nos termos evidenciados no vídeo Probabilidade, a afetividade e subjetividade são substituídas por uma loteria Comunicações • Piracicaba • Ano 20 • n. 2 • p. 97-112 • jul.-dez. 2013 • ISSN Impresso 0104-8481 • ISSN Eletrônico 2238-121X DOI: http://dx.doi.org/10.15600/2238-121X/comunicacoes.v20n2p97-112 101 numérica, a intenção parece ser antes apresentar a bissexualidade num enfoque de ganhos quantitativos, essa passa a ser bem vista à medida que se torna merecedora de aceitação diante de uma visão que apela para o prisma de um discurso valorizador da soma, da racionalidade, da vantagem de se ter mais opções de encontro com um/uma parceiro/ra. Em outras palavras, menos que olhar para os muitos dilemas vivenciados por bissexuais e os preconceitos por eles/elas enfrentados, o vídeo parece querer convencer aquelas/es que repudiam a bissexualidade com um discurso de exaltação quantitativa, em que os ganhos adquiridos diante da facilitação de um encontro, que seria praticamente provável - já que não encontrando um garoto poderia se encontrar uma garota, ou vice-versa - compensariam até mesmo os danos de uma aproximação com a homossexualidade. Como se também o fato de ser bissexual fosse uma suposta garantia para o encontro com mais parceiros/as, esquecendo-se que a própria probabilidade pressupõe a chance numérica de se obter o zero, ou seja, assim como Leonardo pode encontrar parceiros ou parceiras, pode não encontrar nenhum/a, da mesma forma que heterossexuais ou homossexuais. Além disso, é possível considerar a existência de uma estratégia do dispositivo para que a probabilidade em questão não seja a da bissexualidade, mas da própria heterossexualidade, assim, de maneira salvacionista, Leonardo seria reconduzido à hegemônica normalidade. Entretanto, o enredamento desse discurso racional cria armadilhas para a experiência de uma discussão que priorize versar sobre os muitos enfrentamentos e dilemas vivenciados por bissexuais, e também de ressaltar a afetividade, o desejo que constituem a subjetividade da pessoa bissexual. Ao analisar esse discurso excessivamente probabilístico, se reconhece um entendimento avesso ao de Foucault quando afirma que “É preciso, insisto, é preciso escapar das duas fórmulas completamente feitas sobre o puro encontro sexual e sobre a fusão amorosa das identidades”. (FOUCAULT, 2011, p. 3), pois o vídeo parece querer apostar no lucro ao fazer alusão à dimensão sexual e não afetiva, e ao criar uma apresentação da bissexualidade masculina como à imagem do bem sucedido, por ser privilegiado na probabilidade de ter sucesso nas conquistas amorosas. Difícil ponderar que houve uma opção por esse argumento quantitativo por mera escolha aleatória, mas sim o avesso disso, ou seja, pode ser entendida justamente como parte de uma trama discursiva interessada em evitar as aleatoriedades, pois de acordo com Foucault: ...em toda sociedade a produção do discurso é ao mesmo tempo controlada, selecionada, organizada e distribuída por certo número de procedimentos que têm por função conjurar seus poderes e perigos, dominar seu acontecimento aleatório, esquivar sua pesada e temível materialidade (FOUCAULT, 2010, p. 8-9). Por ser objetivo do kit anti-homofobia o combate à homofobia e do vídeo Probabilidade a discussão da bissexualidade masculina, ao fazer opção por um jogo racional, deixa-se de empreender um discurso que busque problematizar os mitos, noções satirizadas e enraizadas nas construções discursivas que alimentam e tecem preconceitos, e deixa-se de 102 Comunicações • Piracicaba • Ano 20 • n. 2 • p. 97-112 • jul.