UNIVERSIDADE DO ESTADO DO AMAZONAS – UEA FUNDAÇÃO DE MEDICINA TROPICAL DO AMAZONAS MESTRADO EM DOENÇAS TROPICAIS E INFECCIOSAS ASPECTOS VIROLÓGICOS DO DENGUE NO ESTADO DO AMAZONAS JULITA NASCIMENTO CÂMARA DE CASTRO MANAUS 2004 JULITA NASCIMENTO CÂMARA DE CASTRO ASPECTOS VIROLÓGICOS DO DENGUE NO ESTADO DO AMAZONAS Dissertação apresentada ao Programa de PósGraduação da Universidade do Estado do Amazonas para obtenção do grau de Mestre em Doenças Tropicais e Infecciosas. Orientador: Prof. Dr. Cristóvão Alves da Costa Co-orientadora: Regina Maria P. Figueiredo – MSc MANAUS 2004 RESUMO A dengue é uma das mais importantes doenças virais transmitidas por artrópodes. Anualmente, há uma estimativa de 50-100 milhões de casos de Febre do Dengue (FD), e 250.000 a 500.000 casos de Febre Hemorrágica do Dengue (FHD) no mundo. Metade da população mundial vive em área de risco de infecção, em zonas infestadas por vetores particularmente o Aedes aegypti e com circulação dos quatro sorotipos quase que de forma simultânea. No Amazonas, os casos de dengue só começaram a ser notificados a partir de 1998, atingindo em 2000 um total de aproximadamente 26 mil casos clínicos, nesses quatro anos ocorreram duas epidemias, restrita à sua capital, Manaus. O presente estudo tem como objetivo identificar os sorotipos do vírus dengue circulantes no Estado do Amazonas no período de dezembro de 2002 a dezembro de 2003; os soros foram processados, através de cultura, em células clone de mosquitos C6/36 de Aedes albopictus, os resultados foram analisados utilizando os softwares Epi-info 2000 e Excel 5.0. Coletaram-se 303 amostras de pacientes com suspeita e sintomatologia de dengue. A positividade foi de 32% para Flavivirus e vírus dengue, na estratificação das amostras foram identificados 37,11% para o sorotipo DEN-1, 21,65% para DEN-2, 3% para DEN-3 e 0% para DEN-4; quanto ao gênero, 56,10% foram do sexo feminino e 43,9% do masculino, a faixa etária que mais foi acometida pela doença foi entre 15-30 anos; as zonas da cidade de Manaus em que mais foram identificados os sorotipos foram as Zonas Centro-Oeste 26,66% e Centro-Sul com 23,3%, sendo o sorotipo DEN-1 o mais freqüente. Nos municípios do Estado do Amazonas que participaram do estudo, foram identificados o DEN-1, DEN-2 e outros do gênero Flavivirus. Palavras-chave: Dengue, sorotipos, isolamento viral, cultura de células, diagnóstico virológico. ABSTRACT The dengue is one of the most important diseases viral transmitted by arthropods. Annually, there is an estimate of 50-100 million of Fever cases of the Dengue (FD), and 250.000 to 500.000 cases of Hemorrhagic Fever of the Dengue (FHD) in the world. Half the world population lives in infection risk area, in zones infested by vectors particularly Aedes aegypti and with circulation of the four sorotipos almost of simultaneous form. In Amazonas the dengue cases only started to notify being starting from 1998, reaching in 2000 a total of about 26 thousand clinical cases, in these four years occurred two epidemics, restricted your capital Manaus. The Present study has as goal identify serotype of the circulating dengue virus in Amazonas’ State; the serums were prosecuted, through culture, in mosquitos clone cells C6/36 de Aedes albopictus, the results were analyzed using the softwares Epi-info 2000 and Excel 5.0. They collected 303 patients' samples with symptoms of dengue. The positiveness belonged to 32% to Flavivirus and dengue virus, in the bedding of the samples identified 37% to serotype DEN-1, 22% to DEN-2 and 3% to DEN-3; regarding the gender 57% went of the feminine sex and 43% of the masculine, the zones of the city of Manaus in which they were most identified serotype were the Center-west zones 20,69% and center south with 10,34% behing the serotype frequents most DEN-1. In Amazonas State Municipal districts who took part in the study, it was identified DEN-1, DEN-2 and another of the gender Flavivirus. Key Words: Dengue, Serotype, Viral Isolation, Cells Culture, Virologics Aspects. LISTA DE ABREVIATURAS Ae. Aedes aegypti BTI Bacillus thuringhiensis BUS Bussuquara CPC Caciporé DEN-1 Sorotipo dengue 1 DEN-2 Sorotipo dengue 2 DEN-3 Sorotipo dengue 3 DEN-4 Sorotipo dengue 4 ECP Efeito citopático FC Fixação do complemento FD Febre do dengue FDH Febre Hemorrágica do dengue FMTAM Fundação de Medicina Tropical do Amazonas IEC Instituto Evandro Chagas IF Imunofluorescência IGU Iguape IH Inibição de hemaglutinação ILH Ilhéus INPA Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia LACEN Laboratório Central de Manaus N Neutralização ROC Rocio SCD Síndrome do choque do dengue Sd Desvio padrão SLE Encefalite São Luis 1 LISTA DE FIGURAS Figura 1 – Resultados da imunofluorescência das amostras com suspeita clínica de dengue.. 26 Figura 2 – Distribuição dos sorotipos e gênero Flavivirus de isolados em cultura de células C6/36 ................................................................................................................................... 27 Figura 3 – Distribuição das amostras positivas por gênero ...................................................... 27 Figura 4 – Distribuição de isolamentos por gênero .................................................................. 28 Figura 5 – Distribuição de isolamentos segundo grupo etário ................................................. 29 Figura 6 – Diagnóstico virológico de dengue segundo os dias de viremia .............................. 29 Figura 7 – Distribuição de dengue e gênero Flavivirus no Estado do Amazonas .................... 30 Figura 8 – Localização de sorotipos por zonas geográficas na cidade de Manaus-AM ........... 31 Figura 9 – Distribuição de gênero Flavivirus por zonas geográficas na cidade de Manaus .... 32 Figura 10 – Distribuição por procedência das amostras ........................................................... 33 Figura 11 – Distribuição de isolados por procedência das amostras. ....................................... 33 Figura 12 – Procedência das amostras e casos isolados do vírus dengue e gênero Flavivirus. 34 Figura 13 – Distribuição anual de isolamentos do vírus dengue e gênero Flavivirus. ............. 35 Figura 14 – Distribuição anual de isolamentos do vírus dengue .............................................. 35 2 SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO ............................................................................................................................ 4 1.1 ARBOVIROSES..................................................................................................................... 4 1.1.1 Flavivirus brasileiros ................................................................................................... 5 1.2 DENGUE.............................................................................................................................. 6 1.2.1 Características do Vírus Dengue ................................................................................. 6 1.2.2 Transmissão dos Vírus Dengue ................................................................................... 7 1.2.3 Distribuição sazonal .................................................................................................... 7 1.2.4 Quadro Clínico ............................................................................................................ 8 1.2.5 Imunidade .................................................................................................................... 9 1.2.6 Patogenia ..................................................................................................................... 9 1.2.7 Condicionantes da Circulação Viral .......................................................................... 10 1.2.8 Dinâmica da Transmissão do Dengue ....................................................................... 11 1.3 VETOR .............................................................................................................................. 12 1.4 ISOLAMENTO E IDENTIFICAÇÃO VIRAL DA DENGUE ......................................................... 14 1.5 DENGUE NO MUNDO ......................................................................................................... 15 1.6 DENGUE NAS AMÉRICAS ................................................................................................... 16 1.7 DENGUE NO BRASIL.......................................................................................................... 17 1.7.1 Dengue em Manaus ................................................................................................... 19 1.8 PREVENÇÃO ...................................................................................................................... 19 1.8.1 Controle do Vetor ...................................................................................................... 20 2 OBJETIVOS .............................................................................................................................. 22 2.1 OBJETIVO GERAL ............................................................................................................. 22 2.2 ESPECÍFICOS ..................................................................................................................... 22 3 METODOLOGIA ....................................................................................................................... 23 3.1 TIPO DE ESTUDO ............................................................................................................... 23 3.2 POPULAÇÃO DE ESTUDO E SELEÇÃO DAS AMOSTRAS ....................................................... 23 3.3 OBTENÇÃO DOS DADOS CLÍNICOS E EPIDEMIOLÓGICOS ..................................................... 23 3.4 PROCEDIMENTOS LABORATORIAIS ................................................................................... 23 3.4.1 Coleta do material ...................................................................................................... 23 3.4.2 Diagnóstico virológico em células C6/36 (clone de Aedes albopictus) .................... 24 3.4.3 Identificação Viral ..................................................................................................... 24 3.5 PROCESSAMENTO E ANÁLISE DOS DADOS ........................................................................ 25 3.6 CONSIDERAÇÕES ÉTICAS .................................................................................................. 