PARTE I As Estruturas Básicas CAPÍTULO 1 Perspectiva Histórica Breve história das neurociências 18 Pesquisas modernas Uma das mudanças de paradigma mais notáveis 22 ambiente para estabelecer nossa personalidade. Bouchard e outros estudaram essa ocorrência de forma eloquente ao observar características de personalidade em gêmeos monozigóticos (idênticos) e dizigóticos (fraternos) que foram criados juntos ou separados. Eles usaram testes para avaliar a personalidade sob cinco características maiores e encontraram mais correlações para os gêmeos monozigóticos, em comparação com os dizigóticos, independentemente do fato de terem sido criados juntos ou separados (ver Tab. 1.1). Em outras palavras, monozigóticos criados separadamente compartilhavam mais características que ocorreram durante nossas vidas foi o reconhecimento de que a maior parte de nosso comportamento é herdada. Excentricidade, compaixão, extroversão, irritabilidade, e assim por diante: características como essas passam de geração a geração. E, como todos sabemos, herança equivale a biologia. A Figura 1.1 mostra a relação entre genes compartilhados e a probabilidade de desenvolvimento de esquizofrenia caso um parente tenha essa doença. Talvez o mais impressionante seja o poder que a herança genética tem de interagir com o Genes compartilhados População em geral 1% 17,5% (parentes de terceiro grau) Primos-irmãos 2% Tios 2% 25% (parentes de segundo grau) Sobrinhos 50% (parentes de primeiro grau) Netos 5% Meio-irmãos 6% Pais 6% Irmãos Filhos Gêmeos fraternos 100% 4% Gêmeos idênticos 9% 13% 17% 48% 0 10 20 40 30 50 Risco de desenvolver esquizofrenia ao longo da vida (% Figura 1.1 Com o aumento do perfil genético compartilhado com esquizofrênicos, aumenta também o risco de desenvolver esquizofrenia. (Adaptada de Gottesman II. Schizophrenia genesis. New York: WH Freeman; 1991.) 18 Edmund S. Higgins e Mark S. George TABELA 1.1 As correlações entre cinco traços de personalidade em gêmeos monozigóticos criados separadamente ou juntos, e de gêmeos dizigóticos criados separadamente ou juntos Traço de personalidade Extroversão Neuroticidade Conscienciosidade Amabilidade Abertura a experiências Média Monozigóticos separados Monozigóticos juntos Dizigóticos separados Dizigóticos juntos 0,41 0,49 0,54 0,24 0,57 0,45 0,54 0,48 0,54 0,39 0,43 0,48 0 0,44 0,07 0,09 0,09 0,17 0,19 0,19 0,29 0,11 0,11 0,18 As correlações médias são surpreendentemente semelhantes à de risco de desenvolver esquizofrenia ao longo da vida para gêmeos idênticos (monozigóticos) e fraternos (dizigóticos) mostrada na Figura 1.1. de personalidade do que dizigóticos criados no mesmo ambiente doméstico. Sua conclusão geral foi de que esses traços de personalidade são fortemente influenciados pela herança e apenas moderadamente afetados pelo ambiente. (A imprensa leiga infelizmente resumiu tal pesquisa como “Os pais não têm importância”.) A Figura 1.2 mostra um exemplo incrível de gêmeos idênticos separados quando tinham 5 dias, criados em ambientes domésticos diferentes – um no Brooklyn e o outro em New Jersey – que se encontraram pela primeira vez aos 31 anos. Ambos são bombeiros, solteiros, usam bigode e óculos com armação de metal. Eles não apenas apresentam os mesmos cacoetes, como também acham graça das mesmas piadas e apreciam os mesmos passatempos, apesar de terem sido expostos a influências ambientais completamente diferentes ao longo da vida. Figura 1.2 Gerald Levy (esquerda) e Mark Newman são gêmeos idênticos que foram separados ao nascer, mesmo assim fizeram muitas opções de vida iguais. (De The Image Works, Woodstock, New York.) Nossa individualidade – quem somos, como nos relacionamos, do que gostamos, e mesmo nossa crença religiosa – pode ser influenciada mais pelo