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Modernidade e angústia na obra de Charles
Baudelaire: uma análise filosófica dos
poemas de “As Flores do Mal”1
Vinícius França de Sene
1
Resumo: O objetivo deste artigo é compreender a ideia de angústia relacionada à questão
da modernidade na obra de Charles Baudelaire. Assim, pretendemos fazer uma análise
filosófica dos poemas As Flores do Mal. Em tais poemas, percebemos a insatisfação do
poeta em relação ao progresso da modernidade e à substituição do homem pelas máquinas,
o que levava o homem moderno a pensar estar perdendo sua própria identidade. Para
compreendermos filosoficamente o que causa angústia em um homem como Baudelaire,
utilizaremos dois filósofos da corrente filosófica existencialista: Kierkegaard e Nietzsche,
já que eles são contemporâneos de Baudelaire e críticos desta mesma modernidade.
Além disso, percebemos que estes filósofos fazem a mesma afirmação de Baudelaire ao
se referirem ao homem moderno perdido em meio à sua época, valendo-se de várias
identidades pra sobreviver. Por fim, temos como objetivo estudar estes pensadores do
período oitocentista para refletirmos também sobre a fragmentação do sujeito pósmoderno.
Palavras-chave: Filosofia. Modernidade. Angústia. Charles Baudelaire. As Flores do
Mal.
1
Orientadora: Semíramis Corsi Silva. Doutoranda em História pela Universidade Estadual Paulista (UNESP).
Docente do Centro Universitário Claretiano de Batatais (SP). E-mail: <[email protected]>.
2
Acadêmico do Curso de Filosofia pelo Centro Universitário Claretiano de Batatais (SP). E-mail: <[email protected]>.
Linguagem Acadêmica, Batatais, v. 1, n. 2, p. 83-108, jul./dez. 2011
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1. INTRODUÇÃO
Este artigo tem como objetivo analisar a ideia de modernidade e angústia, em uma visão filosófica na obra de Charles Baudelaire, mais especificamente em seus poemas Les Fleurs du Mal (As Flores do Mal). Para
compreendermos melhor os conceitos fundamentais deste trabalho, analisaremos alguns escritores que falam sobre a modernidade oitocentista, e
o conceito de angústia na obra de dois grandes filósofos existencialistas,
Kierkegaard e Nietzsche. Assim, visamos identificar os principais motivos
causadores da angústia na modernidade de Baudelaire.
Para Baudelaire, a modernidade é a reconstrução e a afobação da humanidade na grande metrópole de Paris. Ele ainda afirma que não há nada
mais moderno que a vida nas grandes cidades. O poeta também esclarece
que a modernidade está intimamente ligada à noção de conflito, já que
por outro lado provoca angústia pela perda de controle e pela aceleração,
e isto se configura como o centro da vida cotidiana moderna, ou seja, da
vida nas grandes cidades. Contudo para ele: “A modernidade é o transitório, o efêmero, o contingente.” (BAUDELAIRE, 1996).
Sobre Baudelaire, sabemos que ele nasceu da união matrimonial entre François Baudelaire e Caroline Archinbaut-Dufays, no nono dia do
quarto mês de 1821, na capital francesa. Recebeu o nome de Charles Pierre Baudelaire. Desde pequeno Baudelaire levou uma vida bem atribulada.
Com a morte de seu pai aos seis anos, não aceitava o segundo companheiro de sua mãe, o general Aupick. Tempos depois interrompeu seus estudos
em Lyon partindo para Índia. Baudelaire foi amante da boêmia parisiense,
perdeu suas economias com mulheres e bebidas, chegando a ser enviado a
um conselho judiciário iniciado por seus familiares.
Criador de belíssimas obras, entre as quais a mais conhecida é o livro
de poemas As Flores do Mal. Sobre este livro sabemos que: “[...] trata-se de
um livro de poemas que tem no título o Mal associado ao Belo (Flores),
arruinando, a um só tempo, a tradicional adequação entre o Belo e o Bem
como ainda a metafísica de sua separação” (MATOS, 2005, p. 313).
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Sendo assim, explica-nos Barroso (2002, p. 24):
Em Baudelaire entrevemos uma complexidade desconcertante, uma
cabala de contradições bizarras, de antagonismos quase absurdos e
que poderia passar por fingidos com toda facilidade porquanto ele
próprio se dava também ao fingimento. Essa vida e essa obra cheia
de contrastes, de poses, de simulações, de lancinantes verdades, de
ignominiosos sofrimentos, de luminescentes criticismos ao lado de
inadmissíveis idiossincrasias resulta no amálgama cuja decomposição
elemental nos permite atestar que o gênio é uma concentração de
antíteses e que da explosão antitética que surge o esplendor do Novo.
Do Novo, não no sentido banal de novidade gratuita ou passageira,
mas Novo na acepção do agora que se transformará em Eterno.
Baudelaire não vivia nos salões nobres de Paris, mas sim na boêmia
francesa, foi o ser protético, com atitudes extravagantes e conflituais que
marcou sua existência em sua época. Contudo, Baudelaire é considerado
um dos grandes pensadores franceses de todos os tempos. Alguns o consideram um ensaísta do parnasianismo, outros um romântico exacerbado.
De desempenho ousado, tornou-se um modelo no século XX, influenciando a poesia mundial de tendências simbolistas. Baudelaire foi precursor de uma linguagem moderna no romantismo, que denominamos hoje
como simbolismo, concedendo a realidade uma submissão lírica.
No entanto, suas obras e sua capacidade intelectual só foram reconhecidas após sua morte, que se deu aos trinta e um dia do oitavo mês de
1867, nos braços de sua mãe, após grande acúmulo de doenças de origens
nervosas.
