NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO:Index.

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NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO:Index.
NOTAS DE FILOSOFIA E
HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO
Índice Geral
■
■
■
■
PRIMEIRA INTRODUÇÃO. POR QUE
ESTUDAR FILOSOFIAE HISTÓRIA DA
EDUCAÇÃO?
SEGUNDA INTRODUÇÃO.SITUAÇÃO
HISTÓRICA DOMUNDO ANTIGO.
O INÍCIO DA FILOSOFIANA GRÉCIA.
A CONTEMPLAÇÃO DA NATUREZANOS
PRIMEIROS PRÉSOCRÁTICOS.
■
PITÁGORAS.
■
PARMÊNIDES. PRIMEIRA PARTE.
■
PARMÊNIDES. SEGUNDA PARTE.
■
FILOSOFIA E EDUCAÇÃO EM ATENAS NO
ANO 450 AC.
■
ZENÃO x SÓCRATES.
■
OS SOFISTAS.
■
SÓCRATES.
■
PLATÃO.
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Provvisori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/0-FHISE.htm (1 of 2)2006-06-02 14:46:41
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO:Index.
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Provvisori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/0-FHISE.htm (2 of 2)2006-06-02 14:46:41
FHISE: PRIMEIRA INTRODUÇÃO. POR QUE ESTUDAR FILOSOFIAE HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO?, Index.
PRIMEIRA INTRODUÇÃO.
POR QUE ESTUDAR FILOSOFIA
E HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO?
Índice
Capítulo Único
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Provvisori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/1-FHISE0.htm2006-06-02 14:46:41
FHISE: SEGUNDA INTRODUÇÃO.SITUAÇÃO HISTÓRICA DOMUNDO ANTIGO., Index.
SEGUNDA INTRODUÇÃO.
SITUAÇÃO HISTÓRICA DO
MUNDO ANTIGO.
Índice
Prólogo
Primeira Parte
Segunda Parte
Terceira Parte
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Provvisori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/1-FHISE1.htm2006-06-02 14:46:41
FHISE: O INÍCIO DA FILOSOFIANA GRÉCIA, Index.
O INÍCIO DA FILOSOFIA
NA GRÉCIA
Índice
Capítulo 1
Capítulo 2
Capítulo 3
Capítulo 4
Capítulo 5
Capítulo 6
Capítulo 7
Capítulo 8
Capítulo 9
Capítulo 10
Capítulo 11
Capítulo 12
Capítulo 13
Capítulo 14
Capítulo 15
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Pr...isori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/1-FHISE2.htm (1 of 2)2006-06-02 14:46:42
FHISE: O INÍCIO DA FILOSOFIANA GRÉCIA, Index.
Capítulo 16
Capítulo 17
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Pr...isori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/1-FHISE2.htm (2 of 2)2006-06-02 14:46:42
FHISE: A CONTEMPLAÇÃO DA NATUREZANOS PRIMEIROS PRÉSOCRÁTICOS, Index.
A CONTEMPLAÇÃO DA NATUREZA
NOS PRIMEIROS PRÉSOCRÁTICOS
Índice
Capítulo 1
Capítulo 2
Capítulo 3
Capítulo 4
Capítulo 5
Capítulo 6
Capítulo 7
Capítulo 8
Capítulo 9
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Provvisori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/1-FHISE3.htm2006-06-02 14:46:42
FHISE: PITÁGORAS, Index.
PITÁGORAS
Índice
Capítulo 1
Capítulo 2
Capítulo 3
Capítulo 4
Capítulo 5
Capítulo 6
Capítulo 7
Capítulo 8
Capítulo 9
Capítulo 10
Capítulo 11
Capítulo 12
Capítulo 13
Capítulo 14
Capítulo 15
Capítulo 16
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Pr...isori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/1-FHISE4.htm (1 of 2)2006-06-02 14:46:42
FHISE: PITÁGORAS, Index.
Capítulo 17
Capítulo 18
Capítulo 19
Capítulo 20
Capítulo 21
Capítulo 22
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Pr...isori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/1-FHISE4.htm (2 of 2)2006-06-02 14:46:42
FHISE: PARMÊNIDES, PRIMEIRA PARTE, Index.
PARMÊNIDES,
PRIMEIRA PARTE
Índice
Capítulo 1
Capítulo 2
Capítulo 3
Capítulo 4
Capítulo 5
Capítulo 6
Capítulo 7
Capítulo 8
Capítulo 9
Capítulo 10
Capítulo 11
Capítulo 12
Capítulo 13
Capítulo 14
Capítulo 15
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Pr...isori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/1-FHISE5.htm (1 of 2)2006-06-02 14:46:42
FHISE: PARMÊNIDES, PRIMEIRA PARTE, Index.
Capítulo 16
Capítulo 17
Capítulo 18
Capítulo 19
Capítulo 20
Capítulo 21
Capítulo 22
Capítulo 23
Capítulo 24
Capítulo 25
Capítulo 26
Capítulo 27
Capítulo 28
Capítulo 29
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Pr...isori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/1-FHISE5.htm (2 of 2)2006-06-02 14:46:42
FHISE: PARMÊNIDES,SEGUNDA PARTE, Index.
PARMÊNIDES,
SEGUNDA PARTE
Índice
Capítulo 1
Capítulo 2
Capítulo 3
Capítulo 4
Capítulo 5
Capítulo 6
Capítulo 7
Capítulo 8
Capítulo 9
Capítulo 10
Capítulo 11
Capítulo 12
Capítulo 13
Capítulo 14
Capítulo 15
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FHISE: PARMÊNIDES,SEGUNDA PARTE, Index.
Capítulo 16
Capítulo 17
Capítulo 18
Capítulo 19
Capítulo 20
Capítulo 21
Capítulo 22
Capítulo 23
Capítulo 24
Capítulo 25
Capítulo 26
Capítulo 27
Capítulo 28
Capítulo 29
Capítulo 30
Capítulo 31
Capítulo 32
Capítulo 33
Capítulo 34
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Pr...isori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/1-FHISE6.htm (2 of 3)2006-06-02 14:46:43
FHISE: PARMÊNIDES,SEGUNDA PARTE, Index.
Capítulo 35
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FHISE: FILOSOFIA E EDUCAÇÃO EM ATENAS NO ANO 450 AC, Index.
FILOSOFIA E EDUCAÇÃO EM ATENAS NO ANO
450 AC
Índice
Capítulo 1
Capítulo 2
Capítulo 3
Capítulo 4
Capítulo 5
Capítulo 6
Capítulo 7
Capítulo 8
Capítulo 9
Capítulo 10
Capítulo 11
Capítulo 12
Capítulo 13
Capítulo 14
Capítulo 15
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FHISE: FILOSOFIA E EDUCAÇÃO EM ATENAS NO ANO 450 AC, Index.
Capítulo 16
Capítulo 17
Capítulo 18
Capítulo 19
Capítulo 20
Capítulo 21
Capítulo 22
Capítulo 23
Capítulo 24
Capítulo 25
Capítulo 26
Capítulo 27
Capítulo 28
Capítulo 29
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Pr...isori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/1-FHISE7.htm (2 of 2)2006-06-02 14:46:43
FHISE: ZENÃO x SÓCRATES, Index.
ZENÃO x SÓCRATES
Índice
Capítulo 1
Capítulo 2
Capítulo 3
Capítulo 4
Capítulo 5
Capítulo 6
Capítulo 7
Capítulo 8
Capítulo 9
Capítulo 10
Capítulo 11
Capítulo 12
Capítulo 13
Capítulo 14
Capítulo 15
Capítulo 16
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FHISE: ZENÃO x SÓCRATES, Index.
Capítulo 17
Capítulo 18
Capítulo 19
Capítulo 20
Capítulo 21
Capítulo 22
Capítulo 23
Capítulo 24
Capítulo 25
Capítulo 26
Capítulo 27
Capítulo 28
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FHISE: OS SOFISTAS, Index.
OS SOFISTAS
Índice
Capítulo 1
Capítulo 2
Capítulo 3
Capítulo 4
Capítulo 5
Capítulo 6
Capítulo 7
Capítulo 8
Capítulo 9
Capítulo 10
Capítulo 11
Capítulo 12
Capítulo 13
Capítulo 14
Capítulo 15
Capítulo 16
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FHISE: OS SOFISTAS, Index.
Capítulo 17
Capítulo 18
Capítulo 19
Capítulo 20
Capítulo 21
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Pr...isori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/1-FHISE9.htm (2 of 2)2006-06-02 14:46:43
FHISE: SÓCRATES, Index.
SÓCRATES
Índice
Capítulo 1
Capítulo 2
Capítulo 3
Capítulo 4
Capítulo 5
Capítulo 6
Capítulo 7
Capítulo 8
Capítulo 9
Capítulo 10
Capítulo 11
Capítulo 12
Capítulo 13
Capítulo 14
Capítulo 15
Capítulo 16
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FHISE: SÓCRATES, Index.
Capítulo 17
Capítulo 18
Capítulo 19
Capítulo 20
Capítulo 21
Capítulo 22
Capítulo 23
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Pr...sori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/1-FHISE10.htm (2 of 2)2006-06-02 14:46:44
FHISE: PLATÃO, Index.
PLATÃO
Índice
Capítulo 1
Capítulo 2
Capítulo 3
Capítulo 4
Capítulo 5
Capítulo 6
Capítulo 7
Capítulo 8
Capítulo 9
Capítulo 10
Capítulo 11
Capítulo 12
Capítulo 13
Capítulo 14
Capítulo 15
Capítulo 16
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FHISE: PLATÃO, Index.
Capítulo 17
Capítulo 18
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NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.0, C.1.
NOTAS DE FILOSOFIA E
HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO
Primeira Introdução.
Por que estudar Filosofia
e História da Educação?
Capítulo Único
Vocês que estão aqui presentes serão, daqui a alguns anos,
professores. Escolheram livremente dedicarem suas vidas ao
Magistério e é de presumir-se que o fizeram porque tem amor ao
ensino. Daqui a alguns anos ser-lhes-ão confiados alunos
desejosos de aprender pelos motivos os mais diversos, ainda
que nem sempre pelo amor ao saber, e talvez possa caber a
vocês despertarem em seus alunos esta vocação. De qualquer
maneira, considerando as poucas vantagens materiais que o
Magistério oferece atualmente, se nem sempre os alunos se
dedicam ao aprendizado por verdadeiro amor ao saber, é
provável que muitos, ou pelo menos alguns dos futuros
professores tenham pelo menos um gérmen, uma semente do
verdadeiro amor ao ensino.
É bastante provável, por causa disso, que verifiquem, ao
iniciarem suas carreiras como professores, que as condições, o
modo, o método pelo qual pais, alunos e diretores esperam que
vocês ensinem não sejam os ideais para se obterem os
resultados que se espera que o professor alcance. Irão, pois,
querer melhorar; irão propor algumas pequenas mudanças,
destas que são permitidas a cada início de ano escolar a todo
professor, tais como mudar o livro texto, mudar o sistema de
avaliação, mudar a didática das aulas. Mesmo assim, é possível
que o resultado ainda deixe muito a desejar. Talvez então
venham a perceber que o problema é mais profundo, que talvez
não se trate apenas de uma questão de métodos, mas também
de objetivos.
Todo professor pode mudar os objetivos a perseguir no início
do ano letivo, dentro de certos limites. Mas ir mais além destes
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NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.0, C.1.
já não seria possível, porque o professor está vinculado, em seu
trabalho, ao trabalho de todos os demais professores que seus
alunos já tiveram, que estão tendo e que terão no futuro, dos
quais, embora não saibamos de antemão os seus nomes, já
sabemos aproximadamente o que irão ensinar aos nossos
alunos. Assim, os objetivos do ensino no curso primário estão
vinculados aos objetivos do ensino na Universidade e vice
versa. Ainda que a professora primária não se aperceba disso e
ainda que a maioria dos seus alunos não cheguem mesmo aos
cursos superiores, o ensino que ela é chamada a ministrar
depende da concepção e dos objetivos que estão por trás do
ensino superior, e de muitas mais coisas que parecem estar
aparentemente além da função da professora primária
propriamente dita. Para reelaborar ou mesmo aprimorar os
objetivos do ensino primário seria necessário, portanto,
reelaborar os objetivos do sistema educacional como um todo.
Poderíamos então perguntar se isto não poderia ser feito. Se
não seria possível propor uma concepção mais aprimorada para
o sistema educacional vigente.
Para responder a esta pergunta, devemos primeiramente
observar quatro pontos, quatro aspectos que esta questão nos
coloca e que ao mesmo tempo servirão ppara nos dar um
primeiro, mas ainda pequeno, vislumbre do motivo pelo qual
estudar Filosofia e História da Educação para a formação dos
futuros professores.
Em primeiro lugar, antes de propor uma nova concepção e
novos objetivos para o sistema educacional vigente, deveremos
perguntar se realmente sabemos quais são as concepções e os
objetivos do sistema de ensino vigente no momento. Surge aí
uma primeira dificuldade e uma inesperada surpresa. Na
sociedade moderna praticamente ninguém e nenhum educador
saberá responder exatamente a esta pergunta. Ninguém sabe ao
certo qual é o objetivo exato que o sistema educacional vigente
persegue. Pode parecer estranho que se faça uma afirmação
destas, ainda mais porque a Lei de Diretrizes e Bases da
Educação tem uma justificação oficial de motivos. Ademais,
haverá ainda muitos outros que irão supor que podem
responder a esta pergunta. Mas, examinando mais
detalhadamente estas respostas, mesmo que seja a dos autores
da Lei de Diretrizes e Bases, submetidas a um exame mais
rigoroso, iremos verificar que estas não são respostas
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NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.0, C.1.
realmente satisfatórias. O sistema de ensino tal como existe
hoje é em grande parte produto de forças históricas,
econômicas e sociais que nem sempre operaram de modo
consciente. De alguma maneira, o sistema atual de ensino é este
porque é isto que a sociedade em seu conjunto exige. Para
entendermos porque ele é assim e não diferente, e portanto,
podermos pensar mais realisticamente em modificá-lo a fundo,
devemos então primeiro compreender como ele se desenvolveu
até chegar a este ponto; e esta história, conforme veremos, tem
aproximadamente, no nosso caso, cinco mil anos de duração.
Em segundo lugar, não basta compreender por que o ensino é o
que é; é necessário também sermos capazes de compreender o
que ele poderia ter sido ou como ele poderá ser.Esta questão já
não é mais histórica. Considerada em pequena escala,
considerada apenas em alguns aspectos, esta questão poderá
ser talvez um problema de didática, um problema de psicologia
do aprendizado, ou de qualquer outra disciplina técnica
pedagógica. Mas, considerada em toda a sua amplitude, a
mesma questão passará a ser um problema fundamentalmente
filosófico. Vamos tomar um exemplo para ilustrar. No ensino
nós formamos o homem; haverá também quem pense que no
ensino formamos igualmente a futura sociedade. Vamos deixar
este segundo aspecto de lado e ficar apenas no homem. No
ensino nós formamos o homem. O objetivo do homem é aquilo
que é bom para o homem. Se é assim, porém, o que é que é bom
para o homem? Para respondermos a esta pergunta, teremos
que responder primeiro o que é o homem. A questão do objetivo
do ensino, assim, depende da questão da concepção do homem
e esta é uma questão filosófica. Qualquer educador que não
perceber isto claramente, ao propor qualquer reforma do ensino,
fatalmente irá apresentar apenas reformas de métodos, nunca
de objetivos. Para propor uma reforma mais profunda, uma
reforma que seja uma contribuição e um progresso substancial
para a sociedade, o educador terá que compreender primeiro
claramente qual é a concepção de homem que está implícita no
sistema vigente; depois, terá que compreender claramente quais
seriam outras possíveis concepções de homem; deverá também
saber discernir qual delas representa um progresso em relação
às outras; somente a partir daí poderá propor uma melhoria
essencial na Educação.
Ora, todas estas questões são questões filosóficas. Vemos,
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NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.0, C.1.
portanto, que a Filosofia está longe de ser apenas uma diversão
de espírito para o educador. Ao contrário, é a própria base sobre
a qual se assentam as possibilidades de um verdadeiro
progresso para o ensino. Enquanto o educador não se torna
filósofo, ele é simplesmente um instrumento inconsciente,
quase que como um autômato controlado pelas leis da
Educação que, por sua vez, estão entregues à mercê de forças
históricas as quais muitas vezes, sob o disfarce do
desenvolvimento tecnológico, podem não ser mais do que a
expressão de instintos primitivos da natureza, da simples luta
pela sobrevivência, em vez de uma verdadeira busca de uma
plena realização do homem.
Ao chegarmos a este ponto, entra porém em cena uma terceira
dificuldade. Perguntamos por uma concepção de homem. Que
seria isto, diremos nós, senão perguntar coisas do seguinte
tipo: O que é o homem? Por que ele existe? Com que finalidade
ele existe? Ora, se é isto mesmo, então parece que estas
perguntas não têm resposta. Nenhum de nós sabe respondê-las.
Se perguntarmos aos nossos conhecidos, aos nossos vizinhos,
ao motorista do táxi, ao jornaleiro, ao político, ao professor,
também não o saberão dizer. Se abrirmos o jornal, a revista
semanal, se ligarmos o rádio ou a televisão, também não iremos
encontrar nenhuma resposta. Se insistirmos e exigirmos de
todas estas pessoas que respondam, nos darão respostas
infantis, respostas que não saberão justificar e das quais elas
próprias não têm certeza. Ademais, nunca ouvimos falar que
tais respostas tivessem sido dadas, dirão vocês. A conclusão
que parece se tirar daí é que tais respostas não existem e que
talvez nem possam existir.
Que se poderá a estas dificuldades? No momento, apenas que
um estudo mais aprofundado é capaz de mostrar que houve na
História grandes mestres de Filosofia que tentaram responder
seriamente a tais perguntas e que, independentemente do
problema de se saber aqui se eles acertaram ou não, foram
também capazes de justificá-las de modo incomum. E que,
talvez devido à profundidade de suas respostas e às exigências
particulares necessárias para compreendê-las, a grande massa
da humanidade, aquela que justamente acabou organizando o
atual sistema de ensino, não foi capaz de abarcá-las. O que
significa que, se queremos examinar tais problemas, será de
fato inútil perguntar tais coisas a colegas e a vizinhos, mas
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NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.0, C.1.
deveremos primeiro nos aproximar e estudar estes grandes
mestres com esforço e com paciência para procurar
compreender bem a profundidade do que eles nos quiseram
transmitir. Então talvez poderá surgir uma luz mais profunda em
nosso espírito sobre os problemas da Educação.
Finalmente, em quarto lugar, queremos adiantar aqui que este
mesmo estudo mais detalhado da História da Educação,
paralelo ao da Filosofia, irá mostrar também que, apesar da
pouca compreensão que não só as grandes massas como
também os responsáveis pela Educação tiveram destes
mestres, o trabalho destes grandes homens não foi totalmente
em vão. A maioria dos pontos positivos que houve na Educação
e na sociedade de todas as épocas, e inclusive na nossa, se
deveu justamente àquele pouco que foi historicamente
assimilado de suas obras. Desta maneira, apenas um
conhecimento histórico não é suficiente para uma exata
compreensão do estado atual da Educação. É também
necessário um conhecimento paralelo de Filosofia, de outra
forma a melhor parte, a parte mais nobre do desenvolvimento da
Educação escapará totalmente de diante de nossa vista, assim
como toda a gama de possibilidades que o trabalho do
educador ainda pode ser chamado a desenvolver.
Com isto esperamos ter fornecido aos alunos alguma motivação
preliminar com que ele possa entrever o quanto é importante
para o futuro educador um conhecimento profundo de História e
de Filosofia.
n
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Pr...isori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE0-1.htm (5 of 5)2006-06-02 14:46:44
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.1, C.1.
Segunda Introdução
Situação Histórica do
Mundo antigo
Prólogo
Antes de iniciarmos nosso estudo de Filosofia e História da
Educação temos primeiro que tentar compreender, ainda que
resumidamente, a situação do mundo em que se iniciou a obra
dos primeiros filósofos e educadores, porque é sobre a obra
destes homens que se desenvolveu posteriormente a educação
existente e porque, além disso, o mundo em que eles viveram
foi em muitos aspectos bastante diferente do nosso, e não se
pode compreender corretamente o que estes homens pensaram
em fizeram sem compreender as situações que eles viveram.
Ora, a civilização em que atualmente vivemos, e a educação que
nela desenvolvemos é apenas uma entre muitas que existiram e
ainda existem. A civilização em que vivemos, porém, teve sua
origem na fusao de três outras que houve na Antiguidade, que
foram a civilização hebraica, a grega e a romana. Cada uma
destas três civilizações teve origem independente da outra, mas,
devido a um processo histórico que começou por volta do ano
2.000 AC e foi até a época do surgimento do cristianismo,
acabaram se fundindo e formando a nossa civilização atual,
dentro da qual se desenvolveu a educação que temos hoje.
Das três civilizações que deram origem à nossa, a mais antiga é
a hebraica, que inicia sua história em 2.000 AC. A seguinte a
aparecer foi a grega,cujas origens datam de 1.200 AC.
Finalmente, a última, a Romana, iniciou sua história, segundo
sua tradição, no ano 753 AC.
Vamos a seguir examinar sucintamente como elas nasceram, se
desenvolveram e se integraram, e como dentre delas surgiu a
filosofia. Não pretendemos fazer um relato completo,
pretendemos apenas traçar um quadro dentro do qual se
encaixará a seqüência das aulas que virão posteriormente, de
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Pr...isori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE1-1.htm (1 of 2)2006-06-02 14:46:45
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.1, C.1.
tal maneira que, depois, ao estudarmos os fatos em detalhes, os
fatos que realmente interessarão ao estudo da filosofia e da
educação, os alunos saibam situá-los sem muita dificuldade no
tempo e no espaço, e consigam dar-lhes uma primeira avaliação
de suas importâncias no contexto dos acontecimentos da
época.
Vamos examinar primeiro a civilização hebraica, até a página
sétima destas notas. Depois, a grega, até a décima segunda.
Finalmente, a romana da décima terceira à vigésima quarta.
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Pr...isori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE1-1.htm (2 of 2)2006-06-02 14:46:45
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.1, C.2.
Primeira Parte
Para compreender o surgimento da civilização hebraica, cujo
início data aproximadamente de 2.000 AC, é preciso saber que
os primeiros relatos históricos, isto é, relatos escritos que
temos do homem datam de pouco antes do ano 3.000 AC, mil
anos, portanto, antes do início da história que propriamente nos
interessa. O período anterior à época que se inicia com a escrita
é chamado de período pré histórico.
Por volta do ano 3.000 AC havia três civilizações no mundo que
conheciam a escrita, todas elas que se desenvolveram ao longo
do curso de grandes rios: os Sumérios, os Egípcios e uma
terceira recentemente descoberta que floresceu ao longo do rio
Hindo na região do atual Paquistão.
Os sumérios estavam organizados em uma federação de
cidades ao longo da Mesopotâmia, no lugar em que hoje fica o
Iraque. É um lugar fértil, propício à agricultura, onde correm os
rios Tigre e Eufrates. Os sumérios estavam organizados em
cidades independentes, as quais, porém, tinham escrita, cultura
e religião em comum.
Já os egípcios estavam submetidos ao poder absoluto de um
único faraó, soberano de todo o Egito. A civilização egípcia
floresceu ao longo do rio Nilo, graças também à facilidade que
este rio propiciava à atividade agrícola.
Os grandes rios do Egito e da Mesopotâmia, favorecendo a
agricultura, fizeram com que os habitantes destas regiões não
precisassem deslocar-se constantemente para obter alimentos;
o excedente de produção propiciado pela agricultura permitiu o
aparecimento de outras classes sociais que podiam se dedicar
ao estudo e às atividades do espírito.
A civilização hebraica tem sua origem assim em uma cidade do
norte da Suméria chamada Ur. Por volta do ano 2.000 AC,
aproximadamente, nela vivia um homem chamado Abraão, neto
do tataraneto de Héber, de onde veio o termo hebreu. Segundo
afirmam as Sagradas Escrituras, a principal fonte de
conhecimento da história dos hebreus, o próprio Deus teria
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ordenado a Abraão que fosse habitar uma terra situada entre a
Suméria e o Egito com as seguintes palavras:
"Sai da tua
terra e da tua
parentela, e
da casa de
teu pai, e vem
para a terra
que eu te
mostrar. E eu
farei sair de ti
um grande
povo, e te
abençoarei, e
engrandecerei
o teu nome, e
serás bendito.
Abençoarei
os que te
abençoarem,
e
amaldiçoarei
os que te
amaldiçoarem;
em ti serão
benditas
todas as
nações da
terra".
Gen.
12
Abraão, pois, abandonou sua terra e foi morar na terra de
Canaan, atualmente Palestina ou Israel. Lá Deus lhe falou
novamente que haveria de dar aquela terra à sua posteridade.
Abraão teve um filho chamado Isaac, e deste um neto chamado
Jacó. Ambos habitaram a terra de Canaan levando uma vida
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semi nômade como pastores. Quando Jacó, mais tarde, já tinha
doze filhos, uma terrível fome assolou o mundo da época e o
obrigou a se transferir para o Egito com os seus filhos, onde se
estabeleceu na região da desembocadura do rio Nilo chamada
terra de Gezem.
Os doze filhos de Jacó se multiplicaram de tal modo na terra do
Egito que acabram se tornando um povo dentro de outro povo;
este povo foi chamado de hebreu ou judeu, sendo pois até hoje
os judeus os descendentes de Abraão. A multiplicação do povo
judeu em terras egípcias foi tão grande que o Faraó julgou que
deveria submetê-los à escravidão para evitar um possível
levante contgra os egípcios. Este estado de escravidão durou
aproximadamente até ao ano 1.200 AC, quando o judeu Moisés
recebeu junto ao Monte Sinai uma ordem de Deus para se dirigir
ao Faraó e exigir dele a liberdade para o seu povo.
Como o Faraó não aceitasse as exigências de Moisés, Deus
enviou por meio dele aos egípcios as 10 pragas descritas no
Êxodo, até que, após a décima, o Faraó cedeu e deixou o povo
judeu partir. Atravessaram os judeus as águas do Mar Vermelho
que se abriram ao toque do bastão de Moisés, e passando pelo
leito enxuto do mar chegaram ao pé do Monte Sinai, onde
Moisés recebeu a Tábua dos 10 Mandamentos.
Mas, além dos 10 Mandamentos Moisés estabeleceu uma longa
legislação moral, judicial e cerimonial, que formou a base de
toda a cultura hebraica posterior. Esta legislação, cheia de
sabedoria e de padrões muito mais elevados do que de todos os
povos da época, está contida nos cinco primeiros livros da
Bíblia denominados em grego Pentateuco e em hebraico
simplesmente de Torá, ou Lei.
Após receberem todas estas leis e caminharem durante 40 anos
pelo deserto, os hebreus entraram finalmente na terra da
Palestina da qual se apoderaram militarmente e passaram a nela
viver. Durante cerca de duzentos anos viveram assim na terra de
Canaan em uma confederação de doze tribos, correspondentes
aos descendentes dos doze filhos de Jacó, neto de Abraão, sem
rei nem governo central, unidos apenas pela descendência, e
história comum e pelas leis que Moisés lhes havia estabelecido.
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Aproximadamente no ano 900 AC a pedido do povo o profeta
Samuel ungiu o primeiro rei dos judeus, chamado Saul, o qual
se suicidou alguns anos mais tarde diante de uma batalha
perdida.
Sucedeu-lhe o rei Davi, ungido também pelo profeta Samuel,
que o escolheu entre os pastores do povo israelita. Foi Davi que
conquistou a cidade de Jerusalém que, ao que parece, era bem
antiga e datava desde antes dos tempos de Abraão. Davi
instalou em Jerusalém a capital de seu reino.
Filho de Davi foi o rei Salomão, que construiu um imenso templo
na cidade de Jerusalém, mas que cobrou pesados impostos de
seu povo. Ao morrer Salomão, seu filho e herdeiro do trono,
Roboão, anunciou que seus impostos seriam muito mais
pesados. Mal aconselhado por seus jovens amigos criados
junto com ele, suas primeiras palavras ao povo depois de
assumir o trono foram:
"Meu pai
vos impôs
um jugo
pesado, e
eu ainda
aumentarei
o peso
deste jugo.
Meu pai
açoitou-vos
com
correias, eu
vos
açoitarei
com
escorpiões".
1Reis
12,14
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Resultado imediato destas palavras foi uma revolução civil; as
10 tribos que viviam ao norte da Palestina se separaram e
formaram o Reino de Israel sob o comando de Jeroboão; duas
tribos ao sul, a de Benjamim e Judá, ficaram fiéis a Roboão e
conswtituíram o Reino de Judá. Embora Roboão dispusesse de
180 mil homens prontos para a guerra, desistiu de lutar contra o
Reino do Norte e aceitou as coisas como estavam.
Enquanto isso, na Mesopotâmia muita coisa havia mudado. Na
época em que Abraão havia se mudado de Ur para a Palestina,
as cidades sumérias se uniram e formaram o Império da
Babilônia; seu sexto rei Hamurabi legislou o famoso Código de
Hamurabi, base de um império que durou em torno de um
milênio. Por volta da época em que o povo judeu se dividiu em
duas nações, Judá ao sul e Israel ao Norte, porém, um povo
vindo da região situada ao norte da Mesopotâmia conquistou os
babilônios e fundou o Império Assírio.
No ano de 721 AC os assírios cercaram durante três anos a
capital do Reino do Norte de Israel, chamada Samaria, ao fim do
qual deportaram os judeus do norte para o Mesopotâmia. No
seu lugar vieram outros povos mesopotâmios que,
miscigenando-se com a cultura local, fundiram o hebraico com
línguas caldaicas, daí resultando a língua aramaica e um povo
que passou a ser conhecido como samaritano.
Mais tarde caiu na Mesopotâmia o Império Assírio. No seu lugar
surgiu o Segundo Império Babilônico. Este império invadiu o
Reino do Sul de Judá e após outro certo de três anos à cidade
de Jerusalém, capital de Judá, prendeu o "rei Sedecias, matou
os seus filhos em sua prença, vasou-lhe os olhos e o levou para
a Babilônia", juntamente com todo o povo do Reino de Judá
(2Reis, 25). Queimaram também o templo construído em
Jerusalém por Salomão, as casas e os edifícios de Jerusalém, e
derrubaram os muros da cidade e o resto do povo que ainda
tinha permanecido na cidade, deixando apenas alguns pobres
agricultores.
O povo judeu do Reino de Judá, mais fiel à legislação de Moisés
do que o Reino do Norte de Israel, ficou exilado 70 anos na
Babilônia. Lá não perderam sua identidade cultural nem
religiosa, nem se misturaram com os outros povos
mesopotâmicos. Ao contrário, passaram a se reunir aos
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sábados para lerem a Lei de Moisés; as casa em que estas
reuniões eram feitas passaram com o tempo a constituir as
primeiras sinagogas. Uma parte do povo começou a se dedicar
ao estudo da lei de Moisés para poder comentá-la nestas
reuniões; surgiram então os primeiro rabinos e, em torno deles,
alunos que começaram a formar as primeiras academias de
teologia. Nestas academias era proibido o uso de quaisquer
livros além da Torá; todos os comentários dos grandes rabinos
tinham que ser guardados de memória e passados de geração
em geração, de professor a aluno, oralmente e com fidelidade.
Surgiram também na época que precedeu o exílio da Babilônia,
durante o exílio e após o mesmo, os grandes profetas que
marcaram a vida do povo judeu e deixaram livros escritos: Elias
e Eliseu, que viveram no Reino do Norte; Isaías e Jeremias, que
viveram no Reino do Sul, todos estes antes do exílio; Ezequiel,
durante o exílio, viveu na Babilônia; e Daniel, da época posterior
ao exílio, também viveu, embora judeu, como funcionário na
côrte do Império Persa.
Setenta anos após a deportação dos judeus para a Babilônia,
em 521 AC, o rei Ciro dos persas conquistou o Império
Babilônico e libertou o povo judeu para retornar a Jerusalém e
reconstruírem a pátria. Também nesta época os persas
conseguiram a façanha militar de, pela primeira vez na história,
derrotarem as forças militares do Egito na batalha de Pelusa,
levando exilados para a Mesopotâmia a côrte do Faraó e todos
os sábios do Egito. Foi isto o fim da civilização egípcia, que já
tinha quase três milênios de duração.
Desta maneira, na História Antiga, houve duas regiões em que
houve povos altamente civilizados, uma ao longo do rio Nilo e
outra ao longo dos rios Tigre e Eufrates. Na primeira, os
egípcios permaneceram estavelmente durante quase três
milênios. Na segunda, assistiu-se à sucessão dos sumérios, dos
babilônios, dos assírios, dos babilônios novamente e dos
persas. Os persas, que sucederam os babilônios na
Mesopotâmia, se tornaram a maior potência militar que a
história tinha visto até o momento e donos de toda a Ásia,
incluindo o Egito, o Oriente Médio, a atual Turquia, a
Mesopotâmia e estendendo seu poderio até as regiões da Índia.
Durante toda esta época a história do povo judeu foi uma série
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de vicissitudes entre as forças políticas dos egípcios e dos
mesopotâmios. Quando, após a conquista da Babilônia e do
Egito pelos persas, estes puderam voltar para a Palestina e
reconstruir a cidade de Jerusalém e o Templo de Salomão
destruído pelos babilônios, a maior parte do Antigo Testamento
já havia sido escrito e foi então que começou a marcar presença
no mundo a civilização grega, a segunda das três que
compuseram a nossa a aparecer na história.
A fonte histórica para o conhecimento da civilização hebraica
desta época é quase que exclusivamente a Sagrada Escritura. A
história de Abraão, de seu filho Isaac e seu neto Jacó, e de sua
mudança para o Egito está contada no livro de Gênesis, do
capítulo 12 até ao fim.
A libertação do povo judeu do Egito feita por meio de Moisés é
narrada no livro do Êxodo, do início até o capítulo 20.
As leis dadas por Moisés ao povo judeu, e sua estada de 40
anos no deserto é narrada no restande do livro do Êxodo, no
Levítico, Números e Deuteronômio.
A conquista da terra prometida por meio de Josué, sucessor de
Moisés no comando do povo judeu é narrada no livro de Josué.
Os primeiros dois ou três séculos em que os judeus viveram na
terra de Canaan sem terem reis como governantes são narrados
no livro dos Juízes.
A história do profeta Samuel e de como ele consagrou Saul
como primeiro rei de Israel, juntamente com o relato de seu
reinado encontra-se no primeiro livro de Samuel.
A narrativa do reinado de Davi que sucedeu a Saul e conquistou
a cidade de Jerusalém encontra-se no Segundo Livro de
Samuel.
O reinado de Salomão e a construção do templo de Jerusalém
encontra-se nos onze primeiros capítulos do Primeiro Livro dos
Reis.
A divisão do povo judeu no Reino do Norte de Israel e no Reino
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NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.1, C.2.
de Juá ao sul até a conquista do Reino do Norte pelos assírios e
do Sul pelos babilônios encontra-se no restante do primeiro
livro dos reis e todos o Segundo Livro dos Reis.
Os setenta anos de exílio na Babilônia por parte do Reino de
Judá não estão contados em nenhum livro da Bíblia; há
referências a este período nos Salmos e nos livros dos Profetas.
A volta do exílio, a reconstrução de Jerusalém e de seu templo
são narrados nos Livros de Livros de Esdras e Neemias.
As vidas dos profetas Elias e Eliseu encontram-se narradas
dentro do Primeiro e Segundo Livro dos Reis; estes não
deixaram escritos. Isaías encontra-se também no segundo livro
dos Reis, mas ademais ele deixou-nos escritos um livro seu
próprio. Quanto a Jeremias, Ezequiel e Daniel, a fonte para o seu
estudo são os seus próprios livros.
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NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.1, C.3.
Segunda Parte
A origem dos gregos é antiga, não tão antiga como a dos
judeus, mas bem anterior aos acontecimentos que acabamos de
narrar. Entretanto, é apenas por esta época, cerca de 600-500
AC, que eles passaram a ter importância no cenário dos
acontecimentos mundiais. Até então, as verdadeiras forças
políticas do mundo eram os egípcios e os povos
mesopotâmicos.
O povo judeu politicamente era muito pouco importante; sua
verdadeira grandeza estava nas idéias e nas leis contidas nos
livros do Antigo Testamento, desconhecidas pelos povos da
época, que iriam posteriormente revolucionar o mundo.
A origem dos gregos vem da Ilha de Creta. Por volta do ano
1.500 AC, quando os judeus eram escravos no Egito,
desenvolveu-se nesta ilha uma civilização de marinheiros que
construíam em Creta cidades famosas na antiguidade por não
terem muralhas. A ilha de Creta era muito comprida e ao mesmo
tempo muito estreita. Seus muros era a própria frota de seus
navios. A civilização que nela se desenvolveu recebeu o nome
de Minóica.
Na época em que Moisés recebeu as tábuas da Lei no Monte
Sinai, cerca de 1.200 Ac, uma terrível explosão de um vulcão na
Ilha de Santorini obrigou o povo cretense a fugir para o norte,
fixando-se no sul da Grécia, num território chamado
Peloponeso. Nele fundaram a cidade de Micenas e passaram a
ser conhecidos pelos historiadores como povo micênico.
Por volta do ano 1.000 AC, pouco antes da época do rei Davi e
Salomão, outro povo vindo do norte da Europa, chamado de
Aqueus, invadiu a Grécia e obrigou o povo micênico a fugir
novamente, espalhando-se pelo litoral da Anatólia, atual
Turquia, para a Fenícia, atual Líbano, para a Sicília, ilha ao sul
da Itália, e para a Etrúria, no norte da Itália, região onde
atualmente fica a cidade de Pisa.
Por esta época foi escrito o primeiro clássico da língua grega,
os poemas de Homero conhecidos por Ilíada e Odisséia. No
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NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.1, C.3.
território da atual Grécia desenvolveram-se diversas cidades
independentes, como Atenas, Esparte e Tebas, das quais as
mais importantes foram Atenas e Esparta.
Esparta estava situada em uma Península grande que havia ao
sul da Grécia chamada de Peloponeso. No ano 800 AC um
membro da família real de Esparta, chamado Licurgo, que havia
já ocupado o trono interinamente, após ter viajado por todo o
mundo da época, voltou a Esparta e fez uma reforma política na
cidade na qual instituiu pela primeira vez a educação por parte
do governo às crianças, jovens e adultos. Era, porém, uma
educação puramente militar, que viria a ser a característica da
cidade na Idade Antiga.
Quanto à cidade de Atenas, nada tinha de especial em relação
às demais cidades da Grécia até aproximadamente o ano 600
AC, quando Sólon, político ateniense, implantou uma reforma
agrária e instaurou o regime de governo democrático mais
arraigado que se tem notícia na história antiga. Foi justamente
nesta época que surgiram os primeiros filósofos.
O primeiro filósofo de que se tem notícia foi Tales de Mileto,
amigo pessoal de Sólon. Ele vivia na cidade de Mileto, cidade
grega, embora não ficasse no território da atual Grécia, mas no
litoral oeste da Turquia, a chamada Grécia Antólia na
Antiguidade, um dos lugares para onde haviam fugido os povos
micênicos quando da invasão dos Aqueus. Ao que parece, os
primeiros conhecimentos de Tales de Mileto foram adquiridos
de uma viagem de estudos que fez junto aos sábios do Egito.
Nesta época, floresceram em Mileto e em suas proximidades
outros filósofos famosos, como por exemplo Anaximandro de
Mileto.
Próximo do fim da vida de Tales e Anaximandro, um jovem
nascido na Ilha de Samos, situada entre o litoral da Grécia
Anatólia e a Grécia propriamente dita, chamado Pitágoras,
chegou à cidade de Mileto para estudar com estes sábios.
Pitágoras, ao que parece, pois, foi discípulo de Tales e
Anaximandro. Depois de ter estudado com eles, assim como
seus mestres, dirigiu-se ao Egito onde ficou cerca de duas
décadas estudando com os sábios daquela terra. Quando os
persas derrotaram os egípcios e os levaram para o exílio na
Mesopotâmia, e com isto a civilização egípcia chegou ao seu
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fim, parece que Pitágoras, lá estudante, tinha sido levado junto.
Na Mesopotâmia, onde nesta época as maiores civilizações do
mundo antigo acabaram se reunindo, continuou estudando por
mais uma década. Voltou então para o seu povo no sul da Itália,
lugar para onde também os povos micênicos haviam fugido
quatro séculos antes, e fundou pela primeira vez uma e depois
várias outras escolas de filosofia em que os alunos ingressavam
para se dedicarem aos estudos pelo restante de suas vidas.
Na época, pois, em que quase todo o Velho Testamento estava
escrito e já tinham vivido a maioria dos maiores profetas de
Israel, a filosofia grega estava ainda em sua segunda geração.
Foi então que os persas, que eram donos praticamente do
mundo inteiro, quiseram invadir e conquistar também a Grécia.
Por volta do ano 490 AC ela tentou por três vezes, com um
exército fantástico de mais de um milhão de homens, subjugar
os gregos. Por inacreditável que possa parecer, este exército e
sua armada naval foram derrotados nas três tentativas pelos
gregos graças a uma grande frota naval que os atenienses
haviam construído com o principal propósito de se defenderem.
Após terminar a guerra, à diferença do que costumava
acontecer com outros povos, um simples homem, chamado
Heródoto, viajou pelo mundo inteiro às suas custas
entrevistando pessoas e conhecendo locais, apenas para
escrever um livro contendo para a posteridade a história das
guerras dos gregos contra os persas. Seu livro, intitulado A
História de Horódoto, em estilo fluente e cativante, era lido em
praça pública em Atenas tal como há pouco tempo também se
ouviam as novelas pelo rádio.
Acabadas as guerras contra os persas, Atenas não desmontou a
sua frota. Em vez disso, utilizou-a para montar um imenso
império comercial entre a cidade de Atenas e uma série de
cidades chamadas colônias, fundadas pelos gregos pelo mar
mediterrâneo maios ou menos nos locais ou nas proximidades
de onde tinham se instalado séculos antes os povos micênicos.
Atenas assim tinha colônias comerciais na Grécia Anatólia
(Turquia), na Fenícia (Líbano), nas Ilhas do mar Egeu, na cidade
de Siracusa na Sicília, na cidade de Nápoles na Itália,
originalmente chamada Neapolis, nome que em grego significa
Nova Cidade, e no sul da França, território na Antiguidade
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NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.1, C.3.
conhecido como Gália, a cidade de Marselha, também de
fundação grega.
Nesta época governou a cidade de Atenas durante longos anos
o grego Péricles. Foi a época de maior prosperidade entre os
gregos, também conhecida como época de Péricles. Esta
prosperidade não foi apenas material. Foi nesta época que
apareceram os grandes arquitetos gregos, os grandes
escultores, como Fídias, os grandes autores de peças teatrais,
clássicas até hoje, como Ésquilo e Aristófanes. Todas as
cidades gregas tinham teatros públicos em que se
representavamconstantemente peças teatrais acompanhadas de
corais em que se abordavam os grandes problemas da época.
Elas representaram para o povo grego aquilo que a televisao
representa para o mundo de hoje.
Foi nesta época que entrou em Atenas o primeiro filósofo,
chamado Anaxágoras. Até aquele momento a filosofia somente
se tinha desenvolvido na Grécia Anatólia, originalmente, e no
sul da Itália, por obra de Pitágoras. Anaxágoras entrou em
Atenas vindo da Anatólia, fixou residência durante algumas
décadas na cidade e teve como discípulo ao próprio Péricles,
até ter sido expulso da cidade por um julgamento popular.
Somente alguns anos mais tarde entraria novamente um filósofo
em Atenas, na pessoa de Parmênides e Zenão de Eléia, estes
vindos não da Anatólia, mas do sul da Itália, discípulos de
alunos das escolas pitagóricas.
As guerras contra os persas se deram por volta do ano 490 AC.
A prosperidade que se seguiu à vitória durou quase um século,
durante a segunda metade da qual Péricles governou Atenas.
Por volta do ano 400 AC a cidade de Esparta, com receio do
poderio ateniense, começou uma guerra que se estendeu
durante cerca de 30 anos entre Esparta e Atenas e ficou
conhecida com o nome de guerra do Peloponeso.
Por inacreditável que possa parecer, os atenienses que haviam
conseguido derrotar três vezes ao Império Persa, praticamente
uma cidade contra o resto do mundo, perderam a Guerra do
Peloponeso diante da cidade de Esparta, basicamente pela
submissão das decisões da guerra à votação democrática que
tinha se tornado lei na cidade. Tal como na guerra anterior, que
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NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.1, C.3.
teve em Heródoto seu historiador, a guerra do Peloponeso foi
narrada em livro pelo general Tucídides, que em sua infância
havia passado longas horas ouvindo em praça pública a
narração dos livros de Horódoto pela boca de seu autor. Esta
obra, a Guerra do Peloponeso, é considerada a obra de
historiografia mais perfeita da Antiguidade.
Foi alguns anos antes da guerra do Peloponeso que entraram
em Atenas, vindos do sul da Itália, dois filósofos chamados
Parmênides e Zenão. Ambos travaram profundos debates com
um jovem ateniense chamado Sócrates, homem pobre, filho de
uma parteira. Pouco tempo depois, Parmênides e Zenão se
retiraram da cidade. Sócrates lutou depois disso na guerra do
Peloponeso. Finda a mesma, começou a fazer discípulos, entre
os quais estava Platão, jovem rico da alta política de Atenas.
No ano de 399 AC Sócrates foi condenado à morte e Platão, seu
principal discípulo, a partir daí abandonou Atenas e a vida
pública, passando a viajar pelo mundo em busca de
conhecimento. Visitou entre outros locais o Egito e as escolas
italianas dos Pitagóricos. Voltou depois para Atenas e fundou,
inspirado nas escolas pitagóricas, em um bosque comprado de
um homem chamado Academo, a primeira escola de filosofia
que existiu em território ateniense. Ficou conhecida como a
Academia de Platão, por causa do nome a quem tinha
pertencido o terreno.