-dez. 2013 • ISSN Impresso 0104-8481 • ISSN Eletrônico 2238-121X DOI: http://dx.doi.org/10.15600/2238-121X/comunicacoes.v20n2p97-112 realizar um esforço que tente, de acordo com Fernando Seffner, ao se referir à masculinidade bissexual, saber que: Conhecer a masculinidade bissexual passa necessariamente por estabelecer quais as representações a ela associadas, e que posições estas representações desfrutam. A produção das identidades liga-se estreitamente ao processo de construção de representações acerca de grupos sociais e indivíduos, feitas pelos próprios interessados e por outros em seu nome, num processo que tem evidentes implicações com as questões da política e do poder, uma vez que as representações experimentam posições de hierarquias e valorização diferenciada no mundo ocidental (SEFFNER, 2003, p. 77). Os discursos arquitetados a respeito da bissexualidade perpassam um ideário vasto em que as construções são empreendidas em um contexto de disputas, interesses, jogos. Afirmar-se bissexual é em certa medida se situar ou declarar um pertencimento ao universo das homossexualidades, é caracterizar-se como lésbica ou homossexual/gay, em especial diante da visão heterossexista. Mas, por outro lado, é não se situar, por completo, no universo homossexual, uma vez que essa pessoa estabelece relações afetivas e sexuais com pessoas do mesmo sexo e com pessoas do sexo oposto, o que caracteriza na visão de muitos homossexuais um motivo de discriminação ou até mesmo repúdio, fundamentados no argumento de que esses se “escondem no armário4”, são bichas ou sapatões enrustidos. O que caracteriza numericamente também - tomando de empréstimo o discurso matemático do vídeo - possibilidades de duplo, ou cinquenta por cento a mais de preconceito, sofrido tanto por homossexuais como por heterossexuais, uma vez que de acordo com Camila Dias Cavalcanti: Quando se trata de práticas bissexuais, assumir uma identidade é sempre algo polêmico. Isso porque eles recebem críticas tanto dos heterossexuais quanto dos homossexuais, pois ambos acreditam que a bissexualidade é uma fuga da identidade homossexual. Portanto “sair do armário” no caso dos bissexuais, é bem mais complexo do que se pensa (CAVALCANTI, 2012. s. p.). Percebe-se na fala de Cavalcanti uma realidade muito presente vivenciada por bissexuais, ou seja, serem discriminados tanto por homossexuais como por heterossexuais, devido a não atenderem exclusivamente a nenhuma das categorias. O que as/os constituem como uma forma de ameaça, pois a pessoa não pertencendo a determinado grupo exclusivo, pode não ser tão bem controlada, tem mais possibilidades de fugas, pois se distancia de uma rota conhecida e confiável, o que configura a bissexualidade, em certo viés, como a atuação de uma intimidação diante de sua indefinição, uma ameaça à heterossexualidade, assim como ameaça ao discurso identitários das homossexualidades. O armário é a estrutura definidora da opressão gay no século XX (SEDGWICK, 2007, p. 26). 4 Comunicações • Piracicaba • Ano 20 • n. 2 • p. 97-112 • jul.-dez. 2013 • ISSN Impresso 0104-8481 • ISSN Eletrônico 2238-121X DOI: http://dx.doi.org/10.15600/2238-121X/comunicacoes.v20n2p97-112 103 Mas, sendo o discurso probabilístico do vídeo merecedor de questionamentos e reflexões, ao se ponderar sobre os possíveis alcances do argumento estabelecido, outra consideração aparece: quais seriam outros possíveis discursos ao se falar de bissexualidade. Ou ainda, o que é ser bissexual? No entanto, essa é uma questão que não conduz essa linha de trabalho, por compreender não ser essa a demanda de interesse deste objeto de estudo. Não interessa apresentar uma resposta, uma definição, uma essência, um aprisionamento das bissexualidades, justamente por entendê-las numa dimensão plural e flexível em relação a condições de existência e performances. Não existe o bissexual, a bissexual, assim como não existe a lésbica, o homossexual, a travesti, o/a transexual, a drag queen, existem sim, travestilidades, homossexualidades, lesbianidades, transexualidades e também bissexualidades. Como afirma Michel Foucault: Outra coisa da qual é preciso desconfiar é a