cérebro com o qual nascemos e seu desenvolvimento predeterminado do que pelas experiências pelas quais passamos na vida. Não estamos excluindo a importância do ambiente na construção de nosso caráter, especialmente a influência negativa do trauma. Isso quer dizer apenas que nossos cérebros são mais programados do que acreditávamos. A humanidade nem sempre se interessou pelo cérebro. A maioria das culturas da Antiguidade não o considerava um órgão importante. Tanto a Bíblia quanto o Talmude não mencionam doenças relacionadas a ele. Os egípcios embalsamavam cuidadosamente o fígado e o coração, mas não o cérebro; eles o retiravam e jogavam fora. (Se há realmente uma vida após a morte como na concepção egípcia, todos aqueles pobres faraós estão passando a eternidade sem cérebro.) Mas, em primeiro lugar, como se deu essa mudança de atitude de ignorar o cérebro para o ponto onde nos encontramos hoje? BREVE HISTÓRIA DAS NEUROCIÊNCIAS Thomas Willis – que empresta seu nome para o círculo de Willis na base do cérebro – foi o primeiro neurologista. No século XVII, ele iniciou a nossa denominada Era Neurocêntrica. Antes de Willis – e, na verdade, durante um período considerável depois dele –, os médicos baseavam sua compreensão de doença nos escritos dos grandes médicos da Antiguidade. Willis tomou um caminho incomum ao descrever o comportamento do paciente, e então examinar o cérebro após a morte e fazer correlações. Neurociências para Psiquiatria Clínica Ele foi o primeiro a cunhar termos como lobo, hemisfério e corpo estriado – que ainda usamos. Ao comparar a anatomia do sistema nervoso central (SNC) de humanos e animais e conduzir dissecação post-mortem de casos interessantes, ele chegou a conclusões surpreendentemente precisas sobre as funções superiores do cérebro, em oposição às funções inferiores. Por exemplo, deduziu que funções humanas como a memória provavelmente se localizavam nas “margens mais externas” (matéria cinzenta) dos hemisférios cerebrais, porque essas áreas eram menores em animais e estavam danificadas em indivíduos com traumatismos cranianos graves que haviam perdido a memória. Ele acreditava que o tronco encefálico provavelmente controlava funções básicas, como a respiração e a frequência cardíaca. No entanto, também pensava que a matéria branca era onde se localizava a imaginação – ele não acertou o alvo por completo, mas deu início ao processo de fazer a correspondência entre estruturas cerebrais e comportamentos. No início do século XVIII, o funcionamento dos nervos ainda não estava claro. Luigi Galvani, um médico italiano (imortalizado pelo termo resposta galvânica da pele), mostrou, por meio de experimentações sistemáticas, que um músculo de rã sofria espasmos quando estimulado com eletricidade. A experiência demonstrou que a substância que fluía nos nervos não era ar, nem líquido, nem espíritos, e sim eletricidade. Galvani propôs que o cérebro secreta eletricidade, a qual seria distribuída aos músculos através dos nervos. Também acreditava que a eletricidade não vazava para os tecidos vizinhos porque os nervos seriam cobertos com um isolamento graxo, o qual atualmente sabemos ser a mielina. Nem tudo que postulou estava correto, mas ele deu o grande passo no reconhecimento de que os mamíferos apresentam atividade elétrica intrínseca que coordena o movimento. Antes da década de 1860, o cérebro era encarado como um órgão único de função múltipla, muito semelhante à forma como encaramos o fígado ou o pâncreas atualmente. O médico francês Paul Broca confirmou pela primeira vez com seu famoso caso, em 1861, que determinadas funções são restritas a regiões específicas do cérebro (ver Fig. 1.3). O paciente desse caso exibia perda da fala articulada, embora mantivesse destreza