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ACIDENTE POR LOXOSCELES EM CÃO – relato de caso

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Ensaios e Ciência: Ciências Biológicas,
Agrárias e da Saúde
ISSN: 1415-6938
[email protected]
Universidade Anhanguera
Brasil
Collacico, Karen; Melo S. Chanquetti, Andréa de; Ferrari, Rosana
ACIDENTE POR LOXOSCELES EM CÃO - RELATO DE CASO
Ensaios e Ciência: Ciências Biológicas, Agrárias e da Saúde, vol. XII, núm. 2, 2008, pp. 179-195
Universidade Anhanguera
Campo Grande, Brasil
Disponível em: http://www.redalyc.org/articulo.oa?id=26012841016
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Ensaios e Ciência:
Ciências Biológicas,
Agrárias e da Saúde
ACIDENTE POR LOXOSCELES EM CÃO –
RELATO DE CASO
Vol. XII, Nº. 2, Ano 2008
RESUMO
Karen Collacico
Centro Universitário Anhanguera
unidade Leme
[email protected]
Andréa de Melo S. Chanquetti
Centro Universitário Anhanguera
unidade Leme
[email protected]
Os acidentes causados por picada de aranha do gênero Loxoceles
estão sendo muito estudadas devidas suas peculiaridades, tem
hábitos noturno e sua picada é indolor só demonstrando problemas após o início do quadro clínico bastante complexo, sendo a
dermonecrose extensa o principal agravante, e também a escassez
de relatos em Medicina Veterinária. O presente artigo apresenta os
resultados obtidos do tratamento realizado em um cão da raça Pit
Bull, de 8 meses de idade que sofreu envenenamento, após ser
picado pela aranha do gênero Loxosceles, e foi atendido no Hospital Veterinário da Universidade Estadual de Londrina, PR, que, ao
final de 20 dias de tratamento, apresentou melhora significativa.
Palavras-Chave: Loxosceles, aranha marrom, dermonecrose, cão.
Rosana Ferrari
Centro Universitário Anhanguera
unidade Leme
[email protected]
ABSTRACT
The accidents caused by sting of spider gender of Loxosceles have
been studying because your peculiarities, your habit nocturnal
and painless sting, just show the problem after the start of the very
complex clinical stage been the external dermonecrosis complex
stage been the external dermonecrosis the most main cause and
either the little quantty of cases report in Veterinary Medicine. The
following article shows the results obtained from treatment done
to a dog from a Pit Bull race eight months olds that suffered a
Loxosceles poisoning, attended in Vet hospital at State University
of Londrina, PR that after 20 days of treatment was released with
a good report.
Keywords: Loxosceles, brown spider, dermonecrosis, dog.
Anhanguera Educacional S.A.
Correspondência/Contato
Alameda Maria Tereza, 2000
Valinhos, São Paulo
CEP. 13.278-181
[email protected]
Coordenação
Instituto de Pesquisas Aplicadas e
Desenvolvimento Educacional - IPADE
Artigo Original
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Acidente por Loxosceles em cão – relato de caso
1.
INTRODUÇÃO
Loxoscelismo é a denominação do quadro clínico que ocorre em indivíduos picados
por aranhas do gênero Loxosceles e é considerado a forma mais importante de anaerismo na América do Sul, tendo relatos de acidentes no Brasil, Peru, Chile, Argentina e
nos Estados Unidos (CARDOSO et al., 2003; APPEL,2006).
As aranhas Loxosceles são cosmopolitas e tem como centro de origem a África e
as Américas, possuindo mais de 100 espécies, dentre elas 20 são endêmicas da África,
50 da América do Norte e Central e 30 da América do Sul (SILVA; FISHER, 2005). Em
1891, foi registrada a ocorrência de aranhas do gênero Loxosceles no Brasil e em 1898 a
primeira espécie nativa foi descrita por Moenkhaus, do gênero L. similis (CARDOSO et
al., 2003).
No Brasil, existem oito espécies de Loxosceles, sendo que quatro são endêmicas do país: L. similis, L. gaucho, L. amazonica e L.puortoi, e quatro dos países vizinhos: L.
laeta, L. intermedia, L.hirsuta e L. adelaida (SILVA; FISHER, 2005).