tendência de levar a questão da homossexualidade para o problema “Quem sou eu? Qual o segredo do meu desejo?” Quem sabe, seria melhor perguntar: “Quais relações podem ser estabelecidas, inventadas, multiplicadas, moduladas através da homossexualidade?” O problema não é o de descobrir em si a verdade sobre seu sexo, mas, mais importante que isso, usar, daí em diante, de sua sexualidade para chegar a uma multiplicidade de relações. E essa, sem dúvida, é a razão pela qual a homossexualidade não é uma forma de desejo, mas algo de desejável. Temos que nos esforçar em nos tornar homossexuais e não nos obstinarmos em reconhecer que o somos. É para essa direção que caminham os desenvolvimentos do problema da homossexualidade, para o problema da amizade (FOUCAULT, 2013, p. 1). As diferentes e possíveis formas de vivências das bissexualidades, assim como das homossexualidades, talvez pudessem ser contempladas numa discussão que objetivasse enfrentar o preconceito e promover posturas e olhares menos governados pela tirania implacável do preconceito e da violência direcionada às pessoas que sentem desejo e afeto por pessoas do mesmo sexo, ou como a situação vivida por Leonardo, protagonista do vídeo Probabilidade, que se interessa por ou deseja homens e mulheres. Mas, não lançando substancialmente mão de tentativas de convencimentos por uma estratégia discursiva sedutora que constrói um personagem bissexual como se fosse uma amostra hegemônica da bissexualidade, deixando de contemplar outras muitas formas de bissexualidades e, principalmente, deixando de adentrar no terreno da realidade dos sofrimentos, perseguições, violências que enfrentam aqueles/as que se declaram bissexuais, ou aquelas/es que não se declaram e por isso mesmo vivem esse dilema de não poder expor e manifestar seus sentimentos por receio da discriminação e exclusões impostas no ambiente em que a heteronormatividade é manifesta, segundo Foucault, por meio de “uma sociedade um pouco destrutiva (que) não pode ceder espaço sem temer que se formem alianças, que se tracem linhas de força imprevistas” (FOUCAULT, 2011, p. 2). Na contemporaneidade, os discursos sobre a bissexualidade são diversificados, vãos desde os discursos leigos, por exemplo, que circulam nas redes sociais e Internet, os discursos médicos, sexológicos, psicológicos, psiquiátricos, biológicos, o próprio discurso ho104 Comunicações • Piracicaba • Ano 20 • n. 2 • p. 97-112 • jul.-dez. 2013 • ISSN Impresso 0104-8481 • ISSN Eletrônico 2238-121X DOI: http://dx.doi.org/10.15600/2238-121X/comunicacoes.v20n2p97-112 mossexual, o discurso literário, o discurso propagado pelas artes em geral, como: músicas, filmes, peças de teatro, e sem dúvida, o discurso afirmado pelas mídias. Falar de bissexualidades é uma tarefa complexa nesses muitos e distintos discursos, assim como da ausência de uma identidade bissexual que se localize facilmente, o que é positivo por um viés, uma vez que as sexualidades não são reconhecíveis por marcas definidas, essencializadas, estáveis; antes são fluidas, em constante devir, compartilhando do entendimento de Seffner ao afirmar o “abandono da busca de leis gerais, de uma verdade absoluta e das relações fixas entre elementos componentes de uma identidade” (SEFFNER, 2003, p. 75), mas, por outro, com a ausência da mesma, inviabilizam-se parcerias, pois segundo Guacira Lopes Louro “Na construção da identidade, a comunidade funciona como o lugar da acolhida e do suporte – uma espécie de lar” (LOURO, 2001, p. 543). A ausência de identidade traz consequências importantes para os/as bissexuais, pois esses/essas se tornam vítimas de um forte endereçamento preconceituoso que as/os estigmatizam, e as possíveis identidades que possam ter são construídas atreladas a um processo minucioso de jogos de poder. A respeito da possível identidade bissexual masculina, expõe Seffner: A