Foi aluno da Academia durante duas décadas o filho de um
médico da corte do Rei Felipe da Macedônia, o jovem
Aristóteles. Quando da morte de Platão, Aristóteles abandonou
a Academia e fundou uma segunda escola de filosofia em
Atenas, chamada Escola Peripatética, por causa das aulas que
eram dadas em pórticos. Tanto a escola acadêmica como a
peripatética não iriam morrer com os seus fundadores; quando
da morte de Platão e Aristóteles, os alunos escolheram um
sucessor dentre eles para estes mestres e desta maneira ambas
as escolas duraram séculos. A Academia de Platão, em
particular, durou quase um milênio.
Mas, dizíamos, Aristóteles era filho de um médico da corte do rei
da Macedônia. Quem eram os macedônios? Era um grupo de
povos que viviam ao norte da Grécia em uma região
montanhosa. O rei Felipe havia lutado quase por uma vida
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inteira para unificá-los sob o seu comando. Para o seu filho
Alexandre, porém, tinha ambições ainda maiores. Informado
pelo seu médico Nicômaco da sabedoria de Aristóteles, seu
filho, mandou-o vir de Atenas para ser educador de Alexandre.
Após a morte de Felipe e terminada a educação recebida por
Aristóteles, Alexandre conquistou toda a Grécia, inclusive
Atenas e Esparta, e preparou-se para conquistar o mundo.
Tomou Alexandre depois da Grécia todos os portos da costa
mediterrânea da Pérsia, um após outro. Tomou depois o Egito.
Sua intenção era poder depois atacar a parte principal da Pérsia
localizada na Mesopotâmia sem que ela pudesse atacar por mar
os gregos pela retaguarda.
A batalha final foi em Dardanelos, na qual a Pérsia foi vencida.
Alexandre, o Grande, agora era senhor do mundo conhecido na
época, desde a Grécia até a fronteira com a Índia.
Pouquíssimo tempo depois, porém, Alexandre morreu vítima de
uma simples febre. O príncipe herdeiro, ainda bebê, foi morto
assim como toda a família de Alexandre pelos generais que
começaram a disputar o trono. Nenhum deles, porém,
conseguiu ficar com o império todo que Alexandre havia
conquistado. Ptolomeu ficou com o Egito, Seleuco com o
Oriente, Antígono com a Síria e a Turquia, Casandro com a
Macedônia. Mais tarde Antígono foi derrotado militarmente e os
seleucidas ficaram também com a Síria.
O resultado final foi a divisão do mundo inteiro em monarquias
de reis greco-macedônios.
O resultado, porém, que mais nos interessa deste processo
político foi o resultado cultural.
A primeira conseqüência cultural deste processo foi que a
língua grega se tornou a língua universal de todo o Oriente. Em
todas as cidades importantes começaram a surgir escolas de
grego. Foram abertos teatros onde se apresentavam peças
gregas,ginásios de esporte se espalharam por estas cidades e
adquiriu-se o gosto pelas obras de arte no estilo grego. Os
poetas, os filósofos e os historiadores gregos passaram a ser
lidos em todo o Oriente e na língua original. A cultura grega,
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muito superior e mais elaborada do que tudo quanto existia no
mundo da época começou a se impor emtodo lugar. No Egito foi
construída em Alexandria a maior biblioteca do mundo antigo,
com acesso aberto ao público. Em outras palavras, o que
ocorreu no Oriente como conseqüência das conquistas de
Alexandre foi o processo de helenização do mundo oriental,
sendo este período da história conhecido, por causa disso, com
o nome de período helenístico.
Este processo aconteceu também com o povo judeu que
habitava na Palestina. eles começaram a aprender o grego e a
se esquecer do hebraico. Nesta época, os últimos livros da
Bíblia, tais como o Livro da Sabedoria e os Livros dos
Macabeus, foram escritos em grego e não em hebraico. O rei
Ptolomeu do Egito convidou também neste período 70 rabinos
judeus para virem até Alexandria, capital do Egito, traduzir o
Velho Testamento do hebraico para o grego. Esta tradução,
inicialmente feita a pedido e para a leitura do rei Ptolomeu,
acabou se tornando mais comum entre os judeus do que o
próprio original hebraico. Foi a primeira tradução da Bíblia de
que a história tem notícia, chamada, por causa de seus autores,
de Versão dos Setenta ou Septuaginta.
Os judeus tiveram que sofrer muito sob o reinado dos
governantes grego macedônios que dominavam a Palestina. Ao
contrário dos reis da dinastia dos Ptolomeus do Egito, que com
tanta reverência mandaram vir ao seu país os sábios judeus
para traduzirem as Leis de Moisés e os Escritos dos Profetas, os
reis sob cuja jurisdição ficava a Palestina viam com desprezo os
costumes e as leis hebraicas. As perseguições que o povo
judeu teve que sofrer nesta época são narradas nos dois livros
dos Macabeus, que não sem razão se iniciam contando
resumidamente a vida de Alexandre, o Grande, de como o
mundo inteiro veio a cair sob o domínio dos gregos e do
governo dos generais de Alexandre.
Foi nesta época que começou a entrar em cena no palco dos
acontecimentos mundiais a terceira das civilizações que
compuseram a nossa atual, a civilização romana.
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Terceira Parte
A história de Roma se inicia por volta do ano 750 AC com a
lenda de Rômulo e Remo.
Havia nesta época uma cidade, na região do Lácio, na Itália
central, chamada Alba a Longa. Esta cidade era governada por
dois irmãos, um dos quais viria a ser o avô de Rômulo e Remo.
Um destes irmãos, querendo governar sozinho, expulsou o
outro e matou toda a sua família exceto uma de suas filhas,
chamada Reia Silvia. Mais tarde Reia Silvia deu à luz duas
crianças gêmeas. O tio, agora governante único de Alba a
Longa, com medo de futuramente perder o trono, colocou os
dois bebês em um cesto e os jogou no rio Tibre. Esperava que a
correnteza os arrastasse para o mar onde morreriam afogados.
Entretanto, uma forte ventania que se iniciou subitamente pouco
depois disso, soprando em direção contrária à do curso do rio,
fez com que o cestinho acabasse encalhando na margem do rio
a uma pequena distância de onde tinha sido abandonado. O
choro das duas crianças atraiu a atenção de uma loba, que
passou a amamentá-las e delas cuidou como uma mãe.
Quando os dois gêmeos cresceram, receberam o nome de
Rômulos e Remo. Posteriormente, vieram a saber quem
realmente eram e qual havia sido a sua história. Voltaram à
cidade de Alba a Longa, mataram o tio avô e reconduziram o avô
ao trono. Se tivessem tido um pouco mais de paciência, como
príncipes herdeiros que eram, teriam reinado também eles sobre
Alba a Longa. Mas o fato foi que não quiseram esperar para
serem reis. Voltaram ao lugar onde muitos anos antes o
cestinho havia encalhado e resolveram fundar ali uma nova
cidade na qual eles fossem os reis. Tiraram a sorte e resolveram
chamar a cidade pelo nome de Roma em homenagem a Rômulo.
Escolhido o local e o nome da futura cidade, os dois irmãos
traçaram um sulco no chão para assinlar os limites da cidade,
construíram um pequeno muro sobre este sulco e juraram matar
quem quer que o violasse.
Remo, porém, possivelmente ainda chateado por não ter a
cidade recebido o seu nome, achou que estes muros não eram
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sólidos, e com um pontapé derrubou um pedaço deles. Para sua
desgraça o pontapé foi desferido logo após os dois irmãos
terem jurado matar quem violasse os limites da nova cidade.
Rômulo julgou, pois, que era de seu dever assassinar o irmão, o
que fez com um golpe de pá, tornando-se assim o primeiro rei
de Roma.
Tudo isto teria acontecido no dia 21 de abril do ano 753 AC, ano
que ficou sendo o ano zero da fundação de Roma. A partir daí
os romanos passaram a contar o tempo em anos AUC, ou Ab
Urbe Condita, isto é, desde a fundação da cidade. Cristo, assim,
teria nascido no ano 753 AUC, isto é, 753 anos após a fundação
da cidade de Roma.
Durante aproximadamente 250 anos Roma foi governada por
sete reis, sucessores de Rômulo. Por volta do ano 500 AC foi
proclamada a república e Roma passou a ser governada
teoricamente por três instituições:
A. Dois
cônsules,
B. O
Senado,
C. A
Assembléia
Popular.
Vamos explicar rapidamente como funcionavam estas três
instituições, pois isto é muito importante para a compreensão
do que se segue.
Os dois cônsules eram eleitos pela Assembléia Popular para um
período de apenas um ano.
Na Assembléia Popular votavam todos os cidadãos, mas não
por cabeça, e sim por centúrias. Como porém as centúrias dos
ricos eram menores em número de pessoas do que as centúrias
dos pobres, havia mais centúrias de ricos do que centúrias de
pobres e, portanto, eram eleitos cônsules sempre pessoas da
classe rica. Depois de um ano de mandato, os cônsules
passavam a fazer parte automaticamente do Senado pelo
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restante de suas vidas.
O senado não tinha teoricamente poder algum. Este nome, isto
é, senado, vem da palavra latina Senex, que significa velho. O
senado, como o próprio nome indicava, deveria ter sido,
teoricamente, apenas um conselho de homens vividos e
experientes. Sua função deveria ter sido apenas a de dar
conselhos aos cônsules. Quem tomava as decisões na república
eram os cônsules, mas tinham que submeter todas as decisões
mais importantes para serem votadas na assembléia popular.
Assim, pelo menos na teoria, quem mandava na república era a
assembléia popular.
Na prática, porém, nenhum cônsul jamais se atreveria a
submeter à assembléia popular nenhum assunto sem antes
consultar o senado, e muito menos se atreveria a não seguir o
conselho dos senadores. Portanto, quem governava de fato na
política romana não eram nem os cônsules nem a assembléia
popular, mas o senado constituído de aproximadamente 300
pessoas por mandato vitalício. Esta forma de governo é
conhecida como aristocracia; não é a monarquia, que é o
governo de um só, nem a democracia, que é o governo de todo
o povo, mas um governo de poucos e, teoricamente, escolhidos
entre os melhores e mais sábios dos cidadãos.
Além desse sistema especial de governo, a outra base da força
do povo romano era o seu exército. O exército não era
composto por militares de carreira, mas por todos os cidadãos
da república, pobres e ricos, que custeavam seus equipamentos
bélicos cada qual com os seus próprios recursos. O exército era
convocado pelo cônsul sempre que necessário. O voto dos
cidadãos na assembléia popular, conforme dissemos, era dado
não por cabeça, mas por grupos de homens denominados
centúras, as quais eram as unidades do exército romano. Os
cidadãos mais pobres só podiam custear equipamentos de
guerra mais baratos, daí que geralmente lutavam como
soldados de infantaria; já os cidadãos ricos iam armados a
cavalo, com equipamentos mais sofisticados. Por causa disso,
uma centúria de cidadãos ricos de menos homens era
considerada equivalente a uma centúria de cidadãos pobres
com maior número de soldados e é por este motivo que nas
votações da assembléia popular, apesar de haver mais pobres
do que ricos, o número de centúrias de ricos era maior do que o
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número de centúrias de pobres. Com este exército os romanos
conquistaram toda a Itália e depois toda a região ocidental do
Mediterrâneo, isto é, a África do Norte, o sul da França, na época
chamada Gália, a Espanha e Portugal, na época chamadas Ibéria
e Lusitânia.
Este sistema de governo provou ser o mais perfeito da
antiguidade e, enquanto não se corrompeu, fez fama, tendo sido
até mesmo nomeado das Sagradas Escrituras.
De fato, logo após a conquista de Alexandre do mundo oriental,
Roma foi conquistando progressivamente toda a parte ocidental
das terras banhadas pelo mar Mediterrâneo. Quando os judeus
se viram oprimidos pelos reis greco macedônios que
dominavam a Síria e o Oriente Médio, ouvindo falar da fama dos
romanos, mandaram embaixadores a Roma fazer um pacto que
garantisse a ajuda militar dos romanos contra o rei Antíoco que
os dominava. No oitavo capítulo do Primeiro Livro dos
Macabeus assim é narrado o fato, que ilustra com as palavras
da época a fama que os romanos difundiam no mundo de então:
"Entrementes,
chegou aos
ouvidos de
Judas
Macabeu a
fama dos
romanos, de
como são
fortes e
poderosos,
como
favorecem em
tudo aqueles
que
propendem
para eles,
fazendo
aliança de
amizade com
todos os que
recorrem a
eles, e assim
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crescendo em
poder.
Contaram-lhe
as guerras e as
valorosas
proezas que
tinham
realizado, e o
que fizeram na
Espanha, e
como
subjugaram
todo este país
com a sua
prudência e
constância,
apesar de
estar este país
muito distante
do deles. Os
outros reinos e
ilhas que
alguma vez se
lhes opuseram,
destroçaramnos e
reduziram-nos
à servidão;
com os seus
amigos,
porém, e com
os desejosos
de seu apoio,
mantiveram
amizade e
estenderam
seu poder
sobre os reis,
quer vizinhos,
quer distantes,
de modo que
todos os que
ouviram
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pronunciar o
seu nome
ficaram
atemorizados.
Sentam no
trono aqueles
a quem
querem ajudar
a reinar e
depõem os que
eles querem;
tão poderosos
chegaram a
ser. Não
obstante isso,
nenhum deles
cingiu o
diadema, nem
se vestiu de
púrpura com o
que se
pavonear, mas
constituíram
um Conselho
em que
diariamente
trezentos e
vinte
conselheiros
discutem
assiduamente
os negócios
públicos para
o seu bom
andamento.
Confiam por
um ano o
comando e o
governo de
todos os seus
domínios a um
só homem, e a
ele todos
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obedecem,
sem haver
entre eles
inveja e
rivalidade.
Então Judas
Macabeu
escolheu
Eupólemo,
filho de João, e
Jasão, filho de
Eleasar, e
mandou-os a
Roma para
estreitar
amizade e
aliança com
eles, e para
sacudir o jugo
visto como a
dominação dos
gregos
mantinha Israel
na servidão.
Foram, de fato,
a Roma,
viagem
longuíssima, e,
tendo entrado
no Senado,
falaram nestes
termos:
"Judas,
também
chamado
Macabeu, e
seus irmãos, e
o povo dos
judeus nos
enviaram a vós
para estreitar
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aliança e paz
convosco para
sermos
inscritos como
confederados
e amigos
vossos".
A proposta foi
acolhida
favoravelmente,
e celebraram
um acordo
escrito que
gravaram em
lâminas de
bronze que
enviaram a
Jerusalém
para que lá
ficasse como
testemunho de
amizade e
aliança".
1
Mac
8,122
O que aconteceu com os romanos depois disso foi um dos
processos de transformação política mais importantes a serem
examinados num curso de história; aqui nós somente o
poderemos relatar em suas linhas gerais.
Conforme falamos acima, nesta época o exército romano era
composto de todos os cidadãos, ricos e pobres, que se
armavam cada qual às suas próprias custas para a guerra e era
convocado pelo cônsul sempre que necessário. Foi este
exército que conquistou para os romanos toda a região
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ocidental do mediterrâneo e espalhou sua fama por todo o
mundo. Ora, à medida em que os romanos se iam tornando
donos do mundo ocidental da época, a riqueza começou a
crescer e surgiu à vista o perigo dos cidadãos se corromperem,
principalmente os líderes máximos da política, os componentes
do Senado, passando a julgar as decisões a serem tomadas não
mais segundo os interesses da República, mas segundo os
seus próprios interesses.
Para evitar isto, e num exemplo de rara honestidade para os
dias de hoje, inicialmente o próprio Senado fez aprovar uma lei
proibindo os senadores de se dedicarem a atividades de alto
lucro. Durante algum tempo esta medida evitou que a corrupção
chegasse àquele órgão.
A medida não pôde evitar, porém, que a corrupção chegasse a
outros lugares. Ela não evitou, por exemplo, o aparecimento de
uma classe de novos ricos, que poderiam ter sido os senadores,
que se dedicassem à exploração de latifúndios, isto é, grandes
propriedades de terra produzindo, mediante o trabalho escravo,
uma grande quantidade de gêneros agrícolas, como o trigo e o
azeite de oliveira. À medida em que estes latifundiários foram
tomando conta da agricultura, os pequenos proprietários, que
eram a maioria dos cidadãos romanos e a parte principal do
exército, foram empobrecendo, sendo progressivamente
obrigados a vender suas terras aos grandes proprietários e
caindo definitivamente na miséria ou na escravidão. Isto
acontecia justamente na época em que os romanos se tornavam
os donos do mundo ocidental e mais precisavam de um exército
forte.
Ora, é evidente que uma multidão de miseráveis não tem
interesse em morrer pela pátria e mesmo que tivesse, não teria
dinheiro para custear suas despesas pessoais no exército.
Começou, portanto, a ficar evidente que, se era necessário um
exército forte para manter o poderio romano no ocidente, este
novo exército teria que passar a ser custeado pelos novos ricos.
Mas, se isto acontecesse, a república fatalmente iria cair nas
mãos dessa nova classe de indivíduos.
Ora, antes que pudesse ser tomada uma decisão definitiva
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quanto a uma possível reorganização do exército, por volta do
ano 200 AC os irmãos Tibério Graco e Caio Graco, tribunos da
plebe, exigiram uma reforma agrária imediata. Ambos foram
assassinados e, em vez da reforma agrária, o que veio foi uma
sangrenta guerra civil no mundo romano.
Nesta época ficou evidente que a República Romana não
poderia continuar existindo sem a presença de um exército
permanente constituído de soldados profissionais que fossem,
ele próprios, uma classe à parte dentro da sociedade romana.
Tal exército foi constituído, e veio a ser de fato uma nova classe
dentro da República.
Quando isto ocorreu, porém, e não poderia deixar de ter
ocorrido, emm pouco tempo o senado percebeu que o perigo da
República não era mais o de cair nas mãos dos ricos
latifundiários, mas o de todos os romanos, inclusive os ricos
proprietários, cairem nas mãos do poder militar.
Por causa desse perigo, embora no início o exército fosse
permanente, o senado tomava o cuidade de não nomear para o
seu comando generais de carreira, mas senadores que
ocupavam temporariamente estes altos postos.
Com o tempo, porém, e com o aperfeiçoamento do exército, os
soldados passaram a recusar obediência a generais que não
eram verdadeiros militares, mas apenas políticos que vinham
comandá-los durante algum pequenos espaço de tempo. A
contragosto o senado teve que nomear generais mais ou menos
permanentes para o exército.
Durante a guerra civil, estes generais começaram a se dar conta
de que a luta entre os poucos detentores da riqueza e o partido
democrático, isto é, a massa dos cidadãos romanos
empobrecidos, poderia em breve se tornar um problema
secundário quando o primeiro general que conquistasse a
confiança geral do exército resolvesse tomar o poder.
No século seguinte, por volta do ano 50 AC, começou a ficar
claro que havia surgido um homem que reunia as condições
necessárias para dar o golpe. Chamava-se Júlio César, um
senador que apoiava abertamente a causa do partido
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democrático. Para afastá-lo do centro político da época, que era
a própria Roma, lhe foi confiado o cargo de general no exército
da fronteira nos confins da Gália, atual sul da França, cargo este
que Júlio César aceitou de muito bom grado.
Júlio César aproveitou o cargo e com seu exército conquistou
para a República Romana todo o restante do norte da França, a
Bélgica, a Suíça, a Alemanha e metade da Inglaterra. Seu modo
de agir, o respeito que tinha pelos seus soldados, a admiração e
ao mesmo tempo a inveja que sentia por Alexandre o Grande
que os relatos da época nos contam, sua coragem, verdeira,
mas muitas vezes apenas ostensivamente encenada,
conquistaram-lhe o devotamento quase incondicional do seu
exército.
Uma história da juventude de Júlio César ilustra bem as
qualidades que ele mais tarde iria desenvolver como general
nas Gálias; esta história é narrada pela maioria dos biógrafos
antigos de Júlio César; tal como está nestas notas, é adaptada
da biografia de César devida a Alfred Duggan.
Quando ainda jovem, com cerca de 23 anos, sem ainda ter
ocupado nenhum cargo político de importância, Júlio César
dirigiu-se à Ásia para estudar Retórica, a arte de bem falar e
escrever, com um famoso professor da época, Apolônio Molo,
que também foi professor do famoso Cícero. Chegou a Mileto
onde embarcou em um navio que se dirigia à ilha de Rodes,
residência de Apolônio.
Ao atravessar de Mileto para Rodes, foi capturado por piratas,
que reconheceram imediatamente o valor do prisioneiro, um
jovem aristocrata romano, acompanhado por dez escravos e um
médico particular. Oito escravos foram despachados de volta
para Mileto a fim de negociar um resgate, enquanto que César,
seu médico e dois outros escravos ficavam retidos em uma ilha
sob a guarda dos piratas.
César esperava a morte com tortura se não voltassem seus
escravos com o resgate. O problema era que sua família não
tinha a riqueza correspondente à sua posição de nobre; talvez
nem na Itália ele possuísse o dinheiro que os piratas pediam
pelo resgate, mas em Mileto, onde os escravos tinham ido
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buscá-lo, César não possuía absolutamente nada. Em face,
porém, do perigo de morte, passou a comportar-se com aquela
coragem fabulosa, quase febril, que o tornou mais tarde o ídolo
de seus soldados.
Os piratas haviam pedido 20 talentos pela vida de César; um
talento era na época dinheiro bastante para assegurar o
conforto de toda uma família. César respondeu que ficava
indignado que um nobre como ele tivesse tão baixa cotação e
para espanto dos piratas ofereceu 50 talentos como valor de sua
pessoa. Acrescentou, porém, que depois de haver
honestamente readquirido sua vida, pagando por ela, voltaria à
caça de seus raptores e não descansaria enquanto não
assistisse à execução deles. Os piratas acharam
engraçadíssima a piada do jovem estudante de retórica, e
enquanto aguardavam a chegada do tesouro deram a César
permissão para andar livremente pela ilha.
César, porém, não perdia a arrogância. Observava os piratas em
exercícios com suas armas e criticava-lhes a incompetência.
Sabia que sua vida estava por um fio e divertia-se naturalmente
pondo à prova seus raptores e levando-os ao limite da
paciência. Como estudante de retórica, muitas vezes compunha
textos em verso e prosa; pedia que não o perturbassem quando
ele estivesse escrevendo e conseguiu realmente impor este
desejo aos piratas. Depois então punha-se a entreter os piratas
com a leitura de seus escritos. Como estes dessem mostras de
tédio, passava a repreendê-los dizendo que não passavam de
uns bárbaros, incapazes por causa de seu baixo ofício de
apreciar o estilo grego. Diante disso, continuava César, ele, que
tinha pensado seriamente em não mais vir a executar seus
companheiros até que agradáveis, vendo porém como não
sabiam dar valor a estas coisas, também não mereciam atulhar a
face da terra, e afinal de contas tinha que concluir estar de
acordo com o fim próximo que os aguardava. Os piratas
continuavam achando divertidíssima toda esta basófia.
Como os escravos de César conseguiram o dinheiro foi uma
coisa obscura. Os Césares não eram considerados ricos em
roma, mas, por outro lado, era evidente que o jovem tinha
talento político; se viesse a atingir altos postos, certamente
morreria como todos cheio de dinheiro. A Ásia estava cheia de
emprestadores de dinheiro e de agiotas; talvez consideraram
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ser a vida de César um bom negócio e emprestaram a alta
importância do resgate.
Posto em liberdade, César foi para Mileto. Nunca havia ocupado
qualquer posição oficial, mas era cidadão romano de família de
senadores. Lá chegando, verificou que Mileto não tinha forças
armadas próprias, e a guarnição romana mais próxima estava
longe. No porto havia apenas umpunhado de navios mercantes;
César requisitou-os com os seus dotes oratórios como
voluntários para caçar os piratas, e não faltou quem se
apresentasse.
Lá foi ele, com seus navios, diretamente à ilha dos piratas, onde
os encontrou, com a incorrigível incompetência que tantas
vezes lhes havia censurado, ainda na enseada celebrando sua
façanha e contando o dinheiro. Caiu sobre eles de surpresa,
colocou- os a ferro e os levou para a cidade de Pérgamo, a
cidade mais próxima em que havia uma fortaleza romana.
Chegando a Pérgamo, nova surpresa; o comandante não estava,
ausente em uma campanha militar, ao que parece para caçar os
mesmos piratas que Júlio César havia capturado, em poder dos
quais havia-se espalhado o boato de que haveria 50 talentos.
Em vista da ausência da autoridade militar, Júlio César, sem ser
oficialmente ninguém, ordenou que os criminosos fossem
crucificados; como, porém, ele pessoalmente achasse que esta
espécie de morte fosse horrivelmente penosa e, afinal de
contas, Júlio César devia alguma coisa aos piratas por lhe terem
permitido certo conforto no cativeiro, mandou que lhes
cortassem as gargantas antes de o pregarem às cruzes.
Punir implacavelmente e evitar sofrimento desnecessário, uma e
outro coisa viriam a ser típicas do realismo de César.
Sua justiça não conhecia a misericórdia, mas nunca se desviava
de seus objetivos para a tortura ou o despreza inútil. E isto era
visto na época como um sinal de humanidade, muito maior de
que grande parte das outras outoridades militares da época era
capaz de possuir.
Mortos os piratas, que fez Júlio César? Tomou os 50 talentos de
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NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.1, C.4.
volta e pagou àqueles que lhe tinham emprestado o dinheiro. Do
restante dos bens que tinham os piratas não ficou com nada,
distribuiu tudo entre os voluntários que o tinham ajudado a
capturá-los. Nesta história toda, um jovem havia feito guerra e
condenado criminosos sem autoridade legal alguma; era uma
surpreendente e inacreditável usurpação de poder; mais
surpreendente ainda, porém, foi que ninguém reclamou e obteve
os elogios de todos.
A narrativa deste episódio mostra bem as qualidades que
fizeram do futuro general Júlio César o delírio de seus soldados
nas Gálias. Mas, tal como está contada nestas notas, é mais do
que uma simples curiosidade. Nesta historinha da juventude de
Júlio César está descrita no fundo toda uma personalidade que,
juntamente com a situação política da época, permitiu a um
homem quase desprovido de recursos, relegado ao trabalho de
vigiar uma fronteira distante, em poucos anos se tornar o
senhor do mundo e transformar a república romana num
império sob o comando perpétuo de um só homem.
Personalidades deste tipo, porém, são como moedas de duas
faces; conforme veremos, assim como ela seria em grande parte
responsável pelas vitórias de Júlio César, veio mais tarde a ser
responsável também pela sua morte prematura.
Continuando, porém, nossa história, mortos os piratas, de
Pérgamo Júlio César embarcou novamente para Rodes onde
passou alguns anos aprendendo a arte da retórica; nenhum
pirata ousou causar-lhe quaisquer novos transtornos; usou
posteriormente seu talento adquirido nestes anos de estudo não
só como orador, mas também como escritor, redigindo ele
próprio em livro a narrativa de suas guerras de conquista no
norte da Europa sob o título de A Guerra da Gália, ou, como é
mais conhecido no original latino, De Bello Gallico; este livro
veio a se tornar, juntamente com as obras de Cícero, o principal
clássico da língua latina, até hoje estudado por todos aqueles
que desejam aprender esta língua na sua forma considerada
mais perfeita.
Mais tarde, ouvindo falar destas vitórias de César nas Gálias, o
senado romano temeu, e enviou uma intimação a Júlio César
ordenando a sua volta a Roma e declarando extinto o prazo de
seu generalato. Júlio César aceitou a ordem de retornar a Roma,
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NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.1, C.4.
mas não a extinçao do generalato. Fez questão de voltar a Roma
acompanhado de seu exército, e os senadores amedrontados
não só tiveram que aceitá-lo como general, como também
nomeá-lo cônsul vitalício da república romana.
César passou a governar a república romana como se fosse um
rei, embora não tivesse tal título. Em sua época ou pouco antes
os romanos conquistaram toda a parte oriental do Mediterrâneo,
isto é, a Grécia, a Ásia, o Egito e o norte da Arábia. Destruíram
também em caráter definitivo todas as frotas de piratas que
infestavam o Mediterrâneo, o qual assim se tornou seguro e
facilmente navegável por quaisquer barcos comerciais e de
transporte. Pouco antes de César tornar-se cônsul vitalício
Pompeu havia invadido a Palestina e conquistado o povo judeu
para a República Romana. Muitos judeus foram deportados para
a cidade de Roma, onde acabaram formando uma grande
colônia, e outros emigraram para cidades gregas, onde
estabeleceram sinagogas em suas principais cidades.
Júlio César poderia ter governado sabiamente a república
romana se tivesse procurado fazê-lo de comum acordo com o
senado, coisa que esta instituição teria tolerado de bom grado.
Em vez disso, porém, preferiu governar com manifesto desprezo
pelos senadores e com medidas frequentemente
ostensivamente humilhantes para a instituição senatorial. O
resultado que acabou colhendo foi que, poucos anos depois, ao
entrar no recinto do senado, uma multidão de senadores, entre
os quais se achava o seu filho adotivo Brutus, o apunhalou
impiedosamente.
Depois de vários acontecimentos, o poder acabou passando
para Otávio, também filho adotivo e herdeiro de Júlio César, o
qual de uma certa forma estabeleceu um pacto com os
senadores pelo qual passaria a governar Roma de comum
acordo com o senado e em troca o senado lhe conferiria o título
de Príncipe, Imperador e Augusto. Roma assim deixava de ser
um república e passava a ser um império. Foi nesta época do
Imperador Otávio César Augusto que, no outro lado do mundo
de então, sem fazer alarde, Jesus Cristo nasceu em um estábulo
de Belém de Judá. O imperador queria saber as proporções do
império que havia herdado; pela primeira vez na história
ordenou um recenceamento completo de toda a população dos
domínios romanos, mandando que cada um se cadastrasse em
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NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.1, C.4.
sua cidade de origem. Foi assim que José, esposo de Maria,
encaminhando-se para Belém, sua cidade natal, para cadastrarse, foi surpreendido pelo nascimento de Jesus sem que
houvesse vagas nas hospedarias da cidade.
A partir do império de César Augusto, poucos anos antes do
nascimento de Jesus, iniciou-se na história um período de
alguns séculos conhecido como a paz romana. Devido à
sabedoria com que era governado o império, e devido também
ao domínio quase que total de todo o mundo conhecido, pela
primeira vez na história cessaram as guerras quase que
completamente.
Com o fim da pirataria no mar Mediterrâneo, facilitaram-se as
comunicações entre todas as principais partes do império
interligadas que estavam pelo Mediterrâneo. Os romanos ao
conquistarem cada nova nação sempre respeitavam não só as
leis próprias como inclusive os governantes que as regiam. Eles
apenas acrescentavam às leis locais outras leis romanas e aos
governantes locais outro governador nomeado por Roma que
era responsável pelo exército na região, pela arrecadação dos
impostos e pela execução de algumas leis especiais, como os
julgamentos em que era dada a sentença de morte, que somente
poderia ser sentenciada pelo representante de Roma. Este
sistema foi geralmente tão benéfico para ambas as partes que
houve diversos casos de reis que, ao morrerem, deixavam em
testamento seu reino não aos seus herdeiros, mas aos romanos.
Em relação às línguas faladas no Império Romano, devido à
conquista anterior de Alexandre do mundo do Oriente, da Grécia
para o leste falava-se universalmente o grego.
Devido às conquistas romanas na região ocidental do
mediterrâneo, da Itália para o oeste e no norte ocidental da
África falava-se principalmente o latim.
Na própria cidade de Roma, onde tudo se centralizava, falava-se
correntemente tanto o latim como o grego. Houve inclusive o
costume das crianças ricas em Roma serem educadas desde a
primeira idade por escravas gregas que lhes ensinavam a língua
grega antes que os seus pais lhes ensinassem a língua latina.
Quando, por volta do ano 60 depois de cristo São Paulo
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NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.1, C.4.
escreveu uma carta aos romanos, escreveu esta carta em grego
e não em latim. O Evangelho de São Marcos, escrito também na
cidade de Roma para ser lido pelos cristãos romanos, foi
também escrito no original em grego, e não em latim, embora
com muitas expressões e modos de dizer típicas da língua latina
e não da grega. Vê- se, desta forma, como as duas principais
línguas do mundo desta época eram o latim e o grego, e o
íntimo contato que tinham estas línguas na capital romana; é
precisamente destas duas que mais tarde viria a formar-se a
nossa língua portuguesa, cuja maioria das palavras vem do
latim, do grego ou de ambas. Por exemplo, as palavras livro,
navio, pão, jovem, mesa, céu, noite e tantas outras vêm
diretamente do latim. As palavras igreja, telegrama, biblioteca,
política, democracia, hierarquia, anjo, Deus, hidráulica,
trigonometria, ética, pneu, física, geometria, pedagogia,
quilômetro e tantas outras são palavras gregas. Já na palavra
televisão, as duas primeiras sílabas vêm do grego, as duas
últimas vêm do latim.
Ao imperador César Augusto sucedeu o imperador Tibério
César. Sob o governo de Tibério, Jesus Cristo pregou o
evangelho durante três anos, morreu crucificado e ressuscitou
depois de três dias, enviando doze de seus discípulos para
ensinarem sua doutrina a todo o mundo, unificado e em paz sob
o poderio romano. Juntamente com a doutrina cristã estes
apóstolos levaram ao conhecimento de todo o império as
Escrituras Judaicas do Antigo Testamento.
Com isto surgiu a nossa civilização, que possui suas raízes
simultâneamente na cultura hebraica, grega e romana.
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NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.2, C.1.
O INÍCIO DA FILOSOFIA
NA GRÉCIA
Capítulo 1
Sócrates é o filósofo que marca uma das grandes linhas
divisórias na história da Filosofia Grega. Um dos motivos para
tanto, dentre outros, é que somente dos filósofos que viveram
depois de Sócrates chegaram até nós obras completas. Apesar
de conhecermos numerosos filósofos antes de Sócrates, não
restam deles senão notícias ou fragmentos de suas obras que
só nos chegaram porque foram citados ou copiados em obras
de filósofos posteriores. Por este motivo todos os primeiros
filósofos gregos são chamados genericamente pelo nome de
filósofos pré-socráticos.
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NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.2, C.2.
Capítulo 2
Como Sócrates faleceu por volta do ano 400 AC, e o primeiro
filósofo grego conhecido Tales de Mileto, o qual viveu por volta
do ano 600 AC, estes duzentos anos são conhecidos também
como o período da filosofia pré-socrática.
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NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.2, C.3.
Capítulo 3
Mas mesmo entre os pré-socráticos há ainda outras linhas
divisórias. Uma das mais nítidas é a marcada por um dos mais
importante pré-socráticos, Parmênides de Eléia. Estas notas se
referem ao caráter da filosofia pré-socrática apenas antes do
aparecimento da obra de Parmênides, embora Anaxágoras,
abaixo citado, lhe seja contemporâneo.
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Provvisori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE2-3.htm2006-06-02 14:46:48
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.2, C.4.
Capítulo 4
O primeiro filósofo grego, conforme dizíamos, foi Tales de
Mileto. Tanto ele como os demais primeiros filósofos gregos são
apresentados pelos livros texto modernos de Filosofia como
pessoas dedicadas ao problema de determinar qual é o princípio
material de que é constituída a natureza. No caso de Tales,
citam-se as seguintes palavras de Aristóteles como se referindo
ao que seria a sua doutrina fundamental:
"Tales diz
que o
princípio é
a água,
pelo que
ele
sustentava
que a
própria
terra está
fundada
sobre a
água. Para
afirmar
isso ele se
apoiava no
fato de que
via que o
alimento de
todas as
coisas é
úmido e
inclusive
que o que é
quente
nasce e
vive no
úmido. Ora,
aquilo de
que tudo se
engendra é
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Pr...isori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE2-4.htm (1 of 2)2006-06-02 14:46:48
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.2, C.4.
o princípio
de tudo.
Por isso
Tales
aderiu a
tais
conjecturas,
e ainda
mais
porque as
sementes
de todas as
coisas
possuem
uma
natureza
úmida e a
água nas
coisas
úmidas é o
princípio
de sua
natureza".
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Pr...isori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE2-4.htm (2 of 2)2006-06-02 14:46:48
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.2, C.5.
Capítulo 5
Contemporâneo de Tales foi Anaximandro. Ele escreveu uma
obra intitulada "Sobre a Natureza", da qual, como os restantes
pré-socráticos, apenas sobraram fragmentos citados em outros
livros de filósofos posteriores. Segundo ele, o princípio da
natureza não era a água, nem o ar, nem nenhum outro elemento
particular, mas o infinito, algo em que todas as coisas têm
origem e em que todas as coisas se dissolvem quando termina
o ciclo estabelecido para elas por uma lei necessária. Este
princípio infinito seria por si mesmo indestrutível.
Anaximandro dizia também que a Terra é um cilindro que se
encontra equilibrado no meio do mundo sem que nada o
sustente porque, encontrando-se a igual distância entre todas
as partes, não poderia ser movido por nenhuma delas.
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Provvisori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE2-5.htm2006-06-02 14:46:48
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.2, C.6.
Capítulo 6
O primeiro a ter introduzido a Filosofia na cidade de Atenas foi
Anaxágoras, por volta de 450 AC, depois, portanto, das guerras
médicas e no auge do poder ateniense. Também ele escreveu
um livro intitulado "Sobre a Natureza", que se perdeu. Neste
livro ele afirmava que não havia um princípio único constituindo
a natureza, mas muitos, e estes sob a forma de partículas
invisíveis a que ele chamava de sementes. As sementes não
nascem nem morrem, mas combinam-se entre si de formas
diversas e com isto dão origem às diversas substâncias. Em
todas as coisas há sementes de todas as coisas, e a natureza de
cada uma é determinada pelas sementes que prevalecem.
Originariamente estas sementes estavam todas misturadas
desordenadamente; uma inteligência, de natureza totalmente
diversa, por não ser constituída de sementes, teria introduzido
então nelas o movimento e a ordem.
Anaxágoras é o primeiro filósofo registrado pela história a ter
afirmado a existência de um princípio inteligente como causa da
ordem do mundo. Aristóteles disse que ele
"afirmava
que
existe
uma
mente na
natureza,
assim
como
existe
nos seres
vivos, e
esta
mente é a
causa da
beleza e
da ordem
do
Universo".
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Pr...isori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE2-6.htm (1 of 2)2006-06-02 14:46:48
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.2, C.6.
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Pr...isori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE2-6.htm (2 of 2)2006-06-02 14:46:48
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.2, C.7.
Capítulo 7
Considera-se freqüentemente nos livros textos modernos que a
diferença entre os primeiros filósofos gregos e outros textos
aparentemente semelhantes de outras partes do mundo da
época consistiria principalmente em que enquanto os demais,
ao discorrerem sobre a natureza nada mais faziam do que
reportar um mito ou uma lenda, os filósofos gregos, ao
contrário, mesmo quando apresentavam uma teoria
aparentemente ingênua, esta não era porém mais um mito para
eles, mas uma tentativa de explicar ou pelo menos de buscar
uma verdade que pudesse ser compreendida e justificada
racionalmente. Esta atitude não existiria entre os demais povos
da época. Tal interpretação, porém, não é inteiramente
satisfatória, e é fácil de apreender-se nela uma transferência um
pouco simplista do ideal contemporâneo da pesquisa científica
para os filósofos pré-socráticos. De fato, para entender o que
deu origem ao movimento filosófico é preciso fazer um esforço
proposital para nos reportarmos a um mundo e a um
pensamento muito diferente do que aquele ao que estamos
habituados nos dias de hoje.
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Provvisori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE2-7.htm2006-06-02 14:46:48
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.2, C.8.
Capítulo 8
A interpretação da filosofia pré-socrática que comentamos no
item anterior também é resultado de uma análise por parte de
alguns autores modernos que leva muito mais em conta os
pequenos testemunhos do que sobrou da doutrina dos filósofos
pré-socráticos, desconsiderando outros testemunhos, poucos
também, mas que igualmente nos chegaram, sobre o gênero de
vida que eles levavam e os seus traços pessoais.
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Provvisori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE2-8.htm2006-06-02 14:46:49
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.2, C.9.
Capítulo 9
Os filósofos gregos posteriores apresentaram os primeiros présocráticos como pessoas desprendidas das preocupações
materiais do dia a dia e dedicados apaixonadamente à
contemplação da natureza.
Sobre Tales de Mileto corria na antiguidade uma anedota
transcrita nas obras de Platão e de Aristóteles de que ele,
caminhando pelo campo e absorto na contemplação do céu
prendeu o pé em uma armadilha para animais, provocando as
gargalhadas de uma velhinha natural; da Trácia que o estava
seguindo, que lhe lançou ao rosto o seu costume de contemplar
as estrelas sem ver onde os pés pisavam.
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Provvisori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE2-9.htm2006-06-02 14:46:49
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.2, C.10.
Capítulo 10
Quanto a Anaxágoras, o que introduziu a Filosofia em Atenas,
também é apresentado pela tradição como um homem estranho
a qualquer atividade prática. Para poder se ocupar a contemplar
a natureza, entregou toda a sua fortuna de presente aos seus
parentes. Interrogado sobre o objetivo de sua vida, respondeu
que vivia para contemplar o Sol, a Lua e o céu. Aos que lhe
reprovaram a falta de interesse pela sua pátria, respondeu que a
sua pátria, ao contrário, lhe importava muitíssimo, apontando
com o dedo para o céu.
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Provvisori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE2-10.htm2006-06-02 14:46:49
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.2, C.11.
Capítulo 11
Pitágoras, ao que parece, tendo sido primeiramente discípulo de
Anaximandro de Mileto, conterrâneo e contemporâneo de Tales,
e tendo depois passado mais de duas décadas estudando entre
os sábios do Egito e depois mais uma década e pouco entre os
sábios da Pérsia, quando voltou para a sua pátria e lhe
perguntaram o que era ser filósofo, respondeu com a seguinte
comparação:
"A
sociedade
humana
assemelhase à grande
assembléia
dos gregos
por ocasião
dos Jogos
Olímpicos.
Aí alguns
aparecem
com a
intenção de
alcançar
vitórias e
louros,
outros
procuram
vender suas
mercadorias,
e outros
cuidam de
comprar as
coisas de
que
precisam.
Há,
entretanto,
uma
categoria de
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Pr...sori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE2-11.htm (1 of 3)2006-06-02 14:46:49
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.2, C.11.
pessoas",
diz Pitágoras,
"justamente as
mais distintas e
de máximo
engenho, que
não buscam
aplausos nem
vantagens, mas
que
comparecem
aos jogos como
expectadores e
examinam
cuidadosamente
as coisas que
se passam.
Pois isso
mesmo",
continua Pitágoras,
"é o que
ocorre na vida.
Uns se
apegam
exclusivamente
à glória,
outros ao
dinheiro. Há,
porém, um
punhado de
pessoas
espalhado
pelo mundo
que se
desapegam de
tudo para
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Pr...sori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE2-11.htm (2 of 3)2006-06-02 14:46:49
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.2, C.11.
observarem
curiosamente
a natureza.
Estes são os
filósofos, e
assim como a
atitude mais
distinta nos
Jogos
Olímpicos é a
do puro
espectador,
assim na vida
a
contemplação
e o estudo da
natureza
sobrepujam os
outros tipos
de atividade. O
filósofo é o
espectador da
natureza, o
homem que
examina
curiosamente
como as
coisas se
passam".
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Pr...sori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE2-11.htm (3 of 3)2006-06-02 14:46:49
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.2, C.12.
Capítulo 12
Aparentemente esta atitude é tão estranha e inesperada para o
homem de hoje que a sua primeira reação será provavelmente a
de considerar tais pessoas como excêntricas, quando não
loucas. Entretanto, uma série de outros testemunhos de
filósofos e historiadores que viveram na antiguidade
posteriormente aos pré-socráticos deveriam desfazer esta
primeira impressão e forçar o homem de hoje a tentar buscar
uma interpretação mais profunda para esta atitude dos filósofos.
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Provvisori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE2-12.htm2006-06-02 14:46:50
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.2, C.13.
Capítulo 13
De Tales, sabe-se que era capaz de calcular e prever os eclipses
solares. Ele deixou demonstrados alguns teoremas de
Geometria que são estudados até hoje. De Tales de Mileto assim
afirmou Aristóteles em seu Tratado de Política:
"Atribui-se a
Tales de
Mileto, por sua
grande
sabedoria,
uma
especulação
lucrativa que,
aliás, nada
tem de
extraordinário.
Reprovava-se
a sua pobreza,
dizendo-se-lhe
que a Filosofia
para nada
serve se é
para ficar
pobre.
Aborrecendose Tales com
estes
comentários,
ele previu, por
seus
conhecimentos
de
Astronomia,
que iria haver
uma
extraordinária
colheita de
azeitonas.
Estava-se,
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Pr...sori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE2-13.htm (1 of 6)2006-06-02 14:46:50
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.2, C.13.
porém, ainda
no inverno.
Procurou
Tales o
dinheiro
necessário e
arrendou
todas as
prensas de
óleo de Mileto
e de Quio por
um preço
irrisório, pelo
fato de ser
inverno e de
não ter
concorrentes.
Quando veio a
colheita as
prensas foram
procuradas de
repente por
uma multidão
de
interessados.
Alugou então
Tales as
prensas pelo
preço que ele
quis e,
realizando
assim grandes
lucros,
mostrou que é
fácil aos
filósofos
enriquecerem
quando
querem,
embora não
seja este o fim
de seus
estudos. E
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Pr...sori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE2-13.htm (2 of 6)2006-06-02 14:46:50
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.2, C.13.
assim é que
se diz que
Tales provou
a sua
habilidade".
O mesmo Tales é citado pelos historiadores antigos como
grande amigo de Sólon, o grande reformador de Atenas, o que
mostra que, apesar de sua pobreza, não era tido por qualquer
um. O primeiro encontro havido entre Sólon e Tales é narrado
por Plutarco ao biografar a história de Sólon no seu livro "As
Vidas dos Homens Ilustres". Sólon vinha de Atenas e, ouvindo a
fama de Tales, passando por Mileto, quis fazer-lhe uma visita
pessoal. Diz então Plutarco:
"Na visita a
Tales, em
Mileto, Sólon
estranhou
seu completo
desinteresse
pelo
matrimônio e
pela
procriação.