Somente em 1954 a Loxosceles é imputada como agente causador de acidentes
cutâneos necróticos, sendo que o primeiro caso registrado no Brasil foi diagnosticado
no Hospital Vital Brasil do Instituto Butantan em São Paulo neste mesmo ano
(CARDOSO et al., 2003).
Foram registrados no Brasil, durante o período de 1990 a 1993, 17.785 acidentes araneídicos, a maioria na região Sul e Sudeste. O estado do Paraná representou 44%
do total e a região Sul 72%, sendo este, o estado brasileiro que notifica o maior número
de acidentes por aranhas Loxosceles no país (SILVA; FISHER, 2005). Contudo, não há
um sistema de notificação de acidentes por Loxosceles em Medicina Veterinária.
As aranhas Loxosceles podem medir de 1 a 5 cm, de perna a perna, possui um
risco escuro no cefalotórax dorsal, e devido a sua coloração, receberam a denominação
popular de aranhas marrons por seu colorido uniforme que varia do marrom claro até
o escuro, (MÁLAQUE et al., 2002; APPEL, 2006), como apresentado na Figura 1.
Karen Collacico, Andréa de Melo Santilli Chanquetti, Rosana Ferrari
Fonte: Florida Department of Agriculture and Consumer Services 2004-2007.
Figura 1. Aranha do gênero Loxosceles.
As aranhas marrons são sedentárias e não agressivas e picam somente quando
espremidas pelo corpo. Elas preferem a escuridão e podem habitar cascas de árvores,
folhas caídas, bambuzais e cavernas. Apresentam hábitos intradomiciliares, principalmente em regiões de clima frio, mas é durante as estações quentes do ano que ocorrem
a maioria dos acidentes loxoscélicos. Também podem ser encontradas atrás de moveis,
sótãos, entulhos e tijolos (SOERENSEM, 2000; TILLEY, 2004; APPEL, 2006). O hábito
noturno e a picada indolor das aranhas marrons são aspectos que dificultam a identificação da aranha causadora (DREISBACH, 1975; FREZZA et al., 2007).
1.1. Epidemiologia
Em 1988, teve início o sistema de notificação dos acidentes araneídicos no Brasil e entre
os anos de 1990 a 1993, o loxoscelismo correspondeu a 36,6% dos acidentes notificados,
sendo mais de 6.500 casos nesse período e a incidência chega a 5.000 casos notificados
por ano na região Sul e Sudeste (CARDOSO et al., 2003; APPEL, 2006; FREZZA et al.,
2007). Entre 1988 e 1989, de 595 casos de acidentes com animais peçonhentos, 62,2%
das notificações corresponderam a acidentes com aranhas do gênero Loxosceles, sendo
que a maior incidência é nos períodos quentes do ano, como mostra na Figura 2
(APPEL, 2006).
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Acidente por Loxosceles em cão – relato de caso
Fonte: Cardoso et al. (2003).
Figura 2. Sazonalidade dos acidentes loxoscélicos entre 1985 a 1996.
Segundo APPEL (2006), os dados fornecidos pela Secretária de Saúde do Estado do Paraná entre 1990 a 1997 tiveram uma média de 1.918,25 casos loxoscélicos por
ano. Não foram achados na literatura dados referente ao Loxoscelismo em animais.
Em um estudo realizado no Hospital Vital Brasil do Instituto Butantan, em São
Paulo, entre 1985 a 1996 foram analisados 359 casos onde 14% dos casos a aranha foi
identificada. Os acidentes predominaram na área urbana (73%) entre setembro e fevereiro, 92% dos pacientes atingidos eram maiores de 14 anos e 41% foram picados ao
se vestir, onde apenas 11% procuraram o serviço médico nas primeiras horas após a picada (MALAQUE et al., 2002).
Durante o período de 1994 a 2002, foram atendidos na Unidade de Emergência
do Hospital das Clínicas da Faculdade de medicina de Ribeirão Preto – HCFMRP, USP,
7.191 acidentes causados por animais peçonhentos, dos quais 383 por aranhas, assim
distribuídos: Phoneutria 126 casos, Lycosa; 23 casos, Loxosceles: 8 casos, Megalomorphae:11
casos e não identificados 215.
