- Seminário Concórdia

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IGREJA LUTERANA
Revista Semestral de Teologia
1
IGREJA LUTERANA
SEMINÁRIO
CONCÓRDIA
Diretor
Leonerio Faller
Professores
Acir Raymann, Anselmo Ernesto Graff, Clóvis Jair Prunzel, Leonerio Faller, Gerson
Luis Linden, Paulo Moisés Nerbas, Paulo Proske Weirich, Paulo Wille Buss, Raul
Blum, Vilson Scholz
Professores Eméritos
Donaldo Schüler
Leopoldo Heimann
Norberto Heine
IGREJA LUTERANA
ISSN 0103-779X
Revista semestral de Teologia publicada em junho e novembro pela Faculdade de
Teologia do Seminário Concórdia, da Igreja Evangélica Luterana do Brasil (IELB),
São Leopoldo, Rio Grande do Sul, Brasil.
Conselho Editorial
Gerson L. Linden (Editor), Acir Raymann e Lucas Albrecht
Assistência Administrativa
Ivete Terezinha Schwantes e Saulo P. Bledoff
A Revista Igreja Luterana está indexada em Bibliografia Bíblica Latino-Americana
e Old Testament Abstracts.
Os originais dos artigos serão devolvidos quando acompanhados de envelope com
endereço e selado.
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CORRESPONDÊNCIA
Revista Igreja Luterana
Seminário Concórdia
Caixa Postal 202
93001-970 – São Leopoldo/RS
Telefone: (0xx)51 3037 8000
e-mail: [email protected]
www.seminarioconcordia.com.br
2
SUMÁRIO
PALAVRA AO LEITOR
5
ARTIGOS
“PAPAI, OS ANIMAIS VÃO ESTAR NO CÉU?” A FUTURA NOVA TERRA
7
Paul R. Raabe
OS 500 ANOS DO NOVUM INSTRUMENTUM DE ERASMO
24
Vilson Scholz
A NATUREZA PASSIVA DA IGREJA - UMA ANÁLISE DO CONCEITO
DE IGREJA E SUAS IMPLICAÇÕES PARA A VIDA DOS CRENTES
29
Timóteo Felipe Patrício
DO QUE A IGREJA LUTERANA JAMAIS PODERÁ ABRIR MÃO
Jobst Schöne
52
HOMILÉTICA LUTERANA, PREGAÇÃO TELEVISIVA E O ARTIGO VII
DA CONFISSÃO DE AUGSBURGO
Lucas André Albrecht
62
AUXÍLIOS HOMILÉTICOS
AUXÍLIOS HOMILÉTICOS: PUBLICAÇÕES DE 1990 A 2014
81
RESENHAS
PLESS, John T. Martin Luther: Preacher of the Cross
83
Edenilson Gass
SCHEIBLE, Heinz. Melanchthon, uma biografia
86
Horst Kuchenbecker
(Segue)
IGREJA LUTERANA
Volume 75 – Junho 2016 - Número 1
3
VEITH, Gene Edward Jr. Espiritualidade da cruz: os caminhos
dos primeiros evangélicos
87
Timóteo Felipe Patrício
DEVOCIONAIS
SEM MIM VOCÊS NÃO PODEM FAZER NADA!
Vilson Scholz
90
OS VERDADEIROS ADORADORES
Leonerio Faller
93
ELE VIGIA! VOCÊS ESTAGIAM!
Rony Marquardt
99
PALAVRA AO LEITOR
No ano de 2016 a revista Igreja Luterana celebra 75 anos de existência.
É uma data festiva, de gratidão a Deus e de reconhecimento a todos quantos têm participado deste empreendimento, sejam os escritores de artigos,
sermões, auxílios homiléticos e resenhas, bem como os seus leitores. O
desejo da equipe editorial é que esta revista continue a ser instrumento
de crescimento na reflexão sobre a palavra eterna de Deus.
Neste número, Timóteo Patrício, pastor da Igreja Evangélica Luterana
do Brasil em Duque de Caxias, RJ, compartilha sua pesquisa de conclusão
do curso de Especialização em Teologia. Em um tempo de pragmatismo,
em que também a igreja cristã é tentada a ver-se mais como uma empresa
em busca de resultados do que como o corpo de Cristo, que deriva sua
existência do evangelho, Timóteo desenvolve o tema da natureza passiva
da igreja, receptora das dádivas do seu Senhor. Lucas Albrecht, capelão
da Universidade Luterana do Brasil e por mais de dez anos produtor e
apresentador do programa televisivo “Toque de Vida”, oferece elementos da teologia confessional luterana e da arte de escrever e anunciar o
sermão (a “Homilética”) como base para a veiculação da mensagem do
evangelho por meio da televisão. Paul Raabe, professor de exegese do
Antigo Testamento no Concordia Seminary, de St. Louis, escreve sobre
um instigante tema na escatologia bíblica – como será a nova criação? A
tradução foi feita pelo Dr. Acir Raymann, professor de Antigo Testamento
no Seminário Concórdia e Ulbra. O bispo emérito da Igreja Luterana da
Alemanha, Dr. Jobst Schöne, em artigo traduzido pelo Rev. Horst Kuchenbecker, pastor emérito da IELB, reflete sobre elementos fundamentais na
teologia luterana, características da confissão de fé da igreja luterana, que
são dádiva de Deus e compromisso para cada geração desta igreja. Vilson
Scholz, professor no Seminário Concórdia e na Universidade Luterana do
Brasil e Consultor de Tradução da Sociedade Bíblica do Brasil, lembra uma
data marcante um ano antes dos 500 anos da Reforma Luterana – os 500
anos da edição do Novum Instrumentum de Erasmo, obra esta de grande
relevância para o estudo do Novo Testamento.
O leitor de Igreja Luterana teve ao longo de muitas edições os “Auxílios
Homiléticos”, estudos sobre os textos bíblicos lidos nos cultos e que servem
de apoio para o pregador na elaboração de sua mensagem. Nesta edição
Igreja Luterana oferece aos leitores um “mapa” dos auxílios homiléticos
publicados desde 1990.
As resenhas e sermões publicados nesta edição também oferecem,
nos 75 anos de Igreja Luterana, a sugestão de leituras e a reflexão pela
proclamação da palavra de Deus em mensagens proferidas no campus
do Seminário Concórdia. Desejamos ao estimado leitor uma abençoada
leitura.
Gerson L. Linden
Editor
5
ARTIGOS
“PAPAI, OS ANIMAIS VÃO ESTAR
NO CÉU?” A FUTURA NOVA TERRA
Paul R. Raabe1
Uma tira cômica de Calvin e Haroldo mostra Calvin levantando a mão
na sala de aula e perguntando à professora: “Professora Hermengarda,
tenho uma pergunta sobre essa lição de matemática”. A professora lhe dá
a palavra: “Sim?”. Calvin, então, pergunta: “Supondo que, cedo ou tarde,
nós simplesmente vamos morrer, qual é o sentido de aprendermos sobre
números inteiros?” “Vamos para a página 88, crianças”, diz a professora
Hermengarda. Frustrado, Calvin resmunga para si mesmo: “Ninguém gosta
de nós, pessoas com a ‘visão do todo’”. Calvin tem razão. Precisamos ser
pessoas com a “visão do todo”. Isto significa ter apreço pela grandiosa narrativa bíblica que se move da criação à morte e ressurreição corporal de Jesus,
daí à futura ressurreição do corpo e final nova criação escatológica.
Minha filha me pergunta: “Papai, os animais vão estar no céu?”. Minha
resposta imediata era dizer: “Talvez, mas cachorros não”. Entretanto, esta
é uma pergunta frequente e uma boa pergunta. Leva à visão do todo.
Como é a vida pós-ressurreição? Que tipo de futuro escatológico você
apresenta ao seu povo? O que você ensina ao seu povo?
Aonde conduz toda essa metanarrativa? Será que cada um vai perder
sua individualidade e ser absorvido numa envolvente unidade? Será que
seremos reencarnados como reis ou sapos dependendo de quantas boas
obras praticarmos? Será que esta terra será perene e ficará melhor devido
à moderna ciência e tecnologia? Será que o universo repetidamente entrará
em colapso e expansão, colapso e expansão? Ou será que a terra será
aniquilada e entraremos numa realidade ilocável, não espacial chamada
céu? Em nosso futuro corpo ressuscitado andaremos e correremos com
nossos pés? Haverá terra firma no futuro escatológico?
Nós, luteranos confessionais, aderimos ao lema ad fontes (às fontes).
O que o Criador, por meio da sua palavra revelada, tem a dizer sobre o
futuro escatológico? Despendamos um tempo para checar alguns textos
em ambos os testamentos.
1
Tradução do artigo:“Daddy, Will Animals be in Heaven?” The Future of New Earth. Concordia Journal 40 (Spring 2014), p. 148-160. Dr. Paul Raabe é professor de Exegese do
Antigo Testamento do Concordia Seminary, em St. Louis, EUA. Tradução feita pelo Dr. Acir
Raymann. A publicação deste artigo é feita com autorização do autor e do editor da revista
Concordia Journal.
7
IGREJA LUTERANA
DESTRUIÇÃO FUTURA DA CRIAÇÃO CORRUPTA
O que você ensina ao seu povo? Que tipo de futuro você apresenta ao
seu povo? É um futuro que pelo seu próprio poder emerge do presente naturalmente? Pelos avanços na tecnologia e ciência os seres humanos serão
capazes de vencer a morte e a decadência? Podemos por nossos esforços
estabelecer um ambiente perfeitamente ecológico, uma eco-utopia? Será
que a terra continuará para sempre sob o controle humano?
2 PEDRO 3
O universo atual não permanecerá simplesmente como é como também
não convergirá de maneira gradativa para a utopia. Ele será destruído.
O texto clássico que enfatiza esta destruição vindoura está em 2 Pedro
3.1-13. Cito o comentário de Curtis Giese:
[...] para que vos recordeis das palavras que, anteriormente,
foram ditas pelos santos profetas, bem como do mandamento
do Senhor e Redentor, ensinado [anteriormente] pelos vossos
apóstolos, tendo em conta, antes de tudo: que nos últimos dias
escarnecedores virão com seus escárnios, andando segundo
as próprias paixões e dizendo: “Onde está a promessa da sua
vinda? Porque desde que nossos pais dormiram todas as coisas
permanecem como desde o princípio da criação.” Porque, deliberadamente, esquecem que, de longo tempo, houve céus bem como
terra, a qual recebeu sua forma da água e através da água pela
Palavra de Deus, pelas quais [água e Palavra] veio a perecer o
mundo daquele tempo, afogado em água. Ora, os céus que agora
existem e a terra, pela mesma Palavra, têm sido entesourados
para fogo, estando reservados para o dia do juízo e destruição
dos homens ímpios. Há, todavia, uma coisa, amados, que não
deveis esquecer: que, para o Senhor, um dia é como mil anos e mil
anos como um dia. Não retarda o Senhor a sua promessa, como
alguns a julgam demorada; pelo contrário, ele é longânimo para
convosco, não querendo que nenhum pereça, senão que todos
cheguem ao arrependimento. Virá, entretanto, como ladrão o Dia
do Senhor, no qual os céus passarão com estrepitoso estrondo e
os elementos se desfarão abrasados; também a terra e as obras
que nela existem serão descobertas. Visto que todas essas coisas
hão de ser assim desfeitas, deveis ser tais como os que vivem em
santo procedimento e piedade, esperando e apressando a vinda
do Dia de Deus, por causa do qual os céus, incendiados, serão
desfeitos, e os elementos abrasados se derreterão! Nós, porém,
segundo a sua promessa, esperamos novos céus e nova terra,
nos quais habita justiça.2
2
8
GIESE, Curtis P. 2 Peter and Jude: Concordia Commentary. St. Louis: Concordia Publishing
House, 2012, p. 161, 184.
“PAPAI, OS ANIMAIS VÃO ESTAR NO CÉU?” A FUTURA NOVA TERRA
Pedro responde a escarnecedores que afirmam que a criação sempre
foi assim e assim continuará sendo. Giese comenta: “A sua visão do universo é estática. Além do mais, levanta uma questão epistemológica. Os
escarnecedores optam por confiar em suas próprias percepções do que
nas promessas de Deus e no testemunho da Escritura”.3 Contra os escarnecedores, Pedro enfatiza três coisas:
1) A criação não é autônoma. O Criador a trouxe à existência a partir
do nada e lhe deu forma e contorno.
2) No passado a criação não permaneceu a mesma. Ao contrário, o
Criador interveio. Não apenas a criou como também a destruiu.
Tem havido uma sucessão de mundos. O mundo pré-diluviano foi
destruído pelo Criador usando as águas do dilúvio: “veio a perecer
(apollymi) o mundo daquele tempo, afogado em água”.
3) Os céus e terra que agora existem estão sendo “entesourados
para fogo, estando reservados para o dia do juízo e destruição
dos homens ímpios”. Pedro continua a expandir este terceiro ponto. O dia do Senhor virá repentinamente e de forma inesperada
como ladrão de noite. Então os céus “passarão” (parerchomai) e
os elementos4 serão queimados e destruídos (lyo). Então a terra
e as obras que nela existem “serão descobertas/encontradas”
(heurisko). Há uma questão envolvendo a crítica de texto neste
último verbo. Alguns manuscritos trazem “queimadas” (katakaio).
Se lermos “serão descobertas/achadas” (heurisko), o que parece
mais provável, a referência será à maneira que todas as obras
serão expostas, avaliadas e julgadas por Deus no julgamento
escatológico.5
Pedro continua, dizendo: “Nós, porém, segundo a sua promessa,
esperamos novos céus e nova terra, nos quais habita justiça”. Quer ele
dizer que a presente criação será aniquilada na sua substância e substituída por uma realidade fundamentalmente diferente sem terra firma
e sem espaço? Não. A frase “nova terra” não é meramente simbólica.
Assim como a criação pré-diluviana foi destruída, mas não aniquilada
pelo dilúvio, assim também a presente criação será destruída por fogo
3
GIESE, 2 Peter and Jude, p. 173-174.
4
O termo grego stoicheia, “elementos”, designa tanto os corpos celestes como sol, lua e
estrelas quanto os elementos básicos que constituem todo o universo. Cf. GIESE.2 Peter
and Jude, p. 189-190.
5
Um bom paralelo encontra-se em 1 Coríntios 3.12-15.
9
IGREJA LUTERANA
mas não obliterada. O adjetivo “novo” (kainos) significa “novo em qualidade”, não “novo” no sentido de novel ex nihilo.6
Qual é o problema com a presente criação? A presente criação não é
caracterizada por justiça humana (2Pe 3.13). O ímpio mora aqui (2Pe 3.7),
e todas as pessoas na terra são pecadoras e carecem de arrependimento
(2Pe 3.9). Em 2 Pedro 1.4, Pedro fala da “corrupção das paixões que há
no mundo”. Pedro admite a inextrincável conexão entre o pecado humano
e a criação em si.7 Segundo Gênesis 3, o “solo” (’adamah) é amaldiçoado
por causa do homem/Adão (’adam). Para que o Criador tenha uma criação
onde habite a justiça humana, ele deve destruir a presente criação e fazer
novos céus e nova terra.
Nestes novos céus e nova terra “habita justiça”. Com tal expressão
Pedro refere-se à justiça ativa dos crentes, seu caráter e obras justas, seu
“santo procedimento e piedade” (2Pe 3.11). Após a ressurreição do seu
corpo, os cristãos estarão continuamente e de forma perfeita praticando
justiça.8 O lugar onde tal acontece está na nova terra. O verbo “habitar”
(katoikeo), quando usado em relação a pessoas, refere-se à habitação na
terra. Pedro não estava pensando numa realidade completamente diferente
sem terra firma ou espaço. Ele fala do que os cristãos farão na nova terra.
Então, novamente a justiça humana estará “em casa”. Nas palavras de
Martin Franzmann, a meta final para a criação de Deus “à qual ele certa
vez pronunciou Seu ‘muito bom’ (Gn 1.31; 1Tm 4.4), não é extinção mas
restauração e transfiguração”.9 Ou, como afirma Lenski, “Os céus e a terra
serão revivificados, renovados, purificados e aperfeiçoados”.10 Atos 3.21
fala da futura, escatológica “restauração de todas as coisas” – restauração
(apokatastesis), não aniquilação. Pedro concorda com Pedro.
OUTROS TEXTOS A RESPEITO DA FUTURA DESTRUIÇÃO
Pedro encoraja seus leitores a lembrar o que foi falado pelos profetas
do Antigo Testamento e pelo próprio Jesus, o Senhor e Salvador. Os profetas anunciaram o futuro dia de Yahweh quando a presente criação será
6
O adjetivo “novo” (kainos) não implica uma substância totalmente diferente, única. Por
exemplo, conforme 2 Coríntios 5.17, um cristão é uma “nova criatura” (kainektisis) mas
continua sendo o mesmo ser humano de antes.
7
Compare, por exemplo, Isaías 24.4-7.
8
Em 2 Pedro 1.1 o apóstolo se refere à justiça passiva da justificação, “aos que conosco
obtiveram fé igualmente preciosa na justiça do nosso Deus e Salvador Jesus Cristo”. Confira R. C. H. Lenski, The interpretation of the epistles to St. Peter, St. John, and St. Jude.
Columbus: Wartburg Press, 1945, p. 247-253.
9
ROEHRS, Walter R. e FRANZMANN, Martin H. Concordia Self-study commentary. St. Louis:
Concordia Publishing House, 1979, s.v. Second Peter 3.
10
LENSKI, R. C. H. The interpretation of the epistles to St. Peter, St. John, and St. Jude.
Columbus: Wartburg Press, 1945, p. 350.
10
“PAPAI, OS ANIMAIS VÃO ESTAR NO CÉU?” A FUTURA NOVA TERRA
destruída (por exemplo: Is 34.4; 51.6; Jr 4.23-26; Jl 2.30-31; Sf 1.2-3;
cf. Sl 102.25-27 = Hb 1.10-12). Alguns textos proféticos falam da criação
sendo consumida por fogo (Is 30.30; 66.15-17; Sf 1.18; 3.8). O próprio
Jesus falou da futura destruição do presente universo. No seu discurso
escatológico, por exemplo, ele afirma: “Passará (parerchomai) o céu e
a terra, porém as minhas palavras não passarão” (Mt 24.35; Mc 13.31;
Lc 21.33; cf. Mt 5.18). Assim também afirma o apóstolo João. Conforme
Apocalipse, na segunda vinda de Cristo a terra e os céus vão fugir (Ap
20.11; cf. 6.14); o primeiro céu e a primeira terra passaram (Ap 21.1). A
descontinuidade é clara. A criação atual, corrompida pelo pecado, morte
e decadência passará.
FUTURA NOVA CRIAÇÃO
O que você ensina ao seu povo? Aonde vai toda essa metanarrativa?
Será que o Criador criou a terra para suas criaturas humanas viverem junto
com os animais no aqui-e-agora, mas no eschaton futuro aniquilará a terra
e dela removerá suas criaturas humanas que nEle creem para viver na sua
presença para sempre – sem animais, sem árvores, sem espaço, senão
apenas o Deus Triúno com as criaturas humanas e os anjos?11 É o futuro
apenas céus, e terra não mais? Que tipo de futuro escatológico você deve
apresentar ao seu povo? Quais, afinal, são as promessas de Deus?
ROMANOS 8
Embora haja destruição para a presente criação, haverá também uma
nova criação com significativa continuidade entre ambas. A nova criação
do futuro não será uma realidade inteiramente nova sem espaço ou terra.
O texto clássico que enfatiza esta continuidade está em Romanos 8.17-23.
Do comentário aos Romanos de Michael Middendorf:
e, [visto que somos] filhos, também [somos] herdeiros, herdeiros de Deus e coerdeiros de Cristo; se é certo que com ele
padecemos, para que também com ele sejamos glorificados. Pois
tenho para mim que as aflições deste tempo presente não [são]
de igual valor [comparadas] com a glória que em nós há de ser
revelada. Porque a criação aguarda com ardente expectativa a
revelação dos filhos de Deus. Porquanto a criação ficou sujeita
à vaidade, não por sua vontade, mas por causa daquele que a
sujeitou, na esperança de que também a própria criação há de
ser liberta do cativeiro da corrupção, para a liberdade da glória
11
Pelo que entendo, esta parece ser a visão de Johann Gerhard, o clássico dogmático luterano
do século 17. Confira seu Loci Theologici, sob de consummatione seculie de vita aeterna.
Veja também Robert O. Neff Jr. The Preservation and Restoration of Creation with a Special
Reference to Romans 8:18-23. ThD Dissertation, Concordia Seminary, St. Louis, 1980.
11
IGREJA LUTERANA
dos filhos de Deus. Porque sabemos que toda a criação, conjuntamente, geme e está com dores de parto até agora. E não só
ela [criação], mas até nós, que temos as primícias do Espírito,
também gememos em nós mesmos, aguardando a nossa adoção,
a saber, a redenção do nosso corpo.12
Aqui o apóstolo Paulo estabelece um contraste.13 Contrasta os sofrimentos do tempo presente com a glória da era por vir. A própria criação
tem “ardente expectativa”. O substantivo no versículo 19, apokaradokia
sugere a imagem de uma pessoa esticando seu pescoço para frente para
enxergar o que está por vir. Esta “criação aguarda com ardente expectativa” o futuro escatológico. Paulo usa o verbo apekdechomai para a
ardente expectativa que integra a esperança cristã (Rm 8.19, 23, 25;
1Co 1.7; Gl 5.5; Fp 3.20). A criação compartilha a esperança cristã. O
apóstolo enfatiza a intensidade destes anseios escatológicos. No versículo
22 sustenta que “toda a criação, conjuntamente, geme e está com dores
de parto até agora”.
Nos versículos 21-22 Paulo explica porque a criação está em ardente
expectativa. Pois a criação ficou sujeita por Deus à vaidade, não voluntariamente (mataiotes). Ela não pode alcançar seu objetivo. No momento
está sob o “cativeiro da corrupção”. Paulo está se referindo a Gênesis 3
onde o Criador colocou a criação sob maldição. Escreve Middendorf: “Por
vezes a corrupção da criação é a causa do sofrimento humano; outras
vezes a criação sofre devido à ação da humanidade caída”.14 Note-se que
Paulo faz distinção entre a criação em si e a “vaidade” e o “cativeiro da
corrupção” que ela agora vivencia. Traz à lembrança a distinção enfatizada
pela Fórmula de Concórdia, artigo I, a distinção entre a natureza humana
em si e o pecado original que a corrompe profundamente.15 A “vaidade”
e “corrupção” vão desaparecer, mas não a criação como tal.
A criação foi submetida por Deus à vaidade “na esperança de que também a própria criação há de ser liberta do cativeiro da corrupção, para a
liberdade da glória dos filhos de Deus”. O futuro escatológico da criação em
12
MIDDENDORF, Michael. Romans 1-8. Concordia Commentary. St. Louis: Concordia Publishing House, 2013, p. 635, 656.
13
John Reumann argumenta que Romanos 8.19-22 é um fragmento apocalíptico de outra fonte.
Segundo Reumann, embora Paulo empregue esse argumento para enfatizar a dimensão
já-ainda não, o interesse de Paulo é supostamente com pessoas, não com criação. Contudo,
Paulo explicitamente afirma o que os versículos 19-22 atestam ao dizer no versículo 23
“E não somente” a criação geme mas também nós. REUMANN, John. Creation and New
Creation: The Past, Present, and Future of God´s Creative Activity. Minneapolis: Augsburg,
1973, p. 98-99.
14
MIDDENDORF, op. cit., p. 670.
15
KOLB, Robert e WENGERT, Timothy J., ed. “The Formula of Concord I: Concerning Original
Sin”. In The Book of Concord. Minneapolis: Fortress, 2000, p. 487-491, 531-542.
12
“PAPAI, OS ANIMAIS VÃO ESTAR NO CÉU?” A FUTURA NOVA TERRA
si é a liberdade que aguarda os filhos de Deus. Não é uma forma diferente
de liberdade como a que resulta de aniquilação, como se Deus fosse livrar
da sua miséria a criação que geme aniquilando-a. Não, a criação desfrutará
a mesma liberdade que será vivenciada pelos filhos de Deus: liberdade
da corrupção, liberdade da vaidade. A criação em si será glorificada com
a mesma glória que os filhos de Deus irão experimentar.
Paulo sublinha que o destino futuro da criação está amarrado ao futuro
destino dos filhos de Deus. A criação agora sofre dores de parto até que
dê à luz a uma nova criação quando nossos corpos mortais forem ressuscitados dos mortos e glorificados. A criação em si tem um futuro glorioso
de liberdade. Não apenas a criação como também nós mesmos na medida
em que ardentemente aguardamos nosso futuro de adoção como filhos de
Deus, a redenção do nosso corpo. Assim como o gemido da criação e o
nosso gemido estão amarrados, assim também estão amarrados o futuro
da criação e o nosso futuro.
APOCALIPSE 2
Junto com a criação, aguardamos a nova criação. Conforme Pedro:
“Nós, segundo a sua promessa, esperamos novos céus e nova terra, nos
quais habita justiça” (2Pe 3.13).
Em Apocalipse, João usa linguagem similar.
E vi um grande trono branco e Aquele que estava assentado sobre
ele, de cuja presença fugiram a terra e o céu; e não foi achado
lugar para eles [...]. E vi um novo céu e uma nova terra. Porque
já se foram o primeiro céu e a primeira terra, e o mar já não
existe. E vi a santa cidade, a nova Jerusalém, que descia do céu
da parte de Deus, adereçada como uma noiva ataviada para o seu
esposo. E ouvi uma grande voz, vinda do trono, que dizia: “Eis
que o tabernáculo de Deus está com os homens, pois com eles
habitará, e eles serão o seu povo, e Deus mesmo estará com eles
[como seu Deus].16 Ele enxugará de seus olhos toda lágrima; e
não haverá mais morte, nem haverá mais pranto, nem lamento,
nem dor; porque as primeiras coisas passaram. E Aquele que
estava assentado sobre o trono disse: Eis que faço novas todas
as coisas. E acrescentou: Escreve; porque estas palavras são
fiéis e verdadeiras.17
Na sua visão, João vê uma nova criação. Os atuais céus e terra fugiram, desapareceram e não foi achado lugar para eles (Ap 20.11). João
16
Sobre crítica de texto em relação às palavras autontheos (“seu Deus”), veja BRIGHTON,
Louis A. Revelation. St. Louis: Concordia Publishing House, 1999, p. 589.
17
Ibid., p. 580, 588.
13
IGREJA LUTERANA
viu um novo céu e uma nova terra. Viu a Jerusalém celeste descendo
para a nova terra (confira também Ap 5.12). Naquele dia por vir o céu
estará na terra. Apenas Deus pode fazer com que tal aconteça. E o que
João conclui a partir disso? Que Deus habitará com os homens, o Criador
com suas criaturas humanas (anthropoi). O pressuposto por trás desta
afirmação é que os humanos são criaturas terrenas. Se for o caso de haver comunhão entre Criador e humanos, humanos não ascendem, mas o
Criador desce à terra.
Ecoando a afirmação de Jesus, João diz: “as primeiras coisas passaram”
(aperchomai). Então Aquele que estava sentado no trono disse: “Eis que
faço novas todas as coisas”. Ambas as afirmações estão juntas. A segunda
afirmação não diz que Deus faz tudo novas coisas como se criasse tudo ex
nihilo, mas que Deus faz todas as coisas (panta) que agora existem novas
(kaina). Esta segunda afirmação nos ajuda a entender a primeira. Quando
coisas velhas são tornadas em coisas novas, então as coisas velhas “passaram”. Não mais existem como coisas velhas (cf. 2Co 5.17). Brighton comenta que “Deus não aniquilará a presente criação, jogada fora como lixo,
mas antes, por recriação, transformará a velha em nova”.18 João continua,
descrevendo a Jerusalém futura e o futuro jardim do Éden com a árvore da
vida. Tudo é muito físico e material, um futuro céu na terra.
ISAÍAS 65
A linguagem de Pedro e João sobre “o novo céu e a nova terra” provém
de Isaías 65.17-25, o grande vidente de antanho. A tradução é de Reed
Lessing no seu comentário sobre Isaías 56-66.
Pois eis que eu crio novos céus e nova terra;
e não haverá lembrança das coisas passadas,
jamais haverá memória delas.
Mas vós folgareis e exultareis perpetuamente no que eu crio;
porque eis que crio para Jerusalém alegria
e para o seu povo, regozijo.
E exultarei por causa de Jerusalém
e me alegrarei no seu povo,
e nunca mais se ouvirá nela nem voz de choro nem de clamor.
Não haverá mais nela criança [de] poucos dias.
Nem velho que não cumpra os seus dias;
porque o jovem morrerá aos cem anos.
18
14
BRIGHTON, op. cit., p. 601. Brighton faz referência a G. B. Caird. The Revelation of St.
John the Divine. New York: Harper and Row, 1966, p. 265.
“PAPAI, OS ANIMAIS VÃO ESTAR NO CÉU?” A FUTURA NOVA TERRA
E quem errar o alvo dos cem anos será tido como
amaldiçoado.
Eles edificarão casas e nelas habitarão;
plantarão vinhedos e comerão o seu fruto.
Não edificarão para que outros habitem;
não plantarão para que outros comam;
porque a longevidade do meu povo será como a da árvore,
e os meus eleitos desfrutarão de todo as obras das suas
próprias mãos.
Não trabalharão em vão,
nem terão filhos para a calamidade,
porque[serão] posteridade, bendita do SENHOR,
e os seus descendentes com eles.
E será que, antes que clamem, eu responderei;
estando eles ainda falando, eu os ouvirei.
O lobo e o cordeiro pastarão juntos.
E o leão comerá palha como o boi;
Mas [para] a serpente pó será sua comida.
Eles não farão mal nem dano algum em todo o meu
santo monte, diz o SENHOR.
Isaías anuncia o dia escatológico do Senhor, quando o Senhor vai criar
os novos céus e a nova terra. A nova criação excederá tanto a criação
atual de maneira que nem mesmo nos lembraremos das coisas passadas.
Junto com a nova criação estará uma nova Jerusalém que se alegra no
Senhor e o Senhor nela se alegra. Como Isaías em outro lugar enfatiza,
a glória do Senhor encherá a terra, e toda a terra conhecerá Yahweh.19
O versículo 20 dá um hipotético: se alguém fosse morrer, não morreria
antes dos cem anos. Todos viverão por muito tempo. Antes, em Isaías
25, o profeta anuncia que a morte será engolida (v. 8). Conforme Isaías
65.21-23, o povo de Deus construirá casa, plantará vinhedos e se alegrará
com o trabalho das suas mãos. “Não trabalharão em vão” (v.23). A futura
nova criação será o reverso da maldição de Gênesis 3, uma nova terra
onde o povo de Deus está ativo, realizando atividades construtivas.
