Formação Dinâmica dos Satélites Irregulares dos Planetas Gigantes

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CADERNO DE FÍSICA DA UEFS 08 (01 e 02):
51-68, 2010
FORMAÇÃO DINÂMICA DOS SATÉLITES IRREGULARES DOS
PLANETAS GIGANTES
Ernesto Vieira Neto∗
Universidade Estadual Paulista, UNESP; Campus de Guaratinguetá, Guaratinguetá, SP, Brasil
O Sistema Solar está povoado de satélites. Entender como esses objetos foram formados é confirmar
as hipóteses de formação do próprio Sistema Solar. Todos os planetas gigantes do Sistema Solar
têm satélites regulares e irregulares. É bem aceito que os satélites regulares foram formados pelo
mesmo processo que formou o planeta. Mas para os satélites irregulares ainda hoje não existe um
mecanismo que explica a existência desses objetos celestes, ou seja, a sua formação ainda não é bem
entendida. Neste trabalho vamos explicar um pouco os diferentes tipos de satélites que existem e
mostrar algumas hipóteses de formação dinâmica dos satélites irregulares.
I.
OITO PLANETAS
O nosso sistema planetário gira em torno de uma estrela chamada Sol. Em torno desta
estrela existem uma infinidade de objetos compondo o que chamamos de Sistema Solar.
O Sistema Solar é composto por vários tipos de objetos chamados de planetas, planetas
anões, asteroides e cometas. Com exceção dos cometas, todos os outros objetos também podem
ter objetos menores que giram em torno deles. Estes últimos objetos são chamados de satélites.
Na reunião da IAU (International Astronomical Union, em português União Astronômica
Internacional) de 2006 [1] ficou estabelecido que planetas são os objetos que atendem a três
definições: (1) girar em torno do Sol; (2) ser massivo o suficiente para que sua gravidade o
torne redondo; (3) seja capaz de limpar a sua vizinhança de objetos menores que poderiam
compartilhar a sua órbita. Os planetas anões são os que atendem as duas primeiras definições,
mas não conseguem limpar a sua órbita de objetos menores. Os cometas e asteroides ficaram
designados como objetos menores do Sistema Solar e atendem somente a primeira definição,
ou seja eles somente giram em torno do Sol.
Por esta definição, o Sistema Solar possui 8 planetas, que ainda podem ser subdivididos em
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Fig. 1: O Sistema Solar em escala com seus 8 planetas e alguns de seus planetas anões. FONTE:
Wikipedia
4 planetas rochosos e 4 planetas gasosos. Os quatro planetas rochosos são Mercúrio, Vênus,
Terra e Marte. Estes planetas são chamados de rochosos por possuı́rem uma superfı́cie sólida.
Os planetas gasosos possuem uma superfı́cie gasosa, principalmente hidrogênio e hélio, e são
muito maiores que os planetas rochosos e por isto também são chamados de planetas Gigantes.
Eles são Júpiter, Saturno, Urano e Netuno.
Dos 8 planetas do Sistema Solar, 6 possuem satélites. O Sistema Solar é povoado de satélites.
Além dos planetas, alguns planetas anões também possuem satélites, como no caso de Plutão
com seus três satélites Caronte, Nix e Hidra. Mas não só planetas e planetas anões possuem
satélites, asteroides também possuem satélites. No momento só os cometas ainda não possuem
satélites conhecidos.
Nas próximas seções vamos nos aprofundar um pouco mais nas caracterı́sticas dos satélites
dos planetas. No momento ainda não existem estudos a respeito dos satélites dos planetas
anões, nem dos satélites dos asteroides. Mas existem duas hipóteses bem aceitas de que estes
objetos ou foram formados juntos, ou foram formados devido a colisão.
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II.
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OS SATÉLITES DOS PLANETAS ROCHOSOS
Os planetas Mercúrio e Vênus são os únicos planetas do Sistema Solar que não possuem
satélites. Provavelmente isso se deve devido às caracterı́sticas catastróficas da formação do
Sistema Solar interior. A Terra possui 1 satélite e Marte possui 2 satélites.
A.
Lua: Satélite da Terra
O único satélite da Terra é a Lua. É o objeto do Sistema Solar mais próximo de nós.