Tales ficou
calado no
momento;
deixou passar
alguns dias e
arranjou um
estrangeiro
que se
dissesse
recém
chegado de
uma viagem
de dez dias a
Atenas.
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NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.2, C.13.
Sólon
perguntou-lhe
quais as
novidades de
lá. O homem,
instruído
sobre o que
responder,
disse:
`Nada, senão
o enterro de
um moço,
acompanhado
pela cidade
toda. Era,
segundo
diziam, o filho
de um homem
ilustre, o mais
distinto dos
cidadãos por
suas virtudes.
Este não se
achava
presente;
constava que
estava de
viagem havia
muito tempo'.
`Que homem
desventurado',
exclamou
Sólon. `Como
se chamava?'
`Ouvi o
nome",
respondeu o
homem, "mas
só me lembro
que se
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NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.2, C.13.
comentava
muito sobre
sua sabedoria
e eqüidade'.
Assim, cada
resposta ia
levando
Sólon ao
medo. Por
fim, todo
conturbado,
declarou o
seu nome ao
estranho e
perguntou se
não diziam
ser o morto
filho de
Sólon.
O homem
respondeu
que sim.
Então Sólon
começou a
dar murros na
cabeça, e a
fazer e dizer
tudo o mais
que nestes
transes se
costuma.
Tales, porém,
tomou-o pelo
braço, rindo,
e disse:
`Aí está,
Sólon, o que
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NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.2, C.13.
me afasta do
casamento e
da
procriação;
são estas
coisas que
transtornam
até um
homem
inabalável
como tu.
Vamos, não te
desalentes
com esta
notícia, pois
ela é falsa'".
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NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.2, C.14.
Capítulo 14
Quanto a Anaxágoras, aquele que introduziu a Filosofia em
Atenas e apontava para o céu para indicar a sua pátria, o mesmo
Plutarco atribui a este filósofo toda a formação do caráter de
Péricles, o homem mais importante de toda a história grega
depois de Alexandre o Grande, o qual último, ademais, também
ele viria a ser educado por outro filósofo, nada menos do que o
próprio Aristóteles.
O testemunho de Plutarco sobre Anaxágoras é bastante
eloqüente. Encontra-se na "Vida dos Homens Ilustres", quando
biografa a vida de Péricles. Diz Plutarco que
"quem, todavia,
mais
estreitamente
se ligou a
Péricles,
formando-o de
sentimentos
altivos,
superiores à
sedução da
demagogia,
quem, em
suma, o elevou
às alturas e
ergueu a
dignidade de
seu caráter foi
Anaxágoras de
Clazômenas; a
estes os seus
contemporâneos
o apelidaram de
`A Mente', ou
por lhe
admirarem o
saber imenso
no ramo das
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Pr...sori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE2-14.htm (1 of 5)2006-06-02 14:46:50
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.2, C.14.
Ciências da
Natureza,
manifestamente
excepcional, ou
por ter sido o
primeiro a
atribuir o
princípio da
ordem universal
não ao acaso,
nem ao destino,
mas a uma
Mente pura e
sem mescla
que, em meio à
mistura geral,
reúne à parte as
substâncias
homeômeras.
Votando a este
homem uma
desmedida
admiração e
forrado da
chamada
ciência dos
corpos celestes
e de altas
especulações,
Péricles,
aparentemente,
não só
mantinha uns
sentimentos
altivos, uma
linguagem
elevada, muito
longe do mau
gosto vulgar,
mas também
um semblante
composto que
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NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.2, C.14.
nunca o riso
desmanchava,
um andar
pausado, um
aprumo nas
vestes, que
emoção
nenhuma
perturbava nos
discursos, bem
como uma
impostação de
voz
imperturbável, e
todos os mais
traços desses
que
impressionavam
a toda a gente.
Certa vez, por
exemplo,
insultado e
destratado na
praça por um
indivíduo
desclassificado
e sem
educação,
suportou-o
calado o dia
inteiro,
enquanto
cuidava de seus
negócios
urgentes. À
tarde voltou
para casa, sem
alterar-se,
enquanto o
homem o
seguia de perto
enxovalhando-o
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NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.2, C.14.
com toda a
sorte de
palavrões.
Quando estava
para entrar,
como já caía a
noite, mandou
um de seus
servos tomar
uma lanterna e
escoltar o
homem até
entregá-lo em
casa.
Mas nem só
estes proveitos
colheu Péricles
no convívio de
Anaxágoras.
Também
superou quanta
superstição
produz o terror
dos fenômenos
celestes
naqueles que,
por ignorância,
se deixam
transtornar e
confundir pelos
assuntos
divinos. O
estudo da
natureza
remove esta
ignorância e em
lugar da
superstição
timorata e
inflamada cria
uma piedade
confiante, de
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NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.2, C.14.
boas
esperanças".
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NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.2, C.15.
Capítulo 15
E, no que diz respeito a Pitágoras, a história afirma que, depois
de ter completado sua formação primeiramente com
Anaximandro, depois no Egito e na Pérsia, nas cidades da
Magna Grécia onde ele ou os seus primeiros discípulos abriam
uma escola de Filosofia, as populações locais suplicavam aos
seus governantes que aceitassem os filósofos pitagóricos como
conselheiros permanentes, o que estes costumavam fazer, sob
a orientação da própria escola, sem daí procurarem vantagens
financeiras.
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Provvisori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE2-15.htm2006-06-02 14:46:50
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.2, C.16.
Capítulo 16
Estas informações são suficientes para deixar entrever que o
principal objetivo dos primeiros filósofos de viverem para
contemplar a natureza não pode ser ingenuamente classificado
como uma simples extravagância. Ao contrário, é preciso que
seja mais seriamente analisado e interpretado, o que será feito,
colocada esta introdução, posteriormente neste livro.
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NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.2, C.17.
Capítulo 17
A interpretação correta do que se entendia por uma vida
dedicada à contemplação da natureza é passo decisivo também
para o correto entendimento da obra de Parmênides. este
homem, de fato, operou um salto gigantesco no conceito de
Filosofia dos primeiros pré-socráticos, o qual não poderá ser
compreendido se não for possível compreender primeiramente
com uma certa profundidade o verdadeiro significado da atitude
dos primeiros filósofos que o precederam.
São Paulo, 31 de março de 1989
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Provvisori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE2-17.htm2006-06-02 14:46:51
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.3, C.1.
A CONTEMPLAÇÃO DA NATUREZA
NOS PRIMEIROS PRÉSOCRÁTICOS
Capítulo 1
Conforme vimos, a filosofia iniciou-se com os filósofos présocráticos, nome genericamente dado aos pensadores gregos
compreendidos entre os anos 600 AC e 400 AC que apresentam
em comum o fato de não terem restado dos mesmos obras
completas, mas apenas fragmentos citados em obras de
filósofos posteriores. Podemos dividir ainda o período da
filosofia pré-socrática em duas épocas distintas, o período
anterior e posterior a Parmênides.
Os filósofos anteriores a Parmênides são chamados geralmente
de naturalistas, por terem se dedicado à especulação sobre a
natureza como principal assunto que surge nos fragmentos que
deles nos restaram.
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Provvisori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE3-1.htm2006-06-02 14:46:51
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.3, C.2.
Capítulo 2
Há também, conforme vimos, indicações seguras, apesar de não
conhecermos a obra completa destes filósofos, que eles não
somente escreveram sobre a natureza, mas também se
dedicavam a uma vida de contemplação da natureza.
Assim, Tales foi visto caindo em uma armadilha por seu hábito
de contemplar o céu e foi objeto de riso por este motivo por
parte de uma velhinha natural da Trácia. O incidente é narrado
por mais de um autor posterior, de modo que parece ter-se
tornado proverbial.
Anaxágoras, interrogado sobre o objetivo de sua vida,
respondeu que vivia para contemplar o Sol, a Lua e o céu.
Pitágoras, perguntado sobre o que seria um filósofo, respondeu
que a vida se comparava aos Jogos Olímpicos. Alguns vão para
alcançar a vitória, outros para vender mercadorias, outros para
comprar coisas necessárias. Outros, finalmente, que são os
filósofos, vão não para procurar aplausos, nem vantagens, mas
como espectadores que contemplam curiosamente como as
coisas se passam. Eles se desapegam de tudo para observarem
curiosamente a natureza.
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Provvisori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE3-2.htm2006-06-02 14:46:51
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.3, C.3.
Capítulo 3
Sobre tudo isso já comentamos anteriormente, abordando o
assunto pelo ponto de vista histórico e dos testemunhos da
época. Queremos agora interpretar o que significa semelhante
atitude, tão estranha aos homens de hoje, e quais são as suas
conseqüências.
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NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.3, C.4.
Capítulo 4
É necessário primeiro perceber como contemplar a natureza não
é a trivialidade que nós supomos que seja num primeiro
momento. Ela pode ser, e é de fato, um desafio mais profundo
para o espírito humano do que o estudo de qualquer disciplina,
tais como são ensinadas ou estudadas nas escolas de hoje. Se
nós não somos capazes de perceber isto apesar de estarmos
mergulhados na natureza o tempo todo, é simplesmente porque
estamos habitualmente preocupados com nossos problemas
mesquinhos do dia a dia que desviam toda a atenção da nossa
inteligência do espetáculo extraordinário que nos circunda.
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Provvisori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE3-4.htm2006-06-02 14:46:52
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.3, C.5.
Capítulo 5
Para tentarmos ter um vislumbre do que procuramos dizer,
vamos considerar o ato mais trivial de qualquer estudante, o ato
de vir à escola.
Antes de vir à escola, para retemperar nossas forças e não
sentir o incômodo de assistir à aula com fome, jantamos em
nossas casas. Este simples ato já é por si como que um
verdadeiro milagre. Quando tomamos o alimento, a natureza
teve que elaborar um sistema digestivo bastante complexo para
ser capaz de digerir precisamente aqueles alimentos que
curiosamente são os que ela mesmo oferece a todos
abundantemente. Recolher estes alimentos esparsos pelo
mundo para produzir uma simples janta seria uma tarefa
penosíssima, mas tudo isto, naquele momento, já tinha sido
providenciado. Centenas de pessoas haviam estudado
agricultura, haviam plantado nos lugares mais diversos cada um
dos alimentos utilizados em nossa janta, outra multidão os
colheu, centenas de homens os transportaram, outros os
conservaram e outros finalmente se especializaram em saber
vendê-los, deixando-os localizados em lugares de fácil acesso
para que nós os adquiríssemos. Assim, naquele momento, um
mundo imenso de pessoas na verdade estava se preocupando
conosco, e a própria natureza também, que sabiamente
preparava as chuvas para a lavoura e fornecia ao nosso corpo
as enzimas necessárias à digestão justamente daqueles
alimentos que ela própria produzia. Nós, porém, ali sentados,
não prestamos atenção a nada disso. Só queríamos sair
correndo para não chegar atrasados à escola.
Quando saímos de casa, outra coisa não menos fantástica!
Alguém tinha construído um elevador para nosso uso, tinha-o
instalado exatamente no local onde era necessário para o nosso
pronto e imediato transporte e estava bombeando energia
elétrica de muito longe para que ele funcionasse com apenas
um aperto de nosso dedo. A rua estava calçada. Outras
pessoas, sabe-se lá quantas, também tinham se preocupado
com isso. A rua estava calçada para nós passarmos e asfaltada
também para fazer com que um ônibus pudesse trafegar para
nossa comodidade. Sem que o pedíssemos, não apenas um
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Pr...isori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE3-5.htm (1 of 3)2006-06-02 14:46:52
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.3, C.5.
ônibus, mas os mais diversos ônibus passavam regularmente à
nossa disposição para nos levar não a um só lugar, mas a
qualquer lugar que quiséssemos. Para isto, outras milhares de
pessoas tiveram que estudar mecânica, projetar os ônibus,
construir os ônibus, vender os ônibus, manter os ônibus, dirigir
os ônibus, explorar petróleo, refinar petróleo, transportar
gasolina, educar motoristas, educar o trânsito, sinalizar o
trânsito, e não só tinham feito isto como o continuavam fazendo
ininterruptamente para que pudéssemos tomar o ônibus
naquele momento ou a qualquer momento. O Sol se punha.
Fazia séculos que o Sol brilhava todos os dias para que
pudéssemos enxergar todas estas coisas, mas o que é incrível,
porém, é que nós não percebemos ou pensamos nisto um só
momento. Estávamos preocupados, como sempre, com um
pequenino problema pessoal que era infinitamente menor do
que tudo isto, teoricamente muito menos capaz de chamar a
atenção de qualquer inteligência sadiamente desperta, mas que
na verdade era o que estava tirando nossa atenção daquele
espetáculo fantástico fazendo-nos temer um simples atraso
pessoal. Como é possível que para a maioria das pessoas uma
coisa tão pequena impeça a percepção destas coisas pelo
período inteiro de uma vida humana?
Mas, chegando à escola, não paramos para pensar também que
não estávamos chegando sozinhos a esta nobre instituição.
Para que pudéssemos aprender alguma coisa, todo este aparato
fenomenal que nos permitiu chegar à escola foi igualmente
mobilizado para trazer dos lugares mais diversos dezenas ou
centenas de outras pessoas para fazerem funcionar a escola
normalmente enquanto pudéssemos estudar tranqüilamente. O
nosso pequeno objetivo de nos dirigirmos à escola assim
encontrava resposta num aparato de escala mundial, mas nem
nós, nem nenhum dos funcionários da escola pensava nisto.
Pensavam cada um deles apenas no salário que iam receber no
fim do mês.
Como nós também não pensávamos no que acontecia à nossa
volta, subimos as escadas correndo. Encontramos então não
apenas um corpo de funcionários, mas também um corpo de
professores que estavam sendo preparados desde a sua
infância, recrutados das mais diversas cidades e educados por
milhares de outros professores para que pudessem acumular
um vasto conhecimento e tudo isto, enfim, para dar aquela aula
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Pr...isori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE3-5.htm (2 of 3)2006-06-02 14:46:52
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.3, C.5.
de quarenta e cinco minutos às vinte horas. Como é possível
que um tão vasto complexo de forças naturais, que estamos
descrevendo em sua mais ínfima parte, pudesse estar tão
milimetricamente ajustado para um objetivo tão pequeno e para
um aluno que, afinal de contas, o que fêz em toda a sua vida
para merecer semelhante coisa? Quem não é capaz de entrever
a admirável beleza que existe por detrás de tudo isso e o
admirável sono em que vivemos no nosso quotidiano?
Não se deve rir, portanto, dos pré-socráticos quando diziam que
haviam feito da contemplação da natureza a razão de suas
vidas.
Qualquer um, se tentar fazer o mesmo ainda que por breves
momentos, perceberá que o quadro que começamos a pintar é
mais assombroso ainda do que o que dele pudemos mostrar. E
para completá-lo, como um arremate deste imenso espetáculo, a
natureza finalmente produziu um ser capaz de tomar
consciência de tudo isto, como se esta natureza estivesse
querendo se elevar acima dela própria e admirar-se a si mesma.
Os protagonistas deste ponto máximo do espetáculo natural
eram, assim precisamente aqueles filósofos pré-socráticos que,
ao que parece, cumpriam talvez o objetivo final da natureza e
estavam provavelmente muito mais conscientes do seu lugar no
mundo do que muitos de nós talvez poderiam jamais ter estado.
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Pr...isori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE3-5.htm (3 of 3)2006-06-02 14:46:52
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.3, C.6.
Capítulo 6
Deve-se compreender, ademais, que a atitude contemplativa em
relação à natureza somente pode exercer o fascínio que exerceu
entre estes que foram os primeiros filósofos se esta
contemplação conseguir se elevar do plano da contemplação
visual para o da contemplação intelectual. Não estivemos, de
fato, nos referindo à beleza visual da natureza, mas a uma
beleza inerente à mesma que somente pode ser vista não pelos
olhos, mas pela inteligência. É apenas neste sentido que a
natureza é capaz de constituir o desafio profundo para o espírito
humano de que falamos acima.
Ela é capaz de chamar poderosamente a atenção do homem
quando nós somos capazes de perceber como ela, apesar de
não ser inteligente, parece participar da mesma espécie de
racionalidade do espírito humano. Os movimentos da natureza
que nos circunda parecem ter em si finalidades inteligentes.
Tudo nela parece ter uma lógica, a mesma lógica de que nós
homens nos utilizamos quando fazemos uma obra de arte ou
executamos alguma outra atividade que necessite do uso da
razão. Este fato é extremamente intrigante para o espírito de um
observador mais atento; ele dá a impressão de que existe algum
tipo de relação entre a natureza em seu conjunto e o modo da
atividade da mente humana muito mais íntimo do que entre
quaisquer outros objetos naturais entre si.
É justamente na base desta surpreendente afinidade entre o
conjunto da natureza e a mente humana que reside a atração da
primeira sobre a segunda; não, porém, apenas pela afinidade,
mas principalmente porque a quantidade de atividades naturais
que ocorrem simultaneamente diante de nossos olhos, todas
sincronizadas e ordenadas umas para com as outras é
imensamente maior do que qualquer mente humana seria capaz
de coordenar ao mesmo tempo. Isto dá ao indivíduo que
consegue transformar a observação meramente visual da
natureza em uma atividade de contemplação intelectual a
impressão de ter mergulhado a sua mente para o interior de uma
mente imensamente maior do que a sua.
É deste efeito que esta atividade dos pré-socráticos não só
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Pr...isori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE3-6.htm (1 of 2)2006-06-02 14:46:52
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.3, C.6.
tirava o seu fascínio, mas também a tornava uma fonte de
educação da inteligência, conforme veremos adiante, no final
deste capítulo, em um testemunho de Platão.
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Pr...isori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE3-6.htm (2 of 2)2006-06-02 14:46:52
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.3, C.7.
Capítulo 7
Mas a atitude de contemplar a natureza não é algo que surge no
homem já em sua forma mais plena e acabada. Ao contrário, é
algo que pode ser aprendido, cultivado, disciplinado,
aperfeiçoado ou, em outras palavras, pode ser objeto de
educação. De fato, era objeto de educação entre os filósofos
entre si.
E com esta afirmação temos um elemento importantíssimo para
tentarmos compreender o desenvolvimento da filosofia e da
filosofia da educação que está implícita em toda a filosofia. A
contemplação da natureza, no sentido em que tentamos
apresentá-la, apareceu como o primeiro grande objeto de
educação entre os filósofos. Por que motivo? Por que este e não
outro?
A resposta a esta pergunta obrigaria possivelmente muitos
educadores a rever todas as suas concepções educacionais.
Porque, diriam os filósofos pré socráticos, ao contrário de
tantas outras, esta é uma qualidade caracteristicamente
humana. E nós, diriam, queremos desenvolver no homem as
características que ele tem enquanto homem, e não apenas
enquanto animal.
De fato, tomemos alguns exemplos. Educar o homem para a
vida militar, como era a essência da educação em Esparta, não é
desenvolver no homem uma qualidade caracteristicamente
humana. A vida militar é para o homem um modo de defender a
sua integridade corporal. Qualquer animal faz isto; a vida militar
apenas faz o mesmo de um modo mais sofisticado.
Educar o homem para uma determinada profissão como a
engenharia, a agricultura, a medicina, e outras mais, também
não é desenvolver no homem uma qualidade
caracteristicamente humana no sentido em que explicamos
anteriormente. Os animais também fazem as suas tocas,
procuram alimentos, tomam suas rudimentares providências
quando estão doentes ou feridos. Através da construção, do
plantio, dos remédios, o homem não faz algo essencialmente
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NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.3, C.7.
diverso; mudou apenas o grau de sofisticação no que é comum
a todos os animais. A educação para o mercado de trabalho,
que visa principalmente através do labor a obtenção de casa,
alimento e remédios, não difere essencialmente no homem da
vida animal em geral, mas apenas circunstancialmente pelo grau
de perfeição.
Educar o homem nas boas maneiras, na educação e no trato
social também não é desenvolver no homem uma qualidade
essencialmente humana. Grande parte dos animais vive em
bandos ou em sociedades primitivas, como as alcatéias de
lobos, os bandos de elefantes, as colônias das formigas e as
sociedades das abelhas, e tantos outros.
Mas ser capaz de compreender o espetáculo impressionante da
natureza, contemplá-lo em toda a sua profundidade, estar
consciente dele a todo momento e perceber a sua prodigiosa
complexidade e quão inabarcável é em sua globalidade para um
ato da inteligência humana, isto está acima da capacidade de
qualquer outro ser natural, exceção feita ao homem. Ademais,
tudo na natureza parece ter um sentido; pareceria conseqüente
que houvesse também um sentido na sua obra mais perfeita,
que é o homem; deveria haver, então, algum motivo natural para
que a natureza tenha dotado o homem de alguma qualidade
especificamente apenas a ele pertencente. É neste sentido,
portanto, que nós, filósofos, queremos educar o ser humano.
Senão, por mais que trabalhemos, nada mais estaremos fazendo
do que educar um animal, apenas mais domesticável do que os
demais.
É uma crítica terrível à maioria dos sistemas educacionais
modernos. Os sistemas educacionais modernos vieram muitas
vezes mais condicionados por pressões sociais do que por uma
reflexão sobre a natureza humana. Esta reflexão dos filósofos
coloca portanto, pela primeira vez, o problema de se questionar
qual o fim a ser alcançado pela educação do homem, não
restringindo, portanto, a pedagogia a um simples estudo de
métodos cuja finalidade última é implicitamente imposta por
forças históricas e sociais geralmente não conscientes.
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NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.3, C.7.
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NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.3, C.8.
Capítulo 8
Mas o exercício habitual da contemplação da natureza leva o
homem não apenas a desenvolver esta qualidade unicamente
humana em sua espécie, mas a se fazer outras perguntas com
um grau de lucidez que podem se tornar o ponto de partida para
uma vida mais digna de quem ele é.
De fato, quem tendo feito seriamente a experiência de observar
atentamente a grandeza do que ocorre à nossa volta não é
levado a perguntar:
Como
aconteceu
tudo isso?
Como eu
vim parar
aqui
para
compreender
estas
coisas?
Como pode
ter-se
produzido
um ser
capaz de
compreender
isto?
Quem sou
eu?
O que é o
homem?
O que é o
mundo?
O que
significa
tudo isto?
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Pr...isori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE3-8.htm (1 of 3)2006-06-02 14:46:53
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.3, C.8.
Nasce assim no homem o desejo de saber, mas de um saber
diverso daqueles que nós costumamos querer saber nas salas
de aula modernas ou no nosso dia a dia.
Nas salas de aula ou no nosso dia a dia nós não queremos
saber nunca o que significa tudo isto. O que nós usualmente
queremos saber é alguma coisa em particular. Como se faz
determinada coisa, como se aprende determinada profissão,
como se entende um determinado assunto, o que aconteceu tal
época em tal lugar. Muito diferente é simplesmente desprezar
todos os detalhes de cada um dos detalhes e perguntar
diretamente:
O que
significa
tudo
isto?
Tudo isto. Este é o problema. Tudo isto,isto é, como quando
alguém acorda em um hospital depois de um acidente de
automóvel do qual não se lembra mais nada e, em vez de
perguntar como funciona o aparelho do soro, qual a fórmula do
remédio, para que serve aquele aparelho e como se constrói,
não quer saber nada disso, mas a única coisa que ele quer
saber e exige saber é:
O que
significa
tudo
isto?
Onde
estou?
Por que
estou
aqui?
O que
significa
tudo
isto?
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Pr...isori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE3-8.htm (2 of 3)2006-06-02 14:46:53
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.3, C.8.
Se eu não entender isto primeiro, de fato não serei nada mais do
que um tonto e apenas estarei dando mostras de não ter uma
compreensão do verdadeiro alcance do que está acontecendo.
Esta compreensão do verdadeiro alcance do que está
acontecendo é o que chamamos de Filosofia, de modo que da
contemplação é que nasceu a ciência filosófica. E, a nível
individual, é preciso surgir primeiro a qualidade humana da
contemplação para cada determinado indivíduo compreender o
que seja a Filosofia; e somente a partir daí, dizem os que a isto
chegaram, poderá alguém se compreender e viver uma vida
digna do ser humano.
Cabe chamar a atenção dos alunos a que isto é uma concepção
de pedagogia que deriva dos primeiros pré-socráticos; e é uma
concepção de pedagogia bastante diversa da que se praticou
em outras épocas.
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NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.3, C.9.
Capítulo 9
Mas há ainda algo mais. Nós vimos os testemunhos dos
escritores antigos sobre o caráter e a personalidade dos
filósofos pré-socráticos. Em particular vimos a nobreza de
caráter com que Plutarco descreveu a Anaxágoras e como estes
traços passaram para Péricles que foi seu discípulo. Consta que
muitas das maiores personalidades da Grécia antiga foram
discípulos ou grandes amigos destes filósofos. Vimos também
como os alunos das escolas fundadas por Pitágoras eram
implorados para serem conselheiros dos estadistas da época.
Não temos relatos mais detalhados sobre esta faceta dos présocráticos, mas baseados nos filósofos posteriores, somos
levados a ter a certeza de que estes filósofos que se dedicavam
à contemplação intelectual da natureza no sentido em que
tentamos esboçar cultivavam a educação da personalidade dos
seus discípulos. Na verdade, uma atividade não meramente
visual, mas de cunho intelectivo como era a vida contemplativa
que eles levavam seria impossível de ser levada a efeito mesmo
por breve tempo, quanto menos por uma vida, por uma pessoa
de caráter egoísta, impaciente, repleta de maus instintos e
ambições as mais diversas. Todos os filósofos posteriores a
Sócrates tinham bem claro que não era possível desenvolver as
capacidades intelectuais dos seus discípulos sem desenvolverlhes paralelamente ou mesmo previamente as virtudes morais. A
verdadeira vida intelectual no sentido filosófico é impossível
sem o desenvolvimento moral prévio do homem. O simples
aprendizado de uma arte ou de um ofício, ou a aquisição de uma
cultura geral que permita uma convivência social, como ocorre
atualmente, não carrega consigo esta exigência imprescindível
de uma educação integral do homem. Mas o contrário deve ser
dito quanto aos objetivos intelectuais dos pré-socráticos e da
filosofia em geral, pelo menos em seu período clássico. É assim
que, de acordo com um testemunho de Platão em relação aos
pré-socráticos, assim que os homens começaram a se
dedicarem à contemplação do céu no sentido em que viemos
expondo, aprenderam também a disciplina interior do espírito.
Diz, de fato, Platão no Diálogo conhecido pelo nome de Timeu,
que
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NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.3, C.9.
"de todas as
especulações
que
atualmente
se podem
fazer sobre o
mundo,
nenhuma
teria sido
possível se
os homens
não tivessem
visto nem os
astros, nem
o Sol, nem o
Céu. Porém,
na situação
efetiva,
existem o dia
e a noite, os
equinócios,
os solstícios,
coisas que
nos deram o
conhecimento
do número e
nos
permitiram
especular
sobre a
essência do
Universo.
Graças a
isso foi-nos
dada esta
espécie de
ciência, da
qual pode-se
dizer que
nenhum bem
maior foi
jamais dado
ao homem. O
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NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.3, C.9.
motivo pelo
qual Deus
criou a visão
foi o seu pré
conhecimento
de que, tendo
nós humanos
observado
os
movimentos
periódicos e
regulares da
inteligência
divina,
poderíamos
fazer uso
deles em nós
mesmos;
tendo
estudado a
fundo estes
movimentos
celestes, que
são
partícipes da
retidão da
inteligência
divina,
poderemos
então
ordenar por
eles nossos
próprios
pensamentos,
os quais,
deixados a si
mesmos, não
cessam de
errar".
São Paulo, 8 de maio de 1989
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NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.3, C.9.
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NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.4, C.1.
PITÁGORAS
Capítulo 1
Parmênides foi o mais importante dos filósofos pré-socráticos.
É muito difícil, senão impossível, entender os rumos da Filosofia
Grega e da Educação Grega sem compreender o papel que este
homem desempenhou na Filosofia e as conseqüências de sua
obra na Pedagogia.
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Provvisori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE4-1.htm2006-06-02 14:46:53
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.4, C.2.
Capítulo 2
Conforme vimos na Introdução sobre a Situação Histórica do
Mundo Antigo, a história da cidade de Atenas confunde-se em
muito com a história da Grécia. A cidade começou a
desempenhar um papel de importância dentro da história grega
em torno do ano 600 AC, por ocasião da reforma de Sólon,
através da qual nela instaurou-se a democracia. Esta data
coincide com o surgimento dos primeiros filósofos gregos, o
que se deu, porém, não em Atenas. Tales de Mileto e
Anaximandro de Mileto, contemporâneos e concidadãos, são os
primeiros filósofos gregos que a história registra. Duzentos
anos depois, com a morte de Sócrates, este já um ateniense,
Atenas passou também a se tornar o centro da Filosofia Grega.
Mas entre Tales e Sócrates, neste período de duzentos anos,
muita coisa teve que acontecer para que pudesse ter-se
produzido esta mudança.
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NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.4, C.3.
Capítulo 3
Cem anos depois de Tales de Mileto a Pérsia tentou invadir a
Grécia por três vezes, daí resultando as famosas guerras
médicas narradas por Heródoto. Os atenienses saíram
vencedores, e com a imensa esquadra que haviam construído
para derrotar os persas construíram um império comercial
marítimo de cidades colônias em várias partes do Mar
Mediterrâneo. Foi a época da máxima prosperidade ateniense,
conhecida pelo nome de quem foi o seu mais famoso
governante, a época de Péricles. Foi nesta época que
Anaxágoras introduziu pela primeira vez a filosofia em Atenas.
Mas ainda não tinham se passado cem anos desde o fim das
guerras médicas quando outra guerra, desta vez entre gregos,
destruíu o poderio ateniense e fêz da Grécia o caos político. Foi
a Guerra do Peloponeso, travada entre espartanos e atenienses,
período durante o qual Sócrates desenvolveu a sua obra como
filósofo. Foi justamente em pleno caos do pós guerra que
Sócrates foi condenado à morte no ano de 399 AC.
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NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.4, C.4.
Capítulo 4
Parmênides havia nascido em Eléia, cidade colônia grega na
Itália, próximo de onde hoje fica a cidade de Nápoles. Nasceu
pouco antes das guerras médicas, mas quando tinha
aproximadamente 60 ou 70 anos, na época de Péricles, viajou
para Atenas a fim de expor ali sua doutrina filosófica. Ao que
parece, Sócrates, ainda mocinho, teria ouvido as suas
conferências e as de seus discípulos, que com Parmênides
também tinham viajado para Atenas.
Mas Parmênides havia sido discípulo, por sua vez, de um aluno
de uma das escolas fundadas por Pitágoras e, segundo dizem
alguns historiadores antigos, havia, sob a influência deste,
conduzido uma vida conforme os preceitos de Pitágoras, uma
vida, conforme diziam, "pitagórica".
Vamos, pois, expor algo sobre a pessoa de Pitágoras para então
podermos passar a falar de Parmênides.
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NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.4, C.5.
Capítulo 5
Pitágoras nasceu na ilha de Samos, antes das guerras médicas,
uma ilha que fica entre a Grécia e a atual Turquia.
Ao que parece, foi discípulo de Anaximandro, filósofo de quem
já comentamos anteriormente. Anaximandro era natural de
Mileto e contemporâneo de Tales de Mileto. Considerando a
índole de Pitágoras pelo que ele realizou posteriormente, se for
verdadeira a informação de seu relacionamento com
Anaximandro, é praticamente impossível que ele não tenha sido
pelo menos conhecedor próximo do pensamento e da pessoa de
Tales de Mileto, sobre o qual também j;a nos detivemos mais
amplamente. Pitágoras, pois, conheceu a filosofia grega desde
os seus princípios.
É possível que não tenha se contentado com a sabedoria que
tais mestres puderam passar-lhe. De fato, tudo indica que
depois de ter sido discípulo de Anaximandro e de Tales de
Mileto, mudou-se para o Egito a fim de estudar com os sábios
daquela terra. Era o Egito a civilização mais adiantada daquela
época, e que já tinha mais de dois milênios de história.
Pitágoras ficou estudando entre os Egípcios, segundo algumas
fontes históricas antigas, mais de vinte anos.
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NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.4, C.6.
Capítulo 6
Esta grande estabilidade do Império Egípcio contrastava com o
que vinha acontecendo na Mesopotâmia, o outro berço da
civilização, junto com o Egito. Enquanto o Egito atravessava os
séculos, na Mesopotâmia haviam se estabelecido os Sumérios,
que depois foram conquistados pelos Babilônios, que foram por
sua vez conquistados pelos Assírios, que foram depois
reconquistados pelos Babilônios, os quais foram finalmente
conquistados pelos Persas. Estes por sua vez vieram
posteriormente a serem conquistados pelos Macedônios, depois
conquistados pelos Romanos. Mas até a época de Pitágoras a
história somente havia chegado até os Persas.
Antes da conquista persa, no ano de 587 AC os Babilônios
haviam deportado para a miscelânea cultural que era a
Mesopotâmia os judeus que até então viviam na Palestina no
Reino de Judá. Ali, no meio desta mistura de culturas, durante
os 70 anos que durou a deportação e o cativeiro, os primeiros
rabinos iniciaram as que vieram a ser posteriormente as
academias de teologia judaicas. Ali também, no exílio,
floresceram profetas importantes para o povo judeu, como os
profetas Ezequiel e Daniel, este último, apesar de judeu, tendo
chegado a ser alto funcionário da corte do rei da Babilônia.
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NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.4, C.7.
Capítulo 7
Ora, aconteceu que quando Pitágoras estudava no Egito,
excetuando-se os gregos, todas as demais civilizações
importantes da história ou os seus legados estavam reunidas na
Mesopotâmia. Setenta anos após a deportação dos judeus para
a Babilônia os persas conquistaram-na e permitiram aos judeus
voltarem para a sua pátria. Nem todos voltaram. Muitos
estudiosos das Sagradas Escrituras e o próprio profeta Daniel
continuaram ali, este último agora como alto funcionário da
corte do rei persa.
Os persas, porém, conseguiram a façanha que até então
nenhum outro povo tinha conseguido. Entraram no Egito,
derrotaram as suas forças e levaram as cortes e os sábios
egípcios, amarrados uns aos outros pelo pescoço, também para
a Mesopotâmia. Para os egípcios foi um golpe mortal. Embora
não todos os egípcios tivessem sido deportados, toda a sua
nata foi exilada à força. Foi o fim da civilização egípcia. Junto
com estes egípcios estava também, ao que parece, a caminho
da Pérsia, o grego Pitágoras.
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Provvisori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE4-7.htm2006-06-02 14:46:55
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.4, C.8.
Capítulo 8
Mais de uma década ficou Pitágoras estudando na
Mesopotâmia, aproveitando-se dos caprichos do destino,
possivelmente em contato com os representantes de todas as
demais civilizações importantes que haviam surgido ao longo
da história reunidos naquele lugar. Passados mais de dez anos,
resolveu então voltar para a sua terra, a Grécia. Não se dirigiu,
porém, para Samos sua pátria, nem para Atenas, mas para uma
cidade colônia grega do sul da Itália chamada Crotona. Ali
fundou uma escola.
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Provvisori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE4-8.htm2006-06-02 14:46:55
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.4, C.9.
Capítulo 9
É fundamental entender a importância deste fato. Este homem,
ao que parece, teve íntimo contato com os primeiros filósofos
gregos pré-socráticos, foi discípulo dos maiores sábios da
época, que eram os egípcios, aproveitando a última chance para
tanto imediatamente antes deste civilização ter perecido nas
mãos dos persas, e foi levado para o lugar onde a história fêz
confluir todas as demais civilizações importantes que até então
havia havido, inclusive a judaica. Por uma série de
circunstâncias fortuitas, este homem pode travar contato com
tudo aquilo que tinha havido até então de importante no mundo
em termos de conhecimento.
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Provvisori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE4-9.htm2006-06-02 14:46:55
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.4, C.10.
Capítulo 10
Além disso, deve-se notar que quando falamos dos presocráticos até agora nunca falamos de uma escola. Não
sabemos como eles se ensinavam uns aos outros. A primeira
vez na história que entre os gregos aparece uma escola
organizada para a transmissão do conhecimento foi com
Pitágoras. Dificilmente poderia ter aparecido por obra de outra
pessoa mais qualificada.
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NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.4, C.11.
Capítulo 11
Não que não existisse ensino na Grécia naquela época.
Certamente havia quem ensinasse a ler e a escrever, e ainda
teremos a oportunidade de analisar como era o ensino em
Atenas e entre os gregos desta época. Mas tratavam-se, pelos
registros históricos, de iniciativas excessivamente rudimentares
e de muito pouca ambição intelectual. Quanto ao ensino que os
filósofos administravam até então, este não consta que tenha
sido através de escolas.
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NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.4, C.12.
Capítulo 12
Pouquíssima coisa sabe-se sobre a doutrina e os métodos
pedagógicos de Pitágoras. Mas estas pouquíssimas coisas são
importantíssimas que sejam mencionadas, entre outros motivos
porque parecem terem sido todas seguidas, muitas vezes à
risca, outras vezes pelo menos em suas linhas essenciais, por
Platão, do qual temos abundantes informações e foi um dos
maiores educadores e filósofos de todos os tempos. Platão foi
discípulo de Sócrates, mas depois da morte do mestre consta
que ele tenha passado algum tempo estudando nas escolas de
Pitágoras que ainda subsistiam, apesar de já haver-se passado
um espaço de tempo da ordem de uma centenas de anos.
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NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.4, C.13.
Capítulo 13
Nas escolas de Pitágoras entrava-se para ser filósofo e estudar
em busca da sabedoria pelo resto da vida. As escolas eram
rigorosíssimas, selecionavam os candidatos a serem admitidos
e, admitidos, durante os primeiros anos os alunos eram
obrigados ao silêncio completo apenas ouvindo e meditando a
doutrina exposta pelos professores. Havia a obrigação de
observar o celibato e depois de alguns anos todos os
participantes da escola colocavam seus bens em comum.
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NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.4, C.14.
Capítulo 14
Pitágoras era exigente quanto à formação ética dos alunos e
dava uma altíssima importância ao estudo da matemática para a
formação filosófica dos discípulos. Ao contrário dos primeiros
pré-socráticos, que diziam que a substância em que consistia a
natureza era a água, o infinito, o ar, o fogo, os átomos, as
sementes indivisíveis ou outro qualquer elemento, os
pitagóricos afirmavam que os números eram os princípios de
todas as coisas.
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NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.4, C.15.
Capítulo 15
Para entender esta afirmação, devemos voltar às concepções
filosóficas dos primeiros pre-socráticos. Eram pessoas que
faziam da contemplação intelectual da natureza o objeto da vida
de suas inteligências.
Há que se lembrar da definição de filósofo de Pitágoras, a do
indivíduo que, nos Jogos Olímpicos, não tem nenhum outro
interesse senão contemplar o que está acontecendo.
Ora, esta contemplação leva facilmente à percepção que a
natureza em nossa volta, apesar de não ser inteligente, parece
participar da mesma espécie de racionalidade do espírito
humano. Nada ela faz por acaso, tudo parece ter uma finalidade.
Basta observar o corpo humano, as plantas, os diversos
animais, a interdependência entre eles e deles para com o resto
do mundo e dos corpos celestes. Se esta ordem e estes fins
foram ou não escolhidos inteligentemente, isto não importa para
o que estamos examinando. O que importa é que tudo se passa
como se o tivesse sido, pois se o tivesse sido, provavelmente
não teria sido possível que se o tivesse feito de um modo
melhor. A natureza parece se comportar tal qual uma obra de
arte feita por uma inteligência que soube combinar milhares e
milhares de elementos na medida mais engenhosa possível. Os
desenvolvimentos modernos da Física, da Química e da
Biologia, longe de desmentir este fato, não fazem mais do que
confirmá-lo mais profundamente. A Bioquímica mostra que não
só os órgãos, mas qualquer substância química que se encontre
no corpo humano ou no corpo de qualquer ser vivo, ainda que
seja nos seus mínimos traços, nunca está ali sem sentido.
Podemos perguntar por que está ali, qual a sua finalidade. E
quando descobrimos o motivo, verificamos o quanto a natureza
conhecia o corpo daquele animal e como solucionou um
problema intrincadíssimo de química com uma solução que
nenhum químico não só não encontraria outra melhor, como
também provavelmente não seria capaz sequer de elaborar
outra igual. Vamos abstrair de nossa discussão, pelo menos
neste momento, se foi uma inteligência, o acaso ou a evolução
que fêz tudo isto. O fato é que, independentemente de como isto
aconteceu, à observação do filósofo, a natureza se comporta
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Pr...sori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE4-15.htm (1 of 2)2006-06-02 14:46:56
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.4, C.15.
evidentemente com a racionalidade e a estética do tipo que se
encontram nas obras de arte da inteligência humana, mas num
grau de complexidade e de beleza muito acima da capacidade
de criação e de coordenação do homem.
Ora, quando analisamos uma obra de arte humana, uma música,
por exemplo, embora esta música seja feita de vibrações
sonoras, não é correto dizer que o tipo de material de que são
feitas as cordas dos violinos ou as vibrações sonoras que são
emitidas por elas é que são a verdadeira essência da música. A
essência da música está em uma mensagem que não é
materialmente identificável. Sua beleza está na harmonia e nas
proporções que ela apresenta, não no ar em que o som vibra ou
no material de que é feito o instrumento.
Ora, o filósofo contempla e aprende a contemplar a natureza de
um modo que se parece muito mais com alguém que ouve
maravilhado uma sinfonia do que com os nossos cientistas
quando analisam os dados produzidos pelas experiências de
seus laboratórios. Eles faziam da natureza a música da
inteligência, porque de fato ela se comporta desta maneira.
Parece que alguém quis tocar com ela uma música que só um
verdadeiro homem poderia ouvir.
É assim que parece que provavelmente Pitágoras discordou das
primeiras posições dos pré-socráticos. Quando ele afirmou que
os números são a essência da natureza, e não a água, o fogo, os
prótons, os nêutrons, os elétrons ou as radiações
eletromagnéticas, queria dizer com isto que se a natureza se
comporta ao modo da racionalidade da mente humana, é a sua
própria ordem que é a sua essência, e não o material de que ela
possa ser feita.
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Pr...sori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE4-15.htm (2 of 2)2006-06-02 14:46:56
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.4, C.16.
Capítulo 16
Quando, ademais, Pitágoras comparava o Filósofo aos
expectadores dos Jogos Olímpicos, o expectador que se
desapega dos vários interesses da vitória, das compras e das
vendas que se desenvolvem paralelamente a estes Jogos, para
contemplar atenciosamente o que ocorre no mundo, esta sua
colocação deve ainda ser entendida à luz de outra de suas
afirmações que nos vieram sobre o que é ser um filósofo.
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Provvisori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE4-16.htm2006-06-02 14:46:58
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.4, C.17.
Capítulo 17
Na verdade, foi Pitágoras quem inventou a palavra `filósofo'.
Quando certa vez haviam perguntado a Pitágoras o que era um
homem sábio, Pitágoras respondeu que não existe um homem
sábio. A sabedoria não é coisa dos homens. A sabedoria deve
ser atribuída exclusivamente a Deus, dizia Pitágoras. O homem,
no máximo, pode ser um amigo da sabedoria, isto é, um filósofo,
termo que em grego significa exatamente isto, `amigo da
sabedoria'. O homem pode ser no máximo um amigo da
sabedoria e procurar imitar o mais possível a sabedoria que se
encontra plenamente possuída apenas por Deus. De fato, a
sabedoria de Deus seria, neste sentido, a contemplação
intelectual de si próprio e da obra de sua criação e, quando o
homem faz também isto ele de fato está procurando imitar a
mente divina e não está fazendo nada mais do que viver na terra
uma vida semelhante à que seria a do próprio Deus. Estaria
aprendendo, assim, a assemelhar-se, através de sua
inteligência, ao seu Criador. É esta elevação do espírito humano
que constituíu o ideal pedagógico das escolas pitagóricas.
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Provvisori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE4-17.htm2006-06-02 14:46:59
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.4, C.18.
Capítulo 18
Nós podemos ver este ideal pedagógico pitagórico refletido nas
obras de um filósofo cristão bastante posterior, chamado
Boécio.
Boécio viveu na época da queda do Império Romano do
Ocidente, quando os ostrogodos invadiram a Itália e nela
instalaram o seu governo. Boécio era descendente de uma
nobre família romana que o havia enviado, aos dez anos de
idade, para a cidade de Atenas estudar filosofia e matemática.
Lá estudou até transformar-se em uma enciclopédia viva de toda
a sabedoria antiga. Embora fosse cristão convicto, seu
envolvimento com a filosofia foi tão grande que, em sua obra,
sua herança filosófica desempenha um papel tão ou talvez mais
importante do que a sua herança cristã.
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Provvisori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE4-18.htm2006-06-02 14:46:59
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.4, C.19.
Capítulo 19
No fim da sua vida Boécio foi caluniado, acusado de conspirar
contra o rei dos ostrogodos. Foi lançado a um cárcere enquanto
aguardava a execução da sentença de morte.
Ali no calabouço, enquanto esperava a morte, Boécio escreveu
um livro que ficou na história, chamado "A Consolação da
Filosofia", no qual claramente aparece em algumas de suas
passagens a inspiração dos primeiros filósofos pre-socráticos e
pitagóricos.
Ele imagina, no início do livro, que tem a visão de uma formosa
dama, que é a Filosofia. Ela o vê aflito e chorando e com isto
inicia-se um diálogo:
- Por que
choras,
Boécio?
Por que os
teus olhos se
convertem
em fontes?
Conta-me
tudo
sinceramente,
não me
ocultes nada.
Se desejas
que o médico
te dê o
remédio,
deves
declarar-lhe
a ferida.
Boécio então responde a estas palavras dando uma resposta
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Pr...sori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE4-19.htm (1 of 4)2006-06-02 14:46:59
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.4, C.19.
que nada mais é do que o ideal de vida dos pre-socráticos e
mais especialmente de Pitágoras:
- Por acaso
há
necessidade
de
explicações?
