doença holandesa e inserção comercial internacional

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DOENÇA HOLANDESA E INSERÇÃO COMERCIAL
INTERNACIONAL DO BRASIL E AUSTRÁLIA: UMA ANÁLISE
COMPARATIVA NO INÍCIO DO SÉCULO XXI.
Clésio Lourenço Xavier1
Michael Gonçalves da Silva2
Introdução
O conceito de “Doença Holandesa” foi apresentado, inicialmente, por Corden e
Neary (1982) no qual atribuía à crise da indústria holandesa as descobertas de novas jazidas
de gás natural no norte do país. Em síntese, considerando os preços elevados do gás na década
de 70 devido à crescente demanda internacional, a economia holandesa tendeu a se
especializar na produção de gás, o que elevou significativamente o fluxo de moeda estrangeira
no país. O resultado foi à apreciação da moeda holandesa (Florim) prejudicando a indústria
doméstica no que tange à concorrência com os bens industriais importados, implicando na
desindustrialização da economia holandesa.
Nos anos 2000 tem-se um cenário de preços internacionais elevados das
commoditiesagrícola e mineral, o que tem levado países dotados de bens intensivos em
recursos naturais a aumentarem suas exportações. Assim, considerando o Brasil e Austrália
que são grandes exportadores de bens intensivos em recursos naturais, o objetivo deste
trabalho é verificar se nessas economias as anormalidades causadas pela “Doença Holandesa”
estão presentes.
Assim esta pesquisa é de cunho qualitativo comparativo, no qual será observado o
comportamento das variáveis que correspondem à hipótese de “Doença Holandesa”,
comparando-as em seguida entre o Brasil e Austrália. Os dados de comércio internacional
foram obtidos da base de dados da COMTRADE/ONU desagregados a dois dígitos e,
novamente reagregados a partir da proposta setorial de intensidade tecnológica da OCDE. Os
demais dados foram obtidos junto aos seguintes órgãos: Fundo Monetário Internacional,
1
Professor Doutor Associado da Universidade Federal de Uberlândia e Pesquisador de Produtividade do CNPq.
Email: [email protected]. Fone: 34-9979-1963.
2
Economista da Universidade Federal de Santa Maria. Mestre e Doutorando do Programa de Pós-Graduação em
Economia da Universidade Federal de Uberlândia. Email: [email protected].
97
Banco Central do Brasil, Instituto Brasileiro de Geografia e Economia e Banco Central da
Austrália.
Além desta parte introdutória, o texto compreende outras cinco partes: a primeira
delas se concentrará na definição de “Doença Holandesa”, em seguida será apresentada a
discussão de “Doença Holandesa” no Brasil; a seguir a discussão estende-se à Austrália; a
quarta parte corresponde à análise comparativa dos países e; por fim, algumas conclusões e
considerações do trabalho.
Doença Holandesa: Origem e Definições
Na literatura econômica é possível encontrar algumas tentativas de construção de
modelos que tentam explicar os efeitos da “Doença Holandesa” - muitos desses modelos
relacionam os recursos naturais com a desindustrialização das economias. Para este texto
serão apresentadas três definições de “Doença Holandesa” que foram trazidas pelos seguintes
autores: Corden e Neary (1982), Bresser-Pereira (2008, 2009) e Oreiro e Feijó (2010).