Segundo o Sistema de Informação de Agravos de Notificação do Ministério da
Saúde, no Brasil houve 42.490 casos da aranha Loxosceles entre 2001 a 2006. No estado
de São Paulo foram notificados 894 casos sendo 219 casos somente no ano de 2006.
1.2. Mecanismo de ação do veneno
O veneno da aranha possui propriedades vasoconstritivas, trombóticas, hemolíticas e
dermonecróticas, levando à necrose no local da picada e é consistituído por uma mistura de proteínas com atividades tóxicas ou enzimáticas (SOERENSEN, 2000; MERCK,
Karen Collacico, Andréa de Melo Santilli Chanquetti, Rosana Ferrari
2001; CARDOSO et al., 2003). A ação tóxica do veneno das aranhas Loxosceles é o resultado de um efeito combinado de todos os seus componentes (APPEL, 2006).
As alterações sistêmicas mais freqüentes observadas em acidentes por Loxosceles em humanos foram tonturas (21%), sonolência (19%), sede (20%), “rash” cutâneo
(19%), náuseas (18%), mal estar (25%) e cefaléia (30%) (APPEL, 2006).
Sobre o mecanismo de ação do veneno da Loxosceles, estudos demonstraram
que se trata de um processo multifatorial e que o veneno tem ação direta sobre os tecidos e sobre a resposta do organismo à agressão (CARDOSO et al., 2003).
A lesão cutânea produzida pelo veneno da Loxosceles é chamada de lesão dermonecrótica e é resultante do efeito direto do veneno sobre as células, componentes da
membrana basal e matriz intracelular (CARDOSO et al., 2003).
Os mecanismos envolvidos na patofisiologia do envenenamento por Loxosceles
são complexos. O veneno é rico em enzimas como: hidrolase, hialuronidase, lípase,
peptidase, colagenase, fosfatase alcalina, 5- ribonucleotidase, foafohidrolase e protease
(MALAQUE et al., 2002).
Segundo Cardoso (2003), a esfingomielinase D é uma das frações mais importantes do veneno, porque interage com a membrana celular e com reações envolvendo
o sistema complemento. Além de suas funções efetoras antimicrobianas, o sistema do
complemento fornece estímulo para o desenvolvimento das respostas imunes humorais, caracterizando a lesão dermonecrótica e promovendo a agregação plaquetária, insuficiência renal, coagulopatia e morte (MALAQUE et al., 2002; TILLEY, 2004; ABBAS,
2007).
Os mecanismos endógenos são ativados pela interação entre o veneno e o tecido, sendo: ativação do sistema complemento, migração e liberação de enzimas proteolíticas pelos polimorfonucleares, agregação plaquetária, liberação de diversas citocinas e quimiocinas, participação de enzimas hidrolíticas que contribuem para o aumento da lesão. Esses mecanismos provocam danos no fluxo sanguíneo, indução do edema
e a isquemia (CARDOSO et al., 2003). Todas essas alterações podem levar a uma degeneração celular e dano tecidual local e, por outro lado pode levar a insuficiência renal
aguda caracterizada como uma reação nefrotóxica e hemolítica do veneno (CARDOSO
et al., 2003).
Segundo Appel (2006), a enzima esfingomielinase possui inúmeras isoformas
dentro do veneno. A esfingomielina é um esfingolipídio presente na membrana cito-
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Acidente por Loxosceles em cão – relato de caso
plasmática de todas as células eucarióticas, embora a sua maior concentração seja em
células nervosas. A sua hidrólise, depende da ação da esfingomielinase endotelial induzida pelas citoquinas inflamatórias e pelas LDL oxidadas (MOURA, 2003; CHAMPE,
2006).
A hialuronidase tem grande importância potencializando os outros componentes do veneno, pois facilita a penetração destes em vários compartimentos celulares
e tecidos, sendo assim responsável pela disseminação do veneno o que faz com que a
lesão dermonecrótica espalhe em sentido gravitacional (CARDOSO et al., 2003 e
APPEL, 2006).
