Funcionalismo e os Estudos de Recepção na TV Digital: O receptor

Propaganda
Funcionalismo e os Estudos de Recepção na TV Digital: O receptor como coprodutor de conteúdo televisivo.
blindreview
Universidade Metodista de São Paulo
RESUMO
Este artigo procura fazer uma reflexão histórica e teórica sobre as Teorias da
Comunicação com relação as novas possibilidades advindas das mais recentes
tecnologias da informação e as oportunidades de colaboração do receptor na produção
de conteúdos para televisão digital. As teorias da Comunicação até 1960, sempre
colocaram o receptor com ente calado e desprovido de vontade, aceitando o que lhe
fosse posto sem resistência alguma. Confrontando essa visão, a partir de 1960, em
especial a partir de 1980 na América Latina, os estudos de Recepção provocam uma
nova visão sobre o papel do receptor. A televisão Digital chega ao Brasil, com a
promessa de oferecer interatividade, e de por fim a longa tradição de silêncio do
telespectador, como também oferece oportunidades para repensar e criar novas
narrativas televisivas, onde o receptor possa intervir e colaborar com a mensagem a ele
enviada.
Palavras-chaves: Funcionalismo, Teorias da Comunicação, TV digital, Colaboração
ABSTRACT
This article presents a historical and theoretical reflection on Communication Theories
about the new opportunities arising from the latest information technologies and
opportunities for collaboration receptor in the production of content for digital
television. Theories of Communication until 1960, always put the receiver with being
quiet, and devoid of will, and accept that it be put without any resistance. Confronting
this vision, since 1960, especially after 1980 in Latin America, studies Reception
provoke a new view on the role of the receiver. Digital Television arrives in Brazil with
the promise of offering interactivity, and finally the long tradition of silence for the
viewer, but also offers opportunities to rethink and create new narratives television,
where the receiver can intervene and collaborate with the message he sent.
Key words: Functionalism, Theories of Communication, Digital TV, Collaboration
RESUMEN
Este artículo presenta una reflexión histórica y teórica sobre Teorías de la
Comunicación sobre las nuevas oportunidades derivadas de las últimas tecnologías de
información y oportunidades para el receptor de la colaboración en la producción de
contenidos para la televisión digital. Teorías de la Comunicación hasta el año 1960,
siempre poner el receptor de ser tranquila y carente de voluntad, y aceptar que se someta
sin resistencia alguna. Frente a esta visión, desde 1960, especialmente después de 1980
en América Latina, estudios de recepción provocar una nueva visión sobre el papel del
receptor. Televisión Digital llega a Brasil con la promesa de interactividad que ofrece y,
finalmente, la larga tradición de silencio para el espectador, sino que también ofrece
oportunidades para repensar y crear nuevas narrativas de televisión, donde el receptor
puede intervenir y colaborar con el mensaje que enviado.
Palabras claves: Funcionalismo, Teorías de la comunicación, la televisión digital,
Colaboración
TEORIAS FUNCIONALISTAS DA COMUNICAÇÃO E A TELEVISÃO.
No inicio dos estudos da comunicação, havia uma dedicação principalmente em estudar
o papel e o efeito do rádio, uma vez que esse veiculo foi a primeira mídia a alcançar
proporções e popularidade suficientes para ser caracterizado como meio de
comunicação de massa. Além disso, seu alcance o levou a ser amplamente utilizado
pelos estados totalitários que emergiram na Europa no período entre - guerras. Nesse
período (entre a 1º e 2º Grandes guerras mundiais) surgiu um conjunto de teorias
funcionalistas, que procuravam explicar não somente os efeitos como as causas do
impacto das ferramentas de comunicação, principalmente como o rádio, e logo em
seguida, a televisão.
Se por um lado, algumas teorias procuravam explicar a manipulação feita pelas médias,
por outro, explicavam como as médias persuadiam seus “públicos-alvos”. Fazem parte
desse conjunto de teorias, a Agulha hipodérmica (ou bala mágica), a teoria da persuasão
e a própria teoria funcionalista.
A posição sustentada por esse modelo pode ser sintetizado com
a afirmação de que “todo membro do público de massa é
pessoal
e
diretamente
‘atacado’
pela
mensagem.
(WRIGHT,1975, p.79 apud WOLF, 2008, p.16).
Wolf complementa que, segundo a teoria hipodérmica:
(...) cada indivíduo é um átomo isolado que reage sozinho às
ordens e as sugestões dos meios de comunicação de massa
monopolizados. (WRIGTH MILLS, 1963, p.203 apud WOLF,
2008, p. 8).
Dessa forma, a teoria hipodérmica, sustentava portanto, uma conexão direta entre a
exposição às mensagens e o comportamento: se uma pessoa é atingida pela mensagem
veiculada, pode ser controlada, manipulada, induzida a agir. (WOLF, 2008, p.11).
Esse é o ponto de partida para a teoria que seria vista como a evolução da teoria
hipodérmica: o modelo de Lasswell:
(...) antes de examinar as linhas, internas à teoria hipodérmica
em si, ao longo dos quais ocorre a superação, é necessário
precisar uma “filiação” sua que teve grande influência na
communication research: o modelo de Lasswell, para muitos
aspectos, esse modelo representa contemporaneamente uma
sistematização orgânica, uma herança e uma evolução da teoria
hipodérmica. (WOLF, 2008, p.11)
O modelo de Lasswell, com o intuito de ordenar o objeto de estudo segundo variáveis
bem definidas, sem negligenciar nenhum aspecto relevante, tornou-se rapidamente e por
muito tempo uma verdadeira teoria da comunicação.
