“A Flecha”: O humor na imprensa maranhense no final do

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“A Flecha”: O humor na imprensa maranhense
no final do século XIX
Iramir Alves Araujo1
Quando, no dia 13 de março de 1879, o jornalista, ilustrador e professor de
desenho João Afonso folheou o primeiro exemplar d’A Flecha, recém-saído das
oficinas gráficas da Tipographia do Frias, possivelmente saboreou com
indisfarçável prazer a inigualável sensação de ser pioneiro. De realizar uma obra
inédita. De oferecer à sua gente o produto de sua persistência, seu talento e, sem
sombra de dúvidas, de sua inquebrantável tenacidade, que o fazia desafiar o
status quo sob o risco de ter contra si inimigos poderosos como o Estado e a
Igreja.
Ao seu lado, como parceiro na empreitada, Aluísio de Azevedo. Intelectual
dos mais ativos na acanhada província que lhe servia de cenário para os
romances que viriam, mais tarde, torná-lo um dos expoentes do Realismo no
Brasil.
O pioneirismo, naquele dia, tomava a forma de um jornal. Mas não um jornal
qualquer. Este, carregava o peso de ser o primeiro jornal ilustrado da província do
Maranhão.
A Flecha nascia sob o signo da ironia, do deboche, da sátira inteligente, da
crítica à ignorância e à mesmice que grassava na província. Mas, sobretudo, trazia
embutido em si o desejo dos seus autores de fazer pensar através de uma arma
para a qual não existe defesa: o riso.
A exemplo de outros, da mesma época, em regiões diversas do Brasil, o
jornal A Flecha se inscreve em um universo de publicações que visavam antes de
1
Irmir Araujo é publicitário, historiador, ilustrador e roteirista de quadrinhos; mantém uma coluna semanal
sobre o assunto no jornal "O Estado do Maranhão", e tem publicados diversos trabalhos de quadrinhos.
tudo o que visa toda produção intelectual: servir de ponte entre o oculto e o
manifesto.
Do oculto que são as estruturas de poder, sejam elas quais e de que ordem
forem: políticas, eclesiásticas, culturais, ou de que matizes se pintem, liberais ou
conservadoras.
Do manifesto, as interpretações das leituras feitas a partir das ações
originadas e direcionadas dessas mesmas estruturas a seus objetos, sobre quem
o poder é exercido.
Como ponte estabelecida para mediar a relação entre as estruturas, ou pelo
menos as interpretações dessas relações feitas pelos redatores do jornal e o
público, temos a ironia, a metáfora, a glosa, a paródia, a metalinguagem, a
caricatura.
Por se tratar de um jornal, uma fonte reconhecidamente difícil de trabalhar,
pois representa uma visão “parcial e subjetiva da realidade, distorção provocada
não só pela proximidade dos homens com os fatos que apareciam no dia-a-dia,
mas também, por seu comprometimento com as coisas” (CAMARGO, 1971, p.
225), reconhecemos que é justamente essa sua característica mais sedutora,
sendo impossível conceber uma “realidade” imparcial, uma vez que os problemas
se apresentavam como foram “vistos e sentidos pelos participantes” (idem, p. 225)
e que não se pode dissociar a realidade do que sobre ela pensam seus atores.
Os atores que criaram e representaram a “peça” chamada A Flecha,
pensaram e traduziram a realidade do Maranhão entre 1879 e 1881, de forma a
que fosse entendida por quem a lesse como um grande chiste. Chiste, a
volatilidade com que o poder passava entre os dedos dos presidentes da
província; chiste, a forma com que a igreja católica conduzia seu rebanho; chiste,
os serviços públicos executados pela companhia de águas, pela ferro-carris, pela
de limpeza pública; chiste, a “urbanidade” com que os urbanos tratavam os
cidadãos; chiste, enfim, o teatro e a cultura que se respirava na capital da
província.
Um “Quadro offerecido aos digníssimos representantes
da província”.
No final do século XIX, o Maranhão, que conhecera dias de fausto,
alimentado principalmente pelo braço escravo que mourejara na lavoura do
algodão, tornando-o um dos principais exportadores mundiais do produto para o
gigantesco e voraz parque industrial inglês, estava em franco declínio.
Um dos redatores assim descreveu a província, em 1879:
EPÍSTOLA
“A nossa querida província, berço de tantos homens eminentes e
ex-florescente capitania no velho domínio portuguez, escorrega
hoje n’um declive assustador de decadência, de desmoronamento
mesmo. A lavoura, a fonte principal de nossa riqueza, longe de
explorar de animo deliberado a natureza pujante e inexgotavel da
nossa terra, agonisa no leito da banca-rôta, fructo infallivel da
rotina e da preguiça, e queima os últimos cartuchos em seu próprio
detrimento, desfazendo-se dos braços escravos que a auxiliam,
antes que possa atrahir a emigração estrangeira. O commercio,
filho directo da agricultura, é uma cousa chôcha e anêmica, sem
coragem nem recursos para nada. A arte assumio entre nós as
proporções de verdadeiro mytho e os poucos que de coração a
procuram teem por único applauso o abraço de ferro da mizeria.