A denominação de “Doença Holandesa” surge com a descoberta, nos anos
sessenta, de abundantes reservas de gás natural. A expressão “Doença Holandesa” foi
utilizada pela primeira vez pela revista inglesa The Economist no ano de 1977. Na tentativa de
explicar esse fenômeno, Corden e Neary (1982) propuseram o primeiro modelo, analisando o
fenômeno da “Doença Holandesa” e identificando dois efeitos: o primeiro, o que eles
chamaram de efeito movimento dos recursos, no qual ocorre, em virtude da expansão da
produção e exportação de um novo recurso natural, uma transferência de fatores produtivos da
indústria e dos demais setores de bens não comercializáveis para essa nova atividade. Desta
forma, observa-se um declínio do emprego e da produção nesses setores, com o aumento dos
preços relativos dos bens não comercializáveis desencadeando na apreciação da taxa de
câmbio - neste caso a economia é conduzida por um processo de desindustrialização direta. O
segundo efeito foi denominado de efeito gasto, no qual o crescimento da renda, proporcionado
pela nova atividade, implica um aumento na demanda por bens não comercializáveis e, por
consequência, uma elevação de seus preços – o que, mais uma vez, implica na apreciação da
taxa de câmbio. Como a elasticidade-renda da demanda dos serviços é mais alta que a da
98
indústria, a produção desta última cresce menos ou diminui, enquanto a dos outros setores
aumenta. É o que os autores chamam de “desindustrialização indireta”.
Bresser-Pereira (2008, 2009) desenvolve um modelo de doença holandesa, cuja
base é a existência de rendas ricardianas que levam a uma distinção entre a taxa de câmbio de
equilíbrio corrente (εc), definida como a taxa que equilibra inter temporalmente a contacorrente de um país (taxa para a qual o mercado tende a convergir), e a taxa de câmbio de
equilíbrio industrial (εi), expressa como a taxa que, na média, permite que as empresas,
usando tecnologia de ponta, sejam rentáveis ou competitivas. Assim, se um país possui
recursos naturais (e humanos) abundantes, a utilização desses recursos baratos permite que os
produtos sejam produzidos e exportados a custos menores do que os dos concorrentes
internacionais, levando ao surgimento de rendas ricardianas. A valorização cambial favorece a
especialização do país em setores intensivos em recursos baratos dotados de vantagens
comparativas, ao passo que desestimula a produção de setores que não possuem essas
vantagens, como os bens manufaturados intensivos em tecnologia sofisticada. Logo, o autor
propõe um modelo ampliado para a análise da doença holandesa, em que esta não estaria
associada apenas à abundância de recursos naturais, mas também de mão-de-obra barata.
Oreiro e Feijó (2010) fazem uma análise a partir da identificação da perda de
dinamismo do setor industrial brasileiro decorrente da combinação existente entre abertura
comercial, melhora dos termos de troca e apreciação cambial. Além disso, o último estágio da
“Doença Holandesa” seria a desindustrialização prematura da economia, refletida nos saldos
comerciais, ou seja, a “Doença Holandesa” se manifestaria através do comércio quando
fossem notados saldos comerciais superavitários crescentes nos setores produtores de
commodities e déficits comerciais crescentes nos setores industriais.
Logo, a partir das contribuições de Corden e Neary (1982), Bresser-Pereira (2008,
2009) e Oreiro e Feijó (2010) é possível inferir que a “Doença Holandesa” ocorre em
situações de elevados preços de commodities, nos quais países com dotação de fatores
intensivos em recursos naturais tendem a expandir suas ofertas em busca das receitas de
exportação (rendas ricardianas), o que resulta no aumento de oferta de moeda estrangeira na
economia que, por sua vez, aprecia a taxa de câmbio, o que traz consequências para a
indústria doméstica.Com o câmbio real apreciado, os bens de intensidade tecnológica
importados ficam mais acessíveis em relação aos bens produzidos na economia, elevando as
importações, e tal concorrência resulta no abandono da produção nos setores em que a
economia não possui dotação adequada.
99
Inserção Comercial e Doença Holandesa no Brasil
A discussão sobre “Doença Holandesa” no Brasil é muito recente e surge na
década de 2000, principalmente em meados de 2003, quando se constatou a elevação dos
preços internacionais de commodities acompanhadas por um aumento contínuo das
exportações brasileiras. Nesses primeiros anos da década de 2000 é possível destacara
descoberta de petróleo nas camadas do pré-sal, aumento na demanda por combustíveis
renováveis, grãos e minérios nos mercados da Europa e China.
