MANEJO E ENFRENTAMENTO DOS EFEITOS

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MANEJO E ENFRENTAMENTO DOS EFEITOS ADVERSOS PELOS
CLIENTES EM TRATAMENTO QUIMIOTERÁPICO
1
BURILLE, Andréia 2
3
LENÍCIA, Cruz Soares
ANTONACCI, Milena Hohmann 4
SANTANA, Maria da Glória 5
SCHWARTZ, Eda6
INTRODUÇÃO: O câncer tem sido
vivenciam diversas perdas de autonomia no
considerado um dos maiores problemas de
cotidiano e alterações nos hábitos de vida, com
saúde pública na atualidade, sendo a segunda
necessidade de criar novas maneiras de viver e
causa de morte em regiões mais desenvolvidas,
adaptar-se a nova realidade do tratamento.
ficando apenas atrás das doenças
Nesse sentido, os agentes químicos vêm sendo
cardiovasculares. Além da gravidade da
amplamente utilizados no tratamento adjuvante
doença, em nosso país a maioria dos
ou paliativo de neoplasias malignas,
diagnósticos ocorre tardiamente, ocasionando
mostrando-se uma das formas mais
muitas vezes um maior estadiamento da
promissoras e importantes no tratamento do
doença. Associado a isso, nem sempre os
câncer. Contudo, por ser uma forma de
tratamentos vão de encontro às necessidades
tratamento sistêmico, ela atinge
dos clientes, perdendo-se assim muito tempo, o
indiscriminadamente todas as células do
qual é de suma importância especialmente para
organismo, principalmente células de rápida
(1)
o cliente oncológico . Sabemos, outrossim,
proliferação, produzindo com isso os
que o cliente com câncer freqüentemente
indesejados efeitos colaterais ou tóxicos,
submete-se a um tratamento que é na maioria
dependendo do estado do indivíduo,
das vezes inevitável, passando a depender de
estadiamento da doença e também das drogas
medicamentos, de uma equipe
usadas . OBJETIVO: Conhecer de que
multiprofissional, e muito de seus familiares.
forma(s) os clientes oncológicos enfrentam os
Não raro inicia-se um processo onde se
efeitos adversos decorrentes do tratamento
(2)
1
Área: enfermagem médico-cirúrgica
2
Acadêmica do 7° semestre da Faculdade de Enfermagem da Universidade Federal de Pelotas. Membro do NUCCRIN
(Núcleo de Condições Crônicas e suas Interfaces)
3
Enfermeira da Unidade de Oncologia do Hospital Escola UFPel/FAU. Especialista em Projetos Assistenciais e
Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Enfermagem da Universidade Federal de Pelotas. Membro do
NUCCRIN. Relatora. E-mail: [email protected]
4
Acadêmica do 8° semestre da Faculdade de Enfermagem da Universidade Federal de Pelotas
5
Doutora em Enfermagem e ProfessoraAssociada da Faculdade de Enfermagem e Obstetrícia da Universidade Federal de
Pelotas. Membro do NUCCRIN/UFPel.
6
Doutora em Enfermagem e docente da Faculdade de Enfermagem e Obstetrícia da Universidade Federal de Pelotas; líder
do NUCCRIN
quimioterápico. METODOLOGIA: Trata-se
de uma pesquisa com abordagem qualitativa(3),
(4)
(5)
anos, ensino fundamental completo,
aposentada (neoplasia maligna de ovário; há 7
foi desenvolvido no segundo semestre de 2008
anos em quimioterapia); Paciente 3 – sexo
feminino, 54 anos, ensino fundamental
com cinco usuários da Unidade de Oncologia
incompleto, empregada doméstica (carcinoma
do Hospital Escola/UFPel - FAU (Pelotas/RS).
de mama; há 4 meses em quimioterapia);
Os critérios para participar do estudo foram:
possuir diagnóstico de câncer e estar em
Paciente 4 – sexo feminino, 49 anos, ensino
superior completo, professora
tratamento quimioterápico; concordar em
(adenocarcinoma de cólon; há 5 meses em
participar do estudo e com a divulgação dos
resultados deste. A coleta de dados foi realizada
quimioterapia); Paciente 5 – sexo masculino,
22 anos, ensino fundamental completo,
através de entrevista aberta com uma questão
pecuarista (carcinoma de testículo; há 2 anos
geradora e uso do gravador. Foi solicitada,
em quimioterapia). A partir da análise dos
através de ofício, a permissão para a realização
deste estudo à instituição hospitalar, junto à
dados, construímos as seguintes temáticas: 1)
Reações adversas: Todos os sujeitos
Gerência do Serviço de Enfermagem e ao
entrevistados referiram efeitos secundários ao
Departamento de Educação. Após,
tratamento, alguns em maior, outros em menor
encaminhado para o Comitê de Ética da
intensidade: - “Foi horrível. Eu pedia até pra
Faculdade de Odontologia da UFPel, tendo
morrer, que eu não resistia aquela dor [...].
