leishmaniose tegumentar americana: uma análise geográfica e

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LEISHMANIOSE TEGUMENTAR AMERICANA: UMA ANÁLISE NO TERRITÓRIO DO
RECÔNCAVO DA BAHIA
Ismael Mendes Andrade
Ramon Andrade de Souza
Maria da Paz dos Santos Neta 2
Leyla Vaccarezza Barbosa 2
RESUMO
A Leishmaniose Tegumentar Americana (LTA) é uma doença
infecto-parasitária não contagiosa de caráter zoonótico, causadas por
protozoários de várias espécies do gênero Leishmania, que acometem
o homem e diversas espécies de animais domésticos e silvestres. A
LTA é transmitida por flebotomíneos que vivem em locais de muita
umidade e são vistos geralmente nas horas sem luminosidade e pouca
movimentação de ar. Neste sentido, o presente artigo teve como
objetivo realizar uma análise geográfica da incidência dessa doença
nos municípios do Recôncavo da Bahia no período 2000 a 2009.
Utilizou-se como instrumento de pesquisa a análise quantitativa, os
dados foram disponibilizados pelo site do Sinan (Sistema de
Informação de Agravos de Notificação) do Ministério da Saúde e
foram geoprocessados no programa Terraview 3.3.1. Resultado da
análise mostrou que o índice de LTA esta relacionado com o micro
clima local, pois os municípios de maiores números estão distintos.
Palavras – Chaves: Leishmaniose Tegumentar Americana;
Geoprocessamento; Recôncavo; Geografia Médica.
INTRODUÇÃO
A Leishmaniose Tegumentar Americana (LTA) é uma doença infecto-parasitária não
contagiosa de caráter zoonótico, causadas por protozoários de várias espécies do gênero
Leishmania, que acometem o homem e diversas espécies de animais domésticos e silvestres.
A LTA é transmitida por flebotomíneos (Phlebotomus espécies) que habitam em áreas
tropicais e sub-áreas tropicais. Trata-se de uma doença que acompanha o homem desde
tempos remotos. A Leishmania é um protozoário pertencente à família Trypanosomatídae
com duas formas principais: uma flagelada ou promastigota, encontrada no tubo digestivo do
inseto vetor (flebotomíneos) e em outra aflagelada ou amastigota, como é vista nos tecidos
dos hospedeiros vertebrados (homem e outros animais).
Este trabalho tem como objetivo uma análise geográfica e epidemiológica da
Leishmaniose Tegumentar Americana no Território de Identidade do Recôncavo da Bahia. A
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escolha desse objeto de estudo partiu da necessidade de avaliar os índices de infectados pela
LTA nos municípios do Recôncavo, visto que o território do Baixo Sul, a sul do Recôncavo,
apresenta o maior índice de casos da doença no Estado da Bahia e no Recôncavo ela
também encontra ótimas condições geográficas para a sua propagação. Na figura 1 está
destacado o Recôncavo da Bahia, o qual recebe esse nome devido sua forma côncava dentro
da baía de todos os santos. O Recôncavo possui 21 municípios, sendo eles: Santo Antônio de
Jesus, Cruz das Almas, Sapeaçu, Dom Macedo Costa, Gov. Mangabeira, Muniz Ferreira,
Castro Alves, S. Sebastião do Passe, S. Francisco do Conde, Salinas da Margarida,
Cachoeira, São Félix, Muritiba, Varzedo, Saubara, Conceição do Almeida, São Felipe,
Nazaré, Maragogipe, Santo Amaro, Cabaceiras do Paraguaçu. Esses municípios foram
agrupados nesse território devido suas semelhanças produtivas, vistas a partir de análises
feitas pelo ministério de desenvolvimento agrícola pensando no desenvolvimento territorial dos
municípios.
Figura 1 - Mapa do Estado da Bahia com destaque do Território de Identidade do
Recôncavo.
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Fonte : Mapa elaborado no Terraview 3.3.1 por Andrade e Souza, 2009.