Para além do aumento na demanda de bens não industriais, a apreciação da taxa
de câmbio real e o baixo desempenho da indústria de transformação nos anos 2000 foram
responsáveis por reforçar o argumento daqueles que acreditam que o Brasil está atravessando
um cenário de desindustrialização da indústria nacional decorrente da “Doença Holandesa”.
Desta forma, os autores que relacionam a inserção comercial e perda da
competitividade da indústria brasileira nos últimos anos aos sintomas “Doença Holandesa”
sãoBresser Pereira (2009); Bresser Pereira e Marconi (2008), Bruno, Araújo e Pimentel
(2009); Oreiro e Feijó (2010); e Sampaio e Pereira (2009); Silva, et al. (2012): Silva e Xavier
(2011); Veríssimo e Xavier (2013).
Bresser Pereira (2009) afirma que a “Doença Holandesa” se estabelece em
determinada economia por estágios: inicialmente, a exploração de recursos naturais traz
benefícios econômicos para o país, pois é uma forma de participação no comércio mundial,
além de promover a acumulação primitiva de capitais, o que contribui para a formação de
uma classe empresarial no país. Assim, esta nova classe empresarial passará a exigir uma taxa
de câmbio competitiva para que possa participar do comércio internacional, pois com uma
taxa de câmbio apreciada, a competição da indústria de manufaturados torna-se inviável,
devido ao encarecimento dos bens, em comparação aos bens do resto do mundo.
Os autores Bresser Pereira e Marconi (2008) relatam que a valorização cambial
favorece uma especialização do país na produção dos setores intensivos em recursos baratos,
que possuem vantagens comparativas em relação aos seus competidores. Ao passo que
100
desestimula a produção de setores que não possuem tais vantagens comparativas, como a
produção dos bens manufaturados, intensivos em tecnologia.
Em Bruno, Araújo e Pimentel (2009) o câmbio apreciado é o responsável por
prejudicar as indústrias de alta intensidade tecnológica, devido ao favorecimento de setores
mais tradicionais da economia brasileira, além de contribuir para a intensificação na
participação do setor de serviços. Assim, a especialização da indústria brasileira em setores
tradicionais está relacionada à abertura comercial e financeira, vivenciada nos anos 90.
Oreiro e Feijó (2010) destacam que a manifestação da “Doença Holandesa” pode
ocorrer se a desindustrialização causada pela apreciação cambial, oriunda de novas
descobertas de recursos naturais, estiver acompanhada de uma reprimarização da pauta de
exportação, ou seja, uma reversão na pauta de exportação brasileira em direção à produção e
comercialização de commodities.
Sampaio e Pereira (2009) afirmam que a taxa de câmbio iniciou um caminho
rumo à valorização, em 2002, ao mesmo passo que o desempenho comercial de produtos
básicos apresentou uma tendência ao crescimento maior do que os setores de manufaturas e
semimanufaturados; mesmo assim o crescimento ficou abaixo das taxas de crescimento
mundial. Para os autores, os fatores relacionados aos sintomas da “Doença Holandesa” estão
mais precisamente ligados à maior demanda internacional de commodities, e não à mudança
na estrutura produtiva da economia.
Silvaet al. (2012) analisam a inserção comercial internacional do Brasil no
período 2002-2008 e concluem que todos os setores apresentaram crescimento comercial, ou
seja, aumento das exportações, sendo que os setores de maior intensidade tecnológica
apresentaram déficits comerciais crescentes e os setores intensivos em recursos naturais,
superávits comerciais crescentes, o que pode desencadear um processo de desindustrialização
da economia brasileira. Outra conclusão é que a indústria nacional perdeu participação efetiva
no comércio internacional, o que pode ser um indicativo de um processo inicial de
desindustrialização da economia brasileira.
