Petrografia, Litoquímica e Geocronologia (U-Pb) das rochas

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MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO
UNIVERSIDADE FEDERAL DE MATO GROSSO
FACULDADE DE GEOCIÊNCIAS
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM GEOCIÊNCIAS
Giulia Guimarães Barbosa Trivelli
Petrografia, Litoquímica e Geocronologia (U-Pb) das rochas
hipabissais do Granito São Vicente na região do Parque Estadual
Águas Quentes, Mato Grosso.
Orientador
Profº. Dr. Ronaldo Pierosan
Co-orientador
Profº. Dr. Amarildo Salina Ruiz
CUIABÁ
2016
UNIVERSIDADE FEDERAL DE MATO GROSSO
REITORIA
Reitora
Profª. Drª. Maria Lucia Cavalli Neder
Vice-Reitor
Profº. Dr. Francisco José Dutra Solto
PRÓ-REITORIA DE PÓS-GRADUAÇÃO
Pró-Reitora
Profª. Drª. Leny Caselli Anzai
FACULDADE DE GEOCIÊNCIAS
Diretor
Profº. Dr. Paulo César Corrêa da Costa
Vice-Diretor
Profº. Dr. Carlos Humberto da Silva
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM GEOCIÊNCIAS
Coordenador
Profº. Dr. Ronaldo Pierosan
Vice-Coordenador
Profº. Dr. Jayme Alfredo Dexheimer Leite
ii
DISSERTAÇÃO DE MESTRADO
N° 71
Petrografia, Litoquímica e Geocronologia (U-Pb) das rochas
hipabissais do Granito São Vicente na região do Parque Estadual
Águas Quentes, Mato Grosso.
Giulia Guimarães Barbosa Trivelli
Orientador
Profº. Dr. Ronaldo Pierosan
Co-orientador
Profº. Dr. Amarildo Salina Ruiz
Dissertação apresentada ao Programa de PósGraduação em Geociências da Faculdade de
Geociências da Universidade Federal de Mato Grosso
como requisito parcial para a obtenção do Título de
Mestre em Geociências.
CUIABÁ
2016
iii
Dados Internacionais de Catalogação na Fonte.
G963p
Guimarães Barbosa Trivelli, Giulia.
Petrografia, Litoquímica e Geocronologia (U-Pb) das rochas hipabissais
do Granito São Vicente na região do Parque Estadual Águas Quentes, Mato
Grosso. / Giulia Guimarães Barbosa Trivelli.
-- 2016
xiii, 57 f. : il. color. ; 30 cm.
Orientador: Ronaldo Pierosan.
Co-orientador: Amarildo Salina Ruiz.
Dissertação (mestrado) – Universidade Federal de Mato Grosso,
Instituto de Ciências Exatas e da Terra, Programa de Pós-Graduação em
Geociências, Cuiabá, 2016.
Inclui bibliografia.
1. U-Pb
SHRIMP; elaborada
;. 2. Faixaautomaticamente
Paraguai. 3. Geoquímica.
I. Título.
Ficha
catalográfica
de acordo com
os dados fornecidos pelo(a) autor(a).
Permitida a reprodução parcial ou total, desde que citada a fonte.
iv
Petrografia, Litoquímica e Geocronologia (U-Pb) das rochas hipabissais do Granito São
Vicente na região do Parque Estadual Águas Quentes, Mato Grosso.
_____________________________________________________________
BANCA EXAMINADORA
______________________________________
Profº. Dr. Ronaldo Pierosan
Orientador (UFMT)
_______________________________________
Profª. Dra. Márcia Aparecida de Sant’ana Barros
Examinadora Interna (UFMT)
_______________________________________
Profº. Dr. Jean Michel Lafon
Examinador Externo (UFPA)
v
Dedicatória
Aos meus pais Carlos e Virgínia, por todo amor e dedicação. Gratidão.
vi
Agradecimentos
Agradeço a Deus pelos dons da vida e sabedoria, e pela força em cada etapa alcançada.
Agradeço as instituições que me apoiaram durante o período de Mestrado: a Universidade
Federal de Mato Grosso (UFMT), ao Programa de Pós-graduação em Geociências (PPGEC), ao Grupo
de Pesquisa Evolução Crustal e Tectônica (Guaporé) pelo apoio intelectual e científico. Ao Programa
de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) e Fundação de Amparo à Pesquisa do
Estado de Mato Grosso (FAPEMAT) pela concessão da bolsa de mestrado, através do edital 009/2013.
Ao Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia de Geociências da Amazônia (INCT/GEOCIAM), pelo
auxilio e suporte financeiro no desenvolvimento da pesquisa.
Ao Profº. Dr. Ronaldo Pierosan, pela atenção, paciência, dedicação e profissionalismo
durante a orientação. E ao co-orientador, Profº Dr. Amarildo Salina Ruiz, por todo apoio e
compreensão, e incentivos nas oportunidades acadêmicas. Á Msª Maria Elisa Froés pelo cuidado e
disposição em nos ajudar sempre.
À minha família por ter acreditado e apoiado pra que fosse possível a concretização de
mais um sonho. Aos meus pais, Carlos e Virgínia, e irmãos, Renan e Gil, obrigada por serem o
sustento e incentivo em todas as lutas, e o sorriso nas vitórias.
Agradeço ao Ministério Universidades Renovadas e a cada um dos que fazem parte desta
família; e aos colegas do curso de mestrado João Tarelow, Jéssica Sisti, Gabriela dos Santos e
Cinthya Souza. Vocês acompanharam de perto o desenvolvimento deste projeto sempre me
encorajando e sendo exemplo a ser seguido.
vii
Sumário
AGRADECIMENTOS ................................................................................................................... vii
SUMÁRIO..................................................................................................................................... viii
LISTA DE ILUSTRAÇÕES ........................................................................................................... ix
RESUMO ........................................................................................................................................ xi
ABSTRACT..................................................................................................................................... xii
CAPÍTULO I- INTRODUÇÃO ....................................................................................................... 1
I.1. Introdução ................................................................................................................................... 1
I.1.1. Apresentação do tema ..................................................................................................... 1
I.1.2. Localização e vias de acesso ............................................................................................ 2
I.1.3. Objetivos .................................................................................................................................. 3
I.1.4. Métodos de pesquisa ....................................................................................................... 3
I.1.4.1. Etapa preliminar ................................................................................................. 3
I.1.4.2. Etapa de coleta de dados ..................................................................................... 4
I.1.5. Etapa de tratamento e sistematização de dados .......................................................................... 7
I.1.6. Etapa de conclusão e divulgação dos resultados ......................................................................... 7
I.2.Contexto Geológico Regional ....................................................................................................... 7
CAPÍTULO II-GEOLOGIA LOCAL E PETROGRAFIA ...........................................................14
II.1. Geologia do Granito São Vicente na região das Águas Quentes..................................................14
II.1.1 Fácies Sienogranito Grosso ............................................................................................15
II.1.2.Fácies Aplito Porfirítico .................................................................................................17
II.1.3. Fácies Microgranito ......................................................................................................19
II.1.4.Fácies Riolito Porfirítico ................................................................................................21
CAPÍTULO III-ARTIGO PARA SUBMISSÃO À REVISTA DE GEOLOGIA USP .................23
III.1. Introdução ................................................................................................................................24
III.2. Contexto geotectônico ..............................................................................................................25
III.3. Materiais e métodos ............................................................................................................... 288
Iii.4. Geologia e petrografia............................................................................................................. 299
III.5. Litoquímica ............................................................................................................................ 344
III.6. Geocronologia U-Pb shrimp ................................................................................................... 423
III.7. Discussões e conclusões ......................................................................................................... 455
III.8. Referências ............................................................................................................................ 477
CAPÍTULO IV-DISCUSSÕES ECONSIDERAÇÕES FINAIS ...................................................50
Referências ..................................................................................................................................... 533
Anexo 1 .......................................................................................................................................... 566
viii
Lista de ilustrações
CAPÍTULO I-INTRODUÇÃO
Figura I.1 Mapa de localização e vias de acesso da área de estudo.......................................................................02
Figura I.2. Mapa de localização dos afloramentos da área estudada.......................................................................05
Figura I.3. Mapa geológico simplificado da Faixa Paraguai ilustrando a distribuição dos granitoides da
Província Granítica Brasiliana (extraído de Godoy et al., 2007)............................................................................08
Figura I.4. Mapa geológico esquemático do Cráton Amazônico e a correlação com a Faixa de Dobramento
Paraguai (modificado de Alvarenga & Trompette, 1993; Trompette & Alvarenga, 1998 e Ruiz et al., 1999)......10
CAPÍTULO II- GEOLOGIA LOCAL E PETROGRAFIA
Figura II.1. Mapa faciológico da área de estudo....................................................................................................15
Figura II.2. Aspectos macroscópicos da Fácies Sienogranito grosso do Granito São Vicente: (a) e (b) fotografias
das formas de afloramentos em blocos e lajedos; (c) e (d) amostras de sienogranito de granulação média a
grossa.......................................................................................................................................................................16
Figura II.3. Fotomicrografias das fácies Sienogranito Grosso do Granito São Vicente. Polarizadores cruzados.
(a) textura pertítica e inclusões de quartzo em feldspato alcalino; (b) plagioclásio parcialmente sericitizado; (c)
quartzo com extinção ondulante; (d) palhetas de biotita em contato com cristais de plagioclásio e feldspatos
alcalinos...................................................................................................................................................................17
Figura II.4. Aspectos macroscópicos da Fácies Aplito porfirítico do Granito São Vicente: (a) afloramento
evidenciando diques de aplito em contato abrupto com a rocha da Fácies Sienogranito Grosso; (b) fenocristais
de quartzo e biotita imersos em uma matriz fanerítica fina....................................................................................18
Figura II.5. Fotomicrografias da Fácies Aplito Porfirítico. Polarizadores cruzados. (a) fenocristal de plagioclásio
na matriz quartzo feldspática; (b) fenocristal de biotita na matriz quartzo feldspática; (c) matriz quartzo
feldspática com textura equigranular; (d) plagioclásios maclados..........................................................................19
Figura II.6. Aspectos macroscópicos da Fácies Microgranito do Granito São Vicente: (a) afloramento horizontal
do microgranito ; (b) microfenocristais de quartzo imersos em uma matriz muito fina.......................................20
Figura II.7. Fotomicrografias da Fácies Microgranito. Polarizadores cruzados. (a) textura porfirítica; (b) matriz
fanerítica muito fina com textura micrográfica......................................................................................................20
Figura II.8. Aspectos macroscópicos da Fácies Riolito porfirítico do Granito São Vicente: (a) afloramento em
forma de lajedo caracterizando textura porfirítica; (b) fenocristais feldspato alcalino e quartzo imersos em uma
matriz afanítica........................................................................................................................................................21
Figura II.9. Fotomicrografias da fácies riolito porfirítico. Polarizadores cruzados. (a) textura porfirítica; (b)
textura glomeroporfirítica; (c) embaiamento de quartzo; (d) borda de corrosão no quartzo; (e) relação matriz e
fenocristais; (f) matriz quartzo feldspática e alteração da biotita para clorita.........................................................22
CAPÍTULO III-ARTIGO PARA SUBMISSÃO
ix
Figura III.1. Mapa geológico simplificado da Faixa Paraguai ilustrando a distribuição dos granitoides da
Província Granítica Brasiliana (extraído de Godoy et al., 2007)............................................................................25
Figura III.2. (a) Mapa geológico do Granito São Vicente com localização da área de estudo (adaptado de
Lacerda Filho et al., 2004); (b) Mapa faciológico e de pontos da área de estudo...................................................30
Figura III.3. Fotomicrografias das fácies do Granito São Vicente. Polarizadores cruzados. (a) textura pertítica e
inclusões de quartzo em feldspato alcalino, fácies sienogranito grosso; (b) palhetas de biotita em contato com
cristais de plagioclásio e feldspato alcalino, fácies sienogranito grosso; (c) e (d) fenocristais de plagioclásio e
biotita, respectivamente, na matriz quartzo feldspática, fácies aplito porfirítico; (e) textura porfirítica, fácies
microgranito; (f) matriz fanerítica muito fina com textura micrográfica, fácies microgranito; (g) textura
porfirítica, fácies riolito porfirítico; (h) matriz quartzo feldspática, corrosão de borda e alteração da biotita para
clorita, fácies riolito porfirítico...............................................................................................................................33
Figura III.4. Diagramas binários do tipo Harker de elementos maiores para as diferentes fácies do Granito São
Vicente na região do Parque Estadual Águas Quentes...........................................................................................37
Figura III.5. Diagramas binários do tipo Harker de elementos traços paras as diferentes fácies do Granito São
Vicente
na
região
do
Parque
Estadual
Águas
Quentes.
Símbolos
como
na
figura
III.4..........................................................................................................................................................................38
Figura III.6. Diagrama classificatório R1 vs R2 de La Roche et al. (1980) paras as diferentes fácies do Granito
São Vicente na região do Parque Estadual Águas Quentes. Símbolos como na figura III.4..................................39
Figura III.7. Diagramas classificatórios de Frost et al. (2001) paras as diferentes fácies do Granito São Vicente
na região do Parque Estadual Águas Quentes. Símbolos como na figura III.4......................................................40
Figura III.8. (a) diagrama K2O versus SiO2 de Peccerillo & Taylor (1976) e (b) diagrama de Maniar & Piccoli
(1989) com os índices de peraluminosidade de Shand (1943) para as diferentes fácies do Granito São Vicente na
região do Parque Estadual Águas Quentes. Símbolos como na figura III.4...........................................................40
Figura III.9. Diagramas (a) Rb versus Y+Nb de Pearce et al. (1984) e (b) Hf - Rb/30 - Ta*3 de Harris et al.
(1986). para as diferentes fácies do Granito São Vicente na região do Parque Estadual Águas Quentes. Símbolos
como na figura III.4................................................................................................................................................40
Figura. III.10. Diagramas classificatórios de granitos de Whalen et al. (1987) para as diferentes fácies do
Granito São Vicente na região do Parque Estadual Águas Quentes. (a) FeOt/MgO vs Zr+Nb+Ce+Y; (b) Zr vs
Ga/Al; e (c) Nb vs Ga/Al. Símbolos como na figura III.4......................................................................................41
Figura III.11. Diagramas multielementos para as diferentes fácies do Granito São Vicente na região do Parque
Estadual Águas Quentes. (a) normalizados segundo o condrito de Thompson (1982) e (b) condrito de Boynton
(1984). Símbolos como na figura III.4....................................................................................................................42
Figura III.12. Imagens de catadoluminescência dos cristais de zircão do riolito porfirítico (amostra GT01) com
as posições de análise............................................................................................................................................. 43
Figura III.13. Diagrama concórdia com a idade U-Pb (SHRIMP) do riolito porfirítico (amostra GT01). ...........