oral, e conseguia ouvir e compreender. A única coisa que ele conseguia falar era uma sílaba: “tan”. Sua fala podia apresentar tons emocionais fortes, mas a sílaba nunca variava. Após sua morte, a autópsia revelou uma lesão no lobo frontal esquerdo – que se chama atualmente de afasia de Broca. O fato de Sulco central Figura 1.3 O cérebro preservado do paciente que ajudou Broca a convencer médicos de que algumas funções – nesse caso, a capacidade de falar – estavam localizadas no cérebro. (Adaptada de Bear MF, Connors BW, Paradiso MA, eds. Neuroscience: Exploring the Brain, 3rd ed. Baltimore: Lippincott Williams & Wilkins; 2007.) que todos os casos semelhantes ocorriam no hemisfério esquerdo e que lesões semelhantes no hemisfério direito não afetavam a fala também levou o neurologista a identificar a dominância cerebral sobre determinadas funções. O escocês David Ferrier e o alemão Eduard Hitzig identificaram, independentemente, as áreas corticais especializadas que controlam a função motora. Usando as técnicas de estímulo e ablação em cobaias, eles localizaram e mapearam o que atualmente chamamos de córtex motor. Essa nova compreensão do cérebro forneceu os primeiros exemplos de tratamento neurocirúrgico prático aplicado com base nos sintomas motores do paciente. Há um relato de caso de 1879 de uma adolescente com convulsões no lado direito da face e no braço direito que apresentava um meningioma esquerdo que foi diagnosticado com precisão e removido. Com o advento de técnicas antissépticas e anestesia eficaz, os cirurgiões passaram a localizar e remover tumores com sucesso usando o mapa de Ferrier do córtex motor. Vale a pena ressaltar que ambos especularam sobre funções superiores do cérebro e os lobos na frente do córtex motor – o córtex pré-frontal. Ferrier percebeu problemas de atenção em macacos cujo lobo frontal estava danificado. Experiências com cães levaram Hitzig a acreditar que o córtex frontal desempenhava um papel importante no pensamento abstrato. A descoberta de neurônios individuais foi um passo essencial no desenvolvimento das neurociên- 19 20 Edmund S. Higgins e Mark S. George cias. Para ser possível observar as células nervosas, foi necessário solidificar o cérebro (que pode apresentar consistência gelatinosa) e cortar fatias finas; além disso, eram necessários microscópios mais potentes. Um médico italiano, Camillo Golgi, descobriu um método de coloração seletivo por prata que possibilitou aos pesquisadores visualizar as células nervosas individuais no que antes era um borrão de cor indistinto. Pela primeira vez, eles puderam ver imagens pretas nítidas das células nervosas e identificar partes específicas, como o corpo da célula e os ramos dendríticos (ver Fig. 1.4). Batizada de método de Golgi, essa técnica é usada até hoje. Santiago Ramón Cajal, um médico espanhol, usou o método de Golgi e um microscópio óptico Zeiss e, após 25 anos de observação persistente, tornou-se talvez o primeiro neurocientista moderno. Ele propôs que as células nervosas individuais são a unidade singular do cérebro – um conceito novo naquela época, que desde então é chamado de doutrina neuronal. Ao rastrear neurônios a partir de órgãos sensoriais, como o olho até o córtex, e do córtex motor aos músculos, ele concluiu que os dendritos são receptores, o corpo da célula é executor e o axônio transmite as informações a longa distância. Cajal foi além e mostrou que os impulsos nervosos fluem em apenas uma direção – o que ele chamou de lei da polarização dinâmica. A Figura 1.5 é um de seus desenhos, com pequenas setas mostrando a direção dos impulsos entre dois neurônios que se comunicam. Cajal também observou e desenhou meticulosamente o desenvolvimento Figura 1.4 Células nervosas piramidais individuais