Dieta engorda e é gatilho para transtorno alimentar, diz nutricionista

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Dieta engorda e é gatilho para transtorno alimentar, diz nutricionista
Qui, 18 de Dezembro de 2014 15:54 - Última atualização Sex, 19 de Dezembro de 2014 11:16
O fim de ano chega, e logo vem aquela preocupação com o ganho de peso provocado pelas
delícias natalinas. Quando começar a dieta? Se depender da nutricionista Sophie Deram a
resposta é: nunca!
Na contramão da maioria dos especialistas, ela defende que regime não é garantia de perda de
peso e, pior, pode ajudar a engordar. Para ela, fazer dietas por tempo prolongado aumenta o
risco de que a pessoa se torne compulsiva por comida.
Sophie Deram, que é francesa, mas vive no Brasil, explica que cortar alimentos que são fontes
de carboidratos e gorduras faz com que o corpo diminua o metabolismo e o cérebro fique com
mais "vontade" de procurar comida, o que pode levar a engordar.
A tese da nutricionista, doutora em nutrição pela USP (Universidade de São Paulo) e autora do
livro "O Peso das Dietas - Emagreça de forma sustentável dizendo não às dietas!" (Editora
Sensus), leva em conta os estudos mais recentes sobre dietas e sua experiência no tratamento
de pessoas com transtornos alimentares, como anorexia e bulimia.
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Entre os estudos, ela cita um da Universidade de Helsinque, na Finlândia, publicado em março
de 2012 no periódico International Journal of Obesity, no qual cientistas investigaram o ganho
de peso em mais de 2.000 pares de gêmeos por 25 anos.
A pesquisa concluiu que o gêmeo que fazia dieta engordava mais do que o irmão que comia
sem restrição, mesmo os dois tendo a mesma propensão genética a ter doenças.
"Há estudos que mostram que fazer dietas te coloca no caminho de engorda porque elas
impedem a pessoa de 'escutar' o corpo na hora de matar a fome, ou seja, impedem de ter uma
perda de peso sustentável e tranquila. A melhor maneira de perder peso é comer de forma
consciente, tendo uma alimentação variada. Aprendemos que fechar a boca e malhar é o ideal,
mas isso faz aumentar o apetite", diz a especialista.
Erro 1: cortar carboidrato e gordura
A nutricionista Sophie Deram começou a estudar os efeitos das dietas há 25 anos, quando
deixou a França para viver nos Estados Unidos -- onde se deparou com o que ela chama de
"uma guerra contra a gordura". "Isto está sendo revisado porque a gordura em si não engorda.
Por terem demonizado a gordura, virou tendência comer mais carboidrato que, em grandes
quantidades, pode engordar", diz.
A própria restrição ao carboidrato, que hoje tem como expoente a dieta do médico francês
Pierre Dukan, também é maléfica na opinião da nutricionista, pois é o "combustível do corpo" e
é metabolizado de forma diferente em cada pessoa. "Quando você não respeita seu corpo, não
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escuta sua fome e sua saciedade, cortando o carboidrato, você assusta o cérebro, que entende
que você não está comendo e vai aumentar seu apetite e diminuir o metabolismo, queimando
menos gordura", afirma.
Restringir o consumo de carboidratos e de gorduras por um longo período, por sua vez, pode
ainda aumentar o risco de compulsões alimentares porque o corpo tenda a se adaptar à falta
de ambos fazendo o organismo "pensar" muito mais em comida do que antes.
"[Quando a pessoa começa a cortar muitos alimentos da dieta], ela tende a ficar mais
obcecada por comida e passa a usá-la como algo que vai resolver cansaço, tristeza e trazer
felicidade. O cérebro dá ao alimento um papel reconfortante, o que aumenta o risco de
desenvolvimento de compulsões alimentares", diz Deram.
Erro 2: comer menos e fazer exercícios
Outro erro comum para quem quer perder peso, diz a nutricionista francesa, é sobrecarregar o
corpo com exercícios ao mesmo tempo em que adota uma dieta mais restritiva. Ambos
estressam o cérebro, que procura mais por comida pela necessidade de repor o que foi gasto
no exercício.
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"O cérebro já está estressado porque está querendo entender a diminuição de alimentos e
você aumenta a atividade física, geralmente sem comer uma quantidade equivalente, sendo
que as duas atividades aumentam o apetite -- o que pode levar a comer mais", explica.
Solução
O primeiro passo para emagrecer corretamente é entender a causa do ganho de peso, que
pode ser por alta ingestão calórica ou por problemas hormonais, estresse físico e psicológico
ou por uso de medicamentos. O ideal nestes casos é procurar um endocrinologista e depois
alinhar uma dieta com um nutricionista.
O segundo passo é "ensinar" o cérebro que basta um pedaço de chocolate, não a barra inteira,
para satisfazer a vontade. Como fazer isso? Diminuindo as porções de alimentos que contêm
gordura e açúcar -- os alimentos preferidos do cérebro por causarem sensações praticamente
instantâneas de bem-estar.
O terceiro passo, ensina Deram, é não deixar de comer carboidratos, mas diminuir as porções
encontradas principalmente em alimentos doces. Segundo a nutricionista, o brasileiro come
uma quantidade maior de alimentos açucarados (14% das calorias da dieta) do que o
recomendado pela OMS (Organização Mundial da Saúde), que é de menos de 10% das
calorias da dieta. Entre os adolescentes brasileiros, o consumo é ainda maior, 15% das
calorias ingeridas na dieta vêm dos doces.
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Quando a dieta é necessária
Para o endocrinologista Henrique Suplicy, presidente da Comissão de História da
Endocrinologia da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia, há casos específicos
nos quais a dieta é bem-vinda: pessoas com colesterol, triglicerídeos e glicose alta, além de
obesos, diabéticos ou quem têm problemas ortopédicos cuja indicação é perder peso.
Mas o ideal, diz ele, é que a dieta não seja encarada como um sacrifício, mas como um
prenúncio da já tão conhecida reeducação alimentar.
"Eu concordo que algumas dietas, principalmente as muito restritivas, têm vida muito curta. A
pessoa perde peso, depois a abandona, recupera tudo e não adianta nada. Mas se fizer uma
dieta visando à reeducação alimentar, a perda de peso e a mudança de hábitos... é outra
coisa", diz Suplicy.
O endocrinologista não vê uma relação direta entre as dietas e a compulsão alimentar, esta
uma consequência de um distúrbio psiquiátrico.
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"Se a pessoa já tem o problema, mesmo fazendo a dieta e chegando ao peso considerado
ideal, ela não para e continua a perder peso. Não acho que a dieta em si é um gatilho, porque
há muita gente que faz dieta e nem por isso fica anoréxica ou bulímica", diz.
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