Nascemos a ver ou aprendemos a ver?

Nascemos a ver ou aprendemos a ver?
A visão é uma função essencialmente aprendida pelos organismos superiores. Podemos dizer que o processo
de visão compreende a sensação e a percepção. A sensação consiste na apreensão de um estímulo vindo do
exterior sob a forma de luz, o qual entra no olho e incide na retina. A parte sensorial do processo da visão
compreende duas fases, uma física ou óptica e uma fase fisiológica ou bioquímica. Na fase física a luz
difundida pelo objecto entra no olho e através do cristalino incide na retina. Na fase fisiológica ou
bioquímica, as células sensoriais existentes na retina (cones e bastonetes) e demais células, recebem essa
luz e codificam-na em impulsos nervosos, os quais chegam ao cérebro . Uma vez no cérebro, os impulsos
nervosos são processados e interpretados em termos de contraste, cor, orientação, profundidade e outras
características que permitem a identificação da imagem real. Com a integração destes aspectos particulares
, o cérebro proporciona-nos uma representação simbólica do mundo exterior ( objecto visualizado). Esta
representação consiste numa imagem que aparece diante de nós exactamente no lugar em que julgamos
estar o objecto. A integração dos aspectos particulares e a sua representação em forma de imagem
constituem a fase psicológica ou perceptiva do processo de visão. (Fig.1)
Figura 1 - Esquemas que ilustram o caminho seguido pela informação visual , desde que é emitida até à sua
percepção na região central do cérebro
De forma a ilustrar que o processo de visão é essencialmente aprendido, observe com atenção cada
uma das imagens seguintes e indique o que vê em cada uma delas, compare os resultados com os de
outro observador.
Figura 2 – Imagens ambíguas – onde o todo é mais importante que as partes
(Adaptado de: “Sensación e Percepción”, Eddie Marrero, Universidade de Madrid)
AQ
De uma forma geral podemos dizer que o processo de visão, tal como outros processos de que
dispomos, é um mecanismo pelo qual transformamos a informação do mundo físico em informação
psicológica, este mecanismo inclui duas partes a sensação e a percepção a primeira mais de carácter
fisiológico e a segunda mais de carácter psicológico. A sensação é o processo pelo qual convertemos a
informação física em informação “nervosa”. A percepção é o processo pelo qual convertemos a
informação “nervosa” em informação psicológica. Ou seja, a percepção é o processo pelo qual a
informação sensorial é organizada e interpretada.
Existem várias teorias para explicar a percepção. Uma delas é a Teoria Gestalt . Esta teoria
defende que o todo é mais do que a soma das partes e reafirma que a percepção ocorre segundo algumas
regras: a mente completa o que falta (lei do fechamento) ; a mente agrupa o que for semelhante (lei da
similaridade) ; a mente agrupa o que estiver próximo (lei da proximidade), os objectos distantes se forem
simétricos agrupam-se (lei da simetria), a mente continua um padrão mesmo que este termine (lei da
continuidade) .
A percepção é pois, um processo que permite interpretar a informação recolhida por cada um dos
nossos olhos. Em geral, a informação recolhida por cada olho per si, não coincide, logo é a percepção
que ocorre no cérebro que justapõe essa informação parcelar para obter então a totalidade que
corresponde á representação do objecto visualizado (fig. 3) .
Figura 3 – Visão binocular proporciona a percepção dos objectos nomeadamente a percepção da sua
tridimensionalidade.
Um dos aspectos mais importantes no processo visual é a percepção da profundidade, ou seja a
percepção da tridimensionalidade do espaço que nos rodeia. Por este ser um processo aprendido existem
técnicas que são utilizadas pelos pintores e desenhadores para produzir o efeito de profundidade nas
suas pinturas e desenhos. Vejamos algumas delas:
No desenho em perspectiva (Fig.4) , as linhas paralelas
parecem que se unem ao fundo , este pormenor serve de
chave ao cérebro para gerar a noção de profundidade .