identidade que possam ter entre si os homens que mantém relações sexuais e afetivas com homens e mulheres, agrupados nesta particular representação da masculinidade que estamos denominando de masculinidade bissexual, não pode ser entendida como fruto de características imediatamente visíveis, dadas desde sempre, tidas como evidentes ou como atributo natural. Há um processo ativo de exercício de poder por parte de quem nomeia e de quem é nomeado no campo das masculinidades (SEFFNER, 2003, p. 79). Tem-se uma dupla problemática, a de pertencimento a uma identidade e a de ausência da mesma, o que configuraria em certo sentido com o “estar no armário”, expressão popularizada e matéria-prima de sucesso para piadas homofóbicas que expõem uma densa realidade na qual indivíduos LGBTTT se veem rotineiramente envolvidos em situações que enredam e convocam para esse ficar no armário, voltar para o armário, um armário circunstancial, que seria indispensável em circunstâncias em que o contexto exigisse o forjar de uma realidade, na tentativa de ganhos imprescindíveis, ou na tentativa de fuga ou esquiva de situações adversas ou mesmos insustentáveis. Pode-se imaginar, por exemplo, a disputa por uma colocação e manutenção de uma oportunidade de trabalho, preservação do afeto, respeito familiar e de amigas/os, proteção da imagem diante de grupos de alta presença homofóbica, como as instituições escolares, tentativa de disputas judiciais - como aquelas que envolvem disputas de guarda de crianças, ainda que as leis venham se tornando mais flexíveis no Brasil nos últimos anos. E ainda, um armário eterno, que obriga o sujeito a praticamente renunciar a vivência de seus desejos ou a não revelação desses, vivendo em constantes sobressaltos e temores. Mesmo homossexuais assumidos não deixam de se ver diante de situações circunstanciais, mas forçosas, que as/os obrigam a adentrar no sofrível espaço do armário. Em seu trabalho A epistemologia do armário, Eve Kosofsky Sedgwick afirma que: Comunicações • Piracicaba • Ano 20 • n. 2 • p. 97-112 • jul.-dez. 2013 • ISSN Impresso 0104-8481 • ISSN Eletrônico 2238-121X DOI: http://dx.doi.org/10.15600/2238-121X/comunicacoes.v20n2p97-112 105 Mesmo num nível individual, até entre as pessoas mais assumidamente gays há pouquíssimas que não estejam no armário com alguém que seja pessoal, econômica ou institucionalmente importante para elas. Além disso, a elasticidade mortífera da presunção heterossexista significa que, como Wendy em Peter Pan, as pessoas encontram novos muros que surgem à volta delas até quando cochilam. Cada encontro com uma nova turma de estudantes, para não falar de um novo chefe, assistente social, gerente de banco, senhorio, médico, constrói novos armários cujas leis características de ótica e física exigem, pelo menos da parte de pessoas gays, novos levantamentos, novos cálculos, novos esquemas e demandas de sigilo ou exposição. Mesmo uma pessoa gay assumida lida diariamente com interlocutores que ela não sabe se sabem ou não. É igualmente difícil adivinhar, no caso de cada interlocutor, se, sabendo, considerariam a informação importante. No nível mais básico, tampouco é inexplicável que alguém que queira um emprego, a guarda dos filhos ou direitos de visita, proteção contra violência, contra “terapia”, contra estereótipos distorcidos, contra o escrutínio insultuoso, contra a interpretação forçada de seu produto corporal, possa escolher deliberadamente entre ficar ou voltar para o armário em algum ou em todos os segmentos de sua vida. O armário gay não é uma característica apenas das vidas de pessoas gays. Mas, para muitas delas, ainda é a característica fundamental da vida social, e há poucas pessoas gays, por mais corajosas e sinceras que sejam de hábito, por mais afortunadas pelo apoio de suas comunidades imediatas, em cujas vidas o armário não seja ainda uma presença