Polis e Psique, Vol.1, n1, 2011 P á g i n a | 169 O sujeito cerebral: um esboço histórico e conceitual (original em Francês, Le Sujet Cérébral, publicado na PSN, volume III, numéro 11, janvierfévrier 2005) El sujeto cerebral: un esbozo histórico y conceptual The cerebral subject _ an historical outline on the anthropology of "brainhood" Fernando Vidal Instituto Max Planck de História das Ciências, Berlim, Alemanha. Resumo Desde meados do século XX, numerosos discursos e práticas, dentro e fora das disciplinas científicas e filosóficas, têm apresentado o desenvolvimento da noção de ser humano como um „sujeito cerebral‟. O cérebro é concebido como a única parte do corpo que devemos possuir, e que deve ser nossa, para que sejamos nós mesmos. Já que a personalidade é a qualidade ou condição para ser considerado um indivíduo, a „cerebralidade‟ é, dessa forma, a qualidade ou condição de ser um cérebro. Esta propriedade define o sujeito cerebral. A antropologia da „cerebralidade‟ pode parecer uma conseqüência natural do progresso das neurociências – mas procede de desenvolvimentos das filosofias da matéria e da identidade pessoal do século XVII. As neurociências confirmam e reforçam esta perspectiva. O autor delineia a narrativa histórica relacionada ao desenvolvimento do sujeito cerebral assim como alguns temas contemporâneos que surgem a partir das neurociências. Palavras-chave: Cerebralidade, Corpo, Identidade Pessoal, Sujeito Cerebral Resumen Desde los medios del siglo XX, numerosos discursos y prácticas, adentro y afuera de las disciplinas científicas y filosóficas, han demostrado lo desarrollo de la noción de ser humano como un 'sujeto cerebral'. El cerebro es concebido como la única parte del cuerpo que debemos poseer y que debe ser nuestra para que seamos nosotros mismos. Como la personalidad es la cualidad o condición para ser considerado un indivíduo, la 'cerebralidad' es así la cualidad o condición de ser un cerebro. Esta propiedad define el sujeto cerebral. La Polis e Psique, Vol.1, n1, 2011 P á g i n a | 170 antropología de la 'cerebralidad' puede parecer una consecuencia natural del progreso de las neurociencias – pero procede de los desarrollos de las filosofias de la materia y de la identidad personal del siglo XVII. Las neurociencias conferman y fortalecen esta perspectiva. El autor delinea la narrativa histórica relativa a lo desarrollo de lo sujeto cerebral así como unos temas de las neurociencias. Palabras clave: Cerebralidad, Cuerpo, Identidad Personal, Sujeto Cerebral Abstract Since the middle of the 20th century, numerous discourses and practices, both within and outside scientific and philosophical disciplines, have manifested the development of the notion of the human being as a cerebral subject. The brain appears to be the only organ of the body that we need, and that has to be exclusively ours, in order for each individual to be himself or herself. Since personhood is the quality or condition of being an individual person, brainhood is thus the quality or condition of being a brain. This property defines the cerebral subject. The anthropology of brainhood may seem a natural consequence of progress in the neurosciences. However, it is rooted in 17th-century developments in the philosophies of matter and personal identity. The neurosciences confirm and reinforce this perspective. The author outlines the historical narrative concerning the development of the cerebral subject as well as some contemporary issues arising from the neurosciences. Keywords: Brainhood, Body, Personal identity, Cerebral subject “Ele Jonathan pensa, Keats, logo um ele artista vende”. de São lhe outorga a lei sobre a propriedade intelectual Francisco, registrou os direitos de seu (http://cnewmark.com/keats.html; cérebro como se esse fosse uma escultura 2003). Menos lúdicos, alguns de seus fabricada pelo pensamento, depois colocou compatriotas seguem a última moda em seus neurônios à venda no mercado, matéria de criogenia: congela-se o cérebro lançando uma unicamente, que permanece desse modo a apresentação pública de imagens digitais espera do dia em que ele poderá ser posto de seu cérebro em atividade. Keats espera em funcionamento para sempre. É a reunir fundos suficientes para cobrir o chamada custo de manter o órgão em funcionamento (http://www.alcor.org/FAQs/faq02.html#n pelo menos 70 anos após sua morte, o que europreservation). A idéia não é totalmente seu negócio com Singel. „neuropreservação‟ Polis e Psique, Vol.1, n1, 2011 P á g i n a | 171 nova. Em um conto de 1960, Roald Dahl antropológica, cuja importância não cessa relata como William, agonizando, escolhe de aumentar desde meados do século XX, sobreviver sob a forma de um cérebro e cujas manifestações se multiplicam fora flutuante em uma solução, com um globo das disciplinas mais diretamente afins. ocular afixado para continuar a ler o jornal Estaríamos tentados a atribuir suas origens (Dahl, 1979). Encontra dificuldade de fazê- ao lo, visto que sua mulher faz a partir de Gostaríamos, entretanto, de sugerir um então diante “dele” todas as coisas que o percurso inverso. A idéia de que somos desagradam... No que concerne o modo de essencialmente nosso cérebro precede o sobrevida de seu herói, Dahl utiliza tão desenvolvimento das neurociências para somente um motivo já corrente na ficção. enraizar-se nas filosofias da matéria e da Ora, mesmo que, uma vez que estão vivos, identidade pessoal do fim do século XVII. nem os personagens reais, nem os fictícios Desde o século XIX, dados científicos se apercebem como estando literalmente parecem corroborá-la. Nos anos 60, as reduzidos ao cérebro, é conservando-o que ficções relativas ao cérebro tornam-se um eles esperam sobreviver. instrumento aparentemente incontornável progresso das neurociências. O cérebro é reconhecido como para filosofar sobre a identidade pessoal. É sendo a única parte do corpo que devemos mais ou menos desta época que podemos possuir, e que deve ser nossa, para que datar o predomínio da „cerebralidade‟ sejamos nós mesmos; ele aparece como o como único órgão indispensável a existência do humano, bem como do sujeito cerebral eu e a manutenção da identidade pessoal. como figura antropológica. A utilização Ocorre com ele algo diverso do que com o das ficções filosóficas sobre o cérebro resto do corpo. Se transplantarmos o coincide cérebro de A para o corpo de B, não é B crescimento que recebe um novo cérebro, mas A que institucional e financeiro da pesquisa ganha um novo corpo. É na medida em que neurocientífica, e com a percepção de que o cérebro define a pessoa, que somos um se trata de um dos domínios mais decisivos sujeito cerebral. Existe aqui muito mais do para o futuro da humanidade. Esta que um jogo de artista conceitual ou de convicção afirma-se cada vez mais. uma fantasia de loucos por eternidade. anos 90 foram o Decênio do Cérebro; O que acabamos de nomear sujeito cerebral impõe-se como uma figura propriedade definidora cronologicamente do peso do com ser o simbólico, Os acreditando-se em Jean Pierre Changeux, o século XXI será o século (Changeux, Polis e Psique, Vol.1, n1, 2011 P á g i n a | 172 2000). Diversas tentativas emergem para neuroética distingue-se pelo fato de não se captar limitar a pesquisa das bases neurológicas os fundamentos cerebrais de fenômenos individuais ou sociais, como do para aproximar as ciências humanas das acentua as conseqüências éticas, sociais, neurociências ou pensar os numerosos legais e mesmo políticas dos saberes problemas levantados por essas últimas. neurocientíficos (Blank, 1999, Marcus, Com efeito, as disciplinas „neuro‟ comportamento moral; antes, ela 2004). se multiplicam. O prefixo existe desde o Nenhum desses domínios é século XVI tal qual, mas o termo homogêneo e, apesar de suas tendências „neurociências‟ reducionistas nasce nos anos 60. e córtico-cêntricas, bem Palavras análogas seguiram-se, e falamos como sua confiança algumas vezes acrítica hoje não somente de neuropediatria, de frente às técnicas de imagem cerebral, eles neuropsiquiatria, ou de neurogerontologia, tendem a pesquisar na interdisciplinaridade de neurolingüística, ou de neuropsicologia, e mas Diferentemente também, pouco neurofilosofia, a pouco, de no diálogo entre as interessadas disciplinas. estão as neuroeducação, empresas com o objetivo lucrativo, como a neuroestética, neuroética, neuroeconomia, neurotecnologia, o neurofitness ou a neuroteologia, neuropsicanálise... Mesmo neuropreservação já mencionada. Ora, que estas áreas tornem-se autônomas ou todos são sinais não somente da presença permaneçam como zonas de intersecção ou das de interação entre as neurociências e as contemporânea, mas também de uma ciências humanas, seus nomes são por si progressão notável na cerebralização do próprios significativos. Eles desvelam o sujeito. É o desenvolvimento desse sujeito poder cerebral que eu gostaria aqui de discutir em publicitário e legitimador das atividades que chamam para si as ciências do cérebro. Ao mesmo tempo, neurociências na cultura uma perspectiva histórica. a nomenclatura em voga declara a novidade A alma e o cérebro dos desafios que lançam as neurociências e a esperança que elas levantam de chegar a Primeiramente, convém diferenciar compreender os fundamentos neuronais a questão do sujeito cerebral daquela das dos processos estudados pelas ciências relações entre alma e o corpo. Para humanas, até mesmo de remanejar essas se simplificar podemos dizer que, na história apoiando no conhecimento do cérebro. A das idéias concernente a essas relações, Polis e Psique, Vol.1, n1, 2011 P á g i n a | 173 houve no mundo cristão ocidental dois sensitivas, motoras momentos teóricos principais (aristotélico plantas somente as últimas. Mas todos são e “animais” com corpos providos de uma pós-aristotélico) e uma tradição fisiológica derivada de Galeno. e vegetativas; as alma; eis porque até o fim do século XVII, o termo „psicologia‟ (já utilizado em torno A alma como forma e a alma racional de 1570) designa uma ciência genérica dos seres vivos (Vidal, 2006). De acordo com um esquema que A alma intelectual ou racional prevalece até o fim do século XVI, a alma levanta problemas particulares. Aristóteles (psukhè, anima) está definida nos termos fala de uma “inteligência ativa” separável, de Aristóteles, como a “forma” de um imortal e eterna. Esta noção de aparência corpo natural que tenha vida em potência pouco Aristotélica engendra intermináveis (Aristóteles, 1966; 412a20). Ela é um debates. Entretanto, no século XIII, a igreja princípio de vida que permite a realização declara que alma é uma substância das potencialidades de certos tipos de indivisível e que a alma racional é per se et matéria e não pode realmente ser separada essentialier a “forma” do corpo. Mais do corpo. Se o olho fosse um animal tarde, com a desintegração dos quadros completo, diz Aristóteles, “a vista seria a aristotélicos, alma dele”; ora, o olho “é a matéria da responsável pelas funções vegetativas, visão e essa desaparecendo, ele não é mais nutritivas e sensitivas e, como na filosofia um olho, se não por homonímia como um de René Descartes (1596-1650), ela torna- olho de pedra ou desenhado” (Aristóteles, se igual ao espírito (mens) ou alma 1966, 412b20). Assim concebida, a alma é racional. Essa transformação do conceito responsável por todas as funções essenciais de alma torna problemática as relações dos seres vivos. Essas são tradicionalmente entre alma e corpo. definidas como faculdades: vegetativas Nos (nutrição, crescimento e reprodução), enumeramos a alma séculos três cessa XVII posições de e ser XVIII, principais sensitivas e motoras (sentidos externos e (Baertschi, 1992). De acordo com o internos, movimento físico e faculdade sistema da „influência física‟, as duas apetitiva), e racionais ou intelectivas substâncias agem materialmente uma sobre (Wright, Potter, 2000). O ser humano a outra. No „ocasionalismo‟ do padre possui todas essas faculdades; os animais Nicolas Malebranche (1638-1715), Deus é não o agente causal de seu laço: quando a alma humanos possuem apenas as Polis e Psique, Vol.1, n1, 2011 P á g i n a | 174 quer fazer mexer o corpo, Deus o faz se quatro elementos e suas qualidades (o mexer. Finalmente, Gottfried Wilhelm fogo/quente, o ar/frio, a água/úmida e a Leibniz (1646-1716) compara a relação da terra/seca). Suas combinações e dosagens alma e do corpo àquela de dois pêndulos no corpo constituem “temperamentos”; perfeitamente sincronizados, regulados por esses determinam a personalidade e as uma „harmonia preestabelecida‟. Tende-se capacidades do indivíduo, como declara o então a diferenciar o postulado da união título do influente tratado galênico, Quod alma-corpo da questão das modalidades animi empíricas de seu “comércio”. Enquanto sequantur que a união é aceita como um fato, acompanham os temperamentos do corpo) misterioso em si próprio, mas confirmado (Galeno, 1995). O ser humano é um pela fé, a razão e experiência, a interação composto de duas substâncias, o corpo e a ou commercium tornam-se um objeto alma ligados intimamente entre si e em próprio da psicologia empírica tal qual ela constante interação. se desenvolve no século XVIII (Vidal, 2006). mores (As corporis temperamenta faculdades da alma Resta explicar esta interação. O corpo segundo Galeno comporta três sistemas: o cérebro e os nervos, o coração e as artérias, o fígado e as veias. O sangue A tradição fisiológica de Galeno formado no fígado é transportado pelas A despeito das diferenças veias para o resto do corpo, onde ele serve os momentos a nutrição e ao crescimento sob a forma de aristotélicos e pós-aristotélicos, a maneira um „espírito natural‟. Após misturar-se ao de conceber a interação da alma e do corpo ar nos pulmões e passado no coração ele se repousou durante numerosos séculos sobre transforma em dois tipos de pneuma: uma as teorias fisiológicas de Galeno, filósofo e parte torna-se „o espírito vital‟ de que médico grego do século II (Temkin, 1973). dependem as funções vitais e locomotoras; Apoiando-se em a outra dá ao cérebro „o espírito animal‟ Hipócrates, médico nascido necessário as sensações e as funções aproximadamente em 460 a.C., Galeno intelectivas. As qualidades (temperatura, define a saúde como o equilíbrio entre os densidade, etc.) desses espíritos procedem quatro fluidos ou “humores” do corpo: o dos humores, em particular do sangue: se sangue, a bile amarela, a bile negra e a esse é muito frio, os espíritos animais fleuma. Esses humores são compostos por correm o risco de assim o serem e os atos fundamentais entre idéias atribuídas grego Polis e Psique, Vol.1, n1, 2011 P á g i n a | 175 mentais que deles dependem serão então Kemp, 1990). O cérebro preenche a função fracos e lentos. essencial de fabricar e de guardar os Localizadas nos ventrículos espíritos animais, mas são esses espíritos cerebrais entre os quais circulam os por si mesmos, e o temperamento no seu espíritos animais, as faculdades articulam- conjunto, que ditam o caráter e as aptidões se entre si a partir do princípio de que nada de uma pessoa. Exemplar desta tradição é há no intelecto que não tenha passado o célebre „Exame de engenhos pelas primeiro pelos sentidos. Os dados dos ciências‟. Seguindo o Quod animi mores, o sentidos externos (visão, audição, paladar, médico espanhol Juan Huarte de San Juan tato e olfato) estão reunidos por um dos (1530?