A ativação de plaquetas pode gerar a produção de microtrombos e levar a isquemia no tecido. Outro componente que pode contribuir com o efeito isquêmico é
proteína amiloíde uma vez que esta inibe a elastase, enzima encontrada nos leucócitos,
cuja função é degradar o tecido necrótico (CARDOSO et al., 2003). A coagulação intravascular pode ocorrer durante o processo de desenvolvimento da lesão dermonecrótica
causando oclusão de vênulas e arteríolas, e quando o veneno é injetado sistemicamente, a coagulação também é observada em órgãos como pulmão, fígado e rim, comprometendo suas funções fisiológicas (CARDOSO et al., 2003).
O veneno da Loxosceles contém fatores hemorrágicos como a metaloprotease
que tem efeitos sobre a fibronectina, o fibrinogênio e uma metaloprotease genatinolítica, provavelmente associada à atividade dermonecrótica do veneno (BERG, 2004;
APPEL, 2006).
A ação do veneno sobre a membrana basal além de contribuir para a reação
local da lesão, pode influir no processo de falência renal, atuando sobre a membrana
basal glomerular, podendo causar insuficiência renal (CARDOSO et al., 2003).
Através de estudos de células ativadas pela indução dos venenos loxoscélicos,
foi sugerido que vários mediadores pró-inflamatórios participam no desenvolvimento
da lesão. A quimiocina induz a angiogênese e faz ocorrer alterações na permeabilidade
vascular, o que contribui para a vasodilatação, edema e eritema (CARDOSO et al.,
2003). A aplicação de gama-globulina humana inibiu a infiltração de leucócitos, hemorragia e reduziu acentuadamente o edema no local (CARDOSO et al., 2003).
A trombocitopenia, decorrente de uma agregação plaquetária induzida pelo
veneno de Loxosceles, bem como o quadro hemorrágico e a coagulação intravascular
Karen Collacico, Andréa de Melo Santilli Chanquetti, Rosana Ferrari
disseminada que surgem em alguns acidentados, representam fenômenos dependentes
de moléculas da matriz extracelular (APPEL, 2006).
Com a lise das hemácias e a conseqüente liberação de hemoglobina para a circulação, causadas pelo loxoscelismo, os túbulos renais poderiam ter sua integridade
comprometida à alta toxicidade da hemoglobina (CARDOSO et al., 2003). A insuficiência renal aguda com hemoglobinúria e proteinúria decorrente do acidente com aranha
marrom, está relacionada com a ação dos constituintes presentes no veneno, sobre o tecido renal e parte da matriz extracelular renal principalmente a membrana basal glomerular, que atua na fisiologia renal como barreira seletiva (APPEL, 2006).
Estudos vêm sendo realizados para investigar o papel dos polimorfonucleares
na fisiopatologia da lesão dermonecrótica e possibilitaram novas abordagens medicamentosas no tratamento do loxoscelismo cutâneo (CARDOSO et al., 2003).
Não foram detectadas diferenças significativas na lesão dermonecrótica produzida pelo veneno das espécies L. Intermédia, L. Gaúcho e L. laeta, mas a dose letal apresentou diferente com valores de 0,48 mg/Kg para L. Intermédia, 0,74 mg/Kg para L.
Gaúcho e 1,45 mg/Kg para L. laeta (CARDOSO et al., 2003; APPEL, 2006).
No veneno de L. gaúcho foi demonstrado que as proteínas responsáveis pelas
atividades dermonecróticas e letal são componentes mais imunogênicos e os que apresentam maior reatividade cruzada, quando são utilizados anti-soros espécie-específico
e também neutralizaram as atividades tóxicas do veneno de L. intermédia (CARDOSO
et al., 2003).
Segundo Appel (2006), os problemas de hemostasia sistêmica causados pelo
envenenamento por aranhas do gênero loxosceles são pouco entendidos, embora sejam
uma das causas de óbito em acidentados. O veneno provoca coagulação intravascular
disseminada, causando oclusão da parede de vasos de animais de laboratórios e humanos expostos ao veneno.
