A Sociologia Compreensiva

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A Sociologia Compreensiva
Foram os alemães, sobretudo, os defensores de uma atitude
antipositivista nas ciências sociais, herdeiros que eram dos
filósofos da época do Romantismo. Os neokantianos, por
exemplo, estabeleceram algumas distinções fundamentais
entre as ciências humanas e as ciências da natureza.
Importante também a distinção formulada pelo filósofo e
historiador
Wilhelm
Dilthey
(1833-1911)
entre explicação (Erklären) e compreensão (Verstehen).
As ciências naturais procuram explicar as relações causais
entre os fenômenos, enquanto que as ciências humanas
precisam compreender processos da experiência humana que são vivos, mutáveis, que precisam
ser interpretados para que se extraia deles o seu sentido. Ao aplicar o método da compreensão
aos fatos humanos sociais, M. Weber elabora os fundamentos de uma sociologia compreensiva
ou interpretativa.
Ao contrário de Durkheim, Weber não pensa que a ordem social tenha que se opor e se distinguir
dos indivíduos como uma realidade exterior a eles, mas que as normas sociais se concretizam
exatamente quando se manifestam em cada indivíduo sob a forma de motivação. E Weber
distingue quatro tipos de ação social que orientam/motivam o sujeito:
·
a ação afetiva, que é aquela definida pela reação emocional do sujeito quando submetido
a determinadas circunstâncias.
·
a ação tradicional que é motivada pelos costumes, tradições, hábitos, crenças, quando o
indivíduo age movido pela obediência a hábitos fortemente enraizados em sua vida.
·
a ação racional com relação a um objetivo (Zweckrational), como, por exemplo, a de
um engenheiro que constrói uma estrada, onde a racionalidade é medida pelos conhecimentos
técnicos do indivíduo visando alcançar uma meta.
·
a ação racional com relação a um valor (Wertrational), como um indivíduo que prefere
morrer a abandonar determinada atitude, onde o que se busca não é um resultado externo ao
sujeito mas a fidelidade a uma convicção.
Weber vê como objetivo primordial da sociologia a captação da relação de sentido da ação
humana, ou seja, chegamos a conhecer um fenômeno social quando o compreendemos como fato
carregado de sentido que aponta para outros fatos significativos. O sentido, quando se manifesta,
dá à ação concreta o seu caráter, quer seja ele político, econômico ou religioso. O objetivo do
sociólogo é compreender este processo, desvendando os nexos causais que dão sentido à ação
social em determinado contexto.
Por isso, para Weber, há profunda ligação entre as ciências históricas e a sociologia. Raymond
Aron assim explica esta característica do pensamento de Weber: "Nas ciências da realidade
humana deve-se distinguir duas orientações: uma no sentido da história, do relato daquilo que
não acontecerá uma segunda vez, a outra no sentido da sociologia, isto é, da reconstrução
conceitual das instituições sociais e do seu funcionamento. Estas duas orientações são
complementares. Max Weber nunca diria, como Durkheim, que a curiosidade histórica deve
subordinar-se à investigação de generalidades. Quando o objeto do conhecimento é a
humanidade, é legítimo o interesse pelas características singulares de um indivíduo, de uma
época ou de um grupo, tanto quanto pelas leis que comandam o funcionamento e o
desenvolvimento das sociedades (...) A ciência weberiana se define, assim, como um esforço
destinado a compreender e a explicar os valores aos quais os homens aderiram, e as obras que
construíram".
Mas este processo nunca é acabado, pois "o conhecimento é uma conquista que nunca chega ao
seu termo", fazendo da ciência um vir a ser constante. Aqui, vê-se como Max Weber se distancia
de A. Comte, quando julga impossível que a sociologia possa um dia formular um quadro claro e
definitivo das leis fundamentais da sociedade humana. E se distancia também de Marx, quando
defende que um mesmo acontecimento pode ter causas econômicas, políticas e religiosas, sendo
que nenhuma dessas causas pode ser considerada superior em relação às outras. O que garante a
objetividade da explicação sociológica é o seu método e não a objetividade pura dos fatos.
É impossível fazer um resumo do pensamento de M. Weber em poucas linhas, mas quero
lembrar aqui somente que a sociologia compreensiva de M. Weber, para chegar ao objetivo
proposto acima, trabalha com um instrumento teórico chamado “tipo ideal”. O tipo ideal é um
conceito sociológico construído e testado previamente, antes de ser aplicado às diferentes
situações onde se acredita que ele tenha ocorrido. É um modelo teórico fabricado a partir de
fenômenos isolados ou da ligação entre eles, e que é testado, em seguida, empiricamente.
A. Giddens diz que "um tipo ideal é construído pela abstração e combinação de um indefinido
número de elementos que, embora encontrados na realidade, são raramente ou nunca descobertos
nesta forma específica... Um tipo ideal assim não é nem uma 'descrição' de um aspecto definido
da realidade, nem, segundo Weber, é uma hipótese; mas ele pode ajudar tanto na descrição como
na explicação. Um tipo ideal não é, naturalmente, ideal em sentido normativo: ele não traz a
conotação de que sua realização seja desejável... Um tipo ideal é um puro tipo no sentido lógico
e não exemplar... A criação de tipos ideais não é um fim em si mesmo... o único propósito de
construí-los é para facilitar a análise de questões empíricas".
Weber assim define o tipo ideal na obra A "Objetividade" do Conhecimento nas Ciências
Sociais: "Obtém-se um tipo ideal mediante a acentuação unilateral de um ou vários pontos de
vista, e mediante o encadeamento de grande quantidade de fenômenos isoladamente dados,
difusos e discretos, que se podem dar em maior ou menor número ou mesmo faltar por completo,
e que se ordenam segundo os pontos de vista unilateralmente acentuados, a fim de se formar um
quadro homogêneo de pensamento. Torna-se impossível encontrar empiricamente na realidade
esse quadro, na sua pureza conceitual, pois se trata de uma utopia. A
atividade historiográfica defronta-se com a tarefa de determinar, em cada caso particular, a
proximidade ou afastamento entre a realidade e o quadro ideal (...) Ora, desde que
cuidadosamente aplicado, esse conceito cumpre as funções específicas que dele se esperam, em
benefício da investigação e da representação".
Referência Bibliográfica:
Cf. WEBER, M., Textos Selecionados, São Paulo, Abril Cultural, 19802, Coleção "Os Pensadores"; COHN, G.
(org.) Max Weber: Sociologia, São Paulo, Ática, 19822; WEBER, M., Economia e Sociedade. Fundamentos da
Sociologia Compreensiva, Vol. 1, Brasília, Editora da UnB, 2004; Idem, A Ética Protestante e o Espírito do
Capitalismo, São Paulo, Pioneira/Editora da UnB, 1981; ARON, R., As etapas do pensamento sociológico, pp. 461540.
Cf. WEBER, M., Economia e Sociedade, pp. 15-16.
ARON, R., As etapas do pensamento sociológico, pp. 469-470.
GIDDENS, A., Capitalism and Modern Social Theory. An Analysis of the Writings of Marx, Durkheim and Max
Weber, Cambridge, Cambridge University Press, 1971, pp. 141-142. Citado em CARTER, C. E. & MEYERS, C.
L.(eds.), Community, Identity and Ideology, p. 260.
WEBER, M., A "Objetividade" do Conhecimento nas Ciências Sociais, em COHN, G., Max Weber: Sociologia, p.
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