E possuem algumas caracterı́sticas bem peculiares. Ela tem o tamanho exato e está no lugar
correto de forma que tem o mesmo tamanho aparente do Sol. Podemos notar esta peculiaridade
quando ocorrem os eclipses totais. Mas isto é mera coincidência, a Lua foi formada mais
próxima da Terra e devido às forças de maré planetária1 a Lua se afastou e está no lugar que
se encontra hoje. E ela continua se afastando [2] a uma taxa aproximada de 1 cm por ano [3]
e algum dia não teremos mais eclipses totais.
Outra efeito causado pela maré planetária e a sincronia entre o movimento de rotação da
Lua em torno de seu eixo e o movimento de translação da Lua em torno da Terra. Isto significa
que ela gira em torno do seu eixo com a mesma velocidade que gira em torno da Terra. Desta
forma sempre vemos a mesma superfı́cie e nunca veremos o lado oposto à superfı́cie que vemos,
enquanto esta sincronia persistir.
Até a década de 1990 existiam várias hipótese de formação da Lua. Essas hipóteses iam
desde a co-formação com a Terra, até a captura da Lua pela Terra. Atualmente, a hipótese
mais aceita é que um planeta do tamanho de Marte colidiu com a Terra no perı́odo inicial de
sua formação [4]. Os detritos dessa colisão se agregaram e formaram a Lua.
A hipótese de colisão é bem aceita porque existem evidências de que o núcleo de ferro da
Lua é muito menor que o de outros objetos rochosos similares a ela. Além disso, rochas que
foram trazidas da Lua pelas missões Apolo apresentam taxas de isótopo de oxigênio similares
ao encontradas nas rochas da Terra. E finalmente, através de simulações numéricas foi possı́vel
reproduzir a formação da Lua, mantendo os vı́nculos de momento angular do sistema Terra-Lua
[5].
1
Em dinâmica planetária existem dois tipos de marés, a maré planetária e as marés usuais que ocorrem no
mar. Apesar de terem a mesma natureza gravitacional, a maré planetária é força diferencial que a Lua sofre
devido a não esfericidade do planeta Terra.
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Fig. 2: A Lua, o único satélite natural da Terra. FONTE: NASA/JPL/USGS
Fig. 3: Colisão de um planeta do tamanho de Marte com a Lua. FONTE: Wikipedia
B.
Satélites de Marte
Os dois satélites de Marte são chamados de Fobos e Deimos. São satélites pequenos, Fobos
tem 22.2 km de diâmetro enquanto que Deimos tem 12.6 km de diâmetro [6]. Fobos, ao
contrario da Lua, está se aproximando de Marte. Essa diminuição do tamanho da órbita de
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Fobos também é devido à força de maré planetária. Deimos parece não estar sendo afetado
pela maré [7]. A formação destes satélites ainda é questão de discussão e ainda não se tem uma
boa explicação para a existência desses objetos [7].
Fig. 4: Os Satélites de Marte, Fobos à esquerda e Deimos à direita. FONTE: Wikipedia
Fig. 5: Distâncias e tamanhos relativos entre Marte, Fobos e Deimos. FONTE: Wikipedia
III.
SATÉLITES DOS PLANETAS GIGANTES
Bem diferente dos planetas rochosos, os planetas gigantes possuem uma grande variedade
de satélites. Vamos nos deter um pouco mais nos satélites de Júpiter e em especial vamos nos
preocupar principalmente com as órbitas desses satélites.
A.
Satélites de Júpiter: Os Galileanos
Os 4 grandes satélites de Júpiter foram os primeiros satélites a serem vistos pelo homem
depois da Lua. Esses satélites foram descobertos por Galileu e formalmente apresentados em
seu livro Sidereus Nuncius de 1610. Hoje esses satélites são conhecidos por satélites galileanos.
Os seus nomes são Io, Europa, Ganı́mede e Calisto [8].
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Fig. 6: Satélites Galileanos: Io e Europa em cima, Ganı́mede e Calisto em baixo. FONTE: Wikipedia
O satélites Io com mais de 400 vulcões ativos é o objeto geologicamente mais ativo do
Sistema Solar. Sua superfı́cie é pontuada com mais de 100 montanhas, algumas mais altas
que o monte Everest. Europa possui uma superfı́cie de gelo e possui uma das superfı́cies mais
lisas do Sistema Solar. Sob a superfı́cie de gelo acredita-se que haja água em estado lı́quido.