No entanto, o modelo de Lasswell torna implícita uma tese, já observada anteriormente
na teoria da agulha hipodérmica:
A fórmula na verdade confirma uma tese muito forte, que a
bullet theory, por sua vez, afirmava explicitamente na descrição
de sociedade de massa: ou seja, a tese de que a iniciativa seja
exclusivamente do comunicador, e de que os efeitos se dêem
exclusivamente sobre o público. (WOLF,2008, p.13)
No entanto, estudos a partir da psicologia behaviorista, que privilegiava o
comportamento de cada individuo, enfatizavam que o individuo, seria uma unidade
pertinente nos processos de comunicação de massa e nos fenômenos sociais em geral.
Para Wolf:
Tudo isso [confirmou] a concepção atomística do público das
comunicações, como se consistisse em indivíduos diferentes e
independentes. (BROWER, 1962, p. 551 apud WOLF, 2008,
p.16).
Dessa forma, a teoria hipodérmica deu lugar a resultados que contradiziam sua
elaboração fundamental, como cita Bauer:
A audiência se mostrava intratável. As pessoas decidiam
sozinhas se queriam ouvir ou não. E, mesmo quando não ouvia,
a comunicação podia revelar-se desprovida de efeitos ou
apresentar efeitos opostos aos previstos. Gradualmente, os
estudiosos deviam deslocar sua atenção para a audiência, para
compreender os assuntos e o contexto que a formavam.
(BAUER, 1958, p.127).
Nesse momento, a superação e a inversão da teoria hipodérmica ocorreram ao longo de
três fatores chaves distintas, mas por muitos aspectos interligadas e sobrepostas: a
primeira e a segunda, centradas em abordagens empíricas de tipo psicológicoexperimental e de tipo sociológico (fenômenos psicológicos individuais, fatores de
mediação entre indivíduos e meio de comunicação); o terceiro fator, representado pela
abordagem funcional para a temática global dos meios de comunicação de massa
(elaboração de hipóteses sobre as relações entre individuo, sociedade e meios de
comunicação de massa), em sintonia com a afirmação em nível sociológico geral do
estrutural-funcionalismo (WOLF, 2008, p.16).
Esses três fatores ilustram justamente o desenvolvimento da pesquisa que conduziram
ao abandono da teoria hipodérmica inicial.
Diferente da abordagem hipodérmica, a teoria da persuasão afirma que a mensagem da
mídia não é prontamente assimilada pelo individuo, sendo submetida a vários filtros
psicológicos individuais. Portanto, os efeitos da mídia não seriam de manipulação, mas
sim de persuasão, como afirma Wolf:
A persuasão dos destinatários é um objetivo possível, sob a
condição de que a forma e a organização da mensagem sejam
adequadas aos fatores pessoais que o destinatário ativa na
interpretação da própria mensagem: em outras palavras, “as
mensagens da mídia contêm características particulares do
estimulo, que interagem de maneira diferente com os traços
específicos da personalidade dos membros que compõe o
público. (WOLF, 2008, p.18).
O modelo comunicativo desta teoria é muito semelhante ao modelo behaviorista,
porém, acrescido de processos psicológicos que determinam a resposta, processos estes,
relativos à audiência e à mensagem.
Dessa maneira, as duas coordenadas que orientam essa “teoria”
da mídia são determinadas: a primeira, representada pelos
estudos sobre o caráter do destinatário, que atuam como
intermediários na realização do efeito: a segunda, representada
pelas pesquisas sobre a melhor forma de organização das
mensagens com fins persuasivos. (WOLF, 2008, p. 19).
Assim, o modelo proposto pela teoria da persuasão, apresenta uma estrutura lógica
muito semelhante ao modelo mecanicista da teoria hipodérmica:
Figura 1 – Modelo Comunicacional da Teoria da Persuasão
Sendo assim, a mediação das variáveis não apenas rompe o caráter imediato e a
uniformidade dos efeitos, mas de certo modo, também ajusta sua extensão à função
desempenhada pelos destinatários. O esquema causa - efeito da teoria hipodérmica
sobrevive (WOLF, 2008, p. 19), porém, inserido num quadro de análise que se torna
progressivamente mais difícil e extenso.
Se a teoria hipodérmica e a teoria da persuasão procuram estudar e explicar os efeitos
que a comunicação atua na sociedade, a teoria funcionalista procura estudar as funções
exercidas pela mídia na sociedade. Em lugar de pesquisar somente o comportamento do
individuo, estuda-se a sua ação social enquanto consumidor de valores e modelos que se
adquire comunitariamente. Acontece um distanciamento nos métodos de pesquisa da
teoria hipodérmica, teoria dos Efeitos Limitados (Lasswell) e a abordagem EmpíricoExperimental (Teoria da Persuasão), por estudar as situações corriqueiras e cotidianas.
Esse deslocamento conceitual coincide com o abandono da idéia de um efeito
intencional, de um objetivo subjetivamente perseguido do ato comunicacional, para
concentrar, por sua vez, a atenção nas conseqüências objetivamente verificáveis da ação
da mídia sobre a sociedade em seu todo ou sobre os seu subsistemas. (WOLF, 2008,
p.50).