sido aprovado sob o Parecer N° 035/2008. Aos
Tudo que caía no meu estômago voltava e me
sujeitos que concordaram em participar deste
estudo foi apresentado o Termo de
deu diarréia, dor no estômago. Eu não podia
sentir o cheiro da comida” (Paciente 3). Os
Consentimento Livre e Esclarecido e garantido
quimioterápicos podem causar uma
o anonimato, sigilo e respeitado a privacidade e
diversidade de efeitos colaterais, tais como:
a liberdade de desistirem do estudo em qualquer
mielossupressão, cicatrização deficiente de
momento, respeitando a Resolução nº. 196/96
feridas, alopecia, lesão no epitélio
do Conselho Nacional de Saúde, do Ministério
gastrintestinal, esterilidade, teratogenicidade,
da Saúde. Foram mantidos os preceitos do
entre outros(6). Os efeitos colaterais podem ser
Código de Ética dos Profissionais de
uma das principais limitações do tratamento.
Enfermagem capítulo IV (dos deveres), artigos
Assim, cabe lembrar que alguns clientes podem
35, 36 e 37 e capitulo V, artigos 53 e 54 (das
apresentar efeitos colaterais mais severos
proibições). A análise dos dados seguiu o
enquanto outros podem apresentar efeitos mais
do tipo exploratória e descritiva . O estudo
(3)
. ANÁLISE E
DISCUSSÃO DOS RESULTADOS: Os
dados a seguir caracterizam os sujeitos do
amenos, até mesmo não apresentar sintoma
estudo: Paciente 1 – sexo feminino, 67 anos,
ensino fundamental incompleto, do lar
freqüentes em nossos entrevistados, causando
modelo de temas
algum(7). Observamos em nosso estudo que as
náuseas e vômitos são os efeitos colaterais mais
(carcinoma de mama; há 4 meses em
desgaste muito grande aos mesmos. 2)
Orientações recebidas: A maioria dos
quimioterapia); Paciente 2 – sexo feminino, 60
entrevistados possuía informações superficiais
sobre a quimioterapia e seus efeitos, ignorando
por minha conta. [...]. Pra vômito eu tomei só
quase que totalmente a forma de ação dos
aqueles comprimidinhos, que é pra vomito na
antineoplásicos e os cuidados necessários
quimioterapia. Esses comprimidos foi o médico
relativos ao tratamento: -“Ele não me disse
que deu pra guria que se trata aqui, ai ela
nada. Quando eu me tratei, ele me disse assim
passou pra mim porque sobrou remédio”
por cima que ia cair meus cabelos, coisa assim.
(Paciente 4). O uso de antieméticos para
Essa quimioterapia que eu fiz eu não sabia o
que era” (Paciente 3). Uma grande proporção
prevenção e manejo das náuseas e vômitos é de
de clientes necessitam de mais esclarecimentos
um obstáculo intrínseco à adesão do paciente ao
sobre as informações que recebem seguidas do
tratamento e que devem ser combatidos com
(8)
diagnóstico de câncer . Também é papel da
medicações prescritas(12, 6). Faz-se necessário
enfermagem esclarecer dúvidas decorrentes do
orientar de maneira adequada o cliente sobre
tratamento oncológico, o que pode contribuir
diversos aspectos, principalmente sobre o
para reduzir a apreensão por parte do cliente,
tratamento quimioterápico e o de apoio,
bem como torná-lo mais confiante quanto ao
considerando que o individuo é responsável por
(9)
suma importância, pois estes efeitos constituem
seu processo de cura . O maior contato e a
sua própria saúde e pelo seu comportamento. 4)
disponibilidade para repassar informações
contam a favor do serviço de enfermagem,
Fé/religiosidade: Ao se sentirem acometidas
por alguma doença, as pessoas de modo geral
sendo que ampliando o conhecimento dos
ficam mais reflexivas e questionam suas
clientes, aumenta também a satisfação com o
próprias crenças religiosas e espirituais. Todos
(10)
atendimento . Nesse contexto, compete ao
os sujeitos destacaram a importância da
enfermeiro facilitar este processo,
fé/religiosidade como um suporte, auxiliando-
proporcionando qualidade na assistência e
diminuindo o impacto gerado nessa situação de
os no enfrentamento da doença e terapêutica: “Tu tem que acreditar. Se tu não tiver uma fé,
estresse, através de orientações apropriadas
uma crença, uma religiosidade, que tu pode
(11)
acerca do tratamento proposto . Cabe,
ficar segura, aí a gente caí mesmo. [...] Mas eu
portanto, à este profissional averiguar quais as
acho uma coisa muito importante tu ter fé e ter
estratégias de enfrentamento de que o cliente
certeza que nada depende da gente” (Paciente
está se utilizando nesse momento a fim de
4). A religiosidade propicia serenidade para
estabelecer um plano de cuidados integral e
enfrentar as adversidades da doença,
individual, reconhecendo os principais fatores
constituindo-se numa estratégia de suporte
psicológicos, sociais, físicos e espirituais que
espiritual usado freqüentemente entre os
afetam a sua saúde e bem-estar. 3) Uso de
medicação: A maioria dos sujeitos referiram
pacientes com doença maligna(13). Desta forma,
fazer uso de medicação para amenizar os
doença, é uma estratégia acessível, pois o
paraefeitos apresentados. Observamos a prática
contexto popular urbano disponibiliza vários
da automedicação e, por outro lado, que nem
serviços religiosos, que são usados
sempre a medicação prescrita promove o efeito
efetivamente pelos indivíduos, influenciados
desejado: - “Só pra dor que eu tomei Tylenol,
pelos membros da sua rede de apoio . A
buscar apoio na religião em situação de caos da
(14)
