o segredo da inteligência - Biblioteca Virtual Cidade do Cérebro

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PROF. LUIZ MACHADO, Ph. D.
O
SEGREDO
DA
INTELIGÊNCIA
O SISTEMA
DE AUTOPRESERVAÇÃO
E PRESERVAÇÃO DA ESPÉCIE
E O PROCESSO
ENSINO / APRENDIZAGEM
© Copyright by LUIZ José MACHADO de Andrade
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Uma publicação para construção da Cidade do Cérebro - 1ª Edição no Brasil: 1992
O Segredo da Inteligência
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Índice
Apresentação – 3
Eu tenho um Sonho - 4
Introdução - 5
Hipótese - 9
Discussão - 13
A comunicação com o SAPE - 18
Funções que envolvem primordialmente o SAPE - 22
Conclusões - 24
Professor Luiz Machado - 26
Bibliografia - 30
Livros do Prof. Luiz Machado na biblioteca virtual Cidade do Cérebro – 36
O Segredo da Inteligência
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Apresentação
O título deste livro carrega consigo, pelo menos, duas intenções do autor: a primeira, dizer
a maneira pela qual uma pessoa pode desenvolver suas capacidades como elemento de
autorealização; a segunda, como pode o Homem fazer jus ao adjetivo “racional”,
empregando o seu intelecto no sentido de conhecer a si mesmo, de entender seu sistema
de autopreservação e preservação da espécie (SAPE) *, repositório de toda a sabedoria
da espécie, compondo um todo harmônico com suas estruturas cerebrais.
A maioria das pessoas crê que o intelecto, com sua “razão”, seja o mais alto progresso
mental. Essa atitude, que procura a “certeza científica” de tudo, acaba por coisificar o
Homem. A estrutura do cérebro, que torna possível o intelecto, parece ser a mais recente
na evolução do homem, com cerca de 200 milhões de anos, e seu desenvolvimento é
quase nulo se comparado com o do SAPE. Mas o homem com a crença no exclusivo
poder de seu intelecto é uma aberração da Natureza; por isso, volta-se contra ela, contra
si mesmo – pelo menos é o que tem demonstrado, com a destruição do seu ambiente,
com o aperfeiçoamento da guerra. Sabemos todos que o processo de racionalização dos
acontecimentos é destituído de emoções e sentimentos.
Que sabedoria, que ciência é esta que levou o homem à preparação de artefatos
nucleares que põem em risco a sua própria espécie?
“Que é inteligência?” é uma pergunta que ainda não obteve resposta satisfatória.
Inteligência tem sido confundida com memória, com capacidade de aprender e até com a
“capacidade de resolver testes de inteligência”...; todavia, no sentido em que estamos
usando a palavra, ela indica resposta do ser às suas necessidades.
Apresentamos, nas páginas seguintes, aquilo que conseguimos identificar como as bases
científicas das realizações humanas, quer ligadas à inteligência, quer relacionadas a
fenômenos psíquicos.
O Homem, ao saber como funcionam os sistemas de suas capacidades, pode usá-los
para crescer como gente e como profissional, transformando conhecimento em sabedoria
para uma vida melhor.
*Consideramos o sistema de autopreservação e preservação da espécie como composto do sistema límbico
e do sistema glandular.
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Eu tenho um Sonho...
Que as pessoas sejam melhores, como profissionais e como gente;
Que não acreditem no impossível;
Que aqueles que duvidam de suas capacidades, se arrependam diante de suas
conquistas;
Que a ciência não seja usada como instrumento de dominação, como ainda é por aqueles
que teimam em não reconhecer que o Ser Humano é corpo, mente e espírito;
Que a farsa do Q.I. não sirva aos interesses daqueles que desejam substituir a idéia de
“sangue azul” pela de “cérebro azul”;
Que as pessoas saibam que a inteligência é uma faculdade que pode ser desenvolvida e
não algo que vem pronto com o nascimento e não pode ser alterado;
Que as pessoas despertem algo que talvez nem saibam que possuem e muita gente faz
questão que elas não saibam: um gênio interior;
Que todos saibam que têm o direito de ser inteligentes.