Se por um lado a teoria hipodérmica vincula-se ao objetivismo behaviorista e descreve a
ação da comunicação como uma simples relação mecânica de estímulo e resposta,
diminuindo a dimensão subjetiva da escolha em favor do caráter manipulável do
individuo e, sobretudo, reduzindo a ação humana a uma relação linear de causa, por
outro, a teoria sociológica do estrutural-funcionalismo salienta, ao contrário, a ação
social (e não o comportamento) na sua aderência aos modelos de valor, interiorizados e
institucionalizados.
Vale mencionar, que nesse momento histórico (período entre guerras), onde essas
teorias se desenvolveram, a comunicação era vista como uma ferramenta estratégica,
principalmente pela massificação das mídias, em especial o rádio, e em seguida a
televisão. É muito pertinente fazer esse resgate para entender principalmente o papel da
televisão, como ferramenta de manipulação da opinião pública e da massa que é
impactada pelas mensagens destas.
Sobre esse aspecto, a teoria hipodérmica e a teoria da persuasão apontam para este uso
da comunicação como estratégia, especialmente a teoria estrutural-funcionalista em
particular, e citando Talcott Parsons (apud WOLF, 2008, p.52), “os seres humanos
aparecem como ‘drogados culturais’, motivados a agir segundo o estímulo de valores
culturais interiorizados, que regulam a sua atividade”. (GIDDENS, 1983, p.172).
Vale ressaltar que em uma antecipação dos estudos sobre mídia e realidade, Merton e
Lazarsfeld acreditam que a mídia tem a função de definir o que é importante dentro da
sociedade, relegando o resto ao esquecimento (MARTINO, 2009, p.28), além de
sugerirem que a mídia reforça os padrões de comportamento tidos como certos dentro
de uma sociedade na medida em que transforma esses padrões em referência, vista por
milhões de pessoas, e, portanto, ganhando status de verdade dentro do mundo social:
As atitudes e comportamentos mostrados nas telas de cinema e
da televisão, para Merton e Lazarsfeld, ganham força de
verdade junto ao público, e tendem a ser vistos como uma nova
forma de controle e coerção sobre o individuo. (MARTINO,
2009, p.29)
Visão essa que se mantém ainda hoje. O levantamento1 da Secretária de Comunicação
da Presidência da República aponta que apenas 18% dos brasileiros crêem na mídia e
1
Disponível em : <http://www.observatoriodaimprensa.com.br/artigos.asp?cod=595IMQ004> Acessado
em 01/07/2010
que 72% crêem muito pouco naquilo que é veiculado nos meios de comunicação. Se por
um lado, a desconfiança do público é evidenciada, por outro, fica evidente a prática
funcionalista na contemporaneidade: uma definição de público-alvo é o primeiro passo
para iniciar qualquer projeto comunicacional comercial, uma audiência a ser
conquistada no telejornalismo, entre outros exemplos que refletem esse cenário.
Mas de fato, essas três dessas correntes teóricas, partilham das mesmas origens espaçostemporais, e pensam a comunicação como “transmissão de informação” a fim de
impactar as audiências. O uso desses termos bélicos para referir comunicação, reflete
exatamente o contexto de guerras onde essas teorias se consolidaram. Existe certa
contigüidade entre esses três modelos, nos levando a fazer duas reflexões básicas sobre
eles. Nos dois primeiros (Agulha hipodérmica e Persuasão): quais os efeitos a curtoprazo da ação que comunicação opera. Já na teoria funcionalista, a questão posta até
mesmo com um caráter mais sociológico, quais são as funções sociais o aparato de
comunicação causa na sociedade. Nos três casos, existe uma lógica de causa-efeito da
comunicação, estimula-resposta.
Analisar a televisão sob a ótica do telespectador receptor, termos esses alíás, que já
indicam à existência de um “alvo” a espera de ser atingido, proporciona uma maneira
elucidativa dos processos sócio-culturais desta mídia. A questão inicialmente focaliza os
possíveis efeitos que a continua exposição ás imagens causaria nos telespectadores. Em
seu artigo “O mundo fantasmático da TV”, Gunther Anders afirmou que a experiência
televisiva afastou o homem moderno da realidade de seu mundo:
Só vemos o mundo quando dentro de nossas casas. Os
acontecimentos vêm a nós, nós não vamos a eles (...). Porque o
mundo é trazido para dentro de nossas casas, não
precisamos explorá-lo: em resultado disso, não adquirimos
experiência. (ANDERS, 1973, p.420 apud MATUCK, 1995,
p.95).
Como Matuck afirma, Anders vai mais além ainda em sua critica sobre a TV, o que
caracteriza não somente a desconfiança inerente a TV desde seu inicio, bem como a
aparente relutância a mídia, como principalmente reflete o pensamento funcionalista
Visto que falam em nosso lugar, os aparelhos receptores nos
defraudam progressivamente da capacidade de falar, das
oportunidades de falar, e finalmente até do prazem em
expressar-nos. (ANDERS, 1973, p.420 apud MATUCK, 1995,
p.96).
A visão de Anders, caracterizou um discurso intelectual de rejeição a televisão que
predominou até que o mesmo fosse desafiado pelo pensamento de McLuhan, propondo
em sua obra “Undestanding Media” (1965), uma verdadeira revolução no pensamento
midiático. O próprio pensamento de McLuhan acontece justamente no período em que o
funcionalismo começa a perder força. Na mesma época, surge então a teoria da
informação da comunicação, que ocorre após o período de guerras, de 1920 até 1960
aproximadamente (LIMA, 2001, p.38).
No entanto, desde sua criação, até a contemporaneidade, o telespectador, o receptor
sempre teve sua voz silenciada, desde que o rádio perdeu seu papel de bidirecionalidade da comunicação, observadas e criticadas por Brecht, desde a sua
implementação em 1927. (MATUCK, 1995, p.15). Bretch foi o primeiro a perceber o
potencial dialógico do rádio, de forma que ele fosse um meio de comunicação de massa
democrático:
Uma proposta para dar ao rádio uma nova função (que até hoje
mantém sua pertinência e seu valor revolucionário): a
radiodifusão deve ser convertida de um sistema de
distribuição em um sistema de comunicação. A radiodifusão
poderia ser o mais maravilhoso sistema público de comunicação
imaginável, um gigantesco sistema de canais:poderia ser, quer
dizer, se não fosse apenas capaz de transmitir, mas também
de receber, de fazer o ouvinte não apenas escutar, mas também
falar, para conectá-lo ao mundo, e não isolá-lo.
(BRECHT,1927, p.25 apud MATUCK, 1995, p. 18).
Interessante constatar que a teoria hipodérmica se volta diretamente para o rádio,
enquanto a da persuasão, para a televisão. A citação acima sobre o rádio é pertinente,
porque a televisão, que seria implementada após o rádio, usaria o mesmo modelo,
considerado “normal”:
O modelo de tele difusão hierárquico e assimétrico foi
implementado em todo o mundo como o modelo “natural” da
comunicação
eletrônica
massiva.
Deste
modo,
a
comunicação eletrônica bidirecional e interativa - utilizada nas
pioneiras radiocomunicações antes que este midium se tornasse
veiculo comercial e investigada por John Logie Baird em seus
pioneiros experimentos televisuais realizados na Inglaterra
em 1927 - foi totalmente erradicada. O rádio e a televisão
assumiram a unidirecionalidade como norma, tornando-se
veículos que servem a um sistema econômico de mercado e
atuam como instrumentos de propaganda comercial e
política.(MATUCK, 1995, p.19).
Com as novas tecnologias de comunicação, não que o rádio passará a ser da forma
utópica idealizada por Brecht, mas enfim, a televisão digital com recursos de
interatividade possa enfim tornar isso realidade. As possibilidades advindas das mais
recentes tecnologias, inclusive são vistas como ferramentas de inclusão social e
participação do cidadão a partir da televisão.
A TEORIA DA RECEPÇÃO E A TELEVISÂO
Existe um intervalo de aproximadamente 40 anos após a teoria da informação ter
ganhado atenção, quando surgiram as primeiras reflexões da linguagem, que buscava
entender a comunicação a partir de um sistema formal e estruturado de significados, e
também a partir de processos dinâmicos de relações enunciativas.(LIMA, 2001, p.38).
Particularmente nessa teoria, a idéia de recepção, daquele que recebe a mensagem ganha
forma. Há sem dúvida uma descoberta sobre o receptor, mesmo quando na Teoria
Crítica da Escola de Frankfurt, onde a crítica sobre a manipulação do receptor é o cerne
dos
estudos,
na
teoria
da
persuasão
o
receptor
já
está
presente.
A origem da estética da Recepção é a literatura. O texto fundador foi a aula inaugural do
crítico literário Hans Robert Jauss na Universidade de Konstanz (Alemanha), em 1967,
intitulada “A história da literatura como provocação à teoria literária” (MARTINO,
2009, p.177). O questionamento de Jauss é sobre como é possível entender uma obra.
Em sua visão, Jauss não procurava verificar os efeitos da comunicação no público, mas
indo mais além, a idéia afirmava que é o público que dá sentido à obra.
A reflexão de Jauss, é justa, quando analisamos os diferentes possíveis sentidos que
podem se dar, na reconstrução de uma obra ao se ler um livro. É mais que uma troca de
papéis Emissor-Receptor. Existe aqui uma extrapolação no sentido de que essa
linearidade passa a ser um processo interativo, construído no diálogo, possibilitando
dessa forma a construção de diversos sentidos da mensagem criada por um produtor:
Cada leitura de um livro, feita por uma pessoa diferente, acaba
de certa maneira criando um livro diferente. Não existe,
portanto “um” sentido, mas tantos sentidos quantos forem os
receptores. O produtor cria a obra no momento da criação:o
receptor re-cria no momento da leitura. A experiência da arte
mão se encerrava na obra, mas na sensibilidade - do grego
aisthesis, de onde “estética” - do leitor/espectador. (MARTINO,
2009, p.177)
Para Jauss, a recepção é um processo contínuo de atribuição de sentidos, realizados
através da interação que se dá através do diálogo. As variáveis que estão presentes em
um diálogo tornam impossível afirmar quais são os pontos de fixação de um sentido em
um universo de signos em constante transformação.
A
obra
só
existe,
quando
é
aprendida
e
retrabalhada
pelo
receptor.