formadora (SEDGWICK, 2007, p. 22). O vídeo Probabilidade traz especificamente essa discussão, realizada por Sedgwick, quando o personagem Mateus delonga-se para revelar sua homossexualidade para o amigo Leonardo e só o faz quando se vê numa situação constrangedora na qual as/os colegas de escola apontam para os dois e riem, “Os garotos gritavam e ridicularizavam os dois, chamando-os de namoradinhos” (MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO, 2011, s. p.). Irritado, Leonardo quis se manifestar contra o grupo de alunas/os, mas Mateus o impede e revela seu segredo de armário: “contou para Leonardo uma coisa que nunca tinha tido coragem de dizer para nenhum outro amigo, Mateus contou que era gay” (idem). Em outras palavras Mateus se vê obrigado a sair do armário para preservar sua amizade por Leonardo. No entanto, o vídeo é tímido em desenvolver uma discussão que privilegie explorar a penosa realidade que pessoas vivenciam quando se veem obrigadas a ocultar sua homossexualidade ou bissexualidade, um sofrimento afetivo, psíquico, físico, moral. Os desdobramentos de forças para se traçar e seguir itinerários opostos ao que se reconhece sobre si mesma/o é uma violência de proporções inimagináveis, em que a pessoa, segundo Richard Miskolci, precisa: Dividir-se em dois, manter uma fachada ilusória entre si mesmo e aqueles com quem convive, exige muito esforço e capacidade para suportar o medo de ser descoberto. O temor cria a necessidade de estar sempre alerta para sinais que denunciem sua intimidade e desejos, evitar lugares e pessoas que o associem a uma identidade temida, força para agir contra seus próprios sentimentos e man106 Comunicações • Piracicaba • Ano 20 • n. 2 • p. 97-112 • jul.-dez. 2013 • ISSN Impresso 0104-8481 • ISSN Eletrônico 2238-121X DOI: http://dx.doi.org/10.15600/2238-121X/comunicacoes.v20n2p97-112 ter o compromisso com a ordem social que o rejeita, controla e poda das mais variadas formas (MISKOLCI, 2007, p. 58). Os discursos presentes no vídeo romanceiam a bissexualidade ao apresentar o protagonista Leonardo como uma pessoa privilegiada por ter mais chances de sucesso numa busca amorosa do que pessoas heterossexuais e homossexuais. Mesmo vivendo uma confusão ao descobrir seu desejo por um garoto, Leonardo apazigua sua tormenta no encontro de olhares com Bia – vê-se, novamente, a presença da probabilidade de uma heterossexualidade - e na certeza que também ficaria com ela, ou seja, tudo resolvido, pois ele é um ganhador, não precisa escolher, pode se relacionar com ambos, não precisa viver tormentas, confusões, dilemas. Numa aula de matemática, cujo conteúdo é probabilidade ele tem como que num toque mágico da varinha de uma fada toda a situação resolvida. Ele está bem, resolveu o dilema que há pouco o atormentava, como se dissesse para todas/os as/os colegas de escola: - Estão vendo, sou superior a vocês, sou melhor, posso mais, numa linguagem comumente reconhecida no meio jovem e escolar, - Pego mais que todos/as, sou admirável e invejável. A imagem proposta de Leonardo parece se aproximar da linguagem publicitária e das artimanhas utilizadas para venda de determinados produtos. No caso do vídeo, o produto seria a bissexualidade de Leonardo que, assim como a homossexualidade e heterossexualidade, estaria submetida a valores culturais específicos, nesse caso o valor quantitativo, de poder ter mais relações afetivo-sexuais, no entanto, de acordo com Ruth Sabat: É importante não esquecer que o discurso publicitário não é autônomo, não tem vida própria: quando a publicidade está inserida na cultura e não fora dela, de modo a observá-la de um lugar distanciado para, aí sim, ser elaborada. O discurso publicitário constitui-se de práticas e é nelas que encontra objetos para construir sua própria materialidade (SABAT, 2008, p. 158). Partilhando do entendimento de Sabat, vê-se que