Por acaso
este lugar
não te diz
nada?
Por acaso
este é o
lugar onde
todos os
dias eu
estudava
contigo a
respeito das
coisas
divinas e
humanas?
Era este o
rosto que eu
tinha
quando eu
contemplava
os segredos
da natureza,
quando tu
me
mostravas o
curso das
estrelas, e
instruindome nos
costumes
me
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Pr...sori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE4-19.htm (2 of 4)2006-06-02 14:46:59
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.4, C.19.
ensinavas a
ordenar toda
a minha vida
seguindo o
exemplo do
concerto
celeste?
Vejas em
que foi dar o
prêmio de
nossa
inocência,
ser
condenado à
morte por
um falso
delito.
Como se tu,
que estavas
sempre
junto de
mim, não me
afastasses
do desejo
das coisas
mortais,
cada dia
derramando
em meus
ouvidos e
em meus
pensamentos
aquela
sentença de
Pitágoras,
que o
homem há
de servir a
Deus e não
aos deuses,
e procurar
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Pr...sori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE4-19.htm (3 of 4)2006-06-02 14:46:59
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.4, C.19.
assemelhar
a sua vida à
dEle!
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Pr...sori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE4-19.htm (4 of 4)2006-06-02 14:46:59
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.4, C.20.
Capítulo 20
Assim se expressou, pois, Boécio, citando inclusive Pitágoras
pelo nome. Mas Pitágoras, além disso, queria que os seus
discípulos, uma vez formados e maduros na vida filosófica, se
oferecessem aos governos da época como conselheiros
políticos, pois dizia que enquanto os governos não fossem
guiados pela Filosofia jamais poderiam governar sabiamente. De
fato, em todas as cidades em que Pitágoras ou seus discípulos
abriram suas escolas, logo se formava um conselho de filósofos
pitagóricos que acabava por ter participação importante na
política de muitas cidades e colônias gregas. A primeira escola
fundada por Pitágoras, em Crotona, no sul da Itália, teria
desaparecido em um incêndio provocado em represália à
tentativa feita pelo Conselho de seus alunos de impedir a
aprovação de certas leis que eles percebiam serem injustas,
mas sobre este aspecto do ideal pitagórico assim se expressou
o filósofo Jâmblico em uma das principais biografias que a
antigüidade nos deixou de Pitágoras:
"A primeira
tarefa
empreendida
por Pitágoras,
ao chegar à
Itália e à
Sicília, foi a
de inspirar o
amor à
liberdade às
cidades que
ele entendia
terem-se
recentemente
oprimido uma
à outra pela
escravidão.
Por meio de
seus
auxiliares ele
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Pr...sori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE4-20.htm (1 of 3)2006-06-02 14:46:59
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.4, C.20.
libertou e
restaurou a
independência
em Crotona,
Síbaris,
Catânia,
Régio,
Himera,
Agrigento,
Tauromênas
e em algumas
outras
cidades.
Através de
Carôndas de
Catânia e de
Zalêuco, o
Locriano,
conseguiu
estabelecer
leis que
causaram o
florescimento
destas
cidades e que
se tornaram
modelos para
outras nas
suas
proximidades.
Ele
desenraizou,
por diversas
gerações,
conforme
atesta a
história, o
partidarismo,
a discórdia e
a sedição de
terras
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Pr...sori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE4-20.htm (2 of 3)2006-06-02 14:46:59
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.4, C.20.
italianas e
sicilianas, em
lugares que
naquela
época eram
perturbados
por
contendas
internas e
externas.
Em todos o
lugares ele
repetia, com
a persuasão
de um
oráculo, que
devemos por
todos os
meios
amputar do
corpo a
doença, da
alma a
ignorância,
do lar a
discórdia, e
de todas as
coisas,
quaisquer
que sejam, a
falta de
moderação".
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Pr...sori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE4-20.htm (3 of 3)2006-06-02 14:46:59
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.4, C.21.
Capítulo 21
Fica-se a imaginar se não existe alguma relação não só entre
este ideal de Pitágoras de instaurar a justiça através da
Filosofia, mas também entre todo o ideal pedagógico pitagórico
e alguns ensinamentos do profeta Daniel.
Pode ser uma coincidência, mas o fato é que, enquanto
Pitágoras estudava na Pérsia, entre aqueles sábios das mais
diversas nacionalidades, Daniel era um dos ministros do rei
Persa e compunha o seu livro que depois passou para o cânon
da Bíblia. Ora, este Daniel não era apenas uma pessoa que
levava uma vida santa segundo a lei de Moisés, mas era o que
chamaríamos também de um sábio. Várias de suas profecias
haviam sido feitas diretamente aos reis mesopotâmicos, o que
lhe havia granjeado a estima deles e provavelmente uma certa
fama, que não dificilmente poderia ter chegado aos ouvidos de
Pitágoras, ávido de conhecimento e que por ali vivia na época.
Os milagres que consta terem sido realizados por Daniel nas
cortes mesopotâmicas também podem ter contribuído para esta
fama.
Ora, no décimo segundo capítulo de seu livro, em uma de suas
profecias, Daniel se refere aos sábios enaltecendo
conjuntamente com eles o ideal do ensino de um modo que, se
considerarmos que ele não está fazendo uma poesia, mas
antevendo algo que segundo ele pertence verdadeiramente à
ordem dos fatos reais, não poderá deixar de parecer muito
impressionante. O fim dos tempos, diz ali Daniel,
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Pr...sori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE4-21.htm (1 of 3)2006-06-02 14:47:00
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.4, C.21.
"será um
tempo de
angústia
como
jamais
houve
desde que
as nações
existem até
aquele
tempo.
Mas
naquele
tempo
serão
libertados
todos os
que se
acharem
inscritos no
Livro.
E muitos
dos que
dormem
debaixo da
terra
despertarão,
uns para a
vida eterna,
outros para
o vitupério,
para a
infâmia
eterna".
Então, continua Daniel,
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Pr...sori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE4-21.htm (2 of 3)2006-06-02 14:47:00
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.4, C.21.
"os sábios
resplandecerão
como o fulgor
do firmamento,
e os que
tiverem
ensinado
a muitos para
a justiça
serão como
estrelas
para a
perpétua
eternidade".
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Pr...sori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE4-21.htm (3 of 3)2006-06-02 14:47:00
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.4, C.22.
Capítulo 22
Depois da primeira escola de Crotona, Pitágoras fundou outras
nas colônias gregas do sul da Itália e depois ainda em vários
lugares do restante do mundo grego. Foi de um dos alunos
destas escolas que Parmênides, também italiano, recebeu sua
primeira educação filosófica, dirigindo-se, posteriormente, em
sua maturidade, para Atenas a fim de expor ali as suas
doutrinas.
São Paulo, maio de 1989
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Provvisori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE4-22.htm2006-06-02 14:47:00
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.5, C.1.
PARMÊNIDES,
Primeira Parte
Capítulo 1
Quem compreendeu o espírito das escolas pitagóricas e a
distância que vai destas para os primeiros pré-socráticos,
poderá compreender melhor como se moldou a doutrina que
divisamos nos fragmentos que nos restaram das obras de
Parmênides. Segundo um testemunho de Diógenes Laércio, um
escritor da Antigüidade que escreveu a biografia de vários
filósofos gregos, Parmênides recebeu sua educação de um
filósofo pitagórico chamado Ameinias e levou uma "vida
pitagórica".
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Provvisori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE5-1.htm2006-06-02 14:47:00
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.5, C.2.
Capítulo 2
Os primeiros pré socráticos perceberam claramente como a
natureza parece participar do caráter racional da mente humana
a ponto de, fazendo-a objeto de contemplação intelectual,
utilizarem-se desta contemplação da natureza como uma forma
de educação da inteligência humana.
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Provvisori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE5-2.htm2006-06-02 14:47:00
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.5, C.3.
Capítulo 3
Os pitagóricos foram mais longe. Pois, conforme vimos, deramse tão mais profundamente conta deste caráter aparentemente
inteligente do mundo que nos cerca que chegaram ao ponto de
afirmar que nenhum princípio material, nenhuma molécula,
nenhum átomo ou nenhum tipo de partícula sub atômica poderia
jamais ser a essência da natureza, mas sim esta sua aparente
participação de uma natureza racional.
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Provvisori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE5-3.htm2006-06-02 14:47:01
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.5, C.4.
Capítulo 4
Mas Parmênides, observando a natureza, foi mais longe do que
todos os seus antecessores. Nos fragmentos de sua doutrina
encontramos uma passagem de Clemente de Alexandria que
reporta Parmênides ter dito que
"o
mesmo
é o ser
eo
pensar".
Esta afirmação, interpretada à luz do conjunto de sua doutrina e
do conjunto dos filósofos posteriores, é na verdade uma das
intuições mais profundas da história do pensamento.
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Provvisori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE5-4.htm2006-06-02 14:47:01
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.5, C.5.
Capítulo 5
Parmênides apresenta esta e outras colocações semelhantes
depois de uma introdução poética em que descreve ser
transportado por uma carruagem de éguas capazes de levá-lo
para onde o coração pedisse até a morada dos deuses que
passaram a instruí-lo neste princípio e em suas conseqüências.
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Provvisori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE5-5.htm2006-06-02 14:47:01
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.5, C.6.
Capítulo 6
Esta introdução do poema de Parmênides pode ser um simples
recurso poético para mais artisticamente chamar a atenção do
leitor que iria ler o restante de seu texto.
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Provvisori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE5-6.htm2006-06-02 14:47:01
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.5, C.7.
Capítulo 7
É possível, porém, interpretá-lo como significando algo mais do
que uma formalidade poética. Neste sentido, a carruagem seria
a própria inteligência de Parmênides, que se prepara para a
reflexão e a atividade intelectual. As éguas capazes de levá-lo
para onde o coração pedisse são os desejos do filósofo de
alcançar compreensão a respeito do assunto ao qual sua
inteligência se aplica. Quando este desejo ou interesse é
intenso, ele arrasta consigo a atividade intelectual na direção
desejada tal como uma carruagem puxada por muitas éguas. A
morada dos deuses, isto é, o ponto de chegada da carruagem, é
a clareza da mente obtida quando ela compreende os princípios
que governam o assunto examinado. Pode ser que Parmênides
chamasse esta compreensão dos princípios como a morada dos
deuses porque costuma-se associar aos deuses, ou a Deus, ser
o princípio de todas as coisas. Seja como for, o fato é que
chegando à morada dos deuses, Parmênides declara em
seguida, nos fragmentos restantes, ter sido instruído por eles
nos primeiros princípios da investigação filosófica.
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Provvisori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE5-7.htm2006-06-02 14:47:01
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.5, C.8.
Capítulo 8
Este modo de se expressar de Parmênides mostra uma pessoa
habituada não só ao trabalho da inteligência em geral, mas
àquilo a que já chamamos de contemplação intelectual.
O que permite interpretar esta introdução deste modo é, dentre
outras coisas, a alusão das éguas que levam a carruagem
"onde o
coração
pedisse".
É uma experiência natural que quando ao trabalho intelectual se
une um componente afetivo, a atividade da inteligência pode
passar natural e espontaneamente do raciocínio para a
contemplação. Este fato foi sempre bem familiar entre os
filósofos clássicos; ele é, entretanto, menos familiar nos tempos
atuais porque hoje em dia a educação da inteligência não é um
empreendimento cuja última finalidade é ela mesma, isto é, a
própria inteligência. A educação da inteligência atualmente é,
em geral, apenas um instrumento utilizado pela sociedade para
a produção de bens. Estes bens podem ser bens de consumo,
podem ser o próprio trabalho útil, podem ser também livros ou
mesmo apenas uma nova teoria ou uma nova idéia que será
registrada em um livro, em um arquivo ou na memória de um
computador, mas será`` sempre alguma outra coisa além do
simples enobrecimento da inteligência. No sistema educacional
atualmente vigente o enobrecimento da inteligência, quando se
dá, não se dá senão em função do outro objetivo realmente
pretendido. Como tais objetivos, porém, são geralmente muito
limitados, o resultado é que normalmente os educandos não
terão familiaridade senão com atividades da inteligência
igualmente muito limitadas.
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Provvisori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE5-8.htm2006-06-02 14:47:02
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.5, C.9.
Capítulo 9
Mas, voltando aos princípios de Parmênides, este dizia que o
mesmo é o ser e o pensar. Ao que tudo indica, com isto ele quis
dizer que a estrutura dos seres reais e a estrutura do
pensamento são exatamente a mesma.
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Provvisori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE5-9.htm2006-06-02 14:47:02
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.5, C.10.
Capítulo 10
Dizer que a estrutura dos seres reais e a estrutura do
pensamento são exatamente a mesma, significa dizer que as leis
fundamentais que regem os seres reais e as leis fundamentais
que regem o pensamento são exatamente as mesmas.
Ou seja, que o que é impossível para o pensamento enquanto
pensamento é impossível para os seres enquanto seres e viceversa.
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Provvisori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE5-10.htm2006-06-02 14:47:02
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.5, C.11.
Capítulo 11
Mas devemos aqui, antes de prosseguirmos, perguntar o que
queremos dizer com algo ser impossível para o pensamento.
É impossível para o pensamento aquilo que envolve uma íntima
contradição de lógica. Neste sentido, não é impossível para o
pensamento, por exemplo, conceber um ser humano com várias
cabeças. Um ser humano com várias cabeças seria uma coisa
estranha e que nunca foi vista, mas um homem com várias
cabeças, ou uma galinha com quatro patas, ou outras coisas
deste tipo não envolvem uma contradição de lógica. Estas
coisas não existem, mas nada impediria que elas existissem se
a ordem natural fosse diferente e, além disso, esta mesma outra
ordem natural não é também impensável.
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Provvisori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE5-11.htm2006-06-02 14:47:02
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.5, C.12.
Capítulo 12
Uma contradição de lógica é alguma coisa que é impensável
simplesmente. Por exemplo, dois mais dois serem cinco é algo
que envolve uma contradição de lógica.
Como um outro exemplo, a matemática prova que a soma dos
ângulos internos de um triângulo é sempre igual a 180 graus. A
existência de um triângulo cujos ângulos internos somados
tivessem como resultado um valor diferente de 180 graus
envolveria uma contradição de lógica. Além disso, deve-se
acrescentar também que jamais foi visto um triângulos destes
em lugar algum.
Uma coisa ser e não ser uma mesma coisa ao mesmo tempo é
uma outra contradição de lógica que jamais foi vista em lugar
algum.
Um fato que aconteceu passar a jamais ter acontecido é também
outra contradição de lógica que nunca consta ter sido vista.
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Provvisori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE5-12.htm2006-06-02 14:47:02
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.5, C.13.
Capítulo 13
Todas estas constatações, isto é, todas estas constatações de
que cada uma destas contradições de lógica nunca foram
observadas no mundo real, podem em um primeiro exame ser
consideradas como fatos tão evidentes que não necessitariam
de maiores explicações. Mas, quando se consideram melhor
estas mesmas coisas, vemos que não estamos diante de algo
tão simples como nos parecia.
Sim, porque se alguma coisa envolve uma contradição de lógica
e, portanto, se é inintelegível por causa deste motivo, isto é uma
propriedade que pertence ao mundo do pensamento. Significa
que há certas coisas as quais o mundo do pensamento é
radicalmente incapaz de apreendê-las. O mundo do pensamento
não é incapaz de apreendê-las porque isto lhe seja difícil, é
incapaz de apreendê-las porque para o pensamento trata-se de
uma coisa impossível em si mesma. É impossível para ele agora
e será impossível para ele sempre. É uma limitação do mundo
do pensamento, pela qual ele não é capaz de conceber tais
coisas. Nele tais pensamentos não fazem sentido e
simplesmente não podem ser consistentemente concebidos.
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Provvisori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE5-13.htm2006-06-02 14:47:03
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.5, C.14.
Capítulo 14
Mas se o mundo do pensamento não é capaz de concebê-las,
isto não deveria significar que elas não possam existir.
No entanto, parece que é exatamente o contrário o que
acontece, porque nunca tais coisas foram vistas em lugar algum
e, ademais, ninguém tem esperança de que um dia venham a sêlo. Com isto somos conduzidos à seguinte pergunta:
"Por que não
pode existir
alguma
coisa que a
mente
humana seja
radicalmente
incapaz de
compreender,
se esta é
uma
limitação do
mundo da
inteligência
e apenas do
mundo da
inteligência?"
Por que esta limitação parece ser também uma limitação do
mundo da natureza, se a natureza não é uma mente?
Por que não poderia existir dentro da realidade uma coisa que
envolvesse uma contradição de lógica?
Por que eu não poderia ver diante dos meus olhos uma coisa
que a mente fosse capaz de provar que para a inteligência ela é
contraditória mas que, apesar disso, já que a natureza não é
obrigada a ter as restrições que são próprias do mundo da
inteligência, ela seria capaz de produzir?
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Pr...sori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE5-14.htm (1 of 2)2006-06-02 14:47:03
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.5, C.14.
Uma contradição de lógica, como o próprio nome sugere, é algo
que por sua natureza não pode existir no mundo mental. Mas
por que esta lei do mundo mental parece ser também uma lei do
mundo real?
Existiria, então, uma relação entre o mundo do pensamento e o
mundo da natureza mais profunda do que os filósofos présocráticos anteriores haviam imaginado?
É isto o que Parmênides quis dizer quando afirmou que
"o ser é
o
mesmo
que o
pensar".
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Pr...sori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE5-14.htm (2 of 2)2006-06-02 14:47:03
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.5, C.15.
Capítulo 15
E isto não é só o que ele disse, mas o que todos nós podemos
ver por nossa própria experiência.
Quando nós chegamos à conclusão de que um raciocínio
envolve uma contradição, nós freqüentemente dizemos
simplesmente: "Isto não existe".
Nós não dizemos: "Isto é impensável". Esta última afirmação
deveria ser aparentemente a única coisa que teríamos direito de
dizer.
Quando nos vemos diante destas contradições, na maior parte
das ocasiões nós pulamos a conclusão "Isto é impensável" e
saltamos direto para a outra: "Isto não pode, em hipótese
alguma, existir".
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Provvisori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE5-15.htm2006-06-02 14:47:03
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.5, C.16.
Capítulo 16
Chegamos assim a uma conclusão digna de atenção. A natureza
e o mundo do pensamento parecem seguir as mesmas leis.
Certas leis fundamentais da atividade intelectiva, que não
parecem que devam ter relação com a natureza, são leis
igualmente rigorosas para com a existência dos seres em geral.
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Provvisori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE5-16.htm2006-06-02 14:47:03
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.5, C.17.
Capítulo 17
Devemos notar que esta constatação sobre a natureza é mais
profunda do que aquelas que os primeiros pré socráticos nos
deixaram.
Com os dados dos pré socráticos anteriores a Parmênides
somente podíamos chegar à conclusão de que a natureza tinha
uma aparência de participação da natureza racional. Mas com
Parmênides vamos além. A natureza parece se mostrar como
verdadeiramente participante dos mesmos fundamentos da
natureza racional.
Com os pré socráticos anteriores a natureza parecia inteligente,
comportava-se como se fosse inteligente, podia ser utilizada
como objeto da nossa atividade inteligente, mas era sempre
tratada "como se fosse" dotada de uma participação da natureza
inteligente. Mas agora, com Parmênides, ele consegue perceber
que, em um certo sentido, o ser é o mesmo que o pensar, e com
isto parece que esta interdependência entre natureza e
pensamento é mais séria do que pensávamos.
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Provvisori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE5-17.htm2006-06-02 14:47:04
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.5, C.18.
Capítulo 18
É importante mostrar como a constatação deste fato é um
desafio mesmo para a ciência moderna.
Um cientista moderno que estivesse ouvindo Parmênides e que
não tivesse tido tempo para refletir sobre o assunto diria, num
primeiro momento, que sua primeira impressão sobre a
constatação de Parmênides seria a de não se tratar de algo tão
extraordinário assim. Antes, ao contrário, este fenômeno teria
uma explicação até elementar. Esta explicação, diria o cientista,
vem da teoria da evolução.
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Provvisori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE5-18.htm2006-06-02 14:47:04
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.5, C.19.
Capítulo 19
Segundo a teoria da evolução, todo ser vivo, animal ou vegetal,
tem continuamente descendentes que podem estar sujeitos a
mutações ocasionais. Quando, por acaso, estas mutações são
melhor ambientadas ao mundo que os cerca e os torna mais
aptos para a luta pela sobrevivência, isto faz com que sobreviva
o animal mais apto em detrimento do animal menos apto. Desta
maneira, a natureza selecionaria, automaticamente, os seres
mais evoluídos dos menos evoluídos.
Assim, por exemplo, em época de escassez de alimentos, as
espécies que podem se alimentar de um número maior e mais
diversificado de alimentos sobrevivem, enquanto que as que
são obrigadas a uma alimentação mais restrita parecem e se
extinguem.
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Provvisori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE5-19.htm2006-06-02 14:47:04
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.5, C.20.
Capítulo 20
Assim é que se explica, diriam os biólogos, a admirável
adaptação do ser humano ao meio ambiente. É a seleção natural
que favorece os seres vivos que, por acaso, estavam mais
adaptados ao meio que os circunda.
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Provvisori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE5-20.htm2006-06-02 14:47:04
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.5, C.21.
Capítulo 21
Por exemplo, o homem não enxerga, por meio da sua vista, os
raios X, mas apenas a luz nos comprimentos de onda
normalmente emitidos pelos objetos à sua volta. Como a teoria
da evolução explica isto?
Isto aconteceu porque se tivesse existido alguma vez algum
animal dotado de visão de raios X este animal nada veria, já que
os corpos na superfície da Terra não costumam emitir raios X e,
portanto, um animal com visão sensível aos raios X teria sido
facilmente devorado pelos outros animais que enxergassem de
fato. Os que, porém, como nós, eram capazes de ver as coisas
ao seu redor, podendo se defender mais facilmente dos ataques
dos animais que não enxergando nada se defendem apenas
pelo tato, acabariam sobrevivendo e sobrevivendo talvez
justamente às custas dos que estavam em desvantagem em
relação a eles.
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Provvisori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE5-21.htm2006-06-02 14:47:04
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.5, C.22.
Capítulo 22
É assim que esta teoria explica também porque o homem está
adaptado a digerir justamente os alimentos que a natureza lhe
oferece à sua volta e não outros; porque está adaptado a
enxergar justamente nas freqüências de onda que os objetos
emitem à sua volta; porque está adaptado a ouvir justamente os
sons na freqüência em que os principais acontecimentos à sua
volta provocam ruído; porque está adaptado a respirar
justamente o ar que está à sua volta, e assim por diante.
Seria de se esperar, portanto, que a mesma explicação
funcionasse para o caso da inteligência. Por este mesmo
mecanismo teria se originado no homem uma inteligência que
segue as mesmas leis do ambiente que o cerca. Seria apenas
uma questão de seleção natural. Se alguma vez houve algum
animal cuja inteligência não estivesse em harmonia com o
mundo à sua volta, ou mesmo que apenas tivesse começado a
sofrer uma mutação biológica neste sentido, teria ele perecido
na luta pela sobrevivência.
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Provvisori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE5-22.htm2006-06-02 14:47:05
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.5, C.23.
Capítulo 23
Este é o primeiro argumento que instintivamente despontaria na
mente de qualquer cientista moderno que ouvisse Parmênides
falar.
Examinado, porém, este argumento mais atentamente,
encontraremos que ele não serve como explicação para o
problema levantado por Parmênides, e vamos tentar explicar por
qual motivo.
Este argumento não vale para a questão levantada por
Parmênides porque, em todos os casos de seleção natural, o
modo de operar desta seleção natural é tal que produz um meio
de escolher apenas entre capacidades de sobrevivência
adaptadas em relação ao meio ambiente diretamente em contato
com o animal, mas apenas em relação ao meio ambiente
diretamente em contato com o animal, porque é com este meio
ambiente imediatamente próximo ao animal que o animal luta e
perece em sua espécie se não for capaz de se adaptar, ou
continua existindo se for capaz. Todos os casos de seleção
natural se referem apenas à adaptação em relação ao meio
ambiente próximo à espécie.
Assim é que o homem está adaptado para viver à pressão
próxima daquela encontrada na atmosfera terrestre ao nível do
mar, que é o seu meio ambiente imediato. Colocado em
qualquer outra atmosfera de outro planeta, provavelmente
morreria. Mesmo na nossa própria, se conduzido apenas a
alguns quilômetros acima do solo ou a alguns poucos metros
abaixo da superfície da água, a pressão do ar ou da água lhe
será fatal.
Assim também ele é capaz de se alimentar do que é produzido
na Terra, mas se ingerisse plantas naturais de outro planeta,
supondo que elas existam, a grande probabilidade é que
morreria. De fato, se o homem entrar em um laboratório químico
que produz substâncias artificiais, inexistentes na natureza,
substâncias que a natureza nunca produziu, a grande
probabilidade é que se envenenaria ao ingerir qualquer uma
delas.
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Pr...sori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE5-23.htm (1 of 2)2006-06-02 14:47:05
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.5, C.23.
Mas não é assim no caso da inteligência.
Há como que uma intuição quase que inata no homem segundo
a qual percebemos, como que intuitivamente, que em qualquer
lugar do espaço, em qualquer lugar do universo, não apenas na
superfície da Terra, sempre aquilo que é intrinsecamente ilógico
não existe. Jamais encontraremos em lugar algum do universo
um triângulo cuja soma dos ângulos internos não seja igual a
180 graus. Jamais estaremos em alguma galáxia onde
deixaremos de ter nascido, apesar de termos nascido. Jamais
algo lá será e deixará de ser a mesma coisa ao mesmo tempo.
Jamais os teoremas da matemática, puramente racionais,
deixarão de ser válidos quando transpostos para a realidade
circundante.
Ora, seria pedir muito que a seleção natural, obrigando o
homem por um método na verdade tão primitivo e limitado a
lutar pela sobrevivência junto apenas ao seu meio ambiente,
tivesse conseguido produzir uma qualidade tão ilimitada, em
que mais pareceria que o homem estivesse lutando pela
sobrevivência não na Terra, mas simultaneamente na totalidade
da extensão do universo e contra todos os seres nele contidos.
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Pr...sori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE5-23.htm (2 of 2)2006-06-02 14:47:05
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.5, C.24.
Capítulo 24
O argumento da teoria da evolução, que expusemos acima, vem
da Biologia. Vimos o que Parmênides provavelmente lhe teria
respondido se estivesse vivo entre nós. Mas diante desta
resposta de Parmênides a ciência moderna teria uma segunda
objeção a fazer. Esta proviria não mais dos biólogos, mas dos
físicos. Infelizmente não poderemos mais acompanhar este
outro argumento com os detalhes que o tornariam claro, porque
a formação dos alunos do curso magistral nesta matéria não
lhes seria suficiente. Mas trata-se de algo tão importante que
devemos deixar dito aqui alguma coisa, nem que seja para
constar e ser aproveitado bem mais tarde quando, tendo os
alunos melhores conhecimentos de Física e possivelmente
lembrando-se desta aula, lhes viesse espontaneamente à
inteligência este possível raciocínio que exporemos a seguir.
Conforme vimos, os biólogos concordariam com a constatação
de Parmênides, embora não com a explicação para a qual ele
parece se dirigir. Diriam que realmente é verdade o que
Parmênides constata. Parmênides tem razão quando diz que o
ser e o pensar são o mesmo. Isto, porém, nada tem de
misterioso ou de extraordinário e se explicaria de um modo
muito simples pela teoria da evolução.
Os físicos, porém, ao contrário, diriam que Parmênides não tem
razão sequer em sua constatação mais elementar. Ao contrário
do que diriam os biólogos num primeiro momento, para os
físicos pareceria imediatamente claro que a mente humana não
está adaptada, de maneira nenhuma, a todos os seres do
universo. A justificativa desta afirmação depende do
conhecimento de algo que, segundo os físicos, os biólogos não
conhecem, ou pelo menos que não o conhecem enquanto
biólogos, embora possam conhecê-lo circunstancialmente se
conhecerem também alguma coisa de Física. Este algo surgiu
quando os físicos analisaram o comportamento das partículas
sub atômicas, um mundo tão pequeno que a nossa inteligência
no nosso dia a dia não pode tomar contato direto, e com o qual
nunca tomou contato a não ser nos últimos oitenta anos de
pesquisa, um intervalo de tempo muito curto, principalmente se
comparado com o da duração da história humana. Quando,
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Pr...sori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE5-24.htm (1 of 2)2006-06-02 14:47:05
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.5, C.24.
conforme dizíamos, os físicos analisaram os fenômenos do
mundo sub atômico, um mundo ao qual a inteligência humana
nunca teve acesso senão nos últimos anos, um mundo que,
portanto, não faz parte do meio ambiente em que se desenvolve
a inteligência, os físicos afirmariam terem observado, ao
contrário do que dizia Parmênides, muito coisa que é uma
afronta ao bom senso intelectual. E, no entanto, estas coisas
existem. Existiriam ali, dizem os físicos, coisas que são uma
afronta à Lógica e que, no entanto, estão ali. E, se é assim,
diriam os físicos, pode-se perguntar como é que ficaria a teoria
de Parmênides diante destes fatos. Pois, se os físicos têm
razão, então não se poderia dizer mais que o mesmo é o ser e o
pensar. Não, pelo menos, no mundo sub atômico, mas bastaria
esta exceção para invalidar o princípio de Parmênides.
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Pr...sori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE5-24.htm (2 of 2)2006-06-02 14:47:05
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.5, C.25.
Capítulo 25
Não podemos demonstrar aqui o que Parmênides responderia
aos físicos. Não teríamos conhecimentos suficientes para
acompanhar todo o raciocínio. Mas é tão importante a resposta
que não podemos deixar de citá-la, ainda que seja para ser
entendida em uma outra época, quando e se tivermos melhores
conhecimentos nesta área. Parmênides responderia que todos
sabem que quando um físico trabalha, ele primeiro observa um
fenômeno qualquer em seu laboratório e sobre este fenômeno
constrói uma teoria que é costumeiramente chamada de modelo
matemático daquele fenômeno. Ele vê uma partícula desviandose, imagina que existam forças atuando sobre esta partícula e
imagina também uma fórmula matemática que descreva o
comportamento destas forças. O fenômeno é apenas a partícula
que se desvia. O modelo, isto é, as coisas que o físico não via,
mas que supôs que existissem para poder explicar os fatos, são
tanto as forças como as fórmulas matemáticas que as
descrevem.
Ora, analisando os exemplos que os físicos teriam a apresentar
para sustentarem a explicação que eles deram sobre a teoria de
Parmênides constataríamos que as contradições a que os
físicos estariam se referindo, supondo que elas realmente
existam, nunca aparecem nos fenômenos, mas apenas nos
modelos. Ora, é muito comum no mundo da ciência tomar os
modelos pelas realidades. No seu trabalho cotidiano os
cientistas freqüentemente trocam com espantosa facilidade uma
pela outra e deixam de se lembrar quando estão trabalhando
com a realidade e quando estão trabalhando com o modelo.
Quantos de nós, por exemplo, não nos referimos à força da
gravidade como se ela fosse uma realidade? No entanto, um
pouco de reflexão nos mostrará que ela é apenas um modelo, e
não uma realidade; a realidade sobre a qual ela foi construída é
somente a queda dos corpos. Não há nenhum indício direto de
que exista uma realidade tal como a força da gravidade, ela não
passa de uma hipótese inteligente para explicar a queda dos
corpos. Feitas estas distinções, ocorre agora observar que
recentemente na história da Física moderna muitas vezes um
modelo aparentemente ilógico, mas que explicava corretamente
algum fenômeno, foi substituído posteriormente por outro
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Pr...sori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE5-25.htm (1 of 2)2006-06-02 14:47:06
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.5, C.25.
modelo mais engenhoso, que explicava o mesmo fenômeno de
maneira igualmente correta, mas que era menos atentatório à
lógica. Nunca, porém, foi visto, nem mesmo na Física das
partículas sub atômicas, nenhum fenômeno que em si
contivesse uma contradição de lógica. De modo que, portanto, a
objeção dos físicos, segundo Parmênides, na realidade não
existiria.
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Pr...sori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE5-25.htm (2 of 2)2006-06-02 14:47:06
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.5, C.26.
Capítulo 26
Finalizamos estas notas constatando que Parmênides foi,
portanto, ao que parece, o primeiro que descobriu o fato de que
a natureza se comporta segundo as mesmas leis fundamentais
que regem o mundo da inteligência.
Este fato veio, depois, a ser conhecido posteriormente na
Filosofia como uma das propriedades transcendentais do ser, e
esta propriedade chamou-se, em Latim, de "vero", verdadeiro.
Segundo esta terminologia posterior, não dizemos que o ser e o
pensar são o mesmo, como o disse Parmênides, mas dizemos, o
que é a mesma coisa, que
"o ser e o
vero se
convertem".
Ou, em outras palavras, todo ser, somente pelo fato de ser, é
apenas por isto necessariamente intelegível; e tudo o que é
intelegível é, apenas por este fato, possível de existir.
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Provvisori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE5-26.htm2006-06-02 14:47:06
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.5, C.27.
Capítulo 27
A mesma coisa não é verdade em relação a outras propriedades.
Não são todos os seres visíveis, apenas porque existem. Não
são todos os seres audíveis, apenas porque existem. Não são
todos os seres mensuráveis, apenas porque existem.
E assim por diante.
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Provvisori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE5-27.htm2006-06-02 14:47:06
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.5, C.28.
Capítulo 28
Mas por que todos os seres têm que ser intelegíveis, apenas
porque existem, é, de fato, mesmo perante os dados da ciência
moderna, um enigma.
O homem pode ter-se adaptado por sua inteligência ao meio
ambiente. Pode ter-se inclusive adaptado ao Universo inteiro.
Mas mesmo que este tenha sido o caso, se é que o foi, por que
motivo não pode surgir aqui e agora, depois de ter acabado esta
adaptação, um ser totalmente novo no Universo, um ser que
jamais existiu antes e para o qual, portanto, a inteligência
humana não tenha podido ter sido adaptada, um ser que desta
vez fosse um absurdo do ponto de vista lógico?
Não vamos responder a isto agora. Fica apenas registrado o fato
de que foi Parmênides o primeiro a descobrir que é assim que
ocorre e que, com isso, confirmou e levou adiante as intuições
dos primeiros pré socráticos sobre a natureza, pois segundo ele
o mundo participa de fato, e não apenas na aparência, das
mesmas propriedades fundamentais da natureza racional.
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Provvisori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE5-28.htm2006-06-02 14:47:06
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.5, C.29.
Capítulo 29
Mas a história de Parmênides não acaba aqui. É o que veremos
em seguida.
São Paulo, junho de 1989
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Provvisori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE5-29.htm2006-06-02 14:47:06
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.6, C.1.
PARMÊNIDES,
Segunda Parte
Capítulo 1
Nas notas anteriores falamos de Parmênides, um filósofo que
inicialmente havia sido discípulo dos filósofos pitagóricos.
Começamos a examinar os fragmentos do poema que
Parmênides escreveu e que foram conservados até os nossos
dias, preservados como citações mais ou menos extensas em
livros de outros filósofos que viveram posteriormente e que
haviam lido a obra de Parmênides e comentado sobre ela. Vimos
como no início de seu poema Parmênides descreve em uma
linguagem figurada estar sendo transportado em uma
carruagem até a morada dos deuses onde foi saudado e
instruído acerca dos princípios da Filosofia. Lá ele ouviu que era
preciso que se instruísse para que fosse capaz de distinguir
bem entre
"o
âmago
inabalável
da
verdade
e as
opiniões
dos
mortais".
E a primeira verdade que Parmênides coloca em evidência,
tirada da contemplação da natureza que vinha sendo conduzida
há muitos anos por ele e por outros filósofos, foi a constatação
de que o ser e o pensar são o mesmo.
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Provvisori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE6-1.htm2006-06-02 14:47:07
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.6, C.2.
Capítulo 2
Na linguagem de Parmênides o ser e o pensar serem o mesmo
significa primeiramente a constatação de que todo ser tem que
ser necessariamente inteligível. Não é possível que exista um
ente que seja simultaneamente com a sua existência uma
contradição quando examinado pela inteligência. Aquilo que
está além dos limites da capacidade de concepção da
inteligência, de tal maneira que a inteligência se veja obrigada a
declarar não que não consegue alcançá-lo, mas que o alcançou
e viu que é inconcebível, é também incapaz de existir. As
limitações intrínsecas do mundo da inteligência são também
limitações intrínsecas do mundo real.
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Provvisori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE6-2.htm2006-06-02 14:47:07
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.6, C.3.
Capítulo 3
Desta maneira Parmênides aprofundou a compreensão sobre a
natureza que havia até então entre os filósofos pré socráticos
anteriores a ele. Estes filósofos pré socráticos já tinham
percebido como a natureza se comportava de um modo
estruturalmente semelhante ao comportamento da racionalidade
humana, de tal maneira que usavam da contemplação desta
natureza para a educação da inteligência assim como usaríamos
atualmente para tanto de um livro, que é uma obra da razão. Mas
tratava-se apenas de uma experiência que os pré socráticos
haviam feito. Esta semelhança da estrutura do racional com a
estrutura do mundo real era apenas uma constatação que,
ponderadas as afirmações que restaram destes primeiros
filósofos pré socráticos, ninguém ainda havia afirmado
claramente que não poderia ser uma simples coincidência. Foi
Parmênides o primeiro que colocou claramente que isto ter que
ser assim por uma questão não de coincidência, mas porque
existe um princípio que exige que tanto o mundo da realidade
como o mundo do pensamento participem das mesmas
características fundamentais, de tal modo que o que é lei
absoluta para um tem que ser lei absoluta para o outro. Neste
sentido, o ser e o pensar são o mesmo. A natureza parece
participar do caráter racional não por uma causalidade, mas
porque para algo poder entrar na existência tem que satisfazer
primeiro certos requisitos que são próprios do mundo da razão,
isto é, a inteligibilidade ou a concebibilidade.
Com isto ficava mais claro porque ela era capaz de fascinar
tanto a mente humana como vinha fazendo com os filósofos.
Mas, ao mesmo tempo, quando Parmênides percebeu isto, foi
também obrigado a perguntar-se outras coisas.
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Provvisori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE6-3.htm2006-06-02 14:47:07
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.6, C.4.
Capítulo 4
O poema de Parmênides mostra que este filósofo foi obrigado a
fazer-se uma pergunta que não consta do texto de seu poema,
mas que está subentendida no mesmo. Se Parmênides não
tivesse pensado nela, não poderia ter escrito o que escreveu
depois.
Esta pergunta é a seguinte.
Tudo o que existe tem que ser inteligível, e isto não é apenas
uma constatação, mas um princípio que parece manifestamente
perceptível a todos os homens. Conforme já notamos, quando
alguém descreve uma coisa contraditória, tanto faz para nós que
lhe respondamos que "Isto não faz sentido" como que lhe
respondamos que "Isto não existe". O significado destas duas
respostas será entendido como equivalente. Isto mostra o
quanto para todos é intuitivo que uma contradição do
pensamento não pode concretizar-se no mundo real.
Mas suponhamos que então um dia víssemos como nossos
próprios olhos um objeto que representasse para a inteligência
uma autêntica contradição. Tomados de espanto,
principalmente depois de uma aula como esta, observaríamos
melhor este objeto, faríamos dele um exame sob todos os
pontos de vista, e então chegaríamos à conclusão de que não
houve nenhum engano em nossa primeira avaliação. Ficaríamos
convencidos de que efetivamente estaríamos vendo um objeto
que, pelo que a inteligência é capaz de compreender, não
poderia existir porque é a realização de uma contradição. A
inteligência nos forçaria a dizer que, se o princípio de
Parmênides é verdadeiro, tal ser não poderia existir. No entanto,
ele está aí. Se possível fosse que algum dia ocorresse um fato
como este, o que deveríamos dizer dele? Este ser que teríamos
descoberto seria uma ilusão ou seria algo real?
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Provvisori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE6-4.htm2006-06-02 14:47:07
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.6, C.5.
Capítulo 5
Quando tentamos responder a esta questão, apreciando o
problema do ponto de vista da inteligência, esta nos diria que
trata-se de um absurdo e que, portanto, de um ser que,
justamente por este motivo, não poderia existir. A inteligência
nos daria até um exemplo para nos convencer mais facilmente.
Seria como se um dia quiséssemos nos convencer de que
existimos e ao mesmo tempo não existimos. Se, por acaso,
fosse algo assim que os nossos olhos estivessem vendo, é
evidente que deveria concluir-se categoricamente que, apesar
de nossos olhos nos dizerem que estão vendo isto, tudo não
pode passar de uma ilusão de ótica.
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Provvisori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE6-5.htm2006-06-02 14:47:08
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.6, C.6.
Capítulo 6
Mas por outro lado, poderia acontecer então que, examinando a
mesma questão do ponto de vista dos sentidos, percebêssemos
que esta ilusão não passa com o decorrer do tempo, e que não
fosse só nossa, mas também de todos os homens. Quantas
vezes nós, ou qualquer pessoa, em qualquer época e em
qualquer lugar, examinassem este estranho objeto, lá ele
estaria. E poderia acontecer também que ele não fosse apenas
visível, mas também audível e tocável. Qualquer um poderia
pega-lo com as mãos, examina-lo melhor, ouvi-lo, cheira-lo, tocalo e tudo isto sem que a ilusão se desfizesse. Considerado sob
este ponto de vista, qualquer um seria tentado a dizer que tal
objeto de fato existe.
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Provvisori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE6-6.htm2006-06-02 14:47:08
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.6, C.7.
Capítulo 7
Mas se voltarmos a examinar a mesma questão novamente
apenas sob a luz da inteligência, esta impressão dos sentidos,
por mais forte que fosse, teria necessariamente que se desfazer.
Nós seríamos obrigados a concordar que estamos lidando com
uma ilusão. Não é possível fazer a inteligência admitir que eu
existo e ao mesmo tempo não existo nem que seja isto que
alguém nos diga que está vendo.
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Provvisori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE6-7.htm2006-06-02 14:47:08
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.6, C.8.
Capítulo 8
Mas esta certeza permaneceria assim inabalável só até o
momento em que voltássemos a considerar os testemunhos de
todos os sentidos nos mostrando este ente absurdo
incessantemente diante de nossos olhos, desafiando tempos e
lugares, e confirmado por quantas testemunhas nós
quiséssemos interrogar.
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Provvisori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE6-8.htm2006-06-02 14:47:08
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.6, C.9.
Capítulo 9
Devemos concordar que se uma situação como esta se
verificasse de fato, seria certamente uma coisa muitíssimo difícil
entender o que estaria acontecendo. Seria um terrível dilema.
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Provvisori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE6-9.htm2006-06-02 14:47:08
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.6, C.10.
Capítulo 10
A grandeza de Parmênides está em que ele não só pela primeira
vez se colocou diante deste problema, como também em que,
quando ele assim o fêz, não teve dúvidas sobre o que deveria
julgar sobre o caso.
O caso que acabamos de descrever, apresentado conforme o
narramos, parece sugerir que a maioria de nós, defrontados
com semelhante situação ficaria perpetuamente na dúvida. Mas
a verdade é bem outra. Apresentado o caso na vida real, se
surgisse diante de nós um ser que fosse, do ponto de vista da
inteligência, uma contradição, isto seria para todos um indício
certo de que a afirmação segundo a qual o ser e o pensar são o
mesmo não pode ser um princípio universalmente válido. É
assim que nós quase certamente julgaríamos, porque a maioria
de nós vive psicologicamente muito mais preso ao mundo dos
sentidos do que ao mundo da inteligência.
Esta é, porém, uma situação bastante diferente daquela dos
filósofos pré socráticos, os quais, pela educação que tinham
recebido, eram capazes de viver intensamente as realidades do
mundo da inteligência, assim como nós vivemos as realidades
do mundo sensível à nossa volta. Para eles o mundo da
inteligência era um mundo de luz. Esta é uma afirmação feita
inclusive por eles próprios. Platão fêz uma comparação a este
respeito, conforme veremos posteriormente, segundo a qual o
mundo da inteligência, quando o homem consegue ambientarse nele, é como um mundo iluminado por um sol brilhante, para
o qual o sol material que nós vemos não é nada mais do que um
símbolo deste outro sol da inteligência.
Mas para a maioria de nós a luz da inteligência é apenas uma
fagulha que pisca em momentos isolados. Nós vivemos de fato
intensamente e na maior parte do tempo no mundo que nos vem
dos sentidos considerado apenas à luz destes sentidos, ou num
mundo de imaginações e sonhos que revivem experiências
passadas expectativas de experiências futuras que pertencem
totalmente a este domínio. Ora, para quem vive assim, o
princípio de Parmênides de que o ser e o pensar são o mesmo
não é na realidade um princípio, mas apenas uma generalização
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Pr...sori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE6-10.htm (1 of 2)2006-06-02 14:47:09
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.6, C.10.
de muitas observações. Isto significa que já que sempre vimos
seres que não contradizem o pensar, agimos por conseqüência
como se sempre assim haveria de acontecer. Se, porém, um dia
acontecesse diversamente, julgaríamos então que a surpresa
que daí nos adveio foi devido ao fato de que não tínhamos
vivido ainda o bastante para poder ter visto de tudo um pouco.
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Pr...sori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE6-10.htm (2 of 2)2006-06-02 14:47:09
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.6, C.11.
Capítulo 11
Mas para Parmênides a identidade entre o ser e o pensar não
era apenas uma generalização da experiência, e sim um
princípio cuja evidência ele via à luz da inteligência. Parmênides
era capaz de contemplar claramente a verdade deste princípio
em si mesmo considerado tal como ele se apresentava no
mundo da inteligência, sem precisar fazer continuamente
comparações com a realidade. A experiência com o mundo real,
que segundo os pré socráticos participa da natureza racional,
pode justamente por causa desta participação auxiliar no início
da investigação deste princípio, mas depois Parmênides e os
demais filósofos perceberam que um tal princípio não era uma
generalização da experiência, mas uma verdade evidente em si
mesma. A sua evidência era tão clara na inteligência de
Parmênides que ele não teve dúvidas em afirmar que se algum
dia fosse visto, ouvido ou manipulado um ser que fosse uma
contradição para a inteligência, tal ser não passaria de uma
ilusão.
