Desenvolvimento da linguagem: uma proposta inatista

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DESENVOLVIMENTO DA LINGUAGEM:
UMA PROPOSTA INATISTA
Beatriz da Silva (UERJ/FFP)
[email protected]
Os estudiosos da área da lingüística que se atém ao
processo da aquisição da linguagem, denominados psicolingüística, sempre tiveram interesse de interpretar o processo
que habilita os seres humanos de se comunicarem através da
fala.
Muitas correntes ao longo do tempo se propuseram a
explicar este fenômeno, isto é, demonstrar como ocorre a comunicação entre as pessoas mediante ao uso da palavra.
Dentre as correntes psicológico-filosóficas que mantiveram atenção a este campo, o behaviorismo e o inatismo se
destacaram por suas descobertas e contribuições que revolucionaram os estudos que objetivavam explicar as manifestações lingüísticas ocorrentes nos primeiros anos de vida humana.
De acordo com os behavioristas ou ambientalistas que
até a metade do século XX dominaram as teorias de aprendizagem, a linguagem era o resultava do contato do indivíduo
com o meio (experiências) e mediante ao reforço, estímulo e
resposta, atribuindo ao organismo uma estrutura inata mínima, isto é, aprender a falar seria um processo fisiológico como aprender andar de bicicleta, a nadar etc. Entretanto, é sabido que no decorrer do desenvolvimento da fala, a criança
não adquire uma porção de conexões S–R, e, sim, um conjunto de regras complexas.
O lingüista Noam Chomsky, a partir de suas pesquisas,
deu um rumo diferente aos estudos sobre aquisição da linguagem. O inatismo chomyskiano, uma das teses mais aceitas atualmente para se compreender o desenvolvimento da linguagem, derrubou a corrente behaviorista, pois ao contrário desta, afirma que a linguagem não é resultado da convenção; e
sim uma característica da herança genética humana, ou seja,
parte da natureza, conforme na filosofia da Grécia antiga já
havia sido mencionado.
1. SÓCRATES – O conhecimento preexiste no espírito do
homem e a aprendizagem consiste no despertar desses conhecimentos inatos e adormecidos.
2. PLATÃO – [...] A alma está sujeita a metempsicose e
guarda a lembrança das idéias contempladas na encarnação anterior que, pela percepção, voltam à consciência.
Se a criança aprende a falar mediante a imitação da fala dos adultos, como ela é capaz de dominar um sistema lingüístico e pronunciar sentenças que nunca pronunciou ou ouviu antes?
Este tipo de pergunta encontrou respostas satisfatórias
a partir das hipóteses da teoria inatista.
Chomsky argumenta que a linguagem que a criança
ouve – os dados lingüísticos primários – não podem ser a base
para a sua competência lingüística, a criança precisa já estar
preparada de algum modo, todavia, a linguagem da criança
não pode ser apenas resultado da imitação dos adultos, então,
a corrente inatista defende que as crianças possuem suas próprias regras de fala e que estas vão sendo aprimoradas por
meio da convivência com os adultos.
A GRAMÁTICA GERATIVO-TRANSFORMACIONAL
O inatismo defende que a criança já nasce com uma
gramática internalizada e a partir do convívio com a fala dos
adultos ela vai moldando a sua.
[...] dizemos que a criança “aprende uma língua”, e não que
a linguagem se desenvolve ou amadurece. Mas nunca dizemos
que o embrião ou a criança aprende a ter braços em vez de asas,
ou um aparelho visual determinado, ou órgãos sexuais maduros
- este último exemplo representa um desenvolvimento que consideramos ser geneticamente determinado no que tem de essencial, muito embora só ocorra bem depois do nascimento.
(Chomsky. 1981: 177).
Ao se comparar frases pronunciadas por crianças com
as de adultos podemos perceber que aquelas produzem termos
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que nunca antes foram ouvidos como, por exemplo, “fazi” no
lugar de fiz. A criança não chegou a este termo através da repetição, porém de uma adaptação dos verbos da 2ª conjugação
que ela incorporou em sua gramática, isto é, de construções
do tipo “Eu corri”, “Eu comi”, “Eu perdi”. De acordo com esta hipótese, a criança possui as suas próprias regras de fala
que vão sendo aperfeiçoadas a partir do contato com a linguagem adulta. Desta forma, esta teoria se opõe a hipótese de que
a aquisição e o desenvolvimento da linguagem infantil seja
mera imitação.
Segundo a visão inatista da linguagem, criança detém
uma certa gramaticalidade da sua língua materna, é isso que a
faz ser capaz de gerar sentenças de acordo com as regras vigentes da sua língua, mesmo que jamais tenham sido ouvidas
daquela maneira, desenvolvendo assim uma característica que
sempre esteve presente em sua mente, ou seja, o processo da
gramática gerativa transformacional.
“[...] as crianças produzem muitas frases que jamais
poderiam ter ouvido adultos produzirem” (Kaufman, 1996, p.