o discurso da exaltação quantitativa só é possível por ser altamente valorizado na cultura brasileira. Afasta-se das discussões referentes às homossexualidades e bissexualidades e se aproxima de outro discurso, como se pretendesse também criar uma naturalização da bissexualidade próxima do universo promíscuo, com isso o que se tem “é uma certa naturalização dos comportamentos que estão nas imagens, tais como construídas pelos sujeitos sociais” (SABAT, 2008, p. 158). A construção da imagem da bissexualidade de Leonardo parece contrariar a afirmação: “E ele não era de se interessar por qualquer um, pelo contrário, era difícil ele querer ficar com alguém...” (MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO, 2011, s.p), pois essa é edificada a partir das conotações da promiscuidade, muito próxima do que afirma Cavalcanti: Outra crítica bastante comum aos bissexuais é o que se refere à fidelidade. Os bissexuais são vistos como promíscuos, pessoas que só querem saber de sexo e não se interessam em estabelecer um relacionamento afetivo e emocional. Porém, relacionar-se com ambos os sexos não significa fazer isso, nem é o mesmo que afirmar a falta de compromisso e sentimento que ambos podem depositar no relacionamento (CAVALCANTI, 2012, s. p.). Comunicações • Piracicaba • Ano 20 • n. 2 • p. 97-112 • jul.-dez. 2013 • ISSN Impresso 0104-8481 • ISSN Eletrônico 2238-121X DOI: http://dx.doi.org/10.15600/2238-121X/comunicacoes.v20n2p97-112 107 Esse discurso deixa de considerar que mesmo Leonardo reconhecendo seu desejo afetivo e sexual por homens e mulheres, certamente terá muitos dilemas para enfrentar, diante de uma sociedade altamente homofóbica e heteronormativa, e talvez como muitos/as faça a opção de não se revelar bissexual. A questão da influência familiar na vida de filhos/filhas homossexuais ou bissexuais é colocada à margem da reflexão realizada. Deixa-se de oportunizar a discussão de um dos fios mais tênues do preconceito, a dificuldade enfrentada nas escolas por toda a equipe pedagógica, ao se trabalhar com a homofobia nesse meio, e a relevante contribuição da família, pois é nessa que o preconceito na maior parte do tempo surge, se mantém, incendeia e mina grupos sociais, como as instituições escolares. A família é forte aliada da manutenção dos preconceitos homofóbicos, sua intervenção é exercida de maneira determinante. E o vídeo Probabilidade em seus discursos não toma por opção priorizar essas influências da família na manutenção do dispositivo do assujeitamento e subordinação. Segundo Daniel Borrillo “O anúncio da orientação dos filhos aos mais próximos, e principalmente aos familiares, constitui a principal fonte de angústia de homossexuais adolescentes” (BORRILLO, 2009, p. 44). Ao assistir o vídeo Probabilidade outra questão iminente se coloca, ou seja, a escolha pela abordagem da bissexualidade masculina e não da bissexualidade feminina. Refletindo a esse respeito muitas prováveis ponderações são pertinentes. Entre elas, uma se refere à manutenção da hegemonia androcêntrica, que no vídeo seria representada por Leonardo, que mesmo vivendo a surpresa da descoberta do desejo por homens, se vê compensado por seu interesse por mulheres. Essa suposição se respalda entre outros pontos na observação da estratégia em que a ordem dos discursos aparece no vídeo. Primeiro, relata-se todo o processo de mudança de cidade vivido por Leonardo e o amor por Carla, depois sua chegada e dilemas enfrentados na cidade nova, o encontro com Mateus e a revelação da homossexualidade do amigo, a qual é bem aceita por Leonardo. Depois sim, aparecerá o tema central da discussão que é o encontro de Leonardo com Rafael e seu desejo por ele, apresentando então a bissexualidade do protagonista. Logo depois, mesmo com toda a confusão e dúvida de Leonardo em não saber se era gay, ele se lembra de Carla, e de que havia