-1592) sentidos internos, correspondências entre o úmido e a (sensus communis), o “senso comum” colocando estabelece aí as em memória, o seco e o entendimento, o funcionamento a memória, bem como a quente e a imaginação, e delas tira imaginação sob suas formas passiva e ativa conselhos e prescrições concernentes as (via imaginativa, fantasia) (Figura 1). atitudes e as inclinações individuais, bem Sobre a base das imagens sensíveis assim como os ofícios (dos mais humildes aos geradas, o intelecto forma os conceitos e mais elevados) aos quais convém a cada realiza suas outras operações específicas um se consagrar em função de seu (Clarke, Dewhurs, 1972; Harvey, 1975; temperamento (Huarte,1989). Polis e Psique, Vol.1, n1, 2011 P á g i n a | 176 Descartes, anatomista e médico inglês, O órgão da alma postula a localização distribuída das Nos séculos XVII e XVIII, o faculdades da alma. A imaginação momento em que a teoria humoral perde sendo uma ondulação dos espíritos do sua importância, os nervos, concebidos centro como fibras sólidas e elásticas ou como circunferência, tem sua sede no corpo tubos ocos tornam-se os intermediários caloso. entre a alma e o corpo. Seu hipotético espíritos impulsionados da periferia ponto de convergência no interior do para o centro; sua sede é então no cérebro é freqüentemente considerado córtex. A coordenação sensorial é feita como “sede da alma”, quer dizer, não no corpo estriado. Colocado entre a um lugar em que a alma se encontraria mencionada medula oblonga (mais ou materialmente, mas o órgão onde ela menos nosso tronco cerebral) e o corpo interage com o corpo. Para Descartes, a caloso, o corpo estriado recebe as alma suas impressões que sobem para o cérebro e funções junto à glândula pineal. Pelo constitui a via pela qual os espíritos fato dela não ser dupla, a epífise é animais descem para as extremidades escolhida como o órgão onde as (Willis, 1978). exerce “imediatamente” do A cérebro memória para depende sua dos impressões transmitidas pelos órgãos Os dois modelos se confrontam sensoriais (sempre duplos) reúnem-se ao longo do século XVII. No que se em uma única percepção. De acordo referem à sede unitária da alma, os com a tese cartesiana, os espíritos dados principalmente anatomoclínicos, animais circundam a glândula pineal. vem no apoio de várias localizações: o Quando a alma quer recordar-se de corpo caloso, o centro oval, as paredes alguma coisa, sua vontade faz com que dos ventrículos. Mas a diversidade das a glândula mova os espíritos até que teorias e o caráter pouco sólido das eles encontrem os traços do objeto em provas justificam a opinião de Albert de questão explica Haller (1708-1777) em uma carta à Descartes, formam-se pelo alargamento Charles Bonnet datada de 22 de janeiro dos poros da glândula sob o efeito da de 1771: colocando a sede da alma passagem globalmente (as dos recordações, espíritos animais) na massa branca do (Descartes, 1649, 1664). Thomas Willis encéfalo, estima-se que se em razão do (1621-1675) caráter indivisível da alma, “a Filosofia contrariamente a Polis e Psique, Vol.1, n1, 2011 P á g i n a | 177 favorece uma parte única, é indubitável razões que a anatomia não diz nada sobre esse examinado assunto” (Bonnet, 1766, p. 90). Wright, Church, Hager, 1992, Brazier, Nos dois prevalece como casos, o cérebro órgão do eu. O técnicas, difícil para cientificamente ser (Begley, 1988, Clarke, O‟Malley, 1968, Finger, 1994). A cerebralização do ou materialismo não necessita disso. De neurologização psiquismo, fato não é entre os materialistas das levemente avançada nas psicologias das Luzes que encontramos as expressões Luzes, não se origina, portanto dos mais completas sobre o sujeito cerebral conhecimentos sobre a função e a nascente. Por exemplo, Julien Offray de estrutura do cérebro, mas da corrente La Mettrie (1709-1751) explica que se a que os precede, em direção a uma sede da alma tem uma certa extensão ou antropologia da cerebralidade. se a alma tem diferentes sedes no cérebro, então ela não é inextensa e não Das origens do sujeito cerebral: o ser existe enquanto substância imaterial (La humano na tradição cristã Mettrie, 1987). Mas é acreditando na alma que ainda durante certo tempo Apesar da importância que elaboram-se as psicologias empíricas. atribuem ao cérebro, não são nem a Dois dos mais importantes pensadores fisiologia galênica, nem a psicologia do psicológicos das Luzes, o escocês David século Hartley (1705-1757) e o genebrino emergência do sujeito cerebral. A fim Charles são de compreender os fatores científicos e cristãos convictos. Ora, precisamente filosóficos que conduzem a ela, convém porque eles aderem à definição do ser lembrar que o cristianismo repousa humano como composto de alma e de sobre o dogma da Encarnação. Houve corpo, o certamente debates sobre a natureza do funcionamento mental enfatizando o corpo de Cristo e sobre a relação exata papel do cérebro e dos nervos como entre suas duas naturezas, humana e sede da alma e como elo entre as duas divina. Entretanto, conforme a posição substâncias (Bonnet, 1760, Hartley, que se tornou oficial, o Cristo é, ao 1967). de mesmo tempo, Deus e um homem o dotado de um corpo humano. Eis cérebro permanece, largamente por porque é inexato dizer que conforme a Bonnet (1720-1793) procuram compreender Trata-se, neuropsicologias porém, conjecturais e XVIII que determinam a Polis e Psique, Vol.1, n1, 2011 P á g i n a | 178 tradição cristã, “ser humano significa canibal ser um espírito encarnado [embodied posteriormente mind]” (Porter, 1992, p. 212). O humanos? As respostas variam no cristianismo postula que o homem é decorrer dos séculos, mas todas insistem feito de corpo e alma, mas não admite na identidade do corpo terrestre e do que a pessoa possa existir de outro corpo modo que não somente composto por indispensável essas duas substâncias. O homem não é ressuscitados. Não se concebe uma simplesmente alguém que tem um pessoa sem o corpo inteiro, nem a corpo, mas alguém cuja existência é identidade corporal (Bynum, 1995, Keenan, 1994, corporal. Vergote, 1979). ou por um comido espiritual pelos como à animal seres condição identidade pessoal sem dos identidade Esta antropologia é questionada A conseqüência mais radical de no fim do século XVII. Observa-se tal antropologia concerne à ressurreição então uma desencarnação relativa da dos corpos. A história dos debates sobre noção de pessoa, uma psicologização da esta doutrina ilustra admiravelmente a identidade pessoal e uma focalização origem e as implicações do sujeito crescente do corpo sobre o cérebro. De cerebral (Vidal, 2002). Ressuscitando, uma supõe-se que cada um de nós retome corpuscular da matéria, essa é uniforme seu e próprio corpo. Derivam daí parte, formada conforme por a partículas filosofia cujos problemas complexos, mesmo além da “acidentes” mecânicos (tais quais o questão de saber como o corpo se movimento ou a posição no espaço) reformará e será “o mesmo” apesar das explicam todos os fenômenos naturais. novas propriedades que o tornam Na medida em que as coisas não “espiritual”. Cristo tendo declarado que diferem pelos “nenhum cabelo de sua cabeça será materiais últimos, perdido” (Lucas 21. 18), os teólogos transformar, d‟Origenes Santo condições, em não importa qual outra Agostinho e São Tomás de Aquino coisa. Aplicada a ressurreição, uma tal perguntam-se filosofia e Atenágoras onde a terminará a seus elas em implica componentes podem se determinadas que um corpo substância do corpo terrestre. Para que ressuscitado (e conseqüentemente uma corpo, por conseguinte, retornará a pessoa) não necessita ser formada pela carne de indivíduo devorado por um mesma matéria que o corpo terrestre Polis e Psique, Vol.1, n1, 2011 P á g i n a | 179 correspondente para poder ser dito “o „pessoa‟ (sinônimos em Locke, § 26), mesmo”. material não diremos mais que somos um corpo, perde-se enquanto elemento constitutivo mas que temos um corpo. Objetivado e da identidade pessoal. distanciado do eu, o corpo revela-se ser, A continuidade na perspectiva do “individualismo possessivo”, uma coisa que possuímos e A pessoa e seu cérebro não mais o que somos (Taylor, 1989). Por outro lado, em 1694, na A identidade pessoal torna-se „Ensaio assim psicológica e independente da segunda edição de seu concernente ao entendimento humano‟ identidade corporal. (Locke, 1951), John Locke (1632-1704) desencarnação não é total. Na medida distingue o „homem‟ da „pessoa‟, e em que a pessoa depende da memória e define a identidade dessa como uma da consciência, o cérebro é a única parte continuidade da consciência e memória. do corpo de que ela necessita para ser Se a consciência de uma pessoa ela mesma. Bonnet, cujo retrato o permanecesse fixa ao seu dedo mínimo mostra meditando sobre a vida futura enquanto esse é separado do resto do [Figura 2], retira daí as conseqüências corpo, para Locke é “evidente que o para a doutrina da ressurreição. Ele dedo mínimo seria a mesma pessoa” (§ especula que nossos cérebros abrigam 17); a alma de um príncipe no corpo de uma espécie de minúsculo “cérebro um sapateiro o tornaria a mesma pessoa indestrutível” que o príncipe, apesar de que o homem propriedades do tipo embriológico, se seria diferente (§ 15). A partir daí, a desenvolverá quando do Juízo Final, sentença do Juízo Final se justificará restituindo a cada um sua personalidade “pela convicção em si de onde estarão e lhe concedendo um corpo diferente do todos os Homens, que em qualquer terrestre. O que interessa a partir daí, é a Corpo que eles apareçam, ou a qualquer união da alma e do cérebro. Bonnet dá a Substância que este sentimento interno esta primeira forma de sujeito cerebral esteja ligado, que eles tenham eles uma expressão sucinta quando escreve mesmos cometido tais ou quais ações, que “se a Alma de um Huron pudesse que eles merecem o castigo que lhes é herdar o cérebro de Montesquieu, infligido por tê-las cometido” (§ 27). Montesquieu ainda criaria [Bonnet C. Dentro de tal noção de „eu‟ ou de 1760, § 771]. que, Mas combinado a a Polis e Psique, Vol.1, n1, 2011 P á g i n a | 180 Figura 2. CHARLES BONNET (1720-1793) óleo sobre tela por Jens Juel, 1777, biblioteca pública e universitária, Genebra. Fotografia: Centro de Iconografia de Genebra “M. Juel (escreve Bonnet), pintou-me enquanto eu estava mergulhado em uma profunda meditação sobre a reconstituição e o aperfeiçoamento futuros dos seres vivos. Percebemos, suficientemente, a dificuldade para transmitir esse caráter meditativo; mas para os grandes talentos, inspirados pela genialidade, nada é difícil”. (C. Bonnet, obras, vol.1). O livro, uma Bíblia, está aberto na primeira epístola de São Paulo aos Coríntios, texto fundador da doutrina cristã da ressurreição. Nele distinguimos, no alto da página, “o que tu semeias não é vivificado, se primeiro não morrer.”; no alto da outra página, “Onde está, ó morte, a tua vitória? Onde está, ó morte, o teu aguilhão?” (1 Cor.15.36 e 55) Na ausência cada vez maior do capacidades tem sua própria sede ou conceito de alma, esta visão de ser “órgão” dentro do cérebro; o tamanho humano e do lugar do cérebro fortalece- de um órgão é proporcional a força da se consideravelmente no século XIX capacidade que lhe corresponde; o (Breidbach, 1997, Hagner, 1997). A cérebro é moldado pelo tamanho desses frenologia é o exemplo mais conhecido órgãos; o crânio devendo sua forma ao (Renneville, 2000). Fundamentada nas cérebro, teorias do médico vienense Franz superfície revelam as aptidões e as Joseph Gall (1758-1828), ela é ao inclinações individuais. as proeminências de sua mesmo tempo uma psicologia das As proposições desses órgãos, faculdades, uma teoria do cérebro, e um numerosas e variadas como mostra a método para estudar o caráter e as Figura 3, revelam-se como imaginárias. aptidões. Contudo, Repousa sobre várias algumas premissas suposições: o cérebro é o órgão da frenológicas parecem confirmadas na mente; segunda metade do século XIX, quando a mente é composto de capacidades inatas; cada uma dessas acontecem grandes progressos no Polis e Psique, Vol.1, n1, 2011 conhecimento principalmente do a cérebro, respeito P á g i n a | 181 mentais supõem que as qualidades das positivas ou negativas dos sujeitos estão localizações e da citoarquitetura. As inscritas nos seus cérebros. Desde descobertas neurocientíficas confirmam então, o postulado neurofilosófico de a idéia de que o cérebro é o órgão do eu. uma Esta crença se concretiza em inúmeros cerebrais e psicológicos não perdeu em domínios, desde a anatomopatologia e a nada a sua força; pelo contrário, foi localização das doenças psíquicas até a reforçado graças as imagens produzidas antropologia física e a diferenciação de pelas técnicas digitais de imagem raças e de sexos. As pesquisas sobre os cerebral. correlação entre os estados gênios, os criminosos e os doentes Figure 3. Versão tardia de uma cabeça frenológica. Em amarelo os sentidos da percepção (da faculdade de observação à linguagem); em branco aqueles do pensamento (memória, sentido de combinação crítica); em rosa, os sentidos morais (benevolência, crença na autoridade, esperança, crença); em azul, os sentidos artísticos (construção, imitação, contraste, ideal e sentido da beleza natural); em verde, os instintos dominantes (poder de concentração, segurança, vaidade, prudência, calma, firmeza, meticulosidade); em cinza, aqueles da conservação (luta, ação, nutrição, dissimulação, aquisição); em marrom, os instintos de sociabilidade (pulsão sexual, amor pelos filhos, amor pela pátria e pela família). In Max von Kreusch, Praktische Phrenologie. Allgemeinverständlicher Leitfaden der CharakterBeurteilung auf Grund der Kopfform für Unterricht und Selbstausbildung [frenologia prática. Guia fácil para julgar os caracteres conforme a forma da cabeça, para o ensinamento e instrução própria], Berlin, Verlag Kreusch, 1921. [Figura 4]. Essas imagens divulgadas pela mídia parecem imediatamente legíveis; e temos a tendência de ver nelas um verdadeiro retrato do que nós somos (Dumit, 2004). Polis e Psique, Vol.1, n1, 2011 P á g i n a | 182 O cérebro e a filosofia da identidade pessoal John Locke, nas discussões filosóficas Os desenvolvimentos históricos sobre a identidade pessoal. De acordo esboçados acima