As primeiras de Portugal são (também) as primeiras flores da

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ID: 60651389
21-08-2015
Tiragem: 34268
Pág: 30
País: Portugal
Cores: Cor
Period.: Diária
Área: 25,70 x 29,76 cm²
Âmbito: Informação Geral
Corte: 1 de 4
As primeiras
flores
de Portugal
são (também)
as primeiras
flores
da Terra
Nem sempre a Terra teve
flores. Subitamente, elas
apareceram — um mistério
que Charles Darwin
considerou “abominável”.
Portugal tem estado a
contribuir para o estudo
das flores primitivas, graças
à descoberta de fósseis
de várias plantas novas
para a ciência
Teresa Firmino
N
a palma da mão, é um
ponto negro, indistinguível a olho nu. Já à
lupa binocular, este
pedaço de carvão,
nem de um milímetro de comprimento,
ganha formas. É uma
flor, exemplar único,
nova para a ciência.
Esteve enterrada em argila durante 110 milhões de anos, até ter sido
recolhida entre quilos de terra pelo
investigador Mário Miguel Mendes
perto da vila do Juncal, no concelho
de Porto de Mós, distrito de Leiria.
Ela e os fósseis de outras três plantas, também classificadas como novidades científicas, enriqueceram as
colecções do jardim português do
Cretácico, quando os dinossauros
reinavam e as plantas com flor começavam a despontar na Terra.
Antes, uma breve história das plantas. Há cerca de 440 milhões de anos,
ter-se-ão deslocado para terra firme,
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FOTOS: MÁRIO MIGUEL MENDES
A flor do Kajanthus lusitanicus,
um género e uma espécie novos
identificados por Mário Miguel
Mendes: a verde, o interior visto
num corte longitudinal graças
a observações numa máquina
de raios X intensos; e a preto e
branco, perspectivas diferentes
do exterior observado ao
microscópico electrónico de
varrimento
vindas do mar. “Esses primeiros colonizadores terão sido algas verdes
já extintas, que tinham semelhanças
com os briófitos, grupo a que pertencem os musgos”, diz-nos o paleobotânico Mário Miguel Mendes,
do Centro de Investigação Marinha e
Ambiental da Universidade do Algarve, em Faro, e do Museu Geológico,
em Lisboa. “Para que as plantas pudessem conquistar o meio terrestre,
tiveram de desenvolver estruturas
que possibilitassem, por um lado, a
obtenção de água e, por outro, reduzir a sua perda. Além disso, desenvolveram as raízes que fixavam a planta
ao solo, absorvendo água necessária
à sua manutenção, e os caules que
suportam as folhas, órgãos fotossintéticos por excelência.”
Estavam ainda longe de ter flores,
e os continentes onde viviam tinham
uma configuração muito diferente da
de hoje. A evolução tornou as plantas
mais complexas, até aparecerem as
gimnospérmicas, como as coníferas,
em que as sementes não estão encerradas dentro de um fruto, de que
são exemplo os pinheiros e os seus
pinhões. “Há cerca de 320 milhões
de anos, em Portugal formavam-se
cordilheiras de montanhas com lagos envolvidos e habitados por vegetação rica e diversificada. Havia
cavalinhas gigantes e plantas afins de
licopódios e selaginelas actuais, mas
de porte arbóreo, a par de coníferas
que lembravam araucárias. Os fetos
eram abundantes”, conta o investigador. “Esta vegetação desenvolvia-se
em ambientes pantanosos, em clima
húmido e relativamente quente das
áreas próximas do equador da Terra de então. São desta altura muitos
dos depósitos de carvão mundiais,
inclusivamente em Portugal.”
Há cerca de 250 milhões de anos,
os continentes anteriormente existentes já tinham colidido entre si e
formado um só supercontinente, a
Pangeia. Mas a tectónica é imparável e a fragmentação das placas ao
longo da era Mesozóica — iniciada
há 235 milhões de anos, no período do Triásico, e terminada com o
Cretácico, entre há 145 e 65 milhões
de anos —, colocou novos desafios às
plantas terrestres. Se na Pangeia vi-
viam sobre a influência de um clima
continental, com a fragmentação das
placas as plantas tiveram de se adaptar a condições mais húmidas. “Esta
interacção entre clima e fenómenos
tectónicos ditou o aparecimento e a
extinção de alguns grupos vegetais”,
explica o paleobotânico.
“Há 225 milhões de anos, no Triásico, as plantas foram povoando as
imensas áreas continentais semidesérticas, a partir da vizinhança de
áreas lacustres. No Jurássico (200-145
milhões de anos), as coníferas dominavam a vegetação arbórea. Os fetos
abundavam.”