Prof. Luiz Machado
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Introdução
A Humanidade tem testemunhado os fenômenos mais intrigantes a respeito do Homem e,
na falta de explicação de ciência certa, as pessoas os têm atribuído a fatores
sobrenaturais, a deuses e ao demônio... Tratar-se-ia, então, de “mistérios deste e do outro
mundo”... Ora são curas espetaculares, ora são realizações que parecem transcender o
limite das capacidades humanas, ora são feitos de inteligência que assombram a
Humanidade.
O chamado “efeito mágico”, quer nas curas espetaculares, quer em quaisquer outras
manifestações, como, por exemplo, da aprendizagem acelerativa, resultado da
mobilização de reservas mentais normalmente não usadas, é sempre obtido diante do
prestígio, da autoridade (entenda-se “competência profissional”) e do processo; em outras
palavras, o “feiticeiro”, a “palavra mágica” e o “ritual”. Assim foi com os cultos primitivos,
assim ainda é nas religiões e crenças e o mesmo ocorre com os mágicos modernos, os
cientistas. Em qualquer ciência, encontramos esses elementos e, mais, os “mitos” em que
certas “verdades cientificas” foram transformadas.
O chamado “efeito mágico” não pertence ao campo do querer intelectual, mas, sim, da
representação mental daquilo que se saiba querer, sem esforço de vontade (pois a idéia
do “esforço” traz em si a representação mental da dificuldade), sem vacilações. A
vacilação (hesitação, incerteza de propósito) confunde a comunicação com o sistema de
autopreservação e preservação da espécie (doravante designado pelo acrônimo SAPE
neste livro), que então percebe imagens concorrentes.
O homem ao conhecer-se, verificará que os chamados “milagres” são a aplicação da
sabedoria do seu SAPE.
A mente do Homem não aceita o mistério; aliás, a mente abomina o mistério. Mas o
mistério a provoca, talvez porque o desconhecido aguça a imaginação que faz funcionar o
sistema glandular e facilita ou inibe a produção de neurotransmissores. Por isso, o
Homem apela para o terreno do sobrenatural, quando não pode explicar algo com seus
próprios recursos. O “sobrenatural” é o limite do que ainda não podemos explicar; pelo
menos, é a essa conclusão a que se chega em virtude do que não se sabia anteriormente
e hoje se torna corriqueiro... Em nossos dias, diminui muito o número de fenômenos
relacionados com a mente que não se podem explicar. E a linguagem conceitual tem sido
cúmplice do Homem para ajudá-lo a forjar explicações. A própria escrita surgiu com rituais
sagrados e continua a manter ares de sacralidade e todo um mundo, toda uma realidade
virtual foi construída com sistemas verbais, até que, na Renascença, começaram os
traços da ciência experimental. “Está no livro”, “saiu no jornal” são frases que evidenciam
a autoridade conferida a esses veículos de informações com a sacralidade da escrita.
Quanto ao fato de que o cérebro tem enorme potencial normalmente não explorado não
há dúvida. Não se trata de criar nada. Tudo está ali pronto para ser mobilizado. Por
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observação e experiência, sabemos que, ao enfrentar situações de extrema dificuldade, o
Homem tem recorrido a si mesmo e em si tem encontrado as forças de que necessita. O
cérebro dos iogues, o sistema nervoso dos monges do Tibet, as estruturas cerebrais dos
gigantes da inteligência não são diferentes das contrapartidas encontradas no mais
comum dos homens. Na verdade, o trabalho dos feiticeiros, dos pajés, dos benzedeiros e
rezadores nada mais é do que a mobilização das capacidades humanas para a realização
de seus feitos. Uma pessoa hipnotizada mostra bem as capacidades humanas: pode
utilizar enorme força física, pode conseguir grande rigidez muscular, pode demonstrar a
hipermnésia (supermemória) hipnótica, etc. E numa pessoa hipnotizada, estamos em
maior contato com seu SAPE. Hoje sabemos, cientificamente, que, com toda
possibilidade, o ser humano utiliza muito pouco de suas reservas cerebrais ¹. PENFIELD
(1966) assinala que, enquanto nos outros animais a maior parte do cérebro está
comprometida com funções sensoriais e motoras, no homem o mesmo não ocorre. As
áreas dedicadas aos processos superiores de pensamento não estão comprometidas.