podem ser identificadas após a incubação com o método de coloração de Golgi. (Adaptada de Bear MF, Connors BW, Paradiso MA, eds. Neuroscience: Exploring the Brain, 3rd ed. Baltimore: Lippincott Williams & Wilkins; 2007.) A a B Figura 1.5 Desenho realizado por Cajal que mostra a natureza unidirecional de impulsos na comunicação entre os neurônios A e B. (De Ramon y Cajal S. Recollections on my life. Transactions of the American Philosophical Society, Vol. 8, Part 2. Philadelphia: The American Philosophical Society; 1937.) embriônico dessas células. Ele foi o primeiro a documentar o crescimento de um axônio que, por fim, ramifica-se com dendritos e axônios secundários colaterais. Em 1894, afirmou, em uma palestra à Royal Society of London, que “a capacidade que os neurônios têm de crescer em um adulto e seu poder de criar novas conexões podem explicar o aprendizado”. Essa afirmação costuma ser citada como sendo a origem da teoria sináptica da memória.Tanto Golgi quanto Cajal receberam o Prêmio Nobel de Fisiologia e Medicina em 1906. Charles Sherrington, um neurofisiologista inglês, realizou estudos sistemáticos sobre os nervos animais. Com enfoque principal sobre os nervos espinais e periféricos, ampliou a compreensão dos dermátomos sensoriais e dos reflexos. Ele é mais conhecido por ter cunhado o termo sinapse. Embora nunca tenha realmente observado uma sinapse – o que somente ocorreria após a invenção do microscópio eletrônico –, Sherrington formulou a teoria de que existia um ponto físico de união entre os nervos para a transmissão de um impulso. Outro neurofisiologista inglês (que dividiu o Prêmio Nobel de 1932 com Sherrington), Edgar Adrian, é mais conhecido por reconhecer a pro- Neurociências para Psiquiatria Clínica priedade de “tudo ou nada” dos potenciais de ação. Em relação a comportamento e cérebro, suas principais descobertas envolveram a habituação e o córtex sensorial. Adrian descobriu que o estímulo a uma célula nervosa é seguido de uma explosão de potenciais de ação conduzidos pelo axônio. No entanto, a quantidade deles diminui ao longo do tempo, mesmo quando o estímulo permanece inalterado. Isso situa no neurônio a base para um conhecido tratamento para ansiedade: a terapia de exposição. No início do século XX, não se sabia como os neurônios se comunicam, ou como um neurônio consegue fazer com que um músculo se contraia. Alguns acreditavam que a comunicação era elétrica – como se uma faísca pulasse de uma célula para a outra. Outros acreditavam que um processo químico transmitia o sinal. Ninguém conseguia provar nenhum dos dois sistemas. Henry Dale e Otto Loewi, um inglês e um alemão, dividiram o Prêmio Nobel em 1936 pelo trabalho que estabeleceu a transmissão química dos impulsos nervosos. Dale trabalhou com o sistema nervoso autônomo e determinou que um composto similar à epinefrina apresentava efeitos ativadores sobre o sistema nervoso simpático, e que a acetilcolina podia ativar tanto o sistema nervoso parassimpático quanto os músculos esqueléticos. Infelizmente, não conseguiu demonstrar que a epinefrina (ou, na realidade, a norepinefrina) e a acetilcolina eram excretadas pelos neurônios para obter tais efeitos. Foi Otto Loewi, em 1921, quem realizou o experimento pequeno e aprimorado que comprovou a transmissão neuroquímica dos impulsos nervosos. Diz a lenda que Loewi sonhou com o experimento e, ao acordar cedo na manhã seguinte, correu para o laboratório e o testou. Seu experimento genial (ver Fig. 1.6) demonstrou que o estímulo do nervo vago diminuiu o batimento de um coração de rã submerso na solução de Ringer. Então transferiu um pouco da solução para outro coração de rã isolado e, sem estímulo elétrico, seu ritmo também diminuiu – como se o nervo vago tivesse sido