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Provvisori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE6-11.htm2006-06-02 14:47:09
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.6, C.12.
Capítulo 12
A coragem de Parmênides em afirmar isto e aceitar todas as
conseqüências que daí advieram e que nós veremos daqui a
pouco é também o testemunho de uma outra posição implícita
de Parmênides.
Quando ele se defrontou com a possibilidade de ver-se diante
de objetos do mundo real mas não inteligíveis e, mesmo assim,
continuar mantendo o seu princípio e afirmar que estes objetos
teriam que ser ilusórios, ele com isto estava sustentando que a
necessidade de um objeto real ser concebível é uma
necessidade anterior à própria existência deste objeto real.
Quando ele diz que para algo entrar na existência tem que
satisfazer primeiro certos requisitos que são próprios do mundo
da razão, isto é, a inteligibilidade ou a concebibilidade, ele diz
que a estrutura do mundo real é obrigada a seguir uma
característica que é uma característica que pertence de modo
próprio ao mundo da inteligência.
Portanto, parece que o mundo da inteligência deve ser de
alguma maneira anterior, não no tempo, mas em natureza, ao
mundo real. Podemos dizer a mesma coisa dizendo que o
mundo da inteligência é um mundo mais elementar do que o
mundo real, ou mais fundamental do que o mundo real.
Mas, se é assim, cabe fazermos agora uma outra importante
pergunta. Como pode isto ter acontecido?
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Provvisori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE6-12.htm2006-06-02 14:47:09
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.6, C.13.
Capítulo 13
Existe um motivo muito sério para se fazer esta pergunta. Como
pode o mundo da inteligência ter uma natureza anterior, mais
elementar e fundamental do que o mundo real, de tal maneira
que parece impor suas características básicas ao mundo real,
se a inteligência humana é o que existe de mais posterior no
tempo dentro do mundo real? Pois, de fato, o homem, que é o
lugar onde existe o mundo da inteligência, foi justamente o
último dos seres a ter surgido dentro da natureza.
Não é preciso ser um biólogo moderno para se poder chegar à
conclusão de que o homem é o último dos seres a ter surgido
na natureza. Os filósofos gregos facilmente chegariam a esta
mesma conclusão raciocinando, por exemplo, com os seguintes
argumentos, argumentos bem no estilo da filosofia grega,
argumentos que mostram que o ser humano é o último dos
seres da natureza a ter surgido.
Um primeiro argumento para perceber isto é muito simples. A
natureza é vista sempre e em todo o lugar proceder do
imperfeito ao perfeito. Ora, o homem é o mais perfeito dos seres
da natureza. Portanto, deve ser posterior no tempo a todos os
demais seres da natureza.
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Provvisori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE6-13.htm2006-06-02 14:47:09
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.6, C.14.
Capítulo 14
Um outro argumento para se chegar à mesma conclusão é o
seguinte. O bom funcionamento da inteligência humana, isto é,
o funcionamento da inteligência humana conveniente com a sua
natureza, requer uma série de elementos de caráter não
intelectual. Requer, em primeiro lugar, um corpo material.
Requer, em segundo lugar, órgãos dos sentidos. Requer, em
terceiro lugar, a faculdade da imaginação, pela qual as imagens
que foram apresentadas em outro tempo pelos cinco sentidos
são conservadas e relembradas no interior do homem. A
imaginação não é a inteligência. A imaginação é a persistência e
o prolongamento dos dados provenientes dos cinco sentidos
dentro do homem e é sobre este material da imaginação que irá
trabalhar a inteligência. Sem estas coisas, corpo, sentido e
imaginação, a inteligência não pode trabalhar ou, pelo menos,
não pode trabalhar convenientemente.
Mas estas coisas, isto é, corpo material, sentidos e imaginação,
que são prévias ao funcionamento conveniente da inteligência,
podem existir e funcionar de modo perfeito sem a existência da
inteligência. É o que vemos acontecer nos animais inferiores,
que têm corpo, sentidos, sentidos às vezes até mais perfeitos
do que os do homem, e inclusive, dependendo do animal, até
uma imaginação sensível desenvolvida ser possuir, contudo,
atividade inteligente.
Ora, aquilo que para existir ou, pelo menos, para existir
convenientemente segundo sua natureza necessita de outros
que porém não só podem existir como também podem existir
perfeitamente sozinhos, tem que ser posterior no tempo.
Portanto, conclui-se daí que os animais tem que ser posteriores
no tempo à natureza material, que os homens, por sua vez, tem
que ser posteriores no tempo aos animais, e que o homem é, na
ordem do tempo, o último dos seres a aparecer no mundo real.
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Provvisori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE6-14.htm2006-06-02 14:47:10
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.6, C.15.
Capítulo 15
De raciocínios deste tipo pode-se concluir filosoficamente,
conforme vimos, que o homem é, na natureza, o último ser que
desponta no tempo.
Como pode a inteligência, portanto, que é assim aparentemente
posterior, ditar normas que pertencem mais propriamente ao
seu mundo não só à natureza mas ao n=mundo real como um
todo, sendo que este lhe é anterior no tempo, isto é, existiu
antes?
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Provvisori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE6-15.htm2006-06-02 14:47:10
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.6, C.16.
Capítulo 16
Ao que parece, Parmênides não respondeu a esta pergunta. Mas
percebeu, claramente, que de alguma forma o mundo da
inteligência é anterior ao mundo real.
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Provvisori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE6-16.htm2006-06-02 14:47:10
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.6, C.17.
Capítulo 17
Retornando, porém, ao que explicitamente encontramos em
Parmênides, podemos conjecturar com ele que, se a estrutura
fundamental do pensamento é a mesma estrutura fundamental
do ser, isto significa que investigando a estrutura fundamental
do pensamento podemos investigar a estrutura fundamental do
ser. Foi o que Parmênides propôs-se a fazer.
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Provvisori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE6-17.htm2006-06-02 14:47:10
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.6, C.18.
Capítulo 18
Parmênides deduziu a estrutura fundamental do ser da seguinte
maneira. Em primeiro lugar, da identidade entre o ser e o pensar
Parmênides derivou o princípio citado por Proclo no Comentário
ao Timeu, segundo o qual
"o
ser
ée
não
pode
não
ser",
e também
"o
nãoser
não
ée
não
pode
ser".
Ambas estas afirmações tem que ser verdadeiras, porque se
não o fossem, o ser não seria e o não-ser seria, o que são
contradições, e uma contradição, segundo o primeiro dos
princípios de Parmênides, não pode verificar-se no mundo da
realidade.
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Provvisori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE6-18.htm2006-06-02 14:47:10
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.6, C.19.
Capítulo 19
Porém, se é assim, a primeira coisa que teríamos que concluir,
segundo Parmênides, é que algum ser tem que existir
necessariamente. Ou seja, seria impossível, diz Parmênides, que
nada existisse, e isto não por um acaso, mas por uma
necessidade inerente à própria estrutura da realidade que exige
que algo exista necessariamente. Porque qualquer coisa que
exista é ou ser ou não-ser. Se nada existisse, isto seria o mesmo
que dizer que o ser não existe, ou que o ser não é, o que seria
um absurdo. Portanto, algum ser existe necessariamente.
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Provvisori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE6-19.htm2006-06-02 14:47:11
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.6, C.20.
Capítulo 20
Ademais, se existe este ser, e nós acabamos de ver que ele
existe necessariamente, ele também tem que ser único. Porque
se ele não fosse único e houvesse um outro, o outro deveria
diferir do primeiro para que pudesse ser distinguido do
primeiro. Se não houvesse diferença nenhuma entre eles,
ambos seriam o mesmo. Mas se o primeiro é ser, a diferença
que distinguiria o segundo do primeiro teria que ser um não-ser,
porque o que difere do ser é não-ser. Portanto, se existisse
outro ser além do primeiro e único ser, deveria haver uma
diferença do segundo em relação ao primeiro. O segundo
deveria diferir do primeiro e, como só o não ser difere do ser, o
segundo seria o não-ser do primeiro. Mas se o primeiro é ser, o
segundo deveria ser não-ser. A conclusão então que se imporia
é que se existissem dois seres o não-ser existiria e, como isso
não é possível por ser contraditório, só pode existir um único
ser.
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Provvisori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE6-20.htm2006-06-02 14:47:11
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.6, C.21.
Capítulo 21
Ademais, segundo Parmênides, este ser que existe e é único
tem que ser também eterno. Porque se ele não fosse eterno
cessaria de ser e então o não-ser seria e o ser não seria, o que
também é contraditório.
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Provvisori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE6-21.htm2006-06-02 14:47:11
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.6, C.22.
Capítulo 22
Mas, além de ser eterno, o único ser que existe também não
pode mudar ou alterar-se. O motivo é que se este único ser que
existe é ser, se este ser mudar ele só poderá mudar para o nãoser. Mas enquanto ainda está se processando a mudança a
coisa ainda não é aquilo para o qual se dirige a mudança, ou
seja, ela ainda é ser. Mas, ao mesmo tempo, se a mudança já se
iniciou, ela já deixou de ser o que era e, se no início era ser,
agora só pode ser o não-ser. Conclui-se daí que se fosse
possível existir o fenômeno da mudança, ou o fenômeno do vira-ser, conforme também pode-se dizer, então alguma coisa seria
ao mesmo tempo ser e não-ser, o que também é contraditório.
A conclusão, pois, é que não podem existir no mundo real os
fenômenos a que chamamos de mudanças, alterações ou
mesmo de movimentos, que são um tipo especial de mudanças
ou alterações.
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Provvisori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE6-22.htm2006-06-02 14:47:11
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.6, C.23.
Capítulo 23
Segundo Parmênides, portanto, é impossível que no mundo real
exista a multiplicidade dos seres, assim como que os seres
mudem ou se alterem.
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Provvisori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE6-23.htm2006-06-02 14:47:12
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.6, C.24.
Capítulo 24
Porém, quando levantamos os olhos e contemplamos o mundo
ao nosso redor vemos um quadro muito diverso do que é
descrito por Parmênides. Não existe apenas um único ser, mas
uma multiplicidade de seres os mais diversos. Além disso,
nenhum deles é imutável mas, ao contrário, o que vemos
incessantemente é que tudo muda. A água evapora e retorna à
terra pela chuva, os alimentos apodrecem, os seres vivos
morrem e nascem, os animais se locomovem, o dia sucede à
noite e depois do inverno vem a primavera. Será que
Parmênides não enxergou tudo isso? Justamente um dos pré
socráticos, aqueles sábios que tanto se esforçavam por
contemplar a natureza? Mas se ele enxergou, então ele nos deve
uma explicação. O que ele tem a nos dizer diante deste
espetáculo da natureza, tão diverso do que ele nos deduz em
suas teorias? É muito simples, explicaria Parmênides. Tudo isto,
diria Parmênides, tudo isto que estamos vendo, toda esta
multiplicidade e todas estas mudanças e alterações, não
passam de uma ilusão.
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Provvisori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE6-24.htm2006-06-02 14:47:12
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.6, C.25.
Capítulo 25
Então, segundo Parmênides, isto significa que o mundo que nós
vemos não existe? Existe sim, diria Parmênides. O mundo é
real, mas em sua realidade ele não tem a aparência que nós
supomos pelos sentidos que ele tenha. No mundo só existe um
ser, que existe necessariamente e que não pode deixar de
existir, e que é único, eterno e imutável.
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Provvisori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE6-25.htm2006-06-02 14:47:12
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.6, C.26.
Capítulo 26
A maioria dos alunos que lerem estas coisas tomarão o
raciocínio de Parmênides como uma brincadeira, um simples
divertimento mental, uma piada um tanto quanto extravagante.
Estes alunos não terão sido com certeza os primeiros a
avaliarem Parmênides deste modo. Foi assim que a maioria dos
contemporâneos de Parmênides também entendeu a exposição
que ele na época lhes fazia de suas teorias. Mas devemos
chamar a atenção, tanto de uns quanto de outros, no sentido de
que tais pessoas não entenderam ou não quiseram entender o
que Parmênides quis dizer.
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Provvisori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE6-26.htm2006-06-02 14:47:12
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.6, C.27.
Capítulo 27
Estas pessoas, de fato, ridicularizam o raciocínio de Parmênides
por meio de uma confrontação com o mundo real. A diferença
entre entre o mundo descrito por Parmênides e o mundo
descrito pela experiência é tão grande que o raciocínio de
Parmênides é então tomada como uma piada. Atiramos no rosto
de Parmênides que o seu raciocínio é absurdo porque não
concorda com a experiência, como se ele próprio não tivesse
percebido isto desde o início. É manifesto, porém, que
Parmênides não precisava ser alertado deste fato que é visível a
todos bem claramente. A diferença entre o mundo real tal como
é percebido pela experiência não pode ser invocada como
objeção ao raciocínio deste filósofo, pois foi justamente para
chamar a atenção para esta diferença que Parmênides expôs
estas considerações em seu poema.
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Provvisori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE6-27.htm2006-06-02 14:47:12
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.6, C.28.
Capítulo 28
Se uma comparação entre o mundo tal como é deduzido por
Parmênides e o mundo tal como é percebido pela experiência
dos sentidos não pode ser tomada como objeção válida contra o
ser raciocínio, porque é justamente isto o que ele quis mostrar,
que haveremos então de dizer sobre o mesmo? Pois, de fato, se
colocarmos esta objeção proveniente da experiência sensorial
de lado, o exame da argumentação de Parmênides mostra que
ele parte de princípios que parecem bastante evidentes e que a
partir destes princípios chega a conclusões por meio de
deduções onde não há erros de lógica. Basta conferir de novo
para ver.
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Provvisori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE6-28.htm2006-06-02 14:47:13
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.6, C.29.
Capítulo 29
O poema de Parmênides não é, pois, alguma espécie de piada
ou de extravagância filosófica, como muitos interpretaram na
época ou como muitos ainda hoje, lendo estas linhas, poderiam
pensar. É evidente, pelo contexto histórico, que Parmênides não
brincava ao redigir estes versos. Eles são, ao contrário, um
grande desafio para a inteligência humana, no sentido em que
iremos explicar aos poucos.
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Provvisori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE6-29.htm2006-06-02 14:47:13
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.6, C.30.
Capítulo 30
Se o raciocínio de Parmênides estiver correto, teremos que ser
conseqüentes e aceitá- lo, por mais duro que seja em suas
conclusões. Mas se não estiver, teremos então que apontar-lhe
onde estava o seu erro. Apontar como erro a diferença entre a
experiência e as conclusões tiradas por Parmênides não
invalida a sua mensagem, senão por outros motivos, pelo
menos porque isto já fazia parte da mensagem.
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Provvisori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE6-30.htm2006-06-02 14:47:13
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.6, C.31.
Capítulo 31
Mas ainda que esta diferença entre a experiência e as
conclusões não fizesse parte da mensagem do poema de
Parmênides, utilizar este argumento seria uma grande
ingenuidade, pois este argumento deriva da observação direta
do mundo real tal como é percebido pelos sentidos e o
raciocínio de Parmênides já não pertence mais a esta esfera de
conhecimento. Parmênides, e isto é o que o estudante deve
perceber bem, ao fazer suas deduções, logo de início destacouse completamente de todo dado do conhecimento sensível. Sua
lógica não trata mais de objetos que pertencem ao mundo dos
objetos sensíveis, mas ao mundo dos seres considerados em
sua estrutura simplesmente enquanto seres, desconsideradas
quaisquer qualidades sensíveis. Sua lógica está no domínio da
primeira estrutura do ser enquanto ser, um domínio onde
apenas a inteligência abstrata pode apreender alguma coisa.
Contra argumentar que a realidade sensível não corresponde à
realidade que Parmênides descreve é o argumento de quem tem
a mente presa ao mundo dos objetos sensíveis e não consegue
elevar-se à região em que o raciocínio de Parmênides realmente
se situa. É o argumento de quem não entendeu nada do que
Parmênides quis dizer, nem sequer de que assunto ele
realmente estava tratando. Podemos comparar esta situação à
de um cirurgião que tentasse explicar a um curandeiro como se
realiza um transplante cardíaco e este curandeiro não
percebesse que o cirurgião não estava falando de uma
mandinga, mas de cirurgia. Se, posteriormente, por algum
infortúnio, a cirurgia não tem sucesso e o paciente falece, o
curandeiro poderia utilizar-se deste fato para demonstrar que
ele é melhor cirurgião e que o outro nada entende de medicina,
como todos podem percebê-lo claramente, e que ninguém deve
considerar com seriedade nada do que ele diz. É exatamente
isto o que fizeram os contemporâneos de Parmênides, mas com
isto simplesmente mostraram que não estavam habituados à
contemplação das realidades do mundo da inteligência.
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Provvisori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE6-31.htm2006-06-02 14:47:13
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.6, C.32.
Capítulo 32
O raciocínio de Parmênides contém de fato um erro, mas é ao
mesmo tempo um dos maiores monumentos da história do
pensamento do mundo ocidental. À primeira vista o seu poema
não parece mais do que uma extravagância de um filósofo, mas
a verdade é que só por causa dele Parmênides merece um lugar
especial entre os grandes pensadores de todas as épocas.
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NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.6, C.33.
Capítulo 33
Foi necessário mais de um século para que fosse descoberto
onde estava o erro do poema. Ele passou de mãos em mãos,
provocando risos e até, indiretamente, a reforma dos métodos
de ensino utilizados entre os gregos, mas nunca ninguém foi
capaz de dizer por que motivo ele estaria errado. Para fazer isto
seria necessário uma outra inteligência educada nos moldes da
de Parmênides, que estivesse habituada à contemplação das
realidades do mundo da inteligência, uma inteligência que
convivesse espontaneamente entre as realidades deste mundo
tal como nós convivemos com o mundo dos objetos sensíveis e
fosse capaz de apreender as realidades deste mundo com a
clareza com que nós enxergamos pela vista os objetos
iluminados pela luz do Sol. A comparação não é forçada, ela é
tirada das obras de Platão, o fundador de uma escola de
filosofia que tinha, entre outros, este objetivo como meta. E
coube, de fato, a um discípulo desta escola descobrir o erro de
Parmênides. Seu nome era Aristóteles, de cuja obra e idéias
mais tarde iremos nos ocupar mais demoradamente.
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NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.6, C.34.
Capítulo 34
Depois de mais de cem anos de expectativa, Aristóteles foi
quem apontou onde Parmênides havia falhado. Isto não
diminuíu o valor deste filósofo pré socrático, porque o seu erro
não foi um erro comum de lógica, mas de metafísica. Conforme
dissemos, não há erros de lógica em Parmênides, basta conferir
para ver. Parmênides cometeu um erro relacionado com os
primeiros princípios de uma ciência desenvolvida
posteriormente por Aristóteles denominada Metafísica. Foi
justamente quando Aristóteles desenvolveu mais amplamente
esta ciência que veio à luz onde estava o erro de Parmênides. O
mérito de Parmênides, com isto, ficou ainda mais evidente por
ter ficado claro que ele havia sido o primeiro filósofo que elevou
o pensamento à especulação destes princípios. Ainda que
Parmênides houvesse cometido um erro, havia sido o primeiro a
conseguir penetrar neste campo do mundo da inteligência e
tentar transmití-lo aos demais. O poema de Parmênides é, na
realidade, um poema sobre os primeiros princípios da
Metafísica, mas nenhum dos seus contemporâneos conseguiu
perceber este fato e dialogar com ele de igual para igual neste
mesmo domínio. Foi necessário surgir primeiro a Academia de
Platão com os seus elevadíssimos e exigentes ideais
pedagógicos para que daí pudesse surgir um Aristóteles que
pudesse dialogar em pé de igualdade dom o poema de
Parmênides. Mas, para isto, foi necessário que passasse antes
mais de um século.
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NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.6, C.35.
Capítulo 35
Durante este mais de um século Parmênides produziu as
influências mais imprevisíveis, tanto no pensamento quanto na
pedagogia dos gregos. É deste assunto que teremos que tratar
nas notas que irão se seguir, antes que possamos entender a
obra de Platão e a obra de seu discípulo Aristóteles. Este último,
ao contrário do que o presente texto possa sugerir, não se
restringiu a comentar Parmênides. A resposta a Parmênides
veio apenas de brinde.
São Paulo, 7 de agosto de 1989
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NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.7, C.1.
FILOSOFIA E EDUCAÇÃO EM ATENAS NO ANO 450 AC
Capítulo 1
Nas notas precedentes ocupamo-nos da obra do filósofo
Parmênides de Eléia, uma das cidades colônia que os gregos
tinham naquela época no sul da Itália. Aquela foi a região em
que floresceram as escolas dos filósofos pitagóricos, e nós
pudemos comentar que Parmênides havia sido inicialmente
discípulo de um filósofo pitagórico.
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NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.7, C.2.
Capítulo 2
Vimos o significado do princípio de Parmênides segundo o qual
o ser e o pensar são o mesmo e as conseqüências que ele
deduziu deste princípio, segundo as quais só existiria um único
ser, eterno e imutável.
Parmênides não ignorava que os cinco sentidos nos mostram
um mundo à nossa volta completamente diferente, repleto de
seres os mais diversos que não são nem únicos, nem eternos,
nem imutáveis, mas em constante movimento e alteração,
imersos no contínuo vir-a-ser. Apesar disso, porém, Parmênides
não teve dúvidas em afirmar que tudo isto não deveria passar de
uma ilusão.
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NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.7, C.3.
Capítulo 3
Para entender o que aconteceu na educação e na filosofia
depois disso, devemos fazer antes um apanhado geral da
situação do pensamento filosófico e da educação no mundo
grego na época de Parmênides.
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NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.7, C.4.
Capítulo 4
A Filosofia, ou pelo menos, a tradição filosófica que chegou até
nós, havia-se iniciado um século e meio antes da época de
Parmênides, com Tales e Anaximandro de Mileto.
Mileto era uma cidade grega, mas que não ficava na Grécia
propriamente dita, e sim no território que hoje em dia pertence à
Turquia. Entre a Turquia e a Grécia existe um mar repleto de
numerosas ilhas, atualmente pertencentes à Grécia, mar este
chamado de Mar Egeu. Mileto ficava na costa oeste da Turquia,
junto ao Mar Egeu.
Diógenes Laércio, um dos biógrafos antigos dos filósofos
gregos, diz que há uma controvérsia sobre a naturalidade de
Tales. Alguns dizem que Tales havia nascido em Mileto, mas
outros afirmam que ele era natural da Fenícia, onde atualmente
fica o Líbano. Segundo estes últimos, Tales teria sido expulso
de sua terra e acolhido como cidadãos pelos milesianos.
Já Anaximandro, seu colega e talvez parente, era
verdadeiramente natural de Mileto. Desta maneira, a Filosofia
grega iniciou-se entre os gregos sim, não porém no território
que hoje pertence à Grécia, mas na costa ocidental da Turquia
por volta do ano 600 AC.
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NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.7, C.5.
Capítulo 5
Diógenes Laércio traçou um perfil de Tales que é interessante
de se mencionar. Ele afirma que Tales inicialmente estudou no
Egito, tendo lá aprendido Geometria, Astronomia e outros
conhecimentos. Depois que se radicou em Mileto, embora fosse
conhecido pelos excelentes conselhos que dava em matéria
política, na qualidade de simples cidadão mantinha-se afastado
de tais problemas.
São de Tales, ainda, continua Diógenes Laércio, os seguintes
versos:
"Muitas
palavras
não
significam
um
coração
entendido.
Busca a
única
sabedoria.
Escolhe
um único
bem.
Assim
fecharás
a boca
dos
tagarelas
que falam
sem
cessar".
Perguntado sobre o que seria mais difícil, respondeu Tales:
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NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.7, C.5.
"Conhecerse a si
mesmo".
Dizia ainda Tales que o homem feliz é
"aquele
que tem
um
corpo
saudável,
uma
mente
plena de
recursos
e uma
natureza
dócil".
Ele afirmava também, continua Diógenes, que não nos devemos
orgulhar pela nossa aparência exterior, mas estudar
cuidadosamente para que nos tornemos belos de caráter.
Tais são alguns traços do perfil do homem que iniciou o
movimento filosófico entre os gregos, segundo Diógenes
Laércio.
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NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.7, C.6.
Capítulo 6
Pitágoras, que pertence à geração seguinte, nasceu em uma ilha
chamada Samos, situada muito próxima, separada por um
pequeníssimo estreito, à costa ocidental da Turquia, bem perto
de Mileto. Não é de se admirar, pois, que favorecido pela
proximidade geográfica, Pitágoras tivesse tido como seus
primeiros mestres a Tales e Anaximandro de Mileto. Tal como
Tales, Pitágoras foi depois estudar no Egito e bem
provavelmente também depois disto na Pérsia. Ao voltar para o
mundo grego, estabeleceu suas escolas nas colônias do sul da
Itália.
Desta maneira, cem anos depois de Tales, pelo ano 500 AC, a
Filosofia não tinha entrado no território propriamente grego,
mas localizava-se preferencialmente na costa oeste da Turquia e
no sul da Itália.
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NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.7, C.7.
Capítulo 7
Os milesianos e os pitagóricos foram, pois, durante este
primeiro século, os principais dentre os filósofos. Houve,
porém, muitos outros, dos quais não tivemos a oportunidade de
falar.
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Provvisori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE7-7.htm2006-06-02 14:47:16
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.7, C.8.
Capítulo 8
Pouco antes da época de Parmênides floresceu em Éfeso, uma
cidade também muito próxima de Mileto, um outro filósofo de
que não falamos, que condivide com Parmênides o lugar de
principal filósofo entre os pré socráticos. Chamava-se Heráclito
de Éfeso, e ao morrer deixou seguidores e obras escritas que
eram copiadas e reproduzidas pelo mundo grego.
O estilo em que Heráclito compunha as suas obras valeu-lhe o
apelido de "Heráclito, o Obscuro".
Conta-se que quando Sócrates mais tarde leu os escritos de
Heráclito e lhe perguntaram o que pensava deles, teria
respondido:
"A parte
que eu
consegui
entender é
excelente, e
também é,
ouso dizer,
a parte que
eu não
entendi;
mas é
preciso um
mergulhador
Deliano
para chegar
ao fundo do
mesmo".
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Provvisori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE7-8.htm2006-06-02 14:47:16
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.7, C.9.
Capítulo 9
Desta maneira, em Atenas, a principal das cidades gregas, por
esta época não havia entrado ainda a Filosofia. Não havia nela
nenhuma manifestação semelhante ao que ocorria na região de
Mileto, nem escola alguma que se parecesse com as escolas
que Pitágoras havia fundado na Itália. Mas nesta cidade vinha
acontecendo um outro fenômeno que preparou o caminho para
que posteriormente viesse a tornar-se o foco da Filosofia antiga.
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Provvisori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE7-9.htm2006-06-02 14:47:16
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.7, C.10.
Capítulo 10
Antes da época de Tales, durante muitos séculos a educação
que era dada aos jovens gregos era uma educação
predominantemente militar. A sofisticação crescente da guerra,
porém, passou gradualmente a fazer com que o êxito de uma
campanha militar dependesse cada vez menos da simples força
bruta.
Na época em que Tales florescia em Mileto deram-se uma série
de reformas políticas em Atenas que resultaram na criação de
um regime democrático nesta cidade. Por esta época os
atenienses passaram a abandonar o costume de andarem
permanentemente armados e a adotarem costumes mais
brandos e civilizados. Assim, as atividades militares em que os
jovens eram treinados desde criança passaram a ser exigidas
apenas dos dezoito aos vinte anos de idade. A prática da vida
militar que ia da infância até aos dezoito anos foi gradualmente
se transformando em educação física, com finalidade não mais
bélica, mas de competição desportiva desinteressada.
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NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.7, C.11.
Capítulo 11
A educação ateniense na época em que na Ásia Menor e na Itália
florescia a filosofia consistia, pois, principalmente em educação
física. As crianças eram confiadas a um escravo cuja função era
conduzi-las diretamente ao ginásio e trazê-las de volta para
casa. O escravo encarregado desta tarefa recebia o nome de
pedagogo. Posteriormente pedagogo passou a ser o nome dado
aos educadores em geral.
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NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.7, C.12.
Capítulo 12
Os Jogos Olímpicos são um testemunho da importância que os
gregos concediam à prática desportiva. Iniciaram-se no ano 776
AC, e eram disputados de quatro em quatro anos, abertos a
todos os atletas de origem grega. A prática começou com uma
prova que era uma simples corrida, mas aos poucos foram
sendo acrescentadas novas provas até se tornar uma instituição
de fundamental importância para a própria unidade cultural dos
povos gregos. Os vencedores das provas eram vistos como
heróis nacionais para as cidades que representavam e
passavam para a história; os títulos olímpicos eram tão
cobiçados que, após a conquista da Grécia pelos romanos o
próprio Imperador Nero quis participar em pessoa das provas e,
deve-se dizer também, fêz questão absoluta de ser o vencedor.
Até as datas entre os gregos passaram a ser contadas com base
nos Jogos Olímpicos. Assim, por exemplo, consta que Tales
teria nascido na 35ª Olimpíada e faleceu na 58ª; Pitágoras
floresceu na 60ª Olimpíada e Parmênides na 69ª.
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Provvisori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE7-12.htm2006-06-02 14:47:17
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.7, C.13.
Capítulo 13
Paralelamente ao ginásio, onde as crianças praticavam a
educação física, começaram a surgir também escolas de
música. Na verdade estas escolas eram apenas as casas das
pessoas que se ofereciam, mediante remuneração, para ensinar
as crianças a lerem as poesias de Homero, a Ilíada e a Odisséia.
As crianças não apenas aprendiam a ler e a recitar estas
poesias, mas também a cantá-las acompanhadas por
instrumentos musicais. O escravo pedagogo nesta caso era
então incumbido de levar a criança da casa para o ginásio, do
ginásio para o professor de música e do professor de música
para casa.
Posteriormente apareceu um terceiro professor, que ensinava
em outra casa, apenas para a leitura e os rudimentos de
gramática.
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Provvisori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE7-13.htm2006-06-02 14:47:17
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.7, C.14.
Capítulo 14
Disto que foi exposto pode-se entender que não existiam
escolas públicas em Atenas. Na realidade, nem sequer havia
propriamente escolas, pois estas eram apenas as casas dos
professores e os professores eram apenas tais por terem se
oferecido para tanto, e não por haverem cursado alguma escola
preparatória para o magistério ou por serem oficialmente
reconhecidos como professores pelas autoridades.
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Provvisori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE7-14.htm2006-06-02 14:47:17
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.7, C.15.
Capítulo 15
A educação ateniense consistia, portanto, basicamente em
educação física em primeiro lugar, à qual se acrescentavam a
música e a leitura. Não havia cartilhas para se aprender a ler.
Aprendia-se a leitura diretamente sobre as poesias de Homero,
as quais, ademais, naquela época, eram escritas sem sinais de
pontuação, isto é, sem pontos nem vírgulas, sem letras
maiúsculas para indicar o início das frases e, mais ainda, de
modo contínuo, sem que uma palavra viesse separada da outra
por um espaço.
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Provvisori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE7-15.htm2006-06-02 14:47:17
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.7, C.16.
Capítulo 16
A matemática não tinha importância alguma na educação
ateniense, apesar da enorme ênfase que os filósofos dava a este
conhecimento. No mundo grego, de fato, a matemática era
cultivada apenas entre os filósofos, e de um modo muito
especial entre os filósofos pitagóricos, mas estes não viviam em
Atenas. Em Atenas os rudimentos de matemática eram
conhecidos pelos comerciantes que os aprendiam no seu dia a
dia e sem nenhuma preocupação educacional.
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Provvisori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE7-16.htm2006-06-02 14:47:18
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.7, C.17.
Capítulo 17
A educação em Atenas já tinha estas características há
certamente mais de um século quando um filósofo entrou pela
primeira vez na cidade e lá fixou residência. Seu nome era
Anaxágoras, natural de Clazômenas, uma cidade situada no
Golfo de Esmirna, na costa Oeste da Turquia, muito próxima,
por sinal, de Éfeso e de Mileto. De Anaxágoras já tivemos
ocasião de falar anteriormente. Com aproximadamente vinte
anos de idade ele atravessou o Mar Egeu e foi morar em Atenas,
lá vivendo aproximadamente durante o espaço de tempo de três
décadas. Anaxágoras entrou em Atenas por volta do ano 480 AC
e saíu de lá trinta anos mais tarde, por volta de 450 AC,
possivelmente condenado à morte, pelo menos expulso pelos
atenienses.
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Provvisori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE7-17.htm2006-06-02 14:47:18
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.7, C.18.
Capítulo 18
Anaxágoras entrou em Atenas logo após a vitória dos
atenienses contra o Império Persa, no auge da glória e do
poderio daquela cidade. Foi ele que educou o mais brilhante
líder político daqueles tempos, Péricles, de quem já fizemos
referência.
Anaxágoras ficou famoso na história pela integridade de seu
caráter, assim como pelo conhecimento assombroso, conforme
diziam, que possuía da natureza. Foi ele quem afirmou que vivia
para contemplar o Sol, a Lua e o céu, e durante os anos que ele
passou em Atenas a história também é testemunha de que ele
tentou ensinar aos demais algo destes conhecimentos que ele
possuía.
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Provvisori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE7-18.htm2006-06-02 14:47:18
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.7, C.19.
Capítulo 19
Os escritores antigos dão testemunho, de fato, de um
conhecimento surpreendente dos fenômenos naturais por parte
de Anaxágoras. Segundo Plutarco, estas afirmações são de
Anaxágoras:
- Que a
claridade
da Lua é
fornecida
pelo Sol;
- Que o
arco-íris
éo
reflexo
do Sol
nas
nuvens.
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Provvisori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE7-19.htm2006-06-02 14:47:18
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.7, C.20.
Capítulo 20
Segundo outros fragmentos recolhidos por Hipólito, escritor
cristão de língua grega mas residente em Roma no terceiro
século, Anaxágoras também teria ensinado que:
- As estrelas
são pedras
incandescentes,
das quais não
sentimos o
calor porque
estão muito
afastadas de
nós;
- a Lua está
abaixo do Sol,
e mais perto de
nós do que o
Sol;
- o tamanho do
Sol é, na
realidade,
maior do que
todo o
Peloponeso;
- a Lua não tem
luz própria,
mas a recebe
do Sol;
- os eclipses da
Lua se devem
ao fato de que
ela é às vezes
ocultada pela
Terra, e os do
Sol, devido à
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Pr...sori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE7-20.htm (1 of 2)2006-06-02 14:47:19
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.7, C.20.
interposição da
Lua;
- a Lua é feita
de terra e
possui
planícies e
montanhas.
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Pr...sori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE7-20.htm (2 of 2)2006-06-02 14:47:19
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.7, C.21.
Capítulo 21
Diógenes Laércio confirma muitas destas afirmações de
Anaxágoras e acrescenta outras. Ele diz que Anaxágoras, por
exemplo, afirmava que:
- O Sol é
apenas uma
massa de
metal
vermelho
incandescente
maior do que
o tamanho de
todo o
Peloponeso;
- na Lua há
montanhas e
planícies;
- os ventos
surgem
quando o ar
fica rarefeito
pelo calor do
Sol;
- o trovão é
uma colisão
entre as
nuvens, e o
relâmpago
resulta de
uma fricção
violente entre
as mesmas.
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Pr...sori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE7-21.htm (1 of 2)2006-06-02 14:47:19
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.7, C.21.
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Pr...sori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE7-21.htm (2 of 2)2006-06-02 14:47:19
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.7, C.22.
Capítulo 22
Deve-se chamar a atenção para a importância de muitas destas
observações de Anaxágoras. Não só elas estão
substancialmente de acordo com a ciência moderna, como
também de fato algumas são assombrosamente certas. A mais
impressionante delas talvez seja a afirmação de que a Lua é
feita de terra e que nela existem montanhas e planícies.
Anaxágoras afirmou isto no século quinto antes de Cristo e
disto são testemunhas dois escritores independentes do
terceiro século depois de Cristo, Hipólito e Diógenes Laércio.
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Provvisori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE7-22.htm2006-06-02 14:47:19
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.7, C.23.
Capítulo 23
Esta última afirmação impressiona particularmente porque a
história oficial, aquela que se comumente se ouve nas salas de
aula e se lê nos livros textos, diz que o primeiro homem que
afirmou que na Lua existem montanhas e planícies, o homem
que portanto teria descoberto este fato, foi Galileu Galilei no
século XVI quando, estando recém inventado o telescópio,
resolveu apontar o novo instrumento para a Lua, só então assim
descobrindo que nela havia montanhas e planícies. Pois,
efetivamente, sem um telescópio não é possível perceber que na
Lua existem montanhas e planícies, e antes do século XVI não
havia telescópios no mundo. Porém o fato é que no século III
dois escritores que não se conheciam um ao outro atestam que
Anaxágoras, oito séculos antes, já sabia disso.
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NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.7, C.24.
Capítulo 24
Esta Anaxágoras foi, assim, o primeiro filósofo com que os
atenienses tiveram contato em sua história. Parmênides, nesta
época, vivia na Itália e era aproximadamente dez anos mais
velho do que Anaxágoras. Nenhum deles, ao que tudo indica,
sabia da existência do outro.
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NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.7, C.25.
Capítulo 25
Devemos também dizer agora que por esta época os atenienses
acreditavam em coisas bastante diversas sobre o Sol e a Lua.
Para os atenienses o Sol e a Lua eram deuses. Anaxágoras
porém, ali vivendo, ensinava-lhes ao contrário que a Lua era
feita de terra e que tinha planícies e montanhas, e que o Sol
nada mais era do que uma massa de metal incandescente. Era
inevitável que, nestas condições, mais cedo ou mais tarde teria
que acontecer alguma coisa. Trinta anos depois da chegada de
Anaxágoras a Atenas, no ano 450 AC, alguma coisa de fato
aconteceu.
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NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.7, C.26.
Capítulo 26
Existem diversas versões sobre o que aconteceu. Uma delas diz
que um homem chamado Cléon acusou formalmente este
estrangeiro à justiça ateniense como réu de impiedade por
ensinar que o Sol era apenas uma massa de metal
incandescente. Anaxágoras teria sido então levado a
julgamento, condenado a pagar uma multa e ir para o exílio.
Uma outra versão diz que Anaxágoras teria sido julgado à
revelia e condenado à morte. Seus filhos teriam sido
executados, mas antes que o mesmo pudesse ser feito também
com ele, o filósofo teria conseguido fugir para o exílio.
Existem ainda outras versões. Seja qual for a versão certa, o
fato é que Anaxágoras terminou a sua vida no exílio; seus livros
porém, dos quais para nós não restou nenhum, continuaram a
ser copiados e vendidos publicamente junto ao coro do teatro
de Atenas.
De nada valeu que Péricles, a principal figura política da cidade
naquele tempo, tivesse sido seu dedicado discípulo. Naquela
época Atenas era uma democracia, e Péricles não tinha poder
algum sobre a justiça ateniense.
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NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.7, C.27.
Capítulo 27
Naquela época a justiça ateniense era administrada pela Heliéia,
ou Assembléia Judicial. Eram sorteados entre todos os
cidadãos atenienses seis mil homens que formavam o que seria
atualmente o Poder Judiciário. A cidade pagava estes homens
pelos deveres que eles desempenhavam. Quando havia um
julgamento, eram sorteados quinhentos destes seis mil homens
a quem caberia por votação dar a sentença para o caso em
julgamento. Naquela época aquele que no tribunal de hoje seria
o juiz não tinha poder algum para dar a sentença. Ele era apenas
um magistrado que preparava o caso para ser apresentado no
tribunal diante dos que eram os verdadeiros quinhentos juízes.
Aqueles que nos dias de hoje seriam chamados de advogados
não tinham o direito de entrar no tribunal. Suas funções se
limitavam a orientar os seus clientes antes do julgamento. As
próprias partes em litígio, o acusador e o acusado, deveriam se
presentar pessoalmente diante dos quinhentos juízes e cada um
devia expor a sua versão do caso a ser julgado. No final os
juízes votavam e vencia a causa aquele que obtivesse a maioria
simples dos votos ods juízes, isto é, a metade dos votos mais
um.
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NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.7, C.28.
Capítulo 28
Cinqüenta anos depois do julgamento de Anaxágoras a memória
desta fato ainda estava viva entre os atenienses, conforme
mostra um acontecimento ocorrido durante o julgamento de
outro filósofo diante de um tribunal exatamente composto como
o que acabamos de descrever. Este filósofo foi Sócrates, e o seu
julgamento foi posteriormente narrado por Platão em um de
seus diálogos denominado "A Apologia de Sócrates". As
acusações contra Sócrates eram variadas, mas dentre elas
estava novamente a mesma acusação de que Anaxágoras havia
sido, muitos anos antes, também réu. Durante o julgamento de
Sócrates um dos acusadores, de nome Meleto, assim se
expressou diante dos juízes:
"Atenienses,
eis aqui diante
de vós a
Sócrates. Este
homem é réu
de pesquisar
indiscretamente
o que há sob a
terra e nos
céus, de fazer
com que
prevaleça a
razão mais
fraca e de
ensinar aos
outros o
mesmo
comportamento.
Ele não crê,
ademais, como
toda a gente,
que o Sol e a
Lua são
deuses, pois
afirma que o
Sol é pedra e
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NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.7, C.28.
que a Lua é
terra".
A esta acusação Sócrates teria respondido assim:
"Estás
sonhando,
meu caro
Meleto. Tu
supões ainda
estares
acusando a
Anaxágoras,
envergonhando
desta forma os
aqui
presentes,
julgando-os
tão ignorantes
que não
sabem que
são os livros
de Anaxágoras
de
Clazômenas
que andam
cheios destas
teorias. Seria
justo de mim
que os jovens
aprenderiam
tais lições,
sendo que
eles podem, a
qualquer
momento, por
apenas três
dracmas,
comprar os
seus livros
junto ao coro
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NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.7, C.28.
do teatro e
depois rir do
velho Sócrates
que as quis
passar como
suas,
justamente
estas tão
originais?"
Esta não foi a única acusação contra Sócrates, mas juntamente
com ela, neste tribunal, Sócrates foi condenado à morte por uma
diferença de trinta votos.
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NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.7, C.29.
Capítulo 29
De modo que, conforme dizíamos, por volta do ano 450 AC,
Anaxágoras de Clazômenas foi condenado à morte ou pelo
menos expulso da cidade pelos Atenienses.
Sem que possivelmente soubesse do que havia acontecido,
alguns poucos anos depois, talvez em 445 AC, lá na então
distante Itália Parmênides tomou uma decisão que viria a ter
conseqüências tanto na Filosofia como na Pedagogia. Este
filósofo resolveu abandonar a Itália e dirigir-se para Atenas e ali
expor, entre os atenienses, os seus ensinamentos.
Juntamente com Parmênides empreendeu também esta viagem
um de seus discípulos e conterrâneos, o filósofo Zenão de Eléia.
Ambos levavam para expor em Atenas uma doutrina que, pelo
que dela já vimos nas duas aulas precedentes, era
indescritivelmente mais ousada do que todos os ensinamentos
que Anaxágoras já havia podido trazer à luz.
O que veio a acontecer então será objeto das próximas notas.
São Paulo, 28 de agosto de 1989
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NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.8, C.1.
ZENÃO x SÓCRATES
Capítulo 1
Conforme tínhamos falado, Anaxágoras foi o primeiro filósofo
grego a viver em Atenas. Depois de uma estadia de 30 anos
nesta cidade, foi condenado por ter afirmado que o Sol era
apenas uma massa de metal incandescente e que a Lua era feita
de terra. Pouco depois desta condenação, Parmênides, então
ainda na Itália, resolveu dirigir-se juntamente com seu discípulo
Zenão à mesma Atenas para ali expor sua doutrina.
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NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.8, C.2.
Capítulo 2
A doutrina de Parmênides, dentre outras coisas, baseava-se na
premissa de que o ser e o pensar são o mesmo, e que por
conseqüência dentro da realidade só poderia existir um único
ser eterno, indivisível e imutável.
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NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.8, C.3.
Capítulo 3
Ora, esta doutrina é muito mais radical do que as afirmações de
Anaxágoras sobre o Sol e a Lua. Nas notas anteriores vimos
como, mesmo depois de passados cinqüenta anos desde o
julgamento de Anaxágoras, a polêmica por ele causada tornou a
emergir no julgamento de Sócrates como uma coisa ainda viva
na lembrança dos atenienses. E, no entanto, talvez ainda não se
tivessem passado cinco anos da data da fuga ou talvez da morte
de Anaxágoras por este motivo quando Parmênides e um seu
discípulo, Zenão de Eléia, entraram em Atenas para ali
ensinarem suas doutrinas. Não sabemos se foi por coragem ou
por desconhecimento dos fatos lá ocorridos, ou talvez por um
pouco de ambos.
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NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.8, C.4.
Capítulo 4
Conforme dissemos, Parmênides entrou em Atenas
acompanhado por seu discípulo Zenão. Segundo Platão, nesta
época Parmênides tinha sessenta e cinco anos e Zenão
quarenta anos de idade.
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NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.8, C.5.
Capítulo 5
Embora Zenão de Eléia fosse discípulo de Parmênides e
ensinasse a mesma doutrina que o seu mestre, havia uma
distância imensa entre ambos como filósofos.
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NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.8, C.6.
Capítulo 6
A primeira diferença entre Zenão e Parmênides, embora ambos
ensinem a mesma doutrina, estava no grau de generalidade e
abstração com que ambos a apresentavam.
Parmênides, para chegar às conclusões a que chegou, utilizouse de um raciocínio bastante abstrato, isto é, um raciocínio em
que se utilizou de noções bastante gerais, tais como as de ser e
não ser, unidade e pluralidade, e outras semelhantes.
Zenão, ao tentar confirmar as doutrinas de seu mestre, utilizouse de outros argumentos menos abstratos e gerais.
Antes, pois, que tentemos expor alguma coisa sobre Zenão de
Eléia, vejamos o que significa generalidade e abstração, e em
que sentido o raciocínio de Parmênides é geral e abstrato.