Precisamos verificar, então, como o “eu sápico” ² pode ser construído ou reconstruído
para fazer uso das estruturas cerebrais.
A nós, o fato de o homem ter muito mais capacidade do que usa, há bastante tempo vem
intrigando. Há mais de 40 anos vimos estudando as capacidades humanas e como
mobilizá-las. Inicialmente, seguimos os passos da psicologia tradicional, estudando a
inteligência via operações intelectuais. Com a leitura do livro “Psychic Discoveries Behind
the Iron Curtain”, de Sheila Ostrander e Lynn Schroeder, copyright de 1970,
especialmente no capítulo que trata de Sugestologia, mudamos o rumo de nossas
investigações. Mais tarde, na esteira de sucesso desse livro, as mesmas autoras, agora
com Nancy Ostrander, publicaram “Superlearning", traduzido em português como
“Superaprendizagem pela Sugestologia”. Destaca-se, nessa última obra, em questões de
aprendizagem, o trabalho de Georgi Lozanov e a aplicação da sugestão no ensino. Num
estudo mais aprofundado sobre o assunto, chegamos à conclusão de que o uso da
sugestão é inadequado em educação ³, uma vez que “sugerir”, no caso, significa “pôr uma
idéia, uma crença, uma tendência na cabeça de uma pessoa sem que ela decida”. De
fato, não é a sugestão que produz os fenômenos a ela atribuídos em relação ao ensino e,
sim, a mobilização do SAPE. A supermemória relatada por Lozanov e seguidores nada
mais é que a “hipermnésia hipnótica”, cuja explicação consta em qualquer livro sobre
hipnose, e que deve ser também resultado da mobilização do SAPE.
Ora, sendo a sugestão e a hipnose inadequadas quando usadas em educação e,
sabendo-se que elas atuam no SAPE para conseguirem seus efeitos de mobilização de
capacidades humanas, podemos, por outros meios, que não a sugestão e a hipnose,
envolver o SAPE para mobilizar capacidades, sem interferir na vontade das pessoas.
Esse efeito de mobilização de capacidades humanas consegue-se pelo envolvimento do
SAPE, como demonstraremos nas páginas seguintes. Na falta de certeza quanto à
finalidade da existência do homem4, fiquemos com sua destinação biológica: crescer
(sobreviver, autopreservar-se) e multiplicar-se (preservação de espécie).
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Nesse seu desígnio, dois aspectos assumem destaque especial, o processo de aprender,
compreender e explicar, que envolve funções sob o nome de “inteligência”, e um estado
de equilíbrio orgânico e psíquico, ou um nível de desarmonia tolerável, que o mantenha
vivo, denominado de saúde. Assim, saúde e educação são básicas na destinação
biológica do homem, para não falar dos outros animais. Direito à vida e direito à educação
se confundem.
Antes de ser admitido como estrutura capaz de controlar outras funções do corpo, de ser
responsável pela inteligência, o cérebro era considerado em plano inferior ao coração e
até ao fígado. Para Aristóteles, o coração era o órgão central e o cérebro era uma espécie
de mecanismo de refrigeração para quando o sangue saía do coração. Para os sumérios
e assírios, o fígado era o repositório da alma e a base física da personalidade (RESTAK,
1980). Na língua, nós encontramos expressões que denunciam como esses órgãos eram
considerados. Nós dizemos saber “de cor” (de coração), inimigos “figadais” (de fígado, de
grande ódio), aqui se identifica o fígado como sede das emoções. Realmente, certas
representações mentais são capazes de fazer as glândulas segregar hormônios e levam à
produção de neuro-hormônios (neurotransmissores) e outras substâncias, com reflexos
somáticos. Quando falamos em certas frutas, como, por exemplo, o tamarindo, o limão, se
o interlocutor fizer uma representação mental dessas frutas e de sua acidez, ficará com “a
boca cheia de água”. Ocorre que as glândulas salivares foram acionadas a partir da
imagem criada.
Sempre houve uma busca de explicação para se determinar qual a estrutura orgânica que
tornava possível a mobilização das funções superiores do Homem. Hoje, tudo parece
indicar que tal estrutura seja o SAPE.