Silva e Xavier (2011) analisam a hipótese de “Doença Holandesa” no Brasil no
período de 2002-2008 através da utilização da agregação dos saldos comerciais setoriais,
reagrupando de acordo com a metodologia proposta por Lall (2000), nos quais encontraram
fortes evidências de ocorrência da “Doença Holandesa” devido aos saldos superavitários
crescentes dos setores intensivos em recursos naturais e déficits crescentes nos setores
industriais.
101
Veríssimo e Xavier (2013) fazem uma investigação da hipótese da“Doença
Holandesa” no Brasil pela existência de uma relação negativa entre as exportações de
commodities e a taxa de câmbio real, e os efeitos da especialização das exportações de
commodities no crescimento da economia brasileira de 1999-2010 com base no modelo VAR.
As evidências sugerem uma importância expressiva das exportações de commodities para
explicar as reais variações cambiais.
Inserção Comercial e “Doença Holandesa” na Austrália
A crescente participação na atividade econômica de exploração dos recursos
naturais nos últimos anos na Austrália tem estimulado o debate acerca dos resultados
econômicos da produção de bens intensivos em recursos naturais no país. Assim, os trabalhos
de Battellino (2011), Connolly e Lewis (2010), Van der Ploeg (2011), Sheehan e Gregory
(2013) e Corden (2012) tentam retratar os efeitos de boom do setor de minérios, bem como a
possível incidência de “Doença Holandesa”.
Battellino (2011) afirma que a economia australiana está experimentando
atualmente uma intensificação na atividade de mineração e isto tem sido uma força poderosa
ao longo da formação da economia australiana. O autor parte de uma perspectiva histórica,
mais precisamente dos anos 1930, para argumentar a importância desses fenômenos para a
economia da Austrália.
ConnollyeLewis (2010) concluem que a estrutura da economia australiana mudou
ao longo do tempo e tal mudança estrutural ocorreu em ondas, impulsionada por uma série de
fatores, incluindo o aumento da demanda por serviços, a industrialização do leste da Ásia, a
reforma econômica e mudanças técnicas. Nos últimos anos, o setor de mineração também tem
crescido em importância, o boom da mineração também levou a um aumento da taxa de
mudança estrutural, especialmente quando medido em termos de potência nominal e de
investimento.
Van der Ploeg (2011) faz o seguinte questionamento: os recursos naturais são uma
"maldição" ou uma “bênção” na economia australiana?O autor examina uma variedade de
hipóteses e provas através das quais alguns países se beneficiam e outros perdem com a
presença de recursos naturais. A elevada dotação de recursos naturais induz apreciação da
taxa de câmbio real, a desindustrialização e as perspectivas de crescimento negativas, e que
102
estes efeitos adversos são mais graves em países voláteis com instituições frágeis e ausência
de Estado.
Sheehan e Gregory (2013) discutem o forte impacto econômico sobre a Austrália
que a ascensão da Ásia tem provocado através de setor de recursos naturais. O autor afirma
que o boomextraordinário da mineração se move através de três etapas: o aumento dos termos
de troca, uma resposta aos investimentos em mineração e, finalmente, um aumento
significativo das exportações minerais.
Corden (2012) chama atenção para as dificuldades criadas às diversas empresas e
indústrias pelo efeito da “Doença Holandesa” acerca do boom de recursos naturais.
Entretanto, o autor apresenta duas razões favoráveis: o primeiro aspecto é o lado positivo da
“Doença Holandesa”, que trata do aumento substancial dos salários reais de consumo devido
à queda dos preços de importação. A segunda razão favorável é que algumas empresas e
indústrias podem ganhar com o boom gerado pelo aumento da demanda por bens não
comercializáveis.
Em relação ao governo, Corden (2012) afirma que o mesmo deve programar um
pacote de política fiscal superavitária (através da tributação dos setores produtores de
commodities) em conjunto com uma política monetária no sentido de conter a apreciação da
taxa de câmbio real, e tais medidas servirão como medidas de proteção à indústria doméstica.