Figura 4 – Linhas paralelas que se unem para gerar no cérebro a noção
de profundidade. (Adaptado de: “Sensación e Percepción”, Eddie
Marrero, Universidade de Madrid)
AQ
O tamanho relativo dos objectos constitui outra técnica
para gerar no cérebro a noção de profundidade. Os
objectos mais próximos produzem na retina uma
imagem maior que os objectos mais pequenos. Esta
diferença de tamanho é aproveitada pelo cérebro para
adquirir a noção de profundidade (Fig.5).
Figura 5 – Tamanho relativo dos objectos gera no cérebro a noção de
profundidade.(Adaptado de: “Sensación e Percepción”, Eddie Marrero,
Universidade de Madrid)
A interposição de objectos constitui-se como outra
técnica, quando um objecto tapa parcialmente outro
entende-se que o que está oculto estará mais longe
(fig.6).
Figura 6 – Interposição dos objectos gera no cérebro a noção de
profundidade.(Adaptado de: “Sensación e Percepción”, Eddie Marrero,
Universidade de Madrid)
A existência de detalhes nos objectos mais próximos e a
sua ausência nos objectos mais distantes constitui-se
como chave de profundidade para o cérebro (Fig.7).
Figura 7 – Diferença de detalhes nos objectos gera no cérebro a noção
de profundidade. (Adaptado de: “Sensación e Percepción”, Eddie
Marrero, Universidade de Madrid)
A relação entre a fonte de luz e o objecto iluminado
e a respectiva sombra são outra técnica usada pelos
pintores e desenhadores para transmitir a noção de
profundidade (Fig.8).
Figura 8 –Os objectos e a representação da sua sombra , gera no
cérebro a noção de profundidade. (Adaptado de: “Sensación e
Percepción”, Eddie Marrero, Universidade de Madrid)
Para manter uma certa ordem no processo de percepção visual, o cérebro necessita de
constâncias percepcionais, isto é, o cérebro tem tendência a percepcionar algo mesmo quando as
informações sensoriais são contraditórias. A constância de tamanho , isto é o cérebro tende a
considerar o mesmo tamanho de um objecto próximo ou afastado , apesar do tamanho da
imagem na retina não ser igual . A constância da cor, ou seja, o cérebro consegue continuar a
percepcionar a mesma cor apesar de ocorrerem variações na intensidade luminosa
(reconhecimento de que para a mesma cor existem várias tonalidades).
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A constância na forma, quer dizer o cérebro infere que um objecto continua com a mesma
forma , apesar da alteração que sofre quando o visualizamos de ângulos diferentes .Esta
situação está esquematizada na figura seguinte (Fig.9).
Figura 9 – Constância na forma, apesar da porta estar desenhada sob diferentes perspectivas.
(Adaptado de: “Sensación e Percepción”, Eddie Marrero, Universidade de Madrid)
Por tudo aquilo que foi referido anteriormente, considera-se que a visão é um processo
essencialmente aprendido e porque sabemos quais as regras que consubstanciam a percepção, é
possível enganar o cérebro. Ao fenómeno no qual o cérebro se engana devido á visualização de
uma determinada imagem denomina-se ilusão. Este engano é meramente interpretativo já que
a informação sensorial que lhe chega é correcta!
A maioria das ilusões surge quando o cérebro tem que fazer inferências, partindo de informação
que pode parecer contraditória. As ilusões ópticas ou visuais podem ser geométricas, cromáticas
ou cognitivas.
Figura 10 – Exemplo de ilusões cromáticas, as figuras ao centro tem exactamente a mesma tonalidade.
(Adaptado de: “Sensación e Percepción”, Eddie Marrero, Universidade de Madrid)
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Figura 11 – Exemplos de ilusões geométricas
VERDE VERMELHO
AZUL AMARELO
CASTANHO LARANJA
VIOLETA BRANCO
(Tente dizer a cor e não a palavra, rapidamente)
Figura 12 – Exemplos de ilusões cognitivas
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