Industria não a temos: o estrangeiro fornece-nos tudo quanto
carecemos d’esse vasto ramo do trabalho humano” (A FLECHA, nº
I, março de 1879, p. 3).
Tornaram-se pequenos os limites da capital, centro político e cultural do
maranhão, para onde convergiam, provenientes das grandes propriedades do
interior, os filhos dos plantadores de algodão ou cana-de-açúcar, e de onde
partiam os mais aquinhoados, não mais para a Europa, pois recursos começavam
a escassear, mas para a corte, no Rio de Janeiro ou para Recife, onde cintilava a
faculdade de Direito, agora a principal formadora dos intelectuais maranhenses.
Foi neste cenário, de um certo pessimismo com a realidade que se
apresentava, mas, com uma coragem temerária para lutar contra o que parecia
imutável, que um grupo de jovens intelectuais se reuniu em volta de Celso
Magalhães e Manoel de Bethencourt. O grupo formado por Paula Duarte, Aluísio
Azevedo, Eduardo Ribeiro, Agripino Azevedo e João Affonso Nascimento, teve no
jornalismo uma das principais trincheiras de suas lutas contra a escravidão, contra
o clero que consideravam retrógrado e corrupto e contra o império, defendendo o
modelo republicano de governo como uma solução, um novo caminho para o
Brasil.
Este grupo, a partir de março de 1879, pôs em circulação o jornal A Flecha, o
primeiro jornal ilustrado da província. Na capital do Império e em outras capitais,
diversos jornais já utilizavam há alguns anos o recurso da arte não só para tornálo mais atraente aos leitores mas também como uma forma sintética e direta para
expressar opiniões.
N’A Flecha, os pensamentos do grupo tomaram as mais diversas formas de
crítica, representadas pelas caricaturas e charges de João Affonso Nascimento e
pelas cáusticas notas assinadas por ele e pelos colaboradores através de diversos
pseudônimos. Todos valendo-se do humor em suas múltiplas variações.
Isto fica bem claro no editorial do primeiro número:
A Flecha, que se propõe a crusar o campo vasto e cultivado da
imprensa, não é a arma franzina e poética do deus do amor, mas a
flecha certeira e penetrante do índio de nossas florestas; é o Brazil
selvagem, porem honesto e brioso, vibrando os golpes da sua
crítica imparcial e justiceira aos costumes da sociedade que se
pretende civilisada e perfeita. Não vae envenenada a flecha, não;
não deixará na ferida a hava da calumnia ou do insulto, porque o
nosso programma exclue toda e qualquer discussão individual e
política e estabelece apenas a crítica moderada e a publicação
gratuita de trabalhos literários. (A FLECHA, nº I, março de 1879,
p.2).
Este discurso moderado não condiz com as notas que se seguem ao editorial
nem com o desenho da página central, onde um índio, o ícone gráfico do jornal, é
desenhado disparando várias setas certeiras fixando em uma espécie de tábua
que serve de fundo, diversas figuras representando a corte, a justiça, a fazenda,
os serviços públicos e a companhia de navegação.
No primeiro número, a capa do jornal mostra um auto-retrato do desenhista
João Afonso segurando um índio, o mesmo do cabeçalho do jornal e abaixo, a
legenda: “Vae... Só desejo que vivas mais tempo que o defunto Jornal para
todos...” (A FLECHA, nº I, março de 1879, p.1).
O Jornal para todos, também criado, dois anos antes pelo mesmo grupo do
qual fazia parte João Affonso, teve curta existência.
O primeiro número é exemplar do que estaria por vir. As observações do
cotidiano da cidade, as caricaturas dos personagens populares, as brincadeiras
com os vagabundos, as notas sempre ácidas sobre os serviços públicos, as
“flechadas” nos governantes, no clero, na polícia...
Como exemplo, na coluna “Flechadas”, na página três, há o
“caso referido há dias pelos jornaes, do brutal ataque feito à uma
respeitável senhora, por um ladrão que depois atirou-se ao mar,
faz-nos lembrar à polícia a necessidade de exigir que seus
agentes saibam nadar. Do contrário, está tudo perdido. A polícia
para ser completa, deve ser amphybia” (A FLECHA, nº I, março de
1979, p. 3).
Uma nota dessa natureza substitui com muita eficiência qualquer editorial
sobre a incompetência da polícia em capturar um reles ladrão de bolsas. Um
achincalhe com estilo e graça.
A Companhia de Água era, também, vítima constante das notas ácidas que
pontificavam nas páginas d’A Flecha.
“A companhia das águas no seu relatório apresenta a idéia de
feichar os chafarizes e torneiras públicas, salvo nos casos de
incêndio! Será bom providenciar que nas vésperas estejam os
guardas dos chafarizes e torneiras prevenidos para se acharem à
hora nos seus postos” (A Flecha, 1979, p. 7).
A direção da mencionada companhia, certamente não recebeu com alegria o
fato de ser taxada de imbecil , por apresentar uma idéia tão sem propósito.