Para tratarmos da temática da angústia nas obras de Baudelaire, organizamos este artigo em três partes. Na primeira parte, trataremos sobre a contextualização histórica de Baudelaire e sobre a sua modernidade,
utilizando diversos autores para nos esclarecer sobre a modernidade de
Baudelaire. Já na segunda parte, temos como objetivo mostrar a definição
filosófica de angústia na ótica de dois filósofos existencialistas, Kierkegaard e Nietzsche, uma vez que esta corrente filosófica é contemporânea a
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Baudelaire e o principal motivo de angústia no homem; para estes filósofos, é a fragmentação com a qual ele está se deparando por consequência do avanço da modernidade. No entanto, após termos apresentado os
conceitos de modernidade e angústia, temos como objetivo, na terceira
parte do artigo, fazer uma análise dos poemas de Baudelaire encontrados
na obra As Flores do Mal. Intentamos com isto, retirar destas análises a
crítica de Baudelaire ao progresso da modernidade e a angústia ressaltada
por ele nestes poemas, que mostram as transformações nos sentimentos e
sofrimentos humanos que a sociedade oitocentista passou.
Portanto, no decorrer da apresentação deste artigo iremos perceber
muitas preocupações e inquietações no mundo moderno oitocentista de
Baudelaire que são semelhantes as do mundo de agora, o mundo pós-moderno3. Tal característica torna, assim, nosso trabalho fundamental para a
compreensão de aspectos sobre o sentimento do homem na atualidade.
3
É possível encontrar várias definições quando nos referimos a um conceito para contextualizar determinado período histórico, e por este motivo, optamos por escolher a definição que Terry Eagleton para definir
o que seria a Pós-Modernidade, que também é um conceito polissêmico. “A palavra Pós-modernismo
refere-se em geral a uma forma de cultura contemporânea. Pós-modernismo é um estilo de cultura que
reflete um pouco essa mudança memorável por meio de uma arte superficial, descentrada, infundada, autoreflexiva, divertida, caudatária, eclética e pluralista, que obscurece as fronteiras entre a cultura elitista e a
cultura popular, bem como a arte e a experiência cotidiana” (EAGLETON, 1998, p.70). Pode ser essa uma
das hipóteses, que a nossa sociedade Pós-Moderna está enfrentando suas mais derivadas crises ou mudanças.
Com essas mudanças acontecendo em todos os lugares e em todos os momentos, a identidade também
está se deparando com a fragmentação humana, uma vez que ela não tem mais referências, até mesmo
sentido. Assim, o sujeito Pós-Moderno se depara com tais situações porque anterior a este período chamado
“Pós-Modernidade”, historicamente tivemos outros dois períodos históricos, o Iluminismo, e posterior a
este a Modernidade. Sabemos que o principal resultado do Iluminismo foi transformar o sujeito em um
ser individualista, dizia Kant, que o objetivo deste período era com que o sujeito saísse do seu estado de
minoridade alcançando a razão por si só, com isso ele dispensa a dependência das pessoas, mas este estado
tradicional garantia certa estabilidade para a sociedade, que ao contrario a essa afirmação, a modernidade
com a Revolução Industrial, o avanço tecnológico, afirmava que as pessoas precisavam uma das outras,
pregando, no entanto, o sentido da coletividade, mas já pregava que tudo era muito passageiro, já não
garantia tanta certeza para a humanidade. Como vemos, tivemos na história anterior a Pós-Modernidade,
dois períodos completamente opostos que influenciaram substancialmente nossa atualidade em relação à
fragmentação humana. Isso, entretanto, já ocorria na modernidade de Baudelaire, por isso a sua crítica à
mesma. Concluindo, atualmente o sujeito assume identidades em diferentes momentos e a incerteza das
coisas fica cada vez maior, a contemporaneidade proporciona várias possibilidades, causando no homem a
fragmentação de identidade e a angústia diante das possibilidades de escolhas.
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Desta forma, acreditamos que por meio da análise sobre o cenário
moderno da cidade de Paris oitocentista possamos começar a compreender a angústia em Baudelaire.
2. A MODERNIDADE DE CHARLES BAUDELAIRE
Para melhor entendermos o contexto histórico que Baudelaire vivenciou, é necessário nos reportarmos aos meados do século XIX, período em que o mundo passou por grandes modificações, tantos sociais,
como econômicas, culturais, poéticas, filosóficas e existenciais.
É, portanto, dentro desta era de transformações, principalmente nas
grandes metrópoles, que viveu Baudelaire. Como afirma Gomes (1994, p.
07), “[...] é nesse cenário que surge tanto a obra de Baudelaire, quanto o
simbolismo”.
No fim do século XVIII, iniciou-se a “Revolução Industrial”, mas
o seu auge só foi atingido no começo do século XIX, com a produção
de massa de mercadorias e com a automatização das indústrias. Por estes motivos, as cidades começam a crescer cada vez mais, e, com isso, os
camponeses passam a abandonar o campo em busca de melhores salários
nos centros urbanos das grandes metrópoles. Sendo assim, afirma Gomes
(1994, p. 07):
A era moderna parece nascer aí: crescem a produção e o consumo dos
bens manufaturados, e o homem cria a ilusão de que o mundo se tornou menor, graças à velocidade dos meios de locomoção. O resultado
dessa obsessão com o progresso é a intensa euforia, somada a crença
na onipotência do homem, que se deixa guiar quase que exclusivamente pela razão.
Contudo, sabemos que a Revolução Industrial está intrinsecamente
ligada ao avanço extraordinário das ciências e da tecnologia, que possibilitou novas invenções para o melhoramento e o aperfeiçoamento das
indústrias, mas esta relação não só restringiu a esse aperfeiçoamento da
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tecnologia, mas também “[...] o progresso industrial, que trouxe inegáveis
benefícios à humanidade tem seu paralelo numa concepção científica e
materialista das coisas que procurava explicar o sentido do universo quase
que exclusivamente pela razão” (GOMES, 1994, p. 08).
Gomes (1994, p. 08) ainda afirma que:
A euforia provocada pela crença no progresso, pelas grandes descobertas científicas, paradoxalmente acabaria por levar a séria crise. A
revolução industrial, ao criar a fantasia do paraíso material do consumismo, da produção em massa de objetos, em determinado instante,
mostra o outro lado da moeda. Os centros urbanos tornam-se mais
agitados, mais ricos, contudo expõem, ao mesmo tempo a miséria dos
aglomerados humanos dos bairros de lata. A automatização, que leva
à produção de manufaturados em série, transforma o operário numa
engrenagem da máquina. A obsessão pelo consumo, pela produção
desenfreada pelas novidades, leva ao modismo, ao princípio de que
tudo é transitório, nada é duradouro, inclusive os critérios de gosto
e de arte. Os objetivos artísticos, com suas mercadorias, passam a ser
consumidos vorazmente e, por causa disso, têm curta duração. Em
consequência disso, o homem passa a ter sensação de que vive num
mundo fragmentário e de valores efêmeros.