.................................................................................................................................................................................45
x
Lista de tabelas
Tabela I.1. Síntese a partir da literatura sobre dados geocronológicos do Granito São Vicente..........13
Tabela III.1. Síntese a partir da literatura sobre dados geocronológicos do Granito São Vicente........28
Tabela III.2. Dados litoquímicos das diferentes fácies do Granito São Vicente na região do Parque
Estadual das Águas Quentes. Elementos maiores expressos em % peso e elementos traços em ppm...35
Tabela III. 3. Dados de isótopos de U-Th-Pb em zircão do riolito porfirítico (amostra GT01)...........44
xi
Resumo
A análise petrogenética das rochas hipabissais do Granito São Vicente na região do Parque Estadual
Águas Quente, estado de Mato Grosso, permitiu o reconhecimento e caracterização de fácies distintas
para o corpo. Os critérios petrográficos indivualizaram quatro fácies isotrópicas: sienogranito grosso,
caracterizado por rochas de textura equigranular a localmente inequigranular leucocráticas; aplito
porfirítico composto de rochas de textura inequigranular fina a média com fenocristais, leucocráticas e
de composição sienogranítica; microgranito que consiste de uma rocha com textura microporfirítica
com microfenocristais imersos numa matriz fanerítica quartzo feldspática muito fina, com frequente
textura micrográfica; e a fácies riolito porfirítico que consiste de uma rocha com textura porfirítica e
glomeroporfirítica em uma matriz afanítica a fanerítica muito fina característica de intrusões
hipabissais. O padrão de distribuição dos elementos terras raras indica um forte fracionamento de ETR
leves, com razões LaN/SmN médias de 7,87, anomalia negativa de Eu (Eu/Eu* ~0,38) e enriquecimento
de ETR pesados, expressos por razões GdN/YbN menores que a unidade (~0,82). A distribuição dos
elementos em diagramas binários e as anomalias negativas em diagramas multielementos indicam
atuação de processos de cristalização fracionada de fases minerais como plagioclásio, biotita, apatita e
zircão, para as fácies sienogranito e aplito. Análises U-Pb (SHRIMP) em zircão mostram uma idade de
528±4 Ma para o riolito porfirítico, considerada idade de cristalização magmática. Sugere-se então que
o magma que originou as rochas plutônicas e vulcânicas do Granito São Vicente na região estudada
pode ter se originado de fontes litosféricas previamente afetadas por subducção com contribuição de
fontes astenosféricas.
Palavras-chave: U-Pb SHRIMP; Faixa Paraguai; Geoquímica
xii
Abstract
The petrogenesis of the hypabissal rocks of the São Vicente Granite on the region of the
Águas Quentes State Park, south-central region of Mato Grosso state, allowed the
recognition and characterization of distinct facies for the granite main body. The
petrographic procedure allowed the recognition of four genetic and petrographical facies:
coarse syenogranite consisting of leucocratic, equigranular and locally inequigranular rocks;
porphyritic aplite composed of leucocratic fine to medium grained inequigranular rocks of
syenogranitic composition; microgranite with microporphyritic texture and microphenocrysts
within a very fine grained quartz-feldspatic groundmass and recurrent micrographic texture;
and porphyritic rhyolite, confined to the Águas Quentes State Park balneary, consisting of a
porphyritic to glomeroporphyritic rock with a very fined to aphanitic groundmass,
characteristics of hypabyssal intrusions. This facies association suggests that the study area
represent a cupola level of an epizonal intrusion. The distribution pattern of rare earth
elements points to a strong fractionation of LREE, with average of La N/SmN ratios of 7.87,
negative Eu anomaly (Eu/Eu* ~0.38) and enrichment of HREE established by GdN/YbN ratios
lower than the unit (~0.82). The major and trace element distribution on binary diagrams and
the negative anomalies on spidergrams indicate fractional crystallization processes of
plagioclase, biotite, apatite and zircon, to the syenogranite and aplite facies. U-Pb Shrimp
dating yield and age of 528±4 Ma to the porphyritic rhyolite, assumed as the crystallization
age. Thereafter, is suggested that the magma source of plutonic and volcanic rocks of São
Vicente Granite on the Águas Quentes State Park region could be derived from subduction
related lithospheric sources mixed with deeper asthenospheric sources.
Keywords: U-Pb SHRIMP; Paraguai Belt; Geochemistry
xiii
Trivelli, G. G. B. 2016. Petrografia, Litoquímica e Geocronologia (U-Pb) das rochas hipabissais do Granito São
Vicente na região do Parque Estadual Águas Quentes, Mato Grosso.
CAPÍTULO I
INTRODUÇÃO
I.1. INTRODUÇÃO
I.1.1. Apresentação do tema
O Granito São Vicente consiste de um batólito de aproximadamente 400 km², situa-se na porção
centro sul do estado de Mato Grosso e compõe a serra homônima, localizada a aproximadamente 80 km
da capital do estado, Cuiabá. Ocorre associado a Faixa Paraguai, um cinturão de dobramentos de idade
neoproterozoica, em formato convexo, que se destaca na parte central da América do Sul, bordejando o
Cráton Amazônico (Almeida & Hasui 1984). Foi inicialmente descrito por Almeida (1954) que destacou
seu caráter tardi-cinemático com respeito a evolução estrutural da Faixa Paraguai. Em trabalhos de cunho
petrogenético e geocronológico, Godoy et al. (2007 e 2010) relacionam o Granito São Vicente como parte
da Província Granítica Brasiliana, que seria composta pelas seguintes intrusões: no Mato Grosso do Sul,
Granitos Rio Negro, Taboco, Coxim e Sonora; no Mato Grosso, Granitos São Vicente, Lajinha e
Araguaiana.
O Parque Estadual Águas Quentes (PEAQ) abrange parte da porção sudeste do batólito. No
referido parque foram genericamente descritas rochas porfiríticas de matriz fina, classificadas por
McGee et al. (2012) como riolito porfirítico. Além disso, Godoy et al. (2007) reconhecem uma
predominância de fácies equigranulares finas a porfiríticas na porção sudeste do batólito. No entanto,
são inexistentes estudos faciológicos de detalhe que venham a permitir uma melhor caracterização das
fácies de granulação fina do Granito São Vicente, embora a ocorrência de rochas vulcânicas nesta
região já tenha sido reportada informalmente.
Em trabalhos de campo preliminares realizados para este estudo, foram identificados riolitos
porfiríticos no PEAQ que despertaram o interesse em investigar a origem dessas rochas e
consequentemente avançar nas discussões referentes a um possível evento vulcânico na região. Idades
de cristalização U-Pb mostram valores de 521±8 Ma (Ferreira, 2009), 504±9 Ma (Godoy et al., 2010)
e 518±4 Ma (McGee et al., 2012) para o Granito São Vicente. Com este intuito, o presente trabalho
está concentrado no estudo faciológico das rochas do Granito São Vicente na região do PEAQ, e
complementado por estudos litoquímicos e geocronológicos U-Pb em zircões, que venham a contribuir
para o entendimento da afinidade geoquímica do granito, suas fontes, idade de cristalização e
contextualização geotectônica.
1
Trivelli, G. G. B. 2016. Petrografia, Litoquímica e Geocronologia (U-Pb) das rochas hipabissais do Granito São
Vicente na região do Parque Estadual Águas Quentes, Mato Grosso.
I.1.2. Localização e vias de acesso
A área objeto deste estudo situa-se na porção centro sul do estado de Mato Grosso, inserida
entre a Folha Cuiabá (SF. 21-Z-C) e a Folha Dom Aquino (SF. 21-Z-D) na serra de São Vicente,
município de Cuiabá (Fig. I.1).
O acesso, a partir da cidade de Cuiabá, é feito pela BR 364, percorrendo aproximadamente 80
km, de onde se toma a MT 455, estrada de acesso ao Hotel Mato Grosso Águas Quentes, por mais 10
km até a área. O trajeto em geral é feito por estradas asfaltadas, em bom estado de conservação, e
alguns trechos por estradas sem pavimentação asfáltica e vicinais que interligam as fazendas.
Figura I.1 Mapa de localização e vias de acesso da área de estudo.
2
Trivelli, G. G. B. 2016. Petrografia, Litoquímica e Geocronologia (U-Pb) das rochas hipabissais do Granito São
Vicente na região do Parque Estadual Águas Quentes, Mato Grosso.
I.1.3. Objetivos
Com o presente projeto temos como objetivo principal o estudo faciológico e genético
detalhado das rochas vulcânicas e hipabissais da região da serra São Vicente, Estado de Mato Grosso,
com a finalidade de contribuir para o entendimento do evento magmático granítico.
Os objetivos específicos do estudo petrogenético das rochas da região do Parque Estadual
Águas Quentes na serra de São Vicente, Mato Grosso, podem ser sumarizados em:

Cartografia das fácies do Granito São Vicente na região do Parque Estadual Águas Quentes;

Caracterização petrográfica, com o intuito de identificar as texturas vulcânicas indicativas de
processos geológicos de geração e identificação de minerais indicativos dos processos
genéticos do magma gerador;

Investigação da petrogênese das rochas para o entendimento do caráter geoquímico do magma
e posicionamento geotectônico, com a utilização de dados litogeoquímicos (elementos
maiores, traços e terras raras);

Obtenção da idade de cristalização do magma através da datação segundo o método U-Pb em
zircões por SHRIMP;

Integração com dados geoquímicos e geocronológicos disponíveis na literatura sobre
unidades magmáticas da região, buscando estabelecer a conexão genética, ou a ausência, das
rochas hipabissais com as demais unidades;

Integração com dados geológicos regionais disponíveis na literatura, com o intuito de
posicionar as rochas vulcânicas no contexto geotectônico da área e definir a sequência
temporal dos eventos de magmatismo da região.
I.1.4. Métodos de pesquisa
Para a realização desse trabalho, foram adotados procedimentos usuais em mapeamento
geológico e coleta de amostras para análises laboratoriais seguindo um cronograma constituído de
quatro fases principais: etapa preliminar, etapa de coleta de dados (em campo e em laboratório), etapa
de tratamento e sistematização de dados e etapa de conclusão com divulgação dos resultados.
I.1.4.1. ETAPA PRELIMINAR
Esta etapa preliminar que precede às fases de coleta de dados de campo e laboratório,
executou-se da seguinte forma:
3
Trivelli, G. G. B. 2016. Petrografia, Litoquímica e Geocronologia (U-Pb) das rochas hipabissais do Granito São
Vicente na região do Parque Estadual Águas Quentes, Mato Grosso.
- Revisão bibliográfica: compilação e organização de dados referentes à área de estudo e
assuntos pertinentes ao tema do trabalho, disponíveis na literatura a partir de fontes como relatórios
internos, artigos científicos da plataforma de periódicos da CAPES, livros, resumos e trabalhos
completos publicados em anais de eventos.
- Digitalização dos mapas-base na escala (1:50.000);
-Confecção de um banco de dados preliminar utilizando-se o software ArcMap;
- Interpretação de imagens de satélite Landsat sobreposta a imagens SRTM.
I.1.4.2. ETAPA DE COLETA DE DADOS
Trabalhos de Campo
Mapeamento geológico sistemático na escala de 1:50.000
Os trabalhos de campo foram realizados em duas etapas. A primeira ocorreu nos dias 15 e 16
de maio de 2014 para o reconhecimento da área e de alguns afloramentos. A segunda etapa se deu
entre os dias 27 a 29 de novembro de 2014, completando a descrição de 45 afloramentos e o
conhecimento das fácies litológicas e a coleta de trinta amostras para melhor representar cada fácies
(Fig.I.2). Essas amostras possibilitaram a confecção das seções delgadas utilizadas nas análises
petrográficas, além das investigações litogeoquímicas e geocronológicas.
4
Trivelli, G. G. B. 2016. Petrografia, Litoquímica e Geocronologia (U-Pb) das rochas hipabissais do Granito São
Vicente na região do Parque Estadual Águas Quentes, Mato Grosso.
Figura I.2. Mapa de localização dos afloramentos da área estudada.
Trabalhos em Laboratório
Análises Petrográficas
As amostras coletadas nas etapas de campo foram descritas macroscopicamente considerando
os aspectos texturais e composicionais. As seções delgadas para estudos petrográficos sob luz
transmitida foram confeccionadas no Laboratório de Laminação do Departamento de Recursos
Minerais (DRM-UFMT). A atividade de descrição das lâminas visou à caracterização petrográfica e
permitiu a identificação dos constituintes vulcânicos, texturas diagnósticas, a confirmação da variação
5
Trivelli, G. G. B. 2016. Petrografia, Litoquímica e Geocronologia (U-Pb) das rochas hipabissais do Granito São
Vicente na região do Parque Estadual Águas Quentes, Mato Grosso.
faciológica, classificação da rocha e a seleção de amostras representativas para estudos geoquímicos e
geocronológicos.
As fotomicrografias das seções delgadas foram obtidas com polarizadores cruzados e
paralelos, utilizando uma câmera acoplada ao microscópio, da marca Lumenera, modelo Infinity 1
Capture.
Análises Litoquímicas
Para as análises litoquímicas foram estudados os resultados de 13 amostras do Granito São
Vicente. Com base nisso, escolheu-se 5 exemplares da Fácies Sienogranito, 4 da Fácies Aplito
Porfirítico, 1 da Fácies Microgranito e 3 da Fácies Riolito Porfirítico. Essas amostras foram lavadas
para a remoção de impurezas e cortadas com serra diamantada para a retirada das camadas alteradas a
fim de evitar a contaminação química. A preparação envolveu a britagem, pulverização,
homogeneização e quarteamento no Laboratório de Preparação de Amostras – DRM-UFMT.
Posteriormente, as amostras processadas foram enviadas ao Acme Analytical Laboratories (Acmelab)Vancouver/ Canadá para análises através dos métodos ICP-ES (Inductively Inductively Coupled
Plasma Emission Spectrometry) para elementos maiores e menores (SiO2, Al2O3, Fe2O3t, MnO,
CaO, Na2O, K2O, TiO2, e P2O5) e ICP-MS (Inductively Coupled Plasma Mass Spectrometry) para
elementos traço (Ba, Be, Co, Cs, Ga, Hf, Nb, Rb, Sr, Ta, Th, U, Zr, Y e Pb) incluindo terras raras (La,
Ce, Pr, Nd, Sm, Eu, Gd, Tb, Dy, Ho, Er, Tm, Yb e Lu).
O tratamento dos dados de química de rocha contou com a utilização do software GCDkit 4.1.
A interpretação dos resultados das análises buscou a caracterização geoquímica, a natureza do
magmatismo e sua ambiência tectônica.
Análises Geocronológicas
Na análise geocronológica empregou-se o método de datação U/Pb (SHRIMP) em zircões da
amostra GT-01, que corresponde a rocha da Fácies Riolito Porfirítico, com o intuito de estabelecer as
idades de cristalização das rochas do Granito São Vicente. Inicialmente, a amostra de rocha bruta
escolhida foi triturada em britador de mandíbula, moída em moinho de discos no Laboratório
Intermediário de Preparação de amostras da Rede Geochronos – DRM/UFMT, em seguida peneirada
nas frações 250, 210, 177, 125, 90, e 63 mm, utilizando o concentrado das frações de 90 e 63 mesh
para separação magnética por meio de um íma. A amostra foi submetida a um processo de decantação
dos minerais pesados (bateia) e o concentrado de minerais pesados foi depositado no separador
magnético Frantz, onde acontece a dissociação da fração menos magnética. Do material resultante, foi
separada manualmente, com o auxílio de lupa óptica binocular, 120 cristais de zircão, que foram
enviados para o laboratório do Centro de Pesquisas Geocronológicas do Instituto de Geociências da
Universidade de São Paulo (CPGeo-IGC/USP). Nesse laboratório, foram obtidos em zircão os dados
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Trivelli, G. G. B. 2016. Petrografia, Litoquímica e Geocronologia (U-Pb) das rochas hipabissais do Granito São
Vicente na região do Parque Estadual Águas Quentes, Mato Grosso.
isotópicos U-Pb (SHRIMP) através de do equipamento SHRIMP II (Sensitive High Resolution Ion
Microprobe),um espectrômetro de massa de alta resolução que utiliza ionização por íons de oxigênio
(negativo) acoplado a uma microssonda iônica, que permite efetuar análises isotópicas de U e Pb de
zircão “in situ” e, portanto, a datação de zircão que apresente multifases de crescimento.
As idades foram calculadas utilizando-se o programa ISOPLOT/EX de Ludwig (2003).