Então Isaías repete a imagem dos animais que descrevera em Isaías
11. Quando a nova criação escatológica vier, então “o lobo e o cordeiro
pastarão juntos, e o leão comerá palha como o boi” (Is 65.25). Então
19
Veja Isaías 6.3 e 11.9. Sobre 6.3, confira Andrew H. Bartelt.“The Centrality of Isaiah 6
(-8) Within Isaiah 2-12”. Concordia Journal 30 (October 2004), p. 316-335, especialmente
328.
15
IGREJA LUTERANA
predador e presa viverão juntos de forma pacífica e harmoniosa. Então os
animais carnívoros se tornarão herbívoros. Então os animais predadores
“não farão mal nem dano algum em todo o meu santo monte”, diz Yahweh.
Na presença de Yahweh, humanos e animais viverão em harmonia. Haverá uma nova criação constituída pelo próprio Criador. Por meio do seu
profeta, o próprio Criador prometeu nova criação com animais. Não temos
base alguma para descartar esta promessa como meramente simbólica. O
Criador vai recuperar sua bagunçada criação – os animais inclusive.
TEOLOGIA DA TERRA NO ANTIGO TESTAMENTO
A linguagem de Isaías deve ser entendida na perspectiva da rica teologia
da terra no Antigo Testamento.20 Em Gênesis 12, Deus promete a Abrão:
“a tua descendência darei esta terra” (v.7). De novo e de novo, Deus
repetia esta promessa a Isaque, a Jacó e aos filhos de Jacó. Anos mais
tarde quando os filhos de Jacó/Israel se achavam em escravidão no Egito,
Deus desceu para os libertar e os conduzir à terra que lhes prometera
dar. Contrário de um deserto, a terra prometida seria quase igual a um
novo jardim do Éden:
Porque o SENHOR, teu Deus, te faz entrar numa boa terra, terra
de ribeiros de águas, de fontes, de mananciais profundos, que
saem dos vales e das montanhas; terra de trigo e cevada, de
vides, figueiras e romeiras; terra de oliveiras, de azeite e mel; terra em que comerás o pão sem escassez, e nada te faltará nela;
terra cujas pedras são ferro e de cujos montes cavarás o cobre.
Comerás, e te fartarás, e louvarás o SENHOR, teu Deus, pela boa
terra que te deu. (Dt 8.7-10)
Então, por meio de Josué, Deus começa a cumprir a sua promessa.
Israel não tomou a terra; Deus a deu a Israel como dádiva imerecida.
Israel herdou a terra. Por meio daquela terra, Deus prometeu abençoar
seu povo da aliança. A terra foi um presente e instrumento de bênção do
Deus de Israel. Ao mesmo tempo, a vida de Israel naquela terra deveria
ser distinta. Deus chamara seu povo da aliança para viver na terra andando
nos caminhos de Deus, não no caminho das outras nações. Caso imitasse
as outras nações, Deus o expulsaria da terra. É terra santa para um povo
santo sob um Deus santo.
20
16
Uma boa introdução sobre a teologia da terra no Antigo Testamento se acha em Elmer A.
Martens. God´s Design: a Focus on Old Testament Theology. Grand Rapids: Baker Book
House, 1981; Christopher J. H. Wright. An Eye for an Eye: The Place of Old Testament
Ethics Today. Downers Grove: InterVarsity Press, 1983.
“PAPAI, OS ANIMAIS VÃO ESTAR NO CÉU?” A FUTURA NOVA TERRA
O resto da história você conhece. Israel repetidamente rebelou-se
até que teve de enfrentar a justa ira de Deus. O norte foi levado a exílio
em 732 a.C. e Samaria, sua capital, em 722 a.C. Judá foi exilada em 701
a.C., ficando apenas Jerusalém. Então, um século mais tarde, em 587
a.C., Jerusalém foi exilada.
AMÓS 9
Mas este não foi o fim da história. Por meio dos seus profetas, Deus
prometera que traria seu povo exilado de volta à terra. Amós 9.11-15 é
um bom exemplo. A tradução é de Reed Lessing no seu comentário sobre
Amós.
Naquele dia, levantarei o tabernáculo caído de Davi,
repararei as suas brechas;
levantarei as suas ruínas,
restaurá-lo-ei como fora nos dias da antiguidade;
para que possuam o restante de Edom,
a saber, todas as nações que são chamadas pelo meu nome,
diz o SENHOR, que faz estas coisas.
Eis que vêm dias,
diz o SENHOR,
em que o que lavra segue logo ao que ceifa,
e o que pisa as uvas, [segue logo] ao que lança a semente;
os montes destilarão vinho doce,
e todos os outeiros se derreterão [com grãos].
Restaurarei a restauração do meu povo de Israel;
reedificarão as cidades assoladas e nelas habitarão,
plantarão vinhas e beberão o seu vinho,
farão pomares e lhes comerão o fruto.
Plantá-los-ei na sua terra,
e, dessa terra que lhes dei, já não serão arrancados,
diz o SENHOR, teu Deus.21
Ao tempo de Amós a casa de Davi era uma tapera pronta a cair. Deus
iria derrubar a tapera de Davi e exilar seu povo. Deus prometera, entretanto, que iria reedificar a casa de Davi, restaurar seu povo, incorporar
gentios ao seu povo e frutificar a terra.
21
LESSING, R. Reed. Amos. Concordia Commentary. St. Louis: Concordia Publishing House,
2006, p. 575.
17
IGREJA LUTERANA
Deus começa a cumprir sua promessa de restauração trazendo seu povo
do exílio à terra onde construíram suas casas, plantaram seus vinhedos e
ornaram seus jardins. Estava claro, porém, que a promessa ainda aguardava seu pleno cumprimento. As safras da terra não eram abundantes e
o Messias da linhagem de Davi ainda não tinha vindo.
Esta e outras promessas semelhantes tiveram seu pleno cumprimento
com a primeira vinda de Jesus e sua igreja. Por dois mil anos temos testemunhado a vinda de gentios ao Messias de Israel e o nome de Yahweh
a eles proclamado. Na verdade, nós cristãos gentios somos parte desse
cumprimento de Amós 9.12 (cf. Atos 15.13-18). Contudo, há ainda um
já-ainda não. A promessa aguarda ainda sua plena consumação quando
a terra terá safras abundantes e os montes destilarão doce vinho.22
Que faz Jesus com esse tipo de promessa de terra? Ele a amplia. O
Salmo 37 prometia que “os mansos herdarão a terra” (v.11); “aqueles a
quem o SENHOR abençoa possuirão a terra” (v. 22); “os justos herdarão
a terra e habitarão nela para sempre” (v. 29). Jesus expande a promessa
ao dizer: “bem-aventurados os mansos porque herdarão a terra” (Mt 5.5).
Jesus promete a futura nova criação escatológica.23 A terra prometida do
Antigo Testamento se torna a nova terra escatológica. Atente para Romanos
4.13: “A Abraão e sua descendência coube a promessa de ser herdeiro do
mundo [...]”. O mundo se torna a terra de Canaã. À luz do cumprimento
em Cristo, “a terra de Canaã original e a cidade de Jerusalém foram nada
mais que cumprimento antecipado das promessas de Deus. Como tais,
elas funcionam na Escritura como sinal da futura cidade universal na terra
renovada, o lugar onde habita justiça”.24
OSÉIAS 2
E o que dizer dos animais? Isaías descreve animais vivendo em paz
na futura nova criação. Oséias faz promessa similar em Oséias 2. Deus
anunciara que puniria os israelitas idólatras devastando seus vinhedos e
figueiras permitindo que animais do campo os devorassem (Os 2.12). O
Criador pune pela reversão da criação. Mas logo Deus promete abençoar
restaurando a criação. Mais adiante em Oséias 2, Deus promete fazer
nova aliança, só que esta aliança será com animais e para o benefício de
Israel.
22
Semelhantes promessas a respeito da terra enfatizam o mesmo tipo de fecundidade da
terra por vir. Veja Horace D. Hummel. Ezekiel 21-48. Concordia Commentary. St. Louis:
Concordia Publishing House, 2006, p. 1333-1337.
23
GIBBS, Jeffrey A. Matthew 1.1-11.1. Concordia Commentary. St. Louis, 2006, p. 112.
24
HOLWERDA, David E. Jesus and Israel: One Covenant or Two? Grand Rapids: Eerdmans,
1995, p. 112.
18
“PAPAI, OS ANIMAIS VÃO ESTAR NO CÉU?” A FUTURA NOVA TERRA
Naquele dia, farei a favor dela aliança com as bestas-feras do
campo, e com as aves do céu, e com os répteis da terra; e tirarei
desta o arco, e a espada, e a guerra e farei o meu povo repousar
em segurança. (Os 2.18)
Esta aliança com os animais relembra ao leitor a aliança após o dilúvio.
Deus prometera a Noé e seus filhos: “Eis que estabeleço a minha aliança
convosco, e com a vossa descendência, e com todos os seres viventes
que estão convosco: tanto as aves, os animais domésticos e os animais
selváticos que saíram da arca; todos os animais da terra” (Gn 9.9,10). Deus
cuida de toda a sua criação, não apenas a humana. Teve muito cuidado em
salvar cada espécie de animal por ocasião do dilúvio. Deus inclui animais
na sua aliança pós-diluviana. Então, através de Oséias promete uma nova
aliança com os animais. Aqui a ênfase recai sobre o caráter benigno deles.
Eles não mais irão ameaçar ou ferir o Israel restaurado de Deus.
ESCATOLOGIA PROLÉPTICA: JESUS COM OS ANIMAIS SELVAGENS
E eis que Jesus de Nazaré permaneceu quarenta dias e quarenta noites
no deserto e “estava com as feras” (Mc 1.13). Feras (no grego theria)
eram vistas tipicamente como perigosas ameaças aos humanos, animais
tais como ursos, leopardos, lobos e serpentes venenosas. Na sua condição
frágil, vulnerável, Jesus “estava com as feras”. Entretanto, as feras selvagens do deserto não feriram Jesus. No evangelho de Marcos, a expressão
“estar com alguém” indica companhia próxima e amistosa (Mc 3.14; 5.18;
14.67; cf. 4.36).25 Este é um exemplo que John Voelz chama de “escatologia
proléptica”. Jesus inaugurou a futura nova criação escatológica à frente do
tempo. Como diz Jim Voelz no seu comentário sobre Marcos: “seu estar
com as feras selvagens (theria) encarna a nova relação entre os velhos
elementos hostis da antiga criação e o povo de Deus”.26 É importante que
vislumbremos as promessas do Antigo Testamento via Cristo e o Novo
Testamento. À luz de Marcos 1.13 podemos concluir que a promessa do
Antigo Testamento de animais pacíficos não é mero simbolismo. Os dias
em que Jesus, o Messias, o último Adão, estava com os animais selvagens
forneceram visível promessa que na futura nova criação haverá perfeita
harmonia entre as criaturas humanas de Deus e os animais.
25
Veja BAUCKHAM, Richard. “Jesus and Animals II: What did he Practice?”. In Animals on
the Agenda: Questions about Animals for Theology and Ethics. Andrew Linzey e Dorothy
Yamamoto, ed. Urbana, IL: University of Illinois Press, 1998, p. 47-60, especialmente 5460.
26
VOELZ, James W. Mark 1-8. Concordia Commentary. St. Louis: Concordia Publishing House,
2013, p. 136-137.
19
IGREJA LUTERANA
EXORTAÇÕES
Os textos bíblicos claramente descrevem um futuro escatológico caracterizado tanto por descontinuidade quanto por continuidade. Os dois
conjuntos de textos precisam ser enfatizados. A presente criação passará
e o Criador criará uma nova criação. Destes textos gostaria de extrair
algumas sugestões práticas para os pastores.
Percebo que de maneira frequente tanto na pregação como no ensino
não se faz suficiente uso do tempo futuro. Uma importante via para se
articular a lei é pregar as ameaças, e uma importante via para se articular o
evangelho é pregar as promessas. Ameaças e promessas são, por definição,
declarações do tempo futuro. Cuidado com a escatologia super-realizada.
Há ainda um ainda-não. Há coisas na narrativa total de Deus que ainda
não aconteceram. Faça uso frequente do tempo futuro.
Ao anunciar as ameaças de Deus, você está alertando os pecadores a
retornar do pecado a Deus antes que seja tarde. Alertar é um importante
ato discursivo. E ao proclamar as promessas de Deus você estará inculcando esperança em seus ouvintes de forma que estarão aguardando em
ardente expectativa a parusia, o dia da ressurreição, o dia da nova criação.
Por meio da sua pregação de ameaças e promessas de Deus, o Espírito
Santo cria e fortalece as expectativas escatológicas do povo.
As Escrituras não falam dos cristãos “subindo” por ocasião da ressurreição do corpo. A ascensão de Cristo não é paradigma escatológico para
nós. A descrição bíblica do último dia não é que nós ascendemos ao céu,
mas que Cristo, em glória pública e visível, descerá até nós. Mesmo um
texto como Filipenses 3.20, que fala da nossa cidadania nos céus, não
afirma que no fim nós iremos aos céus, mas, sim, que Jesus Cristo virá
novamente em glória para nos transformar.27 Assim como Deus desceu
até nós e tornou-se carne, assim no último dia Deus em carne descerá
até nós. Oremos com Isaías: “Oh! Se fendesses os céus e descesses!”
(Is 64.1).
Fale sobre o futuro da maneira que a Escritura fala sobre o futuro. Em
vez de usar apenas a palavra “céu” para designar o futuro, fale do futuro
como “céus na terra” a la Apocalipse 21. Ou, então, simplesmente diga “a
terra” como em “Bem-aventurados os mansos porque herdarão a terra”
(Mt 5.5) ou que o povo de Deus “reinará sobre a terra” (Ap 5.10). Em vez
de empregar o verbo “ir” dando a ideia de deixar a terra para trás, use
expressões bíblicas tais como “herdar a terra”, “herdar o reino”, “entrar
na vida eterna”.
27
20
Veja WRIGHT, N. T. Paul: In Fresh Perspective. Minneapolis: Fortress Press, 2005, p.
143.
“PAPAI, OS ANIMAIS VÃO ESTAR NO CÉU?” A FUTURA NOVA TERRA
Siga as Escrituras ao descrever a vida na eternidade como ativa, dinâmica, envolvendo culto e trabalho e tudo na imediata presença do Deus
Triúno. Muitas vezes descrevemos a futura vida eterna como uma chatice.
Não é desta forma que a Escritura a descreve.28
ANIQUILAÇÃO OU TRANSFORMAÇÃO
Francis Pieper, na sua magistral dogmática, debate o futuro “fim do
mundo”.29 Ele observa que nossos teólogos luteranos de antanho discordavam em como entender o “passar” do mundo. Será uma total aniquilação segundo a substância ou será uma transformação? Lutero, Brenz,
Nicolai e outros ensinavam a transformação, enquanto Johann Gerhard,
Quenstedt e Calov ensinavam a aniquilação segundo a substância. Pieper
segue Gerhard, preferindo a ideia da aniquilação, mas deixa a questão
em aberto.
Parte do meu propósito aqui é reabrir esse debate. Será o fim da terra
firma e do espaço? Será o futuro dos crentes no dia da ressurreição do
corpo longe da terra nos céus, definido não como um lugar, mas “onde
Deus se revela na sua glória desoculta, ‘face a face’?30 Tem a futura ressurreição do corpo para os cristãos como paradigma a ascensão de Cristo
de sorte que nós também vamos ascender? Leva a ampla narrativa ao
objetivo de que ascenderemos à imediata, visível presença de Deus onde
não haverá árvores, nem animais, nem terra firma ou espaço? Ou é objetivo da narrativa uma nova criação, céus e terra onde a imediata, visível
presença de Deus habitará no meio do seu povo? Haverá uma nova terra
física, terra firma com árvores e animais? Terá o povo de Deus trabalho
a fazer como mordomos dessa nova criação?
O QUE ESTÁ EM JOGO AQUI?
Há muita coisa em jogo na questão do futuro último da criação em si.
Irá o Criador recuperar a sua criação, ou não? Se a terra física, a terra
firma, for um dia aniquilada e formos viver para sempre com Deus numa
realidade completamente alternativa sem espaço, então o Criador acabará
descartando a sua criação. Hoekema assim se expressa:
Se Deus tivesse de aniquilar o presente cosmo, Satanás teria
obtido uma grande vitória. Pois Satanás teria tido tanto sucesso
28
Para um debate provocativo e desafiador sobre como a Escritura descreve a futura nova
criação, veja Randy Alcorn. Heaven. Carol Stream, IL: Tyndale, 2004.
29
PIEPER, Francis. Christian Dogmatics III. St. Louis: Concordia Publishing House, 1953;
original: Christliche Dogmatik III publicada em 1920, p. 542-543.
30
PIEPER, op. cit., p. 553.
21
IGREJA LUTERANA
na devastadora corrupção do presente cosmo e da terra atual
que Deus não poderia fazer outra coisa senão riscar totalmente
a existência dela. Satanás, contudo, não obteve tal vitória. Pelo
contrário, Satanás foi decisivamente vencido. Deus revelará as
dimensões plenas dessa derrota quando renovar esta mesma
terra na qual Satanás enganou a humanidade e finalmente
banir dela todos os resquícios das maléficas maquinações de
Satanás.31
No último dia o Criador irá recuperar sua criação corrompida assim
como irá recuperar suas criaturas humanas pecadoras. Como enfatiza
Romanos 8, o futuro da criação em si está amarrado ao futuro dos filhos
de Deus.
Os textos bíblicos que vimos estão claramente do lado da nova criação.
Isto é verdade especialmente se deixarmos que o Antigo Testamento tenha
palavra nesse debate. As Escrituras do Antigo Testamento nos mantêm
com os pés no chão.
Em toda parte, elas pressupõem e afirmam a bondade da criação de Deus. Os antigos israelitas eram um povo pé-no-chão,
em grande parte agricultores e donos de ovelhas e cabritos.
Alegravam-se com a sua vida física concreta. Sua esperança não
era tornar-se deificados ou divinizados, mas viver em comunhão
com YHWH de maneira humana plena, do jeito que o Criador os
fez e pretendia que fossem. Viver debaixo do teu próprio vinhedo
e figueira, apreciar os frutos dos teus próprios campos, degustar
o vinho da tua própria videira – esta é a vida boa. “Se ficar melhor, estraga”. Ninguém chanfrado nas telúricas Escrituras a.C.
seria tentado ao Gnosticismo, Dualismo platônico, Docetismo,
asceticismo ou espiritualismo, alternativas prevalentes hoje como
jamais foram.32
CONCLUSÃO
Vocês cristãos têm um futuro brilhante a sua frente. O Senhor Jesus
voltará visivelmente em glória e transformará o seu corpo humilde para
ser igual ao seu corpo glorioso. Então ele dirá a vocês, suas ovelhas:
“Vinde, benditos de meu Pai! Herdai o reino que vos está preparado desde
a fundação do mundo”. E você entrará na nova e magnífica terra prometida, a nova criação, onde a colheita será abundante, os rios destilarão
com vinho novo e o lobo repousará com o cordeiro. Então você verá o seu
31
HOEKEMA, Anthony A. The Bible and the Future. Grand Rapids: Eerdmans, 1979, p. 281.
32
RAABE, Paul R. “Why the BC Scriptures Are Necessary for the AD Church”. Lutheran Forum
(Summer 1998), p. 11-12.
22
“PAPAI, OS ANIMAIS VÃO ESTAR NO CÉU?” A FUTURA NOVA TERRA
Criador e Salvador como ele é, face a face. Então o nome de Deus será
santificado de maneira perfeita, seu reino virá em toda a sua plenitude
e sua vontade será realizada de forma perfeita na terra. Que futuro de
eterna alegria e felicidade! Vem, Senhor Jesus, vem depressa!
23
OS 500 ANOS DO NOVUM INSTRUMENTUM
DE ERASMO
Vilson Scholz1
Com os olhos voltados para 2017, ano do quinto centenário das 95
teses de Lutero, facilmente se pode esquecer, ainda em 2016, outra data
comemorativa importante, a saber, os 500 anos do Novo Testamento
editado por Erasmo de Roterdã (1467/9 - 1536). Mas a data não passou totalmente despercebida. A revista The Bible Translator, publicada
pelas Sociedades Bíblicas Unidas, preparou um número especial, o de
abril de 2016, dedicado ao Novo Testamento que foi editado por Erasmo
e publicado em 1516. Nesse número aparece, entre outros, um artigo
do renomado crítico textual John Keith Elliott e também de Henk Jan de
Jonge, um especialista em Erasmo. Como a maioria dos nossos leitores
dificilmente terá acesso a esse número da revista The Bible Translator,
julgamos interessante compartilhar e comentar alguns dados colhidos da
leitura desses artigos.
MAIS QUE EDIÇÃO GREGA, UMA TRADUÇÃO LATINA
O primeiro dado interessante é que essa edição do Novo Testamento
foi intitulada Novum Instrumentum (Novo Instrumento), e não Novo Testamento (em latim ou grego). Na verdade, só passou a se chamar Novum
Testamentum a partir da segunda edição, que é de 1519. O fato de o
título estar em latim já deveria levar o leitor a perguntar se aquela era
de fato uma edição do Novo Testamento Grego. Na intenção de Erasmo,
não foi. Ele queria mesmo apresentar uma nova tradução latina do Novo
Testamento. A Vulgata havia reinado sozinha durante mais de mil anos.
Erasmo preparou uma tradução concorrente à Vulgata, adotando um latim
mais renascentista. Queria não tanto desbancar a Vulgata, o que teria sido
muita pretensão, mas corrigir essa tradução que, na opinião dele, havia
sido alterada com o passar do tempo. Neste sentido, Erasmo se via como
um novo Jerônimo, inclusive pela autorização e recomendação papal que
obteve para essa edição. Para justificar suas decisões tradutórias, especialmente as divergências em relação à Vulgata, Erasmo publicou também
o texto grego. Para fins de registro, é preciso acrescentar que a primeira
publicação de um Novo Testamento Grego apenas com o texto grego foi
1
Dr. Vilson Scholz é professor do Seminário Concórdia e ULBRA e Consultor de Traduções
da Sociedade Bíblica do Brasil
OS 500 ANOS DO NOVUM INSTRUMENTUM DE ERASMO
feita por Nicholas Gerbel, em 1521. Fosse hoje, seria considerada uma
edição pirata, pois Gerbel simplesmente imprimiu o texto grego editado
por Erasmo, sem dar crédito a ele.
O LIVRO COMO TAL
O Novum Instrumentum é um livro de 1027 páginas. A impressão foi
feita em Basileia, Suíça, na tipografia de Johannes Froben, que levou quatro
meses e meio para concluir a tarefa (de meados de outubro de 1515 até o
início de março de 1516). O livro contém uma nova tradução latina de todo
o Novo Testamento, uma edição do texto grego e um longo comentário de
Erasmo. Nesse comentário, que ocupa metade das páginas, Erasmo explica
e justifica a sua tradução latina. À luz disto, pode-se dizer que o Novum
Instrumentum é uma Bíblia de estudo destinada a um público erudito. A
tradução de Erasmo e o texto grego aparecem em colunas paralelas, o
grego na coluna da esquerda e o latim na coluna da direita.
A primeira edição desse Novo Testamento vendeu mil e duzentos
exemplares, algo espantoso para aquela época. Erasmo preparou mais
quatro edições (1519, 1522, 1527, 1535). A segunda edição, de 1519,
que vendeu mais de dois mil exemplares, é importante por ter sido usada
por Lutero para a sua tradução do Novo Testamento ao alemão (o assim
chamado Septembertestament), em 1522.
A TRADUÇÃO LATINA DE ERASMO
A tradução de Erasmo foi a primeira tradução latina do Novo Testamento
em mais de mil anos. Com essa tradução, Erasmo ajudou a mostrar que
a Bíblia que se usava na época, vista como irretocável, era na verdade
uma tradução. Tudo indica que Erasmo não tinha uma tradução latina
pronta, concluída, na forma de um documento independente, quando
chegou a Basileia em 1515. O que ele tinha em mãos era um exemplar
da Vulgata com anotações manuscritas, que ele entregou a Froben, para
a publicação.
Erasmo via o texto grego como a norma para a interpretação e tradução
correta do Novo Testamento. Nisto ele tinha razão. O problema foi que
os manuscritos gregos disponíveis não eram os melhores e mais antigos
manuscritos. No entanto, fiel a esse princípio de seguir os manuscritos
gregos, Erasmo acabou incluindo em sua tradução a doxologia do PaiNosso (Mt 6.13), mesmo estando convencido de que se tratava de uma
interpolação e que o texto original era a leitura mais breve que aparecia
na Vulgata. Cabe acrescentar que, neste ponto, Lutero seguiu Erasmo,
ao incluir a doxologia na tradução, deixando-a, porém, sem explicação
nos Catecismos.
25
IGREJA LUTERANA
Um dado a ressaltar é que, em sua tradução, Erasmo eliminou a multiplicação de sinônimos que se verifica na Vulgata, produzindo o que se
chama de “tradução concordante”. Em João 1.7-8, por exemplo, o termo
grego para “luz” foi traduzido, na Vulgata, inicialmente por lumen (v.7)
e depois por lux (v. 8). Erasmo eliminou essa discordância. Além disso,
tomou decisões ousadas, como trocar sacramentum (sacramento) por
mysterium (mistério), em Efésios 5.32, algo que foi visto como um ataque
à visão sacramental do matrimônio.
A EDIÇÃO DO TEXTO GREGO
Quanto ao texto grego dessa edição, pode-se dizer que foi o primeiro
Novo Testamento Grego publicado, no sentido de distribuído ao público.
Porque o primeiro Novo Testamento Grego impresso foi o da Poliglota
Complutense, que estava pronto em 1514, mas só seria lançado ou entregue ao público em 1522, como o quinto volume dessa Bíblia poliglota.
O que contribuiu para retardar o lançamento do Novo Testamento Grego
da Poliglota Complutense foi o fato de que Froben conseguiu um embargo
imperial, concedido pelo Imperador Maximiliano I, que impedia a importação de qualquer outra edição do Novo Testamento grego durante quatro
anos (isto é, até 1520).
Embora seja bem provável que Erasmo tenha consultado manuscritos
gregos durante a sua permanência na Inglaterra no começo do século
XVI (lecionou em Cambridge e Leicester), ele não levou consigo nenhum
manuscrito grego quando se dirigiu a Basileia, em 1515. Felizmente ele
foi à cidade certa, pois havia manuscritos gregos em Basileia. Vários manuscritos gregos do Novo Testamento haviam sido doados ao mosteiro
dominicano em 1443. Mas não havia nenhum manuscrito que contivesse
todo o Novo Testamento. Isso teria sido muito difícil de acontecer, na
medida em que dos mais de 5000 manuscritos gregos do Novo Testamento disponíveis hoje apenas uns 60 contêm todos os 27 livros do Novo
Testamento. Simplesmente não era comum, nem prático, copiar todos
os livros do Novo Testamento num volume só. Geralmente havia quatro
volumes: Evangelhos, Apóstolos (isto é, Atos e Epístolas Católicas), Paulinas, e Apocalipse.
Erasmo fez a edição a partir de basicamente sete manuscritos: um
manuscrito do século XII que continha Evangelhos, Apóstolos e Paulinas;
dois manuscritos dos Evangelhos, um do século XII e outro do século
XV; dois manuscritos que continham Apóstolos e Paulinas, um do século
XII e outro do século XV; e um manuscrito contendo apenas as Paulinas,
datado do século XI. Por fim, para o Apocalipse, Erasmo dispunha de um
manuscrito do século XII, que lhe havia sido emprestado por Reuchlin.
26
OS 500 ANOS DO NOVUM INSTRUMENTUM DE ERASMO
No caso do Apocalipse, e apenas aqui, Erasmo havia pedido a um auxiliar
que fizesse uma transcrição do texto grego, para ajudar o tipógrafo em
seu trabalho. Quanto aos demais livros, Erasmo fez algumas observações
nos próprios manuscritos que entregou ao impressor.
A IMPORTÂNCIA DESSA PUBLICAÇÃO DE ERASMO
O Novum Instrumentum de Erasmo causou um impacto duradouro
sobre o estudo do Novo Testamento. Entre outras coisas, alterou a colocação do livro de Atos dos Apóstolos dentro do cânone. Até então, este livro
encabeçava a seção dos Apóstolos (Tiago, Pedro, João e Judas). Erasmo,
querendo aproximá-lo ao máximo de Lucas, sem fazer dele um intruso
entre os Evangelhos, acabou colocando-o entre João e Romanos.
Mas este é apenas um detalhe. A influência maior acabaria sendo na
área do texto grego do Novo Testamento. Embora não fosse sua intenção
primária publicar um Novo Testamento Grego, Erasmo acabou criando
aquele que viria a se tornar o textus receptus do Novo Testamento.
Esse texto foi usado por Lutero (1522), pelos tradutores da King James
Version (1611), por João Ferreira Annes de Almeida (1681) e por todos
os demais tradutores do Novo Testamento até meados do século XIX.
Convém lembrar, no entanto, que a designação textus receptus não remonta a Erasmo; ela surgiu a partir de uma publicação do mesmo texto
de Erasmo, feita pelos irmãos Elzevir, em 1633, e que, no Prefácio, traz
a seguinte frase latina (em meio a um texto mais longo): textum ergo
habes, nunc ab omnibus receptum (portanto, tens em mãos o texto que
agora é aceito por todos). Mesmo sem querer, Erasmo criou o textus
receptus e acabou difundindo um texto grego de qualidade inferior, sem
que se possa culpá-lo por isso, visto que, na época, só teve acesso a
manuscritos do tipo bizantino.
Um detalhe sempre de novo lembrado é que, para os últimos seis
versículos do Apocalipse (Ap 22.16-21), Erasmo não dispunha de texto
grego. O único manuscrito grego de que dispunha, conhecido hoje como
manuscrito 2814, e que lhe havia sido emprestado pelo famoso hebraísta
Johannes Reuchlin, não trazia esse texto. (A última página de um livro
sempre é a mais vulnerável e, no caso daquele manuscrito, acabou se
perdendo.) Sem alternativa, Erasmo fez a tradução do latim ao grego.
Nesse processo, acabou criando leituras que não têm nenhuma representação em qualquer manuscrito grego. É o caso de “livro da vida” em
lugar de “árvore da vida”, em Ap 22.19, um erro que Lutero incorporou
em sua tradução (posteriormente corrigido), mas que sobrevive na King
James Version e em edições como Almeida Corrigida Fiel (porque as edições antigas de Almeida, que seguem o textus receptus, trazem “livro da
27
IGREJA LUTERANA
vida”). Essa confusão foi criada no latim, pois existe grande semelhança
entre ligno (árvore) e libro (livro).
Além disso, também em Atos 9.5-6, Erasmo criou um texto grego mais
longo a partir do texto latino (“ele te dirá o que deves fazer”). Este texto
mais longo foi incorporado na King James Version e aparece também na
Almeida Corrigida Fiel, que, neste caso, de fiel não tem absolutamente
nada.