Portanto, é nesse sentido que Baudelaire critica a modernidade; para
ele o avanço trouxe certa ruína para o mundo moderno. Até mesmo nas
relações humanas este progresso teve interferência. Segundo nosso poeta, não existe mais confiança nas relações intra-pessoais, tudo ficou muito
passageiro, artificial, os homens têm medo de se relacionarem com os outros, porque com estas transformações não se pode confiar nas afinidades,
e isso causa angústia no homem, porque ele se sente fragmentado diante
das multidões das grandes cidades.
Conforme Hyde (apud KIRCHOFF, 2004, p. 01), “[...] a literatura
modernista nasceu na cidade e com Baudelaire, principalmente na descoberta deste poeta de que as multidões significam solidão e que os termos
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multitude e solitude são intercambiáveis para um poeta de imaginação
fértil e ativa”.
Para Koch (apud KIRCHOFF, 2004, p. 01), “[...] o modernismo de
Baudelaire, consiste na radicalização do foco estilístico da linguagem em
detrimento do foco informacional”.
Já Coli (2005) afirma que a modernidade trouxe com seu avanço
tecnológico as poderosas máquinas, que jamais as pessoas das pequenas
cidades e de outras épocas haviam visto. Tais mudanças foram também
observadas de maneira surpreendente na música, na pintura, na filosofia,
na poesia, enfim, na construção das belas produções da modernidade.
Desta perspectiva, sua crítica em relação a essa transformação foi: “A arte
entusiasmou-se por um mundo que se transformava tecnicamente de maneira rápida, acreditando nas utopias futuras do progresso” (COLI, 2005,
p. 264).
A partir dessas considerações, sobre o progresso da modernidade,
vista pela ótica dos autores citados, podemos observar como Baudelaire
sentia o progresso e a transformação do homem de sua época.
O que é mais absurdo do que o progresso, já que o homem, como é
provado pelos fatos cotidianos, é semelhante e igual ao homem, quer
dizer, sempre no estado selvagem! O que são os perigos da floresta e
da planície diante dos choques e dos conflitos cotidianos da civilização? Que o homem enlace sua enganada no boulevar, ou transpasse
sua presa em florestas desconhecidas, não é ele o homem eterno, quer
dizer, o mais perfeito animal de rapina? (BAUDELAIRE, 1947).
Desse modo, Benjamin (apud COLI, 2005, p. 294). comenta: “É
sobretudo a fé no progresso que Baudelaire persegue com seu ódio, como
uma heresia, uma doutrina errada, e não como um erro comum”.
Para Habermas (apud KIRCHOFF, 2004, p. 2), é com Baudelaire
que a alusão à modernidade passa a ser observada por uma atualidade que
se “autoconsome”. Esta, no entanto, não pode ser aguardada com a perspectiva de que um dia irá acabar, desde então, essa atualidade passa a ser
o centro da vida moderna, não podendo mais buscar refúgio nos tempos
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passados. Assim, a atualidade passa a ser observada com o entrelace de
tempo e o desconhecido.
Como percebemos, Kirchoff (2004) esclarece-nos que é na grande
metrópole que Baudelaire encontra o elemento poético imaginário para
construir a principal metáfora deste novo tempo oitocentista. A cidade
é o lugar que simula fisicamente as novas formas de construção e organização social que foram afetados pelos tempos anteriores, operando como
forma de reorganização das novas relações em um novo mundo, não mais
organizado e dirigido por ordens positivistas. Do ponto de vista objetivo
do poeta, ele utiliza do termo flaneire para resgatar no homem o sentido
imaginário e a relação com o passado, que esta modernidade interrompeu.
Utilizando-se deste termo, Baudelaire trata do homem que é capaz de despertar o imaginário, indo aonde jamais fisicamente ele irá: no mundo da
poesia, e do filosofar. A flaneire pode ser mais bem compreendida se oposta ao simples passeio, seguindo a sugestão de Ferrara, (apud KIRCHOFF,
2004). Na turnê do flâneur as imagens da cidade se depararam estáticas,
seguras e publicamente compiladas, garantindo a certeza da própria existência urbana por meio de experiências passadas. A flaneire, contudo,
não decorre apenas da simples observação, é de suma importância que ela
esteja fundamentada na reflexão, conquanto as figuras nos sirvam como
atalhos, para que nos brotem estes sentimentos que nos leva às profundas
reflexões.
Assim o flâneur:
É um observador que caminha tranquilamente pelas ruas, apreendendo cada detalhe, sem ser notado, sem se inserir na paisagem, que
busca uma nova percepção da cidade. E para situar a curiosa figura
do flâneur no tempo, é preciso entendê-lo, antes de tudo, como uma
figura nascida na modernidade. Ele apareceu como o contraponto do
aspecto que trata das relações entre os fenômenos urbanos das multidões e a experiência vivida e transmitida pelo escritor através de sua
forte expressão poética. (PASSOS et al, 2003, p. 06-07).
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Ainda segundo Coli (2005, p. 295):
Flanar é encontrar a poesia, captando as aparições casuais nas ruas,
e delas extrair impressões misteriosas. Diante da cidade moderna, o
olhar do poeta não é o do hábito, que caleja a percepção. É, ao contrário, o de uma sensibilidade muito aguçada: aguçada por estados
“anormais”, febris, que o jejum e as drogas (os paraísos artificiais)
podem trazer. Nessa percepção o flâneur encontra-se a substância
da poesia. Não existem verdades últimas, mas existem seguranças de
qualquer sorte. Há, ao contrário, um processo contínuo que busca se
nutrir do efêmero.