Enfim, para seguir com a análise comparativa entre Brasil e Austrália é preciso
considerar a seguinte hipótese: dados os preços internacionais de commodities agrícolas e
minerais, os países que são dotados de recursos naturais tendem a exportar mais, o que
resultará no aumento do fluxo de moeda estrangeira na economia e, consequentemente, a taxa
de câmbio real será apreciada. Com o câmbio apreciado fica mais barato importar bens
intensivos em tecnologia, em detrimento da oferta doméstica, o que pode ocasionar a
desindustrialização da economia.
Inserção Comercial, Saldos Comerciais e “Doença Holandesa” no Brasil e Austrália
A inserção comercial setorial do Brasil e Austrália será descrita a seguir através da
utilização de dados de comércio internacional, os quais foram desagregados a dois dígitos
para captar de melhor maneira o comportamento dos saldos comerciais setoriais. Em seguida,
os dados serão reagregados a partir da metodologia proposta pela Organização para a
Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), que subdivide em cinco os setores da
103
economia, de acordo com a intensidade tecnológica: Setores não industriais, Setor de baixa
intensidade tecnológica, baixa-média intensidade tecnológica, média-alta intensidade
tecnológica e alta intensidade tecnológica.
Os setores não industriais são classificados aqui como aqueles pertencentes aos
setores produtores de commodities agrícola e mineral, sendo este setor o principal responsável
pelo surgimento da “Doença Holandesa” e que apresentou maiores elevações em seus preços
no mercado mundial na primeira década do século XXI. Resumidamente podemos listar os
seguintes setores como integrantes deste grupo: grãos, animais vivos, minérios, pescados,
frutos do mar, alimentos in natura, etc.
Setores de baixa intensidade tecnológica foram classificados como os setores que
apresentam pequena inovação, de produto ou processo, e assim fazem parte desta
classificação tanto os setores conhecidos como indústrias tradicionais quanto da indústria de
base. Exemplo: siderurgia, indústria alimentícia, têxtil, química bruta, entre outras.
Aqueles setores de baixa-média intensidade tecnológica são setores que
apresentam um valor adicionado maior, bem como alguns setores de bens de capital. Desta
forma, fazem parte desses setores: indústria de fertilizantes, matérias químicas, equipamentos
metalúrgicos, móveis, aparelhos eletroeletrônicos, etc.
A grande maioria dos setores produtores de bens de capital está classificada em
média-alta intensidade tecnológica. Neste grupo, ainda, é possível encontrar os setores
produtores de veículos, aparelhos eletrônicos, setores produtores de máquinas especializadas,
etc.
Por fim, os setores de alta intensidade tecnológica são, em particular,setores de
química fina, medicamentos, bens aeroespaciais, aeronáutica, dentre outros.
A figura 1 ilustra os saldos comerciais setoriais do Brasil para os anos de 20002012 (em US$ bilhões), através da qual fica claro que os dois únicos setores que apresentaram
saldos comerciais superavitários foram os setores de não industriais e de baixa intensidade
tecnológica. Os demais setores (baixa-média; média-alta e alta intensidade tecnológica), que
são setores industriais, apresentaram déficits comerciais crescentes.
Ainda em relação à figura 1, o setor de bens não industriais destaca-se, dentre os
demais, devido ao seu comportamento exponencial, ou seja, entre os anos 2000-2012 esse
setor cresceu mais de sete vezes (7,70 transformado em índice), o que leva a concluir que a
inserção comercial setorial externa do Brasil no período em questão foi fortemente
caracterizada pela produção de commodities.
104
Figura 1: Saldos Comerciais Setoriais do Brasil entre os anos de 2000-2012 (em
US$ bilhões).
Fonte: Dados obtidos da Comtrade/ONU e gráfico elaborado pelos autores.