Um caso que mereceria um estudo à parte, como de fato ocorre no número da revista The Bible Translator mencionado no início, é o tratamento
dado do texto de 1João 5.7-8, ou seja, a não inclusão da referência às
três testemunhas no céu: o Pai, a Palavra e o Espírito Santo. Ainda hoje
essa omissão é vista como suposta tentativa de negar a Trindade, o que
é totalmente infundado. Na época de Erasmo foi vista como promoção
do ponto de vista ariano (isto é, como negação da divindade de Cristo).
Erasmo não incluiu essa frase nas duas primeiras edições do Novo Testamento por não tê-la encontrado em nenhum manuscrito grego. Aqui é
preciso destacar que Lutero, que se valeu da segunda edição de Erasmo,
questionou a canonicidade desse texto. Além de razões teológicas, Lutero
tinha a seu favor o “Nestle-Aland 28” de seu tempo, ou seja, a mais recente edição do texto grego. Erasmo não havia feito nenhuma promessa
de incluir essa frase em sua edição. No entanto, como, para a terceira
edição, chegou às suas mãos um manuscrito contendo esse texto mais
longo, Erasmo, para silenciar os seus críticos, acabou fazendo a inclusão
desse texto que muitos conhecem por Comma Iohanneum. E o resultado
disso é sentido até os dias de hoje, embora seja a questão crítico-textual
mais fácil de resolver: nenhuma chance de ser original, pois só aparece
em manuscritos bem recentes, nos quais foi incluído por influência do
texto latino.
28
A NATUREZA PASSIVA DA IGREJA – UMA
ANÁLISE DO CONCEITO DE IGREJA E SUAS
IMPLICAÇÕES PARA A VIDA
DOS CRENTES1
Timóteo Felipe Patrício2
RESUMO
O objetivo do presente artigo é propor a passividade como característica essencial da igreja. Por meio da análise de referenciais sistemáticos
e bíblicos são apontados aspectos básicos do conceito de igreja para
demonstrar sua passividade. A igreja existe a partir da ação de Deus,
em Cristo, pelo seu Espírito, por meio da Palavra. O crente é puramente
passivo da ação de Deus para pertencer a ela. Tal noção é significativa
diante da tendência – suscitada pelo pecado – de considerar a igreja como
oriunda de iniciativa humana.
Palavras-chave: Igreja; passividade; evangelho; sacramentos.
ABSTRACT
The purpose of this article is to propose the passivity as an essential
characteristic of the church. Through the systematic and biblical analysis of
references are pointed out basic aspects of the church concept to demonstrate their passivity. The church exists from the action of God in Christ, by
his Spirit, through the Word. The believer is purely passive of God’s action
for belonging to it. Such a notion is significant facing the trend – raised by
sin – of considering the Church as originated from human initiative.
Keywords: Church; passivity; gospel; sacraments.
1
Artigo apresentado à Universidade Luterana do Brasil como requisito para conclusão de
Pós-Graduação Lato Sensu, especialização em Ministério Pastoral.
2
Timóteo Felipe Patrício possui graduação de Bacharel em Teologia pela Universidade Luterana
do Brasil – ULBRA (2013) e Especialista em Teologia e Ministério Pastoral, também pela
Ulbra (2015). E-mail: [email protected]. Orientação por Paulo Wille Buss, o qual possui
graduação em teologia pelo Seminário Concórdia (1977), estudos em Ciências Sociais pela
UFRGS (1975-1979), estudos em História pela Faculdade Porto-Alegrense (1977-1979),
mestrado e doutorado em História da Igreja pelo Concordia Seminary de Saint Louis, EUA.
Atualmente é professor titular da Universidade Luterana do Brasil e do Seminário Concórdia.
Tem experiência na área de Teologia, com ênfase em História da Igreja.
IGREJA LUTERANA
INTRODUÇÃO
Conceitos facilmente podem ser deturpados. É assim com o conceito
de igreja. A situação que levou à reforma luterana envolvia uma distorção do conceito bíblico de igreja que afastava as pessoas de Cristo – o
fundamento de sua fé. Os cristãos eram escravizados por uma estrutura
eclesiástica, cuja cabeça era o papa, que constituía uma barreira para o
conforto procedente do evangelho. A fé simples não tinha espaço diante
de uma série de exigências que eram necessárias para que os crentes
fossem considerados membros da igreja. De acordo com o que se propunha, estar em dívida para com essas exigências significava não ter
comunhão com Deus.
Uma situação tal como aquela pode ser repetida, uma vez que a natureza corrompida dos seres humanos que a condicionaram é a mesma até
o fim dos tempos. Se não nos mesmos termos, é possível que, de alguma
forma, Cristo volte a ficar em segundo plano e o ser humano assuma o
lugar principal no estabelecimento da comunhão com Deus. Talvez seja
até conveniente dizer que isso acontece constantemente, sendo preciso
que haja arrependimento e fé, de modo que o crente desista de sua justiça
própria e se apegue novamente a Cristo.
Para o conceito de igreja, esta deturpação da verdade consiste em
considerá-la como organização que parte da iniciativa humana. Nestes
termos, o ser humano é ativo no estabelecimento, no crescimento e na
manutenção da igreja. O que define e determina quem pertence a ela é
formado a partir da vontade e da razão humanas.
O que se tem a partir da Palavra de Deus, no entanto, é diferente. A
igreja é de Deus e, portanto, é Ele quem determina o que ela é. Deus é o
único ativo na criação e manutenção da igreja. Esta atividade ele efetua
através de sua Palavra, que também é oferecida e concedida nos sacramentos – Batismo e Santa Ceia. O crente é puramente passivo em todo o
processo. Sua certeza do favor de Deus procede unicamente do que Cristo
fez e faz por ele e lhe é conferida pela obra do Espírito Santo.
Através da pesquisa em referenciais sistemáticos e bíblicos, algumas características básicas da igreja serão apontadas, para demonstrar
em pormenores como esta passividade se estabelece. De acordo com
isso, num primeiro momento, unidade, catolicidade, visibilidade, ocultamento, santidade e pecaminosidade serão tomados como aspectos
essenciais da igreja. Na segunda parte do artigo, estes aspectos serão
considerados na apresentação do modo de existência da igreja, a partir
da Palavra de Deus. Esta verdade será proposta contra o pano de fundo
da tendência existente de considerar a igreja como fruto da ação e da
vontade humanas.
30
A NATUREZA PASSIVA DA IGREJA ...
ECLESIOLOGIA BÁSICA
Unidade e Catolicidade
A unidade e a catolicidade são dois aspectos relevantes nas formulações sobre a igreja ao longo da História. A consciência dos cristãos a
respeito de si mesmos parece ter considerado que são aspectos essenciais
que precisam ser mantidos lado a lado. Dada esta importância, é preciso
abordá-los nas considerações pretendidas pelo presente artigo.
O uso da palavra “igreja” (ekklesia), no Novo Testamento, mostra que
o termo pode ter diferentes significados.3 Basicamente chamam a atenção
duas ideias que estão envolvidas. A Igreja de um local é identificada como
sendo a igreja. A igreja se manifesta em congregações locais. Há, assim, a
menção à igreja de determinado local como, por exemplo, quando se fala
da “igreja de Antioquia” (Rm 16.1); da “igreja de Cencreia” (At 20.28); da
“igreja que está em Corinto” (1 Co 1.2); da “igreja dos tessalonicenses”
(1 Ts 1.1). É interessante que até mesmo uma comunidade que se reúne
em uma casa pode ser chamada de Igreja (Cl 4.15, Fm 2). No entanto,
todos os crentes de todos os lugares são a igreja (Ef 1.22).4 De acordo
com isso, é preciso notar que a amplitude da realidade da igreja para
além de uma comunidade local não significa que ela resulta da adição de
comunidades particulares. Cada comunidade representa toda a igreja.5
É assim que Paulo identifica a igreja como sendo “de Deus” (At 20.28) e
pode falar de Cristo como sendo “o cabeça da igreja” (Ef 5.23).
L. Coenen, a partir do livro de Atos, diz que a igreja “é uma só, em
todo o mundo, e, ao mesmo tempo, é plenamente presente em todas
as assembleias individuais [...]. Lucas, portanto, pode falar no singular
igualmente da igreja em geral (At 8.3) e da ekklesia ‘por toda a Judeia,
Galileia e Samaria’ (9.31)”.6 A partir do que Paulo manifesta em suas cartas,
Guthrie afirma: “o padrão paulino para a igreja parece ser que cada grupo
local era uma igreja de Deus, mas nenhum deles podia ficar isolado dos
demais”.7 As pessoas que passam a pertencer à ekklesia não perdem sua
cidadania terrena, continuando a ser identificadas pela posição ou ordem
3
SCHOLZ, V. Reflexões introdutórias sobre o conceito de igreja no Novo Testamento. In: O
povo de Deus: estudos teológicos em homenagem ao Dr. Acir Raymann pelos 40 anos de
Seminário Concórdia. Porto Alegre: Concórdia, 2014, p.307.
4
Ibid., p.308.
5
SCHMIDT, K. L. Igreja. In: A Igreja no Novo Testamento. Trad: Helmuth Alfredo Simon.
São Paulo: ASTE, 1965, p.21.
6
COENEN, L. Igreja. In: Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento (DITNT).
Organizado por Colin Brown e Lothar Coenen. Tradução de Gordon Chown. São Paulo: Vida
Nova, 2000, p.996.
7
GUTHRIE, D. Teologia do Novo Testamento. Trad: Vagner Barbosa. São Paulo: Cultura
Cristã, 2011, p.748.
31
IGREJA LUTERANA
social a que pertencem. Elas continuam a ser de determinado local, mas
entram em um novo relacionamento que as interliga a “concidadãos” de
todas as regiões do mundo.8
É preciso, pois, analisar o que constitui essa unidade da igreja que se
expande por diversas localidades e se manifesta em comunidades locais.
Há algo que une os grupos de cristãos que se reúnem em diversos lugares.
Esse elo é o fundamento da vida cristã: Cristo. A igreja “é uma só igreja,
porque o Senhor da igreja é um só”.9 Trata-se de algo óbvio, mas que por
isso não deixa de ser essencial. Todas as formulações a respeito de igreja
jamais podem deixar isso de lado.
A igreja se constitui de uma unidade, existente em torno de um só
cabeça que é Cristo Jesus. Como bem definiu Inácio de Antioquia, “onde
está Jesus Cristo, aí está a Igreja católica”.10 As palavras de Paulo em sua
primeira carta aos coríntios deixam bem claro que a vontade de homens
não pode estabelecer fundamento para a comunhão dos cristãos. Ele foi o
responsável por levar o Evangelho até os coríntios. Diante da informação
de que havia contendas entre os cristãos daquele lugar, ele aponta para o
conteúdo de sua pregação. Então trata de deixar claro que não anunciou
alguma mensagem constituída de sabedoria humana, mas a Jesus Cristo
crucificado (1 Co 2.2). Nenhum outro fundamento poderia ser lançado (1
Co 3.11). Esta verdade constituía a base para que a igreja estivesse em
Corinto, em comunhão “com todos os que em todo lugar invocam o nome
de nosso Senhor Jesus Cristo” (1 Co 1.2).
A realidade acerca de Cristo está inseparavelmente ligada à realidade
da igreja. A consciência da existência da igreja surgiu na comunidade cristã
primitiva enraizada no fato de que alguns dos discípulos se tornaram testemunhas dos aparecimentos de Jesus após a ressurreição.11 A partir da
obra completa de Cristo, o tempo da salvação é inaugurado e a igreja surge
como comunidade que se alimenta dos benefícios desta obra de Cristo. A
doutrina a respeito da igreja formulada por Paulo inclui a igreja no mistério
de Cristo. Nas fórmulas empregadas por Paulo sobre o assunto, “Cristologia
é Eclesiologia, e vice-versa”.12 Um dos textos que melhor evidencia a íntima
relação entre Cristo e sua igreja é o do relato da conversão de Saulo em
Atos. Saulo perseguia a igreja, e no caminho para Damasco, ele se encontra com Cristo, que lhe diz: “Eu sou Jesus, a quem tu persegues” (At 9.5).
8
COENEN, L. Op. Cit. p.992.
9
Ibid., p.994.
10
INÁCIO DE ANTIOQUIA. Carta aos Esmirnenses. In: GOMES, Cirilo Folch. Antologia dos
santos padres. 2.ed. São Paulo: Paulinas, 1980, p.43.
11
COENEN, L.Op. Cit. p.991.
12
SCHMIDT, K. L. Op. Cit. p.26.
32
A NATUREZA PASSIVA DA IGREJA ...
Esta identificação de Cristo com sua igreja é posteriormente refletida nas
formulações de Paulo sobre o tema, quando define a igreja como um corpo
que tem Cristo como cabeça (1 Co 12; Ef 5).
As deduções a partir da linguagem a respeito da igreja no Novo Testamento dão base para a afirmação de dois aspectos, confessados ao longo
da história. O Credo Niceno confessa a “una, santa, católica, apostólica”.
Os termos desta fórmula em destaque aqui apontam para a complexidade
do termo ekklesia. A igreja é uma só, mas é manifesta em diversas comunidades locais. Certamente, aquilo que propõem os confessores luteranos
expressa bem esta realidade. Diz a Apologia da Confissão de Augsburgo,
Artigos VII e VIII, parágrafo 10:
E diz (o credo) “igreja católica”, a fim de não entendermos que a
igreja é governo externo de certas nações, mas, antes, homens
dispersos pelo orbe inteiro, e que estão acordes quanto ao evangelho, e têm o mesmo Cristo, o mesmo Espírito Santo e os mesmos
Sacramentos, quer tenham as mesmas tradições humanas, quer
tenham tradições humanas dessemelhantes.13
Portanto a igreja é católica no sentido de estar disposta pelo mundo
inteiro. A Igreja é formada por todos os santos, de todos os lugares e
de todos os tempos. Esta definição é necessária a partir da conceituação
a respeito do que funda e mantém a igreja, a saber, a Palavra de Deus.
Dessa forma, a definição de igreja parte do alto, e não de baixo. Isso não
significa a submissão a uma ordem eclesiástica que define o que cada
cristão deve fazer para estar na igreja e, portanto, ser membro do corpo
de Cristo. A maneira como Paulo propõe a figura do corpo não permite
entender o mesmo como sendo mera sociedade de homens. “Partindo de
pressupostos sociológicos não é possível compreender o que significa e
quer significar a ‘assembleia de Deus em Cristo’”.14 A igreja vem do alto
na medida em que é criada e mantida unicamente pelo próprio Deus, de
acordo com os meios pelos quais Ele trata com o ser humano.15 A igreja
é “a mãe que gera e carrega a cada cristão através da Palavra de Deus,
que ele revela e prega”.16
Aqui é plenamente visível a natureza passiva da igreja. Não há como
formular princípios humanos que estabeleçam o que significa fazer parte
da igreja. Isso é o que acontece em associações humanas. Filiar-se a
13
Apologia, VII, 10.
14
SCHMIDT, K. L. Op. Cit. p.29.
15
ELERT, W.Op. Cit., p.285.
16
CM, Credo, 42.
33
IGREJA LUTERANA
determinado grupo social implica assumir a responsabilidade por determinados princípios que demarcam os limites de ação para a continuidade de
pertença ao mesmo. Quando a igreja entende-se como um clube religioso,
formado pela adesão voluntária de indivíduos, ela se afasta de seu sentido
bíblico. A igreja de Deus é uma igreja criada por Ele, por meio de Cristo.
Para pertencer à igreja é preciso ter fé no Filho de Deus. Esta fé não é criada
ativamente pelos membros do corpo de Cristo, mas operada pelo Espírito
Santo, pelos meios da graça. Afinal, não é possível tornar-se membro do
corpo de Cristo, mas apenas ser tornado membro do mesmo.
A Palavra de Deus vem em primeiro lugar, pois ela é o princípio pelo
qual Deus cria e mantém a sua igreja. Esta palavra contém como verdade
central a obra de Cristo por toda a humanidade. O elemento central para
a unidade da igreja é o próprio Cristo. Desse modo, “para a verdadeira
unidade da igreja cristã é suficiente que o evangelho seja pregado unanimemente de acordo com a reta compreensão dele e os sacramentos sejam
administrados em conformidade com a palavra de Deus”.17 De acordo com
isso, a catolicidade da igreja existe porque Cristo envia seus discípulos
para todas as nações, a fim de que todos saibam que estão reconciliados
com Deus.18 Da mesma forma, é possível falar que a catolicidade da igreja
se fundamenta na catolicidade de seu Senhor, “[...] que está presente e
ativo onde quer que o Evangelho é pregado segundo a sua comissão e
onde os sacramentos são administrados”.19
“A igreja é uma unidade interna que engloba todos os crentes”.20 O
princípio da catolicidade parece dificultar o conceito de unidade. “Unidade e catolicidade estão, de fato, sempre em contraste quando vistos
da perspectiva da história da Igreja”.21 Mas esta unidade não deve ser
procurada em aspectos humanos e externos. Unidade e catolicidade mantidas lado a lado delimitam um conteúdo de fé. “A única, santa, católica
e apostólica Igreja está para ser crida e é confessada na mesma fé que
confessa o Deus Triúno”.22 Diz Lutero, no Catecismo Maior: “Creio que
existe na terra um santo grupinho e uma congregação compostos apenas
de santos, sob uma só cabeça, Cristo[...]”.23 Desse modo, o que une a
17
CA, VII, 2.
18
SCHLINK, E. Theology of the Lutheran Confessions. Philadelphia: Muhlenberg, 1961,
p.208.
19
Idem: “who is present and active wherever the Gospel is preached according to his commission and the sacraments are administered”.
20
ELERT, W. Op. Cit. p.277: “The church is an inner unity that encompasses all believers”.
21
SCHLINK, E. Op. Cit. p.205: “unity and catholicity are indeed always in contrast when
viewed from the standpoint of church history”.
22
SCHLINK, E. Op. Cit. p.205: “The one, holy, catholic and apostolic church is to be believed
and is confessed in the same faith which confesses the triune God”.
23
LUTERO, CM, II, 51.
34
A NATUREZA PASSIVA DA IGREJA ...
igreja são Palavra e Sacramentos, que são os meios pelos quais Cristo
se dá aos seus. A unidade é criada e mantida pelo Espírito Santo, por
meio da Palavra de Deus.24 A unidade verdadeira é uma unidade espiritual, baseada na justiça de Cristo da qual a fé se apropria.25 Assim, “a
unidade e a catolicidade da igreja são idênticos na unidade do Filho de
Deus para quem todos os homens estão sujeitos, e com isso também a
unidade do Espírito Santo que cria toda fé em Jesus Cristo e sem a qual
não há santo na terra”.26
Sempre houve a percepção de que a igreja, embora composta de
diversas comunidades, esteve unida, pois não é possível haver várias
igrejas, mas somente uma, que confessa a fé em Cristo. No entanto há
necessidade de perceber o que define a unidade e a catolicidade. Esta
unidade, estabelecida entre comunidades de todo mundo, existe não de
acordo com uma organização eclesiástica, mas unicamente pela ação do
Espírito Santo.27 Pois é verdade que “há somente um corpo e um Espírito,
como também fomos chamados numa só esperança da nossa vocação;
há um só Senhor, uma só fé, um só batismo” (Ef 4.4-5). Diz Lutero, no
Catecismo Maior, parte II: “Pelo Espírito a ela (comunhão dos santos)
fui levado e incorporado através do ato de haver ouvido e, ainda, ouvir
a palavra de Deus, que é o princípio para nela se entrar”.28 A Confissão
de Augsburgo, tal como organizada, deixa claro como esta unidade é
constituída. Os artigos VII e VIII, que tratam da igreja, são posteriores
aos artigos do pecado original (Art. II) e da justificação pela fé (Art. IV).
A igreja, pois, é a comunidade de todos aqueles que foram redimidos de
24
Ibid., 52.
25
Apologia, VII, 31.
26
SCHLINK, E. Op. Cit. p.208: “The unity and catholicity of the church are identical in the
unity of the Son of God to whom all men are subject, and therewith also the unity of the
Holy Spirit who creates every faith in Jesus Christ and without whom there is no saint on
earth.”
27
Unidade e catolicidade entendidas desta forma contrariam o conceito católico romano a
respeito. Isto porque a catolicidade não depende da submissão à hierarquia eclesiástica
que tem o bispo de Roma como o vigário de Cristo na terra. Desde então, não há porque
considerar os ritos e costumes estabelecidos pelos concílios. É certo que Lutero não queria
fundar uma nova igreja, antes reformar a existente, por entender que Deus age através
de sua Palavra apesar da corrupção daqueles que a administram. No entanto, a atitude
do catolicismo frente à reforma iniciada por Lutero tem consequências determinantes na
conceituação a respeito da unidade da igreja. Não há como estar em consenso com aqueles
que admitem e ensinam doutrina falsa. A Fórmula de Concórdia assim tem como objetivo
encontrar consenso na doutrina e administração dos sacramentos. É esta a intenção do
Livro de Concórdia, formulado para que se pudesse perseverar e permanecer na verdade
divina revelada nas Sagradas Escrituras e expostas nos documentos confessionais. A
declaração central para o espírito das confissões e que é determinante para o conceito
de igreja se encontra na Confissão de Augsburgo, no artigo VIII: “... para a unidade da
igreja, basta que haja acordo quanto à doutrina do evangelho e à administração dos
sacramentos”.
28
CM, II, 52.
35
IGREJA LUTERANA
sua condição de pecadores perdidos e condenados, pela obra de Cristo,
conferida a todos aqueles nos quais o Espírito Santo operou a fé.
A confissão da unidade e da catolicidade da igreja evoca a distinção
entre aspectos visíveis e invisíveis da mesma. Afinal, o que constitui a
membresia do corpo de Cristo é a fé nele, que é a cabeça. Esta fé, porém,
não é uma realidade visível. Assim não é possível saber se todos aqueles
que dizem pertencer à assembleia reunida – e que se reúne – em torno
de Cristo, de fato, pertencem à igreja. É preciso, pois, desenvolver com
pormenores estes aspectos.
Visibilidade e Ocultamento
A igreja é a comunhão dos santos. Todos aqueles que creem em Cristo
constituem a igreja. Desta forma a igreja não pode ser vista. Os santos
não podem ser reconhecidos por olhos humanos. Apenas Deus perscruta
os corações e sabe quem é verdadeiramente santo.29 Ao mesmo tempo,
a igreja pode ser vista e percebida por meio de sinais ou marcas que indicam a sua existência. Onde Palavra e Sacramentos são administrados
corretamente, ali está a igreja.30
O desenvolvimento destes aspectos da igreja tem gerado compreensões distintas. A Igreja Romana arroga para si o título de Católica porque
entende a catolicidade sociologicamente. Ser da igreja católica significa
fazer parte da organização visível chefiada pelo papa. Esta é considerada o
corpo místico de Cristo.31 A teologia calvinista propõe uma distinção entre
uma “igreja invisível” e uma “igreja visível”, colocando-as lado a lado sem,
no entanto, estabelecer uma devida integração ou ligação entre elas.32
A teologia luterana, no entanto, entende a igreja “encarnacionalmente”.
A eclesiologia luterana distingue a igreja invisível e a igreja visível sem
separá-las. A igreja é entendida como comunhão interior da fé e como
comunhão externa nos meios da graça.33
A igreja, pois, é sociedade espiritual e oculta a olhos humanos. Quando
interrogado pelos fariseus sobre quando o reino de Deus apareceria, Jesus
responde: “Não vem o reino de Deus com visível aparência” (Lc 17.20).
Somente Deus sabe quem é parte da verdadeira igreja, pois somente ele
sonda os corações (2 Tm 2.19). No entanto, a igreja também tem um
aspecto visível. A visibilidade da igreja está nos sinais que denotam a
29
ELERT, W. Op. Cit., p.258.
30
CA, VII, 1.
31
MARQUART, K. E. The church and her fellowship, ministry, and governance. Fort Wayne:
The International Foundation for Lutheran Confessional Research, 1995, p.10.
32
Idem.
33
Ibid., p.11.
36
A NATUREZA PASSIVA DA IGREJA ...
ação de Deus entre os crentes. Onde há Palavra pregada e Sacramentos
administrados, ali está a igreja.34
Diz o teólogo Jonathan Teigen: “a invisibilidade da igreja não consiste nisso que ela não está no mundo, mas sim que ela não faz parte
do mundo, e, portanto, não pode ser julgado de acordo com os critérios
que o mundo emprega”.35 A igreja se manifesta em lugares específicos,
com formas determinadas, por meio de pessoas concretas. No entanto,
nada disso constitui a igreja por si. Somente existe igreja por causa de
Cristo e Cristo está na Palavra.36 Não há como definir e delimitar a igreja
verdadeira com base em critérios humanos. A igreja de Deus é criada por
meio do Evangelho e também por meio dele é mantida. Nestes termos, é
apropriado o que estabelece a Confissão de Augsburgo sobre o conceito
de igreja.
Estabelecer uma definição humana do que é igreja sempre se dá a
partir da observância externa de certas formas cultuais e ritos. Porém
“[...] a igreja é povo espiritual, isto é, distinto da gentilidade não por
cerimônias civis, senão que é o verdadeiro povo de Deus, renascido do
Espírito Santo”.37
É preciso apontar para o fato de que o tema da igreja está ligado ao
tema do reino. Embora não seja possível estabelecer uma abordagem ampla sobre isso dentro dos limites do presente artigo, é possível mencionar
alguns aspectos importantes para o que se objetiva com estas linhas. O
reino de Deus é o conteúdo da pregação dos discípulos. Este reino significa o reinado de Deus no mundo por meio de Cristo.38 Ele concretiza a
presença do reino para dentro do mundo. Assim a igreja surge a partir do
34
Esta definição se dá conforme a Apologia da Confissão de Augsburgo. Cf. Apologia, VII e
VIII, 5. No entanto, há ainda outros sinais que podem servir para a percepção da igreja:
1) a verdadeira pregação do evangelho, 2) a correta administração do Batismo, 3) o correto uso do Sacramento do Altar, 4) o correto uso das Chaves 5) o legítimo chamado de
ministros para ensinar e administrar os sacramentos, 6) oração, salmodia e instrução feitas
publicamente, 7) cruzes e tribulações de fora e de dentro (Cf. LUTERO, Dos Concílios e da
igreja. In: Obras Selecionadas vol. 3. 2 ed. Trad: Ilson Kayser. Porto Alegre: Concórdia;
São Leopoldo: Sinodal; Canoas: ULBRA, 2007, p.404-432.) Embora Lutero relacione um
maior número de notas, não há conflito entre esta sua formulação e a Apologia. As quatro
notas adicionais de Lutero indicam que a igreja está presente, mas nem sempre elas são
existentes. É preciso, pois, dizer que “Lutero está obviamente falando tanto das notas acidentais como das essenciais” (PREUS, R. A Base para a Concórdia. Trad.: Paulo W. Buss.
In: Ensaios Teológicos, n.1. São Leopoldo: Departamento de Comunicação da IELB, 1978,
p.9.)
35
TEIGEN, B. W. The Church in the New Testament. In: CTQ, n.4. Fort Wayne: Concordia
Theological Seminary, 1978, p.384: “The invisiblity of the church does not consist in this
that it is not in the world, but rather that it is not part of the world, and hence it cannot be
judged according to the criteria which the world employs”.
36
Idem.
37
Apologia, VII,14.
38
GUTHRIE, D. Op. Cit. p.706.
37
IGREJA LUTERANA
reino. A pregação do reino abrange todo o mundo (Mt 13.47), constituído
de bons e maus.39 Esta abrangência implica um processo de seleção, por
ocasião da segunda vinda de Cristo, para a continuidade do reino de Deus
nos novos céus e nova terra.
Talvez uma distinção mais apropriada dos aspectos revelado e oculto da
igreja seja a distinção entre igreja propriamente dita e igreja em sentido
lato. A igreja propriamente dita é a una sancta, constituída apenas dos
realmente santos que creem em Cristo. A igreja em sentido lato é a igreja
tal como se manifesta empiricamente.40 A igreja permanece até o último
dia com maus e hipócritas ligados à sua sociedade externa, onde Palavra
e Sacramentos são administrados. “A igreja, no sentido lato, inclui os bons
e os maus e que os maus fazem parte da igreja apenas nominalmente e
não de fato, enquanto que os bons fazem parte da igreja tanto de fato
como também de nome”.41
A igreja jamais pode ser devidamente conhecida por olhos humanos.
É possível ir somente até onde Deus se revela em sua Palavra. Em acordo
com isso, parece pertinente o comentário de Lutero a respeito do modo
como Paulo se refere aos Gálatas em sua epístola. Quando Paulo chama
os da Galácia de “igrejas da Galácia”, ele está empregando uma sinédoque, cujo uso é comum na Escritura.42 Ele usa o nome que pertence a
uma parte dos seus destinatários para se referir a todos. Assim o apóstolo também se dirige aos coríntios, embora muitos deles houvessem se
desviado da Palavra.43 Assim, mesmo que a igreja esteja em meio a uma
geração corrupta, repleta de “lobos” e “salteadores”, ela ainda é a igreja.44
Isso permite que Lutero considere a Igreja Romana como sendo igreja,
apesar de seus falsos ensinos. Tal fato se dá porque lá estão presentes a
Palavra e os Sacramentos.45
Se alguém quer saber quem é Deus e onde Ele está, aponta-se os
meios da graça. Desde então, este recebe em fé, pelo poder de Deus, o
que o próprio Deus dá a conhecer a respeito de si mesmo. A igreja também
é questão de fé. É produto da ação de Deus, tanto em sua criação como
em sua sustentabilidade. Logo, somente é possível receber pela fé o que
Deus diz ao homem a respeito da igreja.
39
Ibid., p.707.
40
PREUS, R. Op. Cit. p.8.
41
Apologia, VII, 10.
42
LUTERO, M. Comentário à Epístola aos Gálatas. In: Obras Selecionadas, vol. 10. Trad: Paulo
F. Flor. Porto Alegre: Concórdia; São Leopoldo: Sinodal; Canoas: Ulbra, 2008, p.46.
43
Idem.
44
Idem.
45
Idem.
38
A NATUREZA PASSIVA DA IGREJA ...
É claramente perceptível a passividade como aspecto essencial da
igreja. Ela é criada pela Palavra e por ela é mantida. Os membros da igreja não podem estabelecer regras, princípios, conceitos que os permitam
certificar-se de que pertencem à igreja. Somente precisam atender ao
chamado de Deus efetuado nos meios da graça. Precisam ser reunidos
em torno dos mesmos para serem alimentados com a verdade que é a
fonte da vida eterna e o caminho para ela (Jo 14.6). E nem isso podem
fazer por si mesmos. Para tanto, são passivos da ação do Espírito Santo,
que os conduz a toda verdade (Jo 16.13).
A distinção entre aspectos visíveis e ocultos da igreja está ligada à
dupla realidade existente a partir da obra de Cristo no mundo. O mundo
no qual a igreja vive é o reino do diabo, em que predomina o pecado.