O homem moderno, com seus conceitos de angústia e destroços,
perceberá o aspecto disforme, que se configura como este novo jeito de
ser e de se relacionar na era moderna. Baudelaire, flâneur da Paris oitocentista, é o observador das dessemelhanças humanas que tomam os grandes centros urbanos, onde o camponês divide o mesmo território com o
burguês, onde as grifes se misturam, onde as relações são abaladas, onde
as disputas acontecem por motivos distintos, onde o “ter” ganha lugar do
“ser”. É, contudo, nesta nova geração “social” que a observação acentuada e crítica do poeta encontra algo, até então desconhecido, do que o
simples amadorismo voyeurista do flâneur, pois “[...] os seres perdem o
seu aspecto familiar, há uma completa subversão da ordem ontológica. A
desproporção no miúdo sugere uma desarmonia universal” (ANATOL,
apud MEDEIROS, 2004).
Baudelaire, percebendo este abismo que as pessoas estavam se deparando devido à interferência que o avanço dos grandes centros vinha causando na vida das mesmas, cria, através de suas observações, uma alegoria
determinada com o conceito de grotesco a fim de demonstrar o ridículo
da modernidade. Assim, mostra-nos Kayser (apud MEDEIROS, 2004, p.
05):
Na palavra grottesco, como designação de uma determinada arte ornamental, estimulada pela Antiguidade, havia para Renascença não apenas algo lúdico e alegre, leve e fantasioso, mas, concomitantemente,
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algo angustiante e sinistro em face de um mundo em que as ordenações de nossa realidade estavam suspensas [...].
A identificação do grotesco, no tempo moderno, configura na poesia
de Baudelaire um aspecto importante. Em “O Vinho dos Trapeiros”, percebemos a cidade e seus moribundos sob esta ótica.
Estes, que a vida em casa enche de desenganos,
Roídos pelo trabalho e as tormentas dos anos,
Derreados sob montões de detritos hostis,
Confuso material que vomita Paris.
(BAUDELAIRE, 1985, p. 379).
Medeiros (2004, p. 05) mostra-nos que o termo grotesco, utilizado
por Baudelaire em suas poesias para representar a modernidade, enfatiza
com muita clareza o sentimento de “desarmonia universal”, é esta paralisação da arrumação da realidade. O assustador, assombroso, para Baudelaire é,
contudo, a aglomeração de pessoas nas ruas, causando no poeta uma confusa percepção do belo mesclado com o ridículo. Sendo assim, percebemos o
deslumbramento e a indignação de Baudelaire pela vida moderna.
Destas acepções, nos lembra Coli (2005, p. 296.): “Em verdade, o
poeta é um vampiro da cidade moderna. Ele suga dali a força criadora.
Essa, força, porém, não traz benefício ao poeta: o beneficio vem para a
poesia”.
No entanto, notamos que Baudelaire, ao ter percebido as grandes
transformações que estavam acontecendo à sua volta, viu que as poesias
clássicas e as românticas não estavam encontrando espaço. Neste sentido,
o poeta percebeu que precisaria fazer algo para a poesia não perder seu lugar, é assim que Baudelaire moderniza as alegorias, introduzindo um novo
modo de escrever a poesia que chamamos de “Simbolismo”. Foi com esta
maneira de escrever que ele introduziu nos seus poemas as divergências
que a cidade luz oitocentista passava, com as diferentes classes sócias dividindo o mesmo lugar, o belo e o feio com as mesmas antinomias. Assim,
com isso, nos vocábulos de Baudelaire originou o grotesco, que possibili 92
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tou a ele misturar na mesma poesia “o bom cheiro e o mau cheiro”. Isto
causou um grande mal estar aos seus contemporâneos, e foi, neste sentido,
que se fez preciso que ele eliminasse alguns poemas da sua obra célebre,
As flores do Mal, a fim de poder publicá-la a mesma, pois alguns termos
novos que ele utilizava eram considerados vulgares, já que até então ninguém havia tido a mesma ousadia de Baudelaire. Por esta inovação é que
ele é considerado, por muitos pensadores, o “pai” do Simbolismo. Deste
modo, Baudelaire introduziu com o novo vocábulo termos de novidade
moderna. “Para melancolia, em vez de mélancolie, ele preferiu spleen, expressão inserida na modernidade graças ao anglicismo4 da época” (COLI,
2005, p. 295).
Assim sendo, Benjamin (apud COLI 2005, p. 295) demonstra que:
Spleen que significa baço, órgão no qual os antigos imaginavam que
os humores negros se juntavam para tornar melancólico um caráter,
diverge de mélancolie pela modernidade do estrangeirismo, mélancolie transfigurada em spleen soa mais moderno. E spleen recobre esses
termos baudelairianos: angústia, azar, tédio, melancolia.
Deste modo, Coli (2005, p. 296) aponta:
Há uma dualidade em Baudelaire. Por um lado, a recusa violenta do
progresso, do mundo moderno banalizador, corruptor do espírito,
daí seu horror pela fotografia, vista por ele apenas como um modo
mecânico de reproduzir a imagem do mundo. Mas, por outro, ele
cultiva a idéia de que o artista moderno está ancorado no presente,
aprisionado pelo presente, e não pode escapar dele. O presente é uma
prisão, e o poeta, o rei de um país chuvoso, do qual não pode fugir.
Vejamos isso claramente no trecho do poema “O convite à Viagem”:
4
Segundo Biderman (1992, p.79), “palavra ou locução de origem inglesa adotada por outra língua”.
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Minha doce irmã
Pensa na manhã
Em que iremos, numa viagem,
Amar a valer,
Amar e morrer
No país que é a tua imagem!
Os sóis orvalhados Desses céus nublados
Para mim guardem o encanto
Misterioso e cruel
Desse olhar infiel
Brilhando através do pranto.
Lá, tudo é paz e rigor,
Luxo, beleza e langor [...].