estimulado. Ele concluiu que uma substância química havia sido excretada a partir das sinapses do primeiro coração quando o nervo vago foi estimulado. Essa substância então fluiu para o recipiente que abrigava o segundo órgão e induziu bradicardia. Em 1939, Hodgkin e Huxley publicaram o primeiro registro intracelular de um potencial de ação (ver Fig. 1.7). Até então, ninguém havia medido diretamente a carga elétrica em um axônio durante a passagem de um potencial de ação. Estimulador Nervo vago 1 2 Frequência cardíaca 1 Nervo estimulado Frequência cardíaca 2 Figura 1.6 O famoso experimento de Otto Loewi determina que um elemento químico do nervo vago de um coração pode induzir bradicardia em um segundo coração, este sem estímulo. Hodgkin e Huxley conseguiram esse feito ao inserir microeletrodos nos axônios gigantes de lulas. Uma das conquistas mais impressionantes de um neurônio em desenvolvimento é a capacidade de fazer com precisão a conexão correta entre o cérebro e o neurônio motor – que, no caso de uma baleia, pode ter 18 metros. Robert Sperry, na década de 1940, utilizou a capacidade dos anfíbios de regenerar axônios e comprovou que as conexões têm determinação precisa. Ele cortou o nervo óptico de uma salamandra e girou o olho 180 graus. Com o olho de volta na órbita, os axônios se regeneraram, seguindo um caminho tortuoso até o local original no centro de visão do cérebro do anfíbio. Contudo, como o olho estava de cabe- Figura 1.7 Registro intracelular de um potencial de ação publicado pela primeira vez. (De Hodgkin AL, Huxley AF. Action potentials recorded from inside a nerve fibre. Nature. 1939; 144: 710-711.) 21 22 Edmund S. Higgins e Mark S. George ça para baixo, a pobre salamandra ficou com uma noção cruzada de “cima” e “baixo” – por exemplo, ela levantava a cabeça para abocanhar um inseto no chão. Sperry especulou que, ao crescerem, os nervos reconheciam seu local apropriado por meio de um mecanismo de orientação química, embora ele não tenha encontrado um mensageiro específico. Foi o trabalho de vários outros cientistas desde então que identificou a grande quantidade de moléculas que atraem, inibem e repelem o neurônio durante seu crescimento. Sperry é mais conhecido nos círculos da psicologia por seu trabalho com indivíduos de “cérebro dividido”. O corpo caloso de alguns pacientes com convulsões incuráveis foi seccionado para impedir que as convulsões se espalhassem de um lado do cérebro para o outro (ver Fig. 1.8). A intervenção costumava produzir melhoramentos notáveis sem parecer afetar a personalidade nem o funcionamento intelectual do indivíduo. Sperry, por meio de experimentos meticulosos, conseguiu demonstrar que os hemisférios esquerdo e direito não compartilhavam mais informações nessas pessoas. Outros experimentos o levaram a determinar que o hemisfério esquerdo expressa habilidades linguísticas e matemáticas superiores, enquanto o direito apresenta habilidades espaciais melhores. A descoberta de fatores trópicos que promovem o desenvolvimento e a sobrevivência de células nervosas foi o resultado do reconhecimento da importância de uma descoberta acidental de Rita Levi-Motalcini e colaboradores. Eles descobriram que nervos sensoriais apresentavam crescimento exagerado quando cultivados junto a um sarcoma específico de camundongos. Com algum esforço, eles isolaram a proteína que chamaram de fator de A Corpo caloso Lobo parietal Lobo temporal Figura 1.8 O corpo caloso contém milhões de axônios que vão de um hemisfério ao outro. Sperry determinou que a secção cirúrgica de tal estrutura interrompe a passagem de informação de um hemisfério para o outro. crescimento dos nervos (NGF). A Figura 1.9 mostra o profundo impacto que o NGF tem sobre o crescimento dos neurônios