João Assis Rodrigues - Prograd

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Os estágios enquanto momento de formação e prática para o
exercício profissional do ensino de Filosofia e Ciências Sociais
O que constitui o fazer pedagógico dos estagiários e do
professor responsável do acompanhamento e avaliação dos estágios
em Filosofia e Ciências Sociais na UFES?1
A prática do professor em revista .
Antes de tudo é necessário dizer que o ensino de Filosofia apresenta
uma característica própria e uma natureza pedagógica polêmica e difusa. A
literatura acerca desse ensino nesse momento, em plena expansão, apesar de
não ser abundante, já expressa uma dupla complexidade: uma complexidade
enquanto campo cientifico e uma complexidade de torná-la objeto das ciências
da educação.
Na grade curricular das escolas, a Filosofia e a Ciências Sociais não têm
um estatuto de disciplina, não possuem um eixo temático ou mesmo uma
proposta curricular unificada. Tanto uma quanto a outra não são consideradas
disciplinas obrigatórias para as escolas. Além disso, geralmente, não podem
reprovar e raramente são colocadas na grade curricular com duas aulas
semanais para cada uma. Isso ocorre tanto na rede pública quanto na rede
privada de ensino.
Essas disciplinas, quando adotadas pelas escolas, funcionam,
geralmente, com uma única aula por semana. Temos, portanto, uma situação
com muitas especificidades, o que gera algumas dificuldades para
operacionalização do estagio curricular supervisionado para o curso de
licenciatura nas ciências aqui mencionadas. Assim, mesmo que a escola seja
grande, o orientador de estágio - UFES terá que contar com outras escolas,
geralmente, distantes para desenvolver seu trabalho com os estagiários. E
importante destacar que, mesmo em face dessas dificuldades, as atividades
desenvolvidas na disciplina Estagio Supervisionado em Filosofia e em Ciências
Sociais têm procurado adaptação a esse contexto de valorização do trabalho de
estagio, por meio de um projeto que prioriza o mergulho do estagiário no campo
escolar. Como o número de oportunidades junto ao aluno é reduzido, o estágio
torna-se, necessariamente, mais lento, assim como as oportunidades de
reunião com o professor na escola mais raras. Levando em consideração esses
problemas, o acompanhamento se faz na modalidade individual ou por duplas.
Mas o trabalho escrito sobre uma situação identificada pelo estagiário é
individual e sempre acompanhado de estudo bibliográfico. Esse trabalho
precede ao relatório final individual.
Apresentamos a seguir um quadro que resume as etapas e a distribuição
da carga horária de 120 horas nas duas disciplinas de Estágio Supervisionado :
1
Professor João Assis Rodrigues Mestre em Educação ufes, Mestre em educação Louvain e doutorando
em educação Louvain Bélgica.
1
Organização das atividades de estágio em filosofia e/ou ciências sociais
Periodo/ Semestr
Mês 1
32 horas
Semanas
1° e 2° semanas
3° e 4° semanas
Mês 2
32 horas
4 semanas
Mês 3
32 horas
4semanas
Mês 4
24 horas
1° e 2° semanas
3° semana
Atividades na Ufes
Aulas instrumentalização
na UFES
Definição
da
escola
prep. do plano de
trabalho
Uma reunião quinzenal
na
UFES
visitas
agendadas
aos
estagiários
Uma reunião quinzenal
na
UFES
visitas
agendadas
aos
estagiários
Seminários
avaliação
Ufes
Entrega e avaliação dos
relatórios
Atividades na Escola
Visita de conhecimento e
definição da escola. Encontro
com
os
responsáveis
pedagógicos
O estagiário se consagra
plenamente ao seu trabalho na
escola
Consagração plena ao estagio
na escola
Atividades
finais
de
encerramento dos estágios
Nos casos onde coincide de o aluno já trabalhar com a disciplina,
adotamos para esses alunos a modalidade de formação continuada. Nesse
caso, a lógica formativa é diferente. Não existe um programa a priori. E o aluno
quem coloca as necessidades, prepara seu projeto e gere seu processo. O
papel do professor orientador de estágio consiste em acompanhar e intervir no
sentido de elevar o nível de exigência no domínio dos conceitos, de situações
práticas e de pertinência teórico-prática.
Não são raros os casos em que temos que enfrentar. Um deles por
exemplo, o abandono da escola por parte do professor responsavel pela
disciplina na escola, o campo nos obriga a interromper o estágio na escola pois
não permitimos que o aluno estagiário substitua o profissional. Porque ele é um
aprendiz.
O que os alunos dizem apos a passagem pelo período de estágio.?
“O estágio não é experimentação, nem observação, nem aplicação. Ele é muito mais
que isso”. “O espaço de estagio nunca esta pronto é algo a ser construído.”
“O estágio é um período de vivência de forte aproximação e vivência do profissional. E’
co-responsabilidade”. “A carga horária de 120 horas não prepara o profissional.”
Dessa forma, os estágios em Filosofia e em Sociologia vêm se firmando
devagar e conquistando espaço dentro de uma conjuntura escolar ainda
“alérgica” a esses conhecimentos. Os sistemas escolares e também o mercado
de trabalho ainda não se abriram criando uma demanda real a esses
conhecimentos. Esses conhecimentos ainda não experimentaram a
“democracia brasileira”. Se o campo das experiências é limitado, é preciso,
ainda, considerar a especificidade do ensino noturno considerando as
condições de operacionalização do estágio noturno.
Pensamos que o período de experiência profissional do estagiário, tanto
em Filosofia quanto em Sociologia, merecem uma discussão urgente e não
apenas em nível dos setores institucionais que oferecem as disciplinas de fim
de curso. Essa discussão deveria ter como alvo os aspectos longitudinal e
integrativo que, por sua vez deveriam conduzir as reflexões no curso de
2
licenciatura em Filosofia e em Ciências Sociais, ja que a maioria dos
professores e dos alunos dos dois cursos aqui mencionados têm demonstrado
desconhecerem o contexto dessas experiências e o campo onde os estagiários
vão atuar. Mal sabem como funcionam essas “disciplinas” na escola. Por isso
promovem a formação teórica abstraída do universo ativo dos homens
(destituída de realismo) e portanto sem fugir ao iluminismo tradicional. O
estagio é visto pelo aluno como um momento mágico de realização da grande
metamorfose.
Ha ainda outros problemas muito ligados ao fato de que os nossos
cursos de licenciatura, não apenas os aqui mencionados, seguem um modo de
organização e funcionamento compartimentado. Assim, ha o problema da
quebra dos pré-requisitos. Sera que deveriamos ignorar as etapas
epistemológicas, os níveis de conhecimentos? Sera qu os estágios ofereceriam
a “formula magica”. Que prontifica o estagiário-professor para o exercicio da
profissão?2
Os cursos de Filosofia e Sociologia são cursos noturnos3. A quase
totalidade dos alunos da graduação trabalham em profissões diversas e cerca
de 50% dos alunos notadamente de filosofia, fizeram a reconciliação com o
ensino superior. Esses alunos estão disponíveis a realizarem seus estágios em
horário noturno (o que é óbvio). Ora, seguindo essa lógica, os coordenadores e
os colegiados de curso deveriam reconhecer a peculiaridade da formação e não
misturar o dia de estagio com aulas regulares do curso na UFES. A
concomitância de carga horária de estágio com a carga horária de aulas na
universidade tem sido um problema que obstaculiza grande parte do estagio e
os Departamentos de origem ainda não se atentaram para isso. Portanto o
nosso modo de tratar a formação do professor que repercute no espaço-tempo
de preparação, não favorece ao realismo da formação do profissional.
Além da problemática acima citada, colocamo-nos contrário a idéia de
uma expansão do numero de alunos para cada turma de estágio, sem que
primeiro discutamos qual filosofia da educação fundamentaria as praticas de
ensino/estágio, em quais condições e como as diferentes praticas se situariam.
Outras interrogações, não menos pertinentes, teriam que ser colocadas: são
elas:
- Até quando vamos assistir o descompasso ou a contradição entre o
aumento do número de alunos combinado com a diminuição do número
de professores?
- Como solucionar, de uma vez por todas, o problema do grande
número de professores substitutos4 que assumem a metade do volume
de aulas em certos departamentos da UFES?.
2
O curso de Ciências Sociais não considera a formação didática como necessária e preparatória ao
estagio. Mas ha outros cursos de licenciatura na UFES utilizando uma logica aleato’ria para a matricula
dos alunos nas cisciplinas do curso de licenciatura.
3 No ano de 2000 o curso de Ciências Sociais UFES passou a oferecer o curso para turmas regulares no
horário vespertino.
4 Não somos contra a existência de professores contratados, convidados o que repudiamos é o enorme
desfalque, a falta de recomposição dos quadros efetivos da UFES e a política de contratação temporária
mantida pelo governo federal que é, instável e que confere ao professor substituto um estatuto deplorável
e um salário de fome.
3
- Sob quais elementos teórico-metodológicos apoiaremos uma educação
onde a quantidade seja colocada a serviço da qualidade?
Penso que estamos apontando para uma problemática que evoca antes
de tudo a redefinição de paradigmas, de uma filosofia de educação institucional,
de novos rumos das licenciaturas no que tange a metodologias que envolvem o
fazer pedagógico num contexto de formação profissional.
Nessa direção entendemos que a compreensão dessa problemática que
a Universidade não esta desvinculada da redefinição dos rumos dos estágios,
da definição do número de alunos, da carga horária, de parcerias para o
exercício real dos estágios, bem como de requisitos necessarios que
assegurem ao estagiário para que ele não caia de pára-quedas nos e
consequentemente nas escolas. Acreditamos que os aspectos levantados se
colocam como fundamentais para nortearem discussões e formulações de
politica de formação de profissionais da educação em especial das areas de
Filosofia e Ciências Sociais para termos em perspectiva, o exercício de uma
educação com qualidade, articulada ao papel da Universidade. Ou seja, uma
formação não divorciada da pesquisa e da extensão.
Penso que é muito útil que nos reunamos com o objetivo de discutir
diretrizes e parâmetros que nos levem a mudanças efetivas e não apenas
remendos institucionais. Creio, também, que o nosso esforço de discussão nos
impulsiona a fazer a nossa parte. Que possamos discutir mudanças, apontando
novas propostas que constituam linhas norteadoras para um projeto pedagógico
e institucional que contribua efetivamente na qualidade da formação do
professor para atuar no ensino de Filosofia e Ciências Sociais.
João Assis Rodrigues Prof do Departamento de Didática e Pratica de Ensino
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