I.1.5. ETAPA DE TRATAMENTO E SISTEMATIZAÇÃO DE DADOS
Esta etapa compõe-se das seguintes ações: elaboração e ilustração de gráficos utilizando-se de
softwares de tratamento de imagens; tratamento dos dados de química de rocha com a utilização do
software GCDKit 3.0; tratamento dos dados isotópicos com emprego do software ISOPLOT/EX de
Ludwig (2001); e a integração dos dados obtidos através de um banco de dados empregando softwares
de geoprocessamento, editor de textos e de criação de planilhas.
I.1.6. ETAPA DE CONCLUSÃO E DIVULGAÇÃO DOS RESULTADOS
A etapa de Conclusão e Divulgação dos resultados consistiu na elaboração da dissertação de
mestrado que inclui o artigo a ser submetido na revista “Geologia USP”. Nesta etapa foram utilizados
os mesmos softwares descritos na etapa de tratamento e sistematização de dados obtidos. Entre outras
ações desenvolvidas nesta etapa destacam-se a participação em eventos de divulgação científica (III
Seminário do Programa de Pós-Graduação em Geociências, VI Mostra da Pós-Graduação, VI
Simpósio de Vulcanismo e Ambientes Associados e VII Mostra da Pós-Graduação) que ocorreram
durante a execução e desenvolvimento deste trabalho.
I.2.CONTEXTO GEOLÓGICO REGIONAL
O Granito São Vicente faz parte da Província Granítica Brasiliana (PGB) de Godoy et
al. (2004, 2007) ou da Província Granitoide Matogrossense de Godoy et al. (2010). Esta
província é constituída por granitoides sin- a pós-tectônicos de idades brasilianas e intrusivos
nas rochas metassedimentares do Grupo Cuiabá, Faixa Paraguai. A PGB distribue-se desde a
porção central do estado de Mato Grosso do Sul, centro sul e leste de Mato Grosso (Fig. I.3) e
são individualizados em granitos: Taboco; Rio Negro; Coxim; Sonora; São Vicente; Lajinha e
Araguaiana.
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Trivelli, G. G. B. 2016. Petrografia, Litoquímica e Geocronologia (U-Pb) das rochas hipabissais do Granito São
Vicente na região do Parque Estadual Águas Quentes, Mato Grosso.
Figura I.3. Mapa geológico simplificado da Faixa Paraguai ilustrando a distribuição dos granitoides da
Província Granítica Brasiliana (extraído de Godoy et al., 2007).
A Faixa Paraguai (FP) consiste de um cinturão de dobramentos de aproximadamente
1200 km de extensão e se destaca, na parte central da Plataforma Sul Americana, por sua
orientação preferencial N-S na sua porção sul, infletindo para NE e E na porção norte e leste.
É parcialmente encoberta pelos sedimentos da Bacia do Paraná na sua borda leste e bordeja o Cráton
Amazônico (Fig. I.4) a oeste (Almeida e Hasui, 1984).
Alvarenga et al. (2000) distinguem três unidades litoestratigráficas principais na FP, além dos
granitoides pós-orogênicos. A unidade inferior é constituída por camadas glaciomarinhas e turbiditos
glaciais, incluindo a Formação Puga e os grupos Jacadigo e Boqui, depositados sobre a área cratônica,
e o Grupo Cuiabá constituindo o cinturão de dobramentos. A Formação Puga consiste
dominantemente de diamictitos (associados com conglomerados, arenitos, siltitos e folhelhos) que
transicionam para diamictitos de granulometria mais fina do Grupo Cuiabá. Essas unidades
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Trivelli, G. G. B. 2016. Petrografia, Litoquímica e Geocronologia (U-Pb) das rochas hipabissais do Granito São
Vicente na região do Parque Estadual Águas Quentes, Mato Grosso.
glaciogênicas estão sobrepostas por uma unidade carbonática que marca o fim da influência glacial na
bacia. A unidade carbonática é constituída por calcários com fósseis indicativos de idade Vendiana,
dolomitos, conglomerados, folhelhos carbonosos, arenitos e pelitos. Na porção sul da FP, estão
agrupados nos grupos Corumbá, Murcielago e Itapucumi enquanto na porção norte recebe a
denominação de Formação Araras. A unidade superior é denominada de Grupo Alto Paraguai e
consiste de sedimentos siliciclásticos como arenitos, folhelhos, siltitos e arcóseos, subdivididos nas
formações Raizama e Diamantino. O padrão metamórfico e estrutural da FP indica que a intensidade
do metamorfismo aumenta da área cratônica para o interior do cinturão de dobramentos, segundo uma
fase principal de deformação, com dobras isoclinais na porção leste e abertas na porção oeste, com
vergência para oeste (Alvarenga et al., 2000).
Os granitoides da Faixa Paraguai são intrusivos na zona estrutural interna. Godoy et al. (2004,
2007) e Manzano (2009) dividem os granitoides brasilianos da FP em dois grandes eventos
denominados de suítes magmáticas sul e norte. A suíte magmática sul é constituída pelos granitoides
que afloram no estado de Mato Grosso do Sul, sendo, na parte setentrional os granitos Sonora e Coxim
e na parte meridional os granitos Rio Negro e Taboco (Godoy et al. 2005a e 2005b). A suíte
magmática norte é composta por intrusões de dimensões batolíticas que afloram no Estado do Mato
Grosso e são denominadas de oeste para leste de São Vicente, Lajinha e Araguaiana. Essa província
magmática neoproterozóica representa um importante registro da evolução tectonomagmática sin a
pós-cinemática do sudeste mato-grossense.
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Trivelli, G. G. B. 2016. Petrografia, Litoquímica e Geocronologia (U-Pb) das rochas hipabissais do Granito São
Vicente na região do Parque Estadual Águas Quentes, Mato Grosso.
Figura I.4. Mapa geológico esquemático do Cráton Amazônico e a correlação com a Faixa de Dobramento
Paraguai (modificado de Alvarenga & Trompette, 1993; Trompette & Alvarenga, 1998 e Ruiz et al., 1999).
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Trivelli, G. G. B. 2016. Petrografia, Litoquímica e Geocronologia (U-Pb) das rochas hipabissais do Granito São
Vicente na região do Parque Estadual Águas Quentes, Mato Grosso.
O Granito Taboco foi descrito primeiramente por Corrêa et al. (1976) referindo ao corpo de
rochas graníticas pós-cinemáticas. As rochas deste corpo afloram em estreita faixa na margem direita
do Rio Taboco (MS) e estão alojadas em filitos do Grupo Cuiabá. O Granito Taboco é constituído por
monzogranitos de cor rósea avermelhada e cinza-clara, predominando as fácies porfiríticas.
Apresentam fenocristais de feldspato potássico imersos em matriz de granulação média, geralmente
isotrópicas e apresenta para a zona marginal do corpo uma borda de resfriamento de granulação fina
(Godoy et al., 2007 e Manzano, 2009).
O Granito Rio Negro, também definido por Corrêa et al. (1976), apresenta estruturas
dominantemente isotrópicas, mas localmente verificam-se rochas fortemente cataclásticas. Neste
corpo foram identificadas quatro fácies principais representadas por monzogranitos, biotita
monzogranitos, granodioritos e quartzo monzonitos de granulação grossa a média e cor variando do
esbranquiçado ao cinza-escuro, inequigranulares porfiríticas.
A denominação de Granito Coxim também deve-se a Corrêa et al. (1976). Lacerda Filho et al.
(2006) o caracterizaram como uma intrusão fissural pós-orogenética. As rochas deste corpo
correspondem dominantemente a sieno e monzogranitos leucocráticos de coloração avermelhada,
inequigranulares de granulação fina a grossa. Em alguns tipos porfiríticos ocorrem fenocristais de
feldspato potássico de até 5,0 mm. Em geral são isotrópicos, mas termos cataclásticos estão também
presentes. Localmente, como mega enclaves ocorrem granodioritos, isotrópicos, de cor rósea cinza,
textura granular e granulação média (Godoy et al., 2007 e Manzano 2009).
O Granito Sonora (Godoy et al., 2005b) é composto por sienogranitos leucocráticos de
coloração vermelha, inequigranulares, granulação média a fina, isotrópicos a localmente cataclásticos.
No estado de Mato Grosso, o Granito Araguaiana, inicialmente descrito por Barros et al.
(1982) e posteriormente por Sousa et al.(1999) e Ruiz et al.(1999), é composto por rochas de cor
rósea, granulação média, composição quarzto-feldspática, textura porfirítica, localmente rapakivi e por
vezes inequigranulares em aplitos e pegmatoides. O Granito Lajinha, também descrito primeiramente
por Barros et al. (1982) e depois por Sousa et al. (1999) e Ruiz et al.(1999), é constituido por sieno a
monzogranitos, isotrópicos a fracamente deformados, compostos por microclinio, quartzo,
plagioclásio com alteração proeminente (saussuritização), biotita, zircão, apatita, titanita e minerais de
alteração como epidoto, clorita e sericita. Este apresenta estrutura semicircular, e se diferencia do
Granito Araguaiana principalmente pelo caráter isotrópico, ausência de anfibólio e a sua textura
variando de inequigranular a discretamente porfirítica.
O Granito São Vicente é o batólito intrusivo nas rochas do Grupo Cuiabá que ocupa uma área
de aproximadamente 400 km². Foi inicialmente descrito por Almeida (1954) como uma intrusão de
caráter tardicinemático. É constituído, segundo Godoy et al. (2007), por biotita granitos e muscovita11
Trivelli, G. G. B. 2016. Petrografia, Litoquímica e Geocronologia (U-Pb) das rochas hipabissais do Granito São
Vicente na região do Parque Estadual Águas Quentes, Mato Grosso.
biotita granitos, sendo possível a individualização inicial de quatro fácies texturais: a fácies
equigranular grossa a porfirítica, tendo a sua maior expressão em faixa circunscrita às bordas de
contato; a fácies porfirítica de matriz média a equigranular média, ocupando a zona central do corpo; a
fácies equigranular fina a porfirítica, distribuída na região sudeste do batólito; e a fácies pegmatítica
restrita à zona noroeste do maciço. São rochas isotrópicas, inequigranulares, leucocráticas, de
coloração rósea ou localmente cinza, de granulação fina a grossa e/ou porfirítico, rapakivi ou não,
localmente cataclástico.
Na localidade de Águas Quentes, Olivatti e Marques (1972) descrevem uma intrusão
hipoabissal com área próxima à borda ou cúpula, composta por cinco litotipos, adamelitos pórfiros,
microadamelitos porfiríticos, adamelitos grosseiros, delenitos (riodacitos) e cataclasitos.
Os granitoides da PGB são quimicamente classificados por Godoy et al. (2007) como granitos
cálcio-alcalinos potássicos a alto potássio, peraluminosos a metaluminosos, com assinaturas
geoquímicas compatíveis com granitos tipo-I. Estes autores observam uma dominância de rochas
menos diferenciadas na parte sul e mais evoluídos na parte norte. Com base nos dados litoquímicos,
Godoy et al. (2007) atribuem um caráter compatível com granitos sin-colisionais para a parte sul, com
exceção do Granito Rio Negro, de caráter pré-colisional. Na parte norte os autores reconhecem uma
afinidade com granitos sin-colisionais para o Granito Araguaiana e pós-colisional intraplaca para os
granitos São Vicente e Lajinha.
Dados isotópicos indicam idades K-Ar em biotita de 503 Ma (Hasui & Almeida, 1970) e RbSr em rocha total de 500±15 Ma e 483±8 Ma (Almeida & Mantovani, 1975) para o Granito São
Vicente. Idades de cristalização U-Pb mostram valores de 521±8 Ma (Ferreira, 2009), 504±9 Ma
(Godoy et al., 2010) e 518±4 Ma (McGee et al., 2012) para o Granito São Vicente. Os demais
granitoides da FP possuem idades de cristalização U-Pb de 540±5 Ma (Granito Taboco), 547±5 Ma
(Granito Rio Negro), 540±4 Ma (Granito Coxim), 505±4 Ma (Granito Lajinha), 509±2 Ma (Granito
Araguaiana) e 548±6 Ma (Granito Sonora) (Godoy et al., 2010).
Com base nos dados isotópicos, Godoy et al. (2010) individualizam dois eventos magmáticos
para os granitoides da Província Granitoide Matogrossense, sendo a do sul, mais antiga e a do norte,
em torno de 30 Ma mais jovem. Estes autores assumem que os granitoides da porção sul (Mato Grosso
do Sul) foram gerados em ambiente sin-colisional de arco continental. Os granitoides da porção norte
(Mato Grosso) tem seu posicionamento atribuído a ambiente tardi- a pós-colisional ou de
descompressão durante a finalização do processo colisional. Esses autores assumem que o evento
magmático mais jovem é o resultado do último evento orogenético acrescionário da Faixa Paraguai.
McGee et al. (2012) afirma que a idade de 518±4 Ma do Granito São Vicente representa a
idade mínima para deformação e metamorfismo da porção norte da Faixa Paraguai e
consequentemente a idade de acresção final do Supercontinente Gondwana na América do Sul.
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Trivelli, G. G. B. 2016. Petrografia, Litoquímica e Geocronologia (U-Pb) das rochas hipabissais do Granito São
Vicente na região do Parque Estadual Águas Quentes, Mato Grosso.
A tabela I.1 apresenta uma síntese de dados encontrados em Hasui & Almeida (1970), Almeida &
Mantovani (1975), Ferreira (2009), Godoy et al. (2010), McGee et al. (2012). Contém alguns dos
resultados de análises geocronológicas obtidos pelos métodos, K-Ar em biotitas, Rb-Sr em rocha total
e U-Pb (SHRIMP) em zircões.
Tabela I.1.. Síntese a partir da literatura sobre dados geocronológicos do Granito São Vicente.
Granito São Vicente
Unidade
Método
Idade (Ma)
Referências
K- Ar em biotita
503 Ma
Hasui & Almeida (1970)
Rb-Sr em rocha total
500 ± 15 Ma
Almeida & Mantovani (1975)
Rb-Sr em rocha total
483± 8 Ma
Almeida & Mantovani (1975)
U-Pb
521 ± 8 Ma
Ferreira (2009)
U-Pb
504± 9 Ma
Godoy et al. (2010)
U-Pb
518± 4 Ma
McGee et al. (2012)
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Trivelli, G. G. B. 2016. Petrografia, Litoquímica e Geocronologia (U-Pb) das rochas hipabissais do Granito São
Vicente na região do Parque Estadual Águas Quentes, Mato Grosso.
CAPÍTULO II
GEOLOGIA LOCAL E PETROGRAFIA
II.1. GEOLOGIA DO GRANITO SÃO VICENTE NA REGIÃO DAS
ÁGUAS QUENTES
O Granito São Vicente observado na porção do Parque Estadual Águas Quentes ocorre em lajedos,
matacões in situ e blocos rolados, sem continuidade lateral. O estudo geológico realizado possibilitou
identificar, através de dados de campo e estudos macro e microscópicos, quatro fácies petrográficas,
todas indeformadas, identificadas a partir de diferenças de granulação, textura e cor. São denominadas:
Fácies Sienogranito grosso, Fácies Aplito Porfirítico, Fácies Microgranito e Fácies Riolito Porfirítico
(Fig. II.1).
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Trivelli, G. G. B. 2016. Petrografia, Litoquímica e Geocronologia (U-Pb) das rochas hipabissais do Granito São
Vicente na região do Parque Estadual Águas Quentes, Mato Grosso.
Figura II.1. Mapa faciológico da área de estudo.
II.1.1 Fácies Sienogranito Grosso
Essa fácies é dominante na área de estudo e constituída por sienogranito essencialmente
equigranular grosso a, localmente, inequigranular médio a grosso. São rochas leucocráticas, de cor
rosa, constituídas essencialmente por feldspato alcalino, quartzo, plagioclásio e biotita, com zircão,
apatita e titanita como minerais acessórios (Fig. II.2). Clorita, muscovita, sericita, epidoto, calcita e
argilominerais constituem a paragênese de alteração hidrotermal.