25 3 4 RESULTADOS .......................................................................................................................... 26 4.1 RESULTADO VIROLÓGICO DA POPULAÇÃO DE ESTUDO ...................................................... 26 4.1.1 Coleta das amostras clínicas ...................................................................................... 26 4.1.2 Exame virológico e sorotipagem pela imunofluorescência ....................................... 26 4.1.3 Característica da população de estudo quanto ao gênero e sorotipo ......................... 27 4.1.4 Tempo de doença e isolamento viral ......................................................................... 29 4.1.5 Distribuição geográfica das amostras ........................................................................ 30 4.1.6 Distribuição dos sorotipos por zonas da cidade de Manaus ...................................... 30 4.1.7 Distribuição para outros Flavivirus por zonas geográficas na cidade de Manaus..... 32 4.1.8 Diagnóstico virológico por procedência das amostras .............................................. 32 4.1.9 Distribuição Sazonal de Amostras Isoladas............................................................... 34 5 DISCUSSÃO ............................................................................................................................. 36 6 CONCLUSÃO ........................................................................................................................... 41 7 BIBLIOGRAFIA ........................................................................................................................ 42 ANEXOS FICHA DE NOTIFICAÇÃO DO DENGUE 4 1 INTRODUÇÃO 1.1 ARBOVIROSES As arboviroses representam um grave problema de saúde pública no Brasil. Entre elas, aquelas transmitidas por mosquitos e causadas por Flavivirus são as mais importantes causadoras de surtos ou epidemias78,21. São doenças causadas por um grupo de vírus ecologicamente bem definidos chamados de arbovírus. Constituem problema de importância em todos os continentes onde se apresentam sob forma endêmica ou epidêmica. A natureza da doença produzida no homem varia conforme o tipo de arbovírus responsável pela infecção. A maioria provoca uma síndrome febril benigna com ou sem exantema, enquanto outros determinam quadro hemorrágico ou de encefalite, acompanhado de significante letalidade. Em quase sua totalidade são zoonoses mantidas em ambiente silvestre – no qual se situam os nichos ecológicos dos arbovírus – onde são atingidas com maior freqüência. No entanto, certas arboviroses têm surgido periodicamente em áreas urbanas, aonde chegam a causar epidemias, tais como o dengue e a febre do Oropouche, ou mesmo persistir, endemicamente, como é o caso do Dengue78. Dá-se o nome de arbovírus a vírus de diferentes famílias, que se mantêm na natureza através de ciclos complexos, envolvendo um hospedeiro vertebrado e um artrópode vetor que transmite a picada100,89. O Brasil, particularmente na região amazônica, é recordista mundial em isolamentos de arbovírus, sendo que, até 1985, 134 vírus diferentes haviam sido encontrados e 84 destes eram novos para o mundo16,77. Os arbovírus possuem genoma constituído por acido ribonucléico (RNA), que pode ser segmentado ou não segmentado. Arbovírus com genomas não segmentados incluem os Alphavirus (Togaviridae), Flavivirus (Flaviviridae) e Rhabdovirus (Rhabdoviridae), enquanto os segmentados incluem os Bunyavirus (Buniaviridae) e os Orbivirus (Reoviridae)60. São classificados de acordo com suas propriedades antigênicas ou físico-químicas. A classificação antigênica dos arbovírus decorre de observações de diversos cientistas e que foram reunidas e interpretadas por Casals10. Os arbovírus são isolados e identificados por meio de provas de inibição da hemaglutinação (IH), fixação do complemento (FC) e neutralização em culturas de tecidos de camundongos recém-nascidos (N). Os três primeiros grupos caracterizados foram designados A, B e C, e os demais receberam o nome dos primeiros vírus 5 isolados no respectivo grupo4. Dessa maneira, foram agrupados em famílias, com base em suas propriedades físico-químicas, sendo as principais: família Togaviridae (Alphavirus) Grupo A, Flaviviridae (Flavivirus) Grupo B, Buniaviridae (Bunyavirus) Grupo C, Rhabdoviridae (Rhabdovirusi) e Reoviridae (Orbivirus) causam infecções somente em animais, ressaltando-se, no entanto, que nem todos os membros destas famílias são necessariamente arbovírus67,66. 1.1.1 Flavivirus brasileiros A família Flaviridae possui 70 membros, sendo 69 pertencentes ao gênero Flavivirus, que correspondem ao grupo B dos arbovírus55. Alguns são transmitidos principalmente por mosquitos, carrapatos e outros não estão associados com vetor artrópode. Os vírus transmitidos por mosquitos incluem os de grande importância epidemiológica, como Febre Amarela (FA), Encefalite de St. Louis (SLE), Rocio (ROC) e o vírus Dengue (DEN), todos capazes de determinar epidemias explosivas. No Brasil, 10 Flavivirus já foram isolados e são transmitidos como zoonoses silvestres que ocasionalmente podem acometer o homem e animais domésticos em contato com ecossistemas onde tais zoonoses ocorrem. Exemplo típico é o vírus da febre amarela silvestre que tem como reservatório macacos (Callitrichidae e Cebidae), sendo transmitida pelos mosquitos de copas das árvores Haemagogos janthinnomys e Haemagogos leucocelaenus16,89. Outros Flavivirus silvestres brasileiros são Bussuquara (BUS), Caciporé (CPC), Iguape (IGU), Ilhéus (ILH), Rocio (ROC) e o vírus da Encefalite de St. Louis (SLE). O ILH ocorre em todo o Brasil e o BUS na região amazônica, causando doenças febris sem características definidas, que podem ser confundidas com gripes ou outras viroses98,76. O CPC foi isolado de uma ave na região amazônica, e o Iguape (IGU) de camundongos sentinela, na região do Vale do Ribeira em São Paulo61, desconhece-se a doença humana causada por esses vírus. O ROC causou uma epidemia grave na região do Vale do Ribeira. Durante esta epidemia, que durou de 1973 a 1980, foram notificados aproximadamente 100 óbitos e mais de 200 pessoas ficaram paralíticas em conseqüência da encefalite. Os vetores e reservatórios desse vírus ainda não foram claramente determinados. Os SLE, no Brasil, não estão associados à encefalite61,76, mas foram isolados em pacientes que apresentavam febre e icterícia76. 6 1.2 DENGUE A febre do dengue é uma doença infecciosa não contagiosa causada pelo vírus dengue, reconhecida como entidade clínica desde 1779. Sua etiologia, no entanto, só foi estabelecida neste século. É um sério problema de saúde pública mundial, sendo uma das mais importantes doenças virais transmitidas por artrópodes que atinge o homem, é responsável por cerca de 100 milhões de casos/ano em população de risco que é de 2,5 a 3 bilhões de seres humanos101. A febre hemorrágica do dengue (FHD) e a síndrome do choque por dengue (SCD) atingem aproximadamente 500 mil pessoas/ano, apresentando taxa de mortalidade de até 10% para pacientes hospitalizados e 30% para pacientes não tratados48. No Brasil, em 1998, foram registradas 15 mil mortes e 1,2 milhões de casos de dengue e febre hemorrágica do dengue. Estima-se cerca de 50 milhões de casos de infecção por ano e mais de dois bilhões o número de pessoas que vivem em locais infestados pelos vetores94. Epidemias da doença têm ocorrido em quase todos os Estados do Brasil. A circulação simultânea do sorotipo DEN-1 e DEN-2 e, mais recentemente, também do sorotipo DEN-3, aumenta o risco de epidemias de dengue hemorrágico58. 1.2.1 Características do Vírus Dengue O vírus dengue pertence ao grupo B dos arbovírus, família Flaviviridae, gênero Flavivirus. Compreende quatro sorotipos imunologicamente distintos: DEN-1, DEN-2, DEN3 e DEN-4. Este vírus tem muitas características em comum com outros Flavivirus, tem um genoma com cadeia única de RNA com polaridade positiva, contendo aproximadamente 11kb, envolto por um nucleocapsídeo icosaédrico e recoberto por um envelope lipídico. O vírion tem aproximadamente 50nm de diâmetro onde estão inseridas pequenas proteínas de membrana e espículas de natureza glicoprotéica, a partícula viral completa apresenta uma densidade de 1,19 a 1,23 µ/mL29,52. A partícula viral mantém seu título infectivo por pelo menos cinco anos a -70ºC ou liofilizado armazenado em 5ºC52. O vírus possui três proteínas estruturais: a proteína C, localizada no nucleocapsídeo ou proteína do núcleo; proteína M, que está associada com a membrana; proteína E do envelope é a principal proteína e está relacionada com a imunidade e provável virulência da amostra. O vírus dengue tem sete outras proteínas não estruturais que estão relacionadas com a infecção viral17. Os quatro sorotipos do vírus dengue são antigenicamente diferentes, porém existem evidências de que pode existir subcomplexos sorológicos em cada grupo. Estes vírus têm sido analisados através de estudos moleculares, por sequenciamento do vírus que permite uma 7 visualização maior das relações genéticas, permitindo reuni-los em grupos genômicos ou subgrupos95. 1.2.2 Transmissão dos Vírus Dengue O vírus dengue é transmitido ao homem através da picada de mosquitos infectados do gênero Aedes, principalmente do Aedes aegypti. Uma vez infectado, um mosquito assim permanece durante a sua vida inteira, transmitindo o vírus aos indivíduos susceptíveis durante a sondagem e a alimentação. As fêmeas infectadas também podem passar os vírus à próxima geração de mosquitos por meio da transmissão transovariana, mas isso ocorre com pouca freqüência e provavelmente não contribui significativamente com a transmissão humana. Os humanos são os principais hospedeiros multiplicadores do vírus, apesar de alguns estudos demonstrarem que os macacos de algumas partes do mundo podem ser infectados e talvez sirvam de fonte de vírus para os mosquitos29. O Aedes aegypti adquire o vírus quando se alimenta de sangue de um indivíduo que esteja em viremia, o vírus então se multiplica no mosquito durante um período de incubação extrínseca de 8 a 10 dias. A partir de então o vetor torna-se competente para transmitir a doença, até o final da vida, que é de seis a oito semanas para o Aedes aegypti,03,12 ao homem em sondagens ou alimentação subseqüentes; neste último, o período de incubação do dengue varia de 2 a 7 dias. No homem, cada um dos quatro sorotipos pode causar febre clássica do dengue ou febre hemorrágica do dengue com ou sem choque, e não é reconhecido se um tipo é mais patogênico que o outro. A fase aguda da infecção pelo vírus dengue, que perdura de 5 a 7 dias, é seguida por uma resposta imune, contra o tipo de vírus inoculado pelo mosquito vetor (resposta primária). O primeiro ataque dá somente proteção temporária e parcial contra os outros três sorotipos, permitindo que infecções secundárias ou seqüenciais sejam possíveis após um curto período de tempo60. 