sentido o mesmo por ela, ou seja, era homem, macho, e no dia seguinte encontra Bia, com quem já estava flertando há algum tempo, e tem certeza que se tivesse oportunidade também ficaria com ela. E então conclui que poderia ficar com ambos, Bia e Rafael, sem se decidir por garotas ou garotos, fazendo-se assim uma breve referencia à bissexualidade. A estratégia discursiva do vídeo lança primeiro a heterossexualidade, depois a homossexualidade, e por último a volta da heterossexualidade, por meio da troca de olhares com a colega Bia, criando um efeito de apaziguamento ao ressaltar a masculinidade de Leonardo que, mesmo tendo experiências homossexuais, teria sua macheza assegurada, uma vez que de acordo com Camilo Albuquerque de Braz, existe uma: ...hiper-valorização da masculinidade ou a criação discursiva do “macho” como objeto de desejo entre esses homens (e de um macho que não perde sua “macheza” ao ser penetrado) pode ser lida como rearticulação ou deslocamento de convenções relativas a sexo, gênero e desejo que compõem a matriz heteronormativa culturalmente hegemônica... (BRAZ, 2007, p. 202). 108 Comunicações • Piracicaba • Ano 20 • n. 2 • p. 97-112 • jul.-dez. 2013 • ISSN Impresso 0104-8481 • ISSN Eletrônico 2238-121X DOI: http://dx.doi.org/10.15600/2238-121X/comunicacoes.v20n2p97-112 Em outra perspectiva de análise, faz-se plausível a consideração de que a escolha temática da bissexualidade masculina também pode ter sido uma estratégia para não se pensar a bissexualidade feminina como uma espécie de mecanismo excitador para a heterossexualidade masculina, visto que a relação afetivo-sexual entre duas mulheres despertaria menos preconceito. Ou, antes, poderia no lugar de suscitar discussões referentes às práticas discriminatórias endereçadas à bissexualidade feminina, ser um reforçador de práticas misóginas e sexistas, que circunscrevem à mulher uma condição de mero objeto sexual. Ainda que a temática do vídeo seja a bissexualidade, a possível afetividade, carinho, amor que Leonardo possa sentir por Rafael, parece ser ligeiramente desmantelada no imaginário do espectador ao assistir o vídeo, com esse jogo de intercalar a presença de Carla no início e ao final a presença de Bia. O que é insistentemente afirmado é a probabilidade expressiva de encontros com mais parceiros/as, e não a temática da bissexualidade, sendo que essa expressividade quantitativa pode ocorrer tanto com relacionamentos homossexuais como heterossexuais. O encontro com Rafael é um encontro esporádico e embora tenha existido uma atração física entre os dois é algo passageiro e sem maiores vínculos, até porque no dia seguinte Rafael está mudando de cidade e o protagonista já estará entregue à uma troca de olhares com Bia. Essa produção discursiva lembra as palavras de Foucault quando diz que: “Imaginar um ato sexual que não seja conforme a lei ou a natureza, não é isso que inquieta as pessoas. Mas que indivíduos comecem a se amar: aí está o problema” (FOUCAULT, 2011, p. 2), pois o vídeo acentua a presença de certa efemeridade dos relacionamentos homossexuais ou bissexuais, reforçando novamente a heteronormatividade. Mesmo não sendo tão explícito no seu discurso, o vídeo abre possibilidades para uma leitura dessa exaltação ao ato sexual e do encontro imediato, fortuito e afugenta o discurso que aprofunda sobre a possibilidade de construção de vínculos em um relacionamento entre dois rapazes, com a presença do carinho, amor, afeto. Como se fosse permitido a Leonardo ter experiências bissexuais, desde que a experiência homossexual fosse restrita ao ato sexual, lembrando as palavras de Foucault: É uma das concessões que se fazem aos outros de apenas apresentar a homossexualidade sob a forma de um prazer imediato, de dois jovens que se encontram na rua, se seduzam por um olhar, que põem a mão na bunda um do outro e fiquem devaneando por