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NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.8, C.7.
Capítulo 7
Uma noção é chamada geral quando ela pode ser dita de muitos
objetos individuais em particular. Quanto mais geral é uma
noção, tanto a um maior número de objetos ela pode ser
aplicada.
Por exemplo, José Albuquerque da Silva só pode ser dito de um
único homem em particular, e de mais nenhum. Já a noção
"homem" pode ser dita tanto de José, como de João ou de
Joaquim, e ainda de outros. A noção de homem é, portanto,
mais geral do que José Albuquerque da Silva.
A noção "ser humano" é ainda mais geral, porque pode ser
aplicada tanto a José, como a João, como também a todos os
homens e não só aos homens, como também às mulheres. Ser
humano é, assim, alguma coisa de mais geral do que homem.
A noção de "mamífero" é mais geral do que homem, porque
tanto pode ser aplicada aos homens, e ao José da Silva em
particular, como também a muitos outros animais como os
macacos, as baleias, os cachorros e os gatos.
"Animal" é mais geral ainda, porque se aplica também não só
aos homens e aos mamíferos em geral, mas também às aves,
aos répteis, aos peixes e aos insetos.
"Ser vivo" é um termo ainda mais geral do que animal, pois
predica-se tanto dos animais quanto das plantas e dos
microorganismos.
"Ser corporal" possui uma generalidade ainda maior, porque se
aplica tanto aos seres vivos como aos seres inanimados, desde
que tenham natureza material.
Mas por mais geral que possa ser o conceito de ser corporal,
mesmo este não se aplica, pelo menos necessariamente, a
todos os seres, porque, por exemplo, na hipótese de ser
possível a existência de alguma realidade independente da
matéria, esta não seria mais um ser corporal. Supondo que
existisse uma realidade independente da matéria, ela não seria
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Pr...isori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE8-7.htm (1 of 2)2006-06-02 14:47:22
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.8, C.7.
um ser corporal, mas seria algum tipo de ser. Neste sentido o
conceito de ser é o conceito mais geral possível, porque se
aplica necessariamente a qualquer objeto, independentemente
de sua natureza. Qualquer coisa, seja o que for, terá que ser,
pelo menos, ser.
Quando Parmênides, pois, escreveu seu poema, baseou-se nos
conceitos mais gerais possíveis.
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NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.8, C.8.
Capítulo 8
Falamos no ítem anterior o que é generalidade. Agora falta dizer
o que é abstração. Generalidade não é a mesma coisa que
abstração, embora quanto mais geral seja um conceito, mais
abstrato também ele será.
A palavra abstrato vem de abstrair, que significa tirar, remover,
trazer de dentro. Fazer uma abstração significa, assim,
considerar um aspecto de alguma realidade desprezando
outros, trazer à luz certas características de alguma coisa
fazendo abstração das demais.
Como exemplo de abstração podemos considerar uma simples
realidade de nosso trabalho. No nosso trabalho diário nossos
chefes não se interessam e não se ocupam com nossas vidas
particulares. Estas não interessam à empresa; somos
remunerados não pelo que valemos como seres humanos, mas
pelo que valemos como profissionais; a empresa vê a nós, seres
humanos, apenas como profissionais. Qualquer outra realidade
que em nós esteja presente, a empresa é cega para ela. Ela faz
abstração do ser humano que há em nós, e só considera o
profissional. Este é, assim, um exemplo de abstração, prático e
elementar.
Mas no exemplo que demos anteriormente, em que de José
Albuquerque da Silva passamos para homem, mamífero, animal,
ser vivo, ser corporal e finalmente, ser, demos um exemplo não
só de crescente generalidade, como também de crescente
abstração.
Porque quando dizemos José da Silva, queremos dizer este
indivíduo em particular. Quando dizermos "homem", porém, já
estamos fazendo abstração de tudo quanto José da Silva tinha
de especial que o diferencia de outros homens. Quando
dizemos mamífero, estamos fazendo abstração de tudo quanto
diferencia José da Silva não somente dos outros homens, mas
também dos cachorros, das baleias e dos gatos. Quando
dizemos "animal", estamos fazendo abstração de tudo quanto
diferencia José da Silva não só dos cachorros e das baleias,
mas também dos insetos, dos peixes e das aves. Ao dizermos
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NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.8, C.8.
animal, ficamos apenas com as características de José da Silva
que são comuns a todos os animais: a capacidade de reagir ao
mundo exterior, a capacidade de se locomover, de se alimentar,
de crescer, de reproduzir-se, e outras. Estas características são
comuns de fato ao José da Silva e aos cachorros, às baleias,
aos insetos, aos peixes, às aves e a todos os animais.
Mas quando chegamos ao topo da escada, e dizemos "ser",
estamos abstraindo de José da Silva todas as características
que ele não tem em comum com todos os outros seres, sejam
eles quais forem. Já abstraímos tudo, exceto aquilo que existe
de mais profundo em cada coisa, esta coisa tão misteriosa e
intrigante que é o ser.
O ser é, assim, não só o conceito mais geral possível, mas
também o mais abstrato de todos.
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NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.8, C.9.
Capítulo 9
Desta maneira, quando constatamos que todo o raciocínio
desenvolvido no poema de Parmênides trata apenas com
conceitos tais como ser e não ser, unidade e pluralidade,
podemos perceber em que sentido deve ser dito que o seu
raciocínio envolve um alto grau de generalidade e abstração.
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NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.8, C.10.
Capítulo 10
Uma das características dos conceitos que tem pequeno grau
de generalidade e abstração é o fato deles poderem ser mais
facilmente simbolizados por algo que possa ser visto com os
olhos, ouvido ou apalpado.
Quando dizemos José da Silva, podemos lembrar o retrato que
vimos dele, com todos os seus traços individualizantes.
Quando dizemos "homem", podemos lembrar de uma figura
humana qualquer, que simbolizará a idéia de homem. Esta figura
humana de que nos lembramos que pensamos no conceito de
homem não é a idéia de homem. A definição que traduz o
conteúdo da idéia de homem é "animal racional". Esta idéia não
pode ser pintada, desenhada ou fotografada, vista nem tocada.
O que pode ser tocado, visto, desenhado, pintado ou
fotografado é o homem individualmente considerado. Este
homem individualmente considerado pode ser lembrado pela
nossa imaginação como uma ajuda para compreender o
conceito abstrato de homem, como se fosse um símbolo da
idéia abstrata de homem, mas é importante perceber que ambos
não são a mesma coisa.
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NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.8, C.11.
Capítulo 11
O problema é que à medida em que o grau de abstração vai
aumentado fica mais difícil encontrar símbolos sensíveis para
ajudar o pensamento que discorre sobre os conceitos abstratos.
É fácil encontrar uma imagem que, quando lembrada, nos ajude
a compreender tudo o que queremos dizer quando dizemos "ser
humano". Mas não é mais tão fácil encontrar uma imagem
adequada para o conceito de ser vivo, e muito menos para o
puro conceito de ser.
Qualquer um seria capaz de desenhar no papel uma casa, um
automóvel ou um homem. Mas ninguém seria capaz de
desenhar num papel o ser ou o não ser.
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NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.8, C.12.
Capítulo 12
Assim, quando Parmênides utilizou-se propositalmente de
conceitos que envolvem um grau de abstração muito alto,
referindo-se a entidades que não podem sequer ser
simbolizadas por um desenho ou uma fotografia, que não
podem ser apalpadas, ouvidas nem vistas com os olhos, mas
apenas com a pura inteligência, acabou transportando o seu
pensamento para a esfera do que posteriormente com
Aristóteles passaria a ser denominado de Metafísica. Nisto
reside uma parte do mérito de Parmênides na História da
Filosofia. Aristóteles, conforme dissemos, reconheceu esta
caraterística do raciocínio de Parmênides e encontrou o erro
que ele havia cometido ao analisar seu raciocínio de dentro
deste campo, e nisto Aristóteles ele foi, conforme veremos,
singularmente ajudado pela educação que havia recebido de
Platão.
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NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.8, C.13.
Capítulo 13
É neste fato que também reside uma segunda diferença entre
Parmênides e seu discípulo Zenão. Zenão, assim como outros
discípulos de Parmênides, não percebeu que o raciocínio do
mestre se desenvolvia no âmbito metafísico. Ou se o percebeu,
não tratou do assunto neste plano. Em vez de se elevar também
ele ao plano metafísico, percebendo que os ouvintes do mestre
não o entendiam, fêz uma tentativa de trazer suas idéias para o
plano dos exemplos concretos, para o plano das coisas que
podem ser tocadas e vistas não apenas com a mente, mas
também com os cinco sentidos.
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NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.8, C.14.
Capítulo 14
Foi assim que Zenão de Eléia desenvolveu uma série de
argumentos para mostrar que a doutrina de Parmênides era
correta, argumentos que pudessem ser mais facilmente
entendidos pelas pessoas em geral.
Os argumentos de Zenão são muitos e, segundo Platão,
constituíam originalmente pelo menos um livro inteiro. Os que
chegaram até nós mal preenchem duas ou três páginas
impressas, e mesmo destes vamos desenvolver aqui apenas
dois.
São argumentos muito menos profundos do que os de
Parmênides e que terão para nós um valor mais histórico do que
propriamente filosófico.
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NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.8, C.15.
Capítulo 15
Segundo Parmênides não havia muitos seres, mas apenas um
único ser. Este ser seria eterno e imutável; por conseqüência,
além de não existir a multiplicidade dos seres, não existiria
também o movimento.
Em concordância com isto Zenão desenvolverá duas séries de
argumentos. A primeira série visa provar por absurdo a
impossibilidade da multiplicidade dos seres.
A segunda série visa provar também por absurdo a
impossibilidade de existir o movimento.
De cada uma destas séries veremos apenas um exemplo.
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NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.8, C.16.
Capítulo 16
Um dos argumentos de Zenão de Eléia contra a multiplicidade
dos seres é o seguinte.
Se existem muitos seres, o seu número terá que ser finito ou
infinito, porque nada pode ser ao mesmo tempo finito e infinito.
Ora, a quantidade de seres existentes terá que ser finita em seu
número, porque os seres que existem não podem ser nem mais
nem menos do que o número que são.
Porém, ao mesmo tempo, o número de coisas existentes tem
que ser infinito, porque a existência de cada coisa a que
denominamos uma unidade e que contamos como sendo um ser
individual é, na realidade, não um, mas um número infinito de
seres, porque cada uma das coisas existentes pode ser dividida
em duas, e cada uma destas duas em outras duas e assim por
diante, até o infinito.
Daqui se conclui que, se não admitimos que existe um único ser
indivisível, mas admitimos a existência de uma pluralidade de
seres como nossa vista quer que seja, seremos obrigados a
afirmar que o número de entes que existem no universo é ao
mesmo tempo finito e infinito. O que é impossível. Portanto, a
multiplicidade dos seres não existe.
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NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.8, C.17.
Capítulo 17
Dos argumentos de Zenão de Eléia contra a existência do
movimento, o seguinte é um dos melhores.
Supondo que o movimento que nós vemos existisse realmente,
devemos analisá-lo mais de perto.
Consideremos o movimento de uma flecha lançada contra um
alvo. A cada instante do movimento a flecha só pode estar em
um único lugar do espaço, porque nada pode estar, no mesmo
instante, em dois lugares ao mesmo tempo. Portanto, isto
significa que a cada instante do movimento a flecha tem que
estar parada em um único lugar.
Ora, se em cada instante do movimento a flecha está parada, ela
estará parada em todos os instantes do movimento e, portanto,
não pode existir este movimento.
Se os ouvintes quiserem admitir que o movimento existe, terão
que admitir que em pelo menos algum instante do movimento a
flecha estará se movendo.
Porém, se é assim, neste instante, então, a flecha terá que estar
em dois lugares ao mesmo tempo.
E daí o que é que se conclui? Ou admitimos que o movimento é
uma ilusão ou então teremos que admitir que uma flecha pode
estar em dois lugares diferentes ao mesmo tempo.
Ora, a segunda destas alternativas é, obviamente, impossível.
Portanto, o movimento não existe.
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Provvisori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE8-17.htm2006-06-02 14:47:24
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.8, C.18.
Capítulo 18
Com argumentos deste tipo, portanto, Parmênides e Zenão se
dirigiram para Atenas, e se hospedaram na casa de um certo
Pitodoro, do lado externo dos muros da cidade.
Poucos dias depois eles receberam a visita de Sócrates, ainda
muito moço, que desejava ouvi-los e aprender com eles. O
encontro foi narrado para as gerações futuras por Platão, em um
diálogo que ele intitulou com o nome de "Parmênides". Platão
nesta época ainda não tinha nascido, mas afirma ter podido
reconstituir o encontro porque Pitodoro, ouvindo o diálogo
travado entre Sócrates, Parmênides e Zenão ficou tão
impressionado com ele que o reteve de quase de cor e o repetiu
diversas vezes a muitas pessoas. Uma das pessoas que
ouviram a narrativa de Pitodoro não só uma, mas diversas
vezes, foi um tal de Antífon, o qual, ao que parece, foi quem o
narrou a Platão que finalmente o reproduziu por escrito em seu
diálogo, depois da morte de Sócrates, preservando-o para a
posteridade.
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Provvisori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE8-18.htm2006-06-02 14:47:24
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.8, C.19.
Capítulo 19
Parmênides tinha sessenta e cinco anos quando chegou em
Atenas, de cabelos brancos mas muito bem disposto. Zenão
tinha quarenta anos, alto e de aparência alinhada.
Quando Sócrates, juntamente com outras pessoas, chegou à
casa de Pitodoro, Parmênides havia saído, e só estava em casa
Zenão.
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Provvisori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE8-19.htm2006-06-02 14:47:25
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.8, C.20.
Capítulo 20
Zenão leu então em voz alta, na ausência de Parmênides, todo o
seu livro contendo uma coleção de argumentos do tipo que
descrevemos acima. Ao chegar perto do fim do livro, alguém
bateu à porta. Era o próprio Parmênides, que sentou-se e ouviu
o restante da leitura do livro e o diálogo que daí se travou entre
Zenão e Sócrates.
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Provvisori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE8-20.htm2006-06-02 14:47:25
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.8, C.21.
Capítulo 21
Chegando ao fim da leitura do livro de Zenão, Sócrates pediu
que Zenão repetisse o início do primeiro argumento do livro.
Terminada a leitura desta passagem, Sócrates disse que
naquele argumento estava contida a essência do livro inteiro.
Vejamos então, com alguma adaptação, como se desenrolou o
diálogo travado em seguida entre ambos.
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Provvisori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE8-21.htm2006-06-02 14:47:25
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.8, C.22.
Capítulo 22
O argumento que Sócrates tinha pedido para que Zenão
repetisse era o argumento contra a multiplicidade que nós
citamos acima, ou então algum outro bastante semelhante a ele.
"O que
você
quer
dizer
com
isto,
Zenão?"
disse Sócrates.
"Você está
dizendo que
se existe a
multiplicidade
dos seres,
cada ser é,
ao mesmo
tempo, um
só e muitos,
e isto é
impossível.
Porque nada
pode ser ao
mesmo
tempo uma
coisa e o seu
oposto. Não
é isto?"
Zenão concordou.
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Pr...sori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE8-22.htm (1 of 4)2006-06-02 14:47:25
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.8, C.22.
"Além
disso",
continua Sócrates,
"em todo o
seu livro
você não tem
outro
propósito
senão provar
a
inexistência
da
multiplicidade
dos seres.
Existem
tantas
provas da
inexistência
da
multiplicidade
dos seres
quantos
argumentos
que você
nele redigiu.
É isto ou eu
não
entendi?"
Zenão também concordou que Sócrates havia entendido
corretamente.
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Pr...sori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE8-22.htm (2 of 4)2006-06-02 14:47:25
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.8, C.22.
"Além disso, o
que você
ensina no seu
livro é a
mesma coisa
que
Parmênides.
Parmênides diz
que tudo é um
só e o
demonstra;
enquanto você
diz que não
existe a
multiplicidade
e, para proválo, oferece uma
superabundante
evidência.
Vocês dois não
são dois
filósofos. Você,
Zenão, é o alter
ego de
Parmênides.
Estranha arte
esta para nós,
atenienses".
Zenão também concordou, embora ressalvasse que não havia
segundas intenções quando procedia deste modo. Zenão
explicou haver escrito seu livro em sua juventude para proteger
os argumento de Parmênides contra os que ridicularizavam o
mestre, e ele mesmo ficou algum tempo na dúvida se conviria
torná-lo público ou não. Alguém, entretanto, acabou roubando
uma cópia do livro e a vendeu. A partir daí ele percebeu que não
lhe restava mais escolha possível sobre se deveria ou não
divulgá-lo.
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Pr...sori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE8-22.htm (3 of 4)2006-06-02 14:47:25
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.8, C.22.
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Pr...sori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE8-22.htm (4 of 4)2006-06-02 14:47:25
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.8, C.23.
Capítulo 23
O diálogo prosseguia desta forma quando Sócrates passou a
dar a Zenão uma resposta que posteriormente a história da
Filosofia demonstrou estar no caminho certo.
"O
problema
de seu
argumento",
continuou Sócrates,
"é que não há
nada de
estranho em
que cada ser
seja ao mesmo
tempo um e
muitos.
Só a pura idéia
abstrata da
unidade é que
é perfeitamente
una. Os demais
seres
participam
desta unidade
perfeita. Isto é,
eles possuem
uma parte da
perfeição da
unidade que a
idéia da
unidade possui
por inteiro. Se
eles possuem
apenas uma
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Pr...sori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE8-23.htm (1 of 7)2006-06-02 14:47:26
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.8, C.23.
parte da
perfeição que
está contida na
idéia da
unidade, é
porque eles
não são
perfeitamente
unos: cada ser
tem que ser,
desta maneira,
um sob certos
aspectos e
muitos sob
outros
aspectos.
Agora, eu
ficaria
admirado e
realmente
perplexo se
você pudesse
me provar não
que os seres,
que apenas
participam da
idéia da
unidade, são
ao mesmo
tempo um e
muitos, mas
que a própria
idéia da
unidade possui
ao mesmo
tempo unidade
e
multiplicidade,
ou que a
própria idéia
da
multiplicidade
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Pr...sori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE8-23.htm (2 of 7)2006-06-02 14:47:26
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.8, C.23.
possui ao
mesmo tempo
multiplicidade
e unidade.
Se você puder
me provar que
o
absolutamente
um são muitos,
e que o
absolutamente
múltiplo é um,
isto me
espantaria.
Eu ficaria
deveras
surpreso em
ouvir que as
próprias idéias
de cada coisa
possuem
qualidades
opostas, mas
não se uma
pessoa quiser
me provar que
eu, Sócrates,
sou ao mesmo
tempo um e
muitos.
Porque eu,
Sócrates, de
fato, sob certos
aspectos sou
muitos, pois
tenho dois
braços, e não
um, e tenho
cabeça, tronco
e membros, e
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Pr...sori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE8-23.htm (3 of 7)2006-06-02 14:47:26
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.8, C.23.
órgãos
diversos e
partes
diferentes do
corpo que são
muitas.
Portanto, eu
não posso
negar que eu
participo da
idéia de
multiplicidade.
Mas só a idéia
da
multiplicidade
é totalmente
múltipla sem
unidade
alguma; desta
perfeição da
multiplicidade
que ela tem, eu
tenho apenas
uma
participação.
Mas, por outro
lado, eu
também sou
um, porque
aqui estão sete
pessoas e eu
sou apenas
uma. Portanto,
eu também não
posso negar
que eu
participo
também da
unidade
perfeita que há
na idéia de
unidade. Mas
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Pr...sori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE8-23.htm (4 of 7)2006-06-02 14:47:26
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.8, C.23.
só a idéia da
unidade é
totalmente una
sem
multiplicidade
alguma. Os
objetos
visíveis
possuem
apenas uma
parte desta
unidade que só
se realiza
perfeitamente
na idéia da
unidade. Só na
idéia da
unidade temos
uma unidade
pura, completa,
total, sem
mistura com
multiplicidade
alguma.
Assim, quando
uma pessoa
mostra que tais
coisas como a
madeira, as
pedras, e
outras, sendo
muitas, são
também uma
só, eu admito
que ela está
mostrando a
coexistência
do uno e do
múltiplo, mas
ela não está
mostrando que
esta
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Pr...sori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE8-23.htm (5 of 7)2006-06-02 14:47:26
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.8, C.23.
multiplicidade
é a unidade e a
unidade é a
multiplicidade.
Isto apenas
está mostrando
que estes
seres
participam
imperfeitamente
da verdadeira
unidade e da
verdadeira
multiplicidade,
e ela não está
com isto
mostrando um
paradoxo, mas
uma verdade
evidente.
Eu novamente
lhe repito,
Zenão, que eu
ficaria perplexo
se você
pudesse me
mostrar que
alguém
conseguiu
encontrar nas
próprias idéias
da unidade e
multiplicidade,
nestas idéias
que são
apreendidas
pela mente,
estas mesmas
características
que você diz
encontrar nos
objetos
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Pr...sori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE8-23.htm (6 of 7)2006-06-02 14:47:26
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.8, C.23.
visíveis".
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Pr...sori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE8-23.htm (7 of 7)2006-06-02 14:47:26
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.8, C.24.
Capítulo 24
Até aqui veio Sócrates. É importante que o aluno de Filosofia e
História da Educação reflita várias vezes sobre esta resposta.
Nela encontra-se, em gérmen, muita coisa do que a Filosofia
veio a trazer à luz posteriormente e que veremos a seguir.
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Provvisori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE8-24.htm2006-06-02 14:47:26
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.8, C.25.
Capítulo 25
Enquanto Sócrates falava, Pitodoro, o homem que tinha
hospedado Parmênides e Zenão, que não havia de imediato
percebido o alcancs das palavras de Sócrates, pensava que
seus hóspedes filósofos não estavam gostando da discussão
com Sócrates e que Sócrates não deveria passar de mais um
dos muitos chatos que poderiam haver resolvido aparecer na
casa dele para aborrecer os seus hóspedes.
"Mas
eles
estavam
lhe
dando a
mais
firme
atenção",
testemunha Platão ao narrar o diálogo,
"e
freqüentemente
se
entreolhavam
um ao outro
com uma
expressão de
admiração".
Quando Sócrates terminou, foi a vez de Parmênides tomar a
palavra e expressar o que pensava:
"Sócrates",
disse Parmênides,
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Pr...sori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE8-25.htm (1 of 3)2006-06-02 14:47:26
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.8, C.25.
"eu admiro
a vocação
da tua
inteligência
para a
filosofia.
Eu gostaria
de saber
depois se
esta
distinção
entre as
idéias em
si mesmas
e as coisas
que
participam
delas é
algo de teu
próprio.
Porém
agora vejo
que és
muito
jovem, e
virá um
tempo, se
eu não
estou
enganado,
em que a
filosofia
tomará
conta mais
firmemente
de ti, e
então não
desprezarás
até mesmo
as menores
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Pr...sori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE8-25.htm (2 of 3)2006-06-02 14:47:26
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.8, C.25.
coisas.
Mas na
idade que
tens estás
possuído
de uma
inclinação
muito
grande
para dar
ouvido às
opiniões
dos
homens".
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Pr...sori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE8-25.htm (3 of 3)2006-06-02 14:47:26
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.8, C.26.
Capítulo 26
O diálogo continua assim com Parmênides interrogando a
Sócrates com perguntas para muitas das quais Sócrates não
tinha resposta. Depois Parmênides dá uma aula a Sócrates
sobre o modo segundo o qual se deve conduzir o raciocínio, o
qual, se em vez de escrito fosse reproduzido como uma peça de
teatro, deveria durar pelo menos umas quatro horas.
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Provvisori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE8-26.htm2006-06-02 14:47:26
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.8, C.27.
Capítulo 27
Tal foi a recepção que Parmênides teve por parte de Sócrates.
Foi uma recepção muito diferente daquela que ele teve por parte
do povo em geral, sobre a qual trataremos nas notas que virão a
seguir. Ao contrário dos demais homens em geral, Sócrates fez
aquilo que Parmênides esperava que alguém tivesse feito: em
vez de rir dos seus argumentos, como acontece ainda hoje em
dia com os alunos de filosofia que ouvem a Parmênides pela
primeira vez, procurou compreendê-los no mesmo plano em que
eles se situam.
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Provvisori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE8-27.htm2006-06-02 14:47:27
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.8, C.28.
Capítulo 28
Como se explica que Sócrates tivesse dado esta resposta e que
nós, tendo já ouvido a Parmênides, tivéssemos uma reação tão
diferente?
É ingênuo pensar que isto se deve ao fato de Sócrates ter sido
uma pessoa muito inteligente, mais talvez do que nós. Sua
resposta não é tanto fruto de uma inteligência superior, mas sim
da seriedade com que aquele homem se empenhava, não
naquele instante, mas ao longo de sua vida, pela compreensão
da verdade. É a seriedade daquele que, tendo percebido o
espetáculo do mundo à sua volta, tem verdadeiramente presente
diante de si que não é possível que a inteligência humana tenha
sido feita para afogar-se nas ocupações banais pela
sobrevivência.
É justamente isto que nós nunca levamos a sério.
São Paulo, 4 de setembro de 1989.
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Provvisori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE8-28.htm2006-06-02 14:47:27
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.9, C.1.
OS SOFISTAS
Capítulo 1
Vimos, nas notas precedentes, como Parmênides e Zenão de
Eléia expuseram a sua doutrina em Atenas, como foram ouvidos
por Sócrates e os comentários que este fez a respeito.
Perante Zenão que dizia que não era possível existir a
multiplicidade porque, se ela existisse, cada coisa seria ao
mesmo tempo uma e muitas, Sócrates retrucou que nenhuma
coisa visível, mesmo que seja uma, é a unidade. Cada coisa
visível participa imperfeitamente da perfeita unidade que só
existe na idéia da unidade. Só a idéia da unidade é
absolutamente una, sem mistura com multiplicidade alguma. Só
ela é perfeitamente una. As coisas que vemos à nossa volta têm,
cada qual, em si mesma, uma parte da perfeição da unidade que
a idéia de unidade tem e, portanto, não podem ser, justamente
por isto, perfeitamente unas. Ora, se não são perfeitamente
unas, têm que ser em parte unas e em parte múltiplas, e é por
isso que cada coisa é, ao mesmo tempo, uma e muitas. Não há
contradição nisto. Haveria contradição, diz Sócrates, apenas se
alguém conseguisse provar que até na própria idéia abstrata de
unidade existe simultaneamente unidade e multiplicidade.
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Provvisori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE9-1.htm2006-06-02 14:47:27
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.9, C.2.
Capítulo 2
O que chamou a atenção de Parmênides neste raciocínio,
conforme as palavras por ele mesmo dirigidas a Sócrates
depois da exposição deste último, foi a
"distinção
entre as
idéias em
si
mesmas
e as
coisas
que
participam
delas".
Mas nós devemos também chamar a atenção dos alunos para o
fato de que em seu raciocínio Sócrates quer por sua vez chamar
a atenção do ouvinte para o fato de que algo tal como a unidade
é alguma coisa que pode ser possuída em parte.
Caberia fazer a pergunta: o que impede que se realize
totalmente? Fica esta pergunta, por enquanto, para ser
respondida por cada um.
Entender como estas coisa não são óbvias não é uma tarefa
simples. Elas significam que aquilo que no dia a dia nós
usualmente tomaríamos como um exemplo de unidade é, na
realidade, um exemplo que realiza apenas uma parte daquilo
que se realizaria se pudéssemos ver uma verdadeira e plena
unidade.
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Provvisori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE9-2.htm2006-06-02 14:47:27
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.9, C.3.
Capítulo 3
Sócrates poderia ter estendido o seu argumento de tal modo
que, a partir dele, obtivesse uma resposta não apenas a um dos
argumentos de Zenão, mas a toda a doutrina de Zenão e
Parmênides. Não o fez, todavia, e o encontro de ambos
continuou com uma longa discussão sobre técnicas de
argumentação.
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Provvisori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE9-3.htm2006-06-02 14:47:28
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.9, C.4.
Capítulo 4
Muito diversa da acolhida proporcionada por Sócrates foi,
entretanto, a acolhida que os atenienses em geral deram a
Parmênides e a Zenão. Para entendê-la, devemos falar alguma
coisa mais sobre o sistema político que vigorava em Atenas
naquela época.
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Provvisori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE9-4.htm2006-06-02 14:47:28
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.9, C.5.
Capítulo 5
Em Atenas havia se estabelecido o regime democrático, em que
o povo detém o poder.
Na nossa época, quando alguém fala em democracia,
geralmente se refere àquilo que se conhece como democracia
representativa, da qual se diz que o povo exerce o poder na
medida em que elege os seus representantes no governo e na
medida em que qualquer pessoa do povo pode vir a candidatarse a um cargo público e, uma vez eleito, sendo obrigado a
prestar conta de seu mandato perante a nação. Neste sistema
não é propriamente o povo que governa, mas os representantes
por ele eleitos. Este sistema é, por causa disso, dito democracia
representativa.
Em Atenas a democracia que havia se instalado não era, porém,
a representativa. Era a democracia direta. Quem mandava, de
fato, era o povo, e não os seus representantes.
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Provvisori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE9-5.htm2006-06-02 14:47:28
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.9, C.6.
Capítulo 6
Já tivemos a oportunidade de mencionar como eram os
tribunais atenienses, em que não havia um juiz, mas quinhentos
juízes escolhidos entre seis mil pessoas sorteadas entre os
cidadãos atenienses, os quais julgavam as causas por votação
em maioria simples, após ouvirem as partes em litígio.
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Provvisori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE9-6.htm2006-06-02 14:47:28
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.9, C.7.
Capítulo 7
As decisões não judiciais, como as votações de leis, a
declaração de uma guerra ou mesmo as decisões a serem
tomadas dentro dela, resoluções de política externa e comércio
exterior, e outras semelhantes, eram decididas pela Assembléia
Popular.
Uma vez a cada 36 dias todos os cidadãos de Atenas se reuniam
em Assembléia Popular e examinavam uma pauta de assuntos
preparada por um conselho de quinhentos homens designados
para tanto. Era examinada a conduta de todos os magistrados,
que o povo tinha poder de dispensar do cargo a qualquer
momento ou mesmo de conduzir a julgamento em caso de
irregularidade.
Ademais, além dos assuntos levantados pela pauta preparada
pelo Conselho dos Quinhentos, qualquer cidadão poderia pedir
a palavra e colocar outro assunto em discussão, mesmo que
fosse a votação de uma nova lei. A proposta seria votada pela
Assembléia Popular e aprovada ou não conforme o número de
votos. O êxito dependia em grande parte da capacidade que
teria o cidadão individual de convencer a Assembléia de que tal
proposta deveria ou não ser aprovada. Antes da votação um
outro cidadão qualquer poderia pedir a palavra e expor um
ponto de vista contrário.
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Provvisori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE9-7.htm2006-06-02 14:47:28
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.9, C.8.
Capítulo 8
Ora, na época em que Parmênides entrou em Atenas esta cidade
era uma das grandes potências econômicas, políticas e militares
do mundo antigo, graças a uma frota muito bem aparelhada e
colônias comerciais espalhadas em todo o Mediterrâneo. Atenas
talvez fosse a segunda potência da época, depois do Império
Persa.
É curioso observar como um Império do porte do ateniense
pudesse ser administrado por um sistema político baseado na
democracia direta e, ao mesmo tempo, os atenienses disporem
de um sistema educacional tão primitivo como o que foi descrito
nas notas anteriores. O acerto das decisões da política
ateniense dependia em última análise da capacidade individual
dos cidadãos de votarem corretamente as decisões a serem
tomadas e, mais ainda, da capacidade individual de outros
cidadãos em convencerem, em discurso público, a Assembléia
Popular sobre como cada questão deveria ser votada. Para
preparar os cidadãos para semelhante tarefa, todo o ensino
disponível em Atenas era algo mais ou menos equivalente ao
nosso curso primário. Consistia, conforme vimos, em aulas
administradas por professores independentes de leitura, música
e ginástica, a ginástica ocupando o primeiro lugar.
Num diálogo intitulado "Protágoras", escrito por Platão, em que
Sócrates conversa com um jovem chamado Hipócrates, o
primeiro diz ao segundo, referindo-se a este sistema de ensino:
"Sei que
quando
eras mais
jovem
estudaste
com o
professor
de escrita,
com o
professor
de cítara e
com o
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Pr...isori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE9-8.htm (1 of 2)2006-06-02 14:47:29
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.9, C.8.
professor
de
ginástica.
E, quando
fizeste isto,
recebeste
o ensino
de cada
um destes
professores
não com o
intuito de
arranjar
uma
profissão,
mas para
te
cultivares,
como
convém a
um homem
livre que tu
és".
Este ensino, conforme vimos, resultou do abrandamento
progressivo do regime militar, transformando-se em ginástica,
ao que se acrescentou posteriormente o ensino da música e da
leitura.
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Pr...isori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE9-8.htm (2 of 2)2006-06-02 14:47:29
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.9, C.9.
Capítulo 9
Mas embora, como diz a citação de Sócrates do ítem anterior,
esta educação era dada e procurada pelos atenienses não para
aprender uma profissão, mas para cultivar o homem livre, isto é,
o cidadão da democracia ateniense, pois os escravos não eram
cidadãos, aos poucos começava a ficar evidente em Atenas que
o homem mais poderoso não era o atleta, nem o músico, mas
aquele que soubesse melhor falar em público e convencer a
Assembléia Popular a votar de acordo com os seus pontos de
vista. Esta habilidade era fundamental, mas não havia mestres
para ensiná-la.
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Provvisori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE9-9.htm2006-06-02 14:47:29
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.9, C.10.
Capítulo 10
Não havia mestre para ensinar a discursar e convencer as
multidões do que bem se entendesse até que, a princípio talvez
quase inadvertidamente, os atenienses começaram a perceber
que, embora não se tivessem declarado tais, já havia algum
tempo que estes mestres haviam chegado à cidade e muitos
haviam zombado deles e não lhes dado o devido valor. Eram
eles precisamente aqueles dois filósofos loucos de Eléia. Lá
estavam dois sábios, que há tantos anos vinham se dedicando
ao estudo, esforçando-se por tentar demonstrar ao povo a
falsidade das coisas mais evidentes. Não tinham eles livros e
livros de argumentos para mostrar que uma flecha em
movimento na realidade está parada? Não tinham eles escrito
tratados para provar que a multidão dos objetos que vemos no
mundo à nossa volta não é uma multidão, mas um só e único
ser? Não demonstrava Parmênides que tudo o que vemos pelos
sentidos é ilusório, e muitos ouvintes, não podendo responder
aos argumentos destes filósofos, ficavam perplexos e
começavam realmente a duvidar se aquilo em que sempre
tinham acreditado poderia ser falso? Ora, se estes filósofos
eram capazes de induzir a dúvida nos ouvintes a respeito de
coisas que deveriam ser tão evidentes, o que não faria um
político se estudasse filosofia com eles e aplicasse a habilidade
que eles tinham e demonstravam aos problemas políticos? Os
discípulos daqueles dois filósofos seriam os senhores das
decisões da Assembléia Popular. Manipulariam a Assembléia
conforme as suas vontades e se tornariam os senhores de
Atenas.
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Provvisori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE9-10.htm2006-06-02 14:47:29
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.9, C.11.
Capítulo 11
Não é difícil imaginar como, de uma acolhida que inicialmente
deve ter sido provavelmente fria e sarcástica, os atenienses
passaram a ouvir aqueles dois filósofos veneradamente com
uma atenção tal como se estivessem ouvindo aos deuses.
Sócrates os tinha ouvido e esforçou-se, a partir dos argumentos
deles, para alcançar uma compreensão mais profunda da
verdade. Mas os demais atenienses não estavam interessados
em qualquer verdade que os dois filósofos de Eléia vinham ou
não vinham trazer. Eles queriam aprender como era possível
fazer aquela mágica de apresentar provas aparentemente
irrefutáveis de que as coisas mais evidentes não são como
supomos que sejam. Quando Parmênides e Zenão foram
embora de Atenas, devem ter visto as cópias de seus livros
disputadas entre os atenienses que os liam e reliam
aparentando evidente desejo de aprender. Parmênides e Zenão
foram, finalmente, levados a sério, mas não era bem desta
maneira que eles tinham desejado que tivessem sido levados a
sério.
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Provvisori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE9-11.htm2006-06-02 14:47:29
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.9, C.12.
Capítulo 12
Aconteceu então que algumas pessoas mais hábeis
conseguiram de fato adaptar as técnicas de argumentação de
Parmênides e Zenão à discussão dos problemas políticos. Estas
passaram a ser denominadas de sofistas e a darem aulas do
assunto a qualquer cidadão que tivesse o dinheiro bastante para
pagá-los. Ao contrário dos professores de leitura, música e
gramática que eram pessimamente mal pagos e muito mal
qualificados, os sofistas se aperfeiçoavam em suas técnicas,
uns estudando com os outros e cobrando caríssimo pelas suas
aulas, que só podiam ser pagas por pessoas de muita posse.
Poucos anos antes da visita de Parmênides e Zenão em Atenas
já havia sofistas no mundo grego que ensinavam a arte de falar
e de convencer as multidões, mas este tipo de ensino e suas
técnicas receberam seu grande impulso da adaptação que foi
feita dos textos de Parmênides e Zenão à sua arte. Foi a partir
daí que a sofística adquiriu a sua maior envergadura.
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Provvisori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE9-12.htm2006-06-02 14:47:30
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.9, C.13.
Capítulo 13
Os sofistas geralmente não se fixavam definitivamente em
nenhuma cidade, mas itineravam de cidade em cidade
angariando discípulos que passavam alguns anos estudando
com eles. Em cada cidade por que passavam costumavam
realizar demonstrações de oratória em público como
propaganda para angariar alunos. Sua glória era serem bem
sucedidos em Atenas.
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Provvisori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE9-13.htm2006-06-02 14:47:30
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.9, C.14.
Capítulo 14
O primeiro sofista famoso mencionado na história foi
Protágoras. Como todos os demais sofistas, seus objetivos
pedagógicos eram utilitários. Dizia que a filosofia devia ser
estudada apenas na época da juventude e que se torna inútil
quando cultivada além de determinados limites, porque impede
o homem de se tornar habilidoso nos negócios públicos e na
vida humana. Não se deve perder tempo, diz Protágoras,
especulando sobre a natureza, sobre o mundo nem sobre os
deuses.
"Eu não
sei se
existem
ou não
existem
deuses",
diz também Protágoras,
"a
questão
é
obscura
ea
vida
humana
é
curta".
O importante é viver, e na vida política o importante não é
possuir a verdade, mas ser capaz de convencer o público de
que tal ou determinada coisa é verdadeira.
Diz dele H.Marrou:
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Pr...sori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE9-14.htm (1 of 5)2006-06-02 14:47:30
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.9, C.14.
"Ele não tinha
a seus alunos
nenhuma
verdade a ser
ensinada, mas
apenas a
terem sempre
razão em
qualquer
circunstância".
"Protágoras
tomou
emprestado
de Zenão de
Eléia",
continua Marrou,
"seus
procedimentos
polêmicos e
sua dialética
rigorosa,
esvaziandoos, porém,
daquilo que
lhes dava sua
seriedade".
Diógenes Laércio, na biografia de Protágoras, diz que ele foi o
primeiro pensador a sustentar que sempre, em qualquer
questão, existem dois lados opostos um ao outro e que devem
ser ambos considerados. Ademais, ele partia do princípio de
que
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Pr...sori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE9-14.htm (2 of 5)2006-06-02 14:47:30
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.9, C.14.
"o
homem
éa
medida
de
todas
as
coisas,
das
coisas
que
são e
das
coisas
que
não
são",
e que, além disso,
"tudo é
verdade".
Estes princípios são explicados assim por Platão, que viveu
depois de Protágoras:
"Para
Protágoras,
assim
como cada
coisa
parece
para mim,
assim é
para mim,
e assim
como
parece
para ti,
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Pr...sori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE9-14.htm (3 of 5)2006-06-02 14:47:30
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.9, C.14.
assim é
para ti
porque
tanto eu
sou
homem
como tu és
homem".
Quando Protágoras diz então que o homem é a medida de todas
as coisas, não está se referindo à espécie humana, mas a cada
homem individualmente considerado. Com isto ele introduziu a
relativização da verdade. O princípio de Protágoras é a mesma
coisa que a negação da verdade.
Protágoras, ademais, se vangloriava de ser
"capaz
de
converter
em forte
a razão
débil",
fosse qual fosse a razão débil.
Protágoras dizia ainda que ele queria
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Pr...sori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE9-14.htm (4 of 5)2006-06-02 14:47:30
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.9, C.14.
"ensinar a
sabedoria,
tanto na
maneira
de
administrar
a casa
própria
como os
negócios
públicos,
isto é, a
maneira
de agir e
falar para
poder
governar
uma
cidade".
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Pr...sori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE9-14.htm (5 of 5)2006-06-02 14:47:30
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.9, C.15.
Capítulo 15
Certa vez Protágoras e Sócrates se encontraram. O encontro foi
narrado por Platão, discípulo de Sócrates. Sócrates começou a
interrogar Protágoras, e este dava respostas extensas,
compridas, cheias de floreios e artifícios de retórica. Sócrates
então pediu uma pausa e disse:
"Protágoras,
me desculpe,
mas eu quero
lhe dizer que
a natureza
me dotou de
uma memória
reduzida, e
quando me
fazem longos
discursos,
esqueço do
assunto que
estamos
discutindo.
Se eu fosse
surdo, você
reconheceria
ser
necessário,
para falar
comigo, falar
mais alto;
mostre pois a
mesma
complacência,
e já que você
encontrou em
mim um
homem de
memória
curta, resuma
as suas
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Pr...sori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE9-15.htm (1 of 3)2006-06-02 14:47:30
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.9, C.15.
respostas e
faça-as mais
curtas, se
quiser que eu
o
acompanhe".
A este pedido Protágoras teria respondido o seguinte:
"Na minha
vida,
Sócrates,
tenho
travado lutas
de palavras
com muitas
pessoas; e
se eu tivesse
feito o que
me pedes, e
tivesse
regulado a
minha
maneira de
discutir
pelas
exigências
dos meus
contraditores,
nunca teria
eclipsado
ninguém, e o
nome de
Protágoras
não seria
famoso entre
os gregos".
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Pr...sori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE9-15.htm (2 of 3)2006-06-02 14:47:30
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.9, C.15.
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Pr...sori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE9-15.htm (3 of 3)2006-06-02 14:47:30
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.9, C.16.
Capítulo 16
Numa peça de teatro de Aristófanes, chamada As Nuvens, em
que se faz uma sátira dos sofistas, erroneamente confundindo
Sócrates com um deles e levada ao palco ainda durante a vida
de Sócrates, Aristófanes narra a história de um pai que se
endividou comprando cavalos de corrida para o seu filho.
Ouçamos o que diz o pai na peça:
"Ó, como são
compridas as
noites, que coisa
tão interminável!
Pobre de mim,
não posso
dormir mordido
pela despesa e
pelas dívidas da
estrebaria, e
tudo por causa
do meu filho! Eu
morro, vendo
que está
chegando o dia
vinte e os juros
vão correndo.
Por favor,
escravo, acorde,
acenda a
lamparina e
traga-me o livro
de contas para
eu ver a quantas
pessoas eu
estou devendo e
calcular os
juros. Ai! Quem
me dera que
antes houvesse
morrido
desgraçadamente
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Pr...sori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE9-16.htm (1 of 3)2006-06-02 14:47:31
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.9, C.16.
a casamenteira
que me fez casar
com a mãe deste
jovem! Mas
agora, pensando
a noite inteira
sobre um meio
de encontrar
uma solução
para minhas
dívidas, achei
um caminho,
diabolicamente
excelente.
Acorde, meu
filho. Está vendo
aquilo, ali no fim
da rua? Aquela
casa é um
pensatório de
sofistas. Lá
moram homens
que falam do
céu, querendo
nos convencer
que o céu é a
tampa de um
forno e que nós
somos os
carvões. Se a
gente lhes der
algum dinheiro,
eles ensinam a
vencer nos
discursos nas
causas justas e
injustas. São
pensadores
meditabundos,
gente de bem! Ó
se são! Por
favor, meu filho,
esqueça um
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Pr...sori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE9-16.htm (2 of 3)2006-06-02 14:47:31
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.9, C.16.
pouco das
corridas de
cavalos e juntese a eles. Tornese um deles.
Eles dizem que
os raciocínios
são dois, o forte,
seja ele qual for,
e o fraco. Eles
afirmam que o
segundo
raciocínio, isto é,
o fraco,
discursando,
vence nas
causas mais
injustas. Ora,
filho querido, se
você aprender
este raciocínio
injusto, do
dinheiro que
agora eu estou
devendo por sua
culpa, destas
dívidas eu não
pagaria um
óbolo a
ninguém!"
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Pr...sori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE9-16.htm (3 of 3)2006-06-02 14:47:31
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.9, C.17.
Capítulo 17
Há, entretanto, alguns motivos para elogiar os sofistas. Eles
desenvolveram mais profundamente o estudo da linguagem, e
diz Diógenes Laércio que Protágoras foi o primeiro homem que
distinguiu e classificou os tempos dos verbos, iniciando, assim,
o estudo da gramática que viria a se desenvolver mais
amplamente em época posterior.
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Provvisori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE9-17.htm2006-06-02 14:47:31
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.9, C.18.
Capítulo 18
Outro sofista famoso, de quem falaremos mais tarde, foi
Górgias. Ao contrário de Protágoras, que ensinava que tudo era
verdade, ele ensinava que tudo era falso. Ele se utilizou mais
amplamente do que Protágoras das técnicas de Parmênides e
Zenão para ensinar como se poderia contra argumentar diante
de qualquer evidência mostrando que seria falsa.
Embora Protágoras dissesse que tudo era verdade e Górgias
ensinasse que tudo era falso, ambos na realidade estavam
ensinando a mesma coisa, isto é, que não existe a verdade
objetiva e que o importante é convencer.
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Provvisori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE9-18.htm2006-06-02 14:47:31
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.9, C.19.