convicção religiosa representa para a família e
1. Policastro S. O que vem a ser o câncer?
para o cliente apoio e suporte, onde buscam o
Boletim de Enfermagem do Hospital do
alívio do sofrimento pelo qual passam e
Câncer. N. 1, 1999.
depositam expectativas de milagres, cura da
2. Bonassa EMA. Enfermagem em
doença. CONSIDERAÇÕES FINAIS:
Apesar dos avanços tecnológicos, que
Quimioterapia. São Paulo: Atheneu,
possibilitaram desenvolver novas técnicas de
3. Minayo MCS, et al. Pesquisa Social:
tratamento do câncer, esta ainda é uma doença
teoria, método e criatividades. Rio de
muito temida, envolvida em mitos e tabus e
Janeiro: Vozes, 1998
seguidamente associada à morte e à dor. Para as
2005
minimizar os efeitos colaterais desencadeados
4. Triviños ANS. Introdução à pesquisa
em ciências sociais: a pesquisa
qualitativa em educação. São Paulo:
Atlas, 1995
5. Cervo AL, Bervian PA. Metodologia
Científica. São Paulo: Cortez, 1996.
pelo tratamento antinéoplasico. Neste estudo
6. Rang HP, Dale MM., Ritter JM, et al.
observamos que os sujeitos elaboraram formas
Farmacologia. Rio de janeiro:
individualizadas para o enfrentamento do
Guanabara-Koogan, 2005.
pessoas acometidas, encarar tal diagnóstico é
um grande desafio que requer medidas de
enfrentamento da doença e também formas para
câncer, da quimioterapia e seus paraefeitos.
7. Eckhardt S. Diagnóstico, Estadiamento
Verificamos que a toxidade do tratamento se
e Princípios de tratamento. Manual de
manifestou em todos os entrevistados, a qual
oncologia clínica. São Paulo: Springer-
afeta sobremaneira a qualidade de vida dos
Verlag, 1998.
indivíduos em tratamento. Enfatizamos a
8. Thomas R, et al. Forewarned is
necessidade de atuar junto a essa clientela, de
forearmed – benefits of preparatory
modo mais integral, auxiliando-os no
information on video cassette for
enfrentamento da doença e no manejo dos
patients receiving chemotherapy or
efeitos colaterais, fornecendo-lhes informações
radiotherapy – a randomized controlled
de maneira apropriada sobre o tratamento
trial. European Journal of Cancer, v.36,
antineoplásico, seus efeitos secundários e
p.1536 - 1543, 2000.
respectivas medidas de suporte, pois
9. Fernandes AFC, et al. Comportamento
constatamos que os sujeitos possuíam carência
da mulher mastectomizada frente às
de informações. Acreditamos que ao se prestar
atividades grupais. Rev. Bras. Enferm.
orientações adequadas é possível tranqüilizar o
V. 57, n. 1. P. 31-4, 2004
cliente na medida em que aumenta sua
10. Häggmark C et al. Effects of
compreensão sobre o tratamento a que vai se
information supply on satisfaction with
submeter, fazendo com que este seja menos
information and quality of life in cancer
temido e tenha maior possibilidade de adesão.
patients receiving curative radiation
Palavras-chave: Câncer; Quimioterapia; Efeitos
therapy. Patient Education and
Adversos; Enfermagem
REFERÊNCIAS
Counseling, v.45, p.173 - 179, 2001.
11. Leite KC, Mateus L. Enfermagem no
ambulatório de um serviço de
radioterapia. Revista Nursing, nº42,
p.26 - 30, 2001.
12. Gonçalves J. A; Controlo de sintomas
no cancro avançado. Lisboa: Fundação
Calouste Gulbenkian, 2002.
13. Linardi A.G, Dantas FA, Silva RM.
Mulheres submetidas a tratamento para
câncer de colo uterino: percepção de
como enfrentam a realidade. Rev Bras
Cancerol 2002; 48(4):493-8.
14. Aquino VV, Zago MMF O significado
das crenças religiosas para um grupo de
pacientes oncológicos em reabilitação.
Revista Latino Americana de
Enfermagem v.15 n.1 Ribeirão Preto
jan./fev.2007.
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