A trombocitopenia e neutropenia no sangue periférico foram correlacionados
à depressão da medula óssea, podendo ser conseqüência de uma extensiva migração
de plaquetas e neutrófilos para a região da dermonecrose ou de um efeito transitório
do envenenamento (APPEL, 2006).
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Acidente por Loxosceles em cão – relato de caso
1.3. Quadro clínico no Loxoscelismo
Segundo Appel (2006), o quadro clínico provocado por acidente loxoscélicos pode ser
de dois tipos: o quadro cutâneo ou dermonecrótico (84 a 97% dos casos) e o quadro cutâneo-visceral ou sistêmico (3 a 16% dos casos).
Villard (1936) fez descrições significativas da forma cutânea, considerando-a
como o ponto de penetração das quelíceras, apresentando-se marcada por uma pápula
branca, não tem sensibilidade, e ao redor avermelhado, dolorosa, com progressão rápida e formação de uma placa eritematosa, com irregular área de delimitação, que pode
não ser atribuída a outro tipo de lesão dermatológica, podendo estender por todo o
membro ou parte do tronco, a lesão pode aumentar de volume e se entender a outros
tecidos subjacentes, incluindo a musculatura. Logo após aparecem edema e bolhas eritematosas. Essa área esbranquiçada com placa eritematosa dá aparência de “olho de
boi” (MERCK, 2001; MALAQUE et al.,, 2002; CARDOSO et al., 2003).Uma das principais características é o aspecto marmorizado, com sufusões hemorrágicas entre 12 a 24
horas e sua extensão e as durações variam com a gravidade do caso (CARDOSO et al.,
2003; FREZZA et al., 2007).
A dor pode variar de moderada a severa e é descrita como “queimação”. Após
cinco a sete dias, a lesão se delimita formando uma crosta necrótica seca, sendo incomum a presença de infecções secundárias, já também é citado que um agente muito
importante de infecção secundária nesse caso é o Clostridium perfingens (CARDOSO et
al., 2003; APPEL, 2006).
Após a delimitação da lesão, há formação de crosta necrótica seca, se desprendendo deixando uma úlcera de bordas elevadas, de aspectos semelhantes à da leishmaniose cutânea (CARDOSO et al., 2003; FREZZA et al., 2007;).
Os pacientes com lesões extensas e profundas, são orientados a fazer cirurgia
reparadora, mas quando isso não é feito a úlcera resultante pode demorar meses para a
cicatrização completa (CARDOSO et al., 2003; APPEL, 2006).
Além do quadro cutâneo, podem ocorrer manifestações inespecíficas como febre baixa, cefaléia, náuseas, mal–estar, fraqueza, vômitos e exantema generalizado que
podem estar presentes na fase aguda, em geral nos primeiros dias (CARDOSO et al.,
2003; FREZZA et al., 2007).
No loxoscelismo cutâneo-visceral, as primeiras manifestações aparecem após
24 horas e além dos sintomas locais, incluem astenia, febre, episódios eméticos, altera-
Karen Collacico, Andréa de Melo Santilli Chanquetti, Rosana Ferrari
ções sensoriais, cefaléia, insônia e nos casos mais graves ocorrem convulsões e coma,
podendo ocorrer também prurido generalizado e petéquias (APPEL, 2006).
A forma mais grave do loxoscelismo é caracterizada pela hemólise intravascular, agregação plaquetária, (causando trombocitopenia e coagulação intravascular disseminada), os quais podem determinar a diminuição do hematócrito, aumento da bilirrubina e icterícia (CARDOSO et al., 2003; APPEL, 2006).
Outras conseqüências decorrentes do envenenamento estão as alterações vasculares nos pulmões, fígado e rins, sendo a mais grave a insuficiência renal aguda podendo levar a forma oligúrica ou não-oligúrica caracterizada por hemoglobinúria, hematúria, coagulação intravascular disseminada (obstrução da luz tubular) e choque. A
morte pode ocorrer de oito a dez dias quando o doente encontra-se com insuficiência
renal
aguda,
decorrente
do
depósito
de
hemoglobina
nos
túbulos
renais
(BARRAVIERA, 1999; MERCK, 2001; CARDOSO et al., 2003; APPEL, 2006).