sensoriais humanos. Desde essa descoberta histórica, muitos outros fatores de crescimento foram isolados. Alguns desempenham papel fundamental no desenvolvimento de doenças psiquiátricas e serão discutidos mais adiante. PESQUISAS MODERNAS Geração de imagens Pesquisadores como Willis e Broca precisavam esperar que o paciente morresse antes que pudessem examinar seu cérebro. Esses cientistas estudavam indivíduos com cérebros danificados usando o que B Figura 1.9 Os nervos sensoriais em (A) mostram crescimento consistente ao serem expostos ao fator de crescimento dos nervos. (De Levi-Montalcini R. The nerve growth factor. Ann NY Acad Sci. 1964; 118:149-170.) Neurociências para Psiquiatria Clínica PONTO DE INTERESSE A figura mostra um método de uso dos estudos de geração de imagens que costuma ser encontrado na literatura. Trata-se de subtrair um estudo funcional de outro e sobrepor o resultado a uma imagem estrutural. Neste caso, o sujeito realiza uma tarefa de oposição de dedos com seus dedos direitos durante exame com um scanner SPECT (A). A seta branca D mostra a ativação do córtex motor esquerdo. (B) Uma varredura de SPECT no estado de controle também é produzida. (C) A imagem de controle é retirada da de tarefa. (D) Os resultados são sobrepostos a uma IRM do mesmo local e acrescentam-se desenhos do homunculus humano ao longo do córtex motor para uma compreensão mais aprofundada. E A Tarefa de oposição B Controle C Tarefa sem o controle D Sobreposição em IRM de dedos Estudo de subtração de geração de imagens funcionais sobreposto a imagem estrutural alguns optaram por chamar de método de lesão. Embora essa continue sendo uma ferramenta importante para o neurocientista moderno (atualmente, existem grandes “bancos de cérebros” que preservam esse órgão de pacientes com doenças semelhantes), a análise não invasiva do SNC transformou o modo como estudamos o comportamento e os transtornos mentais. As primeiras tentativas de gerar imagens do cérebro foram inúteis, dolorosas e até mesmo perigosas. Um raio X comum fornece poucas informações porque o cérebro é composto de tecido mole e não é radiopaco. A procura por deslocamento de estruturas calcificadas pode fornecer evidências indiretas de massa. A pneumoencefalografia, na qual o líquido cerebrospinal (LCS) é removido e substituído por ar para melhorar a visualização do SNC, é um exemplo dos extremos dolorosos e arriscados que eram impostos aos indivíduos antigamente. O desenvolvimento de técnicas de geração de imagens não invasivas (ver Tab. 1.2) levou a outra pequena revolução em neurociências. Embora os estudos funcionais (tomografia por emissão de pósitrons [PET], tomografi a computadorizada por emissão de fóton único [SPECT] e geração de imagem por ressonância magnética funcional [IRMf]) continuem praticamente limitados a pesquisas, as análises estruturais não invasivas (tomografi a computadorizada [TC] e geração de imagens por ressonância magnética [IRM]) transformaram a prática da neurologia. Estudos com animais A segunda técnica mais importante para a compreensão do funcionamento do cérebro são os estudos com animais. Alguns clínicos são injustos quando desprezam a importância de “estudos com ratos”. Obviamente, os animais não possuem um córtex cerebral tão desenvolvido quanto o de humanos, e jamais poderemos ter certeza se eles de fato apresentam sintomas psiquiátricos. No entanto, proporcionam análises sofisticadas que estão fora do âmbito das pesquisas com humanos. Além dos métodos conhecidos, como o estímulo através de microeletrodos e da ablação, os quais serão mencionados no decorrer desta obra, há diversas novas técnicas que parecem inacreditáveis e merecem explicação. Microdiálise A especulação de que os medicamentos psiquiátricos intensificam os neurotransmissores na sinapse é difícil de ser comprovada. A microdiálise envolve uma pequena micropipeta implantada de forma permanente, a qual permite a extração contínua da neuroquímica presente em locais específicos do SNC em animais ativos. Essa técnica foi usada para demonstrar que a cocaína aumenta a excursão de dopamina no nucleus accumbens (ver Cap. 9, Prazer). 