1.2.3 Distribuição sazonal É evidente a distribuição sazonal do dengue no Brasil. Com a chegada do período chuvoso no Amazonas, há um aumento do índice pluviométrico, o que determina diminuição da atividade da forma alada do vetor ocasionado pelo frio e diminuição da reprodução de mosquitos por falta de chuvas. Esse período corresponde aos meses de maio a setembro. Durante o verão, o aumento da temperatura e das chuvas provoca uma explosão na eclosão 8 dos ovos com surgimento de milhares de mosquitos adultos, e muitos podem já estar infectados (transmissão transovariana)60. 1.2.4 Quadro Clínico O termo “dengue”, de origem espanhola, provém de uma manifestação marcante da doença, ou seja, dores articulares intensas, particularmente nos joelhos, levando a um andar característico, o andar “dengoso”. Por esta razão, a enfermidade também foi descrita como febre quebra-ossos, doença dos joelhos, febre de polca e melindre 37,75,85. É freqüente a descrição clínica do dengue em formas polarizadas: o dengue clássico ou febre do dengue, benigno, e o dengue hemorrágico com manifestações de comprometimento sangüíneo, evoluindo freqüentemente para um quadro de choque 35,37,42,46,103 . Com um quadro que varia desde infecções inaparentes, principalmente na infância, até sintomas gerais como febre, cefaléia, náuseas, vômitos, dor retrorbital, mialgias, artralgias e erupção cutânea, o dengue clássico tem um período de incubação de 2 a 15 dias, com cefaléia intensa e febre elevada (39ºC a 40ºC)85,87,103. A febre pode desaparecer no segundo dia, mas as manifestações podem progredir. A doença evolui para cura dentro de cinco a sete dias, no máximo dez. Alguns sintomas podem prenunciar gravidade mesmo que não haja alterações laboratoriais características do dengue hemorrágico, tais como vômitos muito freqüentes, dor abdominal, tonturas com hipotensão postural e hemorragias. Além disso, condições prévias ou associadas como referência de dengue anterior, idosos, hipertensão arterial, diabetes e asma podem constituir fatores capazes de favorecer a evolução com gravidade15. O dengue hemorrágico ou febre hemorrágica do dengue inicia-se à semelhança do dengue benigno, com febre, mialgias e artralgias. Entretanto, esse quadro clínico se modifica de forma rápida, surgindo manifestações hemorrágicas que vão desde uma prova do torniquete positiva, equimoses, hemorragia espontânea de ferimentos leves até hematemese e melena. Ao exame laboratorial, manifesta-se uma trombocitopenia acentuada, aumento dos tempos de sangramento, concentração do hematócrito e hipoproteinemia. Esta sintomatologia pode agravar-se, evoluindo para um quadro de choque do dengue por uma diminuição do volume plasmático por aumento da permeabilidade vascular42,103. Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), o dengue hemorrágico é caracterizado pela concomitância de alterações laboratoriais e de alterações clínicas associadas à síndrome febril, apresentada com gravidades variáveis: GRAU 1 – Hemorragia de pele induzida pela prova do torniquete ou do laço (deixa-se o manguito do tensiômetro entre a pressão máxima e a mínima por cinco minutos e a prova é 9 positiva se aparecer na dobra do cotovelo), numa área mínima de 2,5 cm2 ou mais de 20 pontos vermelhos que são denominadas petéquias. GRAU 2 – Acrescem-se hemorragias espontâneas de pele e mucosas (nasais, gengivais, aumento do fluxo menstrual, sangramento urinário e/ou vômitos sanguinolentos). GRAU3 – Acrescem-se derrames cavitários: pleural, peritoneal, pericárdico; e/ou sinais de pré-choque: redução da pressão arterial, do fluxo urinário e do enchimento capilar, pulso fino e rápido, extremidade fria, palidez e sonolência. GRAU 4 – Sinais de choque: os sinais acima se agravam com pulso e pressão imperceptíveis, ausência de diurese, torpor, perda da consciência que podem evoluir a óbito. Entretanto, essa classificação tem problemas práticos porque, em significativa parte dos casos, o paciente pode evoluir sem apresentar alterações hemorrágicas clínicas ou laboratoriais para síndrome de pré-choque, ou pode apresentar outras manifestações graves, neurológicas, hepáticas e/ou cardíacas, também sem ter tido hemorragias prévias15. 1.2.5 Imunidade Estudos sorológicos demonstram a formação de anticorpos neutralizantes, fixadores do complemento e inibidores de hemaglutinação, como resposta à infecção pelo vírus dengue 37,87,103 . Anticorpos neutralizantes e inibidores de hemaglutinação surgem nos primeiros sete dias da doença e podem durar toda a vida. Os anticorpos fixadores do complemento aparecem entre 7 a 14 dias depois do começo da enfermidade e persistem por curto tempo. Anticorpos heterotípicos aparecem ao mesmo tempo em que aqueles homotípicos, porém em menor concentração. Reações cruzadas são encontradas em diferentes sorotipos e com outros arbovírus do grupo B, embora usualmente os títulos dos anticorpos específicos se apresentem em concentrações bem mais elevadas. As infecções naturais produzem uma imunidade prolongada a uma reinfecção pelo mesmo sorotipo e protegem contra uma infecção por tipo diferente por um período de dois a três meses37,103. 1.2.6 Patogenia Estudos sobre a patogênese do dengue a partir de observações em humanos e em modelos com macacos Rhesus demonstram que o vírus tem um tropismo pronunciado por células do tecido linfóide37. Antígenos virais foram visualizados em macrófagos, histiócitos e células de kuppfer41,43,62, assim a multiplicação do vírus se daria nos locais de entrada, gânglios linfáticos e posteriormente se multiplicaria em endotélio vascular, particularmente na 10 epiderme. É possível que alguns ou todos os sorotipos se multipliquem nas células hepáticas, tecidos linfoprotéico, muscular e tecido conectivo. As células parasitadas provavelmente se eliminam pela citólise induzida pelo vírus ou por um mecanismo de hipersensibilidade retardada40,81. Um grupo de pesquisadores considera que o dengue clássico e o dengue hemorrágico representam os extremos de um espectro gradual de sintomas e sinais que abrangem desde a infecção assintomática até a manifestação severa de choque46,85. A existência de diferença na virulência de cepas dos quatro sorotipos seria responsável por tal variação, sendo raras aquelas que provocam um quadro grave de enfermidade86. Esse padrão não se diferenciaria do conhecimento existente sobre outras viroses, tal como a poliomielite, cuja freqüência de paralisia é baixa em relação às infecções inaparentes e não paralíticas. Entretanto as cepas virais isoladas nos pacientes com FHD conservam características similares àquela produtora do dengue clássico, quer em cultura de tecidos, quer em animais de laboratório35. Há estudos de que o dengue hemorrágico pode ser produzido por qualquer dos quatro sorotipos virais, embora o dengue sorotipo 2 seja o mais freqüente atribuído como agente causal5,39,46. A teoria mais aceita ou mais difundida atualmente é a de que uma primeira infecção com o dengue sensibilizaria alguns indivíduos, os quais, numa segunda infecção por outro sorotipo, desenvolveriam uma resposta imunológica alterada apresentando um quadro clínico hemorrágico37,39,42. O dengue hemorrágico acontece com maior freqüência em regiões infectadas por mais de um sorotipo viral e está associado aos quatro sorotipos; ocorre mais freqüentemente em indivíduos que já sofreram uma infecção prévia. A maioria dos pacientes com choque hemorrágico apresenta uma resposta de anticorpos do tipo secundário; a síndrome do choque apresenta-se em maior proporção em infecções com resposta de tipo secundário em comparação com aquelas de resposta primária; e os níveis de complemento sérico estão abaixo do normal em pacientes com síndrome do choque do dengue sugerindo a formação numa infecção seqüencial de dengue85. 1.2.7 Condicionantes da Circulação Viral Os principais fatores que têm sido apontados como condicionantes das apresentações epidemiológicas e clínicas do dengue são fundamentais na dinâmica de circulação dos vírus, as formas com que se organiza o espaço geográfico dos centros urbanos, o modo de vida de suas populações e os seus reflexos no ambiente, que criam as condições para proliferações dos 11 vetores91. O espaço social organizado influencia na interação sinérgica dos três elementos (vetor, homem e vírus) da cadeia biológica e epidemiológica. Entretanto, o dengue distinguese de outras doenças infecciosas e parasitárias porque a ocorrência da maioria delas está estreitamente relacionada com as más condições sociais e econômicas92,14. 1.2.8 Dinâmica da Transmissão do Dengue A doença foi reconhecida há mais de 200 anos e tem apresentado caráter epidêmico e endêmico variado tendendo a agravar nos últimos anos. As mudanças na dinâmica da transmissão da dengue podem ser explicadas pela baixa prevalência do vírus até recentemente, quando houve maior disponibilidade de hospedeiros humanos44. O aumento da concentração humana em ambiente urbano propiciou o crescimento substancial da população viral. As linhagens, que surgiram antes das aglomerações e movimentações humanas terem iniciado, tinham poucas chances de causar grandes epidemias e terminavam por falta de hospedeiros susceptíveis48. Entretanto, as alterações ambientais de natureza antrópica têm propiciado o deslocamento e/ou dano à fauna e flora, bem como o acúmulo de detritos e de recipientes descartáveis. Paralelamente, as mudanças nas paisagens têm promovido alterações microclimáticas que parecem ter favorecido algumas espécies vetoras, em detrimento de outras, oferecendo abrigos e criadouros bem como a disponibilidade de hospedeiros48. A partir de dados conhecidos atualmente, estima-se que os quatro sorotipos do vírus da dengue tenham surgido há cerca de 2.000 anos e que o rápido aumento da população viral e a explosão da diversidade genética tenham ocorrido há 200 anos aproximadamente, coincidindo com o que conhecemos por emergência da dengue em registros históricos, a saber: Primeira fase: separação dos vírus dos demais Flavivirus. Esta separação pode ter ocorrido há 2.000 anos. Segunda fase: o vírus tornou-se sustentável na espécie humana. É provável que fosse, primariamente, silvestre, circulando em macacos e mudando para doença humana com transmissão em ambiente urbano, no fim do século 17. Terceira fase: em meados da década iniciada em 1950 ocorreram os primeiros casos notificados da dengue hemorrágica48. O impacto dessa doença sobre a população humana é notado, não só pelo desconforto que causa, como pela perda de vidas, principalmente entre crianças. Na Ásia, é a segunda causa de internações hospitalares de crianças. Há, também, prejuízos econômicos expressos em gastos com tratamento, hospitalização, controle dos vetores, absenteísmo no trabalho e perdas com o turismo48,101. 