A Geografia Médica é um ramo que se origina da geografia humana com fatores sociais
e da geografia física com relações dos fatores físicos - geográficos. Desde Hipócrates (480
a.c), o “pai da Medicina” que buscava respostas para a origem da doença voltou sua atenção
para o estudo do espaço geográfico buscando informações dos fatores ambientais, sociais e
culturais relacionados com a ocorrência da doença, essas observações referentes à saúde e
ambiente, teve o papel conclusivo onde percebeu que é importante trata a doença, mas antes,
é melhor preveni-las. Esse entendimento vem desde antiguidade com o elo da geografia com
uma ciência importante para análise da saúde.
A referência da geografia médica sempre esteve presente nos estudos de geógrafos que se
interessa pelos os estudos do espaço geográfico e a epidemiologia da doença. Segundo
Lacaz ele refere à geografia médica com uma disciplina de estudo da patologia com estudos
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dos fatores geográficos, no entendimento de Lacaz os fatores geográficos são importantes
para a descoberta das causas da doença com interferência da ação humana. O autor diz:
A Geografia Médica é a disciplina que estuda a geografia das doenças, isto é, a patologia à
luz dos conhecimentos geográficos. Conhecida também como Patologia geográfica,
Geopatologia ou Medicina geográfica, ela se constitui em um ramo da Geografia humana
(Antropogeografia) ou, então, da Biogeografia. (LACAZ, 1972, p. 1).
Portanto, a Geografia Médica é resultado da interligação dos conhecimentos geográficos
e médicos, relacionado o homem e o meio, estabelecendo inúmeros pontos de contato com a
geografia e outras ciências que tem um papel importante na análise da distribuição da
Leishmaniose Tegumentar Americana no Recôncavo da Bahia.
A distribuição geográfica da leishmaniose é restrita a regiões tropicais e temperadas
onde existe o habitat natural dos flebotomíneos como a Floresta Amazônica e a Mata
Atlântica, que são locais úmidos e predominantemente com pouca luminosidade, assim como,
pouca circulação de ar. Estes elementos conjuntamente criam o ambiente favorável à
proliferação desses vetores. Nas Américas, a LTA é considerada uma zoonose primária de
mamíferos silvestres, todavia o homem faz parte desse círculo por de uma relação
heterotrópica desarmônica. Dessa forma, o homem adquire a infecção ao entrar em contato
com as áreas florestais onde existem os flebotomíneos que transmite a Leishmania. Entretanto
Barata (2000) afirma que:
As formas de ocupação do espaço agrário e também do espaço urbano determinaram
condições extremamente favoráveis para a ocorrência de doenças transmitidas por vetores
(...), Dentre as doenças transmitidas por vetores destacam-se nesse período a febre amarela,
a peste, a malária, as leishmanioses cutâneo-mucosas e a doença de Chagas. (BARATA,
2000).
Nesse contexto, destaca-se o predomínio da atividade agrícola na maioria do Território de
Identidade do Recôncavo, assim há uma maior concentração da população economicamente
ativa no setor. O fato citado contribui para o aumento de casos associados às condições
ambientais adequadas no Recôncavo. Sendo Assim, a LTA tem assegurada a sua distribuição
em todo o Território de Identidade, onde atualmente todos os municípios têm registros da
enfermidade.
Na região do Recôncavo há atividade predominante é agropecuária onde poderão
existir vetores que transmitem a doença. Lacaz (1972, p 23/24) cita que: “o clima e os
diversos fatores geográficos ou físicos (...) interferem de modo decisivo sobre os germes
produtores de infecções, bem como sobre os agentes animados de sua difusão”. Esses fatores
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climáticos são decisivos para a proliferação de doenças como exemplo os parasitas. Em
Lacaz ele reforça a importância do clima para a expansão da doença:
A temperatura, a pressão barométrica, a umidade relativa do ar, o índice pluviométrico, o
grau de nebulosidade, os ventos, etc. contribuem elementos dos mais importantes no
desenvolvimento de certos vectores, bem como no ciclo evolutivo de determinados
protozoários em numerosos artrópodes. (LACAZ, 1972:24).
O Recôncavo apresenta um índice chuva anual com valores que varia entre 300 a 500 mm,
um ambiente favorável a lavouras e pastagem. A quantidade e a intensidade de chuva,
temperatura e umidade são fatores importantes para os processos pedogenéticos, os quais
determinam à evolução do solo e estes são ideais para a procriação dos flebotomíneos. O
autor Lacaz 1972, trás uma visão da importância do índice pluviométrico que é um dos
fatores determinante para o surgimento de doenças. Ele diz que: “O índice pluviométrico, os
tipos de habitação, a hidrografia, a temperatura ambiente o grau de umidade e outros fatores
geográficos e meteorológicos interferem, com maior ou menor intensidade, nos nichos
ecológicos naturais”.