De maneira análoga, o gráfico 2 reagrupa os dados do comércio internacional,
oriundos da COMTRADE/ONU referente à economia australiana entre os anos de 2000-2012.
Assim como no Brasil, na Austrália apenas os setores de não industriais e de baixa
intensidade tecnológica apresentaram saldos comerciais positivos. Os demais setores (baixamédia; média-alta e alta intensidade tecnológica) apresentaram saltos comerciais negativos,
significando isso que a Austráliaexportou mais matérias-primas e bens de baixa intensidade
tecnológica e importou mais bens industriais.
Assim, o gráfico 2 ilustra o desempenho excepcional do setor de não industriais
da Austrália, que apresentou um crescimento significativo nos últimos anos. Além disso, o
setor de média-alta intensidade tecnológica foi o setor que mais apresentou déficits comerciais
para o período em questão. Logo, fica evidente que a inserção comercial internacional da
105
Austrália no período recente ocorreu através dos setores intensivos em recursos naturais e
trabalho.
Figura 2: Saldos Comerciais Setoriais da Austrália entre os anos de 2000-2012
(em bilhões)
Fonte: Dados obtidos da Comtrade/ONU e gráfico elaborado pelos autores.
A comparação entre Brasil e Austrália no que tange às inserções de comércio
internacional resulta numa semelhança entre suas pautas de exportações e importações. Em
ambos os países apenas os setores intensivos em recursos naturais e trabalho (setores não
industriais e de baixa intensidade tecnológica) apresentaram superávits comerciais entre os
anos de 2000-2012.
Para os setores de não industriais, nos dois países a trajetória dos saldos
comerciais (vide gráficos1 e 2) são muito semelhantes, com um movimento inicial de
expansão em 2003, com um pequenodeclínio em 2008, seguido de uma nova expansão em
2009 até 2011, onde tais apresentaram um desempenho significativo.
Outro ponto de convergência entre Brasil e Austrália é o desempenho dos saldos
comerciais setoriais no setor de média-alta intensidade tecnológica, que se mostrou deficitário
106
e crescente ao longo dos anos, evidenciando a grande presença de bens industriais
estrangeiros nas economias.
Os resultados referentes ao comportamento do setor intensivo em recursos
naturais são decorrentes das altas dos preços internacionais de commodities, conforme pode
ser constatado na figura 3 – Índice de Preços de Commodities, queapresentaa trajetória dos
preços internacionais de todas as commodities.
Figura 3: Índice de Preços de Todas as Commodities (2005=100) de 2000 a 2013.
Fonte: Fundo Monetário Internacional, 2014.
A análise das variáveis necessárias para “diagnosticar” os efeitos da “Doença
Holandesa”, definidas na seção 1, no Brasil e Austrália, conclui que duas variáveis atendem às
condições: em primeiro lugar, os preços internacionais de commodities elevados e aumento
das exportações de bens intensivos em recursos naturais. Entretanto, mesmo sabendo que
ambos os países apresentam superávits comerciais crescentes para os setores intensivos em
recursos naturais e déficits comerciais crescentes para os setores intensivos em tecnologia,
não é possível afirmar a suposta existência de “Doença Holandesa”antes da avaliação do
comportamento da taxa de câmbio real e da indústria desses países.
A figura 4 ilustra o comportamento do Produto Interno Bruto de cada país, o que
demonstra que a economia brasileira cresceu com mais intensidade, em termos relativos, do
107
que a economia da Austrália. A transformação dos valores da figura 4 em números índices,
entre os anos de 2000-2012, permiteconstatar que o PIB brasileiro cresceu mais de 3,73 vezes
em comparação com 1,43 da economia australiana.
Figura 4: Produto Interno Bruto do Brasil e Austrália (Em Valores Correntes de
Milhões de US$) Para os Anos de 2000–2012.
Fonte: Fundo Monetário Internacional, 2014.