12 O ressurgimento da dengue, em escala global, é atribuído a diversos fatores, ainda não bem conhecido. Os mais importantes estão relacionados a seguir: As medidas de controle dos vetores de dengue, nos países onde são endêmicos, são poucas. O crescimento da população humana com grandes mudanças demográficas; Expansão e alteração desordenadas do ambiente urbano, com infra-estrutura sanitária deficiente, propiciando o aumento da densidade da população vetora; O aumento acentuado no intercâmbio comercial entre múltiplos países e conseqüente aumento no número de viagens aéreas, marítimas e fluviais, favorecendo a dispersão dos vetores e dos agentes infecciosos. Qualquer que seja a causa, o aumento da variabilidade genética do vírus da dengue é observação que se reveste de extrema importância porque as populações humanas estão sendo expostas a diversas cepas virais, e algumas podem escapar da proteção imunológica obtida com a exposição prévia ao sorotipo. Acresce considerar que podem surgir cepas com patogenicidade e infectividade aumentadas e que populações silvestres do vírus dengue, geneticamente diferente, quando introduzidas em populações de hospedeiros, podem desencadear epidemias. Embora as populações de vírus com seqüências de nucleotídeos conhecidas sejam esparsas, especialmente em populações africanas, encontram-se quatro genótipos para o DEN-2 e DEN-3 e dois para o DEN-1 e DEN-4, com diversidade máxima de aminoácidos, de aproximadamente 10% para o gene E. Mesmo não se dispondo de amostras históricas para se avaliarem as possíveis alterações genéticas através do tempo, as observações mostram que a variabilidade genética está aumentada3. No entanto, o fator de preocupação é que a diversidade genética dos quatro subtipos de vírus dengue está provavelmente ligada ao crescimento da população humana podendo aumentar no futuro. A alta variabilidade genética do vírus pode está relacionada com o surgimento de casos graves da doença causados, possivelmente, pelo efeito anticorpodependente em resposta a populações virais geneticamente diferentes3. 1.3 VETOR O Aedes aegypti é uma espécie tropical e subtropical de um mosquito encontrado no mundo inteiro, geralmente entre as latitudes 35º N e 35º S, correspondendo aproximadamente a uma curva isotérmica de inverno de 10ºC47. Apesar de o Aedes aegypti ser encontrado até 45º à norte, tais invasões ocorreram durante a estação mais quente e os mosquitos não sobreviveram ao inverno. É um dos mosquitos vetor mais eficiente para os arbovírus, porque 13 é altamente antropofílicos e prospera em proximidade com os humanos e geralmente sobrevive em ambientes fechados. Os surtos de dengue também foram atribuídos ao Aedes albopictus, Aedes polynesiensis e várias espécies do complexo Aedes scutellaris. Cada uma dessas espécies tem sua própria distribuição geográfica; no entanto, são vetores epidêmicos, menos eficientes que o Aedes aegypti. Apesar da transmissão vertical do vírus da dengue ter sido demonstrada tanto no laboratório quanto em campo, a importância deste fato na manutenção do vírus ainda não foi estabelecida. Um fator que complica a erradicação do vetor é que os ovos do Aedes aegypti podem resistir a longos períodos de dessecação, às vezes por mais de um ano29,88. No Brasil, chegou no século 18 com as embarcações que transportavam escravos.25 Esse mosquito tem se caracterizado como um inseto de comportamento estritamente urbano, sendo raro encontrar amostras de seus ovos ou larvas em reservatórios de água nas matas. Em média, cada Aedes aegypti vive em torno de 30 dias e a fêmea chega a pôr entre 150 a 200 ovos de cada vez, ela é capaz de realizar inúmeras posturas no decorrer da vida, já que copula com o macho uma única vez, armazenando os espermatozóides em suas espermatecas (reservatórios presentes dentro de seu aparelho reprodutor). Uma vez com o vírus da dengue, a fêmea torna-se vetor permanente da doença e calcula-se que haja probabilidade entre 30% a 40% de chances de suas crias nascerem também infectadas25. Criando-se quase que exclusivamente em recipientes artificiais em torno de hábitat humano, é um mosquito semidoméstico com características urbanas12. Penetra nas habitações, mostrando maior preferência por alimentar-se em seres humanos, principalmente no período diurno. A fêmea deposita os ovos individualmente nas bordas dos recipientes, acima ou ao nível da água, raramente sobre a sua superfície. Os ovos toleram bem ao dessecamento por vários meses e maduram rapidamente quando o recipiente se enche novamente de água. A eclosão se dá após 2 ou 3 dias da postura se a temperatura for alta. Os hábitats típicos para os estágios aquáticos do mosquito são vasos, jarras, pneus, cisternas, tonéis, calhas, latas e mesmo buracos em troncos de árvores. Em condições favoráveis, as larvas completam o seu desenvolvimento em um período de 6 a 10 dias, prolongado em temperaturas mais baixas. Assim o ciclo de vida pode completar-se em menos de 10 dias, prolongando-se por mais de três semanas em condições desfavoráveis. Em áreas de clima tropical as gerações se sucedem rapidamente, mas em regiões frias a forma adulta não resiste. Em função dessas características, a densidade do mosquito sofre variações sazonais, ocorrendo maior concentração nas estações chuvosas e quentes e diminuindo em períodos mais secos e de temperaturas mais baixas29. 14 O Aedes albopictus é uma espécie oriunda de selvas asiáticas até recentemente restrita àquele continente. Nos últimos quatorze anos, em conseqüência do intenso comércio intercontinental de pneus por intermédio dos transportes marítimos, disseminou-se para as Américas, sendo inicialmente detectado nos Estados Unidos em 1985, onde já está presente em 25 Estados. Logo depois, em 1986, é identificado no Brasil, já tendo se disseminado para 1.465 municípios distribuídos em 14 unidades federadas. Atualmente, está presente em mais de seis países da América Central e do Sul, na África, Nigéria e em algumas ilhas do Pacífico e no sul da Europa64. O Aedes albopictus não é doméstico como o Aedes aegypti. Prefere os ocos de árvores para depositar seus ovos e têm hábitos antropofílicos e zoofílicos diurnos e fora dos domicílios. Sua competência vetorial vem sendo objeto de estudo e investigação, uma vez que tais hábitos podem estabelecer um elo entre o ciclo do vírus do dengue nos macacos e no homem, além de haver referência quanto à sua responsabilidade pela transmissão de surtos epidêmicos de dengue clássico e hemorrágico na Ásia53. Ibanez-Bernal e cols, de outro lado, em 1997, registraram, pela primeira vez nas Américas, a infecção natural pelo Aedes albopictus pelo vírus dengue, em espécimes coletada durante um surto que ocorreu na cidade de Reynosa, no México. Estes autores chamam a atenção para o fato de que os sorotipos 2 e 3 foram detectados em um pool de dez mosquitos machos, o que indica haver transmissão transovariana nesta espécie, como acontece com o Aedes aegypti. Este novo achado é de grande importância epidemiológica pelo potencial de transmissão do vírus do dengue para outras áreas geográficas livres do Aedes aegypti, mas que estão infestadas pelo Aedes albopictus, a exemplo do sul da Europa e dos Estados Unidos24. 1.4 ISOLAMENTO E IDENTIFICAÇÃO VIRAL DA DENGUE O isolamento do vírus dengue só ocorreu na década de quarenta, por Kimura em 1943, e Hotta, em 1944, tendo-se denominado Mochizuki a esta cepa. Sabin e Schlesinger, em 1945, isolaram a cepa Havaí, quando o primeiro, neste mesmo ano, ao identificar outro vírus em Nova Guiné, observou que as cepas tinham características antigênicas diferentes e passou a considerar que eram sorotipos do mesmo vírus. As primeiras cepas ele denominou sorotipo 1 e a de Nova Guiné sorotipo 2. Em 1965, no curso da epidemia de dengue hemorrágico no Sudeste Asiático, foram isolados os vírus 3 e 4, definindo-se, a partir daí, que o complexo dengue é formado por quatro sorotipos: DEN-1, DEN-2, DEN-3 e DEN-456,63,102. Nos últimos anos, um dos sistemas biológicos mais empregados para o isolamento do vírus dengue, apesar de sua baixa sensibilidade, tem sido a inoculação em ratos lactantes por 15 via intracerebral. Também se tem utilizado diferentes sistemas celulares de mamíferos, entre os mais utilizados estão: BSC1, VERO, BHK-21 e LLCMK2. A demonstração por Singh e Paul em 1969 de que os quatro sorotipos do vírus dengue podiam ser multiplicados em uma linhagem celular obtidas em larvas de mosquitos Aedes albopictus, representou um passo importante para o avanço do isolamento do vírus da dengue90, a partir disto, nas últimas décadas, tem-se desenvolvido uma série de linhagens de mosquitos que apresentam resultados muito mais sensíveis à infecção do vírus dengue que os sistemas anteriores, são: AP-61(Aedes pseudocutelaris), C6/36 (Aedes albopictus), TRA-284 (Toxorynchites amboinensis). A elevada sensibilidade destes sistemas tem permitido alcançar um alto índice de isolamentos. As células de mosquitos são mais sensíveis que a dos mamíferos, relativamente fáceis de cultivar em condições de laboratório, inclusive em temperatura ambiente, e ainda as culturas podem ser mantidas durante 14 dias sem necessitar trocas de meio de cultura, podem ser utilizadas em condições de campo e inoculadas direto no soro de pacientes. Algumas cepas são capazes de induzir a formação do efeito citopático (ECP) como formação de sincícios, presença de células gigantes e fagocitose, sua presença em geral é variável. Atualmente são as mais utilizadas no diagnóstico de rotina para dengue por sua adequada sensibilidade e possibilidade de processar um elevado número de amostras relativamente a baixo custo36,99. 