Jauss trabalha a literatura como um ato de comunicação, o que não é possível sem se
levar em conta a existência de um elemento receptor, entendido como um produtor de
significados a partir da obra. Um público que parte da obra - poiesis - além de sua
atribuição comunicativa - katharsis - e encontra sua plena realização ao se tornar parte
da visão de mundo do receptor - a aisthesis. (MARTINO, 2009, p.177)
De forma analítica, a visão da Teoria da Comunicação para Jauss firma-se sobre uma
teoria do conhecimento compreendida como mediador entre a percepção individual e as
estruturas sociais ao seu redor. A recepção é o conhecimento das condições de relação
entre o texto e o leitor. Se as teorias anteriormente postas, tratavam o receptor, como ser
a ser atingido e facilmente manipulável, passivo a espera e exposto aos efeitos
potencialmente negativos da mensagem, aqui, o receptor deixa de ser um alvo, para
passar a ser um protagonista na produção de sentidos e significados. Jauss deixa claro
que:
A recepção da arte não é apenas um consumo passivo, mas sim
uma atividade estética (poesis), pendente de aprovação e da
recusa, e, por isso, em grande parte, não sujeita ao planejamento
mercadológico. (JAUSS, 1993 apud MARTINO, 2009, p.178).
Esse também é o tom da reflexão de Umberto Eco, em sua obra aberta:
(...) uma obra musical clássica, uma fuga de Bach, a Aida, ou Le
Sacre du Printemps, consistiam num conjunto de realidades
sonoras que o autor organizava de forma definida e acabada,
oferecendo-a ao ouvinte, ou então traduzia em sinais
convencionais capazes de guiar o executante de maneira que
este pudesse reproduzir substancialmente a forma imaginada
pelo compositor; as novas obras musicais, ao contrário, não
consistem numa mensagem acabada e definida, numa forma
univocadamente organizada confiadas à iniciativa do intérprete,
apresentando-se portanto, não como obras concluídas, que
pedem para ser revividas e compreendidas numa direção
estrutural dada, mas como obras “abertas”, que serão finalizadas
pelo intérprete no momento em que as fruir
esteticamente.(ECO, 1976, p.39).
Apesar de Jauss não ter se aprofundado na análise da mídia, houve uma
divisão em dois eixos dos estudos de recepção (MARTINO, 2009, p. 178). O primeiro,
na
continuação
das
pesquisas
norte-americanas
sobre
os
efeitos
da comunicação, e o segundo, que nos interessa especialmente pela posição geográfica
que se deu o desenvolvimento latino-americano da Teoria das Mediações.
Os
produtos
da
indústria
cultural
se
espalharam
por
todo
o
planeta,
e até onde, as idéias criadas para explicar o que acontecia na europa e na
América do Note explicavam o que acontecia na América Latina? Esse foi o espaço
que justificava o giro teórico dos problemas do Hemisfério Norte, para os problemas no
Sul. Um dos textos fundadores, é “Dos meios ás mediações”, escrito por Jesus MartinBarbero em 1987. O livro propõe um deslocamento dos estudos da Comunicação: Ao
invés de se preocupar com os meios e suas condições específicas de produção ou
mensagem, era necessário refletir nas mediações, nos processos culturais, sociais e
econômicos que enquadravam tanto a produção quanto a recepção das mensagens da
mídia.
Sobretudo, havia uma preocupação como receptor:”na leitura como no consumo -não existe apenas reprodução, mas
também produção, uma produção que questiona a
centralidade atribuída ao texto-rei” explica Martin
Barbero em Dos los medios a las mediaciones, seu livro
clássico produzido em 1987. (MARTINO, 2009, p.179).
Para Martino, as mediações são as estruturas de construção de sentido às quais o
receptor está inserido, vinculado:
A história pessoal, a cultura de seu grupo, suas relações sociais
e imediatas, sua capacidade cognitiva são mediações, mas
também interferem no processo sua maneira de assistir
televisão, sua relação como os meios e com as mensagens
veiculadas. A própria idéia de mediação presume a existência
de dois termos finais - a mensagem e o receptor - intermediados
por uma série de códigos, signos e práticas responsáveis
por estabelecer pontos de flutuação de sentido entre o
efeito planejado pelo produtor da mensagem e a
reconstrução feita pelo sujeito. (MARTINO, 2009, p.178)
Especialmente essa teoria nos interessa, porque as preocupações do receptor aqui, se
evidenciam na televisão. A televisão surge em 1950, e os estudos anteriores, não se
focavam nessa preocupação da recepção, e sim nos efeitos causados pelos impactos da
mensagem. Nesse momento, as atenções se voltam especialmente sobre a constituição
de
um
receptor
-
telespectador
-
como
um
ente
ativo
e
colocado
individualmente e coletivamente. Essa é a proposta de Orozco Gomes em “La audiencia
frente a la pantalla”:
Assumir o telespectador como sujeito - e não só como
objeto - frente à TV supõe, em primeiro lugar,
entende-lo como um ente em situação, e, portanto,
condicionado individual e coletivamente, que “se vai
constituindo” como de muitas maneiras e se vai também
diferenciando como resultado da sua particular interação com a
TV, e, sobretudo, das diferentes mediações que entram em um
jogo no processo de recepção. (OROZCO, 2005, p.27).