contribuíram para com meu conhecimento, o primeiro estabelecer da exemplo encontra-se no Self Knowledge cerebralidade implícita nos desejos de and Self Identity, livro de Sidney imortalidade Shoemaker, lançado em 1963. a antropologia através da neuropreservação evocadas no início. Jonathon Keats criogenia cerebral. e os personificam Um cristalização momento desse adeptos o os critérios da corporais e da identidade pessoal, sujeito Shoemaker apresenta a ficção lockeana crucial, enquanto Examinando a figura da alma do príncipe no corpo do sapateiro descrevendo-a como um chave do pensamento contemporâneo, raciocínio concernente a uma mudança foi a utilização de ficções ao estilo de de corpo (change-of-body-argument), e Polis e Psique, Vol.1, n1, 2011 P á g i n a | 183 como significando que uma pessoa pode Brownson cessar de ter o corpo que havia tido, o Robison, não diríamos que ele é Brown seu, no passado, obtendo um novo apenas porque tem o cérebro desse. O (Shoemaker, 1963, p. 22). Tentando filósofo infere daí que a relação entre aprofundar estado a questão, Shoemaker agisse do da cérebro maneira e os de traços imagina que a medicina inventou uma psicológicos da pessoa é “causal e técnica graças a qual um cérebro pode contingente”, mas não “logicamente ser extraído do crânio de um paciente, necessária”. O fato de que Brownson para ser concertado. Ora um dia após a tenha o cérebro de Brown explica que operação, ele tenha a psicologia de Brown – mas assistentes invertem os cérebros de Brown e Robison. Um dos nada homens morre. O outro, que Shoemaker decidirmos que Brownson é Brown, é batiza Brownson, tem o corpo de porque Robison e o cérebro de Brown. Quando psicológico em detrimento da “não Brownson retoma a consciência, ele se identidade corporal” (Shoemaker, 1963, espanta com sua aparência; seu corpo, p. 24-25). Evidentemente, falando de ele diz, é o cadáver deitado no leito “mudança vizinho! Quando lhe é perguntado seu identidade corporal”, Shoemaker parece nome ele responde “Brown”, reconhece identificar a mulher de Brown, bem como sua descerebrado, e esquecer que o cérebro família, os é um órgão corporal. Entretanto, o que acontecimentos da vida de Brown. Em não era verdadeiro nos anos 60 tornou- suma, traços se depois, considerando que, quando se psicológicos que tinham sido de Brown. fala do cérebro na mídia, poucas Mesmo que Brownson tenha o imagens são tão divulgadas quanto a corpo de Robison, pensamos que ele é dicotomia entre o corpo e o cérebro. “O na realidade Brown. Ele mudou de cérebro”, pode-se ler no New Scientist, corpo, mas tem a mente, a biografia e a “não o corpo, faz com que os atletas se personalidade de Brown. Shoemaker sintam fatigados” (J. Randerson, “Brain não retira dessa experiência a conclusão not body makes athletes feel tired”, de que a identidade do cérebro constitui número de 29/07/04). e ele pode tem descrever todos os o elemento definidor da identidade pessoal. Se apesar da troca de órgãos, mais. Conseqüentemente, privilegiamos A de o corpo” corpo utilização o e critério de ao de se “não corpo ficções cirúrgicas do cérebro foi durante longo Polis e Psique, Vol.1, n1, 2011 P á g i n a | 184 tempo um dos principais instrumentos uma representação do homem como para pensar filosoficamente a identidade sujeito cerebral. Essa representação, pessoal. O cérebro impunha-se como problemática limite somático do eu, de modo que eu corrente dos critérios da morte cerebral cesso de ser eu mesmo se dele sou (Schlich, Wiesemann, 2001), manifesta- amputado. Confim da identidade, até se, como percebemos, em numerosos órgão consubstancial do eu, o cérebro campos aparece neurofilosofia, da psicologia e das como uma das fronteiras mesmo de na atividade. Além neurociências, principal de saber sobre o que faz o ser neurodisciplinas nascentes, ela inspira humano enquanto humano. Além de sua toda uma galáxia em expansão de função de causa, fundamento material neurocrenças ou condição de possibilidade, ele possui concernente certo primado ontológico. X com o “desenvolvimento cérebro de Y é Y; não podemos trocar esoterismo, até mesmo a escatologia. As de cérebro sem nos tornarmos outro. O técnicas de imagem cerebral engendram critério cerebral invalida o critério uma imagem digital da categoria de corporal se pessoa que modifica os indivíduos imaginamos o corpo como se fosse um condicionando-os a percepção que tem corpo descerebrado. Todavia, ele apóia- de si mesmos (Dumit, 2004). E mesmo se sobre uma redução radical do corpo que as práticas de modificação corporal próprio, sobre uma redefinição do corpo pareçam designar o corpo como sede de como sendo “aquilo que, materialmente identidade pessoal, elas implicam uma falando, é fundamentalmente a pessoa”. relação com o corpo tal qual o Desde então, “uma pessoa P é idêntica a consideramos como uma coisa que nós uma pessoa P* se e somente se P e P* possuímos, antes do que como algo que são dotadas de um