1.5 DENGUE NO MUNDO O dengue se reconhece clinicamente há mais de 200 anos; relatos clínicos e epidemiológicos potencialmente compatíveis com dengue são encontrados em uma enciclopédia chinesa datada de 610 d.C., não havendo precisão quanto ao ano exato dessa ocorrência. São descritos também surtos de uma doença febril aguda no oeste da Índia Francesa, em 1635, e no Panamá, em 1699, não existindo consenso quanto a terem sido febre do dengue ou Chinkungunya30,53. As descrições de uma epidemia de febre articular em Java, por David Bylon, em 1779, e de enfermidade semelhante ocorrida na Filadélfia, por Benjamin Rush, em 1780, são os eventos de melhor identificação dos sorotipos37,75,85. Embora atualmente possam não ser consideradas como descrições de uma mesma nosologia, e que clinicamente poderiam representar infecções causadas por vírus do gênero Chikungunya, as manifestações causadas por esses Alphavirus e pelo vírus dengue (Flavivirus) foram indiscriminadamente rotuladas como “febre do dengue” durante a maior parte do século 1941. Após a 2ª Guerra aparece um 16 novo padrão epidêmico da doença, acompanhado por um crescimento da incidência da febre hemorrágica do dengue no Sudeste Asiático8,6. Os primeiros surtos foram descritos nas Filipinas, em 1953, e cinco anos mais tarde foi identificado na Tailândia constituindo então um importante problema de saúde pública nas zonas do oeste do Pacífico e Sudeste Asiático6. De acordo com Halstead (1980), esta forma clínica não seria uma doença nova, pois com tal sintomatologia haviam sido descritas no Sudeste Asiático em 1922 e, em 1927-1928, na Grécia, identificou-se uma grave epidemia de dengue hemorrágico com circulação dos sorotipos DEN-1 e DEN-2. Progressivamente outros países do Sudeste Asiático foram apresentando surtos de dengue hemorrágico: Vietnã do Sul (1960), Cingapura (1962), Malásia (1963), Indonésia (1969) e Birmânia (1970). Nesta região, nos anos oitenta, a situação agrava-se e a doença expande-se para Índia, Sri Lanka, Maldivas e leste da China. Atualmente, sob a forma de epidemia ou endemia, milhares de casos e de óbitos vêm ocorrendo a cada ano, predominantemente em crianças, e a circulação do dengue 1 e dengue 2 vem mantendo-se até o presente14,30. 1.6 DENGUE NAS AMÉRICAS No Continente americano o vírus dengue circula desde o século passado até as primeiras décadas do século 20. A primeira descrição de uma enfermidade semelhante ao dengue ocorreu em 1780, na Filadélfia, Estados Unidos, quando então há um silêncio epidemiológico7,71. Em 1963 detectam-se os primeiros casos na Jamaica relacionados ao DEN3, que depois se disseminaram para a Martinica, Curaçao, Antigua, Saint Kitts, Sanguilla e Porto Rico8. Logo após atinge o norte da América do Sul, Colômbia, Venezuela e são notificados nos Estados Unidos casos importados18. Entre 1968 e 1970, epidemias com o DEN-2 e DEN-3 foram registradas no Caribe, na Guiana Francesa e na Venezuela92. Em 1977, o sorotipo 1 é introduzido na Jamaica, disseminando-se por todas as ilhas do Caribe e parte da América Central. Cerca de 702.000 casos de dengue foram descritos durante o período compreendido entre 1977 até 1980, em que somente circulou o sorotipo 1 de dengue na América6. No início da década de oitenta, é isolado o vírus DEN-4, mas este período se destaca pela intensa circulação do vírus no Continente americano, e os países que mais notificaram casos foram o Brasil, Colômbia, Honduras, México, Nicarágua, Paraguai, Porto Rico e Venezulela77,34. A epidemia de febre hemorrágica do dengue, que afetou Cuba em 1981, é a primeira e mais importante na história do dengue nas Américas, quando foram notificados 344.203 17 casos, incluindo 10.312 pacientes classificados como gravemente doentes de acordo com os critérios da OMS (Graus III e VI), e 158 mortes das quais 101 eram crianças. O vírus DEN-2 é associado a esta epidemia, que foi precedida por outra, causada pelo vírus DEN-1, em 197757. O segundo maior surto de DH/SCD da região ocorreu na Venezuela, de outubro de 1989 a abril de 1990. Um total de 11.260 casos de DH, e 136 mortes foram notificadas; os sorotipos 1, 2 e 4 foram isolados durante estes surtos6. Os casos de DH e doenças semelhantes têm sido notificados nas Américas a cada ano desde 1981. Os países ou territórios afetados incluem Aruba, El Salvador, Guiana Francesa, Guadalupe, Guatemala, Colômbia, República Dominicana, Honduras, Jamaica, México, Nicarágua, Panamá, Porto Rico, Santa Lúcia, Suriname e Venezuela. A dengue foi notificada praticamente em todos os Estados dos países latino-americanos, com possíveis exceções da Argentina, do Chile e do Uruguai, e há indícios de que a DH/SCD está se tornando endêmica em vários países das Américas, seguindo a tendência observada na Ásia. O notável aumento da DH/SCD, observado nos países asiáticos durante os últimos 30 anos, ilustra claramente a situação que as Américas poderão vir a enfrentar29. Nos anos 90, o quadro epidemiológico das Américas e do Caribe agravou-se e epidemias de dengue clássico são freqüentemente observadas em vários centros urbanos, muitas delas associadas à ocorrência de casos de dengue hemorrágico. Atualmente os quatro sorotipos estão circulando neste Continente e só não há registros de casos no Uruguai e Canadá, com ocorrência sistemática de casos de dengue hemorrágico74. 1.7 DENGUE NO BRASIL No Brasil existem algumas evidências de epidemias de dengue em São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador e outras cidades, esta epidemia durou dois anos, sendo conhecida, à época, por outros nomes: polca, patuléia, febre eruptiva reumatiforme. Entretanto, as primeiras referências a casos de dengue na literatura médica datam de 1916 em São Paulo e 1923 em Niterói75, neste último ano um navio francês, com casos suspeitos, aportou na Bahia, mas não foram registrados casos autóctones nesta cidade75. As primeiras campanhas para a erradicação do Aedes aegypti visavam ao combate da febre amarela e foram instituídas por Emílio Ribas, no período de 1901 a 1903 em algumas cidades de São Paulo; a base dessas campanhas era a eliminação de focos de mosquitos e a remoção de recipientes que pudessem servir para a reprodução do vetor. Em 1904, uma das campanhas mais famosas do Rio de Janeiro, foi orientada por Oswaldo Cruz, cuja estratégia 18 era evitar que o mosquito se infectasse ao picar o doente e impedir a proliferação do mesmo. Para alcançar este objetivo, orientou a utilização do isolamento do paciente, tendo, para tanto, usado instrumentos jurídicos coercitivos bastante polêmicos. Ainda assim conseguiu, em 1909, a erradicação do mosquito23. Atribui-se a esta campanha a responsabilidade da não ocorrência do dengue no Brasil no período de 1923 a 1981. Justifica-se essa suposição, uma vez que somente cinco anos depois é que se tem registro de casos de dengue em Nova Iguaçu, no Rio de Janeiro, onde foi identificado o sorotipo DEN-1 disseminado por toda aquela região e cidades vizinhas, causando epidemias na população, tendo sido notificado em 1987 cerca de 95.000 casos clínicos da doença1,28,104. Um inquérito sorológico realizado em 1953-1954, na Amazônia, encontrou soropositividade para dengue, sugerindo que houve circulação viral na região.11 Entretanto, a primeira epidemia do dengue com confirmação laboratorial ocorreu em 1982 na cidade de Boa Vista, Estado de Roraima, causada pelos sorotipos 1 e 4, com cerca de 11 mil pessoas infectadas, que corresponde a aproximadamente uma incidência de 22,6%72. Estes sorotipos estavam circulando em diversos países do Caribe e no norte da América do Sul e sua introdução, possivelmente, deu-se por via terrestre pela fronteira da Venezuela18, a propagação viral para o restante do país não ocorreu nessa época devido ao rápido combate e controle do vetor na região24. O dengue reapareceu no Brasil, cinco anos depois, na cidade de Nova Iguaçu, Estado do Rio de Janeiro, com identificação do sorotipo DEN-1. A partir de então, a virose dissemina-se para outras cidades vizinhas, inclusive Niterói e Rio de Janeiro, notificando-se 33.568 casos em 1986 e 60.342 em 1987. Em 1986 foram registradas epidemias nos Estados do Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais, Alagoas e Ceará causadas pelo sorotipo DEN-196. Após essas epidemias de dengue clássico, observa-se um período de dois anos que se caracteriza pela baixa endemicidade. Em 1990, ocorre um recrudescimento de grandes proporções, conseqüente do aumento da circulação do DEN-1 e da introdução do DEN-2 no Rio de Janeiro, onde a incidência da doença atinge 165,7 por 100 mil habitantes. Naquele ano, e em 1991, 163,8 casos por 100 mil habitantes54. É neste período que surgem os primeiros relatos de dengue hemorrágico, com 1.316 notificações, 462 confirmações diagnósticas e oito óbitos25,26. Em abril de 1991, o sorotipo 2 causou uma grande epidemia em Araguaína, Tocantins, tendo sido notificados 2.194 casos da doença, todos de febre clássica do dengue24. Um inquérito soro-epidemiológico realizado após a epidemia estimou que aproximadamente 83.250 pessoas foram acometidas97. O genótipo dessas amostras foi 19 classificado como Jamaica82. Nesse mesmo ano, esse sorotipo foi também detectado a partir de julho no Estado de Alagoas24. No Brasil, a semelhança do que vem ocorrendo em vários países das Américas, nas últimas décadas vem se registrando epidemias de dengue em vários Estados. Observa-se, ainda, a endemização da doença na maioria dos locais onde ocorre transmissão. As ocorrência de dengue hemorrágico também se tornam mais freqüentes em concomitância com a circulação dos sorotipos 1 e 2 do vírus em uma mesma área73. 1.7.1 Dengue em Manaus Desde novembro de 1996, detectou-se a presença do transmissor da febre amarela urbana e dengue, o mosquito Aedes aegypti, no município de Manaus, a partir daí o vetor foi se disseminando progressivamente por toda a cidade, conforme atestam as pesquisas realizadas50. No Amazonas os casos de dengue só começaram a ser notificados a partir de 1998, atingindo em 2000 um total de aproximadamente 26 mil casos notificados. Nesses quatro anos ocorreram duas epidemias, restrita à sua capital, Manaus50. A partir do primeiro trimestre de 1998, o número de pacientes que apresentavam sintomas de doenças exantemáticas compatíveis, principalmente com dengue clássico, foi aumentando progressivamente. Diante dessa situação, realizou-se uma investigação epidemiológica mais severa e coletaram-se amostras de soros dos suspeitos clínicos. Em janeiro de 1998 o Laboratório de Arbovirologia da FMTAM, envolvendo pacientes procedentes de Manaus e de outras capitais, diagnosticou 10 casos positivos para DEN-1, dos quais sete foram classificados, através da investigação epidemiológica, como autóctones da cidade de Manaus, 2 de Belém (PA) e 1 de Imperatriz (MA); 18 foram negativos; considerando a presença do vetor e de casos autóctones da dengue e com o crescente aumento no atendimento de doentes no FMTAM, estava caracterizado o início de uma epidemia da doença na capital do Estado do Amazonas51. A presença do vetor, a população suscetível, aliado à intensificação do intercâmbio turístico entre Manaus e os países do Caribe, bem como a cidade de Belém que vivia uma epidemia em 1997, podem ter contribuído para a introdução e reprodução da doença na cidade. 