um quarto de hora. Esta é uma imagem comum da homossexualidade que perde toda a sua virtualidade inquietante por duas razões: ela responde a um cânone tranquilizador da beleza e anula o que pode nesse encontro vir a inquietar no afeto, carinho, amizade, fidelidade, coleguismo, companheirismo... (FOUCAULT, 2011, p. 2). A formatação desse material oportuniza muitas indagações a respeito do entendimento das pluralidades sexuais e, nesse caso particular, sobre a bissexualidade e como a trama discursiva se constrói, pois essa pode ser pensada em semelhança com a homossexualidade, de acordo com o pensamento de Louro, para quem “A homossexualidade, discursivamente produzida, transforma-se em questão social relevante. A disputa centra-se Comunicações • Piracicaba • Ano 20 • n. 2 • p. 97-112 • jul.-dez. 2013 • ISSN Impresso 0104-8481 • ISSN Eletrônico 2238-121X DOI: http://dx.doi.org/10.15600/2238-121X/comunicacoes.v20n2p97-112 109 fundamentalmente em seu significado moral.” (LOURO, 2001, p. 542). No entanto, mais que adentrar nessas possibilidades de discussão, o vídeo Probabilidade direciona a reflexão para argumentos apelativos do êxtase consumista e concorrencial, deixando de pensar que “... O combate à homofobia – uma meta ainda importante – precisaria avançar” (LOURO, 2001, p. 550), mas não reforçando os essencialismos de uma cultura androcêntrica, destacando a macheza de Leonardo, tampouco resolvendo problemáticas imperativas enfrentadas por pessoas LGBTTT, como se essas fossem questões simples, reduzíveis a cálculos de ganhos percentuais. Ao se propor uma situação problematizadora para se pensar a bissexualidade, um caminho possível é o da tentativa de desconstrução das naturalizações postas, numa busca que mostre a necessidade, de acordo com Louro, de “Tornar evidente a heteronormatividade, demonstrando o quanto é necessária a constante reiteração das normas sociais regulatórias a fim de garantir a identidade sexual legitimada” (ibid., p. 550-551). Uma busca que também tente polemizar juntos aos/as alunos/as sobre essa insistente tentativa de estabelecimento de normas e não simplesmente “... pretender ter a resposta apaziguadora ou a solução que encerra os conflitos” (ibid., p. 552), numa aula de probabilidade, que faz do ser humano um ser das variáveis possíveis, em que o sentimento, o afeto, o corpo, o desejo se tornam objetos mensuráveis e negociáveis. Assuntos que envolvem o amor, amizade, sexualidade deveriam ser tratados não de maneira açucarada, mas quiçá com mais calor poético e estético, perdem espaço para uma espécie de merchandising da bissexualidade. Talvez um entendimento que abrisse janelas para perspectivas de uma produção da bissexualidade menos formatada nas regras da heteronormatividade naturalizante pudessem permitir a visualização de paisagens mais próximas daquilo que bem apresenta Louro: As muitas formas de experimentar prazeres e desejos, de dar e de receber afeto, de amar e de ser amada/o são ensaiadas e ensinadas na cultura, são diferentes de uma cultura para outra, de uma época ou de uma geração para outra. E hoje, mais do que nunca, essas formas são múltiplas. As possibilidades de viver os gêneros e as sexualidades ampliaram-se. As certezas acabaram. Tudo isso pode ser fascinante, rico e também desestabilizador. Mas não há como escapar a esse desafio. O único modo de lidar com a contemporaneidade é, precisamente, não se recusar a vivê-la (LOURO, 2008, p. 23). Referências ARAÚJO, Inês Lacerda. Do signo ao discurso: introdução à filosofia da linguagem. São Paulo: Parábola Editorial, 2004. 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Submetido em: 8-11-2012 Aceito em: 27-11-2013 112 Comunicações • Piracicaba • Ano 20 • n. 2 • p. 97-112 • jul.-dez. 2013 • ISSN Impresso 0104-8481 • ISSN Eletrônico 2238-121X DOI: http://dx.doi.org/10.15600/2238-121X/comunicacoes.v20n2p97-112