23 24 Edmund S. Higgins e Mark S. George TABELA 1.2 Um breve histórico dos métodos de geração de imagens usados para analisar o sistema nervoso central Data Sigla Nome Método Detalhes 1918 1927 raio X raio X Pneumoencefalografia Angiografia cerebral Anos 1970 TC Tomografia computadorizada Substituição de LCS por ar Injeção de contraste na circulação Ionização de radiação PET Tomografia por emissão de pósitrons SPECT Tomografia computadorizada por emissão de fóton único Geração de imagens por ressonância magnética Geração de imagens por ressonância magnética funcional Doloroso e perigoso Permite visualizar a vasculatura cerebral Mudou a forma como exercemos a medicina Mede a atividade cerebral por meio da análise do fluxo sanguíneo Maior disponibilidade do que a PET e resolução menor Sem radiação; não invasiva; alta resolução Permitiu explorações amplas da localização cerebral de funções Anos 1980 IRM IRMf Decomposição de radionuclídeos emissores de pósitrons Emissão de fóton único Alterações magnéticas induzidas em moléculas Medição das alterações no oxigênio do sangue usado por regiões cerebrais LCS, líquido cerebrospinal Marcadores da ativação gênica A transmissão neuroquímica entre dois neurônios, em algumas situações, pode ocasionar efeitos mais duradouros do que apenas a despolarização da membrana. A transmissão do sinal tem, como última consequência, a ativação do DNA, ou o que se costuma chamar de expressão gênica. Pesquisadores conseguem medir o mRNA ou as proteínas que são o resultado dessa “expressão gênica” como forma de determinar onde um neurotransmissor específico opera. A proteína de ligação ao elemento de resposta à adenosina monofosfato cíclica (CREB) e as proteínas da família Fos são dois fatores de transcrição que costumam ser usados como marcadores de expressão gênica. Identificar as proteínas CREB ou FOS em uma fatia de cérebro post-mortem ajuda a localizar as áreas no órgão que estavam ativas durante a manipulação experimental. Camundongos knockout Animais (geralmente camundongos) podem ser criados para estabelecer uma população que não apresenta um receptor específico – ou que o apresenta em quantidades acentuadamente reduzidas. Pode-se analisar esses animais com a finalidade de encontrar determinados tipos de comportamento ou de observar como eles reagem a intervenções estabelecidas. Por exemplo, camundongos que foram criados com deficiência do receptor 1 de hormônios liberadores de corticotropina (Crhr-1) apresentaram redução dos comportamentos relacionados à ansiedade, o que sugere componentes neuroendócrinos no medo e na ansiedade (ver Cap. 19, Ansiedade). Contudo, há limites para as suposições que podemos fazer sobre cérebro e comportamento a partir de camundongos knockout. Jamais teremos conhecimento sobre a extensão da profundidade dos efeitos da ausência do receptor no desenvolvimento normal. Da mesma forma, não sabemos quais efeitos involuntários podem ocorrer devido a essa ausência. Microsséries de DNA – também chamadas de chips de DNA Microsséries de DNA permitem que pesquisadores comparem o mRNA (e, por consequência, a atividade gênica) de amostras de tecido com DNA de atividade conhecida. A microssérie é um chip, menor que um selo postal, com milhares de moléculas diferentes de DNA, multiplicadas, segregadas e agrupadas em diferentes áreas minúsculas (ver Fig. 1.10). Uma vez que o mRNA do tecido tenha sido estudado, ele é transcrito para o DNA, rotulado com marcadores fluorescentes e despejado sobre o chip de microsséries. O DNA de cadeia única da amostra de tecido liga-se ao DNA de cadeia única semelhante na microssérie. Então, o chip é lido em um scanner que calcula a quantidade de ligações Neurociências para Psiquiatria Clínica DNA de cadeia única Chip de microsséries Quadrado com cópias de DNA de cadeia única Figura 1.10 O chip de microsséries contém múltiplas cópias de diversos genes diferentes, de forma que um amplo espectro de atividade gênica pode ser analisado rapidamente em um scanner. entre o DNA do tecido e o chip de DNA em cada quadrado, fornecendo uma estimativa da atividade gênica específica no tecido. Como exemplo, esse procedimento foi realizado com pequenas amostras do córtex pré-frontal de cérebros de esquizofrênicos e controles post-mortem. Notavelmente, os cérebros de pessoas com transtorno apresentavam expressão reduzida de genes relacionados com a mielinização, sugerindo que uma perturbação na mielina é parte da patogênese de esquizofrenia (ver Cap. 20, Esquizofrenia). Transferência gênica mediada por vírus Pesquisadores podem usar vírus para introduzir uma sequência de DNA nos neurônios em locais específicos no cérebro de animais de laboratório. Por exemplo, ao usar um vírus para implantar o DNA de receptor de vasopressina no pálido ventral de ratos silvestres (Cricetidae arvicolinae) promíscuos, pesquisadores conseguiram criar ratos silvestres monogâmicos (ver Cap. 14,Vinculacão social). O experimento controlado Perceber que o cérebro é resistente a mudanças é desanimador. Ainda mais desanimador é ler como clínicos excêntricos, pais, professores e outros intrometidos explicam a eficácia de suas intervenções não comprovadas para reduzir sintomas ou melhorar o comportamento. “Sabe-se” que açúcar e hiperatividade apresentam uma relação de causa e efeito que, infelizmente, ainda não se materializou em experimentos controlados. Temos a tendência de conceitualizar a patogênese de transtornos psiquiátricos como sendo a ausência do que estamos substituindo com nosso tratamento (neurotransmissores, superego, experiência emocional corretora, etc.). É importante provar que essas intervenções realmente funcionam. Talvez a maior ferramenta de pesquisa em saúde ainda seja o experimento controlado. Com esse método, podemos determinar, com certa segurança, a eficiência das intervenções, o que então nos proporciona vislumbrar o funcionamento do cérebro. PERGUNTAS Parte 1: Combine os eventos na coluna esquerda com os nomes na coluna direita. 1. Iniciou a Era Neurocêntrica. A. Edgar Adrian 2. Postulou que o cérebro apresenta atividade B. Paul Broca elétrica intrínseca. 3. Observou a localização de função. C. Santiago Ramón Cajal 4. O córtex motor. D. David Ferrier 5. Criou o método de coloração por prata. E. Luigi Galvani 6. Postulou que células nervosas individuais são a F. Camillo Golgi unidade singular do SNC. 7. Cunhou o termo sinapse. G. Hodgkin e Huxley 8. Reconheceu o “tudo ou nada”. H. Otto Loewi 9. Demonstrou a transmissão neuroquímica de I. Rita Levi-Montalcini impulsos nervosos. 10. Mediu o primeiro potencial de ação. J. Charles Sherrington 25 26 Edmund S. Higgins e Mark S. George 11. Descobriu a orientação química da regeneração de nervos. 12. Isolou o fator de crescimento do nervo. Parte 2: Combine as colunas. 13. Implante de micropipeta 14. Ativação de DNA 15. Ausência de receptores 16. DNA de cadeia única 17. Implantação de aspectos específicos K. Robert Sperry L. Thomas Willis M. N. O. P. Q. Microsséries de DNA Expressão gênica Camundongos knockout Microdiálise Transferência gênica mediada por vírus Ver seção Respostas no final do livro.