Ganı́mede é o maior satélite do Sistema Solar, com um diâmetro de 5262 km é maior que o
planeta Mercúrio, que tem 4880 km de diâmetro. Também possui uma crosta de gelo. Calisto
é o terceiro maior satélite do Sistema Solar. Ele possui uma atmosfera extremamente fina
composta de dióxido de carbono.
B.
Alguns Satélites do Sistema Solar
Júpiter tem muito mais satélites além dos quatro satélites galileanos. Atualmente existem
63 satélites conhecidos em torno de Júpiter [9]. A grande maioria desses satélites são pequenos.
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O mesmo ocorre para os outros satélites dos planetas gigantes, ou seja, os planetas gigantes
possuem muitos satélites, mas a grande maioria é composta por pequenos satélites. Os satélites
Ganı́mede (5262 km) de Júpiter e Titã (5150 km) de Saturno são maiores que o planeta Mercúrio
(4880 km), que tem quase o mesmo diâmetro de Calisto (4821 km).
Fig. 7: Comparação de tamanhos de alguns satélites do Sistema Solar com a Terra. FONTE: Wikipedia
Além das várias caracterı́sticas fı́sicas diferentes, os satélites também têm órbitas bem diversificadas. Se nos atermos às órbitas dos satélites de Júpiter vemos que os satélites galileanos
possuem órbitas circulares enquanto que os demais satélites possuem órbitas muito excêntricas.
Se olharmos as órbitas dos satélites em três dimensões, notamos por exemplo que a órbita de
Tetani, do planeta Saturno, está no plano do equador, enquanto que outros satélites de Saturno possuem órbitas muito inclinadas, alguns são retrógrados. Quando um satélite gira em
torno do planeta na mesma direção de rotação do planeta, dizemos que sua órbita é prógrada.
Se o satélite gira em direção oposta à rotação do planeta, dizemos que a órbita é retrógrada.
Lembrando que rotação do planeta é o giro que o planeta dá em torno do seu eixo.
Ao falamos em órbita, três conceitos são essenciais: semieixo maior, excentricidade e in-
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Fig. 8: Órbitas dos Satélites de Júpiter. No centro do sistema estão os satélites galileanos. Parte dos
satélites possuem órbitas prógradas e parte possuem órbitas retrógradas. FONTE: Shepard [9]
clinação. Como a maioria das órbitas do Sistema Solar são elipses é usado dois dos seus
elementos para caracterizar uma órbita. A elipse tem dois eixos perpendiculares, mostrados na
figura 11 pelos segmentos AB e CD. O segmento AB é o eixo maior, e o segmento CD é o eixo
menor. Metade do eixo maior é o semieixo maior, que representa o tamanho da elipse. Outra
caracterı́stica geométrica que elipse possui é a excentricidade, que é a medida de quanto alguma
coisa está fora do centro. Quando a excentricidade da elipse é zero, ela coincide com o cı́rculo.
Quanto mais excêntrica a elipse, menos circular ela é. Mas não existe elipse com excentricidade
um. Com excentricidade um temos uma parábola. Logo, na elipse a excentricidade fica entre
os valores maiores que zero (> 0) e menores que um (< 1).
A inclinação não tem relação com a elipse, mas com o plano em que a órbita está. Para os
satélites, o plano de referência é o plano do equador do planeta. Se o satélite está no plano do
equador do planeta, girando em torno do planeta na mesma direção de rotação do planeta, sua
inclinação é de zero graus (0◦ ). Se a inclinação do plano da órbita do satélite vai até 90◦ dizemos
que a órbita é prógrada. Se a inclinação for maior que 90◦ dizemos que a órbita é retrógrada.
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Fig. 9: Órbitas dos Satélites de Saturno. O satélite Titã gira no mesmo plano do equador de Saturno,
enquanto outros satélites giram em diversos outros planos. FONTE: Wikipedia
Fig. 10: A elipse e seus eixos. FONTE: Wikipedia
Se a órbita do satélite está no plano do equador do planeta, mas girando ao contrário do
movimento de rotação do planeta, então sua inclinação é de 180◦ e ele é retrógrado.
Ao observarmos as órbitas dos satélites dos planetas gigantes notamos que existem satélites
com órbitas circulares e no plano, e satélites que possuem órbitas bem excêntricas e muito
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inclinadas. Partindo dessa observação podemos classificar os satélites dos planetas gigantes em
dois tipos.