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Trivelli, G. G. B. 2016. Petrografia, Litoquímica e Geocronologia (U-Pb) das rochas hipabissais do Granito São
Vicente na região do Parque Estadual Águas Quentes, Mato Grosso.
Figura II.2. Aspectos macroscópicos da Fácies Sienogranito grosso do Granito São Vicente: (a) e (b) fotografias
das formas de afloramentos em blocos e lajedos; (c) e (d) amostras de sienogranito de granulação média a grossa.
Microscopicamente, os feldspatos alcalinos, representados por ortoclásio e microclina,
perfazem 46% da rocha e ocorrem como grãos anédricos a subédricos, com tamanhos entre 1,5 e 6
mm. Em geral, mostram exsolução de fase sódica configurando textura pertítica (Fig. II.3a) do tipo
stringer e drops. Os processos de alteração observados correspondem a sericitização (Fig. II.3b) e
argilização ocorrendo em menor intensidade do que no plagioclásio. O plagioclásio perfaz 18% da
rocha, sendo identificado como oligoclásio através do método Michel-Levy (Kerr 1959). Apresenta-se
como cristais tabulares euédricos a subédricos, com dimensões entre 0,5 e 5 mm e zonação normal.
Exibe geminações do tipo albita e periclina, que por vezes se combinam (albita+periclina,
albita+Carlsbad). São comuns intensos processos de alteração, tais como argilização, sericitização e,
frequentemente, saussuritização. O quartzo representa 30% da rocha ocorrendo como grãos anédricos
com extinção ondulante característica (Fig. II.3c), dimensões de 0,1 a 4,8 mm e também preenchendo
fraturas. A biotita é o único mineral máfico essencial e perfaz 6% da rocha. Ocorre em pequenas
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Trivelli, G. G. B. 2016. Petrografia, Litoquímica e Geocronologia (U-Pb) das rochas hipabissais do Granito São
Vicente na região do Parque Estadual Águas Quentes, Mato Grosso.
palhetas bem preservadas que variam de 1,0 a 3,0 mm (Fig.II.3d). Os minerais acessórios são
representados pela apatita com hábito acicular, cristais de zircão subédricos a euédricos, titanita em
grãos anédricos, às vezes, formando coroa como borda de reação de opaco e grãos anédricos de
opacos.
Figura II.3. Fotomicrografias das fácies Sienogranito Grosso do Granito São Vicente. Polarizadores cruzados.
(a) textura pertítica e inclusões de quartzo em feldspato alcalino; (b) plagioclásio parcialmente sericitizado; (c)
quartzo com extinção ondulante; (d) palhetas de biotita em contato com cristais de plagioclásio e feldspatos
alcalinos.
II.1.2.Fácies Aplito Porfirítico
A rocha dessa fácies caracteriza-se por uma composição sienogranítica, hololeucocrática de cor rosa
claro. Onde se observam as relações de contato, formam diques de espessura centimétrica em contato
abrupto com a fácies sienogranito grosso (Fig. II.4a). A textura é preferencialmente equigranular fina a
média com fenocristais subédricos de quartzo, feldspato alcalino, e biotita, imersos numa matriz
fanerítica fina a muito fina (Fig. II.4b). Algumas vezes, observa-se uma foliação de fluxo próxima aos
contatos.
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Trivelli, G. G. B. 2016. Petrografia, Litoquímica e Geocronologia (U-Pb) das rochas hipabissais do Granito São
Vicente na região do Parque Estadual Águas Quentes, Mato Grosso.
Figura II.4. Aspectos macroscópicos da Fácies Aplito porfirítico do Granito São Vicente: (a) afloramento
evidenciando diques de aplito em contato abrupto com a rocha da Fácies Sienogranito Grosso; (b) fenocristais
de quartzo e biotita imersos em uma matriz fanerítica fina.
Microscopicamente, as rochas da fácies aplítica são formadas por fenocristais de feldspatos,
plagioclásio (Fig.II.5a) e biotita (Fig.II.5b) que se apresentam subédricos a anédricos com dimensões
entre 2,5 e 5,5 mm, perfazendo 15% do total da rocha. Estão inseridos numa matriz quartzo feldspática
de textura equigranular hipidiomórfica (Fig. II.5c) com grãos em torno 0,5mm. O quartzo representa
60 % da rocha com grãos subédricos e arredondado 0,1 a 1,0mm. Os cristais de plagioclásio compõem
20% da rocha, normalmente estão zonados, possuem macla albita/periclina e carlsbad, e composições
compatíveis com oligoclásio (Fig. II.5d). As dimensões variam de 0,3 mm na matriz até 4,8 mm como
fenocristais. Os felspatos alcalinos são representados por ortoclásio e microclina, somando 17% da
rocha, com tamanho de aproximadamente 0,3 mm na matriz e fenocristais de 5,5 mm, por vezes
pertítico. A biotita é o mineral máfico essencial e compõem 3% da rocha. Apatita e zircão são os
minerais acessórios e os de alteração são muscovita, epidoto e minerais opacos.
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Trivelli, G. G. B. 2016. Petrografia, Litoquímica e Geocronologia (U-Pb) das rochas hipabissais do Granito São
Vicente na região do Parque Estadual Águas Quentes, Mato Grosso.
Figura II.5. Fotomicrografias da Fácies Aplito Porfirítico. Polarizadores cruzados. (a) fenocristal de plagioclásio
na matriz quartzo feldspática; (b) fenocristal de biotita na matriz quartzo feldspática; (c) matriz quartzo
feldspática com textura equigranular; (d) plagioclásios maclados.
II.1.3. Fácies Microgranito
Essa fácies ocorre restrita a um afloramento que apresenta um caráter horizontalizado
(Fig. II.6a). Consiste de uma rocha de cor roxa, textura microporfirítica com microfenocristais
anédricos a subédricos de quartzo (Fig. II.6b) e feldspato alcalino com dimensões entre 0,2
mm e 1,8 mm.
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Trivelli, G. G. B. 2016. Petrografia, Litoquímica e Geocronologia (U-Pb) das rochas hipabissais do Granito São
Vicente na região do Parque Estadual Águas Quentes, Mato Grosso.
Figura II.6. Aspectos macroscópicos da Fácies Microgranito do Granito São Vicente: (a) afloramento horizontal
do microgranito ; (b) microfenocristais de quartzo imersos em uma matriz muito fina.
Estão imersos em uma matriz fanerítica muito fina quartzo feldspática (Fig. II.7a) que
corresponde a 50% da rocha com frequente textura micrográfica (Fig. II.7b).
Os grãos de quartzo representam 75% da rocha comumente representados pelos
microfenocristais, na forma de grãos subédricos de 0,5 a 1,5mm de dimensão. O feldspato alcalino,
representado pelo ortoclásio, compõe 20% da rocha. Ocorre na matriz e como fenocristais com hábito
subédrico a anédrico, dimensões entre 1,0 e 1,8 mm, alterado para sericita e argilominerais. O
plagioclásio encontra-se intensamente alterado evidenciando processos de sericitização, argilização e
saussuritização. A muscovita ocorre como mineral de alteração forma de palhetas de 0,2 a 0,6 mm.
Figura II.7. Fotomicrografias da Fácies Microgranito. Polarizadores cruzados. (a) textura porfirítica; (b) matriz
fanerítica muito fina com textura micrográfica.
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Trivelli, G. G. B. 2016. Petrografia, Litoquímica e Geocronologia (U-Pb) das rochas hipabissais do Granito São
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II.1.4.Fácies Riolito Porfirítico
Essa fácies ocorre localmente, restrita ao balneário do Parque Estadual Águas
Quentes, e consiste de uma rocha de cor rosa a roxa com textura porfirítica (Fig. II.8a)
marcada por fenocristais subédricos de feldspato alcalino, quartzo plagioclásio e biotita em
uma matriz afanítica a fanerítica muito fina (Fig. II.8b).
Figura II.8. Aspectos macroscópicos da Fácies Riolito porfirítico do Granito São Vicente: (a) afloramento em
forma de lajedo caracterizando textura porfirítica; (b) fenocristais feldspato alcalino e quartzo imersos em uma
matriz afanítica.
Microscopicamente,
apresenta
textura
porfirítica
(Fig.
II.9a)
e
localmente
glomeroporfirítica (Fig. II.9b) com fenocristais de quartzo, feldspato alcalino, plagioclásio
que perfazem um total de 40% da rocha. Apresentam-se subédricos a anédricos com
evidências de corrosão magmática nas bordas (Fig. 3h) e dimensões entre 1,0 e 6,0 mm,
imersos numa matriz fina de composição felsítica. O quartzo ocorre na matriz e como
fenocristais arredondados com dimensões de 1,0 a 6,0 mm, por vezes embaiados (Fig. II.9c) e
com corrosão de borda (Fig. II.9d). O feldspato alcalino é representado pelo ortoclásio, ocorre
com hábito subédrico a anédrico, dimensões entre 1,0 e 5,5 mm, comumente alterado para
sericita e argilominerais (Fig. II.9e). O plagioclásio compõem 18% da rocha, é classificado
como oligoclásio e ocorre como fenocristais subédricos de hábito tabular de 0,2 a 4,5 mm,
geminação albita/periclina, combinadas com Carlsbad, por vezes, formando glômeros. A
alteração é proeminente e evidencia processos de sericitização, argilização, saussuritização e
epidotização. A biotita é o único mineral máfico essencial ocorrendo sob a forma de pequenas
palhetas, parcialmente alterada para clorita (Fig. II.9f). Os minerais acessórios e de alteração
são representados por zircão, epidoto, clorita, muscovita, sericita e argilominerais.
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Trivelli, G. G. B. 2016. Petrografia, Litoquímica e Geocronologia (U-Pb) das rochas hipabissais do Granito São
Vicente na região do Parque Estadual Águas Quentes, Mato Grosso.
Figura II.9. Fotomicrografias da fácies riolito porfirítico. Polarizadores cruzados. (a) textura porfirítica; (b)
textura glomeroporfirítica; (c) embaiamento de quartzo; (d) borda de corrosão no quartzo; (e) relação matriz e
fenocristais; (f) matriz quartzo feldspática e alteração da biotita para clorita.
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Trivelli, G. G. B. 2016. Petrografia, Litoquímica e Geocronologia (U-Pb) das rochas hipabissais do Granito São
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CAPÍTULO III
ARTIGO PARA SUBMISSÃO À REVISTA DE GEOLOGIA USP
GEOLOGIA E PETROLOGIA DAS ROCHAS HIPABISSAIS DO GRANITO SÃO
VICENTE NA REGIÃO DO PARQUE ESTADUAL ÁGUAS QUENTES, MATO
GROSSO.
Giulia Guimarães Barbosa Trivelli1,2,3, Ronaldo Pierosan1,2, Amarildo Salina Ruiz1,2,3
1 – Programa de Pós-Graduação em Geociências, Faculdade de Geociências, Universidade
Federal de Mato Grosso, Brasil.
2 – Grupo de Pesquisa em Evolução Crustal e Tectônica – Guaporé, Faculdade de
Geociências, Universidade Federal de Mato Grosso, Brasil.
3 – Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia de Geociências da Amazônia – GEOCIAM,
Universidade Federal do Pará, Brasil.
RESUMO
A análise petrogenética das rochas hipabissais do Granito São Vicente na região do Parque
Estadual Águas Quente, estado de Mato Grosso, permitiu o reconhecimento e caracterização
de fácies distintas para o corpo. Os critérios petrográficos indivualizaram quatro fácies
isotrópicas: sienogranito grosso, caracterizado por rochas de textura equigranular a localmente
inequigranular leucocráticas; aplito porfirítico composto de rochas de textura inequigranular
fina a média com fenocristais, leucocráticas e de composição sienogranítica; microgranito que
consiste de uma rocha com textura microporfirítica com microfenocristais imersos numa
matriz fanerítica quartzo feldspática muito fina, com frequente textura micrográfica; e a fácies
riolito porfirítico que consiste de uma rocha com textura porfirítica e glomeroporfirítica em
uma matriz afanítica a fanerítica muito fina característica de intrusões hipabissais. O padrão
de distribuição dos elementos terras raras indica um forte fracionamento de ETR leves, com
razões LaN/SmN médias de 7,87, anomalia negativa de Eu (Eu/Eu* ~0,38) e enriquecimento
de ETR pesados, expressos por razões GdN/YbN menores que a unidade (~0,82). A
distribuição dos elementos em diagramas binários e as anomalias negativas em diagramas
multielementos indicam atuação de processos de cristalização fracionada de fases minerais
como plagioclásio, biotita, apatita e zircão, para as fácies sienogranito e aplito. Análises U-Pb
(SHRIMP) em zircão mostram uma idade de 528±4 Ma para o riolito porfirítico, considerada
idade de cristalização magmática. Sugere-se então que o magma que originou as rochas
plutônicas e vulcânicas do Granito São Vicente na região estudada pode ter se originado de
fontes litosféricas previamente afetadas por subducção com contribuição de fontes
astenosféricas.
Palavras-chave: U-Pb SHRIMP; Faixa Paraguai; Geoquímica
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Trivelli, G. G. B. 2016. Petrografia, Litoquímica e Geocronologia (U-Pb) das rochas hipabissais do Granito São
Vicente na região do Parque Estadual Águas Quentes, Mato Grosso.
ABSTRACT
The petrogenesis of the hypabissal rocks of the São Vicente Granite on the region of the
Águas Quentes State Park, south-central region of Mato Grosso state, allowed the recognition
and characterization of distinct facies for the granite main body. The petrographic procedure
allowed the recognition of four genetic and petrographical facies: coarse syenogranite
consisting of leucocratic, equigranular and locally inequigranular rocks; porphyritic aplite
composed of leucocratic fine to medium grained inequigranular rocks of syenogranitic
composition; microgranite with microporphyritic texture and microphenocrysts within a very
fine grained quartz-feldspatic groundmass and recurrent micrographic texture; and porphyritic
rhyolite, confined to the Águas Quentes State Park balneary, consisting of a porphyritic to
glomeroporphyritic rock with a very fined to aphanitic groundmass, characteristics of
hypabyssal intrusions. This facies association suggests that the study area represent a cupola
level of an epizonal intrusion. The distribution pattern of rare earth elements points to a strong
fractionation of LREE, with average of LaN/SmN ratios of 7.87, negative Eu anomaly
((Eu/Eu* ~0.38) and enrichment of HREE established by Gd N/YbN ratios lower than the unit
(~0.82). The major and trace element distribution on binary diagrams and the negative
anomalies on spidergrams indicate fractional crystallization processes of plagioclase, biotite,
apatite and zircon, to the syenogranite and aplite facies. U-Pb Shrimp dating yield and age of
528±4 Ma to the porphyritic rhyolite, assumed as the crystallization age. Thereafter, is
suggested that the magma source of plutonic and volcanic rocks of São Vicente Granite on the
Águas Quentes State Park region could be derived from subduction related lithospheric
sources mixed with deeper asthenospheric sources.
Keywords: U-Pb SHRIMP; Paraguai Belt; Geochemistry
III.1. INTRODUÇÃO
O Granito São Vicente consiste de um batólito de aproximadamente 400 km², situa-se
na porção centro sul do estado de Mato Grosso e compõe a serra homônima, localizada a
aproximadamente 80 km da capital do estado, Cuiabá. Ocorre associado a Faixa Paraguai, um
cinturão de dobramentos de idade neoproterozoica, em formato convexo, que se destaca na
parte central da América do Sul, bordejando o Cráton Amazônico (Almeida & Hasui 1984).