1.8 PREVENÇÃO O número elevado de casos de dengue e dengue hemorrágico, a presença dos quatro sorotipos do vírus dengue em algumas regiões e a grande variedade com que se apresenta o vetor obriga a intensificar as atividades de prevenção e controle da enfermidade. No desenvolvimento de uma vacina mediante atenuação viral, existe perigo pois, pode 20 desenvolver-se a febre hemorrágica do dengue e síndrome do choque por dengue; e no caso de não utilizar uma vacina que inclua os quatro tipos antigênicos, irá imunizar uma pessoa de somente um sorotipo viral, podendo a mesma sofrer uma segunda infecção por sorotipo diferente45,64. Por não se dispor de vacina, a prevenção primária de dengue só pode realmente ser efetivada nas áreas sob risco quando a vigilância entomológica ou combate ao vetor antecede a introdução do vírus. Quando a circulação de um ou mais sorotipos em uma região já está estabelecida, as medidas de combate ao vetor e a vigilância epidemiológica da doença têm baixa efetividade e os órgãos responsáveis pela prevenção do dengue enfrentam uma série de dificuldades técnico-científicas e operacionais, relacionadas à complexidade epidemiológica dessa doença.24 A possibilidade atual de administrar os quatro sorotipos se encontra em estudos e deve enfocar a genética, biologia molecular e virulência viral35. O surgimento da dengue hemorrágica, na década de 50, acompanhado de pandemia, tem agravado a situação da patologia, tanto em número de casos quanto em gravidade. Os quatro sorotipos do vírus circulam com mais agilidade, sendo comum sua simultaneidade, com potencialidades patogênicas diversas. Há também uma hipótese de surgimento de novos sorotipos do vírus, já se predizendo identificação de possíveis sorotipos variantes 5 e 6105. A tendência atual da dengue é atingir cada vez mais novas regiões, onde o número de hospedeiros humanos sem exposição prévia é grande, e restabelecer-se nos países tropicais de forma endêmica, com possíveis surtos de dengue hemorrágica, a cada introdução de novas populações do vírus3. 1.8.1 Controle do Vetor As ações de combate ao Aedes aegypti, único elo vulnerável da cadeia epidemiológica do dengue, estão centradas em duas estratégias: controle ou erradicação, que se diferenciam quanto as suas metas, o que implica distintas extensões de cobertura, estrutura e organização operacional. Entretanto, ambas incluem três componentes básicos: saneamento do meio ambiente; ações de educação, comunicação e informação; e combate direto ao vetor31,27,70,80,83. O componente de saneamento visa a reduzir os potencias do mosquito mediante: aporte adequado de água para evitar seu armazenamento em recipientes que servirão para oviposição; proteção de recipientes úteis; tratamento ou eliminação de criadouros naturais. Dependendo da estratégia e meta do programa, este componente pode ser restrito às atividades específicas que são desenvolvidas pelos recursos humanos do próprio programa, por meio de orientações aos moradores de residências para promoção do saneamento intra e peridomiciliar, ou mesmo limitado apenas a estas últimas, ou ser mais amplo, com 21 envolvimento dos órgãos setoriais de saneamento responsáveis pela melhoria do sistema de abastecimento de água e coleta de resíduos sólidos70. Da mesma forma, o segundo componente varia conforme as definições estratégicas e a importância que é dada às ações de educação, comunicação e informação, que podem ser confinadas apenas à atuação dos agentes de saúde em cada residência, associada ou não a algumas campanhas pontuais de educação e ou comunicação de massa, ser mais abrangente com participação efetiva de setores sociais e governamentais; e à busca da participação das comunidades no processo de prevenção, implementação de metodologias pedagógicas capazes de proporcionar mudanças de comportamento no que diz respeito aos cuidados individuais e coletivos em saúde, com ênfase na necessidade de redução e eliminação dos criadouros potenciais do mosquito transmissor do dengue27,70. No combate ao mosquito adulto se tem realizado utilizando diferentes inseticidas, tais como o DDT, Malathion e outros. A medida mais importante para controle da doença é a erradicação das larvas, através do controle biológico baseado na introdução de organismos vivos capazes de competir, eliminar ou parasitar as larvas ou formas aladas do vetor, e ainda não se tem experiência de aplicação em larga escala. O Bacillus thuringhiensis H-14 (BTI) e peixes larvicidas das espécies Gambusia afinis e Poecilia ssp têm sido mais utilizados e preconiza-se o seu uso mais amplo nos programas de combate. Ensaios com larvas de outros mosquitos (Toxorhynchites) e algumas pulgas-d’água (Mesoscyclops, Macrocyclops) também vêm sendo experimentados70. 22 2 OBJETIVOS 2.1 OBJETIVO GERAL Caracterizar ao nível de sorotipos os vírus dengue circulantes no período de dezembro de 2002 a dezembro de 2003 no Estado do Amazonas. 2.2 ESPECÍFICOS Identificar os sorotipos circulantes do dengue no município de Manaus e outros municípios do Estado do Amazonas. Descrever a distribuição dos sorotipos do vírus dengue de acordo com as seguintes variáveis: localidade de moradia, gênero, idade, dias de doença, local de atendimento e sazonalidade. 23 3 METODOLOGIA 3.1 TIPO DE ESTUDO Este foi um estudo descritivo, onde foram identificados os sorotipos do vírus dengue em amostras estocadas no Laboratório de Arbovirologia da Fundação de Medicina Tropical do Amazonas – FMTAM no período de dezembro de 2002 a dezembro de 2003. 3.2 POPULAÇÃO DE ESTUDO E SELEÇÃO DAS AMOSTRAS Para fins deste estudo foram consideradas exclusivamente as amostras de sangue de pacientes que apresentaram quadro clínico característico de dengue com um período médio de 0-5 dias, a partir do início dos sintomas, independente de idade e sexo, atendidos na Fundação de Medicina Tropical (FMTAM) e em outras unidades de saúde da cidade de Manaus durante o período de dezembro de 2002 a dezembro de 2003. As amostras foram estocadas no Laboratório de Arbovirologia da FMTAM e eram coletadas no Serviço de Pronto Atendimento, Ambulatório e Enfermarias da Fundação de Medicina Tropical do Amazonas; 60 amostras foram coletadas no Laboratório Central de Manaus (LACEN) e enviadas posteriormente ao Laboratório de Arbovirologia da FMTAM para diagnóstico virológico. 3.3 OBTENÇÃO DOS DADOS CLÍNICOS E EPIDEMIOLÓGICOS As informações de interesse foram obtidas das fichas de Notificação do Dengue (Anexo 1) padronizada pela Fundação de Medicina Tropical do Amazonas (FMTAM), e vem sendo utilizada na rotina do Ambulatório, Enfermarias e Pronto Atendimento. Esta ficha epidemiológica contém os dados do paciente como: sexo, idade, local de residência, procedência do atendimento, sintomas apresentados, data da coleta e início dos sintomas. Essas informações eram obtidas no momento da coleta do material biológico a ser analisado. Os dados dos pacientes do LACEN foram enviados juntos com as amostras em formulário padrão do Laboratório Central. Esses dados foram utilizados para a construção do banco de dados deste estudo. 3.4 3.4.1 PROCEDIMENTOS LABORATORIAIS Coleta do material As amostras sangüíneas coletadas na FMTAM foram obtidas por punção venosa coletando-se um volume de 10 ml de sangue, e em seguida para obtenção dos soros foram centrifugadas a 1.500 rpm a 5ºC durante 15 minutos e armazenados a -70°C. Essas amostras 24 foram processadas sob condições de esterilidade mantendo-se em cadeia fria durante todo o processo. As amostras biológicas provenientes do LACEN foram coletadas no Laboratório Central de Manaus, por processo semelhante ao obtido na FMTAM, e posteriormente enviadas ao Laboratório de Arbovirologia para diagnóstico virológico. 3.4.2 Diagnóstico virológico em células C6/36 (clone de Aedes albopictus) A técnica escolhida para o isolamento do vírus dengue foi a cultura de células; a linhagem celular selecionada foi de células de mosquito C6/36 (clone de Aedes albopictus)49, por serem mais sensíveis que as de mamíferos, relativamente fáceis de cultivar em condições de laboratório e temperatura ambiente. As células C6/36 foram cultivadas em garrafas de 25 cm3 com meio de crescimento L-15, contendo 5% de soro bovino fetal, 10% de solução de triptose fosfato e 100 UmL de penicilina e estreptomicina, transferidas em tubos descartáveis (1,5 ml tubo), uma ou duas vezes por semana, dependendo da quantidade de amostras a serem testadas. Os soros foram inoculados na diluição 1:10 em tubos contendo monocamadas de células, incubados para penetração do vírus a 28ºC. Cada tubo foi observado diariamente durante uma semana para observação do efeito citopático (ECP), caracterizado pela presença de sincícios, células gigantes multinucleadas e fagocitose. Após uma semana de incubação, foi realizado o teste de imunofluorescência (IF)2 para confirmação da infecção celular. 