IV.
CLASSIFICAÇÃO DOS SATÉLITES DOS PLANETAS GIGANTES
Como vimos na última seção, existem satélites que tem órbitas bem regulares. Estes satélites
estão próximos de seus planetas, com órbitas quase circulares e estas órbitas estão no plano
equatorial do planeta. Esses satélites são chamados de Satélites Regulares.
Vimos também que existem aqueles satélites que estão mais distantes de seus planetas, com
órbitas bem excêntricas, e que estão com suas órbitas fora do plano do equador do planeta.
Esses satélites são chamados de Satélites Irregulares.
Os satélites regulares, por terem uma órbita tão caracterı́stica parecendo com um mini
Sistema Solar, são tidos como originários do processo de formação do próprio planeta. Portanto
teriam sido formados in situ, ou seja, onde estão.
Já os satélites irregulares já são um caso à parte. O tipo de órbita em que eles estão é
contraditório com uma formação no local. No processo de formação de um planeta acredita-se
que exista muita poeira e gás que giram junto com a rotação do planeta. Essa poeira e gás
forma o planeta e forma também os satélites regulares. A formação de um satélite retrógrado
nesse ambiente é muito improvável, pois o atrito causado pela colisão direta entre o satélite
retrógrado em formação e os detritos em torno do planeta fariam com que o satélite rapidamente
caı́sse e colidisse com o planeta.
Como as órbitas dos satélites irregulares são incompatı́veis com a formação in situ, acreditase que esses satélites tenham sido formados em alguma parte do Sistema Solar e posteriormente
eles foram capturados por seus planetas.
A.
Captura Gravitacional
Ao estudarmos o problema de dois corpos, elaborado por Newton, temos três tipos de
soluções para o movimento de um dos corpos em relação ao corpo com maior massa. As órbitas
do problema de dois corpos são ou elı́ptica, ou parabólica, ou hiperbólica. A solução da órbita
depende da energia relativa do corpo de menor massa em relação ao corpo de maior massa. A
órbita elı́ptica ocorre para energia negativa, com energia nula (= 0) temos a parábola, e com
energia positiva a hipérbole. Essa energia é constante ao longo de todo o movimento. Como a
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energia é constante, o corpo não tem como mudar o seu tipo de movimento.
Se adicionarmos mais um corpo ao problema a energia relativa de um corpo em relação
ao outro, que era constante agora varia. Ou seja, é possı́vel que uma partı́cula inicialmente
em órbita hiperbólica possa mudar para uma órbita elı́ptica e ser capturada. Porém, devido à
simetria do problema, essa captura é Temporária.
Então tem alguma coisa errada com a teoria de captura dos satélites irregulares. Está
faltando alguma coisa, existe a necessidade de algum mecanismo de efetivação da captura.
V.
MECANISMOS DE EFETIVAÇÃO DA CAPTURA
Para que uma captura gravitacional se torne perene é necessário algum mecanismo de perda
de energia orbital. Podemos encontrar na literatura vários mecanismos auxiliares à captura
gravitacional que podem torná-la permanente. Entre elas vamos citar a variação da massa do
planeta, o arrasto em gás, e a ruptura de binários.
Vamos explorar cada um desses mecanismos com um maior detalhe.
A.
Variação da Massa do Planeta
Durante o processo de formação do Sistema Solar os planetas foram ficando maiores pela
adição de massa que estava espalhada pelo sistema. Boa parte dessa massa era em forma de gás.
Isto explica os planetas gigantes. Nesse cenário, enquanto o planeta cresce e fica com maior
massa, seu campo gravitacional vai ficando maior. Um planeta que for gravitacionalmente
capturado enquanto o planeta cresce, pode ter chegado quando sua gravidade era menor, e
quando estava por sair, o campo gravitacional era maior e a energia orbital que o asteroide
tinha já não é mais suficiente para que ele escape.
Para usarmos essas hipóteses, temos que assumir que os satélites irregulares são primordiais,
assim como os planetas.
O que curioso nesse mecanismo é que ele é diferente para satélites prógrados e retrógrados.