O Parque Estadual Águas Quentes (PEAQ) abrange parte da porção sudeste do
batólito. No referido parque foram genericamente descritas rochas porfiríticas de matriz fina,
classificadas por McGee et al. (2012) como riolito porfirítico. Olivatti & Marques (1972)
foram os primeiros autores a descreverem rochas efusivas nessa região. Além disso, Godoy et
al. (2007) reconhecem uma predominância de fácies equigranulares finas a porfiríticas na
porção sudeste do batólito. No entanto, são inexistentes estudos faciológicos de detalhe que
venham a permitir uma melhor caracterização das fácies hipabissais do Granito São Vicente.
Em trabalhos de campo preliminares realizados para este estudo, foram identificados riolitos
porfiríticos no PEAQ que despertaram o interesse em investigar a origem dessas rochas e
consequentemente avançar nas discussões referentes a um possível evento vulcânico na
região. Idades de cristalização U-Pb mostram valores de 521±8 Ma (Ferreira, 2009), 504±9
Ma (Godoy et al., 2010) e 518±4 Ma (McGee et al., 2012) para o Granito São Vicente. Com
este intuito, o presente trabalho está concentrado no estudo faciológico das rochas do Granito
São Vicente na região do PEAQ, e complementado por estudos litoquímicos e
geocronológicos U-Pb Shrimp em zircão, que venham a contribuir para o entendimento da
afinidade geoquímica do granito, suas fontes, idade de cristalização e contextualização
geotectônica.
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Trivelli, G. G. B. 2016. Petrografia, Litoquímica e Geocronologia (U-Pb) das rochas hipabissais do Granito São
Vicente na região do Parque Estadual Águas Quentes, Mato Grosso.
III.2. CONTEXTO GEOTECTÔNICO
O Granito São Vicente faz parte da Província Granítica Brasiliana (PGB) de Godoy et
al. (2004, 2007) ou da Província Granitoide Matogrossense de Godoy et al. (2010). Esta
província é constituída por granitoides sin- a pós-tectônicos intrusivos nas rochas
metassedimentares do Grupo Cuiabá, na Faixa Paraguai (Fig.III.1). A PGB distribui-se desde
a porção central do estado de Mato Grosso do Sul, centro sul e leste de Mato Grosso (Fig. 1) e
são individualizados em granitos: Taboco; Rio Negro; Coxim; Sonora; São Vicente; Lajinha e
Araguaiana.
Figura III.1. Mapa geológico simplificado da Faixa Paraguai ilustrando a distribuição dos granitoides da
Província Granítica Brasiliana (extraído de Godoy et al., 2007).
A Faixa Paraguai (FP) consiste de um cinturão de dobramentos de aproximadamente
1200 km de extensão e se destaca, na parte central da Plataforma Sul Americana, por sua
orientação preferencial N-S na sua porção sul, infletindo para NE e E na porção norte e leste.
É parcialmente encoberta pelos sedimentos da Bacia do Paraná na sua borda leste e bordeja o
Cráton Amazônico a oeste (Almeida e Hasui, 1984).
Alvarenga et al. (2000) distinguem três unidades litoestratigráficas principais na FP,
além dos granitoides pós-orogênicos. A unidade inferior é constituída por camadas
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Trivelli, G. G. B. 2016. Petrografia, Litoquímica e Geocronologia (U-Pb) das rochas hipabissais do Granito São
Vicente na região do Parque Estadual Águas Quentes, Mato Grosso.
glaciomarinhas e turbiditos glaciais, incluindo a Formação Puga e os grupos Jacadigo e
Boqui, depositados sobre a área cratônica, e o Grupo Cuiabá constituindo o cinturão de
dobramentos. A Formação Puga consiste dominantemente de diamictitos (associados com
conglomerados, arenitos, siltitos e folhelhos) que transicionam para diamictitos de
granulometria mais fina do Grupo Cuiabá. Essas unidades glaciogênicas estão sobrepostas por
uma unidade carbonática que marca o fim da influência glacial na bacia. A unidade
carbonática é constituída por calcários com fósseis indicativos de idade Vendiana, dolomitos,
conglomerados, folhelhos carbonosos, arenitos e pelitos. Na porção sul da FP, estão
agrupados nos grupos Corumbá, Murcielago e Itapucumi enquanto na porção norte recebe a
denominação de Formação Araras. A unidade superior é denominada de Grupo Alto Paraguai
e consiste de sedimentos siliciclásticos como arenitos, folhelhos, siltitos e arcóseos,
subdivididos nas formações Raizama e Diamantino. O padrão metamórfico e estrutural da FP
indica que a intensidade do metamorfismo aumenta da área cratônica para o interior do
cinturão de dobramentos, segundo uma fase principal de deformação, com dobras isoclinais
na porção leste e abertas na porção oeste, com vergência para oeste (Alvarenga et al., 2000).
Os granitoides da Faixa Paraguai são intrusivos na zona estrutural interna. Godoy et
al. (2004, 2007) e Manzano (2009) dividem os granitoides brasilianos da FP em dois grandes
eventos denominados de suítes magmáticas sul e norte. A suíte magmática sul é constituída
pelos granitoides que afloram no estado de Mato Grosso do Sul, sendo, na parte setentrional
os granitos Sonora e Coxim e na parte meridional os granitos Rio Negro e Taboco (Godoy et
al. 2005a e 2005b). A suíte magmática norte é composta por intrusões de dimensões
batolíticas que afloram no Estado do Mato Grosso e são denominadas de oeste para leste de
São Vicente, Lajinha e Araguaiana.
O Granito Taboco foi descrito primeiramente por Corrêa et al. (1976) referindo ao
corpo de rochas graníticas pós-cinemáticas. As rochas deste corpo afloram em estreita faixa
na margem direita do Rio Taboco (MS) e estão alojadas em filitos do Grupo Cuiabá. O
Granito Taboco é constituído por monzogranitos de cor rósea avermelhada e cinza-clara,
predominando as fácies porfiríticas. Apresentam fenocristais de feldspato potássico imersos
em matriz de granulação média, geralmente isotrópicas e apresenta para a zona marginal do
corpo uma borda de resfriamento de granulação fina (Godoy et al., 2007 e Manzano, 2009).
O Granito Rio Negro, também definido por Corrêa et al. (1976), apresenta estruturas
dominantemente isotrópicas, mas localmente verificam-se rochas fortemente cataclásticas.
Neste corpo foram identificadas quatro fácies principais representadas por monzogranitos,
biotita monzogranitos, granodioritos e quartzo monzonitos de granulação grossa a média e cor
variando do esbranquiçado ao cinza-escuro, inequigranulares porfiríticas.
O Granito Coxim (Corrêa et al., 1976) também foi descrito por Lacerda Filho et al.
(2006) como uma intrusão fissural pós-orogenética. As rochas deste corpo correspondem
dominantemente a sieno e monzogranitos leucocráticos de coloração avermelhada,
inequigranulares de granulação fina a grossa. Em alguns tipos porfiríticos ocorrem
fenocristais de feldspato potássico de até 5,0 mm. Em geral são isotrópicos, mas termos
cataclásticos estão também presentes. Localmente, como mega enclaves ocorrem
granodioritos, isotrópicos, de cor rósea cinza, textura granular e granulação média (Godoy et
al., 2007 e Manzano 2009).
O Granito Sonora (Godoy et al., 2005b) é composto por sienogranitos leucocráticos de
coloração vermelha, inequigranulares, granulação média a fina, isotrópicos a localmente
cataclásticos.
No estado de Mato Grosso, o Granito Araguaiana, inicialmente descrito por Barros et
al. (1982) e posteriormente por Sousa et al.(1999) e Ruiz et al.(1999), é composto por rochas
de cor rósea, granulação média, composição quarzto-feldspática, textura porfirítica,
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Trivelli, G. G. B. 2016. Petrografia, Litoquímica e Geocronologia (U-Pb) das rochas hipabissais do Granito São
Vicente na região do Parque Estadual Águas Quentes, Mato Grosso.
localmente rapakivi e por vezes inequigranulares em aplitos e pegmatoides. O Granito Lajinha
(Barros et al., 1982) foi descrito por Sousa et al. (1999) como constituido por sieno a
monzogranitos, isotrópicos a fracamente deformados, compostos por microclinio, quartzo,
plagioclásio com alteração proeminente (saussuritização), biotita, zircão, apatita, titanita e
minerais de alteração como epidoto, clorita e sericita. Este apresenta estrutura semicircular, e
se diferencia do Granito Araguaiana principalmente pelo caráter isotrópico, ausência de
anfibólio e a sua textura variando de inequigranular a discretamente porfirítica.
O Granito São Vicente é um batólito intrusivo nas rochas do Grupo Cuiabá que ocupa
uma área de aproximadamente 400 km². Foi inicialmente descrito por Almeida (1954) como
uma intrusão de caráter tardicinemático, sendo constituído, segundo Godoy et al. (2007), por
biotita granitos e muscovita-biotita granitos, sendo possível a individualização inicial de
quatro fácies texturais: a fácies equigranular grossa a porfirítica, tendo a sua maior expressão
em faixa circunscrita às bordas de contato; a fácies porfirítica de matriz média a equigranular
média, ocupando a zona central do corpo; a fácies equigranular fina a porfirítica, distribuída
na região sudeste do batólito; e a fácies pegmatítica restrita à zona noroeste do maciço. São
rochas isotrópicas, inequigranulares, leucocráticas, de coloração rósea ou localmente cinza, de
granulação fina a grossa e/ou porfirítico, rapakivi ou não.
Na localidade de Águas Quentes, Olivatti e Marques (1972) descrevem uma intrusão
hipoabissal com área próxima à borda ou cúpula, composta por cinco litotipos, adamelitos
pórfiros, microadamelitos porfiríticos, adamelitos grosseiros, delenitos (riodacitos).
Os granitoides da PGB são quimicamente classificados por Godoy et al. (2007) como
granitos cálcio-alcalinos potássicos a alto potássio, peraluminosos a metaluminosos, com
assinaturas geoquímicas compatíveis com granitos tipo-I. Estes autores observam uma
dominância de rochas menos diferenciadas na parte sul e mais evoluídos na parte norte. Com
base nos dados litoquímicos, Godoy et al. (2007) atribuem um caráter compatível com
granitos sin-colisionais para a parte sul, com exceção do Granito Rio Negro, de caráter précolisional. Na parte norte os autores reconhecem uma afinidade com granitos sin-colisionais
para o Granito Araguaiana e pós-colisional intraplaca para os granitos São Vicente e Lajinha.
Dados isotópicos indicam idades K-Ar em biotita de 503 Ma (Hasui & Almeida, 1970)
e Rb-Sr em rocha total de 500±15 Ma e 483±8 Ma (Almeida & Mantovani, 1975) para o
Granito São Vicente. Idades de cristalização U-Pb em zircão mostram valores de 521±8 Ma
(Ferreira, 2009), 504±9 Ma (Godoy et al., 2010) e 518±4 Ma (McGee et al., 2012) para o
Granito São Vicente. Os demais granitoides da FP possuem idades de cristalização U-Pb de
540±5 Ma (Granito Taboco), 547±5 Ma (Granito Rio Negro), 540±4 Ma (Granito Coxim),
505±4 Ma (Granito Lajinha), 509±2 Ma (Granito Araguaiana) e 548±6 Ma (Granito Sonora)
(Godoy et al., 2010).
Com base nos dados isotópicos, Godoy et al. (2010) individualizam dois eventos
magmáticos para os granitoides da Província Granitoide Matogrossense, sendo a do sul, mais
antiga e a do norte, em torno de 30 Ma mais jovem. Estes autores assumem que os granitoides
da porção sul (Mato Grosso do Sul) foram gerados em ambiente sin-colisional de arco
continental. Os granitoides da porção norte (Mato Grosso) tem seu posicionamento atribuído
a ambiente tardi- a pós-colisional ou de descompressão durante a finalização do processo
colisional. Esses autores assumem que o evento magmático mais jovem é o resultado do
último evento orogenético acrescionário da Faixa Paraguai.
McGee et al. (2012) afirma que a idade de 518±4 Ma do Granito São Vicente
representa a idade mínima para deformação e metamorfismo da porção norte da Faixa
Paraguai e consequentemente a idade de acresção final do Supercontinente Gondwana na
América do Sul.
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Trivelli, G. G. B. 2016. Petrografia, Litoquímica e Geocronologia (U-Pb) das rochas hipabissais do Granito São
Vicente na região do Parque Estadual Águas Quentes, Mato Grosso.
A tabela III.1 apresenta uma síntese de dados encontrados em Hasui & Almeida (1970), Almeida &
Mantovani (1975), Ferreira (2009), Godoy et al. (2010), McGee et al. (2012). Contém alguns dos
resultados de análises geocronológicas obtidos pelos métodos, K-Ar em biotitas, Rb-Sr em rocha total
e U-Pb (SHRIMP) em zircões.
Tabela III.1.. Síntese a partir da literatura sobre dados geocronológicos do Granito São Vicente.
Granito São Vicente
Unidade
Método
Idade (Ma)
Referências
K- Ar em biotita
503 Ma
Hasui & Almeida (1970)
Rb-Sr em rocha total
500 ± 15 Ma
Almeida & Mantovani (1975)
Rb-Sr em rocha total
483± 8 Ma
Almeida & Mantovani (1975)
U-Pb
521 ± 8 Ma
Ferreira (2009)
U-Pb
504± 9 Ma
Godoy et al. (2010)
U-Pb
518± 4 Ma
McGee et al. (2012)
III.3. MATERIAIS E MÉTODOS
A etapa preliminar, que precede as fases de coleta de dados de campo e laboratório,
consitiu da revisão bibliográfica, digitalização dos mapas-base na escala (1:50.000),
confecção de um banco de dados espacial em ambiente SIG, interpretação de imagens de
satélite Landsat e Spot sobrepostas a imagens de dados altimétricos SRTM. Os trabalhos de
campo ocorreram em duas etapas para a coleta de amostras. As lâminas delgadas utilizadas
para os estudos petrográficos foram confeccionadas no Laboratório de Laminação da
Universidade Federal de Mato Grosso e analisadas com o auxilio de microscópio petrográfico
convencional e captura das fotomicrografias com câmera digital. As amostras para análises
químicas foram preparadas nos laboratório da Faculdade de Geociências da UFMT seguindo
uma metodologia convencional de britagem, pulverização e quarteamento. As análises
químicas foram realizadas no Laboratório Acme Analytical Laboratories LTD, Vancouver,
Canadá. Os elementos maiores foram analisados seguindo metodologias relacionadas a
Inductively Coupled Plasma – Emission Spectrometry (ICP-ES) para elementos maiores e
Inductively Coupled Plasma – Mass Spectrometry (ICP-MS) para elementos traço, incluindo
terras raras. As amostras para geocronologia foram cominuidas e os concentrados foram
obtidos através do processo de peneiramento e bateamento no Laboratório de Preparação de
Amostras do Departamento de Recursos Minerais da UFMT. Os cristais de zircão foram
separados manualmente com auxílio de lupa binocular e posteriormente enviados para o
Centro de Pesquisas Geocronológicas do Instituto de Geociências da Universidade de São
Paulo (CPGeo-IGC/USP) (amostra GT01). As imagens de de Elétrons Secundários (ES) e
Catodoluminescência (CL) foram realizadas no Microscópio Eletrônico de Varredura do
Laboratório de Geocronologia da USP. As datações foram realizadas, no mesmo laboratório,
atráves do método U-Pb SHRIMP. As idades foram calculadas utilizando o programa Isoplot/
EX de Ludwig (2003).
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Vicente na região do Parque Estadual Águas Quentes, Mato Grosso.