João Affonso e Aluísio, os responsáveis pela existência e resistência d’A
Flecha, eram representativos da elite intelectual da província de então.
Positivistas, abolicionistas, republicanos e livres-pensadores não perdiam de vista
os rumos a que ela se encaminhava. O jornal era um meio de, com os recursos de
que dispunham, mostrar a seus leitores o estado de coisas em que se encontrava
a cidade.
O recurso mais abundante era o humor.
N’A Flecha, o humor está presente em
todas as páginas de todas as
edições, sob suas diversas formas.
Mas de que forma compreendê-lo?
Essa linguagem por vezes destrutiva que através de uma brincadeira sutil,
faz com que um aspecto da realidade seja mostrado de forma quase sempre
transgressora. Segundo Elias Thomé Saliba:
[...] podemos caracterizar a representação humorística, portanto,
como aquele esforço inaudito de desmascarar o real, de captar o
indizível, de surpreender o engano ilusório dos gestos estáveis e
de recolher, enfim, as rebarbas das temporalidades que a história,
no seu constructo racional, foi deixando para trás. Ela é também o
instante rápido da anedota, aquele ouro do instante: ela só
consegue revelar o impensado, o indizível ao surpreendê-lo
naquele seu momento supremo de estranhamento, que se realiza
num átimo porque depois a história se movimenta novamente, o
sentido do novo se esvai, o riso se esgarça e se retrai – e se ele
prossegue, começa a repetir-se, a perceber-se caduco e inútil –
como que espargindo cinzas sobre a pátina já cinzenta das
estátuas do passado. Por tudo isso, mais do que percepção e
sentimento da ruptura e da contrariedade, a representação
humorística é uma epifania da emoção” (SALIBA, 2002, p. 29).
“Como obra theatral,
pernicioso, mais estúpido”
nada
mais
inútil,
mais
Em fins do século XIX, o humor já havia fincado raízes na imprensa
brasileira. As revistas ilustradas, frutos do aperfeiçoamento tanto do maquinário
quanto das técnicas de impressão e reprodução, possibilitaram o incremento nas
tiragens e conseqüente aumento do público leitor.
Nessa época, em 1869, Ângelo Agostini, italiano radicado no Brasil, publica
na revista Vida Fluminense a série humorística “Nhô Quim ou Impressões de uma
Viagem à Corte” que é hoje considerada a primeira história em quadrinhos do
Brasil e um dos marcos dos quadrinhos no mundo.
No Maranhão, os alvos das certeiras setas eram diversos. Iam do teatro à
política, da igreja ao governo, da gente simples do povo ao comerciante abastado.
Nada nem ninguém estava livre de ser representado em uma das colunas d’A
Flecha.
Entre as presenças constantes nas páginas do periódico, nenhuma foi mais
achincalhada que o teatro. Ou melhor, os projetos e produções cênicas que
aportavam no “Theatro São Luiz”
Na coluna Piticaias, assinada por Pitriby, pseudônimo adotado por Aluísio
Azevedo, o autor espicaçava a companhia que então ocupara a agenda do Teatro.
Afinal foi-se embora o projecto de companhia franco-portugueza
que nos estava a impingir comédias e cançonetas em portuguez,
francez, francez e portuguez ao mesmo tempo e nem francez e
nem portuguez em tempo algum desta vida (A FLECHA, nº 2,
março de 1879, p. 10).
A vida dos citadinos em São Luís era um tanto quanto reservada. Dentre as
poucas opções de diversão que restavam para a elite, afora os bailes nos
períodos carnavalescos, estava o teatro. E o Theatro São Luiz era o centro para
onde convergia “a boa sociedade” em noites de espetáculo.
Em se tratando de crítica teatral, João Affonso podia ser tão ou mais ácido
que Aluísio Azevedo, isto se deve ao fato de ter desenvolvido um gosto estético
que diferia em muito em relação ao que era apresentado no Theatro São Luís,
notadamente pela companhia Sampaio que, com frequência, apresentava peças
românticas. Quando entrou em cartaz a peça “Os Milagres da Virgem Apparecida”,
a crítica não foi menos que severa.
THEATRO
Exigir do Chronista alguma cousa sobre os Milagres da Virgem
apparecida equivale a dizer-lhe: troque a penna por uma bengala e
dê bordoadas de cego.
[...]
“Como obra theatral, nada mais inútil, mais pernicioso, mais
estúpido.
[...]
A Flecha sente um pesar indescriptivel em não conhecer de perto
o feliz autor d’essa monumental obra dramática.
Quizeramos abraçal-o por aquelle portentoso achado da santa
pescada e pela habilidade com que embrulhou o seu enredo de
forma tal que será um milagre compreendel-o alguem (A FLECHA,
2º vol, nº 46, outubro de 1880, p. 75).
“Quem disser que ser deputado não é bom, 5$000 reis”.
Durante o Segundo Reinado, o exercício do governo teve, no Maranhão, com
a alternância partidária, um caráter bastante efêmero. O período de 1860 a 1889 é
de intensa luta entre os dois partidos que se revezavam no poder ