Entre a linguagem e o mutismo do homem que vem

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 Entre a linguagem e o mutismo do homem que vem Resumo Este trabalho pretende abordar alguns aspectos da filosofia de Giorgio Agamben retirando de suas problemáticas alguns indicativos para a reflexão sobre a educação. Partindo do paradigma da “comunidade que vem” e da crítica ao paradigma metafísico da linguagem no ocidente encontramos caminhos que apontam para uma nova concepção filosófica do homem. Ademais, nos preocupamos em fazer ainda uma crítica ao conceito de “mutismo” e sua relação com o nihilismo da linguagem. Palavras‐chave: linguagem; mutismo; animal; comunidade. Marcus Vinicius de Souza Nuens [email protected] X ANPED SUL, Florianópolis, outubro de 2014. p.1
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Entre a linguagem e o mutismo do homem que vem Marcus Vinicius de Souza Nuens Introdução A filosofia de Giorgio Agamben, filósofo italiano que transita por áreas tão diversas quanto o direito, a estética, a teologia, tem suscitado vivo interesse no cenário intelectual contemporâneo. Já conhecido no meio da pesquisa em educação, bem como em diversas outras áreas das ciências humanas, sua obra se caracteriza por realizar uma síntese da tradição intelectual europeia dos séculos XIX e XX. Autores como Hegel, Kant, Heidegger, Foucault, Hanna Arendt, estão presente nas suas obras. Mas também há nelas influências claras de Aristóteles, Santo Tomás de Aquino, e escritos de arte da antiguidade e medievo. A voracidade com que o mercado editorial tem consumido as obras de Agamben, faz dele uma preferência intelectual contemporânea que deve ser pensada cuidadosamente, não só no sentido do que sua obra pode oferecer como contribuição, como também naquilo em que se precisa fazer uma crítica e, quiçá, uma recusa peremptória. Nesse sentido, se por um lado a filosofia de Agamben se apresenta como um pensamento instigante, apontando caminhos interpretativos, abrindo pistas investigativas, carece pela sua novidade, de tempo de maturação, de resistência a ataques e críticas que o coloquem à prova. (BAZZANELA; ASSMANN, 2013, p. 21) O nosso trabalho tenta apropriar‐se destes caminhos que a obra de Agamben apresenta que podem ser de grande valia na reflexão sobre a educação e sobre as formas de vida que se formaram ao longo do processo civilizatório (BAZZANELA; ASSMANN, 2013). Trabalharemos exclusivamente com dois livros de Agamben, “A comunidade que vem”, publicado na Itália em 1990, e “O Aberto: o homem e o animal”, de 2002. Os dois livros não pertencem àquele que é considerado o grande projeto de Agamben, que é o Homo Sacer. Referências implícitas a esta obra ocorrerão no nosso texto, o que, esperamos, não nos dificultará a compreensão. A extensão e a diversidade da sua obra nos impedem uma discussão mais pormenorizada de pontos específicos, o que não impede a discussão desse dois momentos fundamentais no seu pensamento. X ANPED SUL, Florianópolis, outubro de 2014. p.2
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Entre a linguagem e o mutismo do homem que vem Marcus Vinicius de Souza Nuens A comunidade que vem como a exemplaridade de qualquer A filosofia da educação, na medida em que é também filosofia, não se pode deixar resumir a uma reflexão a posteriori sobre as práticas pedagógicas. Apesar de tal procedimento condizer com determinadas perspectivas de pensamento muito em voga, ligadas a determinadas tradições oriundas dos mais diversos positivismos, e ainda que seja uma caminho válido para a reflexão, o trabalho não parece se esgotar aí. Ao contrário, na medida em que o pensamento do geral não se deixa reduzir em um generalismo abstrato, a filosofia enquanto da educação se vê comprometida com algo que vem. Essa pergunta pelo que vem é uma das preocupações da filosofia de Agamben. O que vem vem sem fundamento, se erige sobre os escombros de uma civilização que ruiu. O que está em questão nesta comunidade vindoura para Agamben é a emergência de um novo tipo de homem, um singular que não é propriamente um indivíduo, mas o resultado da eliminação da disjunção lógica entre o singular e o universal, pois “o ser que vem é o ser qualquer”, afirmado por Agamben a partir da fórmula escolástica “quodlibet ens est unum, verum, bonum seu perfectum” (AGAMBEN, 2013a, p. 9), fórmula que guia a discussão em “A comunidade que vem”. Esse ser qualquer, esse ser tal‐qual‐se‐é não é uma propriedade qualquer que possa ser predicada de um sujeito. A qualqueridade rompe com o pensamento proposicional, denuncia o vazio da definição justamente porque emerge do nihilismo da civilização. O ser qualquer é o ser no modo do qual se apresenta, isto é, o próprio modo da apresentação. Esse ser que vem é um novo homem, o resultado do fim do funcionamento da antigas máquinas antropológicas. As disjunções entre o universal e o singular, ambos abstratos, são dissolvidas no resultado de uma história que se anula a si mesma, não porque chegue ao seu término, mas porque nela são desprezadas as próprias condições que ela produziu. O modo da apresentação como a emergência desse novo ser mostra‐nos que este é sua própria exemplaridade. Assim, ao contrário dos modelos tradicionais do conhecimento, o indivíduo singular não mais representa uma classe nominal qualquer, não é a representação de um exemplo. Da mesma forma, não é a apresentação inefável X ANPED SUL, Florianópolis, outubro de 2014. p.3
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Entre a linguagem e o mutismo do homem que vem Marcus Vinicius de Souza Nuens de um singular sem exemplaridade, algo do qual não se tem modelo e, por consequência do arranjo epistemológico não pode ser conhecido. Este ser tal‐qual‐é apresenta‐se a si mesmo não indiferentemente, sendo a sua própria exemplaridade e, “com isso a singularidade se desvincula do seu falso dilema que obriga o conhecimento a escolher entre a inefabilidade do indivíduo e a inteligibilidade do universal (AGAMBEN, 2013, p. 10).” Este ser que vem, que é um novo homem, vem como o singular que se apresentando a si mesmo não é concebido como o membro de um gênero, isto é, como um indivíduo do gênero humano; assim, se realiza a crítica aos humanismos, não na sua heterogeneidade conceitual, mas principalmente na sua eficiência prática que realiza a diferença entre o homem e o não‐homem, que separa no homem aquilo que não é humano e entre os homens aqueles que não são humanos. Agamben, como decorrência do conceito de vida nua, que emerge do campo de concentração como o paradigma da política, tenta levar a arqueologia do conceito de vida, não como o faz Foucault em “As palavras e as coisas” (2007), como a arregimentação de uma condição de possibilidade para o conhecimento, mas na medida em que a vida é entendida como uma vida propriamente humana. O ser vindouro tem de ser pensado para além do paradigma que o leva a sua indeterminação. Essa indeterminação do humano e do inumano, por sua vez, só é possível a partir do sinal de pertença, da identificação daqueles que são verdadeiramente humanos contra aqueles que são verdadeiramente não humanos, falsos humanos, esta última figura que, indeterminada, surge como aquela que pode ser morta deliberadamente, porque a sua morte não constitui um assassinato, mas a consumação de um mero processo biológico, um mero processo necessário em que a vida acumulada vem a resultar na morte, não como o seu oposto, mas como a sua continuidade necessária. A máquina antropológica moderna se constitui no postular a diferença da morte necessária da morte contingente, porque separa o não humano para eliminá‐lo. Essa [máquina antropológica moderna] funciona – já o vimos – excluindo de si como não humano (ainda) um já humano, isto é, animalizando o humano, isolando o não humano no homem: Homo alalus, ou o homem‐
macaco. E basta avançar algumas décadas em nosso campo de pesquisa X ANPED SUL, Florianópolis, outubro de 2014. p.4
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Entre a linguagem e o mutismo do homem que vem Marcus Vinicius de Souza Nuens e, em vez desse repertório paleontológico inócuo, teremos o hebreu, isto é, o não homem produzido no homem, ou o néomort e o outro em estado de coma, isto é, o animal isolado no próprio corpo humano. (AGAMBEN, 2013b, p.64) A arqueologia dos conceitos jurídicos do ocidente, bem como a genealogia das práticas concomitantes desses sistemas, aparecem justamente lá onde o não homem reconhecido e isolado no homem surge como desnaturalizado, como produzido sempre e a cada vez, como o resultado da ação constante e do discurso desfigurador. É sobre o bas‐fond dos universalismos que se produz esse não homem. A forma de superá‐lo como a recriação biopolítica das condições de dominação e subjugação é permitir que a comunidade que vem venha para aquém do universal, aquém do conceito de necessidade que pelo contraste permite‐nos ver a contingência matável. Entretanto, contrapor a este sujeito universal o mero indivíduo é ser subjugado pela sua inefabilidade enquanto os discursos são ainda pronunciados. É apenas na oposição ao singular que surge o universal enquanto o exemplar genérico. Eliminar os universalismos excludentes é também eliminar o singularismo sentimental que permite a sua sobrevivência. A eliminação desse sujeito fechado sobre si mesmo, realizado, que é um indivíduo de um gênero ou contra este gênero só é garantida quando vem à tona o esse adveniens que é a própria linha de oscilação da singularidade exemplar, da qualqueridade, é a inesgotabilidade da definição como retorno ao arcaísmo do qualquer. O ser que agora aparece não pode mais ser determinado pelas suas propriedades. O que está em jogo na comunidade vindoura não é nem a bondade, nem a verdade, a unidade ou a perfeição desse ser, mas o fato irrevogável que nessa comunidade todo ser é qualquer um, um singular determinado não pela irredutibilidade da sua singularidade, mas por aquilo que Horkheimer e Adorno (1985) chamaram fungibilidade universal . Mas tal fungibilidade não poderá mais estar a serviço do sacrifício. O acontecimento sacrificial que lhe servia de fundamento epistemológico ruiu com a eliminação mesma do sacrifício. Isto permite que as peculiaridades do qualquer não sejam eliminadas, pois com a eliminação epistemológica que lhe antecedeu impede que suas propriedades sejam colocadas em discussão. A comunidade pré‐discursiva quer ser a garantia de que as contingências específicas de cada singularidade não sejam colocadas em jogo, e assim, X ANPED SUL, Florianópolis, outubro de 2014. p.5
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Entre a linguagem e o mutismo do homem que vem Marcus Vinicius de Souza Nuens cada homem é qualquer, sem deixar de ser também as determinações que não mais são colocadas em questão como fator de exclusão ou inclusão no grupo, na comunidade. A linguagem e a animalidade O conceito de vida nua, vida sem qualificação e reduzida ao ser puramente biológico, que desempenha um papel fundamental na obra de Agamben a partir da publicação de “Homo Sacer” (1995 na Itália, 2002 no Brasil), só é possível a partir de uma noção anterior, qual seja, a de vida. Em “O Aberto: o homem e o animal”, em que se leva ao extremo a crítica ao paradigma linguístico ocidental, já presente em “A comunidade que vem”, a noção de vida aparece como o mysterium disjunctionis da determinação do humano. Se levarmos em conta a preocupação de Agamben de rematar algumas discussões presentes já no pensamento de Michel Foucault, a pesquisa arqueológica sobre o aparecimento do conceito de vida no ocidente é indispensável. Entretanto, se Foucault toma essa discussão sob a perspectiva da arqueologia das ciências, tal como aparece em “As palavras e as coisas”, para Agamben toma em “O Aberto” a coincidência do homem e do animal na vida sem voz, sem phoné, como o dispositivo da singularização, da exemplaridade anunciada em “A comunidade que vem”. Mais que a emergência de novas taxinomia, com o conceito de vida aparece a possibilidade da disjunção mesma entre o humano e o não humano, a possibilidade da exclusão do não humano do humano. Ainda que a vida seja tomada como o indeterminado do qual advém as determinações possíveis, a história ocidental se caracteriza por uma articulação sempre crescente do que é vida, e mais, do que é vivo em sentido estrito. “Tudo acontece como se, em nossa cultura, a vida fosse algo que não pode ser definido, mas que, exatamente por isso, deve ser incessantemente articulado e dividido (AGAMBEN, 2013b, p. 29; grifo no texto)” Essa articulação que Foucault reconhece no paradigma representacional na idade clássica, como a articulação entre signos no interior da gramática geral como fundamento epistemológico da ciência clássica, que permitiria assim a taxinomia a partir da articulação X ANPED SUL, Florianópolis, outubro de 2014. p.6
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Entre a linguagem e o mutismo do homem que vem Marcus Vinicius de Souza Nuens dos caracteres, é no aberto da máquina antropológica a condição mesma de separação do não humano. Esse delírio escatológico reconhecível na história teológica, em que um resto inumano permanece sem ser jamais redimido, uma carne animal da própria humanidade que não pode formar uma unicidade com o humano mesmo é o impulso fundamental da eliminação, da condenação límbica dessa indeterminação, ao mesmo tempo que é a delação premiada que nos faculta recusar as promessas escatológicas de toda política de humanização. A comunidade que vem vem enquanto é uma crítica a esse paradigma linguístico, a recuperação de uma animalidade própria do homem que, tornada imprópria, permanece sem salvação, pois na economia política ocidental “nem toda carne será salva e, na fisiologia dos bem aventurados, a oikonomía divina da salvação deixa um resto impassível de redenção (AGAMBEN, 2013b, p. 39)”. O resto teológico que não pode ser salvo, a permanência da animalidade no homem salvo e ressurecto, é aquilo para o qual se destina a salvação. Quando descobre na representação iconográfica medieval do paraíso a representação dos salvos como animais, macacos que gozam de toda suas faculdades sexuais, do comer e do beber, ainda que sendo ressuscitados, segundo a teologia cristã‐
católica, se tornam independentes de todo gozo que é a contraparte da corrupção, Agamben descobre essa incapacidade do ocidente de encontrar um lugar para o animal. A iconografia tentou salvar aquilo que é eliminado em cada verdade da linguagem. A comunidade que vem vem então por sobre esta brecha que se abre entre o dito e o ser‐dito, onde as noções de determinação e indeterminação, articulação e inarticulação são dissolvida. Desparecem porque o discurso que objetualiza as coisas foi suprimido no silêncio dessa animalidade recuperada. Aliás, a comunidade que vem reconhece esse não lugar histórico como o lugar próprio da vigência do homem. A tentação ocidental foi de, pelo discurso, assentar todas as diferenças. Mas o paradigma linguístico não é capaz de reconhecer por si que toda sua articulação e toda sua nomeação objetualiza aquilo que diz e exclui para o não espaço da exclusão o próprio daquilo que diz: “Se distinguimos perfeitamente um sapato do termo ‘sapato’, muito X ANPED SUL, Florianópolis, outubro de 2014. p.7
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Entre a linguagem e o mutismo do homem que vem Marcus Vinicius de Souza Nuens mais difícil é, no entanto, distinguir um sapato de seu ser‐dito‐(sapato), do seu ser‐na‐
linguagem” (AGAMBEN, 2013a, p. 67, grifo no texto). Este não‐dito que permanece em todo dizer, essa diferença que permanece indiferente em todos os sistemas significativos do ocidente, torna‐se aquele resto impossível de salvação. A linguagem exorciza como não linguagem, como murmúrio, aquilo que ela não está em grau de reconhecer. O outro da linguagem é assim excluído como não outro, isto é, como um indiferente que deve ser banido. A passagem do animal ao homem, malgrado a ênfase posta na anatomia comparada e nos repertórios paleontológicos, era, na realidade, por meio da subtração de um elemento que não tinha na da a ver nem com uma nem com os outros, e que vinha, em vez disso, como marca do humano: a linguagem. Identificando –se com isso, o homem falante situava para fora de si, como já não mais humano, o próprio mutismo. (AGAMBEN, 2013b, p. 60) É essa indiferença que Agamben quer recuperar