III.4. GEOLOGIA E PETROGRAFIA
Com base em critérios petrográficos e genéticos, foram individualizadas quatro
fácies na região do Parque Estadual Águas Quentes: sienogranito grosso; aplito porfirítico;
microgranito; e riolito porfirítico (Fig. III.2a). Os afloramentos consistem de lajedos,
matacões in situ e blocos rolados, isolados, sem continuidade lateral, o que impossibilita o
adequado mapeamento das fácies e, na maior parte dos casos, o estabelecimento de suas
relações de contato. Foram descritos 45 afloramentos (Fig. III.2b) de rocha onde foram
coletadas 30 amostras representativas para os estudos petrográficos.
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Vicente na região do Parque Estadual Águas Quentes, Mato Grosso.
Figura III.2. (a) Mapa geológico do Granito São Vicente com localização da área de estudo (adaptado de
Lacerda Filho et al., 2004); (b) Mapa faciológico e de pontos da área de estudo.
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Vicente na região do Parque Estadual Águas Quentes, Mato Grosso.
Fácies sienogranito grosso
Essa fácies é dominante na área de estudo e constituída por sienogranito
essencialmente equigranular grosso a, localmente, inequigranular médio a grosso. São rochas
leucocráticas, de cor rosa, constituídas essencialmente por feldspato alcalino, quartzo,
plagioclásio e biotita, com zircão, apatita e titanita como minerais acessórios. Clorita,
muscovita, sericita, epidoto, calcita e argilominerais constituem a paragênese de alteração
hidrotermal.
Os feldspatos alcalinos, representados por ortoclásio e microclina, perfazem 46% da
rocha e ocorrem como grãos anédricos a subédricos, com tamanhos entre 1,5 e 6 mm. Em
geral, mostram exsolução de fase sódica configurando textura pertítica (Fig. III.3a) do tipo
stringer e drops. Os processos de alteração observados correspondem a sericitização e
argilização ocorrendo em menor intensidade do que no plagioclásio. O plagioclásio perfaz
18% da rocha, sendo identificado como oligoclásio através do método Michel-Levy (Kerr
1959). Apresenta-se como cristais tabulares euédricos a subédricos, com dimensões entre 0,5
e 5 mm e zonação normal. Exibe geminações do tipo albita e periclina, que por vezes se
combinam (albita+periclina, albita+Carlsbad). São comuns intensos processos de alteração,
tais como argilização, sericitização e, frequentemente, saussuritização. O quartzo representa
30% da rocha ocorrendo como grãos anédricos com extinção ondulante característica,
dimensões de 0,1 a 4,8 mm e também preenchendo fraturas. A biotita é o único mineral
máfico essencial e perfaz 6% da rocha (Fig. III.3b). Ocorre em pequenas palhetas bem
preservadas que variam de 1,0 a 3,0 mm. Os minerais acessórios são representados pela
apatita com hábito acicular, cristais de zircão subédricos a euédricos, titanita em grãos
anédricos, às vezes, formando coroa como borda de reação de opaco e grãos anédricos de
opacos.
Fácies aplito porfirítico
A rocha dessa fácies caracteriza-se por uma composição sienogranítica,
hololeucocrática de cor rosa claro. A textura é preferencialmente equigranular fina a média
com fenocristais subédricos de quartzo, feldspato alcalino, e biotita, imersos numa matriz
fanerítica fina a muito fina. Onde se observam as relações de contato, formam diques de
espessura centimétrica em contato abrupto com a fácies sienogranito grosso. Algumas vezes,
observa-se uma foliação de fluxo próxima aos contatos.
Microscopicamente, as rochas da fácies aplítica são formadas por fenocristais de
feldspatos, plagioclásio e biotita que se apresentam subédricos a anédricos (Fig. III.3c) com
dimensões entre 2,5 e 5,5 mm, perfazendo 15% do total da rocha. Estão inseridos numa matriz
quartzo feldspática de textura equigranular hipidiomórfica (Fig. III.3d) com grãos em torno
0,5mm. O quartzo representa 60 % da rocha com grãos subédricos e arredondado 0,1 a
1,0mm. Os cristais de plagioclásio compõem 20% da rocha, normalmente estão zonados,
possuem macla albita/periclina e carlsbad, e composições compatíveis com oligoclásio. As
dimensões variam de 0,3 mm na matriz até 4,8 mm como fenocristais. Os felspatos alcalinos
são representados por ortoclásio e microclina, somando 17% da rocha, com tamanho de
aproximadamente 0,3 mm na matriz e fenocristais de 5,5 mm, por vezes pertítico. A biotita é
o mineral máfico essencial e compõem 3% da rocha. Apatita e zircão são os minerais
acessórios e os de alteração são muscovita, epidoto e minerais opacos.
Fácies microgranito
O microgranito consiste de uma rocha de cor roxa, textura microporfirítica com
microfenocristais anédricos a subédricos de quartzo e feldspato alcalino com dimensões entre
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Vicente na região do Parque Estadual Águas Quentes, Mato Grosso.
0,2 mm e 1,8 mm. Estão imersos em uma matriz fanerítica muito fina quartzo feldspática (Fig.
III.3e) que corresponde a 50% da rocha com frequente textura micrográfica (Fig. III.3f).
Os grãos de quartzo representam 75% da rocha comumente representados pelos
microfenocristais, na forma de grãos subédricos de 0,5 a 1,5mm de dimensão. O feldspato
alcalino, representado pelo ortoclásio, compõe 20% da rocha. Ocorre na matriz e como
fenocristais com hábito subédrico a anédrico, dimensões entre 1,0 e 1,8 mm, alterado para
sericita e argilominerais. O plagioclásio encontra-se intensamente alterado evidenciando
processos de sericitização, argilização e saussuritização. A muscovita ocorre como mineral de
alteração forma de palhetas de 0,2 a 0,6 mm.
Fácies riolito porfirítico
Essa fácies ocorre localmente, restrita ao balneário do Parque Estadual Águas
Quentes, e consiste de uma rocha de cor rosa a roxa com textura porfirítica marcada por
fenocristais subédricos de feldspato alcalino, quartzo plagioclásio e biotita em uma matriz
afanítica a fanerítica muito fina.
Microscopicamente, apresenta textura porfirítica e localmente glomeroporfirítica (Fig.
III.3g) com fenocristais de quartzo, feldspato alcalino, plagioclásio que perfazem um total de
40% da rocha. Apresentam-se subédricos a anédricos com evidências de corrosão magmática
nas bordas (Fig. III.3h) e dimensões entre 1,0 e 6,0 mm, imersos numa matriz fina de
composição felsítica. O quartzo ocorre na matriz e como fenocristais arredondados com
dimensões de 1,0 a 6,0 mm, por vezes embaiados e com corrosão de borda. O feldspato
alcalino é representado pelo ortoclásio, ocorre com hábito subédrico a anédrico, dimensões
entre 1,0 e 5,5 mm, comumente alterado para sericita e argilominerais. O plagioclásio
compõem 18% da rocha, é classificado como oligoclásio e ocorre como fenocristais
subédricos de hábito tabular de 0,2 a 4,5 mm, geminação albita/periclina, combinadas com
Carlsbad, por vezes, formando glômeros. A alteração é proeminente e evidencia processos de
sericitização, argilização, saussuritização e epidotização. A biotita é o único mineral máfico
essencial ocorrendo sob a forma de pequenas palhetas, parcialmente alterada para clorita. Os
minerais acessórios e de alteração são representados por zircão, epidoto, clorita, muscovita,
sericita e argilominerais.
32
Trivelli, G. G. B. 2016. Petrografia, Litoquímica e Geocronologia (U-Pb) das rochas hipabissais do Granito São
Vicente na região do Parque Estadual Águas Quentes, Mato Grosso.
Figura III.3. Fotomicrografias das fácies do Granito São Vicente. Polarizadores cruzados. (a) textura pertítica e
inclusões de quartzo em feldspato alcalino, fácies sienogranito grosso; (b) palhetas de biotita em contato com
cristais de plagioclásio e feldspato alcalino, fácies sienogranito grosso; (c) e (d) fenocristais de plagioclásio e
biotita, respectivamente, na matriz quartzo feldspática, fácies aplito porfirítico; (e) textura porfirítica, fácies
microgranito; (f) matriz fanerítica muito fina com textura micrográfica, fácies microgranito; (g) textura
porfirítica, fácies riolito porfirítico; (h) matriz quartzo feldspática, corrosão de borda e alteração da biotita para
clorita, fácies riolito porfirítico.
33
Trivelli, G. G. B. 2016. Petrografia, Litoquímica e Geocronologia (U-Pb) das rochas hipabissais do Granito São
Vicente na região do Parque Estadual Águas Quentes, Mato Grosso.
III.5. LITOQUÍMICA
Os dados litoquímicos obtidos neste trabalho (Tab. III.2) atestam a composição ácida
compatíveis com granitos alta sílica, para todos os litotipos estudados no Granito São Vicente
na região do Parque Estadual das Águas Quentes. Os teores de SiO 2 de cinco amostras da
fácies sienogranito variam de 74,42 a 76,59%, enquanto que as quatro amostras da fácies
aplito variam de 76,01 a 77,10% e a amostra de microgranito possui teor de 78,14%. As três
amostras da fácies riolito possuem valores de SiO2 entre 73,47 e 78,67%.
As amostras GT01, GT04 e GT05 apresentam elevadas taxas de P.F, portanto, foram
retiradas dos diagramas: Na2O+ K2O-CaO vs SiO2 de Frost et al. (2001); K2O vs SiO2 de
Peccerillo & Taylor (1976); aluminassaturação de Maniar & Piccoli (1989) e Hf- Rb/30- Ta*
3 de Harris et al.(1986); considerações petrológicas sobre essas amostras devem ser tomadas
com cautela. Os teores de Na2O e K2O das amostras GT01 e GT05 estão bastante abaixo da
média das demais amostras, assim como o teor de Na2O da GT04. Possivelmente, esses
elementos foram remobilizados por processos de alteração hidrotermal e/ou intempérica,
conforme sugerido pelos valores de perda ao fogo. Para os demais elementos dessas amostras,
não se observou desvios do padrão geral das demais.
Em diagramas binários do tipo Harker, utilizando SiO2 com índice de diferenciação,
observam-se correlações negativas de Al2O3, TiO2, Fe2O3t, MgO, CaO, P2O5, Ba, Sr, Zr e La.
para as amostras das fácies sienogranito e aplito. Para essas mesmas amostras, Na 2O, K2O e
Rb delineiam uma correlação positiva. As amostras de riolito e do microgranito tendem a
apresentar uma dispersão em relação a este trend em todos os diagramas, exceto Al2O3 e Sr.
Nb e Th apresentam padrão disperso para as amostras de todas as fácies (Fig. III.4 e III.5).
34
Trivelli, G. G. B. 2016. Petrografia, Litoquímica e Geocronologia (U-Pb) das rochas hipabissais do Granito São
Vicente na região do Parque Estadual Águas Quentes, Mato Grosso.
Tabela III.2. Dados litoquímicos das diferentes fácies do Granito São Vicente na região do Parque Estadual das
Águas Quentes. Elementos maiores expressos em % peso e elementos traços em ppm.
Amostra
GT08
GT18
Fácies
GT22
GT27
GT36
GT06
Sienogranito
GT07
GT15
GT25
Aplito
GT05
GT01
Mcrgr
GT02
GT04
Riolito
SiO2
76,20
75,99
75,27
74,42
76,59
76,47
77,10
76,01
76,02
78,14
78,67
73,47
77,26
Al2O3
12,48
12,87
12,73
13,21
12,52
12,82
12,55
12,52
12,73
12,40
12,25
13,95
12,36
Fe2O3t
1,00
0,91
1,43
1,41
0,92
0,75
0,72
1,20
0,90
2,71
2,27
1,64
1,06
MnO
0,03
0,02
0,04
0,04
0,03
0,01
0,02
0,02
0,02
0,02
<0,01
0,06
<0,01
MgO
0,12
0,15
0,38
0,39
0,15
0,05
0,10
0,22
0,15
0,13
0,15
0,37
0,09
CaO
0,40
0,68
0,86
1,03
0,63
0,45
0,54
0,41
0,56
0,04
0,07
0,27
0,04
Na2O
2,91
3,20
3,09
3,32
3,40
3,55
3,38
2,92
3,16
<0,01
<0,01
3,21
0,18
K2O
5,52
5,26
4,97
4,77
4,73
4,83
4,96
5,38
5,36
0,72
1,54
5,44
5,61
TiO2
0,16
0,13
0,24
0,23
0,14
0,10
0,11
0,20
0,14
0,44
0,24
0,24
0,20
P2O5
0,03
0,02
0,06
0,07
0,03
<0.01
0,03
0,03
0,02
0,03
0,09
0,06
0,02
P.F.
0,9
0,6
0,7
0,9
0,7
0,8
0,3
0,9
0,7
5,2
4,6
1,1
3,0
99,77
99,81
99,76
99,77
99,83
99,83
99,81
99,82
99,80
99,80
99,89
99,78
99,82
Ba
279
160
471
374
58
42
32
59
50
53
89
573
277
Be
4
6
1
4
5
7
4
7
2
6
5
5
4
Co
163,8
142,2
143,2
130,9
142,5
142,4
159,6
130,5
162,5
75,3
51,5
99,1
100,1
Cs
2,6
2,3
2,0
3,2
11,0
2,2
5,4
2,9
5,2
1,6
2,5
3,0
2,9
Ga
14,2
14,2
13,7
15,1
14,8
16,9
17,3
16,1
14,7
19,3
14,3
14,3
14,8
Hf
3,6
3,4
4,0
4,3
3,8
4,1
4,1
5,3
4,2
6,5
3,2
3,7
3,7
Nb
30,0
52,3
28,4
35,5
41,6
72,8
43,9
49,7
42,6
74,0
27,7
28,3
40,4
Rb
269,5
238,0
199,7
209,5
296,2
321,4
316,3
243,3
222,3
92,3
117,1
240,9
302,0
Sr
75,5
77,0
168,9
175,2
38,0
18,8
25,6
45,2
39,8
11,4
29,3
198,3
51,9
Ta
2,5
4,0
2,4
2,6
3,3
6,2
3,8
3,8
3,8
6,1
2,2
2,2
3,4
Th
31,5
36,5
27,8
32,9
39,2
33,4
36,0
64,6
42,8
98,9
38,0
32,5
37,5
U
8,2
23,9
9,7
10,3
16,9
14,0
21,3
14,9
14,1
7,8
4,6
8,6
5,5
Zr
90,5
82,4
121,7
129,2
87,0
73,4
78,5
138,9
99,5
151,1
107,6
124,8
104,3
Y
13,9
19,3
19,5
22,4
16,3
41,6
24,4
18,3
19,6
65,6
25,4
17,3
21,0
Pb
11,5
6,1
5,7
6,7
7,1
9,9
7,2
7,8
7,9
18,7
9,9
46,9
8,3
La
35,7
32,4
48,5
58,3
35,7
27,3
34,9
47,1
35,8
138,9
58,4
39,3
58,2
Soma
35
Trivelli, G. G. B. 2016. Petrografia, Litoquímica e Geocronologia (U-Pb) das rochas hipabissais do Granito São
Vicente na região do Parque Estadual Águas Quentes, Mato Grosso.