Ou seja, a reflexão se da quando a pergunta se converte em como se realiza a interação
entre TV e audiência? O que se coloca em jogo, portanto é o próprio processo de
recepção televisiva, e junto com este processo, a própria televisão e a sua audiência.
Para Martino:
Ver a televisão ou ir ao cinema é uma prática social. Mesmo
sozinho diante da tela, o telespectador mira a televisão com um
olhar carregado de referências, idéias, experiências, práticas.
Conhece o valor simbólico do programa que vê, tem
expectativas em relação a mensagem, aplica seu capital
cognitivo na compreensão tanto quanto reconhece tacitamente
o valor cultural de sua prática. (MARTINO, 2009, p. 180).
Esse pensamento rompe uma definição importante no pensamento de mídia de massa:
(...) é tudo o que não avalia a si mesmo - nem no bem nem
no mal - mediante razões especiais, mas que sente “como
todo mundo” e, no entanto, não se aflige por isso, ou
melhor, sente-se à vontade ao se reconhecer idêntica aos
outros. (ORTEGA y GASSET,1930, p.8 apud WOLF,
2008, p.6)
Já na teoria das mediações, o “receptor” não existe como “massa” ou “público”, mas
como indivíduos que vivem em sociedade.
As mediações são complexas negociações de sentido entre
hegemonia de uma indústria da cultura protegida e
representando poderosos interesses econômicos e um
público mais ou menos preparado para enfrentá-la a
contento. A negociação não é necessariamente a recusa ou
a compreensão, mas um confronto entre hegemonia e
resistência na definição do sentido de uma mensagem.
(MARTINO, 2009, p.181).
A reflexão sobre as teorias funcionalistas, confrontada pela teoria das mediações, é um
plano de fundo importante para sedimentar a analise que se segue nesta reflexão.
A NOVA TELEVISÃO: DE RECEPTOR CALADO A RECEPTOR PARTICIPATIVO NA
PRODUÇÂO DE CONTEÚDO TELEVISIVO
A televisão tem uma importância significativa na vida do cidadão brasileiro,
principalmente no que concerne seu alcance em todo o Brasil. Segundo o PNAD2 de
2008, o índice de lares com aparelho televisor é de 95,1% enquanto outros itens, como
energia elétrica, alcançam 98,6%, e rede de abastecimento de água, apenas 83,9%. É
particularmente interessante apontar que nessa mesma pesquisa, a penetração de
microcomputadores, é de apenas 31,2%3.
Este aparelho é objeto de estudo de diversos estudiosos da comunicação, e é
constantemente analisado por diversas óticas, que vão desde a produção de conteúdos
audiovisuais, formatos e técnicas de comunicação, transmissão, até os impactos sócioeconômicos provocados por essa tecnologia.
Toda tecnologia inserida na sociedade provoca impactos permanentes tornando-se
indissociável do ambiente onde é inserida (SANTOS, 2001,p21), e não foi diferente
com a televisão, que provocou uma série de transformações não apenas
socioeconômicas, como culturais, sociais e políticas (MATTOS,2009,p17). No entanto,
a televisão, assim como toda tecnologia adotada pelo homem, evoluiu para um novo
aparelho. Como sempre, essa evolução é imposta primeiramente pela técnica
(complexidade horizontal), pela qualidade de imagem e som, pelas conexões e
2
3
Pnad : Perfil dos domicílios brasileiros, e é realizada pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).
Idem, ibidem.
recepções, e o seu uso vai sendo absorvido pelo homem com o tempo, considerando sua
grande influência histórica (complexidade vertical) (SANTOS, 2001, p.191.).
É interessante notar também, que o display “televisão”, ou seja, o aparelho técnico,
também tem sofrido alterações estruturais. Do antigo aparelho de raios catódicos, que se
limitava a retransmitir imagens que eram transmitidas no sentido inverso através do
disco de Nipkow (MATTOS, 2009,p 164), hoje o aparelho mais se assemelha a um
computador, com direito a microprocessadores de última geração e sistema operacional
embarcado4, periféricos como teclados wireless e mouse – periféricos citados, que
sempre acompanharam o microcomputador pessoal.
Com sua primeira exibição em 20075, a Televisão Digital no Brasil é vista Governo
como uma ferramenta para a inclusão social, oferecendo acesso a informação e serviços
públicos. Isso se deve em grande parte, graças à possibilidade do display oferecer uma
grande variedade de serviços eletrônicos através da interatividade. A interatividade se
propõe a levar ao até então receptor, a possibilidade de se tornar um ator ativo no
processo comunicacional de sentido único, restando a esse apenas aguardar e ser
atingido pelas mensagens que eram transmitidas.
Historicamente, a televisão tem um papel de destaque, principalmente pela posição que
está colocada como meio de comunicação:
A própria TV tem uma influência importante na constituição
particular do telespectador. Para entender essa influência, temse que partir do fato de que a TV é ao mesmo tempo um meio
técnico de produção e transmissão de informação
e uma instituição social produtora de significados, definida
historicamente como tal e condicionada política econômica e
culturalmente. Essa dualidade da TV confere à mesma um
caráter especial e a distingue de outras instituições sociais, ao
mesmo tempo em que lhe dá certos recursos para aumentar seu
poder
legitimador
em
relação
ao
telespectador.
(OROZCO, 2005, p.27, 28)
No entanto, como se dá essas relações mediante as novas tecnologias de comunicação?
Desde Bretch, em seu manifesto sobre as possibilidades dialógicas do rádio, que foram
consideradas como inviáveis graças ao forte interesse comercial na época, o receptor da
mensagem, apesar de ser visto como co-produtor de sentidos, ele está limitado a isto.
4
TV Google poderá ser lançado ainda esta semana: Disponível em:
<http://tecnologia.terra.com.br/noticias/0,,OI4437008-EI12884,00Projeto+Google+TV+pode+ser+lancado+nesta+semana.html >– Acessado em 08/07/2010
5 Tv Digital no Brasil: <http://pt.wikipedia.org/wiki/Televis%C3%A3o_digital_no_Brasil>
Apesar de existir formas de iniciar um diálogo mediado por carta ou mesmo e-mail, a
co-produção se limita ao receptor.
Se os estudos de recepção colocam o receptor como co-produtor de sentidos e rompe
como pensamento de que ele está isolado, por outro lado, o teor dialógico perde em
relação a resposta do receptor. Ou seja, o receptor recebe a mensagem que é re-criada
por ele, mas o fluxo comunicacional, se encerra nisso. Esse fluxo comunicacional pode
servir para propósitos como narrativas ficcionais, como filmes ou histórias onde o autor,
cria uma obra não fechada, mas encerrada, com um inicio, meio e fim, determinados por
ele. Esta alias, pode ser uma opção deste. Mas em outras narrativas, como por exemplo,
telejornalismo, ou mesmo narrativas esportivas?
A reflexão aqui, se centra nas novas possibilidades de fluxos comunicacionais,
refletidos na critica anteriormente posta por Thompson ao citar essa limitação do
receptor nos processos de recepção de mensagem:
(...) o fluxo comunicacional é esmagadoramente de sentido
único. As mensagens são produzidas por um grupo de
indivíduos e transmitidas para outros situados em circunstâncias
espaciais e temporais muito diferentes das encontradas no
contexto original de produção. Por isso, os receptores das
mensagens da mídia não são parceiros de um
processo de intercâmbio comunicativo recíproco, mas
participantes de um processo estruturado de transmissão
simbólica. (THOMPSON, 2009, p.31).
É importante entender que os avanços tecnológicos, impactam, influenciam e por fim
modificam o homem, e suas sociedades, em um ambiente de constante hibridação
tecnológica, em que ambos já não podem ser desassociados (SANTOS, 2001, p.23).
Desde a criação da Internet e os avanços tecnológicos do computador, por fim chegam à
televisão. Esse aparato técnico que resistiu por anos às influências em sua forma de
transmissão-recepção de conteúdos. Claro que existiram as “evoluções” do aparelho,
passando de preto e branco, a cores, de qualidade de imagem, som, aos aparatos que
eram a ele incluídos como o video-tape, video k-7, DVD player, entre outras, até que
finalmente, a televisão passa a estar conectada a grande rede, que não pode ser mais
endereçada á somente computadores.
Pela primeira vez na história deste aparato comunicacional, o receptor pode através do
mesmo canal, trocar de papéis efetivamente com o produtor da mensagem, como
inicialmente desejava Bretch, ao projetar as possibilidades dialógicas do rádio.
CONCLUSÃO
A televisão digital interativa, independentemente do canal de retorno que ela irá utilizar,
ela abre um novo cenário para o receptor, atuar como um co-produtor de sentidos e
trocar de papel efetivamente com quem enviam a mensagem a partir de uma emissora
de televisão, a partir de recursos interativos disponíveis não somente nos aparelhos,
como também oferecidos pelos produtores de conteúdo.
O desenvolvimento dos meios de comunicação não somente
criou novas formas de interação, mas também fez surgir novos
tipos de ação que têm características e conseqüências bem
distintas. A característica mais geral destes novos
tipos de ação é que eles são responsivos e orientados a
ações ou pessoas que se situam em contextos espaciais
(e talvez temporais) remotos. Em outras palavras,
o desenvolvimento dos meios de comunicação fez
surgir novos tipos de “ação a distancia” que se tornaram
cada
vez
mais
comuns
no
mundo
moderno.
(THOMPSON, 2009, p.92).
A afirmação de Thompson valida o que acontece quando a Rede globo de Televisão
passa a oferecer programas com opções de escolha pela audiência, a partir de uma
ligação telefônica.
Sob esse aspecto, a Rede Globo de Televisão já oferece há alguns anos, opções de
interação com o público, oferecendo programas como “Você Decide”, onde a escolha de
um final de uma narrativa entre duas opções pré-produzidas, seja no “Intercine”,
oferecendo ao público, a opção de escolha do filme que deseja se assistir, através do
todo da maioria. Em ambos os casos, o público usou o telefone para realizar seu voto.
No entanto, não acontece um “diálogo”, uma vez que o telespectador se limita a
escolher uma ou outra opção, para poder receber o final de uma narrativa, sem oferecer
ao produtor da mensagem, a percepção individual dele sobre a mensagem inicial.