ao recuperar não a diferença do homem e do animal, mas a indiferença em que um sendo também o outro impede que ambos sejam separados, impede que este resto animal seja condenado à morte eterna. Esse ponto de indiferença é a voz, que enquanto inarticulação renuncia as pretensões da linguagem. Uma phoné que, à diferença do pensamento pós‐aristotélico, não é semantiké. A sua insignificância é o que impossibilita a eliminação das multidões de singulares porque há algo neles que não condiz com o seu universal. A insistência nesse caráter não linguístico que é o próprio do homem tornado improprio no pensamento ocidental é contrário ao paradigma de gestão dessa vida muda no interior do Estado contemporâneo. Aquilo que fica conhecido como biopolítica, isto é, como uma política da vida nua, é a gestão desse caráter pré‐judicativo do humano. Esse caráter pré‐judicativo tem dois sentidos: em primeiro lugar, ele é anterior à própria formulação do juízo; como caráter mudo e não linguístico, é aquilo que escapa à definição e que na máquina antropológica moderna será a cada vez gerido como o eminentemente matável, como o não humano a cada vez isolado no humano, como o silêncio anterior a qualquer política e que, na medida em que não compartilha dos discursos significativos, é pré‐político e gerido justamente pelo paradigma econômico. X ANPED SUL, Florianópolis, outubro de 2014. p.8
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Entre a linguagem e o mutismo do homem que vem Marcus Vinicius de Souza Nuens O segundo sentido desse pré‐judicativo vem da interpretação da teologia ocidental católica que Agamben realiza como a arqueologia das formas de pensamento no contemporâneo. O juízo final, que constitui o ápice da realização salvífica na tradição é o momento da singularização última. O juízo salva porque na singularização do homem que ele realiza tanto a necessidade do universal quanto a contingência do singular desaparecem. A mais característica possiblidade do homem, o “poder não não‐ser” (AGAMBEN, 2013a, p.126), é tornada manifesta no homem julgado, onde a atividade ociosa do não fazer eterno, do repouso glorificante da glória que acrescenta glória, onde o resto não salvo do ocidente vem à frente, e se posta como o indefectível testemunho silencioso do nosso próprio mutismo. No juízo, na singularização última de cada homem, na exemplaridade perfeita onde todo homem é qualquer homem e por isso derradeiro, “a humanização integral do animal coincide com uma animalização integral do homem” (AGAMBEN, 2013b, p. 127). O que permanece impensado O resgate do caráter não linguístico do humano, a renuncia à phoné semantiké e, em última instância, à própria phoné como a atividade própria desse ser‐que‐vem, faz da comunidade que vem quase como um retorno a uma comunidade que já foi. A comunidade que vem é a comunidade que permanece impensada no fundamento das nossas relações e, por tal, é ela mesma sem fundamento. O esse adveniens, o ser‐que‐vem, não se insere mais na expectativa típica da filosofia da história. O paradigma da esperança, presente no pensamento ocidental seja na forma de salvação na teologia cristã ou na forma de progresso no mundo secularizado, já não nos parece mais possível conceitualmente. Os acontecimentos da guerra e do holocausto em muitos pensadores, bem como na experiência de muitos indivíduos, representaram a terminação da crença no progresso. Agamben se situa nessa tradição. A comunidade que vem, se é que vem, não representa um progresso. O progresso presume a linguagem que articula as características do seu desenvolvimento, que nomeia os estágios do progresso, que o X ANPED SUL, Florianópolis, outubro de 2014. p.9