Foi mostrado [10] que satélites que estão em órbita retrógrada enquanto o planeta varia sua
massa têm que obedecer a lei de Jeans. Esta lei [12], inicialmente usada em formação de
estrelas, diz que o produto do semieixo maior de um objeto em torno do planeta pela massa
do planeta é uma constante: k = aµ. Isso significa que, quando a massa do planeta aumenta,
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o semieixo maior tem que diminuir, tal que o produto aµ sempre seja o mesmo número k.
Fig. 11: Satélites retrógrados capturados por um planeta que aumenta sua massa têm seu semieixo
maior diminuı́do segundo a lei de Jeans. FONTE: Vieira Neto et all., 2004 [10]
Já os satélites em órbita prógrada tem um comportamento diferente.
Até uma certa
distância do planeta, o satélite obedece à lei de Jeans, mas depois desta distância isto não
ocorre mais. Foi mostrado [11] que quando o satélite está a uma certa distância do planeta, sua
órbita é influenciada pela posição do Sol. O planeta gira em torno do Sol, mas como a órbita do
satélite é em torno do planeta, para quem está no planeta o Sol parece girar em torno do planeta. A órbita do satélite entra em sincronia com a posição aparente do Sol, mantendo a parte
mais distante da elipse sempre apontada para o Sol. Esse efeito tem o nome de ressonância
de evecção [13]. Isto desestabiliza a órbita do Satélite. Então, para um satélite prógrado ser
capturado por um planeta ele precisa passar por esta etapa primeiro.
B.
Arrasto em Gás
Outro mecanismo que poderia provocar a captura permanente de um asteroide,
transformando-o em um satélite, é o arrasto em gás. O arrasto ocorre quando um objeto
se move em um meio viscoso, como por exemplo quando andamos dentro da piscina. Quando
o meio viscoso é um gás, chamamos esse mecanismo de arrasto em gás.
Este cenário poderia ter ocorrido após o planeta ter pego todo material disponı́vel que existia
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Fig. 12: Satélites prógrados, diferentemente dos retrógrados, precisam passar pela ressonância de evecção
antes de obedecerem a lei de Jeans FONTE: Vieira Neto et all., 2006 [11]
no Sistema Solar na época em que os planetas estavam sendo formados. Neste último estágio
de formação do planeta uma nuvem envolve o planeta como se fosse uma atmosfera estendida.
Asteroides que foram capturados gravitacionalmente pelo planeta nesse momento, sofreriam
arrasto na atmosfera estendida, perdendo energia e poderiam se transformar em um satélite.
Um problema com essa teoria é que o gás iria girar em torno do planeta e na mesma direção
da rotação do planeta. Os satélites retrógrados, que giram em direção oposta, decairiam muito
rápido, provavelmente caindo no planeta.
Uma solução para essa dificuldade é supor que o asteroide, em órbita retrógrada, chegue ao
planeta no momento em que a atmosfera estendida esteja se desfazendo [14]. Depois de um
certo tempo a atmosfera estendida irá decair, diminuindo o arrasto que o asteroide sofre. Desta
forma o momento em que o asteroide chega ao planeta é importante. Simulações mostraram que
os seguintes resultados podem ocorrer: (a) o asteroide pode recochetear na atmosfera atmosfera
estendida e nem passar perto do planeta, isto ocorre porque o asteroide chegou muito cedo nas
proximidades do planeta e o gás ainda estava muito denso; (b) o asteroide pode colidir com o
planeta, neste caso a densidade do gás não decaiu o suficiente, o satélite é freado muito rápido
e cai no planeta; (c) se o asteroide chega no momento certo a captura efetiva pode ocorrer; (d)
finalmente o asteroide pode chegar ao planeta em momento em que o gás tem uma densidade
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muito baixa, neste caso temos uma passagem direta.
Fig. 13: Asteroides sendo capturados gravitacionalmente por um planeta cuja atmosfera estendida esteja
decaindo. As simulações mostram os seguintes resultados: (a) recochete na atmosfera, (b) colisão com
o planeta, (c) captura efetiva, e (d) passagem direta FONTE: Vieira Neto e Winter, 2009 [14]
C.
Ruptura de Asteroides Binários
Nas duas teorias apresentadas, a captura dos satélites irregulares seria primordial à formação
do Sistema Solar e dependem das teorias de formação dos planetas. Vamos agora apresentar
uma teoria que não depende da formação dos planetas, a ruptura, ou separação, de asteroides
binários. Quando dois asteroides orbitam o centro de massa do sistema chamamos esse sistema
de asteroide binário.