1.4. Tratamento do Loxoscelismo
O tratamento do loxoscelismo ainda é de grande preocupação, porque os protocolos
são baseados no mecanismo de ação, embora este não seja completamente definido,
como demonstrado na Figura 5 (APPEL, 2006).
No hospital Vital Brasil, a soroterapia tem sido muito utilizada em pacientes
que ainda não apresentaram a necrose ou em pacientes apresentando lesões em fase
aguda, recebendo o antiveneno em até 72 horas após a picada. Na forma cutâneohemolítica, a soroterapia é indicada a qualquer momento em que for diagnosticada a
hemólise, mesmo havendo divergências sobre a eficácia do soro na neutralização da lesão (MALAQUE et al., 2002; CARDOSO et al., 2003).
É realizado tratamento com compressas frias no local da lesão, antibióticos de
amplo espectro, fluidoterapia e o uso de corticosteróides durante um período de 5 a 7
dias (prednisona 1 mg/Kg em crianças e 40-60 mg/Kg em adultos por via oral). Porém,
alguns estudos relatam que o uso de esteróides sistêmicos não mostrou eficácia na diminuição da infiltração leucocitária, não tendo função terapêutica e sua administração
na lesão pode aumentar o edema e a pressão local de inoculação, contribuindo para a
necrose. Também é indicado o uso de aspirina, cirurgia em alguns casos e em casos
mais graves a cirurgia plástica reparadora (MERCK, 2001; TILLEY, 2004; APPEL, 2006).
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Acidente por Loxosceles em cão – relato de caso
É indicado o uso de Dapsona® por ter um papel notório no loxoscelismo sendo utilizada como inibidor da função leucocitária na dose de 1 mg/Kg cada 8 horas
durante 10 dias em cães, e no homem 100 mg a cada 12 horas durante 14 a 25 dias, dependendo do tipo de lesão e do protocolo instituído, podendo ou não ser associado ao
antiveneno. Em gatos, o uso de Dapsona® não é indicado por falta de estudos
(MERCK, 2001; MALAQUE, 2002; CARDOSO, 2003; TILLEY, 2004).
Por outro lado, a Dapsona® pareceu não alterar a progressão da dermonecrose causada pelo veneno de Loxosceles, no entanto tem sido utilizada no controle clínico
e na melhor terapêutica, e tempo de tratamento ainda está para ser definido
(MALAQUE et al., 2002).
Se o antiveneno tem um papel, não seria o da prevenção do aparecimento da
lesão, mas sim na remoção do veneno residual e favorecendo a cicatrização periférica
da picada por Loxosceles (APPEL, 2006). No Brasil são produzidos os soros antiloxoscélicos (SALox) e anti- aracnídicos (SAAr). Porém, como citado acima, permanecendo
dúvidas sobre a sua real neutralização dos efeitos locais e do período ideal para sua
administração (CARDOSO et al., 2003).
Em pacientes com loxoscelismo cutanêo-visceral indica-se que eles sejam mantidos bem hidratados, e em casos que evoluem com anemia aguda, utiliza-se a reposição de concentrados de hemácias, mas de forma criteriosa. No caso de oligúria e anúria, devem ser administrados diuréticos e se progredir para insuficiência renal deve ser
avaliado a necessidade de diálise para a correção dos distúrbios hidroeletrolíticos e ácido-básico.
Karen Collacico, Andréa de Melo Santilli Chanquetti, Rosana Ferrari
Fonte: Cardoso et al. (2003).
Figura 3. Provável mecanismo de ação dos venenos loxoscélicos e as vias de atuação
dos principais tratamentos utilizados no loxoscelismo.
2.
RELATO DE CASO
Foi dada entrada no Hospital Veterinário da Universidade Estadual de Londrina - PR,
no dia 15/07/2007, um cachorro da raça Pit Bull, de nome Pirata, com 8 meses de idade
e pesando 18,5 Kg. À anamnese proprietário relatou que há três dias, do atendimento,
havia notado inchaço e hematoma na região do pênis do animal e que este tinha se distribuído pelo abdômen e região ventral do tórax. No primeiro dia dos sintomas, o animal defecou apresentando fezes escuras e amolecidas e sua urina tinha coloração amarelo escura. Relatou também a administração, por conta própria, de Azium® Veterinário por dois dias, duas vezes ao dia e injeção de penicilina por dois dias. Segundo os
achados da anamnese pode-se classificar a evolução do quadro como de forma aguda.