Mas a Terra continuava sem flores.
As primeiras plantas com flores, ou
angiospérmicas, apareceram relativamente tarde na história do planeta
— “apenas” há cerca de 130 milhões
de anos, no início do Cretácico, como indicam os fósseis mais antigos.
E as suas flores eram pequenas. E
sem pétalas. Hoje, as angiospérmicas dominam a vegetação terrestre,
ocupando quase todos os ecossistemas e representando mais de 85%
das espécies vegetais vivas.
“O aparecimento súbito destas
plantas no Cretácico Inferior sempre intrigou os cientistas. Charles Darwin referia-se a este súbito evento
evolutivo que provocou alterações
profundas em todos os ecossistemas
terrestres como um ‘mistério abominável’. Aparentemente, o seu desenvolvimento foi feito a par da evolução
dos insectos e a sua enorme diversificação terá resultado do êxito adaptativo das suas inovações evolutivas.
Mas muitos aspectos relacionados
com as condições paleoambientais
que presidiram à proliferação das angiospérmicas continuam por esclarecer”, diz Mário Miguel Mendes.
Portugal tem contribuído para a
reconstituição desta história do planeta. Tal como nos EUA, na China
e em Espanha, em Portugal encontram-se os fósseis de plantas com flores mais antigos do mundo. São de
flores, sementes e frutos, com cerca
de 125 milhões de anos, recolhidos
em Torres Vedras pela dinamarquesa Else Marie Friis, uma das maiores
especialistas em angiospérmicas. Por
exemplo, identificou pólenes (que só
existem quando há flores) de um
género e espécie novos — a Mayoa
portugallica, descrita em 2004.
Em Torres Vedras, Mário Miguel
Mendes também recolheu pólenes
(de Pennipollis, por exemplo), sementes e frutos, com 125 milhões
de anos. E na praia do Porto da Calada, perto da Ericeira, há até registo de um grão de pólen com 139 milhões de anos (atribuído à espécie
Clavatipollenites hughesii).
Há ainda os restos de plantas com
flores de uma jazida perto de Cercal, no concelho de Cadaval, com
120 milhões de anos. Ainda que seja
agora dúbio que sejam angiospérmicas, estes restos foram famosos.
Em 1894, foram estudados por um
francês apaixonado por botânica,
o marquês Louis Charles Gaston de
Saporta. O geólogo português Carlos Teixeira voltou a essas plantas
em 1948, nas Memórias dos Serviços
Geológicos de Portugal, frisando
que o jazigo onde se descobriram
ficou célebre: “Não há livro de paleobotânica que não o mencione.
E com razão, pois procedem dali os
mais antigos restos de dicotiledóneas [grupo de angiospérmicas], até
hoje, na Europa”, escrevia então.
Remexendo os sedimentos.
Mário Miguel Mendes, de 40 anos,
e os seus colegas têm continuado o
estudo das angiospérmicas primitivas do país. Nos últimos tempos,
anunciaram a descoberta de várias
preciosidades floridas do Cretácico português, na revista científica
Grana. Uma delas é precisamente a
angiospérmica, de exemplar único,
preservada na argila perto da vila
do Juncal, que Mário Miguel Mendes encontrou por volta de 2008.
A equipa classificou-a como um
género e uma espécie novos para a
ciência. Chamou-lhe Kajanthus lusitanicus, em que o género (a primeira palavra) é a derivação do nome
de Kaj Raunsgaard Pedersen, c
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em homenagem a este cientista
emérito da Universidade de Aarhus, na Dinamarca, estudioso de
plantas fossilizadas e que vive com
Else Marie Friis. E o segundo nome
científico, que, em conjunto com o
primeiro, designa a espécie, remete
para o país de origem do fóssil.
O paleobotânico português costuma procurar fósseis de plantas
onde as empresas de cerâmica extraem argila para o fabrico de tijolos
ou telhas — os barreiros. Percorre
esses terrenos, dispostos em níveis, e o resultado dessas incursões
costuma traduzir-se em sacos com
quilos de argila etiquetados. “Cada
amostra deve ter aí uns 15 quilos.”
Os níveis escuros do terreno argiloso têm restos de vegetais fossilizados e são esses que interessam
ao paleobotânico, porque pode lá
haver fósseis de plantas. E que, ao
mesmo tempo, não interessam às
empresas de cerâmica, porque os
restos vegetais, ao arderem durante
a cozedura da argila, deixam as telhas e os tijolos esburacados.
O que veio a ser descrito como
a Kajanthus lusitanicus estava em
argilas cinzento-escuras no barreiro do Chicalhão, no Juncal. “As
condições de fossilização têm de
ser as adequadas: estas peças têm
de ficar imediatamente protegidas
dos agentes de decomposição e degradação, para ficarem conservadas nas melhores condições. Neste
caso, ficaram preservadas em argilas”, refere Mário Miguel Mendes.
“A flor está incarbonizada, que
é um processo de fossilização”,
acrescenta o investigador sobre
esse processo que consiste no enriquecimento relativo de carbono
à custa da libertação gradual dos
componentes voláteis e das moléculas orgânicas da planta.
Uma vez no laboratório, a argila
é lavada num crivo, ficando retidos
só os carvões e alguns sedimentos.
“O material que fica no crivo é seco e visto à lupa binocular. Tudo
o que tiver formas aparentemente
identificáveis é colocado à parte”,
conta. “Na lupa, vê-se logo se temos
sementes, frutos, flores... Mas se as
flores tiverem pólenes in situ, isso
só consigo ver no microscópio electrónico.” Nem é possível identificar,
nesta fase, o tipo de planta a que
pertence uma flor.
Sendo promissor, o fóssil da Kajanthus lusitanicus seguiu para observações pormenorizadas no microscópio electrónico de varrimento, já no Museu Sueco de História
Natural, em Estocolmo. Aí, Mário
Miguel Mendes trabalhou com Else
Marie Friis, co-orientadora da sua
tese de doutoramento com o paleobotânico João Pais, da Universidade
Nova de Lisboa, outro dos autores
do artigo da Kajanthus lusitanicus.
“Nesse dia, tínhamos visto muito
material — flores, sementes e frutos
—, já estávamos os dois cansados.
Olhei para a flor e pensei: ‘Esta flor
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Em cima, pólenes do género
Pennipollis, com 125 milhões
de anos, apanhados em Torres
Vedras. Ao lado e em baixo, um
fruto da Canrightiopsis dinisii,
com vários grãos de pólen no
topo, também descrita como
uma planta com flores de um
género e espécie novos para
a ciência e que existiu há 110
milhões de anos
diz-me qualquer coisa.’ Sobretudo
por causa da disposição dos estames
e dos carpelos.”
Mas como tiraram poucas fotografias da flor, Mário Miguel Mendes quis
observá-la de novo no microscópio
electrónico. “Tinha ficado intrigado
com ela.” Uns dias mais tarde, quando o microscópio ficou finalmente
disponível outra vez, pôde observála em várias perspectivas. “Vi que
tínhamos uma coisa nova. Quando
mostrei a fotografia à professora
Friis, ela disse: ‘Nunca vi isso!’”
A singularidade desta flor de carvão do Cretácico tornou-se ainda
mais evidente quando as suas es-
truturas internas puderam ser observadas, nomeadamente os óvulos,
sem que fosse destruída. Para tal, a
flor viajou até à Suíça, ao Instituto
Paul Scherrer, em Villigen, onde foi
submetida a raios X intensos (numa
máquina chamada “sincrotrão”).
O que tinha de especial esta flor
portuguesa? A resposta científica está no artigo da equipa: a planta que
deu essa flor é muito parecida com
uma espécie actualmente endémica
da China, a Sinofranchetia chinensis.
Além disso, é o membro mais antigo da família Lardizabalaceae, pelo
que está na base da linhagem da
evolução das angiospérmicas. Que
aspecto teria esta planta, que era
terrestre? “Não me atrevo a dizer.
Não encontrámos o resto da planta.
Não sabemos como eram as folhas,
os caules...”, responde. “Actualmente, a Sinofranchetia chinensis é uma
planta trepadeira.”
E se procurarmos uma resposta
literária, Antoine de Saint-Exupéry
deu-nos uma n’O Principezinho. “E
se eu, eu que aqui estou à tua frente,
conhecer uma flor única no mundo,
uma flor que não existe em mais lado nenhum senão no meu planeta,
mas que, numa manhã qualquer,
uma ovelha pode reduzir a nada
num instante, assim sem dar sequer
pelo que está a fazer, isso também
não tem importância nenhuma?”,
diz o principezinho, que vivia num
asteróide com os seus vulcões em miniatura e a sua rosa vermelha, irritado com o amigo que encontrou na
Terra. “Amar uma flor de que só há
um exemplar em milhões e milhões
de estrelas basta para uma pessoa se
sentir feliz quando olha para o céu.
Porque pensa: ‘Ali está ela, algures lá
no alto.’ Mas se a ovelha comer a flor,
para essa pessoa é como se as estrelas se apagassem todas de repente!
Mas isso também não tem importância nenhuma, pois não?”
Na Bacia Lusitaniana
Ao artigo na Grana sobre a Kajanthus
lusitanicus, seguiu-se agora outro na
mesma revista, no qual a equipa descreve de uma assentada três novas
espécies de angiospérmicas, todas
terrestres também, incluídas no que
é descrito como um género novo. O
género é o Canrightiopsis, e as três
espécies são a Canrightiopsis dinisii,
a Canrightiopsis intermedia e a Canrightiopsis crassitesta, igualmente com
110 milhões de anos. “Até agora, o
Canrightiopsis é conhecido apenas
em Portugal”, diz o novo artigo.
Na análise das características destas plantas, vasculhadas de novo no
microscópio electrónico e no sincrotrão do Instituto Paul Scherrer, a
equipa pôde determinar a existência
de uma relação evolutiva entre o novo género e um género mais antigo
e, ainda, com outros géneros actualmente existentes. “O novo género
estabelece a ligação entre o género
extinto Canrightia e os géneros da
flora moderna Chloranthus, Ascarina
e Sarcandra”, sublinha o cientista.
E com uma das novas plantas presta-se uma homenagem muito especial. A equipa quis dedicar a Canrightiopsis dinisii a Jorge Dinis, investigador da Universidade de Coimbra
que em Setembro de 2013 teve um
acidente de viação. “Um camião em
contramão deixou-o em coma. Até
hoje, o meu colega não consegue
andar e não recuperou a fala”, diz
Mário Miguel Mendes.
No caso das três novas espécies,
não há um só exemplar, como no Kajanthus lusitanicus. A sua descrição
baseou-se em quase 1000 espécimes
de frutos, sementes e grãos de póle-
nes. “A maior parte dos espécimes
é de Famalicão, onde 650 já foram
separados dos resíduos orgânicos”,
relata o segundo artigo na Grana.
Muitos dos 1000 exemplares, só
agora descritos, foram apanhados
por Else Marie Friis ainda na década de 1990, calcorreando Portugal,
e encontram-se no Museu Sueco de
História Natural. Mas o Kajanthus
lusitanicus e o Canrightiopsis dinisii, por exemplo, estão no Museu
Geológico de Lisboa.
Além de Famalicão e do Chicalhão, os 1000 exemplares (também
incarbonizados) foram recuperados em Arazede, Buarcos, Catefica,
Vale de Água e Vila Verde. Excepto
em Catefica, estavam todos em barreiros, alguns entretanto desactivados. Nestes sete locais há depósitos
da Bacia Lusitaniana, que começou
a formar-se há 150 milhões de anos,
com o início do afastamento entre
as massas continentais da Europa e
da América do Norte e, no meio delas, ia nascendo o Atlântico Norte.
A Bacia Lusitaniana tinha então
águas pouco profundas e zonas
costeiras pantanosas. Com o passar do tempo, a água foi secando
e a bacia foi sendo preenchida por
depósitos continentais — onde estavam as quatro novas espécies de
angiospérmicas descritas na Grana
e classificadas dentro dos dois novos géneros —, localizados agora na
faixa Oeste da Península Ibérica,
indo do Norte de Aveiro até à Península de Setúbal.
O estudo dos restos vegetais
portugueses faz parte do projecto
CretaCarbo — iniciado em 2009, e
coordenado, desde o acidente de
Jorge Dinis, por Luís Duarte, também da Universidade de Coimbra,
com o objectivo de desvendar os
mistérios da evolução e da ecologia das angiospérmicas. “Na Bacia
Lusitaniana, temos o Cretácico bem
representado, por isso podemos
acompanhar a evolução florística
desde o Cretácico Inferior, onde dominavam os fetos e as gimnospérmicas, até ao Cretácico Superior,
onde passaram a dominar as plantas com flores”, diz Mário Miguel
Mendes. “Tem de haver algo que
explique por que é que, de repente,
as angiospérmicas passaram a dominar toda a flora fóssil. As condições climáticas estão relacionadas
com isso. A Terra era mais quente
do que actualmente.”
Assim, através da composição da
flora, a equipa procura compreender que condições climáticas permitiram a explosão das plantas com
flores, na transição do Cretácico
Inferior para o Cretácico Superior.
Portanto, há cerca de 99 milhões de
anos o planeta ficava mais florido.
Especulando, será que essas
flores já perfumariam a Terra? “É
possível que sim, porque algumas,
para a polinização por acção dos
insectos, teriam de ter alguma coisa
que os atraísse.”
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Em Portugal há
fósseis das primeiras
flores da Terra
Várias plantas com flores
com mais de 100 milhões de
anos têm sido descobertas
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