A Alma de Homer- A Psicologia de “Os Simpsons”

Propaganda
A Alma de Homer- A Psicologia de “Os Simpsons”
David Pizarro* e Paul Bloom†
Resenha: Flora Tucci‡
Discutir uma das questões mais profundas e clássicas da psicologia, ou seja, a vida
mental e a relação mente-corpo, é o objetivo central do artigo de Pizarro e Bloom, publicado
originalmente em 2006.
Nós sabemos que nossas mentes são produtos de nossos cérebros, até mesmo podemos
utilizar métodos de ressonância magnética para localizar certos tipos de eventos mentais, mas,
continuamos tendo um enigma a decifrar, que está relacionado à própria existência da vida
mental, que é: como o cérebro gera dor, amor, moralidade e consciência?
Mesmo sem resolver este problema, os cientistas vêm conseguindo fazer grandes
progressos, assim como psicólogos clínicos não precisam resolver o problema da mente/corpo
para encontrar as causas de desordens mentais específicas e propor possíveis tratamentos.
O que o programa de TV “Os Simpsons” pode dizer sobre este tema? Para Pizarro e
Bloom, por meio deste programa, podemos ter bons insights sobre a metafísica proveniente do
senso comum, sobre como as pessoas pensam acerca da consciência, do cérebro e da alma. O
mundo ficcional de “Os Simpsons”, assim como tantos outros, encorporam nossas intuições
sobre a natureza das coisas e, consequentemente, um estudo sobre o mundo de “Os Simpsons”
pode nos enisnar algo sobre essas intuições. Essas noções estão inteiramente ligadas às nossas
crenças religiosas e todos os tipos de questões sociais e políticas, incluindo pesquisa de célulatronco, clonagem, aborto e eutanásia entre outros.
*
Professor de psicologia na Universidade de Yale. Faz pesquisa acerca da linguagem e desenvolvimento.
†
Professor assistente de psicologia na Universidade de Cornell. Interessa-se em pesquisar julgamento moral e a
influência da emoção no julgamento.
‡
Mestre em Filosofia pela Puc-Rio, psicanalista, bolsista do projeto Ética e realidade atual: o que podemos saber, o
que devemos fazer (www.era.org.br).
Os autores Pizarro e Bloom tomam a personagem de Homer Simpson para ilustrar essas
reflexões. No início, Homer era caracterizado como um chefe de família com falhas, mas
amoroso. Ao longo do programa, suas características foram exarcebadas, ele passa, inclusive, a
tratar sua família com uma indiferença criminal e também de forma estúpida e fantástica. Esse
exagero de suas características pode trazer à luz fatos e distinções que são mais sutis e de difícil
análise no mundo real.
Homer tem, no mínimo, três partes: ele mesmo, o seu cérebro e a sua alma. A metafísica
implícita em “Os Simpsons” proporciona uma chocante ilustração de como nós naturalmente
traçamos estas distinções no mundo real.
HOMER E SEU CÉREBRO
Pizarro e Bloom resgatam o filósofo Descartes, que questiona fortemente o que podemos
saber com certeza. Ele presumiu que nossas memórias podem ser ilusões, duvidou da existência
de nosso corpo, ao supor um Deus Enganador que criaria ilusoriamente uma experiência
sensorial (uma versão moderna desta questão pode ser encontrada no fime “Matrix”, onde o
mundo é descrito como experiências criadas por computadores maléficos).
Mas, com sua afirmação famosa “penso, logo existo”, Descartes conclui que há uma
coisa que não podemos duvidar. Eu posso duvidar da existência do meu corpo, mas não posso
duvidar da existência do meu “eu”. Essa concepção cartesiana tem como consequencia a ideia de
que há duas substâncias distintas: um corpo e um “eu”.
Pizarro e Bloom defendem que, filosoficamente, este método é suspeito, porque a
possibilidade de pensar um “eu” sem um corpo não significa que isto é, de fato, possível. Além
disso, há evidências abundantes de que a vida mental de Descartes é produto de seu cérebro.
Contudo, nós, intuitivamente, não tomamos o cérebro como fonte da experiência consciente. Ao
invés, pensamos o cérebro como uma prótese congnitiva, por exemplo, como um computador
portátil.
Esta é, certamente, a concepção presente em “Os Simpsons”. O cérebro de Homer não é
Homer. É como se fosse um companheiro inteligente de Homer: útil, ainda que limitado, livro de
referência, calculadora e fonte ocasional de conselhos decentes. Esta distinção entre Homer e seu
cérebro apresentada no programa é algo que os telespectadores não estranham. Pois, se fosse o
caso, essas situações encenadas seriam vistas apenas como alucinações, o que não parece ser o
caso.
Pessoas com a mais alta formação, como cientistas, têm dificuldade em abandonar esta
distinção intuitiva entre cérebro e mente. Técnicas modernas de imagem cerebral permitem hoje
observar o cérebro quase em tempo real e fazer experimentos para observar o funcionamento
deste em diversas situações, como, por exemplo, identificar regiões do cérebro que são ativadas
quando pensamos em determinada coisa.
Mas, até onde sabemos, o pensar e a ativação de regiões do cérebro são a mesma coisa: a
“ativação” é o “pensar”. No entanto, encontramos frequentemente, mesmo em artigos científicos,
o dualismo proveniente do senso comum que distingue a mente do cérebro. E, desta forma, o
“eu” não sendo material, mantém aberta a possibilidade de que possamos sobreviver a destruição
de nossos corpos.
A ALMA DE HOMER
Até aqui, as noções em que “Os Simpsons” estão baseados são universais: um dualismo
do senso comum, uma crença que nós ocupamos nossos cérebros/corpos, mas não somos, em
nossa essência, físicos. Contudo, existe algo mais: uma alma, distinta de nós mesmos e de nossos
cérebros.
A alma parece ser um pouco menos universal: a concepção do senso comum acerca da
alma difere de sociedade para sociedade. A visão “simpsoniana” sobre o tema alinha-se com a
Doutrina Cristã: a alma é o que persiste após a morte, indo para o céu ou para o inferno, além de
ser a base para a moralidade. Um episódio citado como exemplo de tal concepção é intitulado
“The Devil and Homer Simpson” (“O Diabo e Homer Simpson”), onde Homer vende sua alma
por um donut e tem que enfrentar um julgamento para tentar salvá-la.
Mesmo que ainda tenhamos muitas perguntas sem respostas quanto ao problema
mente/corpo, existem determinadas coisas que psicólogos e neurocientistas, de fato, sabem: o
cérebro é a fonte da vida mental; nossa consciência, emoções e vontades são produtos de
processos neurais, ou seja, nossas mentes são produto de nossos cérebros físicos e não separados
deles, e não existem almas para se vender.
Pizarro e Bloom concluem seu artigo mostrando como idéias que estão enraizadas no
senso comum, como as aqui apresentadas por meio do programa de TV “Os Simpsons”, são de
difícil transformação, pois já estão totalmente inseridas em nossas linguagens e hábitos do dia a
dia e, por isso, aqueles que desejam se afastar destas idéias do senso comum não devem se
espantar com a tamanha resistência que irão encontrar. Seria igual conseguir que Homer
rejeitasse o donut do diabo.
Download