Amostra
GT08
GT18
Fácies
GT22
GT27
GT36
GT06
Sienogranito
GT07
GT15
GT25
Aplito
GT05
GT01
Mcrgr
GT02
GT04
Riolito
Ce
84,3
53,8
86,8
99,5
57,0
48,7
53,0
78,8
70,6
251,2
95,2
75,1
101,7
Pr
5,67
4,96
8,52
10,36
5,77
5,31
5,70
7,99
6,24
23,39
9,94
7,57
10,83
Nd
17,2
14,6
26,4
32,1
17,0
14,7
16,4
23,7
18,8
68,7
31,3
24,4
32,8
Sm
2,57
2,30
4,36
4,67
2,52
3,48
2,77
3,30
2,76
9,29
4,77
3,73
5,04
Eu
0,35
0,35
0,67
0,58
0,20
0,15
0,31
0,26
0,24
0,56
0,65
0,60
0,71
Gd
1,83
2,26
3,29
4,06
1,99
3,42
2,58
2,57
2,35
7,39
3,94
3,29
4,04
Tb
0,32
0,38
0,55
0,60
0,31
0,72
0,45
0,41
0,38
1,30
0,65
0,51
0,64
Dy
1,84
2,64
2,94
3,39
1,97
5,16
3,05
2,50
2,58
8,36
3,61
3,04
3,57
Ho
0,43
0,62
0,63
0,72
0,43
1,17
0,67
0,58
0,55
1,78
0,77
0,59
0,79
Er
1,38
2,09
2,01
2,29
1,58
4,27
2,67
1,90
2,01
6,26
2,23
1,84
2,42
Tm
0,30
0,39
0,33
0,40
0,30
0,80
0,55
0,37
0,39
1,10
0,39
0,31
0,39
Yb
2,12
3,13
2,42
2,80
2,40
6,17
4,19
3,01
3,08
8,41
2,89
2,11
3,00
Lu
0,39
0,58
0,40
0,46
0,43
1,05
0,73
0,57
0,54
1,33
0,44
0,36
0,46
36
Trivelli, G. G. B. 2016. Petrografia, Litoquímica e Geocronologia (U-Pb) das rochas hipabissais do Granito São
Vicente na região do Parque Estadual Águas Quentes, Mato Grosso.
Figura III.4. Diagramas binários do tipo Harker de elementos maiores para as diferentes fácies do Granito São
Vicente na região do Parque Estadual Águas Quentes.
37
Trivelli, G. G. B. 2016. Petrografia, Litoquímica e Geocronologia (U-Pb) das rochas hipabissais do Granito São
Vicente na região do Parque Estadual Águas Quentes, Mato Grosso.
Figura III.5. Diagramas binários do tipo Harker de elementos traços paras as diferentes fácies do Granito São
Vicente na região do Parque Estadual Águas Quentes. Símbolos como na figura III.4.
38
Trivelli, G. G. B. 2016. Petrografia, Litoquímica e Geocronologia (U-Pb) das rochas hipabissais do Granito São
Vicente na região do Parque Estadual Águas Quentes, Mato Grosso.
As amostras da fácies sienogranito são classificadas, segundo o diagrama R1xR2 de
La Roche et al. (1980), como granitos e feldspato alcalino granitos, enquanto as amostras da
fácies aplito são classificadas preferencialmente como feldspato alcalino granito. Uma
amostra de riolito também é classificada como feldspato alcalino riolito (Fig. III.6).
Figura III.6. Diagrama classificatório R1 vs R2 de La Roche et al. (1980) paras as diferentes fácies do Granito
São Vicente na região do Parque Estadual Águas Quentes. Símbolos como na figura III.4.
O caráter cálcio-alcalino das fácies sienogranito e aplito é evidenciado pelo diagrama
Na2O+K2O-CaO vs SiO2 de Frost et al. (2001). A amostra da fácies riolito se desviam desse
trend devido ao baixo teor de Na2O da amostra GT01 e do elevado conteúdo relativo de CaO
da amostra GT02 (Tab. III.1, Fig. III.7a). No diagrama FeOt/(FeOt+MgO) vs SiO2 as amostras
de todas as fácies formam um trend partindo do campo dos granitoides magnesianos e
avançando para o campo dos granitoides ferrosos, com o aumento da diferenciação das rochas
(Fig. III.7b). Este trend é comumente observado em séries cálcio-alcalinas fortemente
diferenciadas (Frost et al.,2001).
39
Trivelli, G. G. B. 2016. Petrografia, Litoquímica e Geocronologia (U-Pb) das rochas hipabissais do Granito São
Vicente na região do Parque Estadual Águas Quentes, Mato Grosso.
Figura III.7. Diagramas classificatórios de Frost et al. (2001) paras as diferentes fácies do Granito São Vicente
na região do Parque Estadual Águas Quentes. Símbolos como na figura III.4.
A afinidade cálcio-alcalina também é atestada pelo diagrama K2O vs SiO2 (Fig. III.8a),
indicando relação com magmas alto potássio. O caráter fracamente peraluminoso é evidenciado no
diagrama de aluminassaturação de Maniar & Piccoli (1989); (Fig. III.8b).
Figura III.8. (a) diagrama K2O versus SiO2 de Peccerillo & Taylor (1976) e (b) diagrama de Maniar & Piccoli
(1989) com os índices de peraluminosidade de Shand (1943) para as diferentes fácies do Granito São Vicente na
região do Parque Estadual Águas Quentes. Símbolos como na figura III.4.
Em diagramas discriminantes de ambientes tectônicos, baseados no comportamento de
Rb e (Y+Nb) proposto Pearce et al. (1984), as amostras das diferentes fácies plotam no
campo coincidente entre granitos pós-colisionais, granitos de arco vulcânico e granitos sincolisionais (Fig. III.9a). A relação com ambiente pós-colisional também é sugerdia pelo
diagrama Hf vs Rb/30 vs 3*Ta de Harris et al. (1986) (Fig. III.9b).
40
Trivelli, G. G. B. 2016. Petrografia, Litoquímica e Geocronologia (U-Pb) das rochas hipabissais do Granito São
Vicente na região do Parque Estadual Águas Quentes, Mato Grosso.
Figura III.9. Diagramas (a) Rb versus Y+Nb de Pearce et al. (1984) e (b) Hf - Rb/30 - Ta*3 de Harris et al.
(1986). para as diferentes fácies do Granito São Vicente na região do Parque Estadual Águas Quentes. Símbolos
como na figura III.4.
Os conteúdos de Zr, Nb, Ce, Y e Ga/Al, quando plotados nos diagramas
classificatórios de granitos de Whalen et al. (1987), são compatíveis com granitos do tipo-I.
Nestes diagramas, a razão FeOt/MgO indica que a maioria das amostras são compatíveis com
granitos fracionados (Fig. III.10a). O conteúdo de Zr corrabora a classificação de granitos
tipo-I (Fig. III.10b), no entanto, o elevado conteúdo de Nb sugere afinidade com granitos do
tipo-A (Fig. III.10c).
Figura. III.10. Diagramas classificatórios de granitos de Whalen et al. (1987) para as diferentes fácies do
Granito São Vicente na região do Parque Estadual Águas Quentes. (a) FeOt/MgO vs Zr+Nb+Ce+Y; (b) Zr vs
Ga/Al; e (c) Nb vs Ga/Al. Símbolos como na figura III.4.
Em diagramas multielementos, as amostras de todas as fácies apresentam um padrão
compatível entre si. Este padrão mostra um decréscimo dos elementos de maior
incompatibilidade, associado a anomalias negativas de Ba, P, Sr e Ti (Fig. III.11a). O padrão
de distribuição dos elementos terras raras (Fig. III.11b) indica um forte fracionamento de ETR
leves, com razões LaN/SmN médias de 7,87, anomalia negativa de Eu (Eu/Eu* ~0,38) e
enriquecimento de ETR pesados, expressos por razões GdN/YbN menores que a unidade
(~0,82).
41
Trivelli, G. G. B. 2016. Petrografia, Litoquímica e Geocronologia (U-Pb) das rochas hipabissais do Granito São
Vicente na região do Parque Estadual Águas Quentes, Mato Grosso.
Figura III.11. Diagramas multielementos para as diferentes fácies do Granito São Vicente na região do Parque
Estadual Águas Quentes. (a) normalizados segundo o condrito de Thompson (1982) e (b) condrito de Boynton
(1984). Símbolos como na figura III.4.
III.6. GEOCRONOLOGIA U-Pb SHRIMP
Para a determinação da idade de cristalização, foi selecionada uma amostra da fácies
riolito porfirítico (GT01) e o método utilizado foi U-Pb SHRIMP em zircão. A metodologia
42
Trivelli, G. G. B. 2016. Petrografia, Litoquímica e Geocronologia (U-Pb) das rochas hipabissais do Granito São
Vicente na região do Parque Estadual Águas Quentes, Mato Grosso.
de separação foi executada a partir de métodos convencionais como trituração, moagem e
peneiração, separação das frações não magnéticas utilizando-se do aparelho separador
magnético Frantz, catação manual de aproximadamente 100 cristais utilizando-se lupa
binocular. No Laboratório de Microscopia Eletrônica de Varredura do Centro de Pesquisas
Geocronológicas da Universidade de São Paulo, foram obtidas as imagens de Elétrons
Secundários (ES) e Catodoluminescência (CL) de 57 cristais de zircão, dos quais 12 foram
analisados (Fig. III.12). Os pontos analíticos foram obtidos preferencialmente nas regiões
claras nas imagens CL, com zonação regular, evitando possíveis fraturas e locais com
irregularidades.
Figura III.12. Imagens de catadoluminescência dos cristais de zircão do riolito porfirítico (amostra GT01) com
as posições de análise. Idades 206Pb/ 238 U.
Os cristais de zircão da amostra GT01 são transparentes a opacos de cor bege a rosa
claro, por vezes fraturados e quebrados e com zonação. Observam-se grãos arredondados,
alongados e prismáticos. As dimensões variam de 100 a 300 µm. Os teores de urânio variam
de 241 a 1168 ppm. Os cálculos de idades foram realizados com o programa Isoplot/EX
(Ludwing, 2003) e os resultados são apresentados com desvio padrão de 2σ. Um dos grãos
analisados demonstra discrepância com relação as demais idades, e pode ser interpretado
como zircão herdado.
A tabela III. 2 apresenta os resultados isotópicos para a amostra datada.
43
Trivelli, G. G. B. 2016. Petrografia, Litoquímica e Geocronologia (U-Pb) das rochas hipabissais do Granito São
Vicente na região do Parque Estadual Águas Quentes, Mato Grosso.
Tabela III. 2. Dados de isótopos de U-Th-Pb em zircão do riolito porfirítico (amostra GT01).
Spot
U
Th
²³²Th/
238
(ppm) (ppm)
U
206
206
Pb
com
(%)
206
Pb/
238
U
%
Pb/
U
Idade
(Ma)
238
207
1s
err
Pb/
Pb
Idade
(Ma)
206
1s
err
Disc.
(%)
Total
238
U
206
/ Pb
%
err
Total
Pb
206
/ Pb
%
err
207
GT 1.1
554
727
1,36
1,33
0,08
1,4
482,6
6,4
503
85
4
12,69
1,4
0,0681
1,0
GT 2.1
323
79
0,25
0,00
0,20
1,4
1182,7
14,7
1199
15
1
4,97
1,4
0,0801
0,7
GT 3.1
270
206
0,79
0,63
0,08
1,4
481,0
6,5
484
72
1
12,82
1,4
0,0619
1,1
GT 4.1
460
294
0,66
0,19
0,09
1,3
528,0
6,8
521
30
-1
11,69
1,3
0,0593
0,9
GT 5.1
436
315
0,75
0,90
0,09
1,4
531,5
6,9
537
60
1
11,53
1,4
0,0655
0,9
GT 6.1
241
133
0,57
8,38
0,11
1,7
589,8
10,3
508
495
-14
9,52
1,7
0,1261
4,3
GT 7.1
280
255
0,94
3,23
0,09
2,0
535,1
11,1
799
357
49
11,16
2,0
0,0918
9,5
GT 8.1
817
695
0,88
0,99
0,09
1,3
524,1
6,7
567
57
8
11,68
1,3
0,067
0,7
GT 9.1
787
449
0,59
15,06
0,09
1,3
483,7
8,2
491
803
1
10,82
1,3
0,1763
0,8
GT 10.1
698
251
0,37
5,61
0,09
1,3
525,5
7,1
768
233
46
11,08
1,3
0,1101
0,5
GT 11.1
1168
434
0,38
14,55
0,08
1,4
400,3
7,1
683
679
71
13,26
1,4
0,1787
0,8
GT 12.1
934
758
0,84
13,25
0,06
1,3
318,7
5,2
506
677
59
17,05
1,3
0,1633
1,2
44
Trivelli, G. G. B. 2016. Petrografia, Litoquímica e Geocronologia (U-Pb) das rochas hipabissais do Granito São
Vicente na região do Parque Estadual Águas Quentes, Mato Grosso.
O diagrama concórdia U-Pb da amostra GT01 (Fig. III.13) mostra uma idade de 528±4
Ma para o riolito porfirítico que é considerada como idade de cristalização magmática.
GT 01
I dade
de Concórdia =527.9 ±4 Ma
Probabilidade (da concordância) = 0,86
Spots 4, 5 e 8
Figura III.13.Diagrama concórdia com a idade U-Pb (SHRIMP) do riolito porfirítico (amostra GT01).
III.7. DISCUSSÕES E CONCLUSÕES
As feições de campo e petrográficas permitiram a individualização de quatro fácies,
com base em critérios petrográficos e genéticos: sienogranito grosso; aplito porfirítico;
microgranito; e riolito porfirítico. A fácies sienogranito grosso é representada por rochas com
características petrográficas similares àquelas observadas em grande parte do batólito do
Granito São Vicente, de acordo com as descrições de Godoy et al. (2007) e McGee et al.
(2012). As rochas da fácies microgranito possuem feições petrográficas sugestivas de um
posicionamento em nível crustal raso (epizona), como por exemplo, a textura micrográfica. A
fácies aplito é constituída por rochas originadas por descompressão hidrostática, comumente
observadas em cúpulas de intrusões epizonais. Além disso, a ocorrência de expressivos
hornfels no entorno do Granito São Vicente também conduz a uma interpretação de uma
45
Trivelli, G. G. B. 2016. Petrografia, Litoquímica e Geocronologia (U-Pb) das rochas hipabissais do Granito São
Vicente na região do Parque Estadual Águas Quentes, Mato Grosso.
intrusão epizonal, uma vez que nessas condições o contraste de temperatura entre o granito e a
encaixante é maior, favorecendo os registros do metamorfismo de contato. A matriz fanerítica
muito fina e o elevado conteúdo de fenocristais subédricos das rochas da fácies riolito
porfirítico sugerem uma origem relacionada a intrusões hipabissais. Essas intrusões poderiam
ter servido de condutos para um provável evento vulcânico contemporâneo e cogenético com
o magmatismo do Granito São Vicente. Registros de rochas vulcânicas de superfície (efusivas
e/ou piroclásticas) são inexistentes na região. O caráter isotrópico de todas as fácies estudadas
do Granito São Vicente no PEAG atesta um regime pós-tectônico às intrusões.
Os dados litoquímicos obtidos neste trabalho para os litotipos estudados no Granito
São Vicente da região do Parque Estadual das Águas Quentes formam trends que indicam
comagmaticidade entre todas as fácies. A distribuição dos elementos em diagramas binários e
as anomalias negativas em diagramas multielementos sugerem a atuação de processos de
cristalização fracionada de fases minerais como plagioclásio, biotita, apatita e zircão, para as
fácies sienogranito e aplito. A afinidade cálcio-alcalina de alto-K é sugerida pelos diagramas
de Frost et al. (2001), (Fig. 10b) e Peccerillo & Taylor (1976), (Fig. 11a). No entanto, a
elevada razão de FeOt/(FeOt+MgO), apesar de poder ser atribuída a magmas magnesianos
cálcio-alcalinos altamente diferenciados, é comumente observada em magmas de tendência
alcalina. A relação com fontes mantélicas litosféricas ou crustais, comuns em ambiente
tectônico pós-colisional, é sugerida pelos diagramas de Pearce et al. (1984) e Harris et al.