Em uma narrativa como uma telenovela, o autor e a emissora que veicula essa
produção, procuram constantemente ouvir o que o público opina a respeito do rumo que
a trama toma, através de pesquisa s de opinião dos telespectadores. Oferecendo um
pool de opinião, já é possível através de aplicativos de interatividade, interferir nos
rumos da trama, promovendo então apenas um deslocamento do canal utilizado para
realizar uma escolha: do telefone para a própria televisão.
A programação televisiva é normalmente concebida em forma serializada, ou seja, em
formatos de blocos, cuja duração varia entre emissoras e tipos de programas veiculados,
em uma apresentação descontínua e fragmentados. No caso especifico de narrativas, a
história geralmente é dividida em capítulos ou episódios, cada um deles sendo
apresentado em dia ou horário diferentes, em horários diferentes, subdividido por sua
vez em blocos menores, a fim de inserir os comerciais entre a exibição da narrativa. No
inicio, normalmente é apresentada uma pequena contextualização do que acontecia
antes (para refrescar a memória ou informar o espectador que não viu o bloco anterior) e
no final, um gancho de tensão, que visa manter o interesse do telespectador até o retorno
da série, depois do break ou no dia seguinte. (MACHADO, 2000, p.83).
Obviamente, em produções onde existe um padrão de qualidade no programa que esta
sendo oferecido, é necessário que atores estejam preparados, cenários estejam
disponíveis, equipes de produção como iluminadores, continuistas, entre outros para que
a trama de uma narrativa possua o mínimo de coerência. Essa complexidade da
produção é um dos fatores que inviabilizam uma interferência direta nas narrativas
ficcionais. No entanto, para narrativas esportivas, de telejornais, de programas de
auditório, isso seria plenamente possível.
Em uma narrativa esportiva, por exemplo, uma transmissão de um jogo de futebol, pode
transmitir não apenas um, mas dois canais diferentes6: Dessa forma, não apenas a
produção poderia ser mais personalizada, dando mais emoção ao torcedor de um time,
com tomadas, cenas e informações exclusivas do seu time favorito - fato que não é
possível hoje uma vez que é necessário apresentar uma certa “neutralidade na narração
de uma partida de futebol”, mas também oferecer informações exclusivas, disponibilizar
conteúdo paralelo como vídeos e entrevistas com os personagens do time em questão,
que possam ser acessadas simultaneamente a partida de futebol. Essa mudança
possibilitaria que a experiência de assistir futebol, fosse mais personalizada e dirigida.
No entanto, apesar da dificuldade e dos entraves para que a participação colaborativa do
telespectador em narrativas ficcionais é possível criar narrativas onde com certa
criatividade, e com certo deslocamento temporal, o público possa sentir que a produção
6
Hoje, é possível transmitir em até 4 subcanais de um canal digital a partir do mesmo sinal da emissora, sendo
possível dessa forma, em um mesmo canal, ser transmitido um subcanal para um time, e outro, para outro, oferecendo
dessa forma conteúdos distintos.
advinda da sua recepção individual, seja refletida no rumo da trama de forma coletiva,
experiência esta, já demonstrada ser possível de se atingir, a partir dos estudos de
Crocomo, em sua obra “TV Digital e Produção interativa”. Apesar de ter um foco sobre
a participação de uma comunidade na produção de conteúdo de noticias, as mesmas
práticas podem ser analisadas e adaptadas as demais narrativas televisivas, ou mesmo na
criação de novas narrativas só possíveis graças aos avanços tecnológicos.
REFERÊNCIAS
BAUER, R. The Communicatior and the audience. Journaul of Conflict resolution,
vol.2. 1964
CANNITO, N. A televisão na era digital – interatividade, convergência e novos
modelos de negócio. São Paulo, Editora Summus, 2010.
CROCOMO, F.A TV Digital e produção interativa. Florianópolis: Editora da UFSC,
2007.
ECO, U. Obra Aberta. São Paulo: Editora Perspectiva, 1976.
GIDDENS, A. La Normalizzazione dei Giornalisti. Ipotesi sugli esiti della
Socializzazione Professionale negli apparati Dell'ínformazione. Sociologia dell'
organizzazione, 1. 7-53. 1982
LIMA, V. Breve Roteiro Introdutório ao Campo de estudo da Comunicação Social
no Brasil in LIMA, V. Mídia. Teoria e Política. São Paulo: Editora Perseu Abramo,
2001.
MACHADO, A. A televisão levada a sério. São Paulo: Editora SENAC, 2000.
MARTINO, L. M. Sá. Teoria da Comunicação: Idéias, Conceitos e Métodos.
Petrópolis: Editora Vozes, 2009.
MATTOS, S. A. S. História da televisão Brasileira – Uma visão econômica, social e
politica. Petrópolis, Editora Vozes, 2009.
MATUCK, A. O Potencial dialógico da televisão : comunicação e arte na
perspectiva do receptor. São Paulo, ANNABLUME:ECA-USP, 1995.
MONTEZ, C. TV Digital Interativa: conceitos, desafios e perspectivas para o
Brasil. Florianópolis: Editora da UFSC, 2005.
OROZCO, G. O Telespectador frente à Televisão in Revista Communicare, São
Paulo:FACASPER, 2005.
THOMPSON, J. B. A mídia e a modernidade: uma teoria social da mídia.
Petrópolis: Editora Vozes, 2008.
WOLF, M. Teorias da comunicação de Massa. São Paulo: Editora Martins Fontes,
2008.
Download