Capítulo 19
A história menciona ainda ter existido um livro de um sofista
anônimo, chamado de "Discursos Duplos", que ilustra muito
bem o espírito da primeira sofística.
Tratava-se de um livro que continha, em duas colunas paralelas,
dada uma tese, os argumentos para provar que esta tese é
verdadeira e os argumentos para provar que a mesma é falsa.
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Provvisori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE9-19.htm2006-06-02 14:47:31
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.9, C.20.
Capítulo 20
O desenvolvimento da sofística foi em parte responsável pela
destruição do poder ateniense. Vinte anos depois da visita de
Zenão e Parmênides a esta cidade, ela entrou em guerra contra
os espartanos, no confronto que se denominou de Guerra do
Peloponeso. Esta guerra durou vinte e oito anos e Atenas, que
tinha vencido um século antes, com menos recursos, por três
vezes o colosso do Império Persa, perdeu desta vez uma guerra
que estava desde o início praticamente ganha contra uma
simples cidade.
Nos momentos decisivos da guerra, curiosamente, surgia
alguém que convencia a Assembléia Popular a decidir
exatamente o contrário do que em qualquer outra circunstância
teria sido o óbvio a ser feito.
Nunca mais Atenas se recuperaria da derrota, nem no plano
político, nem no plano econômico.
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Provvisori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE9-20.htm2006-06-02 14:47:32
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.9, C.21.
Capítulo 21
Foi no período entre a visita de Parmênides a Atenas e o final da
Guerra do Peloponeso, período em que a sofística alcançou o
auge da sua influência, que se desenvolveu a atividade
filosófica de Sócrates. Cinco anos depois da derrota na Guerra
do Peloponeso, Sócrates seria julgado e condenado à morte, em
399 AC. Sua atividade de filósofo neste contexto será o objeto
das próximas notas.
São Paulo, 1º de outubro de 1989
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Provvisori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE9-21.htm2006-06-02 14:47:32
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.10, C.1.
SÓCRATES
Capítulo 1
Nas notas anteriores examinamos o surgimento da sofística
entre os gregos, a qual, embora tivesse se iniciado já antes de
Parmênides, tomou o seu grande impulso depois da visita que
este filósofo e seu discípulo Zenão fizeram a Atenas. Tínhamos
já visto a acolhida que Sócrates havia dado a Parmênides e a
Zenão. Tivemos depois a oportunidade de examinar como foi a
acolhida dada a estes por parte dos atenienses, e como o
sofistas passaram a se valer das técnicas de argumentação
destes filósofos italianos para desenvolverem suas próprias
técnicas de argumentação e oratória com o fim de ensinar aos
outros a arte de convencer as multidões.
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Provvisori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE10-1.htm2006-06-02 14:47:32
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.10, C.2.
Capítulo 2
O encontro de Sócrates com Parmênides e Zenão é um dos
primeiros fatos históricos que temos a respeito de sua vida.
Entre este encontro e a época do fim da guerra do Peloponeso,
um período de aproximadamente 50 anos, encontra-se a maior
parte da vida ativa de Sócrates.
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Provvisori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE10-2.htm2006-06-02 14:47:32
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.10, C.3.
Capítulo 3
Ao contrário dos filósofos pré-socráticos, que escreveram
diversas obras, mas que se perderam, Sócrates não escreveu
nada. O que sabemos sobre ele é fruto principalmente de dois
dos seus principais discípulos, chamados Platão e Xenofonte.
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Provvisori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE10-3.htm2006-06-02 14:47:32
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.10, C.4.
Capítulo 4
Platão escreveu uma série de mais de duas dezenas de
diálogos, dos quais existem ainda hoje todos eles.
Chamam-se Diálogos porque neles Platão não expõe seus
ensinamentos por meio de uma exposição direta, mas sim
através do artifício em que é contada uma história na qual
sempre se encontram diversas pessoas que iniciam um diálogo.
A narrativa do diálogo passa a ser então a parte principal de
cada uma das mais de duas dezenas destas obras de Platão; o
diálogo é narrado em toda a vivacidade dos detalhes com que
ocorreu, mas, se o leitor acompanhar atentamente o diálogo
como se estivesse participando dele, passará, logo em seguida,
a participar da discussão dos temas filosóficos nele propostos
por Platão.
Com a exceção do último diálogo, chamado As Leis, em todos
os outros Sócrates é um dos personagens, e na maioria deles é
o personagem principal.
Existe uma controvérsia entre os estudiosos a respeito de quais
são os diálogos em que Platão reproduz um diálogo realmente
ocorrido em que Sócrates se aproveitou da ocasião para expor
suas doutrinas e quais são os diálogos imaginados por Platão
em que, apresentando Sócrates como um dos dialogantes, está
na realidade contando uma situação fictícia e expondo não as
doutrinas de Sócrates, mas as suas.
De qualquer maneira, é evidente que muitos diálogos e muitas
passagens dos Diálogos são relatos de fatos historicamente
ocorridos e uma das principais fontes para o conhecimento da
pessoa de Sócrates.
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Provvisori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE10-4.htm2006-06-02 14:47:33
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.10, C.5.
Capítulo 5
Xenofonte escreveu sobre Sócrates um livro chamado "Ditos e
feitos Memoráveis de Sócrates", o qual, embora muito menos
profundo do que as obras de Platão, é a segunda fonte mais
importante sobre a pessoa e o pensamento de Sócrates.
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Provvisori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE10-5.htm2006-06-02 14:47:33
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.10, C.6.
Capítulo 6
Sócrates nasceu em Atenas na época do fim das guerras dos
atenienses contra os persas, cerca de 470 AC, e morreu alguns
anos após o fim da guerra do Peloponeso, em 399 AC.
Era filho de um escultor e uma parteira. Durante algum tempo,
parece ter ganho a vida como escultor, mas ao que tudo indica
não seguiu a carreira.
Provavelmente foi educado, quando criança, de acordo com o
sistema escolar vigente em Atenas à sua época que já tivemos a
oportunidade de descrever. No entanto, nos Ditos Memoráveis,
Xenofonte relata Sócrates conhecer e conhecer bem diversos
outros assuntos que não faziam parte das matérias usualmente
ensinadas pelos professores de Atenas, embora ele próprio não
desse muita importância a estes conhecimentos. Não está bem
claro como Sócrates os tivesse aprendido, pois ele nunca se
ausentou de Atenas, a não ser quando convocado para cumprir
seus deveres militares, e não consta que ele tivesse tido
maiores contatos com os filósofos do sul da Itália, nem com os
da Ásia Menor, nem que tivesse viajado ao Egito ou à Pérsia.
Alguns dos homens antigos que escreveram sobre Sócrates
tentaram explicar este fato levantando a hipótese de que ele
talvez tivesse sido discípulo de Anaxágoras na época em que
este filósofo ainda vivia em Atenas, mas tal afirmação é uma
coisa muito incerta. Mais provável é que tenha estudado com
Arquelao, discípulo de Anaxágoras.
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NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.10, C.7.
Capítulo 7
Embora seja comum muitas pessoas terem ouvido falar alguma
coisa a respeito de Sócrates, poucos conhecem o que realmente
testemunharam dele os seus contemporâneos. A maioria das
pessoas que ouviram falar alguma coisa de Sócrates fazem dele
uma imagem como de um velhinho falador mas infinitamente
paciente.
Entretanto, o primeiro testemunho que seus contemporâneos
dao dele é o de um soldado de uma imensa superioridade
técnica e moral em campo de batalha, um homem de coragem,
inspirador de respeito tanto pela sua bravura como pelos
princípios em que baseia sua conduta em meio às situações
mais difíceis, em que uma outra pessoa qualquer perderia sua
dignidade diante do medo.
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NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.10, C.8.
Capítulo 8
Assim é que, um ano antes do início da guerra do Peloponeso a
cidade de Potidéia rebelou-se contra Atenas e ambas entraram
em guerra. Na expedição militar organizada pelos atenienses
contra Potidéia estavam juntos como soldados Sócrates e
Alcebíades, sobrinho de Péricles.
Péricles já sabemos quem foi. Quando iniciou-se no ano
seguinte a Guerra do Peloponeso era ele a principal figura de
Atenas. Foi Péricles quem coordenou o início da guerra contra
os espartanos, mas antes que se iniciassem as principais
ofensivas, Péricles morreu vítima de uma peste que assolou a
cidade de Atenas vinda da Etiópia e do Egito. Seu sobrinho
Alcebíades passou a ser, depois disso, o homem chave dos
atenienses na condução da guerra do Peloponeso durante os
seus primeiros anos e um dos principais durante boa parte do
restante da guerra.
Ora, este Alcebíades teria morrido bem antes disso, na
campanha contra Potidéia, se não tivesse sido salvo por
Sócrates. Assim narra Plutarco o feito, ao contar a vida de
Alcebíades:
"Ainda
adolescente,
engajou-se
Alcebíades
na
expedição
contra a
cidade de
Potidéia.
Ali foi
companheiro
de Sócrates,
na tenda, e
também nas
fileiras em
combate.
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Pr...sori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE10-8.htm (1 of 4)2006-06-02 14:47:33
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.10, C.8.
Travou-se
então uma
batalha
feroz e
ambos se
distinguiram
nas ações.
Mas então
Alcebíades
tombou
ferido.
Sócrates
(que podia
ter
continuado
a luta como
todo
soldado
sem se
preocupar
com os
tombados),
cobriu seu
corpo com o
dele e
continuou a
luta
defendendo
a ambos
com notável
denodo.
Deste modo
salvou-lhe a
vida assim
como as
armas".
Ora, continua Plutarco,
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Pr...sori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE10-8.htm (2 of 4)2006-06-02 14:47:33
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.10, C.8.
"o prêmio
desta
bravura
competia
por justiça
a Sócrates.
Finda a
guerra,
porém, os
generais
atenienses,
considerada
a posição
social, pois
Alcebíades
era
sobrinho de
Péricles,
mostravamse ansiosos
por conferir
a glória a
Alcebíades".
Sócrates, por outro lado, mostrou não ser ambicioso das honras
e não ter desejado mais do que cumprir bem o seu dever. Diz
então Plutarco que, em vez de protestar e querer para si as
honras de herói, Sócrates ao contrário,
"desejando
desenvolver
no jovem
Alcebíades
os
sentimentos
de honradez
nas ações
militares, foi
o primeiro a
depor a
favor de
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Pr...sori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE10-8.htm (3 of 4)2006-06-02 14:47:33
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.10, C.8.
Alcebíades
e a apelar
para que lhe
designassem
a coroa e a
panóplia".
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Pr...sori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE10-8.htm (4 of 4)2006-06-02 14:47:33
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.10, C.9.
Capítulo 9
Platão conta, em um dos seus Diálogos denominado O
Banquete, como o próprio Alcebíades, anos depois do término
da campanha de Potidéia, deu pessoalmente o seu testemunho
a favor de Sócrates.
Estavam conversando, na casa de um certo Agatão, Sócrates e
mais seis pessoas, dentre os quais Aristófanes, o escritor de
peças de teatro que mencionamos nas notas precedentes, o
autor da comédia As Nuvens, em que Sócrates é ridicularizado
sendo tomado como um sofista. Quando ocorreu este diálogo,
Aristófanes já havia escrito e apresentado As Nuvens em
público, pois um dos interlocutores do diálogo dirige a palavra a
Aristófanes citando, na presença de Sócrates, um trecho da
comédia em que Aristófanes satiriza a Sócrates.
É então que repentinamente entra na casa de Agatão e
interrompe a conversa destes homens nada menos do que
Alcebíades, fazendo os maiores elogios de Sócrates. Vejamos o
que Alcebíades tinha a dizer:
"Senhores,
devo lhes
dizer como
admiro a
índole, a
sabedoria e a
bravura deste
homem aqui
presente.
Nele
encontrei
alguém como
jamais
esperei
encontrar
outro homem
com tamanha
prudência e
fortaleza.
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Pr...sori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE10-9.htm (1 of 6)2006-06-02 14:47:34
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.10, C.9.
Logo depois
que o
conheci,
participamos
ambos de
uma
expedição
contra
Potidéia, e
tínhamos as
refeições
juntos.
Pois bem,
para
começar, ele
superava, a
mim e a
todos os
outros, nas
fadigas. Toda
vez que, com
as
comunicações
cortadas,
como
acontece nas
guerras,
éramos
forçados a
ficar sem
provisões de
boca, perto
dele os
outros não
valiam nada
para suportar
a situação.
Por outro
lado, quanto
a suportar os
invernos, e lá
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Pr...sori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE10-9.htm (2 of 6)2006-06-02 14:47:34
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.10, C.9.
os invernos
são terríveis,
este homem
fez prodígios.
Certa vez,
entre tantas,
tivemos uma
geada das
mais
terríveis;
ninguém saía
ao relento,
ou, se alguém
saía, ia
embrulhado
com uma
espantosa
quantidade
de agasalhos,
calçado com
os pés
envoltos em
tiras de feltro
e pele de
carneiro. Mas
Sócrates,
nesta
ocasião, saiu
sem nada
levar além
daquela
mesma manta
que
costumava
vestir antes
e, descalço,
caminhava
sobre o gêlo
com mais
desenvoltura
do que os
outros
calçados. Os
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Pr...sori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE10-9.htm (3 of 6)2006-06-02 14:47:34
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.10, C.9.
soldados o
olhavam com
desconfiança,
pensando
que com isto
Sócrates os
estava
querendo
humilhar.
E quanto aos
combates,
outro tanto é
o que eu
tenho a dizer.
Eis aqui uma
dívida que é
justo que se
lhe pague.
Quando se
feriu aquela
batalha após
a qual os
generais me
atribuíram a
insígnia de
bravura,
quem me
salvou não
foi outro
senão este
homem que
tendes aqui
presente. Ele
não quis me
abandonar
ferido, mas
salvou
juntamente
minhas
armas e
minha
pessoa.
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Pr...sori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE10-9.htm (4 of 6)2006-06-02 14:47:34
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.10, C.9.
Quando
voltamos a
Atenas, eu
propus aos
generais que
dessem as
insígnias a ti,
Sócrates, e tu
não me
podes
censurar por
isto, nem
desmentir.
Todavia os
generais
estavam de
olhos postos
na minha
linhagem, e
queriam
atribuir a mim
as honras.
Porém o fato,
deve-se dizer,
é que o
desejo de que
eu as
recebesse e
não Sócrates
era maior em
Sócrates do
que nos
próprios
generais.
Ainda muitas
outras coisas
admiráveis se
poderiam
dizer em
louvor deste
homem,
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Pr...sori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE10-9.htm (5 of 6)2006-06-02 14:47:34
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.10, C.9.
senhores. No
tocante a
outras
ocupações,
talvez se
pudessem
dizer coisas
semelhantes
a respeito de
outros; mas
naquilo em
que ele não
se assemelha
a homem
algum nem
do passado
nem do
presente é
que ele é
digno de toda
a admiração."
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Pr...sori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE10-9.htm (6 of 6)2006-06-02 14:47:34
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.10, C.10.
Capítulo 10
Que outras coisas são estas a que Alcebíades se refere?
Conta a história que, durante a Guerra do Peloponeso, travou-se
uma batalha em Délio. Dela participaram novamente Alcebíades
e Sócrates. Conta o fato assim Plutarco:
"De outra
feita, feria
a batalha
de Délio,
quando
batiam os
atenienses
em
retirada,
Alcebíades
ia
montado,
enquanto
Sócrates
retirava a
pé com
poucos
outros.
Quando
Alcebíades
o viu, não
passou à
frente,
mas
cavalgou
ao seu
lado e o
defendeu
do
inimigo,
que os ia
acossando
e
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Pr...ori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE10-10.htm (1 of 4)2006-06-02 14:47:34
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.10, C.10.
eliminando
em
grande
número".
Mas no Banquete de Platão, o próprio Alcebíades dá uma versão
mais completa do ocorrido. Ouçamos o que ele tem a nos dizer:
"Ainda mais,
senhores, valia a
pena observar
Sócrates quando o
exército batia em
retirada fugindo de
Délio. Acontece,
com efeito, que
desta vez eu estava
ao seu lado. Eu
tinha um cavalo;
ele, apenas o seu
equipamento de
infantaria (isto é,
dos soldados que
combatem a pé).
Sócrates ia se
retirando, junto
com Laques,
quando os demais
homens já tinham
debandado. Eu os
vi por acaso, e mal
os vi, exortei-os a
ter coragem,
prometendo não
abandoná-los. Ali,
melhor do que na
batalha de Potidéia,
pude examinar a
Sócrates, pois eu
tinha menos o que
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Pr...ori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE10-10.htm (2 of 4)2006-06-02 14:47:34
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.10, C.10.
temer por ir
montado. Em
primeiro lugar,
quanto a sua
inteligência
superava a do seu
colega que ele
amparava! Ele
caminhava como
aqui, empertigado e
lançando os olhos
para os lados,
observando de
soslaio,
serenamente,
amigos e inimigos,
deixando claro a
todos, mesmo bem
de longe, que se
alguém tocasse na
sua pessoa,
defender-se-ia com
grande vigor. Por
isso retirava-se ele
em segurança com
o seu companheiro.
De fato, na guerra,
quase nem tocam
em pessoas que
procedem desta
forma, mas
perseguem aos que
fogem
desordenadamente".
E quem era Laques, que Sócrates amparava? Este companheiro
Laques, de que fala Alcebíades, não é outro senão Xenofonte, o
discípulo de Sócrates, também soldado naquela batalha, pois
nós lemos em Diógenes Laércio, na sua biografia de Sócrates, o
relato deste mesmo caso, em que se conta que o colega que
Sócrates amparava era na realidade Xenofonte, que havia caído
de seu cavalo, quando Sócrates, parou, voltou atrás e o
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Pr...ori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE10-10.htm (3 of 4)2006-06-02 14:47:34
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.10, C.10.
amparou em uma retirada a pé.
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Pr...ori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE10-10.htm (4 of 4)2006-06-02 14:47:34
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.10, C.11.
Capítulo 11
Alcebíades é também testemunha da capacidade incomum de
concentração de Sócrates, mesmo nas condições mais
adversas. Ele nos conta como Sócrates ficou imóvel, meditando,
à procura de uma idéia, durante vinte e quatro horas seguidas, e
isto não no aconchego do lar, nem no silêncio de uma casa de
campo, mas na guerra, entre uma batalha e outra em que todos
poderiam perder a vida a qualquer momento.
Ouçamos o próprio Alcebíades falar:
"Quanto à
bravura
deste
homem,
senhores,
tenho dito.
Mas o que
realizou
Sócrates
certa vez na
campanha de
Potidéia vale
a pena ouvir.
Entregue a
seus
pensamentos,
achava-se de
pé desde o
amanhecer, à
procura de
uma idéia.
Como esta
não lhe
vinha, ele
não se dava
por vencido.
Mantinha-se
de pé,
procurando.
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NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.10, C.11.
Já era meio
dia quando
os homens o
observaram,
e,
maravilhados,
comentavam
de um para o
outro:
`Sócrates
está de pé
desde o
alvorecer, a
pensar em
alguma
coisa'.
Por fim,
sobreveio a
tarde; alguns
dos que o
tinham
observado,
depois de
jantarem e
estenderem
suas camas
ao relento,
pois era o
verão então,
ficaram
deitados
tomando o
sereno e ao
mesmo
tempo
observando
se ele
permaneceria
de pé a noite
toda.
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Pr...ori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE10-11.htm (2 of 3)2006-06-02 14:47:34
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.10, C.11.
Ele ficou lá,
senhores, de
pé, até vir a
manhã e sair
o sol.
Chegando a
luz do dia,
fez uma
prece e
seguiu o seu
caminho".
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Pr...ori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE10-11.htm (3 of 3)2006-06-02 14:47:34
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.10, C.12.
Capítulo 12
Mas a coragem e a honestidade de Sócrates não eram apenas
em tempo de guerra. Seus contemporâneos relatam que ele não
abandonava seu ideal de justiça por qualquer que fosse o
motivo, mesmo que isto lhe custasse a própria vida.
Perto do fim da Guerra do Peloponeso, Alcebíades tinha sido
expulso do comando da frota ateniense. Ocorreu então o
episódio da chamada Batalha das Ilhas Arginusas. Este episódio
é assim narrado pelo historiador M. Rostofzeff:
"Após a
expulsão
de
Alcebíades,
os
atenienses
fizeram
mais um
grande
esforço. O
principal
objetivo
dos
espartanos,
que nesta
altura já
tinham se
aliado com
os persas,
era
conquistar
as águas
da região
nordeste da
Grécia, e
assim
privar
Atenas dos
suprimentos
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Pr...ori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE10-12.htm (1 of 6)2006-06-02 14:47:35
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.10, C.12.
de
alimentos
vindos do
Mar Negro.
Uma frota
ateniense
foi então
enviada
para
defender a
região e
começou
com êxito.
Os
espartanos
foram
derrotados
na Batalha
das Ilhas
Arginusas
em 406
AC".
Para entender melhor o texto, vale a pena lembrar que a Guerra
do Peloponeso, que durou 28 anos, terminou em 404 AC.
"Mas a
batalha
das
Arginusas
foi travada
durante
uma
tempestade
e muitos
marinheiros
atenienses
morreram
afogados".
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Pr...ori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE10-12.htm (2 of 6)2006-06-02 14:47:35
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.10, C.12.
A guerra, nesta altura, já estava bastante difícil para os
atenienses. Em vez de comemorarem a vitória,
"o fracasso
dos generais
em salvar os
marinheiros
do
afogamento
provocou
uma
explosão de
ira na
Assembléia
Popular em
Atenas. Os
generais
foram
privados de
seu comando
e os que
voltaram para
casa foram
mortos. Esta
justiça
sumária não
encorajou
seus
sucessores.
A esta causa,
entre outras,
os
atenienses
devem sua
derrota final
e decisiva na
Guerra do
Peloponeso,
ocorrido em
Egospótamos,
próximo à
entrada do
Helesponto".
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Pr...ori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE10-12.htm (3 of 6)2006-06-02 14:47:35
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.10, C.12.
Estes generais, 10 ao todo, foram chamados de volta a Atenas
para enfrentar um julgamento. Já vimos como eram os tribunais
em que se faziam os julgamentos da Justiça Ateniense:
quinhentos juízes, escolhidos entre um número de 6000
cidadãos escolhidos por sorteio, que votavam o veredito por
maioria simples, após defesa pessoal dos acusados, com um
magistrado coordenando a seqüência das acusações, defesas e
votações.
Só que neste julgamento, que ficou na história, tratava-se de
uma questão de guerra e os juízes seriam todos os cidadãos
presentes à Assembléia Popular, qualquer que fosse o seu
número. Coube a Sócrates, por sorteio, desempenhar o papel do
Magistrado que iria coordenar o julgamento dos 10 generais.
Logo que se iniciou o julgamento, Sócrates percebeu sua
irregularidade. A Assembléia queria julgar os dez generais e, ao
que tudo indicava, condená-los à morte, em um só bloco.
Segundo as leis atenienses, porém, cada general deveria ser
julgado em separado e haver tantos julgamentos quantos
fossem os réus. Enfrentando a ira popular, o que naquelas
circunstâncias poderia vir a custar-lhe a vida, Sócrates
conseguiu se impor e obter o julgamento individual de cada um
dos acusados.
No Quarto Livro dos Ditos Memoráveis de Sócrates, Xenofonte
se refere a este fato desta maneira:
"Quanto à
justiça,
Socrates,
longe de
rebuçar sua
opinião,
patenteava-a
por atos: no
particular de
sua casa era
todo
equidade e
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Pr...ori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE10-12.htm (4 of 6)2006-06-02 14:47:35
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.10, C.12.
benevolência;
como
cidadão, de
impecável
honestidade
para com os
magistrados
em tudo o
que manda a
lei, quer na
cidade, quer
exército,
onde o
abalizava o
seu espírito
de disciplina.
Presidindo,
certa vez, na
qualidade de
Epístata, à
Assembléia
Popular,
impediu o
povo de votar
contra as leis
e,
fundamentado
nelas,
resistiu à
fúria do
populacho
que nenhum
outro teria
coragem de
enfrentar".
Findo cada julgamento, Sócrates ainda teve a coragem,
conforme diz Diógenes Laércio, de ter sido o único cidadão a
votar, e públicamente, pela absolvição dos generais. "Ele era um
homem de grande independência e dignidade de caráter", diz
Diógenes Laércio, comentando o fato.
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NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.10, C.12.
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NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.10, C.13.
Capítulo 13
Finda a Guerra do Peloponeso, e derrotados os atenienses, o
general espartano Lisandro impôs em Atenas um regime
ditatorial em que trinta homens teriam inteira autoridade sobre a
vida dos cidadãos. Eram todos atenienses, mas eram pessoas
tidas como iníquas pelos seus concidadãos, por terem traído a
causa pátria pela dos espartanos. Este regime ficou sendo
conhecido como o regime dos Trinta Tiranos, que durou oito
meses, até que Trasíbulo restaurasse novamente a democracia
em Atenas.
Curiosamente, o principal homem dos trinta tiranos era Crítias,
um ex-discípulo de Sócrates, mas que em nada se comportava
segundo o exemplo do mestre.
Começaram então os desterros e as mortes, e os Tiranos
frequentemente davam ordens a cidadãos honestos que eles
próprios prendessem seus condidadãos para serem levados ao
suplício. Alguns testemunhos da época, embora talvez
exagerados, dizem que nestes oito meses em que durou o
regime dos Trinta Tiranos morreu mais gente em Atenas do que
nos 28 anos da Guerra do Peloponeso.
Na História Universal de Cesare Cantú, este historiador diz que
Sócrates,
"vendo
tantos
cidadãos
perecerem,
vítimas da
crueldade
dos Trinta,
ou serem
exilados,
dizia:
`O pastor
que visse
todos os
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NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.10, C.13.
dias
diminuir o
seu
rebanho e
se
recusasse
confessar
que era
mau
pastor, não
teria
sinceridade;
menos
ainda o
teria o
governador
de uma
cidade, que
notando a
diminuição
do número
dos
cidadãos,
negasse
que
governasse
mal'".
Os Trinta lhe ordenaram que guardasse silêncio e não
conversasse com cidadão algum menor de trinta anos; porém
nem por isso ele deixava de falar com a mesma liberdade; e
quando lhe perguntavam se não receava que a franqueza dos
seus discursos lhe atraísse a desgraça, respondia:
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NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.10, C.13.
"Pelo
contrário,
espero
mil
males;
mas
nenhum
seria
igual ao
que eu
cometeria,
fazendo
uma
coisa
injusta",
embora, rigorosamente falando, não seria uma injustiça calar
onde não se espera fruto algum das próprias palavras.
Em outra ocasião, os Trinta Tiranos exigiram de Sócrates que os
ajudasse a prender um tal de Leon de Salamina, e sequestrar
todos os seus bens. Mesmo sabendo o que poderia vir a lhe
acontecer, Sócrates recusou, alegando não uma desculpa
qualquer, mas declarando que não o faria porque tratar-se-ia de
uma injustiça.
Diz do fato Xenofonte:
"Quando os
Trinta lhe
davam
ordens
contrárias às
leis, não as
acatava.
Assim,
quando o
proibiram de
falar com os
jovens e o
encarregaram,
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NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.10, C.13.
juntamente
com outros
cidadãos, de
conduzir um
homem que
intentavam
assassinar,
só ele se
recusou a
obedecer,
porque tais
ordens não
eram justas".
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NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.10, C.14.
Capítulo 14
Revela mais ainda o caráter de Sócrates o fato segundo o qual
um certo dia surgiu em Atenas um homem que dizia possuir os
conhecimentos necessários para descrever o caráter de um
homem apenas pela observação de sua fisionomia. Levaram
então o homem até Sócrates, que estava dialogando com vários
outros. Fez-se silêncio entre todos, para que o homem
examinasse os traços da fisionomia de Sócrates. Terminado o
exame, disse o homem:
"Eis aqui
um
homem
estúpido,
orgulhoso
e incapaz
de
controlar
seus
instintos
sexuais".
A afirmação, tão abrupta, fêz cair a todos na gargalhada, tal a
diferença evidente entre este julgamento e a realidade.
Mas houve alguém que não riu, e este foi o próprio Sócrates. Ao
contrário, pareceu como que apanhado em flagrante, e, para não
maior supresa dos presentes, dirigiu-lhes estas palavras:
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NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.10, C.14.
"Não! Está
certo. Este
homem
está certo!
São
justamente
estas as
inclinações
que eu
vejo
existirem
em mim, e
que tenho
lutado
para
dominálas".
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NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.10, C.15.
Capítulo 15
Notável também foi o modo como ele conheceu os seus
principais discípulos. Diógenes Laércio narra o primeiro
encontro entre Sócrates e Xenofonte, que começou a segui-lo
antes de Platão. Ao narrar a vida de Xenofonte, assim se
expressa Diógenes Laércio:
"Xenofonte,
filho de
Grillo, era
cidadão de
Atenas. Era
um homem
de rara
modéstia e
extremamente
educado. A
história
conta que
Sócrates
encontrou-o
em uma
passagem
estreita,
quando
Xenofonte
então lhe
perguntou
por acaso:
"Onde eu
posso
encontrar um
lugar em que
se vende
qualquer tipo
de comida?"
Sócrates respondeu à pergunta, mas depois fez a Xenofonte a
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NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.10, C.15.
seguinte:
"Agora
dize-me
tu, aonde
um
homem
pode se
dirigir
para se
tornar
bom e
honrado?"
Xenofonte ficou embaraçado, e disse que não o sabia.
"Então
segueme",
disse Sócrates,
"e
aprende".
A partir daquele dia ele se tornou discípulo de Sócrates.
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NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.10, C.16.
Capítulo 16
Muito tempo depois, Sócrates encontrou-se com Platão, evento
narrado também por Diógenes Laércio ao contar a vida de
Platão.
Diz este antigo historiador que, sem que Platão e Sócrates ainda
se conhecessem, o primeiro, Platão, vinha se interessando há
algum tempo pelo estudo da Filosofia, e costumava ler os
escritos de Heráclito, filósofo que já mencionamos sem termos
tido, porém, a oportunidade de desenvolver o seu pensamento.
Certo dia Platão, cujo verdadeiro nome era Arístocles, resolveu
inscrever-se em um concurso de composição de peças de
teatro. Contava então com 20 anos.
Na véspera do dia em que a obra iria ser entregue, ocorreu que
Sócrates sonhou que havia um filhote de cisne em seus joelhos,
o qual se revestiu repentinamente de uma vistosa plumagem
para logo em seguida levantar vôo depois de emitir em voz bem
alta uma doce nota musical.
No dia seguinte Platão se dirigiu ao teatro de Dionísio para
entregar uma cópia de sua peça, quando ouviu Sócrates
conversando junto à porta do mesmo. Ficou tão impressionado
com o modo de falar de Sócrates que jogou seu manuscrito às
chamas e pediu para ser apresentado àquele homem. Assim que
Sócrates viu o moço, disse aos circunstantes:
"Eis
aqui o
filhote
de
cisne
do
meu
sonho".
A partir daí iniciou-se entre os dois uma amizade que a história
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NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.10, C.16.
não mais apagaria.
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NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.10, C.17.
Capítulo 17
Mas o que fazia Sócrates como filósofo?
Vimos como Sócrates tinha altíssimos padrões de conduta
moral, os quais foram analisados até aqui apenas do ponto de
vista exterior, isto é, tal como eles se manifestaram muitas
vezes nos fatos da vida real. Eles, porém, se fundamentavam em
pressupostos bem mais elevados que só mais adiante
poderemos examinar.
Ao contrário dos demais filósofos pré socráticos, que se
dedicavam à contemplação da natureza, a atividade principal de
Sócrates era conversar, e conversar justamente sobre o
conhecimento do homem sobre si mesmo, e sobre as virtudes,
tais como a sabedoria e a justiça.
Este seu interesse pelas virtudes, entretanto, conforme veremos
mais adiante, não é de natureza diversa do que o interesse dos
outros pré socráticos pela contemplação do mundo à nossa
volta. É verdade que a maioria dos historiadores
contemporâneos apresentam Sócrates como inaugurando uma
nova orientação na filosofia, em que o filósofo se preocupa com
os problemas morais em vez do estudo da natureza. Na
realidade, porém, não há fundamentalmente uma nova
orientação; trata-se da mesma orientação, mas isto só ficará
claro mais adiante. Tanto os filósofos pré socráticos, com a
contemplação da natureza, como Sócrates, com a sua
preocupação pelas virtudes, analisados mais de perto, estão
realizando a mesma coisa. Mas para perceber isto será preciso
primeiro compreendê-los mais a fundo.
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NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.10, C.18.
Capítulo 18
Pelo menos, porém, para um observador exterior, à primeira
vista parece haver uma diferença.
Os pré socráticos se afastavam do convívio intenso com as
multidões. Sócrates, ao contrário, procurava o convívio com as
pessoas para poder conversar com elas. Ele frequentava as
festas e os banquetes, e onde houvesse uma oportunidade de
conversar com quem quisesse dialogar com ele, lá estava
presente.
O tema favorito dos pré socráticos, pelo menos na impressão
que os historiadores modernos gostam de transmitir deles, era a
natureza. O tema favorito de Sócrates eram as virtudes.
Pelo menos exteriormente, assim parece haver uma diferença.
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NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.10, C.19.
Capítulo 19
Quando Sócrates conversava, ele não ensinava nenhuma
doutrina pré estabelecida. Ao contrário dos pré socráticos, que
ofereciam uma doutrina positiva, ele dizia que nada tinha a
ensinar. Sócrates apenas perguntava. E assim se iniciava um
diálogo. Sócrates costumava procurar para conversar as
pessoas que diziam que tinham algum tipo de conhecimento
para ensinar, e então começava a lhe fazer perguntas. Muitos
dos que ele procurava eram os filósofos sofistas que visitavam
constantemente a cidade de Atenas em busca de alunos, os
quais se gabavam de serem capazes de ensinar qualquer
assunto e responder a qualquer pergunta a quem quer que
fosse. Embora anunciassem tais pretensões, quando os sofistas
começavam a dialogar com Sócrates, não era preciso esperar
muito para que eles próprios percebessem que sua idéias eram
contraditórias e que suas afirmações eram simples opiniões
improvisadas para fazerem efeito diante dos ouvintes, mas que
não eram capazes de suportar a análise de alguém que
buscasse sinceramente compreender as verdades últimas a
respeito do homem e da vida humana.
Quando o sofista, conversando com Sócrates, chegava a se dar
conta deste fato, em vez de aceitar a verdade, o mais
comumente se revoltava contra o favor que Sócrates lhe havia
prestado e começava a falar mal daquele homem para tantas
pessoas quantas pudesse. Mas se ele era suficientemente
honesto para aceitar a verdade, Sócrates então o convidava a
juntar-se a ele para buscarem um verdadeiro conhecimento da
natureza humana.
Sócrates comparava esta técnica do diálogo ao trabalho de sua
mãe que havia sido parteira. O interlocutor podia ser tanto o
sofista profissional como ou qualquer outra pessoa que fosse,
pois na verdade todos nós somos sofistas por adotarmos sem
refletir uma conduta em nossa vida que é baseada em
concepções sobre o que é o homem, sobre o que é a vida
humana e quais os seus objetivos que não suportariam uma
análise sincera por quem quer que busque a verdade sem que
caiam em contradição. Sócrates então comparava este
interlocutor a uma gestante em trabalho de parto. Ele próprio,
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NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.10, C.19.
Sócrates, era a parteira, que, dialogando, nos faria entrar em
contradição flagrante a respeito das concepções sobre as quais,
consciente ou inconscientemente, fundamentamos nossas
vidas. O momento em que o interlocutor percebesse a série de
ilusões fundamentais em que sua vida normalmente se baseia,
este Sócrates o comparava ao nascimento. Daí para a frente ele
poderia ser ajudado a crescer como um novo homem.
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NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.10, C.20.
Capítulo 20
A técnica obstétrica de Sócrates foi imortalizada por Platão, o
qual transcreveu uma multidão de diálogos que ele presenciou
pessoalmente ou que ele reconstituiu baseado no testemunho
de outros que haviam conhecido a Sócrates antes que ele
próprio.
Sócrates procurou uma quantidade infindável de pessoas para
simplesmente conversar com elas e ajudá-las a realizar o parto
de suas almas. Isto lhe granjeou a estima e a gratidão de muitos,
mas também a inveja e o ódio de outros tantos.
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NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.10, C.21.
Capítulo 21
Esta atividade de Sócrates de procurar as pessoas para
conversar com elas iniciou-se, ao que parece, de um modo que
tem o encanto da inocência das crianças.
Um amigo seu de infância, chamado Querofonte, impressionado
com a conduta e os modos exemplares de Sócrates, resolveu
dirigir-se ao oráculo do Templo de Delfos. Ali arriscou uma
consulta, e perguntou se havia algum homem mais sábio do que
Sócrates. A resposta foi afirmativa:
"De
todos
os
homens
vivos,
Sócrates
éo
mais
sábio",
disse o oráculo, segundo Diógenes Laércio.
Querofonte correu para dar a boa notícia a Sócrates. Quando
Sócrates a ouviu, custou a acreditar. Não podia ser verdade.
Talvez houvesse algum sentido oculto no oráculo. Ao pé da
letra, não podia ser verdade, e ele poderia prová-lo. Ele sabia
que era um homem bom e justo, mas daí a supor que fosse o
homem mais sábio de todos ia uma distância enorme. Ao
contrário, ele tinha uma firme impressão de não ser um homem
que soubesse muito. "Eu sei que não sou um sábio", dizia
Sócrates.
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NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.10, C.21.
"Como
poderia
então eu
não só
afirmar o
contrário,
como
ainda
por cima
supor
que sou
o
homem
mais
sábio de
todos os
homens
vivos?"
"Mas de qualquer forma, não será difícil descobrir a verdade",
continuou Sócrates.
"Vou
conversar
com os
homens
sábios e
interrogálos. Suas
respostas
serão
uma
prova
viva de
que há
alguém,
e vários,
mais
sábios
do que
eu".
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NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.10, C.21.
Foi assim que Sócrates começou a procurar as primeiras
pessoas para conversar com elas e fazer-lhe perguntas. Com
isto porém, tal como uma criança inocente, ele desejava
simplesmente entender o oráculo de Delfos a seu respeito.
Para sua surpresa, não conseguiu encontrar nenhum sábio,
mesmo entre aqueles que ostentavam sê-lo. Ao contrário,
descobriu as profundas ilusões a respeito da vida e do homem
sobre as quais se baseiam as vidas da maioria de todos nós. Foi
a partir desta descoberta que Sócrates iniciou o seu magistério
e teve que reconhecer que, afinal de contas, o oráculo tinha
razão, pois ele não era um sábio, mas pelo menos estava
consciente da extensão de sua ignorância, enquanto os demais
nem isto sabiam.
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NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.10, C.22.
Capítulo 22
Muitos anos depois, já passada a Guerra do Peloponeso e o
Governo dos Trinta Tiranos, algumas pessoas que se sentiram
ofendidas pelo magistério de Sócrates inventaram uma queixa
caluniosa contra ele no tribunal de Atenas.
Sócrates se dizia inocente.
O magistrado, porém, diante da multidão dos quinhentos juízes,
perguntou:
"Afinal,
Sócrates,
vamos ser
sinceros uns
com os
outros. Qual é
a tua
ocupação? Se
dizes que
estás sendo
caluniado, de
onde
procedem as
calúnias a teu
respeito?
Naturalmente,
se não
tivesses uma
ocupação
muito fora do
comum, não
haveria este
falatório, a
menos que
praticasses
alguma
extravagância".
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20P...ri/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE10-22.htm (1 of 14)2006-06-02 14:47:38
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.10, C.22.
Sócrates, então, com suas próprias palavras, contou a sua
história:
"Muito bem,
atenienses.
Ouvi, então.
Alguns de vós
achareis que
estou
gracejando, mas
não tenhais
dúvidas, eu vos
contarei toda a
verdade".
"Eu, atenienses,
devo a
reputação que
me deram
exclusivamente
a uma ciência. E
qual é esta
ciência? Aquela
que é, talvez, a
ciência do
homem".
"Para
testemunhar a
minha ciência, e
se é uma
ciência, e qual é
ela, vos trarei o
testemunho do
deus de Delfos".
"Conhecestes a
Querofonte,
certamente".
"Querofonte era
meu amigo de
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20P...ri/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE10-22.htm (2 of 14)2006-06-02 14:47:38
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.10, C.22.
infância, e
também amigo
do partido do
povo e seu
companheiro
naquele exílio de
que voltou
conosco.
Ora, Querofonte,
certa vez, indo
até Delfos,
arriscou esta
consulta ao
oráculo,
- repito,
senhores, não
vos amotineis -,
ele perguntou se
havia alguém
mais sábio do
que eu.
Respondeu o
oráculo que não
havia ninguém
mais sábio.
Quando soube
daquele oráculo,
pus-me a refletir
assim:
`Que quererá
dizer este
oráculo? Que
sentido oculto
existe naquela
resposta? Eu
mesmo não
tenho
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NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.10, C.22.
consciência de
ser nem muito
sábio nem pouco
sábio. Que
quererá então
ele dizer,
declarando-me o
mais sábio?
Naturalmente
não está
mentindo, pois
isto lhe é
impossível'.
Por longo tempo
fiquei nesta
incerteza sobre
o sentido. Por
fim, muito contra
o meu gosto,
decidi-me por
uma
investigação,
que passo a
expor.
Fui ter com um
dos que passam
por sábios,
porquanto, se
havia lugar, era
ali que, para
rebater o
oráculo, eu
poderia
apresentar
alguém mais
sábio do que eu.
Submeti esta
pessoa a exame.
Não preciso
dizer o seu
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NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.10, C.22.
nome, mas era
um dos políticos.
Eis, atenienses,
a impressão que
me ficou do
exame e da
conversa que
tive com ele:
achei que ele
passava por
sábio aos olhos
de muita gente,
principalmente
aos seus
próprios, mas
não o era.
Tentei, então,
explicar-lhe que
ele supunha ser
sábio, mas não o
era. A
conseqüência foi
a de tornar-me
odiado dele e de
muitos dos
circunstantes.
Ao retirar-me, ia
concluindo de
mim para
comigo:
`Mais sábio do
que este homem
eu sou. É bem
provável que
nenhum de nós
saiba nada de
bom, mas ele
supõe saber
alguma coisa e
não sabe,
enquanto eu, se
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20P...ri/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE10-22.htm (5 of 14)2006-06-02 14:47:38
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.10, C.22.
não sei, pelo
menos não
suponho saber.
Parece que sou
um nadinha mais
sábio do que ele
exatamente em
não supor que
eu saiba o que
não sei'.
Daí fui ter com
outro, um dos
que passam por
ainda mais
sábios e tive a
mesmíssima
impressão.
Também ali me
tornei odiado
dele e de muitos
outros.
Depois disso
não parei,
embora sentisse,
com mágoa e
apreensão, que
ia me tornando
odiado. Não
obstante,
parecia-me
imperioso dar a
máxima
importância a
este serviço.
Cumpria-me,
portanto, para
averiguar o
sentido do
oráculo, ir ter
com todos os
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20P...ri/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE10-22.htm (6 of 14)2006-06-02 14:47:38
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.10, C.22.
que passavam
por senhores de
algum saber.
Ó atenienses! Já
que lhes devo a
verdade, eu vos
declaro que se
deu comigo mais
ou menos isto:
investigando de
acordo com o
oráculo, achei
que aos mais
reputados pouco
faltava para
serem os mais
desprovidos,
enquanto outros,
tidos como
inferiores, eram
os que mais
visão tinham de
ser homens de
senso.
Depois dos
políticos, fui ter
com os poetas,
tanto os autores
das tragédias
como a outros,
na esperança de
aí me apanhar
em flagrante
inferioridade.
Levando em
mãos as obras
em que pareciam
ter posto o
máximo de sua
capacidade,
interrogava-os
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20P...ri/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE10-22.htm (7 of 14)2006-06-02 14:47:38
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.10, C.22.
minuciosamente
sobre o que
diziam, para ir,
ao mesmo
tempo,
aprendendo
deles alguma
coisa.
Pois bem,
senhores, coro
de vos dizer a
verdade, mas é
preciso.
A bem dizer,
quase todos os
circunstantes
poderiam falar
melhor do que
eles próprios
sobre as obras
que eles mesmo
compuseram.
Assim, logo
acabei
compreendendo
que tampouco
os poetas
compunham as
suas obras por
sabedoria, mas
sim por um dom
natural, por um
estado de
inspiração. Ao
mesmo tempo,
porém, notei que
por causa da
poesia eles
supõem ser os
mais sábios dos
homens em
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20P...ri/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE10-22.htm (8 of 14)2006-06-02 14:47:38
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.10, C.22.
outros campos
em que não o
são. Saí, pois,
acreditando
superá-los na
mesma
particularidade
que aos
políticos.
Por fim, fui ter
com os artífices.
Tinha a
consciência de
não saber, a bem
dizer, nada, e a
certeza de neles
descobrir muitos
belos
conhecimentos.
Nisso não me
enganava; eles
tinham
conhecimentos
que me faltavam;
eram, assim,
mais sábios do
que eu.
Contudo,
atenienses,
achei que os
bons artesãos
tinham o mesmo
defeito que os
poetas. Por
praticar bem a
sua arte, cada
qual imaginava
ser
sapientíssimo
nos demais
assuntos, os
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20P...ri/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE10-22.htm (9 of 14)2006-06-02 14:47:38
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.10, C.22.
mais difíceis, e
este engano
toldava-lhes
aquela
sabedoria.
De sorte que eu
perguntei a mim
mesmo, em
nome do
oráculo, se
preferia ser
como sou, sem a
sabedoria deles
nem a sua
ignorância, ou
possuir, como
eles, uma e
outra. E
respondi, a mim
mesmo e ao
oráculo, que me
convinha mais
ser como eu
sou.