único e mesmo nós cérebro funcional” (Ferret, 1993, p. 30). Featherstone, 2000, Le Breton, 2002). identidade apenas também da maiores da ciência e como o desafio de além aplicação e de ao bem somos das neuropráticas estar e pessoal”, (Andrieu, ao ao 2002, Tal é a fórmula lógica do sujeito cerebral. Ter o mesmo cérebro é ter o Ser de carne mesmo corpo – e ser a mesma pessoa. Não há necessidade de aderir a Vimos que a noção de ser tais fórmulas para agir em função de humano como sujeito cerebral constitui Polis e Psique, Vol.1, n1, 2011 P á g i n a | 185 uma ruptura com a tradição cristã e crítica da equação cérebro-corpo e do supõe uma psicologização, bem como neuroreducionismo uma relativa desencarnação dos critérios propor uma neurofenomenologia cujo definidores da identidade pessoal. Se tal propósito visão de homem não é evidentemente a neurociências única na cultura contemporânea, ela é experiência sem contestação uma das principais. Varela, Convém, portanto encará-la e interrogá- Quanto a Paul Ricoeur ele opõe o la sobre seu alcance, seus limites, suas sujeito cerebral (que ele não identifica conseqüências. A redução da identidade como tal) ao “si (soi) como carne” e a à cerebralidade e do corpo próprio ao “relação cérebro, a relegação da experiência fenomenologicamente vivida, da história do sujeito, do podemos estabelecer com as partes do contexto social ou de seus modos de ser corpo ligadas ao movimento (a mão), a no mundo, comportam seguramente percepção (o olho), a emoção (o perigos quando, no momento de tomar coração), ou a expressão (a voz) decisões políticas, jurídicas ou médicas, (Ricoeur, 1990). é eliminativo de a para reintegrar nas corporeidade pessoal Thompson, e a (Varela, 1996, Rosch, 1991). vivida” (então crucial) que trata-se de pensar no que é o homem – e Essas tomadas de posição fazem de conseqüentemente agir. É necessário por si só parte de um universo marcado destacar que a crítica do sujeito cerebral pela figura do sujeito cerebral. A tarefa não exige que se negue o papel de fundamental Kathleen profundidade permanece a ser feita. Ela Wilkes, por exemplo, no seu brilhante não é de modo algum simples, visto que Real People. Personal identity without não podemos ser sem ao menos uma thought experiments, põe em questão o parte do cérebro, e que estamos valor das ficções filosóficas (Wilkes, mergulhados em uma cultura da 1988). Isso não a impede de consagrar cerebralidade que nos molda. Os numerosas cérebro, neurotransmissores nos fazem sentir, de não mas no cérebro, em si, nenhuma a sensação é sentida. Quem praticam informação científica e de não limitar o neurofitness querem que seu cérebro “se cérebro ao córtex. Dentro de outro sinta mais jovem”; contudo não é neste estilo, Francisco Varela partia de uma órgão que eles podem localizar uma insistindo simplificar do cérebro. páginas na ao necessidade exageradamente examinar este universo com Polis e Psique, Vol.1, n1, 2011 P á g i n a | 186 cinestesia qualquer. Entretanto, dada a em contrapartida as mãos, elemento natureza da psicologia – e do cérebro – tradicional humana, é possível que as neuropráticas seguram o cérebro de modo a evocar e os neurodiscursos em voga acabem um gesto de oferenda ou de devoção, por sacralizando dar ao cérebro “o status do auto-retrato. assim o órgão Elas e fenomenológico” que segundo Ricoeur sublinhando sua fragilidade. Com sua lhe falta. Trata-se aí de questões abertas, forma única e reconhecível com as como são ainda a maioria daquelas que marcas e adornos que lhes são próprios, dizem respeito ao sujeito cerebral. Aqui as mãos seguram o cérebro sobre o eu quis somente dar os primeiros passos fundo de um tecido cor de carne, cujas e esboçar uma problemática, mas eu não dobras evocam ao mesmo tempo as poderia terminar sem dizer minhas circunvoluções e a gola de renda que preferências, pelo menos indiretamente, destaca o rosto em tantos grandes oferecendo retratos barrocos. O conjunto remete a um símbolo que as resumem. cerebralidade, mas também ao corpo Em 1991, Helen Chadwick cria inteiro da artista, a seu trabalho, a sua uma obra de arte desconcertante (Figura individualidade, a sua história, a seu 5). Trata-se de uma fotografia impressa meio. Finalmente, não é “Eu sou meu em uma placa de vidro e iluminada por cérebro” que diz o auto-retrato de Helen „Auto-retrato‟. Chadwick. Antes se o cérebro é visto no Substituindo o rosto por um cérebro, centro da obra de arte, ele atesta que a Chadwick parece dizer que ela é esse pessoa que criou a obra não é redutível órgão. a seu cérebro. trás. Seu título: Entretanto, o cérebro reproduzido não pode ser o seu; o são Polis e Psique, Vol.1, n1, 2011 P á g i n a | 187 Figure 5. HELEN CHADWICK, Autoretrato (1991) © Helen Chadwick Estate. Com autorização, Zelda Cheatle Gallery (Londres) Blank R.H. (1999). Brain Policy: How Referências the Alcor Life Extension Foundation. 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