(BAUDELAIRE, 1985, p. 235)
Neste trecho percebemos que estas viagens são utópicas, que se tornam impossíveis na vida real, só podendo ser vivenciadas utilizando a
ideia do flâneur. Neste sentido, a crítica de Baudelaire é pertinente a nossa
contemporaneidade, uma vez que não temos mais possibilidades de observarmos com facilidade todas as transformações que ocorrem ao nosso
redor, que não cultivamos de nossas reflexões, mas sim dos nossos bens
materiais, para não sermos expulsos destas transformações ocorrentes em
nossos dias, não almejamos mais a busca do flâneur de Baudelaire, que
é perambular pelas cidades com o objetivo de refletir sobre as transformações, mas buscamos sim o flâneur de nosso tempo, que é andar pelas
vitrines das lojas de grifes, para ver se estamos atualizados nas modas. Assim, percebemos que nosso flanar está invertido, não queremos refletir,
queremos possuir.
Fazendo uma alusão à filosofia hegeliana sobre o aspecto que Baudelaire afirma ser o poeta capaz de viajar, sem mesmo sair do seu próprio
lugar, mas sim fazer uma viagem metafísica, percebemos o mesmo em Hegel, quando este afirma que não se pode fazer uma separação entre pensar
filosoficamente e pensar os conteúdos filosóficos, os quais dão condições
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para o filosofar: Filosofar é filosofar com conteúdos. Segundo Hegel
(apud GELAMO, 2008, p. 160):
Em geral se distingue um sistema filosófico com suas ciências particulares do filosofar mesmo. Segundo a obsessão moderna, especialmente da Pedagogia, não se tem de instruir tanto em relação ao
conteúdo da filosofia, quando se tem de procurar aprender a filosofar
sem conteúdo: isto significa mais o menos o seguinte: deve-se viajar
e sempre viajar, sem chegar a conhecer as cidades, os rios, os países,
os homens etc.
Com isso, Gelamo (2008, p. 161) nos esclarece:
A metáfora utilizada por Hegel no fragmento acima esclarece melhor
seu pensamento acerca do vínculo entre método e conteúdo. Para que
o viajar realmente concretize-se, não basta apenas o deslocamento de
um lugar para outro (e nem sempre esse deslocamento precisa acontecer, assim como percebemos com o poeta, ele viaja sem mesmo se
locomover). Ao contrário, é necessário conhecer os lugares, que se
percorre, as cidades, os rios, os vilarejos, as ruas, os caminhos, enfim
as pessoas com as quais se encontra. Sem conhecer-se esses elementos
(os conteúdos) que compõem o viajar, além de não se aprender o que
é viajar não se viaja verdadeiramente.
Desta forma, percebemos a grande sintonia e a ligação entre filosofia
e poesia. É também este mesmo sentido que o poeta utiliza para produzir
suas poesias: conhecer o conteúdo para entrar no mundo (fantasioso) em
que a poesia é capaz de nos levar.
No entanto, uma das principais críticas de Baudelaire à modernidade é em relação ao progresso da sociedade, crítica à desarmonia social e,
talvez, seja justamente essa crítica que o leve ao tema das viagens fantasiosas e imaginárias, à busca de lugares e sentimentos utópicos e por isso
perfeitos. Para ele, estes fatores são uns dos principais responsáveis de toda
causa de angústia na vida moderna. Com as constantes mudanças nada se
torna seguro para o homem, e é por isso que ele se desespera, tudo está em
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contínua transformação, tudo é muito passageiro, até mesmo as relações
humanas. Em nada mais as pessoas para Baudelaire encontram bases sólidas, assim como escreveram os filósofos Karl Marx e Fredrich Engels no
manifesto do Partido Comunista de 1848: “Tudo que é sólido desmancha
no ar”, para Baudelaire é isso que destrói toda modernidade, esta fragmentação que o mundo está se tornando e essa falta de solidez e segurança.
A desestruturação da modernidade e, como tratamos anteriormente,
o fascínio por ela, pode-se ser facilmente percebidos por nós nos poemas
de Baudelaire. O sentimento ambíguo que a Modernidade apresenta gera
nos poemas de Baudelaire o sentimento de angústia: a angústia da modernidade.
Para compreendermos melhor a angústia enquanto tema filosófico e
tratá-la na obra de Baudelaire, faz-se necessário recorrermos ao conceito
filosófico de angústia. Assim, nos reportaremos agora às visões de Kierkegaard e Nietzsche.
3. A DEFINIÇÃO FILOSÓFICA DE ANGÚSTIA
NA ÓTICA DE DOIS FILÓSOFOS EXISTENCIALISTAS
Nesta parte do artigo, temos como objetivo apresentar como a filosofia discorre sobre a angústia. Para isso, nos utilizaremos do pensamento
da filosofia existencialista, tendo como base dois grandes filósofos desta
corrente que são vistos como grandes pensadores da angústia existencial:
Sõren Kierkegaard (1813-1855) e Friedrich Nietzsche (1844-1900).
Como é de praxe dos filósofos darem conceitos divergentes sobre
a mesma questão, na maneira como eles percebem as coisas; no decorrer
deste tópico veremos algumas divergências no conceito de angústia para
Kierkegaard e Nietzsche, mas ao mesmo tempo também notaremos algumas semelhanças já que os dois filósofos seguem a mesma linha de filosofia
e pensamento.
Sendo assim, buscaremos, primeiramente, antes de diferenciar a angústia para cada um deles, apresentar a analogia que rege ambos os pensa-
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mentos: “A angústia para ambos, é vista como essa consciência do nosso
destino pessoal que nos tira a cada instante do nada abrindo diante de nós
um futuro no qual a nossa existência se decide” (LALANDE, 1999, p.
68).
No entanto, para Kierkegaard, o que causa angústia no homem é a
“liberdade de escolha” que ele tem para decidir no decorrer de sua vida. É
com o sentimento de angústia que o homem experimenta a possibilidade
da liberdade, como sua essência fundamental. Pois, a cada dia somos destinados a realizarmos escolhas, e sabemos que, se escolhermos um caminho
teremos que renunciar outro, e são estas possibilidades atormentadoras,
diante das quais devemos nos decidir. E, nesta difícil decisão de escolha
percebemos que não estamos destinados, que não existe algo predeterminado para nossa existência, somos nós que escolhemos o que queremos ser, quando decidimos qual caminho devemos tomar. Sendo assim,
Kierkegaard (2004, p. 261) chega à seguinte conclusão: “A coisa mais terrível concedida ao homem é a escolha, a liberdade”.