Cristo insere, dentro desta realidade, uma nova realidade, a saber, o restabelecimento do Éden. No entanto, a realidade do pecado permanece. A
igreja, como resultado da ação de Cristo, é estabelecida em conflito com
o mundo, assim permanecendo até a segunda vinda dele, quando será
liberta do pecado.
Santidade e Pecaminosidade
A santidade faz parte da identidade da igreja. A santidade cristã existe
“quando o Espírito Santo concede às pessoas a fé em Cristo, santificandoas por meio disso (At 15.9)”.46 É assim que Paulo, ao escrever suas cartas
a algumas igrejas, refere-se aos crentes daquele local como santos (Ef
1.1; Fp 1.1; Cl 1.1). Evidentemente esta santidade é a que procede da
ação de Deus em Cristo, como diz Paulo aos cristãos de Corinto: “aos
santificados em Cristo Jesus, chamados para ser santos” (1 Co 1.2) e diz
também na carta aos Romanos: “a todos os amados de Deus, que estais
em Roma, chamados para serdes santos” (Rm 1.7). A igreja como corpo de Cristo é santa, porque ele “a si mesmo se entregou por ela, para
que a santificasse, tendo-a purificado por meio da lavagem de água pela
palavra, para a apresentar a si mesmo igreja gloriosa, [...] santa e sem
defeito” (Ef 5.25-27). No entanto, a igreja não está livre da realidade do
pecado. Como já dito anteriormente, na era presente, há e sempre haverá
maus e hipócritas na sociedade externa da igreja. Além disso, os crentes
verdadeiros não são apenas santos, mas também pecadores (Rm 7.1820). Esta é a realidade da igreja: ela “é santa, mas, ao mesmo tempo,
também é pecadora”.47
46
LUTERO, M. Dos concílios e da igreja. In: Obras Selecionadas vol. 3. 2 ed. Trad: Ilson
Kayser. Porto Alegre: Concórdia; São Leopoldo: Sinodal; Canoas: ULBRA, 2007, p.406.
47
LUTERO, M. Op. Cit. 2008, p.121.
39
IGREJA LUTERANA
Sendo somente Deus quem conhece os corações e quem pode identificar os crentes, não é possível identificá-los na era presente. “Somente são
santos aqueles que são santos de acordo com o veredito de Deus”.48 Estes
pertencem à una sancta. No entanto, a partir da visibilidade da igreja, é
possível chamar de santos todos aqueles que são batizados, mesmo que
haja o risco de desapontamento.49 Isto permite que hipócritas permaneçam ligados à igreja. Até o fim dos tempos, os maus permanecem tendo
acesso aos meios da graça e estando ligados à organização externa da
igreja. Eles confessam exteriormente a mesma fé que os crentes e permanecem em comunhão com eles. No entanto, há uma diferença entre
os mesmos e os crentes: a falta de fé.50 Estes não são membros do corpo
de Cristo, mas apenas membros da igreja “de nome”.51 Mesmo assim,
estes não anulam a santidade do povo de Deus.52 Aqueles que tornam sua
impiedade manifesta por meio de obras pecaminosas nas quais persistem
precisam ser declarados não pertencentes ao corpo de Cristo.53 A estes os
pecados devem ser retidos, de maneira que, de acordo com sua própria
determinação, continuem na condição de pecadores somente e sejam
excluídos.54 (Mt 16.19; 18.17).
Estes hipócritas podem estar em contato com os meios da graça de
maneira dupla. Podem tanto ouvir como pregar o Evangelho; tanto receber
como administrar os sacramentos.55 Tal fato demonstra que a validade
de Palavra e Sacramentos não depende da dignidade dos ministros, mas
unicamente de sua essência: o próprio Cristo.56 É até mesmo possível
que haja edificação de “feno e palha” sobre o evangelho, pelos ministros
indignos, sem que isso destrua sua fé.57 Apesar disso, são perdoadas e
emendadas, por não anularem o fundamento, que é Cristo.58 O problema
é quando o fundamento é subvertido. “Quando o Evangelho é negado não
há dúvida: a koinonia foi quebrada”.59 Nestas circunstâncias, torna-se
48
ELERT, W. Op. Cit. p.257: “only those are holy who are holy in accordance with the veredict
of God.”
49
Idem.
50
SCHLINK, E. Op. Cit. p.209.
51
Apologia, VII, 20.
52
LUTERO, M. Op. Cit. 2007, p.412.
53
Idem
54
Idem
55
SCHLINK, E. Op. Cit. p.210.
56
Idem.
57
Apologia, VII, 21.
58
Idem
59
JOHNSON, J. F. Commentary on “The Doctrine of the Church in The Lutheran Confessions”.
In: The Springfielder 1969, n.1. Chicago: American Theological Library Association, 1969,
p.32: “When the Gospel is denied there is no question: the koinonia has been broken”.
40
A NATUREZA PASSIVA DA IGREJA ...
necessário que atitudes cabíveis sejam tomadas (Gl 1.6-9; 2 Jo 9-11; At
19.8-10; 1 Tm 1.19-20; At13.14-15), sem que se esqueça deva ser feito
isso em amor (2 Ts 3.14-15).60 O fato é que a visibilidade da igreja exige
que haja comunhão a partir da fides quae (fé confessada).
De acordo com isso, não é possível nem preciso estabelecer uma
igreja perfeitamente pura nesse mundo. “A igreja cristã não pode estar
sem sofrimento, perseguição e morte, sim, nem mesmo sem pecado”.61
Esta separação definitiva entre verdadeiros crentes e incrédulos (entre
os quais se encontram falsos crentes) só poderá ser realizada no fim dos
tempos pelo próprio Deus. Pensar diferente seria estabelecer um donatismo que contraria o ensino de Jesus. A ideia defendida por esta heresia
era de que apenas homens e mulheres realmente bons seriam a igreja.
Esta bondade poderia ser percebida por meio de atos que demonstram
a santidade dos crentes. O texto bíblico, no entanto, é totalmente contrário a uma noção assim. As parábolas de Mateus 13 apontam para a
continuidade do evangelho entremeio bons e maus; cristãos verdadeiros
e cristãos falsos. Talvez a mais conhecida delas é a parábola do joio e do
trigo. Somente na época da colheita é possível reconhecer o que é joio e
o que é trigo. Da mesma forma, somente no fim dos tempos, no dia do
juízo, serão reconhecidos quem são os verdadeiros e quem são os falsos
crentes. Então o que estiver oculto será revelado. A igreja será separada
do reino do diabo e os hipócritas e maus serão conhecidos.
A igreja é a comunhão dos santos. “Os crentes são os santos; os
santos são os crentes”.62 Todavia, permanecem pecadores até a morte,
“... nesta vida, os crentes não são renovados perfeita e completamente,
completive vel consummative”.63 A realidade da comunhão dos crentes é
emergente. Não há um estado de completude naquilo que os define como
santos, mas uma continuidade do vir a ser, efetuado pela ação de Deus nos
meios estabelecidos por Ele. “O batismo destrói a culpa do pecado original,
ainda que permanece o materiale”.64 “O pecado é remitido no batismo não
assim que já não exista, mas de maneira que não é imputado”.65 É preciso,
pois, que Cristo com sua perfeita obediência cubra todos os pecados dos
crentes, que continuam sendo pecadores até a morte.66
60
Idem.
61
LUTERO, M. apud ELERT, W. Op. Cit. p.262: “The Christian Church cannot be without suffering, persecution, and dying, yes, not without sin either”.
62
SCHLINK, E. Op. Cit. p.203: “The believers are the saints; the saints are the believers”.
63
DS, VI, 7.
64
Apologia, II, 35.
65
Ibid., 36.
66
DS, III, 22.
41
IGREJA LUTERANA
Um olhar sobre uma comunidade reunida em um culto público onde
acontece a administração de Palavra e Sacramentos parece não diferenciar a religião cristã de outras religiões. Não há nada de grandioso na
realização externa do culto público. No entanto ali, Deus está, de fato,
presente. Este é o milagre da ação de Deus. Ele realiza suas grandes obras
na simplicidade dos meios de graça. Os olhos humanos não são capazes
de enxergar a sua ação. No entanto, ela acontece, e somente pode ser
crida, em fé.67
Assim um cristão poderá se desesperar se olhar para a aparência externa das coisas. Não parece que Deus está presente no mundo. Olhando
para a sua vida, só há pecaminosidade, impureza, corrupção. O bem que
quer fazer, muitas vezes não consegue, e o mal, que não quer fazer, ele
o faz facilmente (Rm 7). Sua vida é cheia de dificuldades e sofrimento.
Mas em meio a esta realidade, Deus está presente nos meios dispostos
por Ele. Eis que, se quiser se certificar da ação de Deus, o crente a pode
perceber na Palavra e nos Sacramentos; se quer perceber a santidade de
sua vida, olha para Cristo e sua obra redentora, acessível nestes meios;
se quer ser consolado diante de dificuldades e aflições, isto encontra nos
meios que oferecem e concedem a garantia da compaixão de Deus pela
sua criação, concretizada no seu Filho que verdadeiramente sofreu pela
humanidade, tendo se tornado um ser humano, para a reconciliação de
todos com Deus. “A face da igreja é a face de um pecador, atormentado,
abandonado, moribundo e cheio de tristeza. [...] Todavia, a fé vê o oposto,
o santo, a ‘glória de Deus’ (gloria dei), a ‘glória da irmandade cristã’”.68
MODO DE EXISTÊNCIA DA IGREJA
A igreja é reunida
Os aspectos eclesiológicos considerados apontam para a natureza passiva da igreja. Esse seu caráter essencial se concretiza na sua existência.
Em concordância com isso, o aspecto para o qual se pretende aqui chamar
a atenção é de que a igreja é reunida, por Deus, em torno de Palavra e
Sacramentos.
A igreja é criada pela mensagem do Evangelho. Pecadores são confrontados com sua miséria diante de Deus, levando ao reconhecimento
de seu estado de morte. Nestas circunstâncias, recebe a garantia da obra
realizada pelo Filho de Deus que lhe dá salvação. É assim que a Confissão
67
SASSE, Herman. Luther’s Faith in the One Holy Church. Disponível em: http://mercyjourney.
blogspot.com.br/2013/01, p.5.
68
ELERT, W. Op. Cit. p.262: “The face of the church is the face of one who is a sinner, troubled,
forsaken, dying, and full of distress. […] Nevertheless, faith sees the opposite, the saint,
the ‘glory of God’ (gloria dei), the ‘glory of the Christian brotherhood’”.
42
A NATUREZA PASSIVA DA IGREJA ...
de Augsburgo define a igreja como “a congregação dos santos, na qual o
evangelho é pregado de maneira pura e os sacramentos são administrados
corretamente”.69 Logicamente há uma continuidade nos atos que constituem a igreja. Novos membros são integrados pela obra do Espírito que
opera a fé. Além disso, a redenção se deu uma vez só, mas precisa ser
aplicada constantemente ao renascido pela ação do Espírito. Também está
de acordo com isso a definição de Lutero a respeito do que é a igreja, nos
artigos de Esmalcalde. Dizer que a igreja é constituída pelos cordeirinhos
que ouvem a voz do bom pastor e o seguem70 significa que eles a estão
ouvindo permanentemente.
Não é suficiente apenas que haja uma teologia correta e que alguém se
diga confessor das suas asserções. É preciso que a Palavra seja proclamada
sem cessar. Até o fim dos tempos deve ser proclamada a mensagem que
mata e faz viver. Isto acontece por meio da pregação da Lei e do Evangelho, distinguidos e aplicados corretamente. O foco é Cristo. A Lei é o aio
que conduz a Cristo, aquele que arranca os pecadores de sua condição
de perdidos e os conduz à tranquilidade e paz com Deus. Eis que aquele
que administra os meios da graça é o responsável por fazer ressoar a voz
do Bom Pastor para que os cordeirinhos possam segui-lo.
Sendo isto verdade, é significativa a definição que Lutero dá à igreja.
Segundo ele, “a igreja é a casa da boca de Deus”.71 A ideia surge do fato
de que na comunhão dos cristãos, onde há alguém que proclama a Palavra
e outros que a ouvem, o Espírito Santo atua para condenar e recriar os
pecadores, para matá-los e vivificá-los.72 De acordo com isso, a igreja é
uma comunhão de ouvintes.73 A igreja é a “comunhão daqueles que primeiro ouvem e creem e só depois falam”.74 A experiência mais individual
de todas, que consiste no arrependimento e fé, paradoxalmente só pode
ser realizada na comunhão dos santos, a qual ultrapassa lugares e épocas.75 Para usar as palavras de John F. Johnson: “A koinonia com Deus,
em Cristo, leva à koinonia de uns com os outros na Una Sancta”.76 De
maneira que a obra do Espírito Santo consiste no seguinte: “primeiro nos
69
CA, VII, 2.
70
AE, Terceira Parte, XII, 3.
71
KOLB, Robert. The Sheep and the Voice of the Shepherd: The Ecclesiology of the Lutheran
Confessional Writings. In: Concordia Journal, Saint Louis: Concordia Seminary, 2010, p.328:
“The Church is God’s Mouth House”.
72
Idem.
73
BAYER, O. A teologia de Martim Lutero: uma atualização. São Leopoldo: Sinodal, 2007,
p.51.
74
Idem.
75
Idem.
76
JOHNSON, J. F. Op. Cit. p.30: “Koinonia with God in Christ leads to koinonia with one another.”
43
IGREJA LUTERANA
conduz à sua santa congregação e nos põe no seio da Igreja, pela qual
nos prega e leva a Cristo”.77
A igreja é reunida por causa da necessidade dos crentes. Os grupos de
cristãos de comunidades locais não se reúnem, mas são reunidos. Por uma
questão de proximidade, eles são atraídos para um lugar comum onde a
Palavra é pregada e os Sacramentos são oferecidos. Este lugar, o templo,
onde são reunidos os cristãos, não constitui a igreja. Ela não é esse lugar
nem existe por causa dele. No entanto, ela depende dele porque nele a
sua substância é oferecida. Nos meios dispostos por Deus – na água do
Batismo, no pão e no vinho na Ceia e na Palavra proclamada, oferecidos
naquele lugar, Cristo está convidando: “Vinde a mim, todos os que estais
cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei” (Mt 11.28). Por causa
disso, o Espírito Santo conduz os crentes daquele local até lá, para que
sejam alimentados, uma vez que a obra do Espírito consiste em conduzir
a toda verdade e Cristo é a verdade (Jo 16.13; 14.6).
O aspecto da unidade da igreja determina que a reunião das pessoas
em uma comunidade local se dá a partir da essência do que é a igreja,
que é Cristo. Esta comunidade que se reúne não está sozinha, mas em
comunhão com cristãos de todos os tempos e lugares, uma vez que a sua
fé está posta no mesmo Senhor. A catolicidade da igreja existe só porque
Deus expande seu amor por todo o mundo, pelo tempo da graça. A obra
de Cristo na cruz foi realizada para atrair pessoas de todas as nações (Jo
12.32). Para estar em comunhão com outros cristãos, ritos e cerimônias
de qualquer tipo são dispensáveis, pois a igreja consiste naquelas pessoas
em que há conhecimento e confissão verdadeiros da fé e da verdade. Esta
confissão de fé verdadeira é possível somente mediante o livre curso do
evangelho. Infelizmente há a possibilidade de que a estrutura se torne
um obstáculo para a proclamação do evangelho.78
Além disso, o aspecto revelado e o aspecto oculto da igreja precisam
ser mantidos em íntima relação. Não é possível perceber visivelmente a
plenitude da Santa Igreja Cristã, que está espalhada por todo o mundo e
que não corresponde a todos aqueles que dizem ser cristãos. Entretanto
é possível ir até onde a visibilidade da palavra nos permite. Sendo isto
verdade, é preciso que a prática das congregações que se identificam como
luteranas busquem sempre manter-se ao que contêm as confissões.
A unidade, que é premissa da una sancta, deve ser refletida na vida
da igreja no mundo.79 Esta unidade só pode ser refletida na confissão de
77
CM, Credo, 37.
78
ROSIN, R. Lutero e a Estrutura da Igreja então e agora. In: Lutero e o Ministério Pastoral:
1º Simpósio Internacional de Lutero. Organização de Paulo W. Buss. Porto Alegre: Concórdia,
2015, p.73.
79
JOHNSON, J. F. Op. Cit. p.31.
44
A NATUREZA PASSIVA DA IGREJA ...
fé.80 A igreja como sociedade de caráter essencialmente passivo, da ação
de Deus, em Cristo, pelo Espírito, não busca estabelecer essa unidade com
base em aspectos externos. Esta unidade parte do centro da comunhão
dos santos que são as coisas santas, a saber, Palavra e Sacramentos.
A prática da igreja leva a efeito as convicções de fé que emergem
dos credos. A igreja, pois, precisa ser vista como una, santa, católica e
apostólica, de acordo com as devidas significações dos termos. Todos estes conceitos, em última análise, estão compreendidos na obra realizada
pelo Espírito Santo. Porém, dentro da realidade visível, são perceptíveis
lá onde Deus se dá a conhecer, ou seja, na Palavra e nos Sacramentos.
Assim é preciso considerar, a partir do que expressam as confissões, que a
verdadeira igreja visível é a Igreja Luterana, pois esta tem a palavra pura
e a verdadeira administração dos Sacramentos.81 Com esta assertiva não
se está negando a possibilidade de que em outros grupos denominacionais
haja a ação do Espírito Santo. No entanto, isto pertence ao campo da fé.
Verdadeiros crentes existem nestes grupos com um condicionante “apesar
de”, referente às convicções expressas pela fé confessada dos mesmos.
Em consonância com isso, no meio luterano, é preciso que haja rejeição de
toda má compreensão e expressão doutrinária. É preciso sempre de novo
um compromisso sério com a correta exegese bíblica. O conceito bíblico
de igreja precisa ser mantido contra toda especulação e toda conceituação
humana que o deturpe. Os termos do credo antigo para o conceito de igreja
são explorados pelas confissões luteranas e expressados na afirmação do
que basta à igreja, a saber, manter-se ao essencial.
Ordenações humanas impostas à igreja como necessárias fazem com
que o artigo da liberdade cristã, fundamental da doutrina evangélica, seja
corrompido. Considerar a não observância destas ordenações como erro
e pecado conduz à idolatria.82 Na sua primeira carta aos coríntios, Paulo
aponta para o cuidado necessário com o ensino. Os que edificam sobre
o fundamento do Evangelho devem ser cuidadosos no que fazem, para
que o mesmo não seja subvertido. Não é possível que outro fundamento,
além de Cristo, seja lançado (1 Co 3.10,11).
Os crentes são a igreja porque são levados à fé pela operação do Espírito Santo através do evangelho. Diante disso, cabe à igreja que sempre
de novo se pergunte: está sendo, de fato, deixado que o evangelho esteja
em evidência? É preciso que a igreja em continuidade com as confissões
luteranas se questione: esta continuidade, que faz parte de nossa identidade, é real ou apenas aparente? A estrutura da igreja tem emergido da
80
Idem.
81
PREUS, R.Op. Cit. p.16.
82
DS, X, 15.
45
IGREJA LUTERANA
mensagem evangélica, que cria e mantém a igreja, ou tem sido o próprio
conteúdo da mensagem, de maneira que seus ditames têm sido determinantes para o conceito de igreja? Aqueles que se preocupam em estar em
continuidade com a verdade que funda e mantém a igreja desesperam de
qualquer condição criada por homens para a comunhão com Deus.
A igreja está reunida
Se por um lado a igreja é reunida sempre de novo, em torno de Palavra e Sacramentos, administrados no culto público, por outro ela constitui
uma comunhão que não está presa a um determinado lugar ou momento.
Sendo sociedade de fé e do Espírito Santo, todos aqueles que têm a fé
e o Espírito estão reunidos, independente do momento em que vivem e
onde se encontram. Esta característica também denota a passividade dos
crentes diante da ação permanente de Deus.
Cristo é aquele que se torna um ser humano para atender às necessidades da humanidade perdida. A palavra apresenta um Deus que vai ao
encontro do pecador, em sua miséria, e provê redenção, demonstrada em
aceitação incondicional. Desde então, o ser humano pecador é aceito tal
como se encontra, e toda a sua vida se torna agradável a Deus porque
é santificada por Cristo. Todas as dimensões da existência humana são
redirecionadas para o plano original no qual a criação foi engendrada. É
assim que a igreja não está limitada a tempo, lugares e pessoas, mas
ultrapassa todos os limites e se expande por toda a ação de Deus na
história, em Cristo.
Desta maneira, não há uma superioridade dos clérigos em relação aos
“leigos”, antes todos estão em uma mesma condição diante de Deus. Todos
são sacerdotes reais. Todos têm pleno acesso às coisas santas nas quais
Deus se faz acessível aos seres humanos. Há aqueles que são ministros,
os quais agem em nome de Cristo, pregando o evangelho e administrando
os sacramentos publicamente. Estes, porém, não estão acima de todos os
outros crentes; apenas estão em um ofício específico, instituído por Deus
assim como todos os demais ofícios e que, como os mesmos, é valorizado.83
Em última análise, todos são passivos diante da ação peculiar do Espírito
Santo, através dos meios estabelecidos por Deus.
A vida da igreja se encontra em meio ao mundo. Embora não esteja
limitada, é manifestada através de pessoas e em lugares específicos. Esta
manifestação não se limita à reunião semanal em torno dos meios da
graça, mas se expande para dentro do cotidiano, na vida de cada crente.
Enquanto vive no mundo, cada crente tem consciência de que está em
comunhão com Deus, por meio de Cristo, e também em comunhão com
83
46
ROSIN, R. Op. Cit. p.69.
A NATUREZA PASSIVA DA IGREJA ...
todos os santos de todas as épocas. Os cristãos são como membros de um
corpo. Como tais, vivem, sofrem e atuam uns pelos outros.84 Conforme
palavra de Lutero, a partir da fé em Jesus, “nos tornamos uma massa com
Cristo, entramos numa comunhão com ele, na qual compartilhamos sua
possessão, e ele entra na comunidade conosco na qual ele reparte nossas
posses”.85 Este compartilhar da vida – próprio da igreja – acontece por meio
das obras ordenadas por Deus. Estas são as da “vocação de cada qual, a
administração da coisa pública, a administração da economia doméstica, a
vida conjugal, a educação dos filhos”.86 Como diz Lutero, “o lugar da igreja
é no templo, na escola, na casa, no quarto de dormir”.87 Jesus afirma que
onde dois ou três estiverem reunidos em seu nome, ele está presente (Mt
18.20). Até mesmo se alguém fala com Deus, a partir da sua fé em Cristo,
e medita na Palavra, Deus está presente com os anjos.88
Eis que é preciso verificar a utilidade de observâncias externas da
igreja. Se estas são valorizadas acima das obras comuns da vida diária, a
encarnação de Cristo é desvirtuada. O pecador se vê novamente entregue
à própria sorte e isto somente pode significar desespero e condenação.
Lutero parece ter tido consciência disso ao desprezar assuntos eclesiásticos em favor da vida comum.89 Somente são adequadas as tradições na
medida em que são observadas em virtude de sua utilidade, servindo a
bons propósitos.90
A valorização de observâncias externas da igreja acima das obras
comuns da vida diária é um sério problema. Ajuda-nos para tanto a Apologia, no Artigo XV, que trata das tradições humanas na igreja: “Depois
de enganados os homens por essa aparência de sabedoria e justiça,
seguem-se males infinitos, é obscurecido o evangelho da justiça da fé em
Cristo, e vem, depois, confiança vã em tais obras”.91 O evangelho deixa
de ser evangelho. Os crentes são escravizados. Quando a ordem correta
84
ALTHAUS, P. A teologia de Martinho Lutero. Tradução: Horst R. Kuchenbecker. Canoas:
ULBRA, 2008, p.317.
85
Ibid., p.322.
86
DS, X, 15.
87
LUTERO apud TEIGEN, B. W. Op. Cit. p.386: “The place of the church is in the temple, in
the school, in the house, in the bedchamber”.
88
Idem.
89
“Por isso, redigi poucos artigos. Pois que, sem isso, já temos de Deus tantos encargos a
cumprir na igreja, no estado e na família, que jamais poderemos satisfazê-los. De que
serve, pois, ou a que auxilia fazerem-se, ademais disso, muitos decretos e ordenações
no concílio, especialmente quando esses pontos fundamentais, ordenados por Deus, não
são considerados nem observados? Precisamente como se ele tivesse de honrar a nossa
bufonaria” em troca do nosso ato de calcarmos aos pés os seus sérios mandamentos” (AE,
Prefácio.).
90
DS, X, 20,21.
91
Apologia, XV, 26.
47
IGREJA LUTERANA
é observada, os santos são servidos pela estrutura, e não o contrário. Isto
decorre do fato de que esta estrutura é criada pela verdade evangélica da
encarnação do Filho de Deus.92 Conforme aponta Robert Rosin, segundo
Lutero, “a igreja e sua estrutura fazem parte não do sujeito, e sim do
predicado, à medida que a Palavra é proclamada e faz surgir a igreja”.93
A igreja é criada e é preservada unicamente por Deus. Como corpo de
Cristo, ela depende inteiramente dele, que é a cabeça do corpo. O santo
povo cristão, de todos os tempos e lugares, é lugar onde “Cristo vive,
atua e governa por meio da redenção, por graça e perdão dos pecados, e
o Espírito Santo por meio da vivificação e da santificação, pela eliminação
diária dos pecados e renovação da vida [...]”.94 A igreja pois é, em sua
essência, uma realidade passiva. Os santos crentes são passivos da ação
de Deus, em Cristo, pelo Espírito, por meio do Evangelho. Da mesma forma, a igreja é passiva dos ataques de seus inimigos. O diabo e o mundo
não querem aceitar a sua permanência.
Um estudo feito por Roberto Bustamante aponta que na maioria de
suas ocorrências no Novo Testamento, a palavra ekklesia recebe um papel passivo. De acordo com isso, a imagem da igreja, no texto bíblico,
aponta para o fato de que ela “é principalmente espaço e objeto da ação
de outros (de Deus, dos seus servos e dos seus inimigos)”.95 Bustamante
ainda aponta que essa passividade parece desconfortável para o cristianismo moderno, o qual busca ter um controle sobre suas ações, podendo
prever e determinar seus resultados.96 Como aponta Rosin, apesar de
haver uma nítida distinção da igreja de outras organizações sociológicas,
“somos propensos a salientar nosso uso dos sinais ou notas às expensas
dos sinais mesmos, a fim de que nosso organizar e manobrar desses
sinais (estrutural) também pareça importante”.97 No entanto, é preciso
olhar para esta realidade de outra perspectiva. Isso não significa perder
a liberdade, mas é sinal do tempo escatológico em que a igreja existe,
onde a redenção não é construída, mas foi realizada por Cristo e é conferida como um dom por meio de Palavra e Sacramentos.98 Desse modo,
seu destino não depende de seus esforços, mas “do propósito eterno que
92
ROSIN, R. Op. Cit. p.65.
93
Idem.
94
LUTERO, M., Op. Cit. 2007, p.405.
95
BUSTAMANTE, R. Breves Reflexiones sobre la Iglesia en el Nuevo Testamento. In: Revista
Igreja Luterana, vol. 74, n.1. São Leopoldo: Seminário Concórdia, 2015, p.16: “ella es,
primordialmente, espacio y objeto de la acción de otros (de Dios, de sus siervos y de los
enemigos)”.
96
Ibid., p.21.
97
ROSIN, R. Op. Cit. p.81.
98
BUSTAMANTE, R. Op. Cit. p.21.
48
A NATUREZA PASSIVA DA IGREJA ...
atingirá sua consumação na intervenção final e iminente do Senhor em
favor de seu povo”.99
Um dos sinais de reconhecimento da igreja, apontado por Lutero, é a
existência de cruzes e tribulações, de fora e de dentro. O santo povo cristão
“tem que sofrer toda sorte de desgraça e perseguição, toda espécie de
tentação e mal (como se ora no Pai-Nosso) da parte do diabo, do mundo
e da carne [...]”.100 Todos os sofrimentos que lhe sobrevêm são por causa
do fundamento da igreja, que é o próprio Cristo.101 Um destes sofrimentos
é a própria tentação de dar uma mão à igreja para determinar o que é
essencial para sua existência. Apesar de tudo isso, permanece a verdade
de que a manutenção da igreja está nas mãos de Deus. Os santos crentes
recebem de Jesus o consolo por meio de suas palavras: “Bem-aventurados
os que sofrem perseguição por minha causa” (Mt 5.11).
A igreja permanece unida, porque o Senhor da igreja está vivo e ativo
na vida de cada um dos que têm fé, por toda a história. Assim sendo,
nenhum crente está sozinho, mas em comunhão com todos os demais
sobre a terra, que partilham dos mesmos sofrimentos e dificuldades da
vida neste mundo. Da mesma forma, está em comunhão com todos os
crentes da igreja triunfante, que já partiram e aguardam pela consumação
desta era, a fim de poder entrar na posse da herança que não perde o
seu valor, que não pode estragar nem ser destruída (1 Pe 1.4). Enquanto
isso acontece, se cumpre a promessa de Cristo: “Eis que estou convosco
todos os dias até a consumação do século” (Mt 28.20).
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A igreja é um grupo de pessoas existente para atender a objetivos em
comum. É este o conceito que naturalmente se estabelece. No entanto,
não é possível considerá-lo como concordante com a verdade bíblica.
A unidade da igreja católica – espalhada por todo o mundo – não se
dá por costumes e tradições estabelecidas pela vontade humana, mas
unicamente pela obra de Deus em Cristo. De acordo com isso, se em
outras organizações sociológicas se verifica o significado de um grupo
quantitativamente – pelo número de membros que se reúnem – na igreja,
que antes de tudo é uma organização teológica, se verifica o significado
do grupo qualitativamente – a partir de quem e do que reúne o grupo:
Deus, pelo evangelho de Cristo.
99
Idem: “del designio eterno que va a llegar a su consumación en la intervención final e
inminente de Yahvé en favor de su pueblo.”
100
LUTERO, Op. Cit. 2007, p.421.
101
Idem.
49
IGREJA LUTERANA
Visibilidade e ocultamento nunca podem ser extremos que se excluem.
A tentativa de materializar e a tentativa de espiritualizar a igreja são
tendências humanas. É preciso manter estes dois aspectos em tensão.
Trata-se de mais um dos desafios da vida a partir do evangelho em um
mundo hostil. No entanto, não é possível negligenciar isso.
Do ponto de vista humano, o que une os crentes é o pecado. Do ponto
de vista de Deus, o que une os crentes é Cristo. É desta forma que a igreja
se estabelece. O pecado precisa ser considerado sempre em toda a sua
seriedade. Ele também precisa ser tratado, e para tanto é preciso que
o evangelho de Cristo seja mantido no centro da vida da igreja. Eis aí a
perene necessidade da correta distinção e aplicação de Lei e Evangelho.
