Vestibular PORTO ALEGRE, QUARTA-FEIRA, 19 DE OUTUBRO DE 2011 Funções da Linguagem A palavra "comunicação", de origem latina, communis, tornar comum uma informação a todos ou a muitos, indica estar em relação com o outro. Assim definida, a comunicação é a capacidade de gerar e consumir mensagens, é o canal pelo qual uma cultura (modos de pensamento e de ação, valores, crenças, hábitos) nos é transmitida. Esse ato é, portanto, uma necessidade nossa. Tipologia das funções Para analisarmos os exemplos a seguir, é importante destacar que as mensagens não preenchem uma única função, mas há predominância de uma, ainda que deva ser entendida em toda a variedade de suas funções. 1. Função Referencial A tempestade tropical Nock-ten e o tufão Muifa deixaram 70 mortos nas Filipinas, indicou o governo nesta terça-feira, à espera da chegada de outra tempestade. Leia a seguir o trecho do conto Diálogo, de Caio Fernando Abreu, e associe-o à canção Sinal Fechado, de Paulinho na Viola: 2. Função Conotativa Ao observar os elementos que compõem os atos comunicativos, o linguista russo Roman Jakobson associou a eles seis funções da linguagem. Para melhor visualizarmos as relações apontadas por Jakobson, atenção ao esquema a seguir: Emissor: emite a mensagem (indivíduo ou grupo). Receptor: recebe a mensagem (indivíduo ou grupo). Mensagem: conteúdo da comunicação. Canal: via de circulação das mensagens. Código: conjunto de regras para combinação de signos (codificação e decodificação). Referente: objeto ou situação sobre o que se fala. 5. Função Fática Tanto no texto, publicado em ZH, quanto no mapa de Paris observamos que o objetivo da notícia é informar o leitor sobre um fato ou descrever mais objetivamente uma determinada região. Estamos, portanto, diante da função referencial, aquela que transmite, ao interlocutor, a mensagem de forma mais objetiva e real possível. Nos dois exemplos, o emissor deseja provocar uma reação ou induzir o receptor a uma resposta. Estamos diante, portanto, da função conotativa ou apelativa, aquela que se centra no receptor da mensagem. Essa é a função por excelência das mensagens publicitárias; por isso, podemos observar que será recorrente o uso de verbos no modo imperativo a fim de levar o leitor a adotar algum comportamento. 3. Função Metalinguística O livro A Histórica do cerco de Lisboa, de José Saramago, explicita o uso do código, ou seja, centra-se no processo de escrita da história, fazendo uso da linguagem para falarmos da própria linguagem. Saramago não está preocupado, neste trecho, em apresentar-nos personagens ou localizar-nos no tempo e no espaço, mas sim em discutir o processo de invenção da obra literária. O mesmo ocorre no soneto Parnasiano do poetaAlberto de Oliveira. Se uma das principais características dessa estética é voltarse para si (estilo de escrita que os críticos literários nomeiam de "a arte pela arte"), eis novamente o código desdobrando-se. Se um exemplo de função metalinguística na literatura são os poemas parnasianos, o artista plástico René Magritte, quando afirma "isto não é um cachimbo", também põe em cheque a discussão do código da linguagem artística e explicita que não se trata da existência de um cachimbo em si, mas da representação subjetiva desse concebida pelo pintor. Exemplos comuns de função metalinguística também encontramos em aulas de língua e em verbetes de dicionários. Vaso Grego Esta de áureos relevos, trabalhada De divas mãos, brilhante copa, um dia, Já de aos deuses servir como cansada, Vinda do Olimpo, a um novo deus servia. Era o poeta de Teos que o suspendia Então, e, ora repleta ora esvasada, A taça amiga aos dedos seus tinia, Toda de roxas pétalas colmada. Depois… Mas, o lavor da taça admira, Toca-a, e do ouvido aproximando-a, às bordas Finas hás de lhe ouvir, canora e doce, Sinal Fechado Olá, como vai? Eu vou indo e você, tudo bem? Tudo bem eu vou indo correndo Pegar meu lugar no futuro, e você? 4. Função Emotiva No trecho do conto de Caio Fernando Abreu e na canção de Paulinho da Viola, pretende-se testar o canal. A função fática é aquela que dá suporte à mensagem para que possamos chamar a atenção do interlocutor e, assim, nos certificar de que não há possibilidades de equívocos entre a informação emitida pelo emissor e a recebida pelo receptor. Analise a pintura O grito, do expressionista alemão, Edvard Munch, e o trecho do Soneto de fidelidade, de Vinicius de Moraes. 6. Função Poética Observe os casos a seguir: "O meu livro, recordo-lho eu é de história, Assim realmente o designariam segundo a classificação tradicional dos gêneros porém, não sendo propósito meu apontar outras contradições, em minha discreta opinião, senhor doutor, tudo quanto não for vida, é literatura, A história também, A história sobretudo, sem querer ofender" (SARAMAGO, 2006, p. 15). Diálogo A: Você é meu companheiro. B: Hein? A: Você é meu companheiro, eu disse. B: O quê? A: Eu disse que você é meu companheiro. B: O que é que você quer dizer com isso? A: Eu quero dizer que você é meu companheiro. Só isso. Observe a propaganda das Havaianas e o trecho da canção de Caetano Veloso. "De tudo, ao meu amor serei atento Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto Que mesmo em face do maior encanto Dele se encante mais meu pensamento." O Quereres Onde queres revólver, sou coqueiro E onde queres dinheiro, sou paixão Onde queres descanso, sou desejo E onde sou só desejo, queres não E onde não queres nada, nada falta E onde voas bem alto, eu sou o chão E onde pisas o chão, minha alma salta E ganha liberdade na amplidão Nos dois casos, a expressão ou emoção do emissor estão em destaque. As cores, na pintura de Munch, e a descrição das promessas de zelo, em Vinícius de Moraes, estão a serviço da representação dos sentimentos do eu. Essa é a característica principal da função emotiva ou expressiva, por meio da qual o emissor constrói no texto as marcas de sua personalidade: emoções, opiniões, julgamentos. Esse tipo de função também pode aparecer em e-mails, diários, resenhas críticas, poesia confessional, canções sentimentais. Nos dois casos, a composição das imagens e o jogo de palavras recebem destaque. Quando estiver em foco a forma da mensagem, estamos diante da função poética, aquela que se preocupa mais em "como dizer" do que com "o dizer", ou seja, a linguagem deixa de ser convencional, sendo elaborada de forma inovadora por meio de jogo de palavras, de imagens ou de sons. No texto, é comum, portanto, o uso reiterado de neologismos e figuras de linguagem, utilizando composições sonoras e jogos de imagem ou de pensamento a fim de despertar o prazer estético no leitor. (Vinícius de Morais. Soneto da fidelidade) 5