3.4.3 Identificação Viral A técnica utilizada para identificação das culturas apresentando efeito citopático ou não foi a da imunofluorescência direta, que permitiu a identificação inicial de amostras positivas para Flavivirus, utilizando um anticorpo policlonal na diluição 1:10 (líquido ascítico hiperimune de rato ou um soro humano de alto título de anticorpos antidengue). Uma segunda imunofluorescência indireta, com anticorpos monoclonais (diluição de 1:15) a cada um dos quatro sorotipos do vírus, permitiu a tipificação do sorotipo. As lâminas foram preparadas de acordo com o protocolo descrito por Gubler em 1984. Esse procedimento consistiu em raspagem, mistura ao fluido de cultivo e transferência das células para os spots de lâmina própria para o teste (lâmina para imunofluorescência). O material foi seco e fixado por 10 minutos em acetona gelada; na primeira etapa deste processo (imunofluorescência direta) foi acrescentado fluido ascítico hiperimune na diluição de 1:10 em PBS. Incubou-se a lâmina a 37ºC, por 30 minutos, acrescentou-se o conjugado ao isotiocianato de fluoresceína, na 25 diluição de 1:60, em PBS; incubou-se a 37ºC, por 30 minutos, após cada procedimento se procedia a lavagem da lâmina, 10 minutos, 2 vezes em PBS e 1 vez em água. O mesmo processo foi realizado, na segunda etapa (imunofluorescência indireta), usando anticorpos monoclonais do dengue DEN-1, DEN-2, DEN-3 e DEN-4. Após este processo fez-se a leitura do teste em microscópio de fluorescência, equipado com lâmpada de mercúrio de alta pressão. O teste foi considerado positivo, quando houve evidente fluorescência celular quando comparado com os dois tipos de controle positivo, o de líquido ascítico hiperimune (para classificar em grupo B) e outro com os anticorpos monoclonais específicos para o DEN-1, DEN-2, DEN-3 e DEN-4.2 3.5 PROCESSAMENTO E ANÁLISE DOS DADOS As fichas epidemiológicas foram digitadas utilizando o software Microsoft Excel para a construção do banco de dados e foi utilizado para análises estatísticas o Epi-info 2000. As análises estatísticas dos dados são baseadas em descrição de freqüências, prevalências e associações dos sorotipos com variáveis avaliadas como: distribuição dos sorotipos por zonas da cidade, sexo, idade, procedência e dias de doença. 3.6 CONSIDERAÇÕES ÉTICAS Todos os procedimentos para realização do estudo, utilizando dados dos pacientes envolvidos na pesquisa, foram iniciados após parecer da Comissão de Ética e Pesquisa da Fundação de Medicina Tropical do Amazonas – FMTAM. O termo de consentimento livre e esclarecido não foi necessário, pois as amostras foram retiradas da soroteca do Laboratório de Arbovirologia da Fundação de Medicina Tropical do Amazonas. 26 4 RESULTADOS 4.1 RESULTADO VIROLÓGICO DA POPULAÇÃO DE ESTUDO 4.1.1 Coleta das amostras clínicas Foram colhidas 303 amostras de sangue de pacientes com suspeita clínica de dengue no período de dezembro de 2002 a dezembro de 2003. Desse total, 172 eram do sexo feminino e 131 do masculino, com idades variando de 1 a 80 anos. 4.1.2 Exame virológico e sorotipagem pela imunofluorescência Foram processadas e analisadas 303 amostras de soro. Foram negativas para o gênero Flavivirus e vírus dengue 68% (206) e 32% (97) foram positivas (Figura 1). As amostras positivas apresentaram a seguinte estratificação: 37,11% não apresentaram sorotipagem específica, mas reativas para outros Flavivirus; 38,14% foram positivas para sorotipo DEN-1; 21,65% positivas para DEN-2; 3,1% para o DEN-3 (Figura 2). 32% IF POSITIVO 68% IF NEGATIVO Figura 1 – Resultados da imunofluorescência das amostras com suspeita clínica de dengue 27 38% DEN-1 37% outros Flavivirus 3% DEN-3 22% DEN-2 Figura 2 – Distribuição dos sorotipos e outros Flavivirus de isolados em cultura de células C6/36. 4.1.3 Característica da população de estudo quanto ao gênero e sorotipo A imunofluorescência foi realizada a partir de material clínico inoculado em cultura de células. O padrão de fluorescência para os sorotipos é o mesmo, distinguindo-se somente pelo anticorpo monoclonal específico utilizado. Das amostras positivas, obteve-se 57% do sexo feminino e 43% do sexo masculino, entretanto não se observou diferença estatisticamente significativa (Figura 3). MASCULINO 43% FEMININO 57% Figura 3 – Distribuição das Amostras positivas por gênero 28 Considerando os sorotipos virais na identificação por gênero, verificou-se que em 19,6% foram isolados os sorotipos DEN-1, 15,5% DEN-2, 1% DEN-3 e 18,5% outros Flavivirus em pacientes do sexo feminino; 18,5% DEN-1, 6,2% DEN-2 e 18,5% de outros Flavivirus em pacientes do sexo masculino (Figura 4). 20 19,6% 18 18,5% 18,5% 18,5% 16 CASOS TIPADOS 15,5% 14 12 DEN-1 DEN-2 10 DEN-3 Flavivirus 8 6 6,2% 4 1% 2 0% 0 FEMININO MASCULINO GÊNERO Figura 4 – Distribuição de isolamentos por gênero 4.3 Característica da população de estudo quanto à faixa etária e sorotipos Em relação à distribuição de sorotipos identificados por faixa etária, observou-se que o grupo 15-30 anos foi responsável por 43,3% do total de amostras isoladas neste estudo, sendo 28 anos a média de idade em que mais foram isoladas amostras positivas (sd = 16,1 anos) (Figura 5). 29 Figura 5 – Distribuição de isolamentos segundo grupo etário 4.1.4 Tempo de doença e isolamento viral A Figura 06 mostra a distribuição das amostras positivas por tempo de viremia, onde se observa o maior número, independentes de sorotipos, em amostras do 3.º ao 5.º dia, sendo mais freqüente no 3.º dia com 21 isolamentos correspondendo 22,8%, e do 4.º dia com 20,7% em 18 isolamentos. DEN-1 DEN-2 DEN-3 12 Numero de isolamentos 10 8 6 4 2 0 1 DIA 2 DIA 3 DIA 4 DIA Dias de viremia Figura 6 – Diagnóstico virológico do dengue segundo os dias de viremia 5 DIA 30 4.1.5 Distribuição geográfica das amostras Das amostras positivas, 91,8%, eram de pacientes residentes em Manaus e 8,3% eram procedentes de outros municípios do Estado do Amazonas, distribuídas em: amostras positivas para outros do gênero Flavivirus: Eirunepé – 1; Itacoatiara – 1; São Gabriel da Cachoeira – 1 e Manaus 33 amostras. Positivas para vírus dengue: Itacoatiara = 1 DEN-1, 1 DEN-2; São Sebastião do Uatumã = 1 DEN-2, e no município de Manaus: DEN-1=36, DEN2=19 e DEN-3=3 (Figura 7). 1 caso gênero 33 casos gênero Flavivirus 36 casos DEN-1 19 casos DEN-2 3 casos DEN-3 1 caso DEN-2 1 caso gênero Flavivirus 1 caso DEN-1 1 caso DEN-2 1 caso gênero Figura 7 – Distribuição de casos de dengue e outros do gênero Flavivirus no Estado do Amazonas FONTE, Mapa: Geografia do Amazonas, 2002. 4.1.6 Distribuição dos sorotipos por zonas da cidade de Manaus Os sorotipos detectados e isolados eram provenientes das seguintes zonas geográficas da cidade de Manaus: a maior concentração dos sorotipos identificados neste estudo foi na zona centro-oeste e centro-sul, que correspondem a 31,03% e 18,98% dos casos, respectivamente (Tabela 1 e Figura 8). 31 Tabela 1– Distribuição de amostras isoladas por zonas geográficas da cidade de Manaus ZONA DEN-1% a DEN-2 DEN-3 Total %b CENTRO-OESTE 20,69 10,34 0,0 31,03 CENTRO-SUL 10,35 6,90 1,72 18,98 OESTE 6,90 5,17 0,0 12,07 SUL 8,62 3,45 1,72 13,79 LESTE 8,62 1,72 0,0 10,34 NORTE 1,72 0,0 0,0 1,72 NÃO INFORMADAS 5,17 5,17 1,72 12,07 62,08 32,76 5,17 100 TOTAL a – Percentual em relação ao total do sorotipo. b – Percentual em relação ao total da zona. Figura 8 – Localização de sorotipos por zonas geográficas na cidade de Manaus-AM 32 4.1.7 Distribuição para outros Flavivirus por zonas geográficas na cidade de Manaus A maioria das amostras reativas somente para outros Flavivirus era de moradores da zona centro-sul, leste e sul da cidade de Manaus, correspondendo a 73% do total, seguida da zona Norte 12% ,Oeste 6% , Centro- Oeste 3% e 6% não informada (Figura 9). Figura 9 – Distribuição de outros Flavivirus por zonas geográficas na cidade de Manaus 4.1.8 Diagnóstico virológico por procedência das amostras Do total de amostras examinadas (303), 59% dos pacientes procuraram espontaneamente a FMTAM para diagnóstico de dengue; 21% foram encaminhadas de outras unidades de saúde da cidade de Manaus tanto de serviços ambulatoriais como de emergências para diagnóstico virológico de dengue na FMTAM, e 20% foram amostras provenientes do LACEN. A FMTAM unidade de referência para diagnóstico virológico do dengue, recebeu um quantitativo maior de pacientes com suspeita clínica de dengue e consequentemente proporcionando maior número de isolamentos (Figuras 10, 11 e 12). 33 PARTICULARES AMB ADULTO 8% 7% AMB INFANTIL EMERGÊNCIA 2% 4% LACEN 20% FMTAM PA 9% FMTAM ENF FMTAM AMB 2% 48% Figura 10 – Distribuição das amostras por procedência Figura 11 – Distribuição de isolados por procedência das amostras 34 Figura 12 – Distribuição dos casos isolados de dengue e outros Flavivirus conforme procedência. 4.1.9 Distribuição sazonal de amostras isoladas A ocorrência da distribuição temporal do vírus dengue apresentou uma freqüência anual desse vírus, entretanto, observa-se maior predominância do vírus nos meses de janeiro a maio, época de índices pluviométricos elevados no Estado do Amazonas (Figuras 13 e 14). 35 Figura 13 – Distribuição anual de isolamentos do vírus dengue e outros do gênero Flavivirus Figura 14 – Distribuição anual de isolamentos do vírus dengue 36 5 DISCUSSÃO O dengue vem apresentando importância crescente em saúde pública nas últimas décadas. No Brasil, à semelhança do que vem ocorrendo em vários países das Américas, vemse registrando epidemias de dengue em vários Estados. Observa-se, ainda, a endemização da doença na maioria dos locais onde ocorre transmissão60; nos últimos 16 anos vêm aumentando no Brasil epidemias e a expansão geográfica do vetor, a co- circulação dos sorotipos DEN-1 e DEN-2 está presente em 25 dos 27 Estados brasileiros24,68. Este estudo confirma a presença dos sorotipos DEN-1, DEN-2 e DEN-3 do vírus dengue no Estado do Amazonas. O percentual de 32% obtidos nas tentativas de isolamento viral pode ser considerado satisfatório, pois se compara com resultados obtidos em estudos semelhantes, como exemplo em estudos de CARDOSA, em 1997, que apresentou de 5 a 40% de positividade dos isolamentos. Algumas amostras inoculadas com material biológico apresentaram efeito citopático em células de mosquitos C6/36, onde foi observada destruição celular, células gigantes e formação de sincícios. Contudo, a presença de alteração citopática nestes casos não deve ser conclusiva no diagnóstico de dengue, por não ser observada em todas as inoculações e também por ocorrer com gênero Flavivirus e arbovírus de outras famílias.36,99 Além disto, alguns sorotipos, como exemplo o DEN-4, produz um efeito citopático muito discreto capaz de passar despercebido, por estes motivos, as células de todos os tubos inoculados com material clínico para isolamento do vírus, com ou sem efeito citopático, devem ser submetidas à reação de imunofluorescência21,84. Em Manaus ocorreram duas grandes epidemias causadas pelo vírus dengue, a primeira em 1998, onde foi identificado o sorotipo DEN-1, e a segunda, em 2001, que foi associada ao sorotipo DEN-233. A ocorrência de positividade no estudo deve servir de alerta às autoridades de saúde do Estado. Tendo em vista que foram isolados três dos quatro sorotipos do vírus dengue no Estado do Amazonas, segundo a teoria de Halstead, a FHD ocorre principalmente após epidemias de febre do dengue, seguindo-se à introdução de um sorotipo diferente ao anterior44, o estudo da circulação de mais de um sorotipo evoluindo para formas graves também foi realizada na Tailândia em 2002, autores enfatizam a complexidade da transmissão do vírus 37 dengue e a severidade da doença, e com isso se tem implicações importantes para controle do dengue e desenvolvimento de uma vacina segura e eficaz. Por ser a viremia humana a principal, talvez a única fonte de infecção para o Aedes aegypti, mosquito transmissor de maior importância epidemiológica para o vírus dengue, os centros urbanos estão infestados por esse vetor, a persistência da circulação é favorecida pelas elevadas densidades de populações humanas, taxas de nascimentos e migração, que continuamente recompõem o número de indivíduos susceptíveis, criando as oportunidades para perpetuar o ciclo de transmissão do vírus83. Podemos levar em consideração que o isolamento viral de dengue é a metodologia mais viável para conhecimento do sorotipo, mas devido à dificuldade de coleta do material, podemos ter um número muito maior de pessoas que foram expostas ao vírus dengue e que não foi possível identificar o sorotipo neste estudo. Essa dificuldade na coleta também foi observada em estudos realizados em Jeddah, Arábia 199919. Nas amostras avaliadas, o isolamento viral foi obtido em sua maioria no terceiro e quarto dias de doença (43,5%), confirmando o que se tem observado em outros estudos com a mesma técnica, onde a maior positividade para isolamento do vírus não excede 5.