58),
Segundo Chomsky a aquisição da língua materna acontece da seguinte forma:
Parece evidente que a aquisição da linguagem se baseia na
descoberta pela criança daquilo que, de um ponto de vista formal, constitui uma teoria profunda e abstrata – uma gramática
gerativa de sua língua – da qual muitos dos conceitos e princípios se encontram apenas remotamente relacionados com a experiência através de cadeias longas e complexas de etapas inconscientes e de natureza quase dedutiva. (Chomsky, 1975, p.
141)
No que diz respeito à Gramática Gerativa, Chomsky
distinguiu três componentes:
1. o sintático, com função geradora;
2. o fonológico, a imagem acústica da estrutura elaborada pelo componente sintático;
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3. o semântico, que interpreta essa imagem, o que se
opõe à gramática estruturalista dos distribucionalistas, que tinha como base a análise dos constituintes imediatos.
O termo “Gramática Gerativo-Tranformacional” pode
ser explicado a partir desses conceitos.
Chomsky usa o termo competência para designar o conhecimento que o falante tem da sua língua, e o termo desempenho para designar uso que o falante faz desse conhecimento.
GRAMÁTICA UNIVERSAL
O inatismo defende a existência da mente e acredita
que para se explicar e entender como se é dado processo de
aquisição da linguagem é necessário ir além dos mecanismos
fisiológicos.
É proposto, então, que já nascemos com uma Gramática universal inserida na mente, dotada de todas as regras necessárias de todas as línguas e que, a partir de operações mentais, as crianças transformam a Gramática universal em gramática da língua materna.
Chomsky (1981) propôs que a criança possui um dispositivo de aquisição da linguagem inato (DAL) que é acionado, trabalhando a partir de sentenças (imput), resultando na
gramática da língua a qual a criança está exposta. Este dispositivo é formado por uma série de regras, contudo, a criança
irá selecionar as regras que fazem parte da sua língua nativa.
Para facilitar a compreensão deste processo, Chomsky
nos propõe a metáfora da fechadura, explicando que toda criança nasce com uma fechadura pronta para receber uma chave. Cada chave é responsável por desencadear a aquisição de
uma língua distinta, mostrando, desta forma, que toda criança
nasce com a mesma capacidade, estando apta a desenvolver
qualquer língua.
Consoante a Chomsky:
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A criança que é exposta normalmente a uma fala precária,
fragmentada, cheia de frases truncadas ou incompletas, é capaz
de dominar um conjunto complexo de regras ou princípios básicos que constituem a gramática internalizada do falante. (...).
Um mecanismo ou dispositivo inato de aquisição da linguagem
(...), que elabore hipóteses lingüísticas sobre dados lingüísticos
primários (isto é, a língua a que a criança está exposta), gera
uma gramática específica, que é a gramática da língua nativa da
criança, de maneira relativamente fácil e com certo grau de instantaneidade. Isto é, esse mecanismo inato faz “desabrochar “ o
que “já está lá”, através da projeção, nos dados do ambiente, de
um conhecimento lingüístico prévio, sintático por natureza.
TEORIA DOS PRINCÍPIOS E PARÂMETROS
A Teoria dos Princípios e Parâmetros pressupõe que é
por meio da língua a qual a criança está exposta na comunidade lingüística, isto é, dos parâmetros que serão selecionados
e ativados por ela que ocasionará a variação e origem das diferenças entre as línguas e as mudanças numa mesma.
Essa teoria muda a concepção de Gramática universal,
também defendida por Chomsky, pois esta é formada de princípios invariantes, que podem ser aplicado de igual forma em
qualquer língua.
A forma a qual ocorre à atribuição dos valores aos parâmetros possui três diferentes propostas:
· Hipótese maturacional – os parâmetros estão programados geneticamente e no decorrer da aquisição da linguagem tornam-se disponíveis.
· Hipótese da competência total – a criança possui todos os princípios da Gramática universal desde o início e para
a fixação dos parâmetros é necessária uma exposição mínima
aos dados lingüísticos primários.
· Hipótese lexical – embora os princípios estejam todos disponíveis, o desenvolvimento sintático depende da aprendizagem de novos itens lexicais e morfológicos.
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Segundo Chomsky, as diferenças entre as línguas existentes não são grandes do ponto de vista gramatical e sintático, o que ajuda a compreender e a explicar a Gramática universal.
BIBLIOGRAFIA
CAMPOS, D. M. de S. Psicologia da aprendizagem. 34ª ed.
Petrópolis: Vozes, 2005
CHOMSKY, Noam. Reflexões sobre a linguagem. Lisboa:
Edições 70, 1977.
––––––. Regras e representações, Rio de Janeiro: Zahar,
1981.
KAUFMAN, Diana. A natureza da linguagem e sua aquisição. In: GEBER, Adele. Problemas de aprendizagem relacionados à linguagem: sua natureza e tratamento. Tradução
de Sandra Costa. Porto Alegre: Artes Médicas, 1996.
SANTOS, Raquel. A aquisição da linguagem. FIORIN, José
Luiz. (Org.). Introdução à lingüística: I objetos teóricos. São
Paulo: Contexto, 2002.
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