Carvão sem preconceito
CORTE, Glauco José. “Carvão sem preconceito”. Valor Econômico. São Paulo,
26 de setembro de 2013.
Vivemos num mundo saturado de informação em que, paradoxalmente, é difícil
chamar a atenção para um ponto de vista alternativo ao predominante, mesmo
quando este contém imprecisões e é permeado pela ideologia. Infelizmente,
esse parece ser o caso do uso do carvão mineral como fonte energética no
Brasil. Sua reputação tem origem em crenças equivocadas de que se trata de
um combustível ineficiente, poluidor e gerador de problemas sociais. O
preconceito pode levar o país a desperdiçar uma excelente oportunidade de
diversificar e ampliar sua oferta de energia elétrica diante de um cenário
desafiador, além de abrir importante frente de desenvolvimento regional em
locais de economia deprimida.
Foi preciso que a fragilidade do sistema energético nacional se fizesse evidente
para que a geração térmica a carvão mineral voltasse a ser contemplada nos
leilões de compra de energia do governo federal. Devido ao baixo nível dos
reservatórios e dos anos que ainda serão necessários para a entrada em
operação de novos grandes projetos, a energia térmica é requerida com
frequência crescente. E hoje essa energia depende, basicamente, da geração a
partir de carvão mineral. Isso porque a capacidade de expansão das
termelétricas a gás é limitada pelo alto custo do produto importado na forma
GNL e pelo esgotamento da oferta de gás boliviano. O leilão A-5, do final de
agosto, reflete esse cenário. Não faltaram, entretanto, artigos e opiniões
lamentando o fato de o país estar "sujando" sua matriz energética.
Mas é necessário olhar para a questão com racionalidade e se basear em
informações consistentes. Para sustentar suas necessidades de crescimento
econômico o Brasil precisa dobrar a capacidade instalada de energia nos
próximos 15 anos, segundo o governo federal. Isso não é possível só com
hidrelétricas. Devido aos impactos socioambientais dos alagamentos, as novas
usinas têm sido projetadas a fio de água, resultando em pequenos
reservatórios. Isso diminui o poder gerador em determinadas épocas do ano.
Além disso, já na próxima década estarão esgotadas as áreas com potencial
hidráulico na Amazônia. Ainda assim, nos próximos 20 anos o Brasil terá 80%
de sua geração proveniente de fontes renováveis. A segurança do sistema
dependerá dos outros 20%.
A complementação da oferta com energia térmica poderá vir de usinas a óleo e
gás natural. Também são combustíveis fósseis e mais caros do que o carvão
mineral. As reservas de gás do pré-sal não poderão ser utilizadas no curto
prazo, e ainda é incerto o cenário de custos e de oferta futura. Por outro lado, a
energia do carvão mineral é a mais disponível, competitiva e barata dentre as
térmicas. O carvão representa 42% dos recursos energéticos nacionais em
toneladas equivalentes de petróleo (TEP), fatia maior do que o petróleo e o gás
natural somados. Opor-se à sua utilização como fonte complementar à
hidráulica não é coerente com as necessidades do Brasil e com os caminhos
trilhados por outros países.
O carvão mineral é não somente a fonte energética mais abundante e utilizada
no planeta, como também a que mais cresceu nos últimos 10 anos. Ao contrário
do que se apregoa, os bancos internacionais de fomento têm financiado a
geração a carvão, por entenderem a correlação entre energia elétrica e o
desenvolvimento socioeconômico. Num mundo em que 2,6 bilhões de pessoas
vivem na miséria e 1,5 bilhão não têm acesso à eletricidade, a ONU, na Rio+20,
definiu o fortalecimento da economia e a erradicação da pobreza como
prioridades para os países em desenvolvimento. Outro desafio proposto é a
união de países em torno da proteção ambiental.
É nesse sentido que a ampliação do parque gerador da China, que tirou 600
milhões de pessoas da miséria em 20 anos, foi sustentada por amplo programa
de eficiência energética e de redução de emissões de CO2 - a matriz energética
do país é preponderantemente a carvão. No mundo desenvolvido, a Europa,
que paga pela energia 25% a mais do que os EUA, tem dado sinais claros da
necessidade de dispor de eletricidade a preços competitivos para viabilizar a
sua indústria. Entre 2012 e 2014 a Alemanha colocará em operação mais 10,6
GW de geração na base de carvão mineral.
O Brasil tem um consumo per capita de energia equivalente à metade do de
Portugal. Se o país está em déficit energético com sua população, exibe um
superávit ambiental com o resto do mundo. A participação de renováveis na
matriz elétrica brasileira é de 89%, enquanto a média mundial é de 20%. Por
isso o país está na 41ª posição entre os emissores globais. Com um parque
instalado de 1,7 GW, o carvão responde por apenas 1,4% da geração do Brasil.
A ampliação desse parque para 16 GW nos próximos 20 anos manteria
insignificantes as emissões do país, diante das globais.
Vale ressaltar que a tecnologia ambiental no setor anda a passos largos. Novos
sistemas produtivos são mais eficientes para a conversão da matéria-prima em
energia e, desde os anos 80, as emissões de dióxido de enxofre foram
reduzidas em 80%. A cadeia produtiva é certificada no sistema de gestão
ambiental ISO 14001 e investe em um centro de tecnologia em Criciúma (SC)
para o desenvolvimento de tecnologias de baixo carbono.
O crescimento da indústria do carvão terá impacto relevante na economia do
Sul, o que justifica a união de forças dos três Estados da região para o
desenvolvimento da cadeia. Ela movimenta R$ 8 bilhões por ano e emprega 53
mil pessoas. Existem 2,4 GW em projetos de usinas térmicas com licença
ambiental. Viabilizados esses projetos, até 2020 serão investidos cerca de R$
13 bilhões e os empregos no setor saltarão para 83 mil. O aumento da geração
local também significará mais segurança para o Sul, que depende da
importação de grandes blocos de energia do Sistema Interligado Nacional. Em
suma, o abundante carvão mineral é estratégico para as ambições do país. Só
precisa deixar de ser tratado com preconceito.
Glauco José Côrte é presidente da Federação das Indústrias de Santa
Catarina (Fiesc)