O ativismo que a igreja está destinada a praticar está em concordância com a realidade em que ela existe, mas em discordância com aquilo
que determina a sua existência, a saber, o evangelho. A igreja existe por
causa e em função do evangelho. É preciso que todo e qualquer costume,
atividade ou rito estabelecidos pelos crentes sejam coerentes com isso.
Quando tal coisa não acontece, é preciso que os cristãos se perguntem
em que medida é conveniente permanecer na prática de tais coisas.
Uma possibilidade suscitada por este artigo é uma pesquisa mais
aprofundada do que a igreja tem estabelecido como prática que determina
a sua existência no mundo. É preciso manter o conceito de igreja que a
Palavra de Deus aponta.
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51
DO QUE A IGREJA LUTERANA JAMAIS
PODERÁ ABRIR MÃO!
Jobst Schöne1
A formulação do tema pode parecer para alguns uma limitação, autoafirmação ou endurecimento confessional. Esta, porém, não é nem deve
ser nossa posição. Os reformadores, orientados por Lutero, não visaram
estabelecer uma doutrina nova ou uma nova igreja confessional. Eles
queriam, unicamente, abrir o Evangelho, a mensagem da salvação para
toda a cristandade do seu tempo no Ocidente. Eles visaram conduzir e
chamar ao centro do evangelho, a Cristo, não pelo distanciar-se da Igreja
na qual foram batizados e chegaram à fé, da qual receberam o ofício, mas,
pelo contrário, por amor a esta igreja deformada, queriam reconduzi-la
de volta ao evangelho. Que isso resultou em algo diferente do desejado,
vindo a igreja do Ocidente dividir-se em muitas igrejas confessionais, tem
outros motivos.
Na formulação deste tema queremos destacar algo diferente do que
um tom negativo. Trata-se de acentuar por que a Igreja Luterana, na qual
estamos, apesar de todas as suas imperfeições, fraquezas e até caminhos
errados, nos é tão querida e preciosa, a ponto de não querer nem deixar
nos desviar dela. Destacar isso é nosso objetivo. Mesmo assim, não se
trata aqui de opiniões subjetivas nem de valorizações que a mim, somente,
me parecem importantes, indispensáveis e dignas de serem preservadas.
Trata-se da Igreja e de sua missão, daquilo que lhe foi confiado – para
toda a cristandade. Reconhecer isto, a saber, o indispensável, mantê-lo
e confessá-lo, deve estar em nossos corações; se isto se perder, toda a
cristandade será prejudicada. Estamos, portanto, diante de uma incumbência ecumênica que luteranos que se mantém fiéis às Confissões têm
a cumprir. Não se trata de interesses individuais, de autoafirmação e de
isolamento, mas de uma certificação própria.
Devido ao desenvolvimento a que as igrejas do mundo ocidental chegaram, chegamos a um ponto no qual uma igreja não pode ganhar à custa
de outra; pelo contrário, se uma sucumbe, ela arrasta outras consigo. O
fato de pessoas saírem de uma igreja (devido a escândalos, de abuso de
pessoas, do mau uso do dinheiro, etc.) é tão grotesco que desencadeia
1
Dr. Jobst Schöne é bispo emérito da Selbständige Evangelisch-Lutherische Kirche (SELK),
Igreja Luterana na Alemanha; artigo publicado na revista Lutherische Beiträge – 1/2016.
Traduzido pelo Rev. Horst R. Kuchenbecker.
DO QUE A IGREJA LUTERANA JAMAIS PODERÁ ABRIR MÃO!
um fluxo de abandono também em outras confissões. Por outro, bons
exemplos de uma igreja podem desencadear simpatia para o outro lado...
Em resumo, estamos todos no mesmo barco. Por isso nos perguntamos: O
que nos foi dado para ser conservado? Veremos que aqui não se trata de
uma pergunta somente nossa, mas daquilo que, de forma indispensável,
pertence a toda a cristandade, o que no seu todo e para o todo deve ser
mantido e preservado.
Um cristão por si pode vir a vacilar em sua certeza – nós o sabemos
e o presenciamos com tristeza e dor – quando ele se pergunta: Será que
estou na igreja cristã correta e certa? Esta observação vem de Wilhelm
Löhe. Disse ele: “Se eu encontrasse uma igreja melhor do que a Igreja
Luterana, eu me mudaria e me converteria imediatamente a ela, mesmo no
leito da morte” – e isto apesar de todas as fraquezas da Igreja Luterana,
que ele conhecia muito bem. Mas Löhe não mudou. Outros mudaram. Tal
mudança de igreja é sempre um sinal de que na atual comunidade surgiu,
para o membro convertido, um determinado déficit que o levou a abandonar sua comunidade e deixar suas raízes. Um déficit tão grave que o levou
a buscar outras opções (que ele também poderia ter encontrado em sua
comunidade atual, da qual, neste caso, ele está abrindo mão), mas que
dificilmente será compensado. O que via de regra muda numa conversão
é a compreensão da salvação, com a qual Deus quer nos presentear e
mostrar de onde vem, qual é a sua base e o que ela abrange.
Sob este ponto de vista, perguntamos: o que é e o que deve ser indispensável para a Igreja Luterana e seus fiéis? Portanto, o que torna o cristianismo tão amável e precioso, a ponto de, sob nenhuma hipótese, abrir
mão e nos afastar dele – apesar de todas as fraquezas e deformações que
a Igreja apresenta na atualidade? Em consequência disso, apresentamos
aqui seis pontos, a partir dos quais queremos mostrar o indispensável,
sob o qual a Igreja deve repousar, para poder cumprir sua missão.
1. A ESCRITURA SAGRADA COMO PALAVRA DE DEUS, EM LEI E
EVANGELHO
A Reforma Luterana considera a Bíblia, Antigo e Novo Testamento,
como única norma (única regula et norma) para doutrina e vida em sua
igreja, como ela o expõe em sua Confissão na Fórmula de Concórdia de
1577, onde lemos: “Cremos, ensinamos e confessamos que somente os
escritos proféticos e apostólicos do Antigo e do Novo Testamento são
a única regra e norma segundo a qual devem ser ajuizadas e julgadas
igualmente todas as doutrinas e todos os mestres, conforme está escrito: “Lâmpada para os meus pés é a tua palavra, e luz para os meus
caminhos” (Salmo 119.115). E o apóstolo Paulo escreve: “Ainda que um
53
IGREJA LUTERANA
anjo vindo do céu vos pregue diversamente, seja anátema” (Gálatas 1.8).
“Outros escritos, entretanto, dos antigos ou dos novos mestres, seja
qual for o nome deles (inclusive Lutero), não devem ser equiparados à
Escritura Sagrada, porém todos lhe devem ser completamente subordinados, não devendo ser recebidos diversamente de ou como mais do que
testemunhas da maneira como e quanto aos lugares onde essa doutrina
dos apóstolos e profetas foi preservada nos tempos pós-apostólicos”
(Fórmula de Concórdia, Epítome, De Suma, Regra e Norma § 1,2; Livro
de Concórdia, p. 4992). Naquele tempo em que escreveram isto, eles
estavam mais apegados a Lutero do que nós hoje. Mesmo assim, de
Lutero só foram incluídos nos livros confessionais os dois Catecismos,
Menor e Maior, e os Artigos de Esmalcalde.
A Escritura não é somente norma e regra para ensino e vida. Ela é
também um poderoso instrumento através do qual o Espírito Santo age,
gera e fortalece a fé, também hoje. Onde esta Palavra de Deus é proclamada e aceita, surge a igreja, também hoje. A Escritura Sagrada é, por
isso, muito mais do que um documento histórico, subordinado às condições do tempo em que foi escrito e que só pode ser lido e interpretado
conforme o método histórico-crítico. Ela é – independente dos diferentes
tempos de seu surgimento e das diferenças de seus autores – uma unidade, um todo, que deve ser tomado e exposto tendo Cristo como centro
e alvo, mesmo que isto seja hoje contestado de forma veemente e não
haver consenso a respeito. A Escritura não é só palavra de homens, mas
ela é, em todas suas partes, Palavra de Deus, pela qual Deus nos fala
e se revela a nós. A Ele, Deus, todos os expositores e proclamadores
terão de prestar contas. Ninguém deve se sobrepor à Escritura, mas
subordinar-se a ela. “Exegese canônica” desses textos “inspirados” é o
adequado. A Palavra de Deus não se torna para nós “Palavra de Deus”
de caso a caso, conforme a nossa disposição em recebê-la, mas ela é e
permanece a priori.
Deus nos fala na Escritura Sagrada e isto acontece, conforme a concepção luterana, em duas formas bem distintas: de Lei e de Evangelho,
como exigência e como presente, como acusação e como absolvição, como
mortificação e vivificação (cf. Apologia XII § 46; LC p. 198). Este reconhecimento da Reforma Luterana, essa clara distinção entre Lei e Evangelho
é a chave indispensável para a compreensão da Escritura Sagrada. Assim
ela deve ser lida, anunciada, aplicada e crida. Uma mistura ou confusão
dessas duas formas de falar conduz ao erro dos entusiastas (isto é, a falha
e errada tentativa de querer dirigir o mundo pelo evangelho), ou então
2
54
LIVRO DE CONCÓRDIA. (LC). São Leopoldo (RS): Editora Sinodal; Porto Alegre (RS): Editora
Concórdia, 1980. - As notas ao pé das páginas são do tradutor.
DO QUE A IGREJA LUTERANA JAMAIS PODERÁ ABRIR MÃO!
ao legalismo (que transforma o evangelho em lei, dizendo que a pessoa
pode salvar-se por seus próprios esforços). O legalismo na pregação atual
é um perigo permanente e constante.3
2. O QUADRO BÍBLICO DO SER HUMANO E O PODER DO PECADO
(ANTROPOLOGIA)
A Escritura Sagrada, corretamente compreendida, transmite um quadro que pode vir a ser incômodo, porém é realista e sem maquiagem.
Em relação à lei, pela qual Deus convoca o ser humano à sua presença,
precisamos nos reconhecer como criaturas caídas, separadas de Deus,
incapazes de salvar-nos a nós mesmos e de alcançarmos a perfeição exigida pela lei. Aqui cabe a definição do “sine metu Dei, sine fiducia erga
Deum et cum concupiscentia” (sem temor de Deus, sem fé em Deus e
com concupiscência), “isto é, que desde o ventre materno, todos estão
plenos de concupiscência e inclinação más e, por natureza, não podem ter
verdadeiro temor de Deus e verdadeira fé em Deus” (Confissão de Augsburgo II § 2; LC, p. 29). O conceito “pecado original” é mal entendido se
acrescentarmos que com isso o ser humano foi privado da capacidade de
fazer qualquer bem no relacionamento humano, social, econômico e em
outros campos de ação neste mundo. Tão longe a compreensão luterana,
em relação ao pecado original, não foi. Ela considera o ser humano, graças
a um resto de livre arbítrio e sua razão humana, capaz de alcançar certa
“justiça civil”, porém nenhuma “justiça divina, espiritual” que o declararia
justo diante de Deus (CA XVIII § 1 e 2; LC p. 364).
Com a compreensão (definição) luterana do pecado original, rejeitamos inequivocamente as definições da antropologia a respeito do ser
humano que nos são dadas e que encontramos de muitas formas nos
mais diversos campos humanos, no campo do poder e do progresso, na
ressocialização de presos, na pedagogia e em outros campos. O otimismo
que esses campos do saber demonstram em relação ao ser humano e sua
capacidade para o bem, as catástrofes dos séculos 19 e 20 não consegui3
Portanto, não podemos abrir mão dessa verdade de que a “Bíblia, Antigo e Novo Testamento,
é, em seu todo, palavra por palavra, inspirada por Deus. Deus deu aos escritores da Bíblia
os pensamentos e as palavras exatas que deveriam empregar. Deus nos deu sua palavra
a fim de fazer-nos sábios para a salvação pela fé em Cristo Jesus” (Catecismo Menor.
Exposição de Schwan. Porto Alegre: Editora Concórdia, 2013, p. 33,34).
4
Quanto ao livre arbítrio, ensina-se que o homem tem até certo ponto livre arbítrio para
viver exteriormente de maneira honesta e escolher entre aquelas coisas que a razão
compreende. Todavia, sem a graça, o auxílio e a operação do Espírito Santo, o homem é
incapaz de agradar a Deus, temê-lo de coração, ou crer, ou expulsar do coração as más
concupiscências inatas. Isto, ao contrário, é feito pelo Espírito Santo, que é dado pela
palavra de Deus. Segundo Paulo, “O homem natural nada entende do Espírito de Deus”
(1 Co 2.14).
55
IGREJA LUTERANA
ram estremecer. O Iluminismo levou aos horrores da Revolução Francesa,
despertou o marxismo e forneceu estímulos às barbáries do nazismo, do
stalinismo e do maoísmo, para que esses pudessem se desenvolver – e
ainda se crê que, no fundo, o ser humano é bom e só as circunstâncias
da vida o tornam mau. A Escritura Sagrada, no entanto, nos ensina que
“é mau o desígnio do homem desde a sua mocidade” (Gênesis 8.21). A
história da humanidade e os acontecimentos da atualidade nos fornecem
a confirmação do pecado original.5 Esse quadro pessimista (ou melhor,
realista) a Reforma Luterana destaca com clareza, mais do que outras
confissões. É impossível para a Igreja Luterana abrir mão dessa definição.
É impossível unir-se às concepções da Igreja Católica sobre a natureza
humana e a graça, e sua doutrina da cooperação humana na salvação.
Isso torna nossa união com ela impossível.
3. COMO DEUS DIRIGE O MUNDO E SUA IGREJA
O quadro bíblico de Deus tem dois lados. Primeiro, a Bíblia nos mostra
o Deus oculto, inescrutável, enigmático (Deus abscondito), cuja ira, juízo
e castigo temos de temer; segundo, o Deus compassivo, misericordioso,
gracioso, o Deus de amor, que em Cristo se tornou homem, para nos salvar – esse é o Deus manifesto (Deus revelatus), que nos permite olhar no
coração de Deus e reconhecer sua verdadeira vontade. Ambos os lados
de Deus encontram o ser humano no tempo, nos cruéis destinos da vida
e na misericórdia que lhe é anunciada e dada. Mesmo assim, Deus não
se deixa dividir, mas permanece Deus uno e vivo, que se dirige e fala a
nós em sua Palavra, por Lei e Evangelho. Ele é o Deus que nos atrai ao
arrependimento (à volta a Deus) e à fé (o confiar em sua misericórdia).
Ao aspecto duplo da imagem de Deus corresponde a forma dupla pela
qual Deus governa o mundo e sua igreja. Ele sabe que a inclinação do ser
humano para o mal precisa ser mantida sob controle. Para isso, Deus usa
a lei, a força da lei, a espada, pelas autoridades instituídas (seu reino da
mão esquerda), a fim de manter a ordem, assegurando, assim, mais ou
menos a justiça civil e evitando o caos.
Amor, misericórdia, graça e perdão, no entanto, são formas que Deus
usa em sua Igreja (reino da mão direita) para governar e chamar as pessoas a si. Ambos os reinos são governados e dirigidos pelo mesmo Deus,
porém de maneira diferente e com objetivos (alvos) diferentes. Ambos os
reinos não devem ser misturados para não serem ambos prejudicados.
Separar Igreja e Estado dá a ambos a liberdade para servirem ao ser hu5
56
O pecado original é o pecado que herdamos de Adão, isto é, a completa corrupção de toda
a natureza humana, agora privada da justiça original, inclinada para todo o mal e sujeita
à condenação (Catecismo Menor, pergunta 100, p. 68).
DO QUE A IGREJA LUTERANA JAMAIS PODERÁ ABRIR MÃO!
mano, cada qual em sua forma. Se misturarmos esses dois reinos (como
acontece no Islã, onde uma Igreja se torna Igreja do Estado, dependente
do Estado), então facilmente se praticam injustiças em nome da religião
(como por exemplo em Genebra, no tempo de Calvino6); por fim, a Igreja
torna-se um serviçal do Estado, ou o Estado torna-se um Estado de Deus.
A distinção da forma de Deus governar os dois e a consequente separação
de Estado e Igreja pertence à tarefa da qual a Igreja Luterana não pode
abrir mão.
4. DEUS-HOMEM E A SALVAÇÃO DO SER HUMANO
A respeito de Deus, a Igreja cristã confessa no Credo Niceno: “[...] o
qual por nós homens e pela nossa salvação desceu do céu e se encarnou
pelo Espírito Santo na virgem Maria e foi feito homem”. Nesse acontecimento baseia-se a obra salvífica de Cristo, seu sofrer, seu morrer, sua
ressurreição, sua ascensão e sua volta no fim dos séculos. A Igreja Antiga
resumiu tudo isso no dogma da cristologia. A Reforma Luterana aceitou
esse dogma sem reservas. Dessa doutrina provém a doutrina luterana da
salvação, a soteriologia. Ambas as formas são inseparavelmente unidas.
A humanação de Deus visa a nossa salvação, nossa bem-aventurança, e
aconteceu, unicamente, “para nossa salvação”.
Neste ponto bate o coração da Reforma Luterana, a saber, pela cristologia se fundamenta a justificação do pecador, unicamente por amor a
Cristo, somente por graça, pela fé (em Cristo e sua obra). “Justificação”
é hoje uma palavra mal compreendida e mal-entendida. Ela significa a
livre absolvição da culpa, do pecado, sem nossa cooperação e participação, um receber passivo, de fora, que Deus nos pronunciou e atribuiu
(ou, como dizemos: “oferece, dá e sela” completo perdão dos pecados).
Ele nos declara justos. A justificação não é uma doutrina que precisa ser
captada pelo intelecto e refletida, mas é um acontecimento, algo que se
concretiza ao ser humano e no ser humano. Justificação pressupõe o ser
pecador da pessoa e sua confissão de pecados (isto é, reconhecimento de
sua necessidade de salvação). Ele é e permanece pecador, mas torna-se,
aos olhos de Deus, pela absolvição, “justo”, para o correto louvor pela
salvação, pelo perdão que a obra vicária de Cristo lhe conquistou. A compreensão “em nosso lugar”, como nosso substituto, obra vicária, é aqui o
ponto central que une cristologia com soteriologia.
6
Calvino escreveu suas teses sobre Política e Igreja em 1535. Ao tentar implantá-las em
Genebra, foi expulso. Retornou em 1541. Exigiu para si plena autoridade para implantar a
“teocracia”, a cidade de Deus, em 1553. Passou a exigir de todos os cidadãos a “confissão
de fé” e passou a perseguir e executar os que não a aceitaram. Muitos foram mortos por
sua inquisição. Outros tantos fugiram. (Lutheran Cyclopedia, Concordia Publishing House,
1954, p. 155).
57
IGREJA LUTERANA
A fórmula da Reforma Luterana “simul justus et peccator” (simultaneamente justo e pecador) descreve o cristão justificado. Sua “santificação”
(= a transformação da pessoa, que vive de forma justa em pensamentos,
palavras e ações) deve ser vista como principiante, ainda com imperfeições,
pois aqui na vida terrena não será perfeita. Nesse sentido, a santificação
não deve ser tomada como base e pressuposto para a justificação, mas
como consequência, como fruto dela. A santificação brota da justificação,
mas não a opera. Essa clara distinção entre justificação e santificação,
em ordem irreversível, primeiro a justificação, depois a santificação, não
é aceita pela Igreja Romana (Católica), nem pelas igrejas reformadas e
similares.7 Ela é uma das partes de cujo ensino e prática a Igreja Luterana
não pode abrir mão. A justificação é dada, a saber, o justus (o ser justo),
somente por graça, somente pela fé (= o confiar na misericórdia de Deus,
que em Cristo se tornou realidade), unicamente por amor a Cristo. Isso
se torna mais visível pelo quadro de Lutero da “feliz troca”: culpa, morte
e pecado, trocados por justiça, perdão e pureza; morte por vida. Isso a
pessoa alcança pela união com Cristo. Sua fé (para o colocar de forma bem
clara) não opera a salvação, nem em parte com o auxílio de Deus, mas a
recebe. A fé é recebida como presente de Deus. Este apegar-se, voltar-se
a Deus é operado pelo Espírito Santo, que opera a fé pelos meios da graça
ordenados por Deus, confiados à sua Igreja: palavra e sacramentos.
5. OS SACRAMENTOS E O CULTO
Justificação e sacramentos estão juntos de forma inseparável. Sem
os sacramentos, os frutos da obra salvífica de Cristo permanecem no
passado. Lemos no Catecismo Maior: “‘Quem crer e for batizado será salvo’” (Marcos 16.16). Compreende-se, por isso, da maneira mais simples,
assim: a força, a obra, o proveito, o fruto e o fim (alvo) do batismo é
salvar... É bem sabido, entretanto, que ser salvo não significa outra coisa
que ser liberto do pecado, da morte, do diabo, chegar ao reino de Cristo
e com ele viver eternamente. Vês aqui de novo em que grande apreço se
deve ter o batismo, visto que nele alcançamos tão inexpressível tesouro”
(Catecismo Maior, Do Batismo, § 24; LC, pp. 477-478). Da mesma forma,
a Santa Ceia: “Porque, de outra maneira, como saberíamos que tal aconteceu ou que nos deve ser dado de presente, se não nos fosse anunciado
mediante a pregação ou palavra oral? De onde é que o sabem ou como
7
58
Lemos no Catecismo Menor: Justificação: Recebemos remissão dos pecados e nos tornamos justos perante Deus, não pelas nossas obras, mas pela graça, por Cristo, mediante
a fé (pergunta 209). O artigo da justificação pela fé temos que guardar fielmente em
todos os tempos por ser o artigo principal da doutrina cristã, pelo qual a Igreja de Cristo
se distingue de toda a religião falsa, sendo dada a glória somente a Deus e constante conforto ao pecador (pergunta 211). Catecismo Menor. 3ª ed. Porto Alegre: Editora Concórdia,
2013.
DO QUE A IGREJA LUTERANA JAMAIS PODERÁ ABRIR MÃO!
é que podem apreender o perdão e dele se apropriar, se não se atém à
Escritura e ao evangelho e neles não creem? Ora, o evangelho todo e este
artigo do Credo: “Creio numa única santa Igreja Cristã, na remissão dos
pecados, etc.”, mediante a palavra foram incorporados neste sacramento
e apresentados a nós. Por que haveríamos de permitir que se arranque
dos sacramentos esse tesouro, quando eles têm de confessar tratar-se
das mesmas palavras que ouvimos por toda a parte no evangelho?” (Catecismo Maior, Da Santa Ceia, § 31-32; LC, p. 489). Os sacramentos estão
presos totalmente à Palavra de Deus. Se a Palavra cai, os sacramentos
caem também. Agora, no entanto, a Palavra executa, opera, cria o que
ela afirma, visto que o próprio Cristo está na Palavra e fala em linguagem
humana. Conforme Lutero, ela é uma Palavra de ação – ação que é bem
real naquilo que ela fala.
Esta compreensão realista do cumprimento e da ação da Palavra de
Deus – na proclamação, bem como na consagração e na distribuição real
dos elementos – caracteriza a posição de Lutero e também, não em grau
menor, a posição da Igreja Luterana. Ela crê, ensina e confessa a presença real de Cristo na Santa Ceia para nossa salvação. Ele (a saber, Jesus)
prega. Ele batiza. Ele absolve. Ele torna seu corpo e sangue presentes,
para que sejam distribuídos e recebidos.
Se essa confissão da presença real de Cristo em sua Palavra e da
presença real de seu corpo e sangue na Santa Ceia em, com e sob o pão
e o vinho, se perde e se ela não for mais confessada de forma clara e
confiável na administração da Santa Ceia, mas reduzida à presença pessoal “em Espírito” (encoberta num véu por palavras veladas, que não são
mais textuais, mostrando o quanto já se desviou da fé e da confissão da
presença real), então a Igreja perde o que a torna Igreja no sentido pleno:
o ser povo de Deus, em cujo meio Cristo está pessoalmente presente e
seu Espírito agindo em nós. Trata-se aqui daquilo de que a Igreja vive, e
se isso se perde, ela morre.
Visto ser a Igreja gerada da Palavra de Deus e dos sacramentos, e
deles viver, o culto, em cujo meio esses dons de Deus são “administrados”,
proclamados e recebidos, é o centro de toda a vida da Igreja Luterana.
Isso inclui a prática da Confissão e da Absolvição, pela qual nos é aberto
o caminho de volta ao batismo, quando é dado o perdão ao pecador contrito e arrependido, por ordem e poder de Deus. Tal confissão e absolvição
perdeu-se quase totalmente na Igreja do Ocidente. Como substitutivo
entrou, sorrateiramente, a ideia de que Deus é cordial e amoroso, que
nunca se ira, não castiga, nem julga ninguém; todos “são aceitos” por
ele assim como são e como querem continuar a viver. Essas são pessoas
que não necessitam mais de reconciliação, nem contrição, nem confissão
e absolvição. O pastor Claus Harms (1817) disse zombeteiramente: “Na
59
IGREJA LUTERANA
Idade Média,o perdão ainda custava dinheiro. Hoje, o temos de graça e
cada um se serve sozinho do perdão como quer”.
6. O MINISTÉRIO E A IGREJA
Como último ponto na enumeração de assuntos dos quais a Igreja da
Reforma não pode abrir mão está sua posição em relação ao Ministério
da Igreja, enraizado na comunhão dos santos, naquilo que chamamos de
Igreja. A “comunhão dos santos” (communio sanctorum), como o confessamos no Credo Apostólico, sabemos que é originalmente a participação
nas coisas santas, nos santos sacramentos. De fato, a Igreja brota da
Palavra e dos sacramentos, por meio deles o “corpo de Cristo” se edifica,
pois a Igreja não surge de resoluções de pessoas que se reúnem para a
finalidade de praticarem juntos a religião (Schleiermacher pensou assim).
Pelo contrário, é pela Palavra anunciada em seu meio e pelos sacramentos
administrados em seu meio que a fé é gerada. É pela fé que as pessoas
são incorporadas ao povo de Deus, no corpo de Cristo. Não são os fiéis que
fazem a Igreja, mas a Igreja faz os fiéis através dos meios que lhe foram
conferidos: Palavra e sacramentos. Assim, a Igreja, como congregação
dos santos, agradece total e inteiramente ao agir e falar de Deus, visto
ser ela criação da Palavra de Deus (creatura verbi divini).
Para levar os dons de Deus, Palavra e sacramentos, às pessoas, a fim
de implantar e fortalecer nelas a fé, Cristo deu à sua Igreja “pastores” e
instituiu o santo ministério que eles exercem. Na instituição desse ofício
pelo próprio Cristo, que chamou e enviou os apóstolos, a Igreja precisa manter-se de forma imutável e não pode ver nisso uma instituição
humana. A concepção de que o santo ministério emana do “sacerdócio
universal de todos os crentes” e é simplesmente uma instituição humana
para manter a boa ordem, é bem pietista, mas não é doutrina da Igreja
Luterana (por isso também não se encontra assim em nossas Confissões). Pelo contrário, a proclamação e a administração dos sacramentos
(sempre é exercido “vice et loco Christi”), é confiada aos portadores do
ministério que Cristo instituiu. Eles, como responsáveis diante de Cristo,
devem exercer seu ministério de forma conscienciosa, sem falsificações.
Sua incumbência e sua autoridade remontam aos apóstolos, aos quais
Jesus chamou diretamente.
Incumbência e autoridade são transmitidos, hoje, pela ordenação.
Cristo age hoje por meios, a saber, dos ministros ordenados. A Igreja tem
o dever de examinar os candidatos à ordenação e transmitir o ministério
àqueles que o querem administrar conforme a vontade de Deus. (E, conforme a visão da Igreja antiga e a maioria das igrejas fieis às Confissões,
isso excluía ordenação de mulheres). A imposição das mãos que acontece
60
DO QUE A IGREJA LUTERANA JAMAIS PODERÁ ABRIR MÃO!
na ordenação é um sinal valioso da continuidade através dos séculos, mas
não substitui a “sucessão apostólica”, porém a acompanha.
Esse pastorado apostólico, chamado também de “Ofício da Pregação”,
tem sempre um caráter de “servo”. Ele não foi instituído para dominar,
para exercer “domínio”, mas tem sua autoridade unicamente da Palavra
de Deus. Essa Palavra cria por si a aceitação em fé. Os portadores do
santo ministério e os fiéis na comunidade estão unidos um ao outro e não
devem existir um sem o outro.
Agora, nem a Escritura como tal, nem o culto ordenado por ela, nem
a liturgia, nem a pregação, nem o santo ministério, nem a comunidade
– seja lá como se chamem – têm finalidade em si mesmos, mas servem
ao louvor a Deus e à salvação das pessoas para a vida eterna. Assim, a
indispensável finalidade, da qual nunca podemos abrir mão, da qual a
Igreja foi encarregada de levar ao coração e à mente das pessoas, não
encontramos em nenhuma exposição melhor formulada do que na explicação do 2º Artigo do Credo Apostólico de Lutero:
Creio que Jesus Cristo, verdadeiro Deus, gerado do Pai desde
a eternidade, e também verdadeiro homem, nascido da virgem
Maria, é meu Senhor. Pois me remiu a mim, homem perdido e
condenado, me resgatou e salvou de todos os pecados, da morte
e do poder do diabo; não com ouro e prata, mas com seu santo
e precioso sangue e sua inocente paixão e morte, para que eu
lhe pertença e viva submisso a ele, em seu reino e o sirva em
eterna justiça, inocência e bem-aventurança, assim como ele
ressuscitou dos mortos, vive e reina eternamente. Isto é certamente verdade.
61
HOMILÉTICA LUTERANA, PREGAÇÃO
TELEVISIVA E O ARTIGO VII DA
CONFISSÃO DE AUGSBURGO
Lucas André Albrecht1
INTRODUÇÃO
Discussões sobre forma e conteúdo são tópicos recorrentes na vida da
Igreja Luterana, especialmente no início do século XXI. Uma das frases
que se popularizou nestas conversações é “temos o melhor conteúdo, só
precisamos de uma boa embalagem”. Ainda que esta frase, em si, precise
ser melhor considerada, quando se trata de formas, de fato, as divergências são maiores do que em relação a conteúdos. Quais os métodos que
são adequados, quais as formas que não prejudicam o conteúdo, quais as
ilustrações adequadas para a mensagem bíblica são temas que, normalmente, não se esgotam. Um dos maiores receios inferidos deste tipo de
diálogo é a ‘perda da unidade’, e da ‘identidade’ luterana, ao se abdicar de
formas, e até tradições, que, em certas circunstâncias, são consideradas
parte da essência da igreja.
Na televisão, esta tensão é ampliada. Veículo que trabalha primordialmente com a imagem, exige, na ocupação de seu espaço, constante
crescimento e profissionalização na utilização de seus recursos fundamentais. Uma iniciativa luterana que trabalhe com imagem, portanto, muda a
forma, a produção e a emissão de mensagens, sermões, uma vez que a
tradição homilética luterana, quase na sua totalidade, refere-se ao locus
de pregação presencial, especialmente o culto em comunidade. Não se
identifica um campo específico de ensino e pesquisa sobre pregação no
ambiente televisivo. Assim são os conceitos e conteúdos da pregação
no contexto presencial que auxiliam a lançar luz sobre a comunicação
luterana na TV.