A figura 5 tem por objetivo ilustrar as taxas de poupança e investimento de ambos
os países, considerando que estas são variáveis centrais na análise do desempenho
industrial.Para o caso brasileiro, tanto os níveis de poupança quanto os níveis de
investimentos não conseguiram ultrapassara casa dos vinte por cento, ou seja, o crescimento
do PIB apresentado na figura 4 não foi “puxado” pelos investimentos. Para a economia
australiana, tanto a taxa de poupança quanto a taxa de investimento apresentaram uma
tendência de elevação para o período em questão, sendo que no que tange aos investimentos a
taxa subiu de 25% para quase 30% em relação ao PIB.
108
Figura 5: Poupança Interna (Em % PIB) e Investimento (Em % do PIB) no Brasil e
Austrália nos Anos de 2000–2012.
Fonte: Fundo Monetário Internacional, 2014.
Em relaçãoà taxa de câmbio real, no modelo de “Doença Holandesa”, o aumento
das exportações dos setores produtores de commodities é responsável por elevar as receitas de
exportações na economia e, consequentemente, o volume de moeda estrangeira, o que aprecia
a taxa de câmbio real. Com a taxa de câmbio apreciada os setores industriais que não
possuemvantagenscomparativas sãoafetados negativamente pela concorrência internacional,
ou seja, a apreciação cambial encarece o bem industrial da economia doméstica, o que faz
aumentar as importações - o que já foi constatado anteriormente através das figuras 1 e 2, com
os saldos comerciais setoriais. Logo, as implicações do aumento das importações de bens
industriais são a perda de sua competitividade e, posteriormente, em casos mais extremos, a
desindustrialização desta economia.
A figura 6 apresenta a taxa de câmbio real dos dois países no período 2000-2012:
para o caso brasileiro a taxa de câmbio inicia a partir de 2000 uma tendência de depreciação
109
cambial (quando a moeda doméstica fica mais enfraquecida em relação à moeda estrangeira)
até o ano de 2002; a partir daí a taxa de câmbio seguiu um caminho de apreciação cambial
(quando a moeda fica mais fortalecida em relação à moeda estrangeira); a partir de 2011 a
taxa de câmbio atingiu o patamar semelhante do início dos anos 2000. No caso australiano, a
taxa de câmbio não apresentou grandes variações, seguindo uma leve tendência de
depreciação.
Figura 6: Taxa de Câmbio Real do Brasil e Austrália Entre os anos de 2000-2012.
Fonte: Fundo Monetário Internacional, 2014.
Portanto, ao analisar a taxa de câmbio real do Brasil e Austrália, e considerando
que a apreciação da taxa de câmbio é condição sinequa non para avaliar a existência de
“Doença Holandesa”, ainda não é possível afirmar que ambos os países têm vivenciado tal
fenômeno.Embora, para o caso brasileiro,tenha ocorrido apreciação cambial principalmente
entre os anos de 2002-2008, isso não é o suficiente para afirmar que o país atravessa ou
atravessou um quadro sintomático da “Doença Holandesa”, pois a produção da indústria
nacional não apresentou uma forte retração, mesmo diante de crescentes volumes de
importação. A figura 7 ilustra o índice de produção industrial.
110
Figura 7: Índice de Produção Industrial (Média 2002=100) no Período 2000-2012.
Fonte: Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 2014.
Diante do comportamento empírico de tais variáveis envolvidas na interpretação
da“Doença Holandesa” (preços internacionais de commodities, exportações dos setores
intensivos em recursos naturais, taxa de câmbio real e comportamento da indústria), é possível
fazer algumas considerações.
Em primeiro lugar, ressalte-se que os preços internacionais são formados pela
demanda mundial de bens não industriais, o que implica que tanto Brasil quanto Austrália
estão sujeitos aos efeitos das oscilações dos preços de tais bens, ou seja, nenhum deles tem
controle sobre esta variável. Como já ilustrado na figura 3, estes apresentaram uma tendência
crescente nos últimos anos.