O exame físico do animal permitiu identificar um hematoma extenso e edema
na região ventral do abdômen com feridas necróticas, como apresentado na Figura 4.
Neste mesmo dia como exame complementar foi pedido um hemograma e o resultado
pode ser observado na Tabela 1.
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190
Acidente por Loxosceles em cão – relato de caso
Fonte: HV/UEL.
Figura 4. Cão apresentando dermonecrose na região torácica e inguinal.
Tabela 1. Achados do hemograma no dia 15/07/2007.
Hemograma
Valor absoluto
Eritrócitos
6.833.000 mm3
Hemoglobina
13,3 g/dl
Hematócrito
41%
Leucócitos
3.850 mm3
Bastonetes
8%
308
Segmentados
77%
2.964
Linfócitos
15%
577,5
Plaquetas µ/L
114.000
Série vermelha dentro dos parâmetros de normalidade e série branca apresentando leucopenia por linfopenia com desvio à esquerda e trombocitpenia.
No primeiro dia de internação, devido não ter diagnóstico definitivo, foi realizado tratamento suporte com fluidoterapia (três vezes a manutenção, sendo optado
por solução de Ringer Lactato no volume de 2.275 ml em 24horas com uma gota a cada
dois segundos) mantida até o quarto dia de tratamento. Foi feito uso de Reparil® no
hematoma e compressa de arnica durante 15 min. O animal apresentava anorexia e adipsia.
O animal apresentou piora durante o segundo dia de internação, com grande
exsudação em lesão de tórax (necrose) e convulsões focais que progressivamente generalizaram, foi medicado (Cefalexina® 30 mg/Kg, IV, Heparina 950 UI/Kg, SC, Dermacorten 0, 5 mg/Kg, Fenobarbital 2 mg/Kg, compressa com arnica e Kolagenase®), e foi
pedido para o proprietário trazer Tramadol® 50mg para ser utilizado na analgesia na
dose de 2,2 mg/Kg. Animal era continuamente mantido na fluidoterapia com solução
Karen Collacico, Andréa de Melo Santilli Chanquetti, Rosana Ferrari
Ringer lactato. Foi realizado exame bioquímico de creatinina que apresentou valor de
1,18 mg/dL.
No terceiro dia (17/07/2007), foi observado um aumento na região cervical,
aumento da lesão dermonecrótica e edema de membros como mostra Figuras 5 e 6.
Fonte: HV/UEL.
Figura 5. Edema na região cervical ventral.
O tratamento tópico no local afetado foi mantido com compressa com arnica e
Kolagenase® pomada. Este tratamento foi substituído por procedimento cirúrgico para
debridamento da ferida no nono dia de internação após estabilização do paciente, no
sexto dia de internação onde apresentou normorexia e normodipsia, sendo instituída a
alimentação com ração.
Fonte: HV/UEL
Figura 6. Aumento da lesão dermonecrótica e edema em membros anteriores e prepúcio.
Sob anestesia geral inalatória foi realizado o debridamento da ferida, sendo retirada uma extensa área de necrose, em pele e tecido subcutâneo, como demonstra Figura 7.
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Acidente por Loxosceles em cão – relato de caso
Fonte: HV/UEL.
Figura 7. Animal após o debridamento cirúrgico.
Após o debridamento, foi lavada toda a área e feita uma aproximação com sutura tipo Tie-over. O mesmo procedimento foi instituído em duas pontas arredondadas
de necrose em região prepucial. O curativo foi feito após a lavagem do local com solução fisiológica, seguido da aplicação tópica de gentamicina .
No pós-cirúrgico o animal encontrava-se melhor e era levado para fora do
hospital para tomar banho de sol (Figura 8). Além dos medicamentos que o animal já
estava recebendo, foi prescrito Metronidazol (25 mg/Kg).