º dia de viremia, coincidindo com a queda no número de partículas virais infectantes e com elevação dos títulos de anticorpos neutralizantes séricos32. Considerando a prevalência da infecção por sexo, ao contrário do que foi descrito anteriormente em outras epidemias (Manaus 1998 e 2000), não se observou significância estatística. Isto sugere que embora a população estudada apresente maior número de pessoas do sexo feminino, a exposição é a mesma entre os gêneros. Desse modo, os resultados deste estudo indicam que a transmissão ocorre tanto em local extradomiciliar como nas residências, resultados semelhantes ao encontrado em um estudo de Vasconcelos e colaboradores em 199896. Em relação à distribuição por faixa etária, observamos que a média de idade mais acometida por infecção do vírus dengue foi de 28 anos. A exposição ao vírus vem aumentando nos mais jovens, sendo esta população a mais susceptível ao vetor enquanto que os mais idosos vão se tornando imunizados durante os anos. O intervalo de idade entre 15-30 anos obteve 43,3% do total de isolamentos deste estudo, o número maior de infectados foi mais freqüente nos mais jovens do que em idosos, estes resultados são semelhantes aos de 38 Guzman et al (1999)34, onde se constatou que, durante epidemias em Santiago, as pessoas mais jovens infectadas estavam acima dos 15 anos de idade. A maioria das pessoas que efetivamente referiram sintomatologia para dengue apresentou como sintomas mais freqüentes febre, mialgias, cefaléia, dor retrorbital, artralgias, prurido e exantema, não diferindo daquele freqüentemente associado com a dengue. A análise de prevalência deste estudo não mostrou significância estatística. Esses dados confirmam os achados em outras epidemias estudadas no Brasil e em Porto Rico97,15. O percentual de amostras positivas para outros Flavivirus e negativas para dengue (37,11%) sugere que no Estado do Amazonas há circulação de outros Flavivirus ou de genótipos diferentes como descrito em estudo realizado por Figueiredo, em 1997, que também evidenciou esta circulação (Inquérito pós-epidêmico)22. Estudos realizados sobre a variabilidade genética dos vírus dengue demonstraram os genótipos Caribean e Jamaica para DEN-1 e DEN-2, respectivamente, mas a análise genômica recentemente executada por Rico Hesse et al82 proveu a existência de uma nova variante do vírus DEN-2 nas Américas, relacionadas a amostras circulantes na Ásia que são altamente virulentas quando envolvidas na infecção secundária. Simultâneas infecções são esperadas quando mais de um sorotipo co-circulam em uma mesma população. As epidemias causadas por múltiplos sorotipos se tornaram mais freqüentes no mundo nos últimos 18 anos13,59. As amostras provenientes do LACEN, apesar de 20% do total de amostras analisadas durante o período do estudo, apresentaram baixa positividade nos isolamentos, este resultado poderia ser decorrente da coleta do material não ter sido no intervalo adequado para diagnóstico do vírus (0-5 dias), e/ou acondicionamento da amostra biológica não ter obedecido aos critérios de temperatura, os soros destinados ao isolamento viral podem ficar a 4ºC, no máximo por 6 horas, logo devem ser congelados no freezer a -70ºC ou em nitrogênio líquido. O número de positividade das amostras da FMTAM confirma que a coleta, acondicionamento adequado da amostra biológica no período virêmico (0-5 dias) e em temperatura adequada (-70ºC) elevam as chances de isolamentos do vírus dengue de acordo com Rosa e colaboradores no Manual de Técnicas do Instituto Evandro Chagas84. A estratificação da população deste estudo foi importante para visualizar a distribuição do vírus dengue e seus sorotipos nas zonas da cidade de Manaus. A maior concentração de sorotipos isolados neste estudo ocorreu na Zona Centro-Oeste e Centro-Sul, que 39 compreendem os bairros que têm melhor infra-estrutura, organização espacial, serviços de saúde e localização geográfica de fácil acesso para unidades de saúde e a Fundação de Medicina Tropical do Amazonas que é referência para o diagnóstico virológico de dengue no Amazonas. A valorização destes dados tende a fornecer informações da possibilidade do menor ou maior risco de dengue hemorrágico no Estado. A Zona Centro-Oeste foi mais acometida por dengue com 28,10% dos casos isolados, sendo 12 para sorotipo DEN-1 e 4 para DEN-2, que compreendem aos bairros Planalto, Alvorada, Dom Pedro, Redenção e Bairro da Paz, estes bairros estão mais próximos da Fundação de Medicina Tropical do Amazonas e talvez por isso o maior número de casos foram identificados nesta área da cidade de Manaus. Foi interessante observar que estas Zonas – Centro-Oeste e Centro-Sul – concentram uma população de poder socioeconômico privilegiado em relação a outras zonas da cidade que se conseguiu encontrar os maiores índices de positividade. Como normalmente essas áreas apresentam melhor infra-estrutura, seria de esperar que menores índices fossem encontrados, o que não ocorreu; a distribuição dos riscos de exposição do vírus dengue, em relação às distintas situações sociais e econômicas das grandes cidades, ainda é controversa e que tem sido relacionada tanto as áreas onde residem populações com condições precárias de vida quanto aquelas em situações mais favoráveis. Estes resultados diferenciam-se daqueles encontrados por Medronho no Rio de Janeiro,65 onde a dengue atingiu mais as populações residentes em áreas de baixa infra-estrutura, o que, segundo o autor, corresponde às zonas da cidade onde a população possui nível socioeconômico mais precário. Pontes e cols73 também registraram na epidemia de 1990-1991, em Ribeirão Preto, uma grande concentração de bairros com alta incidência de dengue, situados nas áreas de vida mais desfavorável. Distintamente, Vasconcelos e colaboradores96, em inquéritos sorológicos realizados em duas capitais do Nordeste, verificaram que a prevalência da doença foi maior em áreas com melhores índices socioeconômicos. Nas áreas mais privilegiadas, os índices de escolaridade são mais elevados, mas nem sempre correspondem a uma educação também direcionada para a conservação do meio ambiente, embora disponham de coleta de lixo mais adequada, deixam dispostos nas suas residências inúmeros tipos de criadouros potenciais do mosquito como uso excessivo de descartáveis, o hábito de manter plantas aquáticas, entre outros. 40 Na distribuição mensal de amostras positivas deste estudo, apresentam maiores índices de isolamentos, demonstrando padrão sazonal que coincide com a época chuvosa do Estado do Amazonas, o que propicia um aumento da densidade e proliferação do vetor e com isso maiores casos da enfermidade. A sazonalidade das infecções pelo vírus dengue é bem evidente no Brasil, na maioria dos Estados onde circulam o vírus sua incidência eleva-se significativamente nos primeiros meses do ano, alcançando maior magnitude de março a maio, seguida de redução brusca dessas taxas a partir de junho. Este padrão sazonal, que nem sempre é observado em outros países, tem sido explicado pelo aumento da densidade populacional do vetor, em virtude do aumento da temperatura e umidade, que é registrado em grandes extensões do território brasileiro51. O combate do dengue no país deve considerar a erradicação do Aedes aegypti como principal meta, e todos os esforços neste sentido ainda não foram totalmente bem-sucedidos. O vírus pode ser transportado rapidamente de uma cidade à outra devido ao grande fluxo de tráfego aéreo e terrestre e até de um Continente a outro no sangue de indivíduos na fase virêmica. Existem grandes possibilidades de epidemias do dengue hemorrágico, uma vez que o Brasil tem a maior concentração de indivíduos susceptíveis do mundo sob risco de dengue hemorrágico79. Dengue é uma preocupação de saúde global, e nenhuma vacina efetiva está disponível para prevenir a infecção. O aumento compreensivo desta doença, busca um modelo importante em que estratégias de saúde pública podem ser introduzidas para controlar transmissão do vírus e testar a segurança e eficácia de uma vacina para os quatro sorotipos do vírus dengue. 41 6 CONCLUSÃO Os resultados obtidos nos permitem concluir que: 1 – Os sorotipos do vírus dengue circulantes no Estado do Amazonas são os sorotipos DEN-1, DEN-2 e DEN-3, destes o mais freqüente é o sorotipo DEN-1, o sorotipo DEN-4 não foi encontrado nas análises deste estudo. 2 – Outros Flavivirus do grupo B dos arbovírus estão circulando no município de Manaus e em alguns interiores do Estado do Amazonas (São Gabriel da Cachoeira, Itacoatiara e Eirunepé). 3 – Quanto aos dias de doença em que melhor obtivemos êxito no isolamento viral foram os terceiro e quarto dias de doença. 4 – O efeito citopático não foi observado na maioria das amostras isoladas e então este não deve ser um dado conclusivo para positivar uma amostra para vírus dengue. 42 7 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BARRETO, M. 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