A segunda variável em questão refere-se à inserção comercial internacional, pois
no modelo clássico de “Doença Holandesa” considera-se que o setor produtor de recursos
naturais aumenta sua exportação devido à elevada de seus preços no mercado internacional.
Em ambos os países analisados, a inserção comercial externase intensificou principalmente
através da exportação dos setores produtores de commoditiesagrícolas e minerais, os quais
111
apresentaram saldos comerciais crescentes entre os anos 2000-2012, como apresentado nas
figuras 1 e 2.
Normalmente, um aumento das exportaçõeseleva o fluxo de moeda estrangeira na
economia e produz uma apreciaçãoda taxa de câmbio real. Ressalta-se que a análise para o
caso australiano não revelou uma apreciação da taxa real de câmbio; ao contrário, no período
observado, a taxa de câmbio australianaseguiu uma tendência de depreciação. Diferentemente,
a análise do caso brasileiro evidencia que a taxa de câmbio real apresentou uma forte
apreciação entre os anos de 2003-2007, mas quando se considera o período completo 20002012, não é possível afirmar que ocorreu uma apreciação de sua moeda.
Considerações Finais
A “Doença Holandesa”, conforme acima discutido, é uma falha de mercado
causada pela abundância de recursos naturais eque atende à demanda do mercado externo. Os
elevados preços internacionais de commodities agrícola e mineral são responsáveis pelos
aumentos substantivos nas exportações líquidas e, consequentemente, responsáveis pelo
surgimento da “Doença Holandesa”. Sendo assim, o aumento das exportações eleva as
receitas, aumentando a quantidade de moeda estrangeira na economia. Tal aumento resulta na
apreciação da taxa de câmbio real, o que atinge a indústria doméstica.
A partir do conceito de “Doença Holandesa” proposto por Oreiro e Feijó (2010), o
objetivo deste artigo foi avaliar a inserção comercial internacional do Brasil e Austrália, na
tentativa de responder aos questionamentos acerca da possibilidade de ocorrência de tal
doença em ambas as economias.
Os resultados analisados das variáveis que indicam a possibilidade de “Doença
Holandesa” no Brasil e Austrália não ratificam a existência do fenômeno nas economias em
questão -mesmo constatando que a inserção comercial de ambos os países no período recente
ocorreu através do aumento das exportações de bens intensivos em recursos naturais e a
crescente importação de bens industriais.
Na Austrália, mesmo o país sendo eminente exportador de bens intensivos em
recursos naturais, não é possível afirmar a existência da “Doença Holandesa”, pois a taxa de
câmbio não apresentou uma tendência de apreciação, o que é imprescindível na constatação
de tal fenômeno.
112
Para o Brasil, as evidências são mais fortes entre os anos de 2003-2007, mas
mesmo assim não há concretude na análise, pois embora o país tenha apresentado saldos
comerciais crescentes nos setores intensivos em recursos naturais e apreciação cambial entre
2003-2007, não foi possível captar uma redução da produção industrial no período em
questão. Vale dizer que, mesmo que algumas das variáveis que explicam a “Doença
Holandesa” estejam presentes na inserção comercial do Brasil, ainda não se podeafirmar a
desindustrialização da economia brasileira no período em tela.
Portanto, dados os altos preços internacionais de commodities agrícolas e minerais
no início do século XXI, a inserção comercial de Brasil e Austrália caracteriza-se pela oferta
de bens intensivos em recursos naturais e grandes importadores de bens intensivos em
tecnologia.
Referências
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Australia, March, pp. 63-69, 2010.
BRESSER-PEREIRA, L. C. A Doença Holandesa. In: BRESSER-PEREIRA, L. C.
Globalização e Competição: Por que alguns países emergentes têm sucesso e outros não. Rio
de Janeiro: Elsevier, Cap. 5, p. 141-171, 2009.
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