Para Kierkegaard, um outro aspecto que intriga a liberdade humana
e que faz com que o homem muitas vezes escolha um determinado caminho e não outro é baseado na questão religiosa, sendo perceptível nas suas
obras a ligação que ele estabelece com o divino ao perceber que sua vida
estava fundamentada pela melancolia. Então, ele agarrou o eterno, seguro
de que Deus é amor, e isto trouxe mais conforto para o seu estado melancólico porque ele acreditou que nós somos “[...] sujeitos à absoluta jurisdição divina”, ou seja, isto aplica de forma fundamental em nossas escolhas
diante de Deus. Assim, escreveu Kierkegaard (2004, p. 262): “Trata-se de
ousar se totalmente o que se é, um homem singular, este determinado homem individual; só diante de Deus, só nesse imenso esforço e com essa
imensa responsabilidade.”
Mas é contraditória a questão religiosa no pensamento de Kierkegaard, ora ele fala que é necessária a influência divina na infelicidade humana, porque isto faz com que o homem tenha certo alívio em sua existência.
Sendo assim, Kierkegaard (apud WEISCHEDEL, 2004, p. 262) afirma:
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Minha vida começou com uma melancolia medonha, sendo, já na
primeira infância, transtornada do modo mais profundo. Não podia
acreditar que essa miséria fundamental de minha natureza pudesse ser
remediada. Assim, agarrei o eterno, ditosamente assegurado de que
Deus é amor. Ainda que por toda minha vida devesse sofrer tanto.
Com esta declaração percebemos a condição do eterno sobre a existência humana. Mas, ora ele afirma que essa influência do eterno é o principal pretexto de angústia no homem, porque ocorre “[...] com o desejo do
que se teme e temor do que se deseja”. Desta maneira, fica notável o medo
que o ser humano tem de tomar devidas escolhas, o medo de ser condenado por Deus por não fazer as escolhas corretas. Contudo, é necessário
reafirmar que Kierkegaard não acredita em um destino predeterminado,
e sim em boas ou más escolhas. Portanto, na visão de Kierkegaard, a liberdade de escolha é a pior condenação.
Outro aspecto que é pertinente à filosofia de Kierkegaard é a crítica
que ele faz ao homem moderno. O filósofo afirma que este não tem mais
“[...] paixão autêntica e o entusiasmo pelas coisas se perdeu”, sendo assim,
para ele, as coisas não ocorrem mais naturalmente, tudo está baseado em
grandes reflexões, “ninguém se decide por si mesmo”. (KIERKEGAARD
apud WEISCHEDEL, 2004, p. 263).
Contudo, mostrando essa dualidade sobre a questão religiosa para
Kierkegaard, é notório que para ele é de suma importância relação com
Deus, porque esta minimiza o sofrimento humano. Assim, o indivíduo
se toma infinitamente de sua mais própria existência e que esteja, como
indivíduo, diante de Deus.
Agora, trataremos do conceito de angústia no pensamento de Nietzsche. No decorrer de sua vida, Nietzsche irá, em dois momentos, diferenciar o conceito de angústia. Em um primeiro momento, a angústia para
ele é o “[...] paradoxo da existência individual”, ou seja, o real é constituído, antes de tudo, pelos poderes tenebrosos que se manifestam na vida
biológica e nos instintos. Com isto, o indivíduo não é um ser que vivencia sua individualidade, porque ele sai de si para fazer parte do mundo.
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Desse modo, para Nietzsche, no primeiro momento a “[...] angústia é o
sentimento desse conflito absoluto e insolúvel, no qual o existente se sente
como que esquartejado” ( JOLIVET, 1957, p. 74). Tendo que sair de si,
para viver com os outros.
Em um outro momento de sua vida, Nietzsche depara-se com outro
motivo que é causador de angústia no homem “o eterno retorno”, pelo qual
o homem é condenado ao presente e não pode fugir deste, girando eternamente diante de si mesmo, sem razão nem justificação. Sendo assim, o
homem sente-se impelido para um adiante que é um voltar atrás, para uma
liberdade que é fatalidade. Desta forma, a tendência do homem é se tornar
um ser solitário e desesperado, fazendo com que ele, ao mesmo tempo em
que acredita nega, não tem decisões, ele não é estável, está fragilizado com
sua própria condição de contradição, aceita tudo que o mundo oferece
porque sabe que é presa do mundo e não poderá encontrar salvação se
não na loucura. Portanto, com estas duas demonstrações diferentes sobre
a angústia, Nietzsche chega à seguinte conclusão: “A angústia é, portanto,
a forma de sua vida e o sinal permanente de que o homem se mantém ao
nível do seu destino, isto é, tendendo para além de si mesmo no sentido
do impossível” ( JOLIVET, 1957, p. 75), neste sentido, aqui aparece sua
semelhança com flâneur de Baudelaire, como vimos anteriormente.
Notamos que Nietzsche é conduzido por seu grande pessimismo.
Em todo momento, ele afirma que a única salvação do homem é a loucura.
Ao contrário desta afirmação de Nietzsche, percebemos em Kierkegaard
que a única salvação do homem é o encontro com o consolo em Deus.
Sendo assim, podemos afirmar que Nietzsche é pessimista em relação à
sua existência e Kierkegaard, é otimista. Ademais, percebemos uma outra divergência no pensamento de ambos os filósofos, Nietzsche pauta a
superação da angústia no ateísmo e na loucura, já Kierkegaard encontra
superação da angústia no cristianismo e no abraço eterno.
Desse modo, após termos apresentado o conceito de angústia na
visão destes dois grandes filósofos, que como vimos são considerados os
grandes pensadores da angústia na filosofia existencial, pretendemos no
próximo tópico, com a interpretação e o olhar da angústia na filosofia,
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interpretar a angústia na modernidade de Baudelaire. Voltaremo-nos para
a análise de seus poemas, em sua principal obra As Flores do Mal, que representam, para nós, as mais grandiosas confissões da angústia no homem
moderno.