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Entre a linguagem e o mutismo do homem que vem Marcus Vinicius de Souza Nuens prega e o proclama, que a definição ostensiva da política desenvolvimentista testemunha como realização do paradigma econômico. Na escatologia cristã, no mundo post iudicium aparece como o impossível da linguagem esse resto não pensado do não humano. Permanece impensado também a relação entre a atividade do homem e potência de não que constitui qualquer outra possibilidade. O paradigma clássico da política, a ação e o discurso, são completamente invertidos na filosofia de Agamben. Por isso, acertadamente o termo utilizado pelo filósofo italiano é comunidade. A sua filosofia já não se permite pensar em termos de sociedade (società, Geselschaft) muito menos em termos de civilização ou cultura (civiltà, Kultur). Todos estes termos pressupõe a intimidade linguística entre seu membros. A participação na ágora, o discurso no senado, o discurso do tribuno da plebe, a formação das narrativas, tudo isso só é possível pela participação numa linguagem que assume a tarefa de banir o estrangeiro, exorcizar o não humano, conduzir os homens. Agamben pretende que a comunidade que vem não será mais vinculada a determinação do indeterminado. Esse espaço de indiferença, esse aberto que encobre a abertura, será deixado na sua própria indiferença. O impróprio torna‐se próprio de novo. Mais que isso, a diferença entre o próprio do homem e o que lhe é impróprio desaparecem. Alguns problemas estão, entretanto, implícitos no seu pensamento. A colocação do acento na indiferença que retira o próprio do homem da esfera pública, da ação e do discurso, e assume o mutismo pode ser uma perigosa alternativa no contemporâneo. Que esse mutismo é perene, que está sempre aí como o aberto característico, parece‐nos claro. O problema situa‐se no fato que esse mutismo é o próprio esse adveniens. O logos que resultou na proliferação das representações de mundo, na comunicabilidade indiscernível que se torna incomunicabilidade, é substituído pelo homo alalus, pelo homem sem fala que permaneceu escondido e que reaparece no campo de concentração na testemunha perfeita, que nem mesmo morre, pois seu cadáver (Leiche) não nem ao menos um corpo (Körper) mas apenas uma figura (Gestalt). Contra a comunicabilidade X ANPED SUL, Florianópolis, outubro de 2014. p.10
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Entre a linguagem e o mutismo do homem que vem Marcus Vinicius de Souza Nuens que separa os homens, na comunidade que vem a comunicabilidade será então comum, porque as limitações da linguagem serão substituídas pelas imagens límpidas da identificação. Segundo Agamben, há uma indicação do esgotamento do paradigma linguístico na mediocracia que atravessa mundo como o modo mais comum do uso da linguagem a linguagem como meio da linguagem, a linguagem como comunicação da comunicação, dado que “o que impede a comunicação é a própria comunicabilidade; os homens são separados daquilo que os une. Os jornalistas e os mediocratas são o clero dessa alienação da natureza linguística do homem.” (AGAMBEN, 2013a, p. 74). O enraizamento desse problema no nihilismo é evidente para Agamben. Há um círculo vicioso em que o nihilismo produz a comunicabilidade vazia da linguagem e a comunicação da mediocracia incrementa o nihilismo da alienação linguística. A mútua determinação desses meios nos impede de reconhecer qualquer discurso e reconhcermo‐
‐nos neles. Não nos reconhecemos na linguagem, porque o lugar próprio do homem é sempre o não lugar da linguagem, o não dito. O não dito da mediocracia, entretanto, não deixa esse não dito no seu não dito, mas quer arrancar do vazio da comunicação um dito qualquer. Diz o indizível e nada diz. Não há nada mais, na linguagem, de Deus, do mundo, do revelado: mas, nesse extremo desvelamento nadificante, a linguagem ( a natureza linguística do homem) permanece mais uma vez escondida e separada e atinge assim, pela última vez, o poder, não dito, de se destinar em uma época histórica e em um estado: a era do espetáculo e do nihilismo consumado. (AGAMBEN, 2013a, p. 74) O espetáculo que se consuma é esse uso indiscriminado da linguagem, em que o não dito, o próprio mutismo, é arrancado da sua quietude e lançado como discurso que nada revela, nada diz, próprio do contemporâneo. Há uma continuidade entre esse contemporâneo que nada diz e o pensamento teológico e filosófico ocidental: a incapacidade do silêncio frente ao próprio silêncio. A tentativa de silenciar é justamente o que pode ser a diferença frente ao nihilismo. A pluralidade equívoca das denúncias é submergida no espetáculo linguístico. Recuperar o silêncio, fazer a denúncia silenciosa é recuperar esse não humano produzido localmente para ser extirpado. Esse não humano produzido em cada singular no regime X ANPED SUL, Florianópolis, outubro de 2014. p.11