No contexto da discussão sobre unidade, essência da igreja e ritos
(formas), recebe destaque a afirmação clara das confissões luteranas,
especialmente em seu artigo VII, a respeito do papel das formas na essência da igreja e sua missão. Para a verdadeira unidade da Igreja, nenhum
rito (forma) é essencial, mas sim, Palavra e sacramentos. A partir destes
1
Teólogo pelo Seminário Concórdia (1998) e pela ULBRA (2015). Jornalista (2011) e pósgraduado (2014) pela ULBRA. Mestre em Teologia pelo Seminário Concórdia (2015). Capelão
da Aelbra/ULBRA em Canoas, RS. Produtor, apresentador e diretor do programa “Toque de
Vida”, da Ulbra TV, desde 2004. ([email protected])
HOMILÉTICA LUTERANA, PREGAÇÃO TELEVISIVA E O ARTIGO VII DA C. DE AUGSBURGO
pilares, as formas adequadas são desenvolvidas para que o evangelho
chegue aos corações. Conquanto tradições e formas de expressão estabelecidas tenham reconhecido valor para a Igreja, nenhuma delas é parte
da essência da Igreja, e sim, decorrência dela. Como ressaltou Helmut
Thielecke, a cada geração, o evangelho precisa ser pregado de maneiras
diferentes, renovadas, uma vez que questões únicas surgem a cada geração. “O evangelho precisa ser constantemente encaminhado para um novo
endereço, porque o destinatário tem se mudado constantemente”.2
A partir do referencial homilético luterano de pregação presencial, este
artigo verificou aspectos da construção do sermão na contemporaneidade,
especialmente no ambiente televisivo. Investigou alguns processos de
construção e emissão da mensagem luterana para a televisão, tomando
como objeto observável o programa Toque de Vida, da Ulbra TV. Ainda,
buscou no artigo VII da Confissão de Augbsurgo a fundamentação para
a variedade nas formas e maneiras de comunicar a Palavra de Deus às
pessoas, trazendo a dinâmica entre essência (Palavra e sacramentos) e
formas (ritos).
1. PREGAÇÃO LUTERANA
A partir da Grande Comissão de Cristo3 e, especialmente, do evento na
festa de Pentecostes,4 os cristãos tiveram confirmada a certeza de que o
papel da Igreja Cristã no mundo é, primariamente, anunciar o evangelho
de Jesus Cristo. Os apóstolos afirmam que não podem deixar de falar do
que viram e ouviram.5 Paulo afirma que a fé vem pelo ouvir da pregação
da Palavra. Por isso, é necessário haver, também, quem a pregue.6 Ao
longo de suas epístolas, aponta diversas vezes para o ofício da pregação e
sua importância para a Igreja Cristã.7 Desta forma, ao longo dos séculos,
a comunicação do evangelho, normalmente chamada de pregação, na
Igreja Cristã se consolidou como condição indispensável à sua existência
e manutenção.
Desde o início do movimento da Reforma Protestante, a pregação foi
uma das funções principais de um pastor. Proclamar o evangelho a partir
do púlpito era o meio mais comum de ensinar a doutrina. Até mesmo as
funções do trabalho pastoral foram redefinidas, procurando criar mais
2
THIELECKE, Helmuth. How Modern Should Theology be? London: Fontana, 1970, p.10
3
Evangelho de Mateus 28.19
4
Atos, Capítulo 2
5
Atos 4.20
6
Romanos 10.14-17
7
Por exemplo: 1 Coríntios 1.23; 2 Coríntios 4.1-6; 2 Coríntios 5.18-21; Filipenses 1.15-18;
Colossenses 1.28-29;
63
IGREJA LUTERANA
espaço para a pregação.8 No entanto, o próprio Lutero nunca externou
claramente uma posição sobre como exatamente deveria ser a forma de
um sermão luterano. Ele logo abandonou o modo formal e temático da
Idade Média na pregação. Criou um estilo próprio, com sermões focados
em exposições bíblicas.9
Na homilética luterana, a tarefa não é tratar apenas de princípios teóricos, mas inclui o treinamento prático. O sermão se distingue da pregação
no sentido mais amplo pelo fato de ser uma das partes litúrgicas do culto
em comunidade.10 Definir pregação luterana é uma tarefa gigantesca,
frente à vastidão de material e práticas no Brasil e ao redor do mundo.
Assim, abordamos apenas alguns aspectos deste desafio. David Schmitt,
analisando a maneira como pastores falam uns com os outros a respeito
da pregação, observa que eles tendem a isolar um ou outro aspecto pertinente à construção da mensagem:
Alguns dizem que o sermão é simplesmente “apresentar o texto
novamente às pessoas”. Outras falam sobre a pregação no contexto de novos cristãos e como o sermão deveria ser mais sobre
ensino, mais parecido com um Estudo Bíblico. Outros se prendem
firmemente à linha da proclamação evangélica e dizem que, quando o pregador sobe ao púlpito, ele precisa, simplesmente “afligir
os confortáveis e confortar os afligidos”, ou “matar as pessoas
com a lei e as ressuscitar com o evangelho.” Ainda outros falam
sobre a importância do uso de histórias da vida contemporânea
e como o contar histórias é uma maneira de se relacionar com
as pessoas.11
Schmitt conclui que, ouvindo este tipo de manifestação, se ouve diversas vozes, sem, contudo, ter uma visão geral e mais completa. Cada
pastor tem um pedaço da tapeçaria, mas nenhum deles consegue olhar
para o todo.12 Por isso, procurar uma visão global, ou ao menos estabelecer
um corte para definir a pregação, auxilia na compreensão mais ampla da
tarefa do pregador.
Para Dieter Jagnow, a pregação bíblica é “um evento de comunicação
que tem por objetivo ajudar as pessoas a ouvirem a eterna e imutável
8
BURNETT, Amy N. How to preach a protestant sermon: a comparison of Lutheran and
Reformed homiletics. Department of Faculty Publications, Department of History. v. 63,
Lincoln, 2007. n. 2, Disponível em: http://digitalcommons.unl.edu/cgi/viewcontent.cgi?ar
ticle=1106&context=historyfacpub Acesso em 01 dez 2015.
9
Id. Ibid.
10
KIRST, Nelson. Rudimentos de homilética. São Leopoldo: Sinodal, 1985
11
SCHMITT, David R. The tapestry of preaching. Disponivel em: http://concordiatheology.
org/2011/09/the-tapestry-of-preaching/ Acesso: Outubro, 2015
12
64
Id. Ibid.
HOMILÉTICA LUTERANA, PREGAÇÃO TELEVISIVA E O ARTIGO VII DA C. DE AUGSBURGO
Palavra de Deus em suas mutáveis situações cotidianas”.13 É uma peça comunicacional que visa atingir as necessidades reais de pessoas reais.14
Revisando autores da homilética luterana, especialmente Richard
Caemmerer, C.F.W. Walther, Vilson Scholz e Ely Prieto,15 uma das possíveis definições para o sermão luterano poderia trazer a característica de
apresentar em seu conteúdo: cristocentrismo, lei e evangelho, falar da
pessoa e da obra de Jesus Cristo, ter apenas um objetivo, levar em conta a
perícope (texto bíblico), trazer ensino teológico da Igreja e ter adequação
ao contexto e realidade dos receptores.
2. PREGAÇÃO E TELEVISÃO
Quando se fala em pregação cristã na TV, as referências culturais
brasileiras, com maior velocidade, identificam as denominações proeminentes no cenário televisivo, de origem predominantemente pentecostal
e neo-pentecostal. Como o faz, por exemplo, Luiz Carlos Ramos, no artigo
“Persuasão homilética na Idade Mídia”. Ramos analisa a prática homilética
cristã em sua inter-relação com o fenômeno dos meios de comunicação
de massa, particularmente a televisão. Afirma que:
Nossa opinião é a de que se, por um lado, a programação
televisiva encontrou forte inspiração na prática homilética religiosa, atualmente a experiência da pregação nas igrejas busca
nos meios de comunicação o seu modus operandi (método), o
seu modus faciendi (técnica) e o seu próprio modus vivendi (estilo de vida).16
Para Ramos, religião e mídia inspiram-se mutuamente, tanto em termos
de forma como de conteúdo. Argumenta que, particularmente quanto à
TV, o conteúdo deve ser simplista e simplificador, para fácil assimilação do
telespectador, além de superficial, emotivo, narcisista, entre outros.17 A
inspiração entre religião e mídia é mútua, sendo que os princípios homiléticos que pautam a prática religiosa se refletem na concepção comunicativa
13
JAGNOW, Dieter Joel. Pregação criativa. Porto Alegre, Concórdia, 2010, p.9.
14
Id.Ibid., p.9.
15
A pesquisa detalhada pode ser acessada em: ALBRECHT, Lucas André. Pregando para todos
e para ninguém. Dissertação de Mestrado, 2015. Disponível na Biblioteca do Seminário
Concórdia.
16
RAMOS, Luiz Carlos. Persuasão homilética na Idade Mídia. A pregação contemporânea e
os meios de comunicação de massa. Disponível em: http://www.metodista.br/ppc/caminhando/caminhando-15/caminhando-15/persuasao-homiletica-na-idade-midia-a-pregacaocontemporanea-e-os-meios-de-comunicacao-de-massa Acesso em 26 de maio, 2015
17
Id. Ibid.
65
IGREJA LUTERANA
dos meios seculares.18 Da mesma forma que “quanto mais visual, maior
será a chance de certo conteúdo ser veiculado pelo meio televisivo. Daí a
impossibilidade de, neste caso, separar-se forma de conteúdo”.19
Assim, segue Ramos, quando a religião se serve desse canal de comunicação,
ela não tem outra escolha, a não ser render-se às exigências
próprias do meio. Sua mensagem converte-se, necessariamente,
em mercadoria, e a experiência de Deus, ou da fé, é colocada lado
a lado com outros produtos do mercado. Há, atualmente, uma
indústria milionária e competitiva que se empenha para atender
a uma demanda sem precedentes, e que aquece o mercado dos
bens religiosos.20
O artigo de Ramos, ao fundamentar-se em autores como Barthez e
Gabler, alinha-se com críticas recorrentes aos veículos, especialmente os
conceitos de “sociedade do espetáculo” e “república do entretenimento”,
datados no século XX. Briggs e Burke, na obra “Uma história social da
mídia”, demonstram, no entanto, que a ideia do espetáculo social – rituais
públicos, por exemplo – pode ser recuada a data tão antiga quanto, pelo
menos, o século XVII. “A palavra ‘espetáculo’, comumente usada no século
XVII, foi ressuscitada no século XX”.21
A televisão, apesar de suas características distintivas, não parece ser
pioneira no apelo à emotividade e em sua tendência à massificação. A
afirmativa de que “o espetáculo tornou-se o mundo”, derivado de A sociedade do espetáculo (1967), deve ser contrastada com o comentário
de Richard Adler, escritor americano de televisão: “A tela pequena limita
gravemente a eficácia do espetáculo”.22
Outro ponto destacado por Burke e Briggs é o fato de que a maior
parte das críticas feitas à televisão nos anos 1960 e 1970 ficou ultrapassada. No entanto, “algumas parecem curiosamente persistentes”.23
A televisão continua a ser criticada por ser uma agência de redução e
trivialidade dos assuntos e notícias, como também uma força negativa,
distorcendo conteúdos e fatos. Entretanto, McLuhan, nos anos 1980, já
18
Id.Ibid.
19
Id.Ibid.
20
Id.Ibid.
21
BRIGGS, Asa; BURKE, Peter. Uma história social da mídia: de Gutenberg à Internet. 2ª ed.
Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2006. p.19.
22
BRIGGS, Asa; BURKE, Peter. Uma história social da mídia: de Gutenberg à Internet. 2ª ed.
Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2006. p.249.
23
Id.Ibid., p.244
66
HOMILÉTICA LUTERANA, PREGAÇÃO TELEVISIVA E O ARTIGO VII DA C. DE AUGSBURGO
era bem menos citado do que 20 anos antes. Os debates iam além, especialmente abordando o papel da família. Muitos diziam que as crianças
precisavam de proteção contra a televisão, mas pouco consenso havia
sobre a forma de fazer isso.24 Depreende-se, assim, que, tendo recebido críticas ferozes, especialmente entre os anos 1960-80, a televisão
também tem sido vista, mais recentemente, com menos preconceito e
por ângulos positivos, como exemplo, sua utilização como veículo de
comunicação e informação.
Quando olhamos a pregação em meios de comunicação a partir da
visão luterana, encontramos em Robert Rosin a definição de que há muitos tipos de veículos de comunicação – mídias – e o papel dos cristãos,
especialmente dos comunicadores, é aprender o que eles fazem e de que
maneira afetam a mensagem. E recomenda:
Faça uso de todas elas da melhor forma possível, para contatar
aqueles que Deus quer que sejam dele outra vez. Seja sóbrio e,
então, de qualquer direção que você venha vindo com a mensagem, transmitida pela mídia do momento, siga na direção da
cruz.25
Rosin reforça, também, a necessidade do preparo e adequação ao meio
em que se comunica a mensagem, já que o meio afeta a mensagem:
Percebemos o quanto os meios de comunicação – as mídias – de
fato moldam a mensagem? Se não percebemos o que um meio
ou uma mídia pode fazer à mensagem que leva ou transmite,
podemos nos dar mal.26
Isto, evidentemente, não nega a ação do Espírito Santo. Sem preparo,
a pregação pode ser uma mera repetição da palavra, como um mantra.
Relembra que aí está a razão de o Seminário possuir estudo e ensino de
homilética e interpretação bíblica. “Este é o motivo pelo qual pastores e
as pessoas em geral se esforçam por dizer as coisas da melhor maneira
possível [...] Precisamos aprender a dar o melhor de nós”.27
24
Id. Ibid., p.244
25
ROSIN, Robert. O meio molda a mensagem. In: Lutero e a comunicação: o uso da mídia na
proclamação do evangelho. Organizado por Paulo W. Buss. Nilo Waccholz, ed. Porto Alegre:
Concórdia, 2015, p.53
26
Id. Ibid., p.37
27
Id. Ibid., p.38
67
IGREJA LUTERANA
2.1 Pregação luterana na televisão
Diversas iniciativas da IELB no ambiente televisivo já aconteceram e
continuam acontecendo.28 Para este artigo, abordamos aspectos da produção e emissão do programa Toque de Vida, da ULBRA TV, de Canoas,
RS. Embasado na tradição homilética luterana, surgiu em novembro de
2004, por meio da Comunidade Evangélica Luterana São Paulo (CELSP)
e sua mantida, a ULBRA. Projetado para ser um programa diário no novo
canal de televisão da Universidade, a ULBRA TV, foi criado com a estrutura
básica de música e mensagem.
Em um sentido um tanto diverso do que propõe Ramos, o programa
Toque de Vida apresenta características peculiares de pregação na TV.
Uma das maneiras de ressaltar esta percepção é recorrendo à fala de três
produtores ao longo da história da atração. Fernanda Bordinhão entende
que o programa atinge seu objetivo ao focar nas pessoas abertas a novas
informações, com fé e com um perfil mais contemporâneo. “São pessoas
que reservam um espaço pequeno de tempo diariamente para receber
palavras de conforto, de motivação”.29 Fabiano Silva entende que a eficácia
do programa reside, em grande parte, no fato de abordar situações reais
e evidentes do cotidiano, incluindo também datas comemorativas. “A
eficácia [está] em sua simples e breve comunicação”, ressalta, indicando
que a mensagem atinge tanto os que são cristãos como tem potencial de
conquistar os que não são.30 Para Tatiana Nucci, o programa conseguiu
chegar rapidamente à sua proposta de atingir a quem o assiste com uma
mensagem positiva, de maneira atrativa, de fácil acesso a toda família.
Sendo um programa que chega a públicos diferentes, precisou ter formato
totalmente abrangente e dinâmico.31
Bordinhão ressalta que, do seu ponto de vista,
Um dos principais fatores que eu acreditava ser importante na
edição dos programas era passar uma mensagem de maneira mais
informal, sem o comprometimento de serem palavras e ações
regradas e sempre as mesmas. Não sou luterana, mas aprendi
muitas coisas editando, participando das gravações dos cultos e
28
Excelente pesquisa nesta área pode ser encontrada em: BUSS, Paulo Wille. Um grão de
mostarda: a história da Igreja Evangélica Luterana do Brasil. V. 2. Dieter Joel Jagnow, ed.
Porto Alegre: Concórdia, 2006.
29
BORDINHÃO, Fernanda Chacon. In: ALBRECHT, Lucas André. Pregando para todos e para
ninguém. Dissertação de Mestrado, 2015. Disponível na Biblioteca do Seminário Concórdia.
30
SILVA, Fabiano Ribeiro da. In: ALBRECHT, Lucas André. Pregando para todos e para ninguém. Dissertação de Mestrado, 2015. Disponível na Biblioteca do Seminário Concórdia.
31
NUCCI, Tatiana In: ALBRECHT, Lucas André. Pregando para todos e para ninguém. Dissertação de Mestrado, 2015. Disponível na Biblioteca do Seminário Concórdia.
68
HOMILÉTICA LUTERANA, PREGAÇÃO TELEVISIVA E O ARTIGO VII DA C. DE AUGSBURGO
do Toque de Vida, de maneira mais tranquila, sem a obrigatoriedade de entrar para a religião. O Toque de Vida era assim, para o
público que quer fazer o bem, receber mensagens de motivação
e repassar uma mensagem de vida, para a vida das pessoas.32
Pastores que já atuaram na produção e gravação de mensagens
para o Toque de Vida também manifestaram suas impressões sobre o
recorte televisivo da comunicação luterana. Paulo Brum, por exemplo,
destaca uma linguagem objetiva e informal, procurando uma proximidade/empatia com os telespectadores, buscando uma aplicação cristã
à vida cotidiana.33 Ângelo Elicker reforça esta noção ao apontar a busca
por uma linguagem acessível, de fácil compreensão, “como se fosse um
bate-papo com alguém do lado”.34 Na mesma linha, Marcos Schmidt
demonstra preocupação com uma “linguagem simples para não complicar a comunicação”.35 Walter Ries Jr. cita o uso de uma linguagem de
comum entendimento, “não tão igrejal”.36 O tema da simplicidade volta
a ocorrer em Tiago Albrecht, quando relata buscar a linguagem mais
simples possível, tentando conectar com o dia a dia das pessoas, como
se fossem “parábolas modernas”.37
O programa, ao longo do tempo, procurou trabalhar também a linguagem do ponto de vista jornalístico, evitando repetições desnecessárias,
excesso de chavões e lugares comuns e também de muletas na fala. O
Toque de Vida trabalha, primordialmente, o binômio ilustração e aplicação.
Em quase todas as mensagens gravadas, a ideia presente é utilizar uma
ilustração bíblica, do cotidiano, fatos históricos, objetos e outros, para,
então, fazer uma relação com a Palavra de Deus, tanto no aspecto da
justificação como da santificação.
Isto vai ao encontro de Jagnow, quando afirma que qualidade na mensagem passa também pelo emprego de ilustrações, que é um dos recursos
32
BORDINHÃO, Fernanda Chacon. In: ALBRECHT, Lucas André. Pregando para todos e para
ninguém. Dissertação de Mestrado, 2015. Disponível na Biblioteca do Seminário Concórdia.
33
BRUM, Paulo César Fernandes. In: ALBRECHT, Lucas André. Pregando para todos e para
ninguém. Dissertação de Mestrado, 2015. Disponível na Biblioteca do Seminário Concórdia.
34
ELICKER, Ângelo Naor. In: ALBRECHT, Lucas André. Pregando para todos e para ninguém.
Dissertação de Mestrado, 2015. Disponível na Biblioteca do Seminário Concórdia.
35
SCHMIDT, Marcos. In: ALBRECHT, Lucas André. Pregando para todos e para ninguém. Dissertação de Mestrado, 2015. Disponível na Biblioteca do Seminário Concórdia.
36
RIES, Walter Trescher Júnior. In: ALBRECHT, Lucas André. Pregando para todos e para ninguém. Dissertação de Mestrado, 2015. Disponível na Biblioteca do Seminário Concórdia.
37
ALBRECHT, Tiago José. In: ALBRECHT, Lucas André. Pregando para todos e para ninguém.
Dissertação de Mestrado, 2015. Disponível na Biblioteca do Seminário Concórdia.
69
IGREJA LUTERANA
criativos mais comuns na pregação.38 Justin Rossow, citando Hughes e
Kysard, observa que o uso predominante de ilustrações e metáforas não
está apenas nas bordas, mas também bem no centro da teologia e do
discurso cristão.
O próprio evangelho pode ser proclamado em termos de nascimento, vida, salvação, luz, comida, resgate, redenção, herança,
reconciliação, casamento, expiação, limpeza, salvação, libertação,
vitória, pagamento de dívida ou um veredito de inocência, para
citar apenas alguns poucos.39
Para Jagnow, o maior desafio do pregador luterano, talvez, seja o
de aplicar as verdades de Deus ao cotidiano de seus ouvintes, “levando em consideração as necessidades espirituais presentes e o destino
eterno de homens e mulheres, crianças, jovens e adultos, letrados e
analfabetos, ricos e pobres”.40 A linguagem simples e objetiva, fazendo
uso de ilustrações, destacada pelos entrevistados, está em correlação
com o uso da criatividade na construção de uma mensagem sucinta
para a televisão.
A relação com o cotidiano e o objetivo de estabelecer conexão com a
vida das pessoas são também preocupação de Robert Kolb. Descrevendo
o começo da conversa dos cristãos com pessoas que ainda não têm a fé
cristã, ressalta que “eles percebem que a agenda inicial deste diálogo é
estabelecida pelas experiências de vida que impuseram perguntas que
precisam de resposta”.41 Mais adiante, Kolb destaca:
Essas perguntas e respostas, é claro, não concluem o testemunho
cristão. Elas nem mesmo o simplificam. Antes, elas colocam a
base para uma aplicação eficaz das mensagens de Deus àqueles
que não estavam escutando.42
Outro aspecto que emerge pode ser conectado à Teoria da Relevância,
proposta por Dan Sperber e Deirdre Wilson. Para estes autores, a premissa
fundamental é de que, raramente, dizemos exatamente o que queremos
comunicar. Em algumas ocasiões, podemos ser mais sucintos, utilizando
38
JAGNOW, Dieter Joel. Pregação criativa. Porto Alegre: Concórdia, 2010, p.272
39
ROSSOW, Justin P. Preaching the Story behind the Image: A Narrative Approach to Metaphor
for Preaching. Ph.D. diss., Concordia Seminary, 2008., p.5
40
JAGNOW, Dieter Joel. Pregação criativa. Porto Alegre: Concórdia, 2010, p.9.
41
KOLB, Robert. Comunicando o evangelho hoje. Traduzido por Dieter Joel Jagnow. Porto
Alegre: Concórdia, 2009, p.10.
42
Id.Ibid., p.11.
70
HOMILÉTICA LUTERANA, PREGAÇÃO TELEVISIVA E O ARTIGO VII DA C. DE AUGSBURGO
menos conteúdo, e, mesmo assim, nos fazemos entender.43 Com isso, os
autores demonstram a importância não apenas do código linguístico, mas
também do contexto dos falantes de dos ouvintes, como veículos de sentido. Isto indica que podemos ser relevantes mesmo não utilizando todas
as palavras que, supostamente, seriam necessárias para trazer sentido,
desde que utilizemos a nosso favor o código linguístico juntamente com o
contexto adequado para que os telespectadores compreendam o sentido
do que está sendo comunicado. Pattermore indica:
Contexto, na Teoria da Relevância, é um conceito cognitivo – um conjunto de proposições que consideramos verdadeiras, ou, provavelmente, verdadeiras. O resumo de todas
estas ideias é o nosso ambiente cognitivo. Evocando um
contexto, aquele que fala tanto compele como constrange
quem ouve na direção de uma interpretação específica.44
E como deve ser uma mensagem luterana para a televisão? Os pastores que atuaram na produção do Toque de Vida opinam que ela “não
deve ter chavões igrejeiros”, deve ser simples, com um sorriso nos lábios
e sem rotulações.45 Bem elaborada, comunicativa, criativa, dinâmica,
atual, comprometida com a sua confessionalidade, responsável com sua
doutrina e, sobretudo, que tenha a mesma linguagem de Jesus, ou seja,
o amor pelas pessoas.46 Identificada com o público, relevante para os
dias atuais, fundamentada na Bíblia, visual e retoricamente agradável aos
olhos e ouvidos dos telespectadores.47 O DNA da homilética luterana: falar
de maneira simples e próxima do tempo em que se vive, reformando e
adequando a linguagem”.48
43
PATTEMORE, Stephen. On The Relevance of Translation Theory. In: Review and Expositor, n.
108, Spring 2011, p. 266. Na mesma página, o autor ilustra: “If I shout “Fire!” in a crowded
room, it will be understood by everyone to mean, “The house is on fire. Leave the building
immediately”. I could say exactly what I mean, but it would be not so relevant because it
would take too long for the listeners to process and might not gain their attention in the
first place. Similarly, few in the room would interpret my utterance to mean, “Squeeze the
triggers of your guns” although in another context that might be the precisely relevant
meaning. No code system conceivable distinguishes these two meanings of “Fire!” Context
does that.”
44
PATTEMORE, Stephen. On The Relevance of Translation Theory. In: Review and Expositor,
n. 108, Spring 2011. p. 267.
45
ALBRECHT, Tiago José. In: ALBRECHT, Lucas André. Pregando para todos e para ninguém.
Dissertação de Mestrado, 2015. Disponível na Biblioteca do Seminário Concórdia.
46
SCHMIDT, Marcos. In: ALBRECHT, Lucas André. Pregando para todos e para ninguém. Dissertação de Mestrado, 2015. Disponível na Biblioteca do Seminário Concórdia.
47
BRUM, Paulo César F. In: ALBRECHT, Lucas André. Pregando para todos e para ninguém.
Dissertação de Mestrado, 2015. Disponível na Biblioteca do Seminário Concórdia.
48
REGIANI, Herivelton. In: ALBRECHT, Lucas André. Pregando para todos e para ninguém.
Dissertação de Mestrado, 2015. Disponível na Biblioteca do Seminário Concórdia.
71
IGREJA LUTERANA
É possível mencionar também:
-
pensada para um público primariamente não-luterano;
-
embasada e focada em conceitos básicos da fé cristã;
-
aplicada ao cotidiano das pessoas;
-
pensar em longo prazo, estabelecimento de relacionamentos;
-
não colocar todo o conteúdo em cada mensagem;
-
bem trabalhada visualmente;
-
focada em argumentos claros e consistentes, sem necessidade de
apelações ou imposições.
Do ponto de vista da recepção, os produtores do programa Toque de
Vida entendem que ele atinge seu objetivo ao focar nas pessoas abertas a
novas informações, com fé e com um perfil mais contemporâneo.49 Indicam
que sua eficácia reside, em grande parte, no fato de abordar situações reais
e evidentes do cotidiano. Uma comunicação simples e breve, indicando
que a mensagem atinge tanto os que são cristãos como tem potencial de
conquistar os que não são.50
Neste contexto, um aspecto relevante a ser contrastado é que, embora
construídas para serem veiculadas no ambiente televisivo, com criatividade
e variedade, não se pode inferir categoricamente a tendência manifesta
por Ramos, de que a adesão irrestrita aos modelos comunicacionais televisivos – especialmente emotividade, simplismo e comercialismo – se
aplique ao modo luterano de conceber e produzir mensagens para este
meio de comunicação. Nem de que a mensagem televisiva luterana também
“converte-se, necessariamente, em mercadoria, e a experiência de Deus,
ou da fé, é colocada lado a lado com outros produtos do mercado”.51 Pelo
contrário, ao analisar a forma de construção das mensagens relatadas
pelos pastores, observa-se proximidade com o que descreve Prieto, quando
afirma: “Como pregadores, temos que confrontá-los [os pós-modernistas]
com a metanarrativa da Escritura. Através da história narrativa do evangelho, o Espírito Santo pode fazer da História a história deles. A verdade
da Bíblia, a verdade deles”.52
49
BORDINHÃO, Fernanda Chacon. In: ALBRECHT, Lucas André. Pregando para todos e para
ninguém. Dissertação de Mestrado, 2015. Disponível na Biblioteca do Seminário Concórdia.
50
SILVA, Fabiano Ribeiro da. In: ALBRECHT, Lucas André. Pregando para todos e para ninguém. Dissertação de Mestrado, 2015. Disponível na Biblioteca do Seminário Concórdia.
51
RAMOS, Luiz Carlos. Persuasão homilética na Idade Mídia. A pregação contemporânea e
os meios de comunicação de massa. Disponível em: http://www.metodista.br/ppc/caminhando/caminhando-15/caminhando-15/persuasao-homiletica-na-idade-midia-a-pregacaocontemporanea-e-os-meios-de-comunicacao-de-massa Acesso em 26 de maio, 2015
52
PRIETO, Ely. Communication skills for postmodern challenges. San Antonio; 2003. Trabalho
apresentado em sala de aula para curso de pós-graduação. p.3
72
HOMILÉTICA LUTERANA, PREGAÇÃO TELEVISIVA E O ARTIGO VII DA C. DE AUGSBURGO
Quando se verifica a realidade da televisão como veículo diário, alicerçado em grande parte na busca pela novidade constante e no rápido
descarte do conteúdo já exibido, pode ser manifestada a impressão de que
o grande esforço empreendido em sua utilização, na comparação tempo
investido em preparo versus público atingido/resultado obtido, pode ter
sido infrutífero. Rosin, no entanto, auxilia:
Lutero entende que aquilo que se proclama é a viva vox Dei, a voz
de Deus. O pregador e as palavras que ele fala são passageiros,
mas a mensagem transmitida trouxe vida.53
Sob esta ótica, é possível delinear algumas características da comunicação luterana na televisão: linguagem clara e objetiva, conectada à
vida dos telespectadores. Utilização de ilustrações do cotidiano, linguagem
informal. Preocupação com a qualidade de áudio e vídeo. Edição qualificada, buscando dar dinâmica ao programa. Evidencia-se que, levando em
conta estes ingredientes juntamente com aqueles tradicionais da pregação
luterana, a comunicação televisiva da IELB busca, por meio de ilustrações e
conexões com a vida diária, em poucos minutos, conectar o telespectador
ao evangelho. A característica distintiva para com a pregação presencial
reside no fato de não ter diante de si a audiência e de que esta audiência
imaginária é composta de um grupo não confessional, isto é, um amplo
espectro de pessoas de todas as origens possíveis.