Mesmo quando se descobriram algumas localizações cerebrais: BROCA (1861),
WERNICKE (1876) pouco se sabia a respeito do cérebro. E ainda sabemos pouco. Em
1953, GRAY WALTER escreveu: “quase não há fatos firmemente estabelecidos sobre a
função do cérebro; tudo permanece para ser descoberto, todos os problemas estão ainda
para serem definidos”.
Todavia, nos últimos trinta anos, temos avançado muito nos estudos do cérebro e tais
conhecimentos têm implicações sociais, culturais e educacionais, que não podem ser
ignoradas por professores, médicos, psicólogos, homens de empresas, pais; enfim, todos
aqueles que conseguem resultados com pessoas.
Desses estudos, de Psiconeurofisiologia e Psiconeurolinguística, formulamos a hipótese
de que a inteligência depende mais do SAPE (cérebro paleomamífero) que da estrutura
que propicia o intelecto (cérebro neomamífero). É claro que a inteligência depende do
todo, não só da integração das três estruturas cerebrais, para usar a terminologia da
Teoria do Cérebro Triuno de Paul Maclean: Complexo R (cérebro reptiliano), Cérebro
paleomamífero e Cérebro neomamífero, como também do próprio organismo como um
todo, que é maior que a soma das partes. O SAPE fornecerá a energia para o
funcionamento do intelecto, podendo inibi-lo ou desbloqueá-lo. O “eu sápico” será como
um ponto irradiante, a partir do que se constituirá a atitude da pessoa em relação à vida,
na determinação de sua inteligência inclusive. Evidentemente, não estamos nos referindo
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a acidentes genéticos, a casos patológicos, que fogem ao escopo deste trabalho. Nossos
estudos a respeito do cérebro referem-se à aprendizagem acelerativa, à mobilização de
capacidades humanas normalmente não usadas. Nós estudamos o órgão sadio, aquilo
que ele é capaz de realizar e como mobilizar seu potencial. O cérebro é uma
potencialidade. Primeiro, nós mobilizamos o potencial e, em seguida, tornamos realidade
esse potencial.
Quem procura a inteligência no cérebro terá uma grande decepção. Inteligência não é
algo que existe pronto e, por isso mesmo, não tem sede. A inteligência é uma virtualidade,
um virtualismo do organismo e, principalmente, do encéfalo.
A inteligência depende de três fatores principais: - berço (o ambiente em que a pessoa
vem ao mundo, a cultura em que ela se cria; - educação (a maneira pela qual são tratadas
as capacidades da pessoa) e o fator genético. Há quem se refira ao fator em termos
porcentagem, atribuindo-lhe uma grande participação na formação da inteligência;
todavia, “qualquer afirmação de que X% se deve a fatores genéticos e Y% a fatores
ambientais deve ser tratada com reserva” (BUTCHER).
¹ Embora achemos aleatório citar qualquer porcentagem a esse respeito, vale mencionar que o Prof. V. N.
Banchthikov, no dia 30 de junho de 1969, durante o “V Congresso Pansoviético de Neurologistas e
Psiquiatras”, realizado em Moscou, declarou que, com toda possibilidade, o ser humano usa apenas 4% de
suas reservas cerebrais. (Apud Jean Lerède, Suggérer pour Apprendre).
² “Sápico” é o adjetivo que criamos para indicar ”relativo ao SAPE” e é o resultado das crenças, das
impressões, das condições do meio, das sugestões recebidas e aceitas, dos reflexos imaginativos. É o
produto de experiências passadas, vividas ou vividamente imaginadas, sucessos e fracassos, triunfos e
humilhações, de como os outros reagem à pessoa, tudo isso dependente do efeito dominante. O carinho,
como forma de construir auto-imagem positiva, pode ser um elemento básico na formação do “eu sápico”.
³ Ver nossa conferência, proferida em Estocolmo, Suécia, em maio de 1984, na “1st European Salt
Conference” e também “Contágio Mental ou Sugestão?”, publicadas no livro “O Cérebro do Cérebro – A
chave dos mistérios do homem”, do mesmo autor deste trabalho.
4
Evitamos o terreno das discussões filosóficas e religiosas.
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