Fonte: HV/UEL.
Figura 8. Animal apresentando melhora após a cirurgia.
Dois dias após a intervenção cirúrgica foram mantidos o tratamento do animal
com Cefalexina (30 mg/Kg), Heparina (20 UI/Kg), Dermacorten (0,25 mg/Kg), Fenobarbital (1 mg/Kg); Tramal (2,2 mg/Kg); Metronidazol (25 mg/Kg). O paciente foi
mantido em repouso e apresenta melhora progressiva do quadro clínico.
A prescrição de Fenobarbital foi gradualmente reduzida sendo suspensa no
15º (29/07/2007) dia de internação, nesta mesma data foi realizado um exame de cultura bacteriológica da ferida, que apresentou resultado negativo, e também um antibio-
Karen Collacico, Andréa de Melo Santilli Chanquetti, Rosana Ferrari
grama para verificar resistência a amicacina, amoxacilina, cefalexina, ciprofloxacina,
enrofloxacina, gentamicina e sulfazotil. Nos dias subseqüentes de internação o animal
foi tratado apenas com Cefalexina (30 mg/Kg).
No 20° dia de internação o animal apresentava melhora significativa, porém
ainda apresentava dificuldade à locomoção.
3.
DISCUSSÃO
Os resultados apresentados neste trabalho mostraram que o tratamento realizado no
cão que sofreu acidente por Loxosceles promoveu uma melhora significativa dos sinais
apresentados pelo animal, principalmente com relação à extensa dermonecrose.
O sucesso no tratamento do animal se deveu também ao rápido diagnóstico
realizado. O diagnóstico por acidente com Loxosceles raramente é baseado na identificação da aranha, pois depende da capturar da aranha sendo na maioria dos casos baseado nos sinais clínicos e nos sintomas (MÁLAQUE et al., 2002). Quanto mais rápido o
diagnóstico, menor o tempo de ação do veneno. Nota-se, então, a importância da realização de treinamentos e reciclagem sobre envenenamentos com aranha marrom para
profissionais da saúde, com o objetivo de aprimorar o diagnóstico, principalmente os
médicos veterinários devido a escassa informação na literatura sobre acidentes por Loxosceles nas espécies animais (FREZZA et al., 2007).
O hemograma de pacientes que sofreram acidente com Loxosceles pode apresentar leucocitose com neutrofilia, queda de hemoglobina, aumento de reticulócitos e
plaquetopenia na forma hemolítica (CARDOSO et al., 2003). Nas análises bioquímicas
dos sangue desses pacientes ocorre hiperbilirrubinemia com predomínio de billirrubina indireta, elevação das transaminases, queda nos níveis séricos de hemoglobina e no
caso de insuficiência renal, aumento de uréia e cratinina e com a urinálise, pode ser identificada a presença de hemoglobinúria, hematúria e cilindrúria (CARDOSO et al.,
2003). Nesse sentido, deve ser realizado uma análise cautelosa do hemograna do animal com suspeite de envenenamento por Loxosceles.
Testes de imunodiagnóstico (ELISA), transformação de linfócitos, ensaio de inibição de hemaglutinação passiva, radiomunoensaio, biopsia em caso de forma cutânea e histopatológicos ainda estão sendo investigados para auxiliar no diagnóstico do
Loxoscelismo (CARDOSO et al., 2003).
193
194
Acidente por Loxosceles em cão – relato de caso
Devido ao pouco conhecimento sobre o mecanismo de ação do veneno (ainda
indefinido) e do tratamento para acidentes com Loxosceles em cães são fundamentais os
estudos de relato de caso, como o aqui apresentado, para se traçar procedimentos terapêuticos.
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Karen Collacico
Graduada em Medicina Veterinária – Centro
Universitário Anhanguera – Unidade Leme.
Andréa de Melo Santilli Chanquetti
Graduada em Medicina Veterinária – UEL. Docente do Centro Universitário Anhanguera –
Unidade Leme.
Rosana Ferrari
Mestre em Biologia Celular e Molecular –
UNESP. Docente do Centro Universitário Anhanguera – Unidade Leme.
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