Desta
investigação é
que procedem,
atenienses, de
um lado, tantas
inimizades que
deram
nascimento a
tantas calúnias,
e, de outro, esta
reputação de
sábio. É que
toda vez os
circunstantes
supõem que eu
seja sábio na
matéria em que
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20P...ri/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE10-22.htm (10 of 14)2006-06-02 14:47:38
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.10, C.22.
eu confundo a
outrem. O
provável,
senhores, é que
na realidade
sábio seja o
oráculo e que
este queira dizer
que pouco valor
ou nenhum tem
a sabedoria
humana.
Evidentemente
se terá servido
do nome de
Sócrates para
me dar como
exemplo, como
se dissesse:
`O mais sábio
dentre vós,
homens, é quem,
como Sócrates,
compreendeu
que sua
sabedoria é
verdadeiramente
desprendida do
mínimo valor'.
Por isso não
parei esta
investigação até
hoje, vagueando
e interrogando,
de acordo com o
oráculo, a quem,
seja cidadão,
seja forasteiro,
eu tiver na conta
de sábio, e,
quando julgar
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20P...ri/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE10-22.htm (11 of 14)2006-06-02 14:47:38
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.10, C.22.
que não o é,
coopero
provando-lhe
que não é sábio.
Esta ocupação
não me permitiu
lazeres para
qualquer
atividade digna
de menção nos
negócios
públicos, nem
nos particulares.
Vivo muito
pobremente.
Além disso, os
moços que
espontaneamente
me acompanham
sentem prazer
em ouvir o
exame dos
homens. Eles
próprios imitamme muitas
vezes,
interrogando os
outros. Suponho
que descobrem
uma multidão de
pessoas que
supõem saber
alguma coisa,
mas pouco
sabem, quiçá
nada.
Em
conseqüência,
as pessoas que
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20P...ri/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE10-22.htm (12 of 14)2006-06-02 14:47:38
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.10, C.22.
eles examinam
se revoltam
contra mim, e
não contra si
próprios, e
difundem que
existe um tal de
Sócrates, que é
um grande
miserável que
corrompe a
mocidade.
Quando se lhes
pergunta por que
atos ou
ensinamentos,
não têm o que
responder. Para
não mostrar
então o seu
embaraço,
levantam
aquelas
acusações que
se levantam
contra todos os
filósofos que
estão sempre à
mão:
`Sócrates
investiga
indiscretamente
os fenômenos
celestes; ensina
a descrença nos
deuses; ensina a
fazer prevalecer
a razão mais
fraca sobre a
mais forte'".
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20P...ri/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE10-22.htm (13 of 14)2006-06-02 14:47:38
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.10, C.22.
"Aí tendes,
atenienses, a
verdade.
Em meu
discurso não
vos oculto nada
que tenha
alguma
importância.
Nada vos
dissimulo".
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20P...ri/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE10-22.htm (14 of 14)2006-06-02 14:47:38
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.10, C.23.
Capítulo 23
Terminada a defesa, e passado o caso à votação dos juízes,
Sócrates foi condenado à morte por pequena margem, conforme
já sabemos. Mesmo assim, ao receber a sentença, comportou-se
com a dignidade que tinha sido a sua característica em vida.
Aos que o condenaram dirigiu estas palavras:
"Eu já
imaginava
que a decisão
seria essa,
não por
pequena, mas
por grande
margem; no
entanto,
parece-me
que com a
transposição
de apenas 30
votos, estaria
absolvido.
Perdi-me,
senhores, não
por falta de
discursos
com que vos
poderia
convencer.
Perdi-me por
falta não de
discursos,
mas de
atrevimento e
descaramento,
por me
recusar a
proferir o que
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Pr...ori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE10-23.htm (1 of 3)2006-06-02 14:47:38
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.10, C.23.
mais gostais
de ouvir:
lamentos,
gemidos,
fazendo e
dizendo uma
multidão de
coisas que
considero
indignas de
mim, tais
como
costumais
ouvir dos
outros.
Ora, se em
minha vida
sempre achei
que o perigo
não
justificava
nenhuma
indignidade,
tampouco me
pesa agora a
maneira pela
qual me
defendi. Ao
contrário, fico
mais feliz em
morrer após a
defesa que
fiz, do que
ficaria em
viver após
fazê-la
daquele outro
modo.
Quer no
tribunal, quer
na guerra,
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Pr...ori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE10-23.htm (2 of 3)2006-06-02 14:47:38
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.10, C.23.
não devo eu,
não deve
ninguém
lançar mão de
todo e
qualquer
recurso para
escapar à
morte. De
fato, é
evidente que
nas batalhas
muitas vezes
pode escapar
à morte quem
ousar tudo
fazer e dizer.
Não se tenha
por difícil
escapar à
morte.
Muito mais
difícil é
escapar à
maldade".
São Paulo, 15 de outubro de 1989.
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Pr...ori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE10-23.htm (3 of 3)2006-06-02 14:47:38
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.11, C.1.
PLATÃO
Capítulo 1
Nas notas anteriores tratamos da figura de Sócrates. Vimos os
testemunhos de Alcebíades sobre a pessoa de Sócrates, sobre a
sua bravura na guerra, sobre suas virtudes, sobre sua
capacidade incomum de concentração mesmo nas condições
mais adversas, sobre seu ideal de justiça e como por este ideal
Sócrates não titubeava em expor a sua própria vida a qualquer
perigo.
Vimos também como Sócrates apreciava conversar com as
pessoas e, através do diálogo, trazer os homens ao
conhecimento de si mesmos, arte que ele comparava à
obstetrícia.
Vimos finalmente a defesa de Sócrates quando levado ao
tribunal e a dignidade com que se comportou ao ser condenado,
em nada diversa daquela que havia sido sua característica
durante a vida.
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Provvisori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE11-1.htm2006-06-02 14:47:38
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.11, C.2.
Capítulo 2
Mencionamos também a existência de diversos discípulos de
Sócrates, dentre os quais Xenofonte e Platão. Deste, Platão é,
sem sombra alguma de dúvida, o mais importante de todos.
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Provvisori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE11-2.htm2006-06-02 14:47:38
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.11, C.3.
Capítulo 3
Ao contrário de Sócrates, que era muito pobre, Platão vinha de
uma família rica e tradicional.
Por parte de pai era descendente de reis. Por parte de mãe era
descendente de Sólon, o grande reformador ateniense. Ele era
bisneto do neto do irmão de Sólon. Seu avô foi também irmão
de Crítias, o principal dos Trinta Tiranos que dominaram Atenas
logo em seguida à derrota da Guerra do Peloponeso.
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Provvisori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE11-3.htm2006-06-02 14:47:38
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.11, C.4.
Capítulo 4
Platão nasceu, segundo Diógenes Laércio, em Atenas no
mesmo ano em que morreu Péricles.
Péricles, conforme havíamos dito, morreu durante uma peste
que assolou Atenas logo após o início da Guerra do
Peloponeso. Como a Guerra do Peloponeso durou 28 anos, toda
a juventude de Platão coincidiu com este período de guerra.
Seu verdadeiro nome era Arístocles, mas seu professor de
ginástica, por causa dos ombros grandes que o jovem
Arístocles possuía, deu-lhe o apelido de Platão, nome pelo qual
ficou conhecido a partir daí.
Platão aprendeu a ler e a escrever com um professor chamado
Dionísio, vindo depois a se interessar muito por literatura.
Começou a escrever pequenos poemas, depois poesias maiores
e finalmente passou a escrever tragédias para o teatro.
Foi um dia, quando tinha vinte anos de idade e ia entregar uma
peça de teatro que havia escrito para um conscurso de autores
que estava sendo promovido em Atenas, que encontrou o velho
Sócrates conversando com algumas pessoas junto à porta do
teatro onde os manuscritos para o concurso deveriam ser
entregues. Parou então um instante para verificar o motivo
daquele ajuntamento e, ouvindo Sócrates falar, deu-se conta da
imensa diferença que havia entre a mensagem que Sócrates
tentava transmitir e o que ele mesmo havia escrito nos textos
que ia entregar para o concurso. O impacto foi tão grande que
Diógenes Laércio diz que então o futuro filósofo atirou a sua
obra às chamas e passou a ser discípulo de Sócrates.
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Provvisori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE11-4.htm2006-06-02 14:47:39
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.11, C.5.
Capítulo 5
Platão, desta maneira, antes de ter sido filósofo, foi poeta e
escritor.
Embora, ao conhecer Sócrates, tivesse abandonado
definitivamente a carreira de escritor, este fato deixou nele uma
marca que o tempo não mais apagaria, pois as obras de filosofia
que mais tarde ele iria escrever se tornaram não só obras
primas da filosofia, como também um dos clássicos da literatura
grega.
Foi um caso muito diferente do de Aristóteles, que foi discípulo
de Platão. Aristóteles era filho de médico; sua obra filosófica
prima por uma exatidão e uma clareza de pensamento talvez
inigualáveis em toda a história da filosofia, mas do ponto de
vista literário vale muito pouca coisa.
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Provvisori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE11-5.htm2006-06-02 14:47:39
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.11, C.6.
Capítulo 6
Platão tornou-se, assim, discípulo de Sócrates aos vinte anos de
idade e o foi durante oito anos, até à condenação de Sócrates.
Quando Sócrates morreu, tinha, pois, Platão, vinte e oito anos.
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Provvisori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE11-6.htm2006-06-02 14:47:39
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.11, C.7.
Capítulo 7
Estes primeiros vinte e oito anos de vida de Platão foram
marcados, por um lado, pelo espetáculo das virtudes e da
sabedoria de Sócrates e, por outro, pela visão do
comportamento exatamente oposto que ele observava em toda a
sociedade ateniense.
Poucas vezes um homem, em toda a história, teve a
oportunidade de conviver tão intimamente e ao mesmo tempo
com dois aspectos tão importantes do comportamento humano
e, também, tão extremos e tão opostos.
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Provvisori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE11-7.htm2006-06-02 14:47:39
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.11, C.8.
Capítulo 8
Ele conviveu oito anos com Sócrates, unido a ele por uma
amizade da qual mais de dois milênios de tempo não puderam
ainda apagar os vestígios.
Quando Sócrates e Platão se encontraram pela primeira vez,
Sócrates reconheceu no jovem o filhote de cisne com que tinha
sonhado na noite anterior, com o que esta história quer mostrar
como Sócrates percebeu imediatamente com que tipo de pessoa
passava a tratar a partir daquele instante.
Por outro lado, a marca que Sócrates deixou em Platão pode ser
vista bastando dizer que a obra escrita de Platão tem
aproximadamente o tamanho de uma Bíblia e que nela Sócrates
é o personagem principal praticamente todo o tempo. O pouco
que de Sócrates escrevemos nas quinze páginas das notas
anteriores já dão uma idéia das qualidades morais deste homem
que faz impressão; daí pode-se avaliar o efeito que Sócrates não
deve ter produzido sobre um discípulo como Platão em uma
amizade tão íntima e que se prolongou não por quinze páginas,
mas por oito anos, e o quanto Platão conhecia de perto, por
experiência, o que é uma vida baseada na sabedoria e na
virtude.
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Provvisori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE11-8.htm2006-06-02 14:47:40
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.11, C.9.
Capítulo 9
Por outro lado Platão nasceu, conforme dissemos, em Atenas,
logo após o início da Guerra do Peloponeso. Ele era de uma
família tradicional, rica e influente na política. Quando se
instalou o regime dos Trinta Tiranos, ele era parente e amigo
destes tiranos; e nas épocas em que vigorou o regime
democrático, ele participava e ficava a par daquilo que não era
freqüentemente levado à discussão na Assembléia Popular. Foi
desta posição previlegiada que ele assistiu às incoerências da
Guerra do Peloponeso. Finda a Guerra do Peloponeso, assistiu
às incoerências e às injustiças ainda maiores do regime dos
Trinta Tiranos. Findo o regime dos Trinta Tiranos, asssitiu
àquela que, no seu entender, foi a maior de todas as
incoerências e injustiças que ele jamais supôs que poderia vir a
assistir em sua vida, isto é, a condenação à morte por um júri
popular de uma pessoa como Sócrates, com base em
acusações que não passavam de evidentes banalidades.
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Provvisori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE11-9.htm2006-06-02 14:47:40
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.11, C.10.
Capítulo 10
Platão, enquanto foi discípulo de Sócrates, e provavelmente
mesmo antes, tinha pensado seriamente em dedicar-se à
carreira política. Mas, tendo visto por um lado o que era a
virtude por ter convivido com um modelo da mesma e, por
outro, o que era a realidade política, percebeu claramente a
inutilidade dos seus esforços diante da situação em que se
encontravam as coisas.
Ele próprio declarou o seguinte em sua Carta Sétima:
"Com os
hábitos que o
modo de vida
que os gregos
vem levando
têm produzido,
hábitos estes
que se formam
já nos
primeiros anos
de vida,
nenhum
homem
debaixo do céu
poderá
alcançar a
sabedoria. A
natureza
humana não é
capaz de uma
combinação
assim tão
extraordinária.
O resultado é
que as
constituições
das cidades
ficarão sempre
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Pr...ori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE11-10.htm (1 of 3)2006-06-02 14:47:40
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.11, C.10.
em estado de
perpétua
mudança,
passando da
tirania para a
oligarquia, da
oligarquia para
a democracia e
assim se
sucedendo
umas às
outras
enquanto que
aqueles que
ditam o poder
não
conseguirão
sustentar
nenhuma
forma de
governo que
faça
permanecer a
justiça.
Não será
possível existir
a felicidade
nem para uma
comunidade,
nem para um
homem
individualmente
considerado, a
menos que ele
passe a sua
vida sob a
regra da
virtude sendo
nesta guiado
pela sabedoria,
ou porque este
homem possua
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Pr...ori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE11-10.htm (2 of 3)2006-06-02 14:47:40
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.11, C.10.
ele próprio em
si mesmo
estas virtudes,
ou porque viva
debaixo do
governo de
outros homens
que receberam
para tanto um
treino e uma
educação no
que diz
respeito à vida
moral".
A esta mesma conclusão já havia chegado, quatro gerações
antes, o filósofo Pitágoras.
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Pr...ori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE11-10.htm (3 of 3)2006-06-02 14:47:40
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.11, C.11.
Capítulo 11
Foi assim que, quando Sócrates foi condenado e executado,
Platão abandonou definitivamente a política ateniense e pôs-se
a viajar em busca de mais conhecimento.
Viajou durante doze anos, desde os 28 anos de idade até aos 40
anos.
Inicialmente, juntamente com outros discípulos de Sócrates, foi
estudar com o filósofo Euclides na cidade de Megara. Não se
tratava do famoso Euclides de Alexandria, o maior dos
geômetras da antigüidade. Este último ainda não havia nascido,
mas viria a ser em Atenas aluno dos primeiros discípulos de
Platão, antes de mudar-se para Alexandria no Egito e ali fundar
uma escola.
Depois de estudar com Euclides de Megara, Platão foi para o
norte da África, na região de Cirene, onde atualmente fica a
fronteira do Egito com a Líbia, estudar com o matemático
Teodoro.
Passou então para a Itália, onde ficou por um bom tempo nas
escolas dos Pitagóricos.
Dali foi estudar com os sábios do Egito.
Quis passar depois para a Pérsia, tal como cerca de um século
antes tinha feito Pitágoras, mas diz Diógenes Laércio que a
situação política e as guerras que havia então na Ásia o
impediram de prosseguir viagem.
Voltou então para Atenas com 40 anos de idade, passando,
porém, primeiro por Siracusa na Sicília onde foi preso e posto à
venda como escravo; seus amigos, sabendo disso, se cotizaram
e pagaram o preço, mas o vendedor, ao saber quem era aquele
que ele estava vendendo como escravo, não quis aceitar o
dinheiro que acabou ficando para o próprio Platão. Com este
dinheiro Platão comprou um campo fora dos muros de Atenas
de um homem chamado Academo onde fundou uma escola de
filosofia que funcionava com semelhanças notáveis com as
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Pr...ori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE11-11.htm (1 of 2)2006-06-02 14:47:40
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.11, C.11.
escolas fundadas por Pitágoras. Como veremos posteriormente,
tais semelhanças não foram um simples coincidências. Como o
local onde a escola funcionava tinha pertencido a Academo, a
escola passou a denominar-se simplesmente a Academia.
Platão ensinou na Academia até a sua morte, ocorrida aos seus
oitenta e um anos de idade. Foram, pois, quarenta e um anos de
magistério. A Academia sobreviveu à sua morte e continuou
funcionando no mesmo local durante alguns séculos até depois
do início da era cristã.
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Pr...ori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE11-11.htm (2 of 2)2006-06-02 14:47:40
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.11, C.12.
Capítulo 12
Mas é importante, para entender o que vem mais adiante, ouvir
uma parte destes fatos tais como foram relatados pelo próprio
Platão. Ele as relata em uma longa carta que escreveu de Atenas
a alguns amigos de Siracusa na Sicília, carta essa que ficou
conhecida como a Carta Sétima. Nesta carta, assim Platão fala
de si próprio:
"Na minha
juventude
passei pelas
mesmas
experiências
pelas quais
passaram
muitos outros.
Eu imaginava
que se
quisesse
tornar-me cedo
na vida senhor
de mim
mesmo,
deveria entrar
imediatamente
na carreira
política. Nela,
porém, vi-me
diante dos
seguintes fatos
que dizem
respeito aos
negócios
públicos da
cidade onde
vivia. A
constituição
(democrática)
existente
(durante a
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20P...ri/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE11-12.htm (1 of 11)2006-06-02 14:47:41
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.11, C.12.
Guerra do
Peloponeso)
era condenada
por muitos, em
conseqüência
do que fêz-se
uma revolução
e foram
apontados
trinta
governantes
com plenos
poderes sobre
os problemas
públicos em
geral.
Alguns destes
governantes
eram meus
parentes,
outros meus
amigos, em
vista do que
me
convidaram
imediatamente
para participar
de seus
afazeres como
algo a que eu
tivesse direito.
O efeito (deste
convite) não
foi
surpreendente
em se
considerando
o caso de um
homem ainda
jovem (que na
época eu era).
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20P...ri/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE11-12.htm (2 of 11)2006-06-02 14:47:41
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.11, C.12.
Eu imaginava
que eles iriam,
de fato,
administrar a
cidade de tal
maneira que
tirariam os
homens de
uma vida
péssima para
uma vida boa.
Assim eu os
observava
muito
atentamente
para ver o que
eles iriam
fazer.
No entanto o
que eu vi foi
que, em um
espaço muito
curto de
tempo, eles
fizeram o
governo
anterior
parecer, por
comparação
ao deles, uma
coisa mais
preciosa do
que o ouro.
Dentre muitas
outras coisas,
eles tentaram
fazer com que
um meu amigo,
o velho
Sócrates, a
quem sem
escrúpulo
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20P...ri/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE11-12.htm (3 of 11)2006-06-02 14:47:41
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.11, C.12.
algum eu não
tenho receio
de descrever
como o
homem mais
correto do seu
tempo,
juntamente
com outras
pessoas,
trouxesse à
força um dos
cidadãos de
Atenas para
ser executado
para que, com
isto, o velho
Sócrates,
querendo ou
não querendo,
tivesse que
participar da
culpa de suas
condutas. Ele,
entretanto, não
os obedeceu,
assumindo
todas as
conseqüências
deste ato em
vez de preferir
tornar-se seu
cúmplice dos
seus atos
iníquos.
Vendo eu
todas estas
coisas e outras
do mesmo tipo
em
considerável
quantidade,
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20P...ri/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE11-12.htm (4 of 11)2006-06-02 14:47:41
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.11, C.12.
discordei
destes
procedimentos
e me desliguei
de qualquer
vínculo com os
abusos
daquele tempo.
Não muito
tempo depois
uma revolução
acabou com o
poder dos
trinta e com a
forma de
governo que
havia com
eles. Uma vez
mais, embora
mais hesitante,
comecei a
nutrir o desejo
de participar
dos problemas
políticos e dos
negócios
públicos. Ora,
mesmo neste
governo, que
mal tinha
acabado de se
estabelecer,
começaram a
ocorrer
eventos que
ninguém
naturalmente
poderá deixar
de desaproválos. Não era de
se surpreender
que em um
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20P...ri/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE11-12.htm (5 of 11)2006-06-02 14:47:41
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.11, C.12.
período de
revolução
tivessem se
inflingido
castigos
exagerados
por parte de
alguns aos
seus
oponentes
políticos; mas
uma vez mais
aconteceu que
alguns
daqueles que
estavam no
poder levaram
meu amigo
Sócrates, a
quem
mencionei
acima, a
julgamento
diante do
tribunal,
acusando-o
muito
injustamente
de algo até
muito
desapropriado
à sua pessoa,
pois foi com
uma acusação
de impiedade
que alguns
deles
processaram e
outros
condenaram o
próprio homem
que não
participou do
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20P...ri/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE11-12.htm (6 of 11)2006-06-02 14:47:41
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.11, C.12.
aprisionamento
injusto de um
dos amigos do
partido que
estava então
no exílio, no
tempo em que
eles próprios
estavam no
exílio e na
desgraça.
À medida em
que eu
observava
estes
incidentes e os
homens
engajados nos
negócios
públicos, as
leis e os
costumes, e
quanto mais eu
os examinava
de perto e
mais avançava
em idade, mais
difícil me
parecia lidar
com os
negócios
públicos
corretamente.
Pois não era
possível ser
ativo na
política sem
amigos e
pessoas
influentes de
valor; e achar
a estes não era
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20P...ri/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE11-12.htm (7 of 11)2006-06-02 14:47:41
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.11, C.12.
uma coisa
simples, já que
os negócios
públicos em
Atenas não
estavam mais
sendo
conduzidos
conforme as
maneiras e as
práticas de
nossos pais.
Quanto às leis,
tanto as
escritas como
as não
escritas, iam
se alterando
para pior, e o
mal crescendo
com uma
estonteante
rapidez.
O resultado foi
que, embora
no começo eu
tivesse tido um
forte impulso
para a vida
política, na
medida em que
eu me dava
conta do curso
dos
acontecimentos
e percebia que
eles eram
arrastados em
todas as
direções por
facções em
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20P...ri/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE11-12.htm (8 of 11)2006-06-02 14:47:41
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.11, C.12.
luta umas
contra as
outras, minha
cabeça
começou a ter
vertigens. Por
causa disso,
embora não
tivesse parado
para ver se
havia alguma
probabilidade
de melhora
nestes
sintomas e no
curso geral da
vida pública,
eu adiei a ação
até que uma
oportunidade
adequada
pudesse
surgir.
Finalmente,
ficou claro
para mim, em
relação a todas
as
comunidades
existentes, que
elas eram uma
só e todas mal
governadas,
porque suas
leis geraram
uma cidade
quase
incurável, a
não ser por
alguma
reforma com
uma certa
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20P...ri/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE11-12.htm (9 of 11)2006-06-02 14:47:41
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.11, C.12.
quantidade de
boa sorte para
sustentá-la.
Fui assim
forçado a
dizer, ao
elogiar a
verdadeira
filosofia, que é
por meio dela
que os homens
se tornam
capazes de
enxergar o que
a justiça nos
negócios
públicos e
particulares
realmente é.
Portanto,
concluí, não
haverá término
para os males
humanos até
que aqueles
que estão
buscando a
reta e
verdadeira
filosofia
recebam o
poder
soberano nas
cidades, ou
aqueles que
estão no poder
nas cidades,
por alguma
disposição da
providência, se
tornem
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20P...ri/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE11-12.htm (10 of 11)2006-06-02 14:47:41
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.11, C.12.
verdadeiros
filósofos".
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NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.11, C.13.
Capítulo 13
Devem aqui ser notadas bem as palavras finais de Platão:
"Não
haverá
término
para os
males
humanos
até que por
alguma
disposição
da
providência
aqueles
que estão
no poder
nas
cidades se
tornem
verdadeiros
filósofos
ou até que
aqueles
que estão
buscando
a reta e
verdadeira
filosofia
recebam o
poder
soberano
nas
cidades".
Platão chegou a esta conclusão logo após a condenação de
Sócrates.
É evidente que foi o exemplo pessoal de Sócrates que fêz com
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Pr...ori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE11-13.htm (1 of 2)2006-06-02 14:47:41
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.11, C.13.
que Platão chegasse a esta conclusão. Sócrates era um homem
justo, o que todos nós já percebemos suficientemente pelo
pouco que lemos a seu respeito. Se todos os governantes
fossem justos como Sócrates, e isto não é uma coisa
impossível, porque Sócrates mostrou com o seu exemplo que
um homem o pode ser, se todos os governantes fossem como
Sócrates, dizíamos, o que depois do exemplo de Sócrates ficou
evidente que não é uma coisa impossível,
"haveria
então um
término
para os
males
humanos",
como diz Platão.
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Pr...ori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE11-13.htm (2 of 2)2006-06-02 14:47:41
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.11, C.14.
Capítulo 14
Se, porém, parece ser claro haver sido do exemplo de Sócrates
que Platão tirou sua conclusão, examinado este exemplo mais
atentamente, parecerá também que Platão tenha chegado à
conclusão errada.
Se todos fossem justos como Sócrates, ou pelo menos, se os
governantes fossem justos como Sócrates, haveria um término
para os males humanos. Esta é a conclusão que parece ser
correta.
Mas, examinando as palavras de Platão, verificamos que não foi
esta a conclusão a que ele chegou.
Platão não disse:
"Não
haverá
término
para os
males
humanos
até que
os
homens
justos
como
Sócrates
recebam
o poder
soberano
nas
cidades",
mas sim que
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Pr...ori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE11-14.htm (1 of 3)2006-06-02 14:47:41
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.11, C.14.
"Não
haverá
um
término
para os
males
humanos
até que
aqueles
que estão
buscando
a reta e
verdadeira
filosofia
não
recebam
o poder
soberano
nas
cidades".
Com isto, porém, Platão parece estar pedindo demais. Parece,
na verdade, estar pedindo além do necessário.
Se os governantes fossem justos como Sócrates, isto não seria
suficiente? Que necessidade haveria de que estivessem
buscando
"a reta e
verdadeira
filosofia?"
Se, de fato, tivéssemos um Presidente da República correto
como Sócrates e, além do Presidente da República, ministros de
Estado corretos como Sócrates, deputados, senadores,
magistrados, juízes, governadores, prefeitos, vereadores
honestos, virtuosos e incorruptíveis como Sócrates, isto não
seria já um sonho inimaginável para o povo de qualquer nação
moderna? Não nos parece que isto seria suficiente para
remediar os males da política? Iríamos então encontrar em
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Pr...ori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE11-14.htm (2 of 3)2006-06-02 14:47:41
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.11, C.14.
homens deste porte defeitos irremediáveis e exigir que além
disso eles tenham necessariamente que ser também filósofos
para poderem governar? E se fossem filósofos, iria isto
melhorar em algo o que eles fariam se não o fossem, isto é, se
fossem apenas pessoas competentes em seus cargos e junto a
esta competência tivessem também a virtude de Sócrates? Será
mesmo tão necessário que se lhes exija que sejam filósofos?
Não seria isto um exagero? Se um presidente da república for
um homem justo e competente, mas não for um filósofo,
deveremos removê-lo do cargo apenas por não ser filósofo?
Parece claro que não. Os governantes devem ser removidos de
seus cargos se forem incompetentes e desonestos, sejam eles
filósofos ou não. Se tivermos governantes competentes e
honestos até o heroísmo, não é o ser ou não filósofo que deverá
pesar no mérito de uma deposição. Está se vendo, portanto, que
a questão política parece ser outra que não a da Filosofia.
Mas se é assim, e se Platão era uma pessoa inteligente, capaz
de compreender, por suposto, argumentos aparentemente tão
evidentes, por que motivo então ele ainda assim insiste na
Filosofia?
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Pr...ori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE11-14.htm (3 of 3)2006-06-02 14:47:41
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.11, C.15.
Capítulo 15
Esta pergunta permite-nos a oportunidade de entender melhor o
relacionamento da Filosofia com a Educação.
Na segunda desta série de notas descrevemos em que sentido
os filósofos eram homens que contemplavam a natureza. O
exercício habitual da contemplação da natureza leva o homem,
pela própria admiração para com o comportamento
aparentemente racional que tem diante dos olhos, a se fazer
uma série de perguntas que, na mente do filósofo, tem o mesmo
tipo de racionalidade que a natureza aparenta possuir.
Como
aconteceu
tudo isso?
Como foi
possível
que nós
tenhamos
nos
encontrado
aqui para
compreender
estas
coisas?
Como pode
ter se
produzido
um ser
capaz de
compreender
tudo isto?
Quem sou
eu?
Que é o
homem?
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Pr...ori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE11-15.htm (1 of 6)2006-06-02 14:47:42
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.11, C.15.
O que é o
mundo?
O que
significa
tudo isto?
Quando o homem chega a se fazer esta última pergunta, ele
começa a se relacionar com a natureza de um modo que
nenhum animal jamais o poderia fazer. Pois poderia até dar-se
que a natureza não significasse nada, mas é evidente pelo
menos que ela se comporta como se de fato quisesse significar
algo, como se existisse uma mensagem que ela quer transmitir
e que só o homem entre os animais seria capaz de captar. A
partir do momento em que o homem se torna capaz de
contemplar a natureza neste nível, ele passa como que a
dialogar com a natureza num certo grau de igualdade, no
sentido de que parece que na pequenina mente humana esteja
contida, prevista pela natureza como doação ao homem, a
possibilidade de entender o restante da natureza no seu
conjunto, como se a mente humana fosse um receptáculo em
miniatura, mas essencialmente completo, da idéia que está por
trás da natureza.
Quando isto ocorre, o homem também percebe que não só ele
próprio é parte desta natureza, e parte desta idéia que parece
estar por trás da natureza, mas que também muitas das assim
chamadas instituições humanas, tais como a sociedade e a
educação, são igualmente parte da natureza.
Aristóteles, discípulo de Platão, no início do seu livro de
Política, escreveu a este respeito as seguintes observações
sobre a sociedade:
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Pr...ori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE11-15.htm (2 of 6)2006-06-02 14:47:42
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.11, C.15.
"É evidente
que a
sociedade
faz parte das
coisas da
natureza, e
que o
homem é
por natureza
um animal
destinado a
viver em
sociedade.
Isto não é
nos homens
o efeito de
uma idéia
préconcebida, é
a natureza
que os
inspira.
Aquele que,
por instinto,
e não
porque
alguma
circunstância
o impede,
deixa de
fazer parte
da
sociedade,
ou é um ser
vil, ou um
ser superior
ao homem".
A mesma coisa pode-se dizer também da Educação.
O homem é um animal educador, não por uma idéia
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Pr...ori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE11-15.htm (3 of 6)2006-06-02 14:47:42
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.11, C.15.
preconcebida, mas porque a natureza assim os inspira.
É fácil perceber isto, porque vemos uma profunda diferença
neste aspecto entre o homem e os demais animais. Enquanto a
maioria dos animais, apenas recém nascidos, já são capazes de
cuidar de suas próprias vidas, o homem nasce frágil e
dependente de seus pais durante uma quantidade muito grande
anos não só para a sua sobrevivência física, mas também para
se ambientar ao mundo e à natureza. É evidente, pois, que a
educação humana faz parte das coisas da natureza e que é, ela
própria, uma instituição da natureza.
Ora, nós vemos que a natureza em seu conjunto parece ter uma
mensagem que, ao que tudo indica, só os homens são capazes
de alcançar. Mais ainda, a natureza parece se comportar como
se tivesse produzido os homens com a finalidade principal de
que erla pudesse se dar a compreender, o que, coisa
verdadeiramente admirável, também parece fazer parte da
mensagem.
E a Educação? Se tudo o que dissemos é coerente, e se a
Educação é também uma instituição da natureza, então a
Educação também faz parte da mensagem.
E, sendo assim, o filósofo que, habituado à contemplação da
natureza, consegue chegar a contemplar também o alcance
daquelas perguntas que fizemos ainda há pouco, pode repetir
aquelas mesmas perguntas para a Educação.
Houve, após muita observação e muitas perguntas, um
momento em que ele percebeu a pergunta maior:
O que
significa
tudo
isto?
Esta pergunta maior surgiu quando ele percebeu que não
apenas as pequenas coisas isoladamente podem significar algo,
mas que o conjunto delas significa algo maior, e que todas as
coisas isoladamente consideradas existem em uma harmonia tal
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Pr...ori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE11-15.htm (4 of 6)2006-06-02 14:47:42
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.11, C.15.
que todas parecem ter sido produzidas especialmente para que
no seu conjunto significassem uma outra maior. Por isto ele
quer saber não mais o significado desta ou daquela coisa em
particular, mas sim, como está escrito, o significado de
tudo
isto.
Ele percebeu que a totalidade tem um significado e que por trás
da totalidade parece haver uma idéia, ou pelo menos, se não a
há, que a totalidade se comporta tal como se a tivesse.
É então que ele também pode perguntar, se a Educação é parte
da natureza,
O que a
Educação
significa
em tudo
isto?
Em outras palavras, ele não quer saber uma ou outra teoria
sobre Educação, não quer saber um ou outro detalhe sobre a
Educação, ele quer saber a resposta final sobre a Educação,
porque, conforme dissemos, no mínimo a natureza se comporta
como se ela tivesse uma verdade última, e o homem quer saber
qual é esta verdade.
Pode-se entrever, então, como uma coisa à primeira vista tão
banal como a contemplação da natureza é capaz de nos levar a
perceber que temos o legítimo direito de pretender, em
Educação, não apenas uma resposta, mas
"A
Resposta".
Só o homem capaz de contemplar a natureza neste nível é capaz
de perceber a legitimidade de uma pretensão como esta em
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Pr...ori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE11-15.htm (5 of 6)2006-06-02 14:47:42
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.11, C.15.
matéria de Educação. Outro homem ficará rapidamente
satisfeito com qualquer resposta, ou mesmo com nenhuma
resposta. Este homem será como alguém que veio ao mundo,
andou em círculos, não entendeu nada do que se passava à sua
volta, e morreu. Houve nele alguma coisa muito importante que
deveria ter surgido e não surgiu, alguma coisa que deveria ter
nascido e que não nasceu. Filosoficamente falando, houve aí um
aborto.
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Pr...ori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE11-15.htm (6 of 6)2006-06-02 14:47:42
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.11, C.16.
Capítulo 16
Colocadas as coisas deste modo, devemos agora considerar
uma objeção a toda esta argumentação, objeção esta que seria
de se esperar principalmehte do homem moderno.
Concordamos, dirá o homem moderno típico, concordamos que
a Educação é de fato uma instituição da natureza. Os filósofos
têm razão. O homem quando nasce não pode viver sozinho,
precisa de acompanhamento e da tutela dos pais antes de poder
viver a própria vida.
Mas não há nada de extraordinário nisso.
Outros animais também dão este acompanhamento aos seus
filhotes, embora em menos anos ou mesmo apenas em alguns
meses, tais como os gatos, os cachorros e os leões. Nestes
casos este acompanhamento pouco se parece com aquilo que
costumamos entender pelo nome de educação no seu sentido
mais pleno. Estes animais amamentam seus filhotes durante
algum tempo e desenvolvem, inclusive, um trabalho de
ambientação dos filhotes ao mundo que está à sua volta antes
de os deixarem livres para viverem suas próprias vidas. No
entanto, não há nada de extraordinário nisso. Trata-se apenas
um instinto biológico de sobrevivência. Não se pode dizer que
se trate de educação em seu verdadeiro e pleno sentido, trata-se
de algo que não ultrapassa os limites dos instintos animais.
Certamente, dirá o homem moderno, quando a humanidade
surgiu pela primeira vez na natureza, provavelmente ela não terá
feito, em matéria de educação, também muito mais do que isto
pelos seus filhotes. Se aceitamos estas hipóteses, deveremos
então dizer que a educação que veio mais tarde não é uma
instituição da natureza, mas uma elaboração posterior do
homem, um artifício, uma invenção humana.
Os filósofos gregos, se estivessem visos, deveriam saber que
os homens modernos foram acostumados a pensar que quando
a humanidade surgiu sobre a terra sua situação não era melhor
do que a dos macacos em geral. Assim como os macacos
viviam nas árvores, assim também homens modernos pensam
que os primeiros homens viviam nas cavernas. O homem
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NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.11, C.16.
moderno imagina que os primeiros homens, quando nasciam,
viviam com os pais apenas para aprender a sobreviver. A
educação daquela época, portanto, não poderia ser mais do que
a luta elementar pela sobrevivência. Se existe uma educação
instituída pela natureza, dirá o homem moderno, parece
evidente que ela somente poderia se estender até aí. Todo o
resto do que conhecemos hoje como educação é uma invenção
posterior do homem.
Sendo assim, continuaria o homem moderno, a teoria que foi
apresentada pelos filósofos gregos deve ser atribuída a um
exagero por parte deles. Neste sentido não há, para a mente do
homem de hoje, nem pode haver, nenhuma mensagem especial
objetiva na educação. Dentro do ponto de vista da natureza, a
educação não pode ultrapassar os limites do instinto elementar
pela sobrevivência.
file:///D|/Documenta%20Chatolica%20Omnia/99%20-%20Pr...ori/mbs%20Library/001%20-Da%20Fare/01/FHISE11-16.htm (2 of 2)2006-06-02 14:47:42
NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.11, C.17.
Capítulo 17
Ouvimos assim a opinião do homem moderno típico a este
respeito. O homem de hoje não pode concordar, do ponto de
vista objetivo, com o elevado conceito que os filósofos gregos
possuiam a respeito da Educação. O conceito dos filósofos
gregos pode ser muito bonito, mas examinado pela avançada
mente do homem moderno não passa de romantismo. Se é para
fazer poesia, concordamos, dirá o homem moderno.
Consideradas, porém, as coisas objetivamente, o homem era um
macaco que vivia nas cavernas. A educação é invenção do
homem, não uma instituição da natureza e, se o homem
moderno for coerente com as suas premissas, outra não pode
ser a sua verdadeira opinião a este respeito.
Deveríamos agora perguntar aos antigos filósofos o que eles
responderiam ao homem de hoje se pudessem estar hoje
conosco ouvindo idéias tão avançadas.
Embora, ao que saibamos, nenhum dos antigos filósofos tivesse
respondido a questões como estas colocadas de um modo tão
explícito, podemos no entanto, conhecendo o conjunto das suas
obras, reconstituir uma provável resposta que eles dariam.
Os antigos filósofos gregos, se aqui hoje estivessem, diriam que
os argumentos do homem moderno são convincentes apenas
aparentemente. Se nos dias de hoje eles parecem evidentes
para muitas pessoas, isto se deve não à própria força dos
argumentos, mas ao fato de que as pessoas de hoje não estão
habituadas ao exercício da contemplação característico dos
filósofos da antigüidade.
As pessoas capazes de julgar como evidentes argumentos
como os que foram anteriormente expostos não estão se
baseando, ao dizerem tais coisas, em uma observação filosófica
da natureza. Elas estarão se baseando, provavelmente, isto sim,
em algum filme que viram sobre a vida do homem das cavernas
onde o ser humano aparece levando uma vida animalesca tal
como a de um macaco.
Mas de onde surgiu esta concepção moderna a respeito do
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homem das cavernas?
Surgiu devido ao fato de terem sido encontrados em certo
número de cavernas esqueletos ou restos de esqueletos que,
submetidos ao teste do Carbono 14, mostrou-se datarem de
uma época anterior às épocas das quais nos restaram registros
históricos. Trata-se, ademais, de um número bastante limitado
de esqueletos. Além do fato de terem sido encontrados em
cavernas, há indícios de que estes homens caçavam e que
alguns deles enterravam seus mortos de um modo que sugere a
crença em uma outra vida. Mais do que isso quase nada se sabe
sobre eles. Foi baseado neste número tão pequeno de dados
que se supôs, para que tivesse sido realizado aquele filme, que
toda a humanidade daquela época vivia como animais. Destes
filmes e de outros meios de divulgação surgiu a imagem que as
pessoas têm do homem tal como ele teria sido concebido pela
natureza. Desta imagem, por sua vez, é que as pessoas
deduzem como seria a educação enquanto instituição da
natureza.
Porém, e isto é importante de se notar, os dados sobre os quais
estas pessoas estão se baseando não provém da contemplação
da natureza, mas da contemplação de um filme. A resposta que
elas deduzem é tão estreita quanto a relação que existe entre a
estrutura deste filme e a da natureza em seu conjunto.
Por outro lado, porém, é evidente que estas conclusões estão
em contradição com as que a observação da natureza nos
oferece.
Se alguma vez um homem viveu em uma caverna levando uma
vida animalesca tal como aquela que apareceu naquele filme,
este modo de vida não pôde ter sido um fenômeno que fosse
uma instituição da natureza. É evidente que a vida do homem
das cavernas, tal como a que nos é mostrada ou sugerida por
estes filmes e documentários, se ela chegou mesmo a ocorrer,
é, filosóficamente falando, não um fenômeno da natureza, mas
um fenômeno contra a natureza.
Podemos perceber isto, primeiro, vendo que a inteligência, tal
como a que temos hoje e tal como se supõe que muitos destes
homens das cavernas deviam ter tido, é ela própria, em primeiro
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lugar, uma instituição da natureza.
Ademais, é evidente também que, ao contrário de todos os
outros animais, a inteligência humana está muito além do que é
necessário para a simples sobrevivência. Este não é o caso,
porém, que ocorre com qualquer outro animal. Todos os demais
animais têm apenas as capacidades necessárias para a
sobrevivência compatíveis com a sua espécie. O único animal
que tem uma inteligência capaz de muito mais do que a simples
sobrevivência é o ser humano. E esta inteligência, assim
considerada, é parte da natureza.
Acrescenta-se a isto que em todas as obras da natureza
percebemos uma finalidade inteligente, ou pelo menos, uma
estrutura que se apresenta tal como se assim o fosse. Nada na
natureza está em vão. Este é um fato pode ser constatado não
só pelos filósofos, como também por qualquer cientista.
Ora, não parece ser muito razoável supor que a única exceção a
esta regra seja justamente a inteligência humana, que é
justamente a maior de todas as obras existentes na natureza.
Não seria de se supor que depois de todos os componentes de
todos os demais seres vivos, sem exceção, não terem sido
feitos senão dotados de objetivos específicos, repentinamente
houvesse na natureza uma inexplicável lacuna justamente para
o mais importante de todos.
Parece, pois, que temos que admitir que é altamente improvável
que a inteligência humana tenha surgido na natureza apenas
para uma simples sobrevivência animal. Se tivesse sido este o
caso, teria sido suficiente muitíssimo menos do que a
inteligência humana ou então teremos que admitir que na
natureza, abandonando-se subitamente sem aparente motivo
seu modo característico de operar, produziu-se alguma coisa
que, em sua maior parte, é destituída de qualquer finalidade.
É evidente também que a inteligência humana, esta instituição
existente na natureza, necessita do convívio social para poder
se desenvolver. O homem que, ao ter nascido, tivesse sido
abandonado ao relento em alguma floresta, se conseguisse
sobreviver, não desenvolveria, possivelmente, suas qualidades
verdadeiramente humanas. Conforme a citação anterior de
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Aristóteles:
"É evidente
que o
homem é
naturalmente
um animal
destinado a
viver em
sociedade,
e que
aquele que,
por instinto,
deixa de
fazer parte
da
sociedade,
é um ser vil
ou superior
ao homem".
Este é um motivo pelo qual a sociedade humana faz parte das
coisas da natureza e não é uma invenção arbitrária dos homens.
É dentro de um contexto social que a inteligência humana
naturalmente se desenvolve. E este contexto social em que o
homem desenvolve suas qualidades humanas e sua inteligência
é também o contexto em que se desenvolve a educação do
homem como instituição da natureza. Se a finalidade da
inteligência, tal como ela existe na natureza, não pode ser a
simples sobrevivência, a finalidade da educação enquanto
instituição da natureza também não pode ser a simples
sobrevivência. Podemos concluir citando novamente uma outra
passagem do livro de Política de Aristóteles. Diz Aristóteles que:
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NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.11, C.17.
"Não é
somente
para
sobreviver,
mas para
viver feliz,
que se
estabeleceu
a
sociedade.
E viver
feliz é,
segundo o
nosso
modo de
pensar, o
que a
observação
dos fatos
facilmente
demonstra,
saber
moderar-se
na
aquisição
dos bens
exteriores
e cultivar
até à
excelência
a pureza
dos
costumes e
a força da
inteligência.
É preciso,
pois,
concluir
que não
apenas a
vida em
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NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.11, C.17.
comum,
mas a
virtude e a
inteligência
são a
finalidade
da
sociedade
política".
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NOTAS DE FILOSOFIA EHISTÓRIA DA EDUCAÇÃO: L.11, C.18.
Capítulo 18
Qual a relação entre estas considerações e o que dizíamos
anteriormente de Platão?
Acabamos de afirmar que a Educação é uma instituição da
natureza. Ora, se isto é assim, isto é, se a Educação é uma das
instituições da natureza, conclui-se que ela só poderá ser
filosóficamente considerada dentro do contexto geral da
contemplação da natureza. E foi exatamente isto que, conforme
veremos, Platão fêz.
Porém, o que já vimos é que Platão deseja que os governantes
sejam homens de virtude, ou que os homens de virtude sejam
aqueles que assumam o poder público. Cabe então agora a
pergunta: Insere-se isto dentro da idéia que parece existir por
trás da natureza? Teria previsto a natureza uma instituição não
inventada pelo homem que o conduzisse naturalmente a uma
vida de virtude?
Mas acontece que Platão não se limitou a exigir dos
governantes uma vida de virtude. Ele exigiu também a Filosofia,
como se não fosse possível ser virtuoso sem ser filósofo. Cabe
então novamente outra pergunta: Se isto é verdade, será então a
Filosofia uma outra instituição da natureza? E se for, qual é a
relação exata que a natureza estabeleceu entre a virtude e a
Filosofia? E, mais ainda, como construir um sistema
educacional baseado nisto?
Conforme veremos nas notas seguintes, Platão foi mais longe
que todos os seus predecessores na resposta a estas perguntas
e, inteiramente fundamentado nelas, levantou as bases de um
modo se entender a Educação que, desenvolvendo-se ou
simplesmente reaparecendo em seus princípios ao longo da
história, produziu muito mais fruto do que hoje em dia
geralmente supomos ter acontecido.
São Paulo, 28 de novembro de 1989.
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