3. ARTIGO VII DA CONFISSÃO DE AUGSBURGO E A PREGAÇÃO
LUTERANA TELEVISIVA
Pregar na televisão, de certa forma, é arriscar-se. As exigências deste
ambiente de comunicação passam por criatividade, dinâmica de formas,
tempo e outros fatores externos à construção homilética em si com que o
emissor busca alternativas de comunicar-se com o seu público. O próprio
fato de levar em conta a audiência, seus interesses, anseios, suas necessidades, leva o pregador a pensar não apenas na produção e emissão,
mas também na recepção. E isto vai afetar a forma com que procura se
comunicar com o público que o assiste, ainda que seja invisível.
Neste contexto, a prática homilética, em seu conteúdo e apresentação,
encontra apoio no artigo VII da Confissão de Augsburgo. Analisando construção, formatação, conteúdo e público intencionado dos comunicadores
luteranos para a televisão, sua reiterada afirmação da busca por expressar
53
ROSIN, Robert. O meio molda a mensagem. In: Lutero e a comunicação: o uso da mídia na
proclamação do evangelho. Organizado por Paulo W. Buss. Nilo Waccholz, ed. Porto Alegre:
Concórdia, 2015, p.42
73
IGREJA LUTERANA
um conteúdo que não muda, utilizando formas variáveis, a consonância
com o princípio expresso na Confissão de Augsburgo, em seu Artigo VII,
quando trata da essência e conteúdo do culto e da mensagem cristã e sua
relação com as formas de fazê-lo:
E para a verdadeira unidade da igreja basta que haja acordo quanto
à doutrina do evangelho e à administração dos sacramentos. Não é
necessário que as tradições humanas ou os ritos e cerimônias instituídos pelos homens sejam semelhantes em toda a parte.54
Na Apologia, os confessores avançam este ponto. Ao mencionarem a
condenação romana a este artigo, mencionam a distinção feita entre ritos
universais e particulares. A Santa Sé aprovaria alterações neste último, não
abrindo mão, entretanto, dos primeiros.55 Com certa ironia, os confessores
dizem não entender com clareza o que aqui querem os teólogos de Roma,
já que está evidenciada a preocupação com a unidade verdadeira, “isto é,
a unidade espiritual, sem a qual não pode existir fé no coração ou justiça
do coração diante de Deus”.56 E confirmam:
Para isso, dizemos, não se requer similitude em matéria de ritos
humanos, quer universais, quer particulares, porque a justiça de
fé não é justiça presa a certas tradições [...]. Para essa vivificação nada contribuíram tradições humanas, quer universais, quer
particulares. Nem são elas efeitos do Espirito Santo, como o são
a castidade, a paciência, o temor de Deus, o amor ao próximo e
as obras de caridade.57
Neste contexto, o pregador é alicerçado na noção de que seu compromisso fundamental com o Reino de Deus, a obra de Cristo e as Confissões
Luteranas é ser fiel em Palavra e sacramentos. Conduzir seu ministério
com a maior certeza possível de que está pregando a Palavra clara e
corretamente e administrando os sacramentos como Cristo instituiu. Não
é estritamente necessário que se apegue a formas, manuais, formatos
e ritos previamente estabelecidos, ainda que consolidados pela tradição
da Igreja, pois estes não são requeridos para a unidade verdadeira, isto
é, a unidade espiritual.58 Os reformadores são enfáticos em afirmar que
54
LIVRO DE CONCÓRDIA. Arnaldo Schüler, trad. 4 ed. Porto Alegre: Sinodal/Concórdia, 1993,
p.66.
55
Apologia da Confissão. In: Livro de Concórdia. Arnaldo Schüler, trad. 4 ed. Porto Alegre:
Sinodal/Concórdia, 1993, p.182
56
Id. Ibid., p.182
57
Id. Ibid., p.183
58
Apologia da Confissão. In: Livro de Concórdia. Arnaldo Schüler, trad. 4 ed. Porto Alegre:
Sinodal/Concórdia, 1993, p.183.
74
HOMILÉTICA LUTERANA, PREGAÇÃO TELEVISIVA E O ARTIGO VII DA C. DE AUGSBURGO
ritos diferentes de maneira nenhuma ameaçam a unidade da Igreja, ainda
que, pela tranquilidade do trabalho, acreditem que a manutenção de ritos
universais lhes agrade.59
Um dos fatores fundamentais que move os reformadores na direção
oposta à igreja romana é a noção arraigada de que a observância de ritos,
sejam universais ou particulares, contribuiriam, de alguma forma, na justificação pela fé – algo que já fora refutado extensamente na Apologia, IV.
Enfatizam, assim, que a discussão neste ponto se trata de serem tradições
humanas necessárias ou não para a justiça diante de Deus. Resolvida
esta questão, seria possível, então, trabalhar a questão secundária, isto
é, tradições humanas como necessárias para a unidade da Igreja.60
Os confessores reagem à afirmativa de seus adversários de que os
ritos universais deveriam ser observados por serem transmitidos pelos
próprios apóstolos. Ironizam, então, este argumento, mostrando que
existe preocupação com os ritos, mas não com a doutrina apostólica.
Indicam, então, que isto deve ser julgado exatamente como os apóstolos
o fazem em seus escritos, quando mostram que não querem impor ônus
às consciências de que tais ritos seriam necessários para a justiça perante
Deus. Não queriam pôr justiça e pecado na observância de comida, dias
e coisas semelhantes. Pelo contrário, opiniões como esta Paulo chamou
de “doutrina de demônios”.61
A visão do recorte televisivo da comunicação homilética luterana
apresentada até aqui, especialmente ao se preocupar com formas e
adaptações em seu cuidado e preocupação com o receptor, encontra
dissonâncias. Por exemplo, David Luecke, no que diz respeito ao relacionamento sermão e comunicação. Utilizando pesquisa realizada com
pastores das duas principais igrejas luteranas dos Estados Unidos sobre o comportamento de ouvintes frente a sermões luteranos, aponta
que o estudo trouxe a hipótese de que “o comprometimento com uma
comunicação mais eficaz pode levar ao afastamento da norma luterana
de abordagem na pregação e culto, pelo fato de colocar ênfase maior
nas necessidades e interesses dos ouvintes e participantes”.62 Robert
Schaibley vai ainda além. Não se deve levar em conta as necessidades
dos ouvintes, uma vez que a pregação luterana não é comunicação, e
sim, proclamação. O pastor tem um ofício dado por Deus e, por causa
dele, realiza no sermão um anúncio unilateral da verdade bíblica, para
59
Id.Ibid, p.183
60
Id. Ibid., p;184
61
Id.Ibid., p.184-5
62
LUECKE, David S. Trends among Lutheran Preachers. Word and World, Volume XIX,
Winter 1999. Disponível em: http://www2.luthersem.edu/Word&World/Archives/19-1_
Preaching/19-1_Luecke.pdf Acesso em 21 nov. 2010. p.22.
75
IGREJA LUTERANA
ser aceito ou rejeitado. A pregação envolve a presença do ouvinte, mas
não necessariamente sua cooperação.63
Por outro lado, encontram ressonância em Kolb sobre a necessidade
de se compreender as perguntas e traumas das pessoas à margem da fé
para uma aplicação eficaz da Palavra.64 Partilham, também, da opinião
de Jagnow, que destaca a criatividade e variedade como forma de levar
em conta, com seriedade, o ouvinte. Citando Gerald Knoche, indica que
a criatividade pode ser vista como a construção de uma ponte entre a
imutável Palavra de Deus e o sempre mutável grupo de ouvintes a quem
ela se dirige.65 Afirma que é importante gerar condições adequadas que
permitam ação criativa e recriativa de Deus acontecer na vida dos ouvintes com o maior vigor possível.66 Mas faz o destaque, em acordo com o
ensino bíblico luterano:
A verdadeira resposta do ouvinte não surge por causa da
sua habilidade como pregador, mas como resultado da ação
do Espírito de Deus. Você deve buscar ser ou tornar-se um
pregador criativo, sim, mas santificadamente criativo.67
Robert Kolb afirma que não apenas o conteúdo da mensagem deve
ser preciso, mas também precisa ser apresentado de forma correta.
Assim como falou ao público dos apóstolos e profetas, tanto tempo
atrás, deve ser “direcionado com precisão para a situação do ouvinte
contemporâneo”.68
Retoma-se, aqui, a ênfase de Jagnow na criatividade e variedade na
pregação. Observa que a pregação pode ser vista como uma expressão
artística, pois o pregador é um artesão que atua como instrumento de
Deus de forma ordenada e expressiva.69 Criatividade na pregação “é o
63
SCHAIBLEY, Robert. “Lutheran Preaching: Proclamation, Not Communication,” Concordia
Journal, St. Louis, v.18, n.1, p. 6-27, jan.1992.
64
Uma introdução a respeito das teorias da recepção encontra-se em Stuart Hall, Nilda Jacks
e Caroline Escosteguy. Estas, por exemplo, entendem o receptor como indivíduo ativo. A
mensagem dos meios é uma forma cultural que pode estar sujeita à análise e interpretações
diferentes da intenção original, já que a audiência é composta por pessoas que produzem
sentido. Assim, o que caracteriza a análise de recepção é uma comparação entre o conteúdo dos meios e o da audiência, confrontando a estrutura do conteúdo com a resposta
da audiência a ele (cf. referências na bibliografia).
65
KNOCHE, Gerald. In: JAGNOW, Dieter Joel. Pregação criativa. Porto Alegre: Concórdia,
2010, p.66
66
JAGNOW, Dieter Joel. Pregação criativa. Porto Alegre: Concórdia, 2010, p.67
67
Id. Ibid, p.66
68
KOLB, Robert. Comunicando o evangelho hoje. Traduzido por Dieter Joel Jagnow. Porto
Alegre: Concórdia, 2009, p.17.
69
JAGNOW, Dieter Joel. Pregação criativa. Porto Alegre: Concórdia, 2010, p.66
76
HOMILÉTICA LUTERANA, PREGAÇÃO TELEVISIVA E O ARTIGO VII DA C. DE AUGSBURGO
olhar que procura ver o que é familiar a partir de uma nova perspectiva
ou de um contexto diferente”.70
Sob o título “atualização, não acomodação”, vale, ainda, buscar em Kolb
o referencial de que as palavras que são anunciadas devem ser claras e
compreensíveis para as pessoas que não estão familiarizadas com o contexto
das Escrituras, evitando, no entanto, o perigo de, ao construir a ponte, fixarse demais no lado em que ela toca a cultura predominante. Os cristãos não
podem esquecer-se da orientação do Espirito Santo nesta questão. Mas,
eles também precisam lembrar que o Espírito Santo não opera de
uma forma mágica. Ele guia e aconselha através do intenso estudo
da Palavra e da cultura para a qual nos chamou para sermos testemunhas. Ele guia e aconselha através de irmãos na fé, que também
estão engajados no estudo do conteúdo, ou ensino da Palavra, e
sua aplicação e proclamação na sociedade em que vivem.71
Para isso, trabalho duro é indispensável. Não é possível dividir a comunicação pastoral entre pregadores criativos e não-criativos, defende
Jagnow, pois resultados criativos são possíveis na vida de qualquer pastor,
em qualquer área do ministério.72 É o que defende Knoche, para quem os
bons resultados na pregação se dão menos por dons superiores e mais
por trabalho árduo ao longo do tempo. Pastores criativos são aqueles que
entenderam criatividade como algo importante e trabalharam constantemente nesta direção.73
Quando alguma dúvida ainda resta sobre a importância de uma comunicação clara do conteúdo cristão dentro de formas adequadas ao ambiente
de comunicação – no recorte aqui abordado, a televisão –, depoimentos
como o dos produtores são uma lembrança de que o artigo VII faz parte
do cotidiano do comunicador luterano:
Foram anos de aprendizagem através de mensagens e explanações. Muitas vezes, as mensagens pareciam ser escritas
diretamente para mim. O formato simples e direto, a linguagem
coloquial utilizada, com toda certeza, são fatores determinantes
para o sucesso e a longa vida do programa.74
70
Id. Ibid., p.66
71
KOLB, Robert. Comunicando o evangelho hoje. Traduzido por Dieter Joel Jagnow. Porto
Alegre: Concórdia, 2009, p.16.
72
JAGNOW, Dieter Joel. Pregação criativa. Porto Alegre: Concórdia, 2010, p.69
73
KNOCHE, Gerald. In: JAGNOW, Dieter Joel. Pregação criativa. Porto Alegre: Concórdia,
2010, p.69.
74
NUCCI, Tatiana In: ALBRECHT, Lucas André. Pregando para todos e para ninguém. Dissertação de Mestrado, 2015. Disponível na Biblioteca do Seminário Concórdia.
77
IGREJA LUTERANA
Ao redigirem o Artigo VII da Confissão de Augsburgo, e também sua
Apologia, insistindo em que a essência da Igreja encontra-se em Palavra
e Sacramentos, os reformadores, portanto, com quatro séculos de antecedência, contribuíram também para embasar uma sólida e saudável
teologia e prática homilética da Igreja nos meios de comunicação do
século XX e XXI.
CONCLUSÃO
Ser criativo e investir na variedade de formas é, de certa forma,
arriscar-se. No ambiente televisivo, esta aventura fica ainda mais rica
pelo desafio da comunicação com um público amplo e ‘invisível’. A busca
pelo ideal de não subverter o conteúdo, mas flexibilizar as práticas que
fazem parte do cotidiano homilético de cada pastor, tem sua necessidade
ampliada no ambiente de utilização de veículos de comunicação como a
televisão.
A homilética luterana tradicional possui uma vasta produção e, como
destaca Schmitt, é uma tapeçaria onde, provavelmente, ninguém tem a
peça toda, mas todos podem contribuir como uma parte. A homilética para
a televisão, no entanto, ainda é uma peça por ser tecida, um campo que
pode ser amplamente explorado e para o qual este artigo buscou trazer
uma pequena contribuição.
Utilizar os fundamentos da homilética luterana como base para a
prática da comunicação do evangelho, sem dúvida, é fundamental para o
pregador luterano. Apoiar-se no artigo VII da Confissão, neste contexto,
dá a segurança e certeza das possibilidades e alternativas existentes para
que Palavra e Sacramentos, a essência da Igreja, cheguem às pessoas nas
formas e ritos que melhor estejam adequados ao contexto onde se está
inserido, comunicando, incansavelmente, e de todas as formas possíveis,
o amor de Jesus Cristo pelo ser humano.
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WALTHER, C.F.W. Lei e Evangelho. Porto Alegre: Concórdia, 1998.
80
AUXÍLIOS HOMILÉTICOS
AUXÍLIOS HOMILÉTICOS: PUBLICAÇÕES
DE 1990 A 2014
Ao longo de sua história, a revista Igreja Luterana tem procurado auxiliar os pregadores da palavra de Deus por meio de auxílios homiléticos
produzidos por pastores e estudantes de Teologia da Igreja Evangélica
Luterana do Brasil e de igrejas irmãs. Tendo em vista que nas três últimas
décadas foram publicados auxílios para todas as séries normalmente utilizadas nas pregações em congregações da IELB, a publicação de auxílios
homiléticos está temporariamente interrompida. A equipe editorial estuda formas de no futuro novamente vir a oferecer auxílios semelhantes,
inclusive tendo em vista recentes alterações em alguns textos da Série
Trienal.
No propósito de auxiliar os pregadores na elaboração de sermões,
bem como servir de material de apoio para estudos bíblicos por parte de
pastores e líderes leigos, disponibilizamos abaixo a indicação das edições
da revista a partir de 1990 em que se encontram os auxílios referentes a
cada série de leituras. Informamos aos leitores que a maior parte destas
edições está disponível na página eletrônica do Seminário: (http://seminarioconcordia.com.br/seminario/biblioteca/revistail.php)
Os números colocados referem-se, respectivamente, ao ano e a edição
da revista em que se encontram os auxílios homiléticos. Tendo em vista
modificações em algumas leituras para determinados domingos do ano
eclesiástico, nem todos os textos da atual série Trienal estarão contemplados.
A equipe editorial agradece o trabalho realizado pela então secretária do
Seminário, Sra. Cárin Fester e pela atual secretária acadêmica, Sra. Ivete
Schwantes, que participaram na elaboração dos dados colocados abaixo.
Trienal A
Antigo Testamento – 1990/1, 2001/2, 2002/1, 2010/2, 2011/1
Epístola –1992/2, 1993/1, 2013/1
Evangelho – 1995/2, 1996/1, 2008/1, 2013/2 e 2014/1
Trienal B
Antigo Testamento – 1994/1, 2002/2 e 2003/1
Epístola – 1996/2, 1997/1, 2011/2 e 2014/2
Evangelho – 1999/2 e 2000/1
IGREJA LUTERANA
Trienal C
Antigo Testamento – 1993/2, 1994/1, 1995/1, 2009/2 e 2010/1
Epístola – 1997/2 e 1998/1
Evangelho –1991/2, 1992/1, 2000/2, 2001/1 e 2012/2
Tradicional Reformulada
Antigo Testamento – 1998/2 e 1999/1
Epístola – 2004/1
Evangelho – 1990/2, 1991/1, 2008/2 e 2009/1
Estudos baseados no Catecismo Menor de Martinho Lutero – 2004/2
Estudos baseados em histórias Bíblicas do Antigo Testamento – 2006/1
e 2006/2
82
RESENHA
PLESS, John T. Martin Luther: Preacher of the Cross. Saint Louis: Concordia
Publishing House, 2013.
Edenilson Gass1
Martin Luther: Preacher of the Cross é uma análise e abordagem da
teologia pastoral de Martinho Lutero. Nesta obra, John T. Pless nos contempla com seu vasto conhecimento sobre a vida e teologia de Lutero,
mostrando como este atingiu a maturidade teológica a partir da própria
experiência com a Escritura e, especialmente, como ele aplicou sua teologia nas diversas situações de seu ministério pastoral. Pless enfatiza a
essência extra nos da compreensão teológica de Lutero, mostrando que
diante do sofrimento e da morte, o cristão deve manter os olhos fixos no
Cristo crucificado.
Com base nisso, o autor discorre sobre assuntos essenciais como o
cuidado pastoral a doentes, enlutados e aflitos; a vocação como chamado ao exercício da fé e do amor; e a dimensão escatológica do batismo.
Também trabalha sobre assuntos difíceis e delicados, como predestinação,
perseguição e problemas conjugais, fundamentado em bons escritos de
ou sobre Lutero.
Esta não é uma obra doutrinária da teologia de Lutero que traz sua
definição sistemática sobre os dogmas da Igreja Cristã. É, isto sim, uma
mostra da abordagem cristológica/cristocêntrica do Dr. Martinho Lutero de
forma aplicada às necessidades humanas, que tira o foco equivocado de
sobre o problema ou pecado e direciona para aquele que prometeu estar
conosco todos os dias até a consumação dos séculos.
Isso é o que o leitor encontrará nos seguintes títulos de Martin Luther: Preacher of the Cross: 1) A visitação e os catecismos: diagnóstico
e remédio; 2) Cuidado pastoral em tempos de ansiedade e aflição; 3)
Cuidado pastoral face à dúvida e ao desespero; 4) Cuidado pastoral à luz
da vocação; 5) Cuidado pastoral para casamentos; 6) Cuidado pastoral
ao pobre, necessitado e perseguido; 7) Cuidado pastoral ao doente e
moribundo; 8) Cuidado pastoral do enlutado; 9) Batismo como meio de
consolo na teologia pastoral de Lutero.
O posicionamento de Pless é de que os pastores do século XXI ainda
devem estudar a teologia de Martinho Lutero a fim de aplicá-la em seu
próprio ministério. Ele diz: “Esta era e é minha convicção que quanto mais
pastores estiverem envolvidos pela teologia de Lutero, tanto mais forte
1
Especialista em Teologia pelo Seminário Concórdia de São Leopoldo/RS. Mestrando em
Teologia Prática na mesma instituição.
IGREJA LUTERANA
será sua pregação de arrependimento e fé”. Para Pless, conhecer e aplicar
a teologia de Lutero não só é algo significativo, senão que de extrema
importância para o diligente cuidado das almas.
O pastor – e, de forma especial, o pastor luterano – precisa conhecer
a teologia de Lutero. Não apenas com o intuito de possuir conhecimento,
porém de fazer teologia, ou seja, de aplicar a palavra de Deus, sob a correta
distinção de Lei e Evangelho, ao povo de Deus e a determinados cristãos
individualmente quando enfrentam tentações, sofrimento e luto. Assim
também o pastor precisa desenvolver a naturalidade em apontar o pecado
com a Lei, consolar com o puro Evangelho e levar os cristãos a louvar a
Deus em qualquer situação, sabendo que ele, em sua infinita sabedoria,
é quem rege e governa sobre o mundo, o pecado e o diabo.
Além disso, Lutero entendeu que nenhuma cruz é tão pesada quanto
a cruz de Cristo, que nenhum pecado é grande demais para o Cordeiro
de Deus e que o cristão nunca sofre sozinho, pois conta sempre com a
presença e o cuidado do próprio Deus. Tudo isso, irrefutavelmente, faz de
Lutero “O pregador da Cruz”.
O propósito de Pless, portanto, é justamente demonstrar como a teologia de Martinho Lutero é útil no exercer a cura d’almas. Seelsorgerlich
é o termo que Lutero usa para falar do ato de curar almas. E o que cura
a alma e a consciência é o que está no centro da teologia de Lutero: a
doutrina da justificação. Ou seja, o fato de que o ser humano pecador
é perdoado e reconciliado pelo Deus justificador sem nenhum mérito ou
dignidade de sua parte. Curar almas, por conseguinte, não é ensinar o
cristão a acalmar a consciência com boas obras ou reta vida moral. Isso ou
onera mais ainda a consciência ou produz falsa segurança. Curar almas,
no entanto, é anunciar o perdão dos pecados. É apontar para Cristo, o
salvador da humanidade.
Portanto, Pless atinge seu propósito ao trazer de forma direta e sistemática vários exemplos da teologia de Lutero sendo aplicada às pessoas
em seus mais diversos momentos de dor e dúvida, seja em forma de
carta, sermão, conversa ou aconselhamento. Pless demonstra que a teologia é sempre prática e pastoral, pois é a palavra de Deus não apenas
sendo vivida, mas também “acontecendo”, agindo entre os cristãos. E é
esta Palavra que traz o riquíssimo tesouro do Evangelho, o qual torna conhecido o Deus absconditus, agora Deus revelatus em Cristo Jesus. Deus
que ama, perdoa e salva.
Qualquer tipo de teologia que não leva, pela pregação do Evangelho,
a pessoa a colocar-se diante de Cristo e buscar somente nele socorro e
salvação, é enganosa e diabólica. Teologia bíblica distingue Lei e Evangelho e os aplica apropriadamente, sempre com o intuito de finalmente
84
MARTIN LUTHER: PREACHER OF THE CROSS
pregar o Evangelho e apontar para o Cristo crucificado. E é para isso que
o pastor, por seu ofício e chamado, recebe autoridade: pregar a Palavra e
administrar os sacramentos para o conforto e salvação dos cristãos.
O livro, por isso, é de grande valia para quem busca exercer devidamente o cuidado espiritual ao sofredor e encaminhar os cristãos na fé
salvadora, preparando-os para o seu encontro com Cristo. A vida cristã
é composta por muitas cruzes. O que, para Lutero, é motivo de grande
regozijo, pois ressalta a união do crente com Cristo. E a mais apavorante
cruz é precisamente o último inimigo: a morte. Cuidado pastoral é, em
última análise, preparar o cristão para morrer na certeza da vida eterna,
confiante que, para quem está em Cristo, “a morte está morta”.
É, portanto, uma excelente leitura para pastores, a fim de que cumpram cabalmente seu ministério, pregando sempre o Cristo crucificado
para consolo e salvação. Entrementes, é também importante conteúdo
a ser absorvido por todos os líderes e membros da Igreja Cristã para o
indispensável exercício da mútua consolação.
85
RESENHA
SCHEIBLE, Heinz. Melanchthon, uma biografia. Tradução Walter O. Schlupp.
São Leopoldo/RS: Editora Sinodal, 2013.
Horst Kuchenbecker1
Heinz Scheible é um dos grandes pesquisadores de Melanchthon, sendo
também coordenador do Departamento de Pesquisa sobre Melanchthon
da Academia de Ciência de Heidelberg, Alemanha. O seu livro Philipp Melanchthon, Eine Gestalt der Reformationszeit, 1993, inclui dois mapas: de
suas viagens e das cidades alcançadas por sua correspondência. Ele cita
resultados impressionantes de suas pesquisas. Por exemplo: Melanchthon
visitou mais de 176 cidades, algumas delas diversas vezes. Temos mais
de 9.500 fragmentos de suas cartas, dirigidas a mais de 500 pessoas, em
diversos países: Alemanha, França, Holanda, Bélgica, Inglaterra, Espanha,
Itália, Dinamarca, Suécia, Polônia, Prússia, Romênia, Rússia, etc. Destas
pesquisas resultou este livro: Melanchthon, uma biografia.
Um livro impressionante que merece ser lido por pastores e leigos. Para
podermos compreender melhor o fundo histórico, as lutas doutrinárias nas
quais Melanchthon estava envolvido e as pessoas relacionadas a essas
doutrinas, recomendamos que antes de ler a biografia, leiam o livro de Otto
A. Goerl: Cremos, por isso também falamos: uma introdução à Fórmula de
Concórdia. Melanchthon foi um grande humanista e teólogo. Ele recebeu o
título de Praeceptor Germanie (Professor da Germânia). Teve uma grande
capacidade de diálogo. Visto que Lutero, como proscrito, não podia viajar
para todos os lugares, coube a Melanchthon participar das conferências e
diálogos. Estes tinham seus perigos, por exemplo, ceder demais no afirmar
doutrinas. O livro nos dá uma boa visão das lutas doutrinárias e esforços
despendidos por Melanchthon pela Reforma.
1
Horst Kuchenbecker é pastor emérito da IELB, residindo em São Leopoldo/RS.
RESENHA
VEITH JR., Gene Edward. Espiritualidade da cruz: os caminhos dos primeiros evangélicos. Tradução: Paulo S. Albrecht. Porto Alegre: Concórdia,
2014.
Timóteo Felipe Patrício1
Ser luterano significa ser “cruciano”. A teologia luterana tem como
princípio que não há como conhecer a Deus tal como Ele é sem que antes
Ele se revele. Isto acontece através de Cristo, em sua obra que consiste
em sofrimento e morte de cruz.
O livro de Gene E. Veith apresenta de uma maneira simples e facilmente compreensível a perspectiva luterana a respeito do relacionamento do
ser humano com Deus. O ponto de partida é a situação do ser humano,
corrompido e digno de condenação em si mesmo, sem condição alguma
de mudar isso. Toda espiritualidade falsa (que leva a ou emerge de uma
teologia falsa) ignora este aspecto. É a única forma de construir uma
espiritualidade que valoriza esforços humanos na busca por algo que dê
sentido para a existência. A espiritualidade luterana, no entanto, começa pelo reconhecimento desta condição. A única solução possível para a
mesma é a ação de Deus. Esta acontece, por sua graça, através de seu
Filho, Jesus Cristo.
Veith destaca os caminhos para Deus que emergem da aspiração espiritual do ser humano, apontadas pelo teólogo Adolf Koeberle. Estes são:
o caminho do moralismo, que procura alcançar o favor de Deus por meio
da perfeição na conduta moral; o caminho da especulação, que busca alcançar a perfeição de entendimento, vista como a chave para a realização
espiritual; e o caminho do misticismo, no qual a alma tenta alcançar a
perfeição ao se tornar um com Deus. Todos estes caminhos são falsos e
levam a nada, a não ser ao desespero.
A resposta para essas aspirações espirituais emergem das Escrituras,
de acordo com Lei e Evangelho. A Lei revela a inviabilidade dos caminhos
construídos pelo ser humano, ao mostrar sua condição desesperadora, e
o Evangelho revela que eles são desnecessários, ao mostrar que Deus já
construiu um caminho até o mundo, em Cristo. Com alguns textos significativos, Veith mostra que a palavra de Deus desmantela qualquer tipo
de espiritualidade humana. “Não há justo, nem um sequer [para acabar
com o moralismo], não há quem entenda [para acabar com a especula1
Timóteo F. Patrício, pastor na Congregação Cristo, em Duque de Caxias, RJ. É formado
em Teologia (Bacharel e Especialista) na Universidade Luterana do Brasil. Esta resenha foi
apresentada na disciplina de “Seminário em Teologia Contemporânea” e recomendada pelo
professor da disciplina, Dr. Paulo M. Nerbas.
IGREJA LUTERANA
ção], não há quem busque a Deus [para acabar com o misticismo]” (Rm
3.10, 11). Diz Jesus: “Eu sou o caminho [para acabar com o moralismo],
a verdade [para acabar com a especulação] e a vida [para acabar com o
misticismo]” (Jo 14.6).
A expansão das considerações de Veith levam o leitor a perceber a
simplicidade da ação de Deus entre seu povo. A acessibilidade a Deus que
faz parte da loucura da teologia da cruz é proposta contra toda religiosidade humana construída sobre uma base fraca e que conduz a rumos nada
promissores. É de suma importância que crentes tenham esta percepção
a respeito de sua vida cristã, vivida tanto na comunhão com os irmãos na
fé quanto em meio à vida comum do dia a dia.
Os crentes precisam ter consciência do que significa “ser igreja”, e o
livro fornece uma perspectiva para tanto. As características da igreja não
podem ser dimensionadas, de acordo com critérios humanos, a partir da
vida diária dos crentes. Na luta contra o pecado, a queda é constante;
na vida diária, há dor e sofrimento; no culto, não há uma manifestação
visível da glória de Deus; a igreja cristã está dividida em diversos grupos
denominacionais; a doutrina falsa é disseminada... diante desses e de
outros aspectos, cristãos podem se perguntar: onde está a una, santa,
católica e apostólica? Nenhuma destas verdades acerca da igreja parecem
ser verdade. No entanto, estas verdades, fazendo parte do credo, são conteúdo de fé, não características que podem ser buscadas e encontradas a
partir do esforço humano. Não há como alcançar estas verdades por meio
do moralismo, da especulação ou do misticismo. Estas são verdades que
pertencem à fides quae (fé que é crida).
Olhando para os atos externos realizados em um culto na igreja, não
parece haver nada de grandioso. No entanto, pela fé é possível crer que
nesses atos simples Deus está “comungando” com seus filhos. Em cada
culto estão presentes os meios da graça – o Santo Evangelho, o Santo
Batismo e a Santa Ceia. Sendo assim, Cristo está presente e ali há perdão
de pecados. Deus não está distante, no céu, mas presente entre o seu
povo, servindo-o com a sua graça. Na simplicidade da palavra, do batismo e da ceia, Deus está realizando o milagre do perdão. Não há como
perceber, mas Deus está presente.