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Entre a linguagem e o mutismo do homem que vem Marcus Vinicius de Souza Nuens biopolítico em favor da preservação do universal só pode ser superado na silenciosa afirmação do próprio mutismo, de que há coisas que podem não ser ditas, podem não não‐ser, que podem ser deixadas em si mesmas. Denunciar a biopolítica é perceber que “ a política contemporânea é esse experimentum linguae devastador, que, em todo o planeta, dearticula e esvazia as tradições, crenças, ideologias e religiões, identidade e comunidade” (AGAMBEN, 2013a, p. 75).] Até que ponto a afirmação silenciosa do mutismo constituinte representa um resistência efetiva contra as armadilhas da comunicabilidade? Agamben parece aqui responder de forma similar a Heidegger em “A essência da linguagem” (2003, p. 123): “Quando se trata de trazer à linguagem algo que nunca foi dito, tudo fica na dependência de a linguagem conceder ou recusar a palavra apropriada.” Entretanto, o estatuto desse vir a ser da linguagem é tal na filosofia de Agamben que só no silêncio o silêncio aparece como tal. Não, há, como na filosofia de Heidegger, o contraste fundamental entre o dito e o não‐dito, a luta (Streit), entre a obra e a terra. Agamben torna‐se aqui místico ao que dizer que só permanecendo no mutismo conseguiremos nos livrar das consequências do silêncio a que fomos condenados. Ele parece não levar às últimas consequências que da mesma forma que a linguagem produz o não humano no homem separando‐o e eliminando‐o, esse mutismo mesmo, que na ausência da phoné aparece como a coincidência entre o animal e o humano pode também ter sido ele produzido pelo mesmo mecanismo linguístico que faz do discurso a propriedade de alguns poucos livres. Agamben se situa, neste ponto, na contramão do pensamento que estabelece no discurso e no diálogo a essência mesma do jogo das liberdades políticas. Está em oposição à teoria do agir comunicativo, de Habermas; contudo, também se opõe aqui a toda uma dialética de reconhecimento que vige como plano de fundo conceitual das discussões de direito internacional, direitos humanos, política internacional, expressa principalmente nas teorias de Axel Honneth. Esta espécie de mística que surge no pensamento, ao mesmo tempo que denuncia as artimanhas da linguagem tecnicamente articulada representa uma remissão da esfera X ANPED SUL, Florianópolis, outubro de 2014. p.12
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Entre a linguagem e o mutismo do homem que vem Marcus Vinicius de Souza Nuens política a um estágio pré‐político, arcaico e prosaico, um âmbito de identificação imediata do indivíduo e sua comunidade em que a livre discussão de opiniões não mais constitui o jogo das liberdades. A educação entre a linguagem e o mutismo A identificações dos padrões não humanos no humano representou boa parte do percurso educacional na história ocidental. Ora, essa rede conceitual que a arqueologia agambeniana tenta trazer à luz só é possível a partir de sua reprodução sempre continuada. Se Agamben tem realizado um trabalho indefectível no que se refere à recuperação dos discurso teológico do ocidente que constitui o fundamento arqueológico das práticas jurídicas e políticas, seu trabalho parece não ter alcançado o modo pelo qual os conceitos são transmitidos e reinterpretados segundo cada geração. Contudo, não é de bom tom recriminar um autor pelo que não fez: a educação como o processo de reprodução dos saberes não é uma preocupação explícita de seu trabalho. Algumas questões podem, entretanto, ser despertadas pela sua filosofia que nos poderiam levar a uma reflexão mais acurada sobre a educação. Que os sistemasa educacionais sempre estiveram a serviço da reprodução