4. A MODERNIDADE E A ANGÚSTIA
DE BAUDELAIRE: UMA ANÁLISE DOS POEMAS
Temos como objetivo deste tópico fazer a análise filosófica de alguns
poemas de Baudelaire da obra As Flores do Mal. Nesta perspectiva, tomaremos como base fundamental para está análise a filosofia existencialista,
uma vez que, como já informamos, esta é contemporânea a Baudelaire.
Nossa preocupação é retirar destas análises a crítica de Baudelaire ao progresso da modernidade e a angústia que é ressaltada por ele nestes poemas,
mostrando as transformações nos sentimentos e sofrimentos humanos
que a sociedade oitocentista passou.
Assim, como percebemos no discorrer deste artigo, aquilo que fazia
produzir nos artistas encantados pela modernidade, isto é, o princípio de
progresso, a teologia da felicidade coletiva, está completamente eliminado de Baudelaire, que demonstra, por sinal, raros entusiasmos positivos,
já que para ele este avanço progressista da modernidade é o precursor de
toda causa de angústia, medo e solidão no homem.
Segundo Baudelaire, é na multidão, nas grandes cidades que o homem procura refúgio para se esconder de si mesmo e é por esse motivo
que Baudelaire desenvolve suas poesias baseadas na grande metrópole que
é Paris. Quando o poeta se depara com sua solidão, sem a multidão dos
grandes centros, ele demonstra sua angústia, é o paradoxo do homem moderno.
Sendo assim, refletiremos sobre a angústia com o progresso da modernidade em um trecho do poema “Spleen”:
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Sou como o rei sombrio de um país chuvoso,
Rico, mais incapaz, moço e, no entanto idoso,
[...] Não sabem mais que traje erótico vestir
Para fazer este esqueleto enfim sorrir
O sábio que ouro lhe fabrica desconhece
Como extirpar-lhe ao ser a parte que apodrece, [...]
(BAUDELAIRE, 1985, p. 295).
Podemos notar a fragilidade do homem moderno ao perceber que
ao mesmo tempo em que ele tem tudo, ele não tem nada, sendo jovem,
percebe-se idoso, porque não pode atuar na modernidade, as máquinas
tomaram conta dos trabalhos artesanais, são tantas as possibilidades que
norteiam o homem, que ele é incapaz, por si só, escolher algo que o agrade
e ao mesmo tempo não fique fora do que a modernidade prega; não tem
mais referencias intelectuais, o mundo com seu progresso, não é mais capaz de considerar o que é ser intelectual, uma vez que as máquinas podem
produzir tudo. O homem não é mais um ser em sua totalidade, ele é “um”
despedaçado em “múltiplos”, ele pode ser uma coisa agora e logo mais ser
outra, porque tem possibilidades que o façam ser assim.
O Homem da modernidade tem que confiar, mas também ser desconfiando das pessoas, porque a certeza não existe, a segurança é interrompida, o tempo se transformou em atraso, as possibilidades são inúmeras como percebemos no poema “A uma passante”:
A rua entorno era um frenético alarido.
Toda de luto, alta e sutil, dor majestosa,
Uma mulher passou, com sua mão suntuosa
Erguendo e sacudindo a barra do vestido.
Pernas de estátua, era-lhe a imagem nobre e fina.
Qual bizarro basbaque, afoito eu lhe bebia
No olhar, céu lívido onde aflora a ventania,
A doçura que envolve e o prazer que assassina.
Que luz...e a noite após!- Efêmera beldade
Cujos olhos me fazem nascer outra vez,
Não mais hei de te ver senão na eternidade?
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Longe daqui! Tarde demais! Nunca talvez!
Pois de ti já me fui, de mim tu já fugiste,
Tu que eu teria amado, ó tu que bem o viste!
(BAUDELAIRE, 1985, p. 345)
Baudelaire deixa explícita sua angústia ao perceber que nunca mais
poderá rever esta mulher que foi causa de sua admiração e de seu amor.
Assim, a angústia foi despertada com as grandes mudanças corriqueiras
que o ser humano enfrenta no seu dia a dia, como podemos perceber não
temos certeza de nada mais, tudo se torna causa de dúvida, com estes avanços cada vez maiores, e a vida nas grandes cidades as nossas certezas ficam
cada vez menores.
Sendo assim, as mentiras, as máscaras, as invejas, as melancolias, tomaram conta do ser e por isso ele vive de aparências.
[...] Eu sei que a olhos cheios de melancolia,
Que nada escondem por debaixo de seus véus;
Belos escrínios, mas sem jóias de valia,
Mais fundos e vazios do que vós, ó Céus!
Mas basta seres está dádiva aparente
Para alegrar quem vive apenas da incerteza.
Que me importa se és tola ou se és indiferente?
Máscaras, ornato, salve! Amo a tua beleza!5
(BAUDELAIRE, 1985, p. 359).
Fragmento do poema “O Amor à Mentira”.
Thomas Hobbes foi um matemático, teórico político e filósofo. De origem inglesa,
nasceu ao quinto dia do quarto mês de 1588 em Malmesbury e faleceu ao quarto dia
do décimo segundo mês de 1679. Escritor e tradutor de várias obras, das quais a mais
conhecida é a obra Leviatã, nesta obra ele aborda exterioridade sobre a natureza humana
e a respeito de necessidade de governos e sociedade.
5
6
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O sarcasmo de Baudelaire é emocionante ao citar o vazio que norteia
o homem no decorrer da modernidade, e para percebermos em Baudelaire este seu grande preconceito com a modernidade que se transforma,
recorremos à comovente frase de Hobbes6: “O homem é o próprio lobo do
homem”. No entanto, é assim que Baudelaire percebe a degradação da humanidade.