Na sua vida diária, cristãos não têm constante tranquilidade; são
diariamente atormentados pelo pecado e suas consequências. Para dentro desta realidade, precisam de uma verdade que os console. Esta é a
verdade do evangelho. Não precisam eles buscar sua santidade em si
mesmos. A sua santidade está em Cristo, que também está presente e
ativo em suas vidas para lutar contra o pecado. O sofrimento permanece
até a morte. No entanto, a mensagem cristã não deixa que esta realidade
leve os santos crentes ao desespero. Jesus, verdadeiro Deus, é também
88
ESPIRITUALIDADE DA CRUZ: OS CAMINHOS DOS PRIMEIROS EVANGÉLICOS
verdadeiro homem, que viveu como um de nós e mostrou compaixão pela
condição humana. Em meio às dificuldades da vida, há a promessa e a
certeza da aproximação de Deus em Cristo, que acontece pelos meios da
graça. Além disso, há o sofrimento que acontece em nome e por causa de
Cristo. A vida dos filhos de Deus é uma vida de peregrinos e forasteiros,
que carregam a sua cruz em virtude de seguir a Cristo. No entanto estes
males e tribulações são sinais da igreja. Cristo consola o seu povo dizendo:
“Bem-aventurados sois quando, por minha causa, vos injuriarem, e vos
perseguirem, e, mentindo, disserem todo mal contra vós. Regozijai-vos e
exultai, porque é grande o vosso galardão nos céus” (Mt 5.11-12).
Cristãos precisam ter consciência de que Deus se agrada da sua vida
comum. Para tanto, o livro parece ser um bom recurso. Cristo é aquele
que se torna um ser humano para atender às necessidades da humanidade
perdida. A palavra apresenta um Deus que vai ao encontro do pecador, em
sua miséria, e provê redenção, demonstrada em aceitação incondicional.
O ser humano pecador é aceito tal como se encontra e assim toda a sua
vida se torna agradável a Deus porque é santificada por Cristo. Todas as
dimensões da existência humana são redirecionadas para o plano original
no qual a criação foi engendrada. De acordo com isso, as obras ordenadas
por Deus são as da vocação de cada qual, a administração da vida pública,
a administração do lar, a vida conjugal, a educação dos filhos.
Diante de todas essas considerações, há uma proposta que deve ser
feita. O conteúdo deste livro deve ser levado aos membros das congregações luteranas. Em momentos nos quais há estudos bíblicos, este livro
pode servir como um ótimo guia. Além disso, a divulgação do mesmo é
muito oportuna. A leitura deste conteúdo, sem dúvidas, oportunizaria
inúmeros insights a respeito do que confessa a teologia luterana. Isso
permitiria uma vida consciente da bem-aventurança divina, a resultar em
um testemunho convicto de expressões básicas da fé cristã. Ter consciência do que é o evangelho: nós precisamos disso e este livro é uma bela
ferramenta para tanto.
89
DEVOCIONAL
SEM MIM VOCÊS NÃO PODEM FAZER
NADA!
João 15.5
Vilson Scholz1
As palavras de Jesus, em João, costumam ser memoráveis, além de
serem complexas. Isto representa um desafio adicional para o pregador. E,
quando o texto é uma passagem bem conhecida como “Eu sou a videira,
vocês são os ramos”, a dificuldade só faz aumentar.
O que você escolheria como tema de pregação, tendo o texto de João
15.1-8? Alguém diria: Pregue o texto todo. Não será possível, hoje, e raramente é. Alguém poderia preferir o v. 8: “Nisto é glorificado o meu Pai:
que vocês deem muito fruto”. A ênfase acabaria sendo invariavelmente de
lei: vamos produzir frutos! Ou, por que não “Eu sou a videira, vocês são
os ramos”? Mas, no meu caso, eu repetiria a palestra de hora e meia que
fiz num congresso de servas alguns anos atrás. Não será possível.
É costume ler este texto para enfatizar a necessidade de produzir frutos.
Até li outro dia um estudo sobre este texto e o autor, num bom tom de lei,
ficou enfatizando que os ramos precisam ficar conectados com a videira.
Como? Produzindo frutos! Pode isso? Na verdade, deve ser o contrário.
Meu pastor pregou sobre o tema “A igreja é feita de ramos”. De fato,
temos aqui uma bela maneira de falar sobre a igreja. Videira e ramos;
cabeça e membros: são belas descrições da igreja, com ênfase no fato
de que ela não existe sem a videira. Mas talvez seja bom não perder de
vista quem fala neste texto, a saber, Jesus. E ele diz, entre outras coisas,
“sem mim vocês não podem fazer nada”.
“Sem mim vocês não podem fazer nada” é uma frase marcante de
Jesus. É daquelas que facilmente podemos tirar do contexto. E a pergunta
que podemos fazer é: isto é bom ou ruim? É boa notícia ou é má notícia?
Acho que vi nalgum lugar esse texto ser incluído numa lista de promessas
bíblicas! Estranho. Parece que essas palavras soam mais negativas do
que positivas. Ficam positivas se alguém inverter a afirmação, dizendo:
Comigo vocês podem fazer tudo.
1
Professor do Seminário Concórdia e ULBRA e Consultor de Traduções da Sociedade Bíblica
do Brasil. Mensagem proferida na Capela do Seminário Concórdia.
SEM MIM VOCÊS NÃO PODEM FAZER NADA!
Sem mim vocês não podem fazer nada! Tomada isoladamente, a frase de
Jesus poderia ter uma aplicação em termos bem amplos, no sentido do “nele
nos movemos e existimos”. Aqui estaríamos, então, no âmbito da criação.
Tomada isoladamente, a frase de Jesus poderia ser usada, como já foi e
ainda é, num contexto em que o assunto é salvação: sem Jesus a salvação
é impossível. Só que esse “sem mim” pode ser entendido de duas maneiras:
“sem a minha ajuda” e “separados de mim”. Se fosse “sem a minha ajuda”,
Jesus seria um poderoso aditivo ou uma espécie de “energético” que nos
possibilita fazer o que de outra forma não seria possível. Não se trata de
sinergismo no sentido de nós cooperarmos, mas sinergismo ainda mais
crasso no sentido de pensarmos que Jesus nos dá uma simples “mãozinha”.
O contexto de João 15 sugere mais a noção de “separados de mim”, e não
sem a minha ajuda. Não há salvação em nenhum outro (At 4.12).
A frase de Jesus começa com um “porque”, mostrando claramente
que se trata de uma continuação da conversa. Não é uma frase isolada.
O versículo todo diz: “Eu sou a videira, vocês são os ramos. Quem permanece em mim, e eu, nele, esse dá muito fruto; porque sem mim vocês
não podem fazer nada”. Lido neste contexto, o “não podem fazer nada”
se refere a dar fruto. Um ramo separado não dá fruto. Por outro, o ramo
que permanece na videira dá muito fruto. Portanto, separado da videira
o ramo nada produz.
A diferença não é entre mais ou menos poder, mas entre ter vida e
estar morto. Na sua epístola (que é a do mesmo domingo), João afirma:
“Nisto se manifestou o amor de Deus em nós: em haver Deus enviado o
seu Filho unigênito ao mundo, para vivermos por meio dele” (1Jo 4.9).
Sem mim, diz Jesus, nada. O contrário do “sem mim” é “permanecendo em mim”. E “permanecer” é um verbo marcante, pela repetição,
neste texto. São sete ocorrências em oito versículos. (Isso deve ter soado
estranho quando dito pela primeira vez, naquela ceia de despedida; hoje,
à luz da Páscoa, nem estranhamos tanto.)
A gente poderia esperar uma perspectiva mais “einsteiniana” (a teologia como ela realmente é), em que Jesus dissesse: Eu permanecerei em
vocês, para que vocês possam permanecer em mim. Mas Jesus traz uma
abordagem mais “newtoniana” (a teologia como é percebida, de um ponto
de vista mais fenomenológico) e diz: permaneçam em mim.
Este é um imperativo um tanto incômodo, pois nos deixa sozinhos com
a tarefa. Por isso podemos perguntar: Como se dá este permanecer? Isto
pode ficar como algo extremamente abstrato, quase como um exercício
mental. Mas isso não é algo abstrato, e sim algo que se dá concretamente.
Não deveria ser um simples exercício de pensamento ou concentração
no infinito.
91
IGREJA LUTERANA
Jesus aponta para a palavra. “Se as minhas palavras permanecerem
em vocês [...]” (v.7). Poderíamos pensar na direção do batismo, que é
“ativado” diariamente pelo arrependimento. Mas hoje eu gostaria de lembrar o contexto em que estas palavras foram faladas. Foi na noite em que
Jesus foi traído. João não tem a instituição da ceia em seu Evangelho, mas
estas palavras foram faladas na noite da última ceia. (Não é por nada que
o tema da videira aparece; aquela era a ceia pascal.) Por isso, vou propor
uma leitura eucarística deste texto.
Nesta ceia que hoje celebramos, Jesus diz: “Eu sou a videira, vocês
são os ramos. Quem permanece em mim, e eu nele, esse dá muito fruto”. Este permanecer recíproco (eu nele e ele em mim) é a linguagem
da comunhão, que nos remete à santa ceia. Ela aparece, nestes termos,
em 1Co 10.16: Não é fato que o cálice da bênção que abençoamos é a
comunhão do sangue de Cristo? E não é fato que o pão que partimos é a
comunhão do corpo de Cristo?
À luz do texto de hoje, comunhão minha com Cristo e de Cristo comigo.
Desejar a santa ceia é desejar essa comunhão, é confessar: sem Jesus não
dá! Vários de nossos hinos nos ajudam a expressar esse anseio. No hino
346 dizemos: “De ti, Senhor, careço”. No hino 263, confessamos: “Nele
(neste manancial precioso) tenho união estreita, com Jesus união perfeita”.
E, no hino 323, concluímos: “Por isso eu preciso de ti, meu Senhor”.
Sempre afirmamos que a santa ceia é o centro do culto; na verdade,
ela é o centro da vida cristã. O ideal seria se todos pudéssemos comer
este pão e beber deste cálice ao mesmo tempo. Todos os ramos da videira
aqui reunidos se conectando com a videira ao mesmo tempo. Isto não é
fácil de fazer, na prática, nem é necessário. Mas eu gostaria de sugerir que
hoje pensássemos na vinda à ceia como o momento em que o ramo se
reconecta de uma forma toda especial e singular à Videira. São os ramos
se conectando à videira, participando do fruto da videira, que é a ceia. E
este permanecer não tem nada de abstrato: é tão concreto quanto comer
o pão e beber do cálice!
92
OS VERDADEIROS ADORADORES
João 4.19-30
Leonerio Faller1
Prezados irmãos e irmãs em Cristo.
Há uma tendência de as pessoas separarem o sagrado do profano, a
vida dentro da igreja e a vida fora da igreja, como se fossem dois mundos diferentes. Numa das congregações onde fui pastor, certa vez um
luterano diretor de uma grande empresa disse-me algo que não estava
de acordo com a Palavra de Deus. Eu respondi: “Mas, Fulano, não está
certo o cristão agir assim”. Ele logo retrucou: “Pastor, igreja – igreja;
negócios – negócios”.
A Palavra de Deus nos ensina que toda a vida do cristão é sagrada, é
culto, a menos quando age contra a vontade de Deus.
Este ensino vemos no lema da IELB para 2016: “Vou viver e anunciar o
que o Senhor tem feito na vida de culto e serviço”. Culto a Deus acontece
no culto corporativo (cristãos reunidos com Palavra e sacramentos), mas
também na vida diária (no lema entendemos com a palavra “serviço”).
Para esta mensagem, tomei a liberdade de escolher parte do texto do
encontro de Jesus com a mulher samaritana tendo como tema OS VERDADEIROS ADORADORES.
Jesus e os discípulos tinham saído da Judeia (região Sul) em direção
à Galileia (região Norte). Entre as duas regiões, ficava a província da
Samaria. Para irem da Judeia para a Galileia precisavam atravessar Samaria, a não ser que fizessem um desvio. Jesus e os discípulos tomaram
o caminho mais curto, no qual ficava a cidade chamada Sicar. Jesus não
escolheu aquele caminho apenas por ser mais perto. Mas, como escreve o
evangelista, “era-lhe necessário atravessar a província de Samaria” (v.4).
Possivelmente para salvar as pessoas que encontraria.
Era meio-dia. Chegaram ao poço de Jacó. Jesus ficou ali e os discípulos
foram à cidade comprar comida. Neste meio tempo veio uma mulher tirar
água do poço. As mulheres geralmente vinham tirar água em grupos e
numa hora mais fresca do dia. Esta mulher veio sozinha; é possível que
ela não quisesse a companhia das suas vizinhas ou as vizinhas não quisessem acompanhá-la.
1
Prof. Leonerio Faller é diretor do Seminário Concórdia de São Leopoldo/RS. Sermão proferido na abertura do ano letivo em 19 de fevereiro de 2016.
IGREJA LUTERANA
Jesus pediu à mulher: “dá-me de beber”. Judeus observadores das leis
teriam receio de se contaminar com uma pessoa samaritana e certamente
não pediriam água a uma mulher. Porém, sem estes preconceitos, Jesus
pediu água a ela e daí surgiu um longo diálogo.
As diferenças religiosas entre judeus e samaritanos eram sérias e profundas. Os judeus desprezavam os samaritanos porque estes não eram
‘sangue puro’ judeu, mas sangue judeu com estrangeiro. A hostilidade foi
aumentada quando os samaritanos construíram um templo rival no monte
Gerizim por volta do ano 400 a.C.
Mesmo que o templo tenha sido destruído (em 108 a.C.), para os
samaritanos o lugar para adorar a Deus era o monte Gerizim (ali perto),
mas para os judeus era Jerusalém. No entanto, na conversa que Jesus
teve com a mulher samaritana disse que o lugar não é importante.
E Jesus apontou para um futuro que já havia chegado na sua pessoa:
“Vem a hora e já chegou”, e acrescentou: “em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em Espírito e em Verdade” (Jo 4.23).
Jesus desvia a atenção do lugar de adoração para os verdadeiros
adoradores.
Quem são eles?
Os verdadeiros adoradores são as pessoas envolvidas pelo Deus Triúno.
1. Jesus disse: “São estes que o Pai procura” (v.23).
Ninguém se torna um adorador de Deus por esforço próprio, pois o ser
humano não tem nenhuma capacidade natural para voltar-se para Deus
e adorá-lo. O ser humano por natureza adora a si e a outros deuses. Por
isso Jesus disse que é o Pai quem “procura” os verdadeiros adoradores.
Ou seja: É Deus Pai quem transforma seres humanos idólatras em verdadeiros adoradores.
Na conversa que Jesus estava tendo com a mulher samaritana, o
Pai estava justamente transformando aquela mulher pecadora perdida
eternamente numa verdadeira adoradora. A procura do Pai é resultado
de seu amor.
Se você e eu somos adoradores de Deus, é porque Deus Pai realizou
este milagre de procurar, de encontrar e de transformar-nos em adoradores dEle.
2. Os seus adoradores o adoram “[...] em Espírito e em Verdade” (v.24).
Jesus disse que os verdadeiros adoradores do Pai são aquelas pessoas
que o adoram “em Espírito...”. O que isso significa? Há intérpretes que
entendem que adorar em espírito é adorar o Pai com a alma, com a parte
94
OS VERDADEIROS ADORADORES
mais íntima do ser. Isto também é. Porém é mais. Quando no evangelho o
apóstolo João narra que Jesus enviaria “o outro consolador” (14.16), João
relata que o próprio Jesus explica que “o outro consolador” é “o Espírito
da Verdade” (14.17), ou seja, o Espírito Santo. Adorar o Pai em Espírito
é adorá-lo no poder do Espírito Santo.
E adorar “[...] em Verdade”? O que significa? Há quem interprete adorar “em verdade” como adorar com sinceridade, com honestidade. Porém,
ao observarmos em que sentido o apóstolo João usa a palavra “verdade”
em seu evangelho, concluímos que é mais do que isso. No capítulo 14,
versículo 6, João cita aquela importante autoconfissão de Jesus: “Eu sou o
caminho e a verdade e a vida; ninguém vem ao Pai senão por mim”. Jesus
diz que ele é “a Verdade”. Adorar o Pai “em Verdade” significa adorar o Pai
estando em Jesus, com fé em Jesus, perdoado por Jesus.
Portanto, os verdadeiros adoradores são aquelas pessoas – também
você e eu – que, pela ação do Espírito Santo, creem em Jesus e prestam
culto a Deus com toda a sua vida e em qualquer lugar.
Como os verdadeiros adoradores adoram a Deus?
Voltemos à mulher samaritana. Quando Jesus disse para ela “Deus é
espírito; e importa que os seus adoradores o adorem em Espírito e em
Verdade”, ela respondeu: “Eu sei [...] que há de vir o Messias, chamado
Cristo; quando ele vier, nos anunciará todas as coisas” (v.25).
Dos livros do Antigo Testamento, os samaritanos só aceitavam os cinco
livros de Moisés. Não aceitavam os livros proféticos nos quais havia tantas
profecias sobre a vinda do Messias. Eles criam na promessa da vinda do
grande profeta registrada por Moisés em Dt 18: “O Senhor, teu Deus, te
suscitará um profeta do meio de ti, de teus irmãos, semelhante a mim; a
ele ouvirás [...] em sua boca porei as minhas palavras, e ele lhes falará
tudo o que eu lhe ordenar” (v.15 e 18). Segundo os samaritanos, não
se poderia esperar nenhum outro profeta entre o primeiro, Moisés, e o
segundo profeta prometido.
Mas, se a mulher usou o termo profeta com sinceridade, ela estava
prestes a descobrir quem era o estrangeiro que conversava com ela. No
primeiro capítulo do evangelho, o apóstolo João relata sobre a conversão
de Natanael – o ‘milagre’ que Jesus fez para Natanael crer foi dizer quem
era Natanael sem nunca tê-lo visto antes. Assim também o Espírito Santo
estava trabalhando no coração da mulher, convencendo-a de que aquele
homem que podia dizer-lhe tudo o que ela já tinha feito sem conhecê-la
antes, só poderia ser o cumprimento da profecia de Deuteronômio.
Quando a mulher disse “eu sei que há de vir o Messias, chamado Cristo”
(v.25), “disse-lhe Jesus: Eu o sou, eu que falo contigo” (v.26). O apósto-
95
IGREJA LUTERANA
lo relata que “naquele momento chegaram os seus discípulos e ficaram
admirados, pois ele estava conversando com uma mulher. Mas nenhum
deles perguntou à mulher o que ela queria. E também não perguntaram
a Jesus por que motivo ele estava falando com ela. Em seguida, a mulher
deixou ali o seu pote, voltou até a cidade e disse a todas as pessoas: –
Venham ver o homem que disse tudo o que eu tenho feito. Será que ele
é o Messias? Muitas pessoas saíram da cidade e foram para o lugar onde
Jesus estava” (Jo 4.27-30 NTLH).
Vejam, irmãos e irmãs, a maravilhosa ação de Deus Espírito Santo no
coração daquela mulher. Pela maneira de Jesus agir e pelas suas palavras,
a mulher começou admirando-se daquele estrangeiro, depois confessoulhe que também esperava o Messias chamado Cristo e, quando Jesus
disse que ele era o Cristo e falava com ela, ela esqueceu-se que viera ao
poço para buscar água e foi à cidade convidar seus conhecidos para verem “um homem que (lhe) disse tudo quanto (tem) feito”. E perguntava:
“Será, porventura, o Cristo?” (v.30). Nesta pergunta de aparente dúvida
já havia fé no Messias, o Cristo, e esta fé levou a mulher a agir em amor
querendo que seus conhecidos também conhecessem aquele profeta, o
“Messias, o Cristo”.
Esta transformação acontece nos corações de todas as pessoas quando
o Espírito Santo opera a fé: leva as pessoas a agirem em amor para com
Deus e para com o próximo.
Assim também tem acontecido conosco. Todos os nossos bons sentimentos, desejos, palavras e ações são produzidos pelo Espírito Santo. E
ele deseja sempre continuar produzindo em nós a boa vontade de servir
a Deus e ao próximo em amor, levando-nos a continuar adorando-o no
culto corporativo e no culto da vida diária.
Porém, a nossa natureza humana pecadora é má, inimiga de Deus,
quer o nosso mal espiritual e luta em nosso íntimo nos dando preguiça,
indisposição para não obedecermos à vontade de Deus e nem agirmos
em amor com nosso próximo.
Que bênção de Deus é termos aqui no Seminário e na ULBRA a Palavra
de Deus em abundância nas salas de aula, nas devoções e nos cultos nas
capelas! Porém, uma grande tentação da parte de nossa natureza pecadora e apoiada por Satanás é nos tornar meros profissionais da Palavra ou
estudar a Bíblia apenas academicamente, sem o sincero desejo de “fala,
Senhor, porque o teu servo ouve” (1 Sm 3.9). Estes inimigos espirituais
nos fazem ver dificuldade em sair do quarto de estudo ou do apartamento
para irmos à capela para culto ou devoções. Por isso precisamos sempre
analisar como está o nosso cuidado com a vida espiritual também durante
a semana, aproveitando ou não os momentos cúlticos no campus.
96
OS VERDADEIROS ADORADORES
Outra tentação que sofremos é não termos sempre sentimentos, palavras e atitudes de amor uns com os outros, seja demonstrando indiferença,
seja não tratando com respeito nosso próximo.
Tantos pecados todos nós cometemos diante de Deus e com o próximo, merecendo então a condenação eterna. Nossos pecados exigiram que
o Filho de Deus viesse ao mundo (nasceu judeu), sofresse e morresse.
Nesta época da Quaresma somos lembrados de quanto o Filho de Deus
teve que sofrer para salvar a humanidade. Mas esta época também nos
lembra que Ele fez tudo com muito amor e perfeição, realizando completa
salvação. Este Deus Filho – Jesus, judeu, Deus e homem – disse à mulher samaritana que “a salvação vem dos judeus” (v.22) e os amigos da
samaritana, após ouvirem Jesus, confessaram: “Este é verdadeiramente
o salvador do mundo” (v.42).
Este salvador, o Messias, o Cristo, diz a nós como disse à mulher samaritana e aos seus amigos: ‘Eu sou o Cristo. Eu sou o seu salvador. Eu
dei a minha vida pelos meus amigos, incluindo você. Hoje lhe darei o meu
sacramento da Santa Ceia e lhe perdoarei todos os seus pecados e lhe
dou salvação eterna. Mas, desde agora lhe dou a minha paz’.
Conta-se que às margens de estradas no interior da Índia de vez em
quando é possível encontrar um local de descanso chamado ‘samatanga’,
onde o caminhante, debaixo de um sol escaldante, pode descansar. No
samatanga ele tem sombra, água fresca e lugar para sentar. Depois que
o viajante tem suas forças e ânimos renovados, continua a viagem com
nova disposição.
Podemos dizer que o culto corporativo é o ‘samatanga’ que o Pai nos
oferece, para o qual Jesus nos convida para conversar conosco pela sua
Palavra, renovando-nos com o perdão dos pecados, e o Espírito Santo
fortalecendo nossa fé, acalmando nosso coração atribulado e capacitandonos para continuarmos nossa adoração a Deus no dia a dia. Cada vez que
nós, como filhos e filhas amados do Pai celeste, participamos de momentos
cúlticos no Seminário, na ULBRA e nas congregações, somos renovados
para a vida de culto diário realizando nossas tarefas e convivendo em amor
com nossos semelhantes. Assim se evidencia o lema da IELB: “Vou viver
e anunciar o que o Senhor tem feito na vida de culto e serviço”.
Sem dúvida, é maravilhoso saber que o Pai celeste nos tornou seus
verdadeiros adoradores através do Espírito Santo que nos fez crer em Jesus
como salvador. Bem como é maravilhoso saber que o Espírito Santo nos
capacita com uma disposição voluntária para o culto diário, de modo que
podemos até imitar a mulher samaritana convidando uns aos outros para
os momentos cúlticos, inclusive convidando nossos familiares residentes
97
IGREJA LUTERANA
aqui, a fim de se encontrarem com o Messias Salvador e ouvirem dele:
‘Os teus pecados estão perdoados. Vai em paz’.
Em cada momento de culto corporativo podemos imaginar Jesus nos
convidando; no culto nos perdoando, nos alimentando espiritualmente, e
depois do culto nos acompanhando para o culto diário. Amém.
98
ELE VIGIA! VOCÊS ESTAGIAM!
Marcos 13.24-37
Rony Marquardt1
INTRODUÇÃO
Fim de ano. Cansados da correria de provas, trabalhos, preparativos
para as férias? E os estagiários – ansiosos? As coisas se encaminham para
o fim do ano e muita coisa está por acontecer no novo ano.
É neste espírito de fim das coisas e de um novo começo que a leitura
do evangelho do último domingo do ano da Igreja nos coloca. Quero destacar deste texto de Marcos 13 os versículos 27, 32 e 33: “E ele enviará
os anjos e reunirá os seus escolhidos dos quatro ventos, da extremidade
da terra até a extremidade do céu. Mas a respeito daquele dia ou da hora
ninguém sabe; nem os anjos no céu, nem o Filho, senão o Pai. Estai de
sobreaviso, vigiai [e orai]; porque não sabeis quando será o tempo”.
I.
Dúvida cruel: “Quando será a volta de Jesus?” Quantos já tentaram e
ainda tentam desvendar este mistério! E o próprio Jesus já havia dado a
resposta a esta pergunta:
• “Ninguém sabe” – nem os homens, apesar de tentarem calcular
e predizer a volta de Cristo;
• “Ninguém sabe” – nem os anjos, que são apenas ministros a
serviço de Deus;
•
“Ninguém sabe” – nem o Filho, Jesus Cristo, que, segundo a
sua natureza humana e antes de sua ressurreição, escolheu não
saber.
Mas “alguém sabe” – o Pai, que controla o tempo e a duração não
apenas de nossa vida, mas da existência do mundo e do universo. Ele
criou tudo e no momento certo tudo destruirá para fazer “novos céus e
nova terra”.
E é justamente pelo fato de ninguém saber quando será que o nosso
Deus de amor nos ensina a lição da figueira: “Quando já os seus ramos
1
Rev. Rony Marquardt é Vice-Presidente de Ensino da Igreja Evangélica Luterana do Brasil.
Sermão proferido na Capela do Seminário Concórdia por ocasião da designação de estagiários,
em 25 de novembro de 2015.
IGREJA LUTERANA
se renovam, e as folhas brotam, sabeis que está próximo o verão. Assim,
também vós: quando virdes acontecer estas coisas, sabei que está próximo, às portas”. Já estava às portas quando Jesus estava no mundo e,
agora, com toda certeza, está mais perto ainda.
E o próprio Jesus mostra os sinais que precedem e acompanham este
tempo do fim: irão surgir falsos salvadores que enganarão a muitos,
procurando desviar as pessoas da verdadeira fé em Jesus; acontecerão
guerras, tremores de terra e fome; os cristãos serão perseguidos; o amor
se esfriará; e o evangelho da salvação será anunciado em todo o mundo,
a todos os povos, para que as pessoas creiam e sejam salvas. São estes
os sinais do fim do mundo, que vemos acontecerem a cada dia.
É por isso que é tão importante a palavra insistentemente repetida por
Jesus: “Vigiai!” Ficai alerta, acordados. Mas eu ando tão cansado! Está
cada vez mais difícil ficar acordado e vigiar. Há tantas coisas que pedem
a minha atenção que quando penso que Jesus pede para eu ficar alerta e
vigiar, eu fico com medo. Acho que preciso de uma ajuda para ficar alerta.
Quem sabe se eu fizer como os caminhoneiros que, para conseguirem ficar
mais tempo acordados dirigindo, tomam o que eles chamam de “rebite”?
E quais poderiam ser os rebites espirituais que me manteriam vigiando?
•
Talvez se eu for sempre ao culto, estiver sempre em contato com
a Palavra de Deus?
•
Ou se eu ofertar pelo menos o dízimo?
•
Quem sabe se eu for para o Seminário me preparar e depois for
um pastor dedicado?
•
Claro que, além disso, devo ser um bom filho, marido, pai, não
roubar, não matar, não mentir.
Será que isso vai me ajudar a ficar “vigiando”? Será que com isso Deus
vai se agradar de mim e me dar uma chance no dia em que ele voltar?
Mas outra dúvida cruel continua: será que eu já fiz o suficiente para
Deus enviar os anjos me recolherem ao seu lar celestial? E se ele voltar
bem na hora que eu não estiver vigiando, vamos dizer assim, numa escorregadela e estiver praticando um pecado? Daí, não vai ter outro jeito: vou
acabar no meio dos cabritos, longe das ovelhas e do rebanho de Deus.
Como estou cansado! Por mais que eu tente, não consigo ficar tranquilo, não consigo fazer esta coisa simples que Jesus pede de mim. Não
consigo vigiar! Estou perdido, pois o dono da casa vai voltar e me encontrar dormindo!
100
ELE VIGIA! VOCÊS ESTAGIAM!
II.
Acho que, nisso tudo, estou deixando de fazer uma coisa fundamental.
Estou só olhando para mim, como se eu tivesse poder em mim mesmo
para poder vigiar, como se isso dependesse unicamente de mim! Estou
cansado porque estou olhando na direção errada.
Graças a Deus que ele vem ao meu encontro em sua Palavra e me
faz olhar na direção certa. Sempre de novo, como aconteceu no meu
Batismo e como acontece na Santa Ceia, Jesus me faz olhar para ele e
no que ele fez por mim e por todos. Ele vigiou! Ele ficou acordado! Ele
ficou firme em sua fé e jamais abandonou a vontade do Pai. E fez isso
não por si mesmo. Ele não precisava. Ele fez isso por mim. Ele se cansou
e se entregou à morte para que eu não precise andar cansado e morrer!
Ele vive para que eu possa descansar!
Este é o segredo: “Vigiai... e descansai!” A nossa salvação está em
Cristo. Podemos descansar. É por isso que podemos continuar vivendo a
nossa vida sendo bons filhos, pais ou maridos. É por isso que podemos ir
ao culto, ofertar, estagiar e pastorear! Não para vigiarmos e conseguirmos
a salvação, mas porque alguém – o Filho de Deus – já vigiou por nós, e nos
convida a vigiarmos descansando nele. É por isso que podemos continuar
a tarefa de Cristo e que foi dada por ele à sua Igreja até o dia em que ele
voltar, a missão de proclamar o Evangelho para a salvação das pessoas.
CONCLUSÃO
Queridos estagiários de 2016: não é sublime servir a um Salvador
assim? Não é consolador saber que não depende de nós a nossa vigilância, mas tão somente dele? É assim que vocês podem ir pelo Brasil nesta
confiança: ele está com vocês. Ele vigia! Vocês estagiam!
É o que Jesus quis dizer em Apocalipse 22.(11,12): “O justo continue
na prática da justiça, e o santo continue a santificar-se. E eis que venho
sem demora, e comigo está o galardão que tenho para retribuir a cada
um segundo as suas obras”. Continuemos nossa caminhada nesta vida
nesta certeza: não está em nós, mas em Cristo. Ele, e somente ele, é
o Vigilante!
É dele a promessa: “Certamente, venho sem demora”. E seja nosso o
pedido: “Amém! Vem, Senhor Jesus!”
101
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