Os número de asteroide binários descobertos ultimamente tem aumentado bastante [15], e
aparentemente, são bem mais comuns do que se pensava até recentemente. Além disso, novos
cenários de formação do Sistema Solar, como o modelo de Nice [16], pressupõe um momento
chamado de grande bombardeamento tardio, em que uma grande quantidade de asteroides
teriam passado próximo, e até mesmo colidido, com os planetas do Sistema Solar. Uma prova
de que esse bombardeamento existiu são as crateras da Lua. Essas crateras existem em vários
corpos do Sistema Solar e datam de uma mesma época.
Este modelo é chamado de quatro corpos, com o Sol, um planeta e os dois asteroides que
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forma o binário. No inı́cio o binário está em uma órbita em torno do Sol, até ser capturado
gravitacionalmente pelo planeta. Devido a grande perturbação do planeta na órbita binária
dos asteroides, eles se separam, ou rompem a ligação gravitacional que existia entre eles. Nesse
processo ocorrem uma série de trocas de energias. Um dos asteroides perde energia e não
consegue mais escapar da influência gravitacional do planeta. O outro ganha energia e é
rapidamente expulso da vizinhança do planeta. Se o asteroide que perdeu energia alcançar
um certo poço gravitacional, ele nunca mais irá sair da vizinhança do planeta e se tornará um
satélites desse planeta.
Fig. 14: Trajetória de captura e ruptura de asteroide binário. Existem três instantes importantes que
são mostrados na figura. Em T1 o par de asteroides é capturado. Em T2 ocorre a ruptura do par. Em
T3 o asteroide P1 escapa da influência gravitacional do planeta, enquanto o asteroide P2 se torna um
satélite do planeta FONTE: Gaspar et all., 2010 [17]
VI.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Expomos neste texto algumas das hipóteses mais recentes a respeito da formação dinâmica
dos satélites irregulares. Este problema ainda esta aberto, não existe uma solução fechada. À
medida que temos mais informações sobre o nosso Sistema Solar, e também informações dos
novos sistemas de planetas que estão sendo encontrados, poderemos melhorar nossas hipóteses
e chegarmos mais próximo da realidade.
Provavelmente os satélites irregulares são frutos não de um tipo de formação, mas talvez de
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uma combinação de hipóteses. Apesar de estarmos bem longe do tempo em que esses objetos
foram capturados por seus planetas, uma hipótese correta pode ser testada. Sabendo quantos
satélites irregulares existem atualmente e inferindo a quantidade de objetos que deveriam existir
no princı́pio através da massa atual do Sistema Solar e usando as hipóteses mais modernas de
formação do sistema solar, podemos ter um resultado favorável com o uso de uma hipótese
correta.
Assim é a ciência, a construção de modelos cada vez mais precisos de forma a podermos
olhar a natureza com os olhos da verdade.
VII.
BIBLIOGRAFIA
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Consequences”, Royal Society of London Philosophical Transactions Series A, 1977, v. 287, 545–
594
[3] eclipse99.nasa.gov/pages/faq.html
[4] en.wikipedia.org/wiki/Giant_impact_hypothesis
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[8] en.wikipedia.org/wiki/Galilean_moons
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[11] Vieira Neto, E.; Winter, O. C.; Yokoyama, T., “Effect of Jupiter’s mass growth on satellite capture
– The prograde case”, Astronomy & Astrophysics, 2006, v. 452, 1091–1097
[12] Jeans, J. H., “Astronomy and cosmogony”, New York: Dover, 1961, 1961
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Resonance and Its Connection to the Stability of Outer Satellites”, Mathematical Problems in
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[14] Vieira Neto, E.; Winter, O. C., “Gravitational Capture of Asteroids by Gas Drag”, Mathematical
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[15] Noll, K. S., “Solar System binaries”, in: Asteroids, Comets, Meteors, 2006, ed. L. Daniela, M. Sylvio
Ferraz, & F. J. Angel, v. 229, IAU Symposium, 301–318
[16] en.wikipedia.org/wiki/Nice_model
[17] Gaspar, H. S.; Winter, O. C.; Vieira Neto, E., “Irregular satellites of Jupiter: Capture configurations of binary-asteroids”, ArXiv e-prints, 1002.2392, 2010
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