dos seus próprios saberes, que desta forma, estiveram ligados ao estatuto metafísico da linguagem no ocidente, não nos parece algo que possamos negar. Nos cabe pensar, ao contrário, como seria possível uma educação pensada a partir de um mutismo nessa comunidade que vem. Uma tal comunidade ainda permitirá um processo educacional? Talvez parte da nossa dificuldade em pensar tal alternativa é o nosso comprometimento com um modelo pleno de universalismos. O paradigma metafísico da linguagem tem nos feito pensar apenas em generalismos como “o aluno”, “a escola”, “o educador”, sem levar em conta aquilo que fica escondido sob o aberto do não dito. Por outro lado, não levamos em conta o quão perigosas podem ser saídas quase sentimentais, onde coisas como “levar em conta a subjetividade do aluno” são repetidas sem reflexão. Não existe “esta subjetividade”, pois todo singularismo na metafísica ocidental só pode ser pensado como a oposição a um universal e, por consequência, na X ANPED SUL, Florianópolis, outubro de 2014. p.13
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Entre a linguagem e o mutismo do homem que vem Marcus Vinicius de Souza Nuens sua dependência. Essa insistência na subjetividade como um conjunto de determinações próprias do indivíduo só é possível porque, ao fim e ao cabo, o vemos como apenas o exemplar de uma espécie. A comunidade que vem, enquanto é a comunhão no múnus do mutismo, da animalidade do humano, faz da singularidade qualquer a sua exemplaridade perfeita. Aqui o singular é o exemplo de si mesmo. Não há algo como um processo interventivo, em que peculiaridades que nos fogem a determinações específicas da linguagem são lançadas na indeterminação e depois são eliminadas, mas o singular aparece tal qual se quer (qualsivogla). Também devemos levar em conta que a adveniência desse ser‐que‐vem sem phoné nos obriga a pensar o uso de métodos ostensivos de nomeação em oposição às determinações biológicas, separando‐as um de outras. A esfera da educação é apenas preenchida pela nomeação, pela designação dos objetos, isolando do espaço educativo a biologicidade própria que constitui o humano. Nesse sentido o sentido crítico da vida nua aparece positiva e progressivamente, como uma recuperação de uma realidade constituída que foi abandonada, lançada ao bando das incompreensões. Não podemos também deixar de ver os caracteres problemáticos da filosofia de Agamben para a educação. Como já dito, ele vai na contramão das teorias do diálogo do reconhecimento e da comunicação que caracterizam boa parte das questões políticas contemporâneas e, inclusive, estão pressupostas em muitas teorias que servem de base para a prática pedagógica. Devemos levar em consideração se não há escondido nessa mística o perigo de inviabilizarmos a faculdade que permite ao homem reclamar os seus direitos por uma denúncia silenciosa que, embora tentando recobrar o humano que foi isolado e produzido como não humano, pode simplesmente reforçar o abandono dos já abandonados. X ANPED SUL, Florianópolis, outubro de 2014. p.14
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Entre a linguagem e o mutismo do homem que vem Marcus Vinicius de Souza Nuens Bibliografia ADORNO, Theodor. W.; HORKHEIMER, Max. Dialética do Esclarecimento. 1 ed. Rio de Janeiro: Zahar, 1985. AGAMBEN, Giorgio. A comunidade que vem. 1 ed. Belo Horizonte: Autêntica, 2013a. ______________ Homo Sacer. 2 ed. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2010. ______________O aberto: o homem e o animal. 1 ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2013. BAZZANELA, Sandro Luiz; ASSMANN, Selvino José. A vida como potência a partir de Nietzsche e Agamben. 1 ed. São Paulo: Editora LiberArs, 2013. FOUCAULT, Michel. As palavras e as coisas: uma arqueologia das ciências humanas. 9 ed. São Paulo: Martins Fontes, 2007. HEIDEGGER, Martin. A essência da linguagem. In: _A caminho da linguagem. 1 ed. Petrópolis, RJ: Vozes; Bragança Paulista, Sp: Editora Universitária São Francisco, 2003. X ANPED SUL, Florianópolis, outubro de 2014. p.15
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