(1986) (Fig. 12a,b). No entanto, os elevados conteúdos de Nb e Ta, expressos pelo diagrama
de Whalen et al. (1987) da figura 13c, e ausência de anomalias negativas desses elementos no
diagrama multielementos da figura 14a, sugerem a participação de fontes mantélicas
astenosféricas. Além disso, o padrão de ETR com enriquecimento em ETR pesados (Fig.
14b), expressos por razões GdN/YbN menores que a unidade, também são característicos de
granitoides com participação de manto astenosférico. Os dados isotópicos de Sm-Nd
apresentados por Godoy et al. (2010) apontam valores de ɛNd de -2,86 para o Granito São
Vicente, que indicam, conforme afirmado pelos autores, importante participação de fontes
crustais. A existência de zircão herdado também aponta para fontes crustais.
Com isso, conclui-se que o magma que originou as rochas plutônicas e vulcânicas
relacionadas ao Granito São Vicente na região do Parque Estadual Águas Quentes pode ter se
originado de fontes litosféricas previamente afetadas por subducção, com importante
contaminação crustal ou por fontes puramente crustais. Para essas interpretações, associa-se
uma importante contribuição de fontes astenosféricas mais profundas. Dessa forma, o Granito
São Vicente deve estar representando um magmatismo de ambiente pós-colisional com um
expressivo componente extensional gerador de profundas fraturas que promoveram
descompressão e fusão de manto astenosférico. Padrões litoquímicos semelhantes tem sido
observado em algumas amostras dos granitos Taboco e Araguaiana da Província Granítica
Brasiliana, publicados por Godoy et al. (2007). Isto sugere que, além do Granito São Vicente,
outros granitos da Província Granítica Brasiliana podem ter se originado a partir de mais de
um tipo de fonte magmática e que representem os estágios finais do Ciclo Brasiliano no Mato
Grosso e no Mato Grosso do Sul, com algumas feições que indicam a atuação de processos
extensionais mais significativos, relacionadas a fraturamentos profundos da crosta em
ambiente pós-colisional.
A idade de cristalização da fácies riolito (528±4 Ma) se aproxima da idade apresentada
por McGee et al. (2012) para o Granito São Vicente (518±4 Ma), considerando o erro
estatístico. No entanto, difere da idade de 504±9 Ma apresentada por Godoy et al. (2010) para
o mesmo granito. Godoy et al. (2010), com base nas idades dos granitos da Província
Granitoide Matogrossense, define dois eventos magmáticos para a geração desses granitos,
separados por aproximadamente 40 Ma, sendo a suíte do norte gerada entre 504 e 509 Ma, e a
46
Trivelli, G. G. B. 2016. Petrografia, Litoquímica e Geocronologia (U-Pb) das rochas hipabissais do Granito São
Vicente na região do Parque Estadual Águas Quentes, Mato Grosso.
do sul entre 540 e 548 Ma. Tanto os dados apresentados neste trabalho quanto aqueles
apresentados por McGee et al. (2012) sugerem que a suíte do norte pode ter se originado num
intervalo de tempo mais expandido e que o intervalo entre as duas suítes pode ter sido menor.
Os estudos petrográficos se mostraram de suma importância para a caracterização
faciológica e genética das fácies do Granito São Vicente. Os dados litoquímicos obtidos neste
trabalho, quando confrontados com os dados da literatura, sugerem que tanto o Granito São
Vicente como outros granitos da Província Granitoide Matogrossense podem ter se originado
de fontes heterogêneas com assinaturas litoquímicas distintas, gerando magmas com
assinaturas híbridas e transicionais. Estudos petrográficos e litoquímicos de maior detalhe
poderão fornecer significativas contribuições para o entendimento da gênese dos granitos da
Província Granitoide Matogrossense.
III.8. REFERÊNCIAS
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Mineração – DNPM/DGM, v. 150, 1-97. Rio de Janeiro.
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Acad. Bras. Ciências, 40, 285-295.
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dobramentos marginais a leste. Simpósio de Geologia do Centro- Oeste, v. 2, 3-14. SBG.
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região de Cuiabá. Rev. Bras. Geoc., 32(4), 18-30.
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Elsevier Sci. (publ. co) Rare earth element geochemistry. Amsterdam, 63,114.
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47
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Godoy, A. M., Ruiz, A. S., Manzano, J. C., Araújo-Ruiz, L. M. B. de, Souza, M. Z. A., Matos, J. B. (2005b).
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21, 316–322.
48
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discrimination and petrogenesis. Contributions to Mineralogy and Petrology , 95, 407- 419.
49
Trivelli, G. G. B. 2016. Petrografia, Litoquímica e Geocronologia (U-Pb) das rochas hipabissais do Granito São
Vicente na região do Parque Estadual Águas Quentes, Mato Grosso.
CAPÍTULO IV
DISCUSSÕES E CONSIDERAÇÕES FINAIS
Esta dissertação de mestrado tenta contribuir com a ampliação do conhecimento do corpo do
Granito São Vicente na região do Parque Estadual Águas quentes, a partir dos estudos petrográfico,
geoquímicoe geocronológico em detalhe.
As feições de campo e petrográficas permitiram a individualização de quatro fácies, com base
em critérios petrográficos e genéticos: sienogranito grosso; aplito porfirítico; microgranito; e riolito
porfirítico. A fácies sienogranito grosso é representada por rochas com características petrográficas
similares àquelas observadas em grande parte do batólito do Granito São Vicente, de acordo com as
descrições de Godoy et al. (2007) e McGee et al. (2012). As rochas da fácies microgranito possuem
feições petrográficas sugestivas de um posicionamento em nível crustal raso (epizona), como por
exemplo, a textura micrográfica. A fácies aplito é constituída por rochas originadas por descompressão
hidrostática, comumente observadas em cúpulas de intrusões epizonais. Além disso, a ocorrência de
expressivos hornfels no entorno do Granito São Vicente também conduz a uma interpretação de uma
intrusão epizonal, uma vez que nessas condições o contraste de temperatura entre o granito e a
encaixante é maior, favorecendo os registros do metamorfismo de contato. A matriz fanerítica muito
fina e o elevado conteúdo de fenocristais subédricos das rochas da fácies riolito porfirítico sugerem
uma origem relacionada a intrusões hipabissais. Essas intrusões poderiam ter servido de condutos para
um provável evento vulcânico contemporâneo e cogenético com o magmatismo do Granito São
Vicente. Registros de rochas vulcânicas de superfície (efusivas e/ou piroclásticas) são inexistentes na
região. O caráter isotrópico de todas as fácies estudadas do Granito São Vicente no PEAG atesta um
regime pós-tectônico às intrusões.
Os dados litoquímicos obtidos neste trabalho para os litotipos estudados no Granito
São Vicente da região do Parque Estadual das Águas Quentes formam trends que indicam
comagmaticidade entre todas as fácies. A distribuição dos elementos em diagramas binários e as
anomalias negativas em diagramas multielementos sugerem a atuação de processos de cristalização
fracionada de fases minerais como plagioclásio, biotita, apatita e zircão, para as fácies sienogranito e
aplito. A afinidade cálcio-alcalina de alto-K é sugerida pelos diagramas de Frost et al. (2001), (Fig.
10b) e Peccerillo & Taylor (1976), (Fig. 11a). No entanto, a elevada razão de FeO t/(FeOt+MgO),
apesar de poder ser atribuída a magmas magnesianos cálcio-alcalinos altamente diferenciados, é
comumente observada em magmas de tendência alcalina. A relação com fontes mantélicas litosféricas
ou crustais, comuns em ambiente tectônico pós-colisional, é sugerida pelos diagramas de Pearce et al.
(1984) e Harris et al. (1986) (Fig. 12a,b). No entanto, os elevados conteúdos de Nb e Ta, expressos
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Trivelli, G. G. B. 2016. Petrografia, Litoquímica e Geocronologia (U-Pb) das rochas hipabissais do Granito São
Vicente na região do Parque Estadual Águas Quentes, Mato Grosso.
pelo diagrama de Whalen et al. (1987) da figura 13c, e ausência de anomalias negativas desses
elementos no diagrama multielementos da figura 14a, sugerem a participação de fontes mantélicas
astenosféricas. Além disso, o padrão de ETR com enriquecimento em ETR pesados (Fig. 14b),
expressos por razões GdN/YbN menores que a unidade, também são característicos de granitoides com
participação de manto astenosférico. Os dados isotópicos de Sm-Nd apresentados por Godoy et al.
(2010) apontam valores de ɛNd de -2,86 para o Granito São Vicente, que indicam, conforme afirmado
pelos autores, importante participação de fontes crustais. A existência de zircão herdado também
aponta para fontes crustais.
Com isso, conclui-se que o magma que originou as rochas plutônicas e vulcânicas
relacionadas ao Granito São Vicente na região do Parque Estadual Águas Quentes pode ter se
originado de fontes litosféricas previamente afetadas por subducção, com importante contaminação
crustal ou por fontes puramente crustais. Para essas interpretações, associa-se uma importante
contribuição de fontes astenosféricas mais profundas. Dessa forma, o Granito São Vicente deve estar
representando um magmatismo de ambiente pós-colisional com um expressivo componente
extensional gerador de profundas fraturas que promoveram descompressão e fusão de manto
astenosférico. Padrões litoquímicos semelhantes tem sido observado em algumas amostras dos
granitos Taboco e Araguaiana da Província Granítica Brasiliana, publicados por Godoy et al. (2007).
Isto sugere que, além do Granito São Vicente, outros granitos da Província Granítica Brasiliana podem
ter se originado a partir de mais de um tipo de fonte magmática e que representem os estágios finais do
Ciclo Brasiliano no Mato Grosso e no Mato Grosso do Sul, com algumas feições que indicam a
atuação de processos extensionais mais significativos, relacionadas a fraturamentos profundos da
crosta em ambiente pós-colisional.
A idade de cristalização da fácies riolito (528±4 Ma) se aproxima da idade apresentada
por McGee et al. (2012) para o Granito São Vicente (518±4 Ma), considerando o erro estatístico. No
entanto, difere da idade de 504±9 Ma apresentada por Godoy et al. (2010) para o mesmo granito.
Godoy et al. (2010), com base nas idades dos granitos da Província Granitoide Matogrossense, define
dois eventos magmáticos para a geração desses granitos, separados por aproximadamente 40 Ma,
sendo a suíte do norte gerada entre 504 e 509 Ma, e a do sul entre 540 e 548 Ma. Tanto os dados
apresentados neste trabalho quanto aqueles apresentados por McGee et al. (2012) sugerem que a suíte
do norte pode ter se originado num intervalo de tempo mais expandido e que o intervalo entre as duas
suítes pode ter sido menor.
Os estudos petrográficos se mostraram de suma importância para a caracterização
faciológica e genética das fácies do Granito São Vicente. Os dados litoquímicos obtidos neste
trabalho, quando confrontados com os dados da literatura, sugerem que tanto o Granito São Vicente
como outros granitos da Província Granitoide Matogrossense podem ter se originado de fontes
51
Trivelli, G. G. B. 2016. Petrografia, Litoquímica e Geocronologia (U-Pb) das rochas hipabissais do Granito São
Vicente na região do Parque Estadual Águas Quentes, Mato Grosso.
heterogêneas com assinaturas litoquímicas distintas, gerando magmas com assinaturas híbridas e
transicionais. Estudos petrográficos e litoquímicos de maior detalhe poderão fornecer significativas
contribuições para o entendimento da gênese dos granitos da Província Granitoide Matogrossense.
52
Trivelli, G. G. B. 2016. Petrografia, Litoquímica e Geocronologia (U-Pb) das rochas hipabissais do Granito São
Vicente na região do Parque Estadual Águas Quentes, Mato Grosso.
Referências
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Vicente na região do Parque Estadual Águas Quentes, Mato Grosso.
Anexo 1
Tabela com a relação dos afloramentos descritos.
56
Trivelli, G. G. B. 2016. Petrografia, Litoquímica e Geocronologia (U-Pb) das rochas hipabissais do Granito São
Vicente na região do Parque Estadual Águas Quentes, Mato Grosso.
Pontos
GT 01
GT 02
GT 03
GT 04
GT 05
GT 06
GT 07
GT 08
GT 09
GT 10
GT 11
GT 12
GT 13
GT 14
GT15
GT16
GT17
GT18
GT19
GT20
GT21
GT22
GT23
GT24
GT25
GT26
GT27
GT28
GT29
GT30
GT31
GT32
GT33
GT34
GT35
GT36
GT37
GT38
GT39
GT40
GT41
GT42
GT43
GT44
GT45
Coord.X
Coord.Y
Litologia/Afloramentos
659099
658987
658920
658887
658815
658720
659261
658855
658376
656897
655844
653814
650587
650543
659615
659671
659594
659401
659454
659371
659665
659522
659598
659739
659641
659726
660814
661038
660574
659325
659021
658715
658155
657757
659675
659801
659354
659112
659375
659400
659484
659878
660147
660380
660380
8243134
Riolito/ Lajedos
Riolito/ Lajedos
8243282
Riolito/ Lajedos
8243366
Riolito/ Lajedos
8243453
Granito muito fino
8243528
8243553
Diques aplíticos
Diques aplíticos
8241190
Granito médio/ Blocos
8240640
Granito médio/ Blocos
8239207
Granito/Granito fino (contato)
8236093
Granito médio/ Blocos
8235120
Granito médio/ Blocos
8236965
Granito médio/ Blocos
8241178
Granito médio/ Blocos
8247865
Granito fino
8241537
Contato granito fino/Médio
8241734
Diques aplíticos
8241453
Granito médio/ Blocos
8241417
Granito fino
8241180
8242527
Granito médio a grosso/ Lajedos
Granito médio a grosso/ Lajedos
8242031
Granito médio a grosso/ Lajedos
8241939
Granito fino
8241841
Granito fino
8241680
8241511
Granito médio a grosso/ Lajedos
Granito médio a grosso/ Lajedos
8241742
Granito/Granito fino (contato)
8244234
Granito médio a grosso/ Lajedos
8243301
Granito/Granito fino (contato)
8242879
8244308
Granito fino
8244603 Sienogranito/Granito fino (contato)
Granito médio/ Blocos
8244879
Granito médio/ Blocos
8245160
Granito médio/ Blocos
8245364
Granito médio/ Blocos
8242258
Granito médio/ Blocos
8242562
Granito fino/Diques
8242580
Granito médio/ Blocos
8242888
Granito fino/Diques
8243109
Granito
médio/ Blocos
8243210
Granito médio/ Blocos
824361
Granito médio/ Blocos
8243484
Granito médio/ Blocos
8243431
8243268
Granito médio/ Blocos
Granito médio/ Blocos
8243268
57
Fácies
Riolito Porfirítico
Riolito Porfirítico
Riolito Porfirítico
Riolito Porfirítico
Microgranito
Aplito Porfirítico
Aplito Porfirítico
Sienogranito Grosso
Sienogranito Grosso
Sienogranito Grosso
Sienogranito Grosso
Sienogranito Grosso
Sienogranito Grosso
Sienogranito Grosso
Aplito Porfirítico
Aplito Porfirítico
Aplito Porfirítico
Sienogranito Grosso
Aplito Porfirítico
Sienogranito Grosso
Sienogranito Grosso
Sienogranito Grosso
Aplito Porfirítico
Aplito Porfirítico
Sienogranito Grosso
Sienogranito Grosso
Sienogranito Grosso
Sienogranito Grosso
Sienogranito Grosso
Aplito Porfirítico
Sienogranito Grosso
Sienogranito Grosso
Sienogranito Grosso
Sienogranito Grosso
Sienogranito Grosso
Sienogranito Grosso
Aplito Porfirítico
Sienogranito Grosso
Aplito Porfirítico
Sienogranito Grosso
Sienogranito Grosso
Sienogranito Grosso
Sienogranito Grosso
Sienogranito Grosso
Sienogranito Grosso
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