Com este poema, percebemos também a importância da fé e da necessidade que os homens têm de viverem de aparências, isso é extremamente importante para fuga da sua real solidão e serve de consolo para
sua miséria, ou seja, as pessoas não precisam saber das suas mais íntimas
situações, e também serve de salvação para as pessoas que sentem esta profunda melancolia, e transpassam a alegria que não vivenciam, com isto diz
Kierkegaard (apud WEISCHEDEL, 2004, p. 264):
Minha vida é grande sofrimento aos outros desconhecido e incompreensível; tudo parecia orgulho e vaidade, mas não o era. Tinha a
trave na carne; por isso não me casei, nem pude assumir nenhum encargo. Em vez disso, tronei-me a exceção. De dia ia-se ao trabalho e ao
compromisso e, de noite, eu era posto de lado; essa era a exceção.
Desse modo, podemos perceber a ideia de angústia da filosofia existencial intrinsecamente presente nos poemas de Baudelaire. Em ambas as
citações percebemos, de maneira antagônica, a necessidade da fé, e da boa
aparência, para não nos depararmos com nosso real sofrimento.
Podemos dizer também que uma das maiores decepções de Baudelaire com relação ao progresso é a forma que este avanço interferiu na estética parisiense, vejamos:
Vens tu do céu profundo ou sais do precipício,
Beleza? Teu olhar, divino mais daninho,
Confusamente verte o bem e o malefício,
E pode-ser por isso comparar-te ao vinho.
[...] provéns do negro abismo ou da esfera infinita?
Como te acompanha a fortuna encantada;
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Semeias ao acaso a alegria e a desdita
E altiva segues sem jamais responder nada.
[...] De Satã ou de Deus, que importa? Anjo ou sereia,
Que importa, se és quem fazes – fada de olhos suaves,
Ó rainha de luz, perfume e ritmo cheia!
Mais humano o universo e as horas menos graves?7
(BAUDELAIRE, 1985, p. 153)
Nesta perspectiva, notamos que Baudelaire se questiona: “De onde
vem a beleza”? Observamos que a modernidade não é capaz de responder,
uma vez que ela está totalmente modificada, onde tudo é permitido, não
fazendo questão de indagar se é o homem, ou se é o mundo que conceitua
o que é o belo ou não belo. Assim sendo, na modernidade o homem só
pode afirmar que “[...] a beleza governa tudo e vais sem dar satisfação”
(BAUDELAIRE, 1985), ou seja, em um determinado tempo admiramos
algo, e logo mais este algo se torna insignificante aos nossos olhares, uma
vez que tudo é passageiro, a beleza também é passageira. Sendo assim,
podemos concluir que a antipatia do progresso se resume perfeitamente
nesta frase. “Vais levar-me, avalanche, em tua queda abrupta”? (BAUDELAIRE, 1985, p. 153). Portanto, Baudelaire sem a certeza de qual será
o fim deste progresso se desespera na sua mais íntima solidão, entre as
inúmeras possibilidades e incerteza que a modernidade trouxe para a fragilidade humana.
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Como pudemos perceber ao longo deste artigo, para Baudelaire a
avalanche de mudanças advindas dos tempos modernos trazia a inquietude para o ser humano e causava a angústia. Sendo assim, a filosofia existencial de Kierkegaard e Nietzsche está ligada com a crítica de Baudelaire
à modernidade.
7
Fragmento do poema “Hino à Beleza”.
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Na poesia de Baudelaire notamos que o homem moderno vive na escravidão do tempo, ele anda pelas ruas, mas não consegue admirar a beleza
da natureza. São nestas mesmas ruas que o homem moderno corre atrás
dos trabalhos que lhe trazem benefícios materiais. É neste sentido que
Kierkegaard apresentou com sua filosofia a crítica ao sujeito moderno, defendendo que este não tem mais paixão e o encantamento do mundo, com
o progresso da modernidade o homem não pôde realizar as admirações
que Baudelaire conceituava com o ato do flâneur. Além disso, com o progresso ninguém decide por si, o homem é sempre obrigado a fazer aquilo
que o sistema o impulsiona, ou seja, o homem é sempre preso a alguma
coisa, perdendo sua própria liberdade de escolha. Na filosofia de Nietzsche é notório que o progresso causou um grande mal estar no sujeito,
tendo que sair de si para viver com os outros, tendo que sair da sua própria
habitação para enfrentar as novidades dos grandes centros.
Com as críticas que foram apresentadas neste artigo é possível notar
que essas foram as principais causas de angústia na vida do homem moderno e podem ser também hoje motivos da crise de identidade no sujeito
pós-moderno.
Vivemos em um período que, com o avanço tecnológico, o homem
está cada vez mais sendo substituído pela máquina, e este não possui tempo para quase nada, valores efêmeros, fragmentação, angústia existencial,
são características que regem o sujeito contemporâneo. Deste modo, o
homem moderno se vê tendo que assumir várias identidades em diversas
situações, tendo diversas possibilidades e ou mesmo não tempo nenhuma.
Concluímos, portanto, que a angústia está ligada intrinsecamente
às mudanças contínuas e rápidas que foram acontecendo no decorrer do
tempo histórico a partir do século XIX. No entanto, concluímos aqui este
artigo, mas não a pesquisa, pois é extremamente importante continuarmos as reflexões sobre as mudanças históricas da modernidade até nossa
contemporaneidade, para que sejamos capazes de compreender um pouco
sobre o homem pós-moderno.
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Angra, 2004.
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Title: Modernity and anguish in Charles Baudelaire’s work: a philosophic analysis of
“The Flowers of Evil” poems.
Authour: Vinícius França de Sene.
ABSTRACT: The aim of this paper is to understand the idea of anguish related to the
question of modernity in the work of Charles Baudelaire. We make a philosophical
analysis of poems The Flowers of Evil. In this poems, we see the poet´s dissatisfaction
about the progress of modernity and the replacement of man by machines, which led
modern man to think to be losing its own identity. To understand philosophically what
causes anguish in a man like Baudelaire, we use two current philosophical existentialist
philosophers: Kierkegaard and Nietzsche, as they are Baudelaire´s contemporaneous
critics of that modernity. Also, realize that these philosophers make the same claim of
Baudelaire when referring to modern man lost in the midst of his time, using multiple
identities to survive. Finally, we aim to study these nineteenth-century thinkers of the
period to reflect also on the fragmentation of the postmodern subject. Keywords: Philosophy. Modernity. Anguish. Charles Baudelaire. The Flowers of Evil.
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