OBJETIVO
Analisar geograficamente a incidência de casos de LTA nos municípios do Recôncavo da
Bahia no período do ano 2000 a 2009.
MATERIAL E MÉTODOS
Os procedimentos da pesquisa constituem-se de uma análise quantitativa de
informações geográficas e epidemiológicas que foram adquiridas através do site do Sistema
de Informação de Agravos de Notificação (Sinan) em um estudo com base no
geoprocessamento dos dados por meio do programa TerraView 3.3.1. Na análise da
pesquisa inicialmente utilizou-se o índice oficial de infectados por ano em cada município do
território de Identidade do Recôncavo da Bahia para construção de mapas temáticos da
região, indicando o número de infectados em períodos do espaço de tempo do ano 2000 a
2009, a fim de fazer uma análise comparativa dos dados, observando a espacialidade dessa
doença nos municípios da região estudada. No TerraView foram realizados os seguintes
passos: criação do banco de dados, importação dos dados vetoriais, criação de tema
indicando os municípios do Recôncavo, nos dados vetoriais foram incluídas colunas para
representar a incidência da doença por ano em cada município. O resultado final foram mapas
temáticos do Território de Identidade do Recôncavo da Bahia representando o número de
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casos registrados dessa doença na região no ano 2000, no período de 2001 a 2003, 2004 a
2006, 2007 a 2009 e 2000 a 2009, essas variações foram representadas a partir de legendas
com valor único.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
A análise dos dados de pessoas notificadas com LTA no Território de Identidade do
Recôncavo conforme as figuras 2, 3, 4, 5 e 6 mostram a quantidade de pessoas infectadas
pela doença por município. Na figura 2 os municípios com maior índice casos registrados de
LTA no ano 2000 são Cachoeira, em primeiro lugar com 50 casos, e em seguida Santo
Antonio de Jesus com 10 casos, podendo estar relacionado com o micro clima da região.
Figura 2 – Mapa de notificados por LTA no Território de Identidade do Recôncavo da
Bahia no ano 2000.
Fonte : Mapa elaborado no Terraview 3.3.1 por Andrade e Souza, 2009.
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A LTA no Recôncavo tem poucas notificações de casos, pois, a depender das
características do micro clima e do tipo de solo a doença tende a aumentar ou diminuir em
certas áreas da região. Na figura 3 o número maior de pessoas que tiveram LTA no período
do ano 2001 a 2003 novamente foi o município de Cachoeira com 53 casos, uma redução, já
que em apenas um ano (ano 2000) ela teve 50 casos, seguida do município de Santo Amaro
com 41 casos, uma elevação já que no ano 2000 foram apenas 4 casos. Merecem destaque
também com nenhuma notificação de caso os municípios de Conceição do Almeida e São
Felipe.
Figura 3 – Mapa de notificados por LTA no Território de Identidade do Recôncavo da
Bahia no ano 2001 a 2003.
Fonte : Mapa elaborado no Terraview 3.3.1 por Andrade e Souza, 2009.
Conforme a figura 4 (período do ano 2004 a 2006) o maior número de pessoas infectadas
continua no município de Cachoeira com 55 casos, seguido de Santo Amaro com 21 e Santo
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Antônio de Jesus com 16, sem nenhum caso aparecem os municípios de São Francisco do
Conde, Saubara e Cabaceiras do Paraguaçu.
Figura 4 – Mapa de notificados por LTA no Território de Identidade do Recôncavo da
Bahia no ano 2004 a 2006.
Fonte : Mapa elaborado no Terraview 3.3.1 por Andrade e Souza, 2009.
Sob a figura 5, referente ao período do ano 2007 a 2009 muda o município com o maior
numero de pessoas infectadas pela LTA onde Santo Antônio de Jesus fica em primeiro lugar
com 24 registros de pessoas com a doença, seguido por Cachoeira com 19, municípios sem
nenhum registro no período são Cabaceiras do Paraguaçu, Sapeaçu, Cruz das Almas,
Saubara, São Francisco do Conde e São Sebastião do Passé.
Figura 5 – Mapa de notificados por LTA no Território de Identidade do Recôncavo da
Bahia no ano 2007 a 2009.
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Fonte : Mapa elaborado no Terraview 3.3.1 por Andrade e Souza, 2009.
Entretanto ao analisar o período do ano 2000 a 2009 conforme mostra a figura 6 os
municípios que tem maiores registros de casos da doença são Cachoeira com 177 casos,
Santo Amaro com 84 e Santo Antônio com 74. Alguns municípios como Sapeaçu, São
Francisco do Conde e São Sebastião do Passé tiveram apenas 2 casos cada um neste
período de tempo. Os outros municípios tiveram um numero pequeno de casos entre três e
dezoito casos.
Ao observar a figura 6 com o número de casos deste período pode ser constatada a urgência
em diagnosticar o foco da causa do grande número de casos em Cachoeira, Santo Amaro e
Santo Antônio de Jesus, visto que esses foram os municípios que apresentaram as três mais
quantidades de registros. É de fundamental importância também ser observado a necessidade
de Políticas Públicas contra a Leishmaniose e além de um atendimento diferenciado aos
infectados com a doença.
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Figura 6 – Mapa de notificados por LTA no Território de Identidade do Recôncavo da
Bahia no ano 2000 a 2009.
Fonte : Mapa elaborado no Terraview 3.3.1 por Andrade e Souza, 2009.
CONCLUSÕES
A partir da análise geográfica e epidemiológica nos municípios do Recôncavo sobre a LTA
torna-se perceptível que existe um pequeno índice de pessoas infectadas, podendo ser
relacionadas ao contato do homem com o meio. Lacaz (1972) traz um amplo esclarecimento
das problemáticas ambientais provocadas pelo homem, ele salienta que numerosos obstáculos
dificultam adaptação do homem a determinado ambiente, pois existem várias problemáticas
do ser humano com a natureza, por exemplo, as doenças.
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Os índices de pessoas com a doença no Recôncavo podem estar relacionados ao micro clima
de cada município associado ao tipo de atividade economicamente exercida, como na maioria
do Recôncavo são atividades agropecuárias, deve se observar esse fator devido às influencias
dessas atividades na natureza, como no caso do desmatamento, que expulsa as espécies do
seu ambiente para outros locais ou adaptam ao mesmo local.
Vale ressaltar que este estudo não teve como objetivo um diagnostico das causas da
propagação da doença no Recôncavo, mas, uma análise dos municípios com altos índice de
casos, para a partir daí planejar uma Política Pública contra a Leishmaniose no território em
estudo. Em vista desse resultado, avaliações mais aprofundadas dos fatores sócias ambientais
e pesquisa in loco deverá contribuir de forma mais direta para entender de como os vetores
tem o contato com o ser humano e qual a melhor forma para prevenir. Devera ser levado em
conta a as transformações antrópicas no ambiente, em meio à natureza onde os flebotomíneos
estão mais presentes.
REFERÊNCIAS
ABNT. Associação Brasileira de Normas Técnicas. NBR 6023 - Informação e
documentação Referências – Elaboração Rio de Janeiro: AABT. Agosto de 2002.
Barata, Rita (org.) & Lión R.B. Doenças endêmicas: abordagens sociais, culturais e
contemporâneas, Rio de Janeiro: Editora Fiocruz, 2000.
Barata, Rita; Cem anos de endemias e epidemias, Ciência & Saúde Coletiva;
Volume 5, Número 2, 2000.
Basano, Sergio &, Camargo, Luís. Leishmaniose tegumentar americana: histórico,
epidemiologia e perspectivas de controle, Revista Brasileira de Epidemiologia;
Volume 7, Número 3. 2004.
Lacaz, Carlos; Baruzzi, Roberto &. Siqueira, Waldomiro. (org.). Introdução à Geografia
Médica do Brasil, São Paulo: Edgard Blucher/Edusp, 1972.
Silva, Luiz. O conceito de espaço na epidemiologia das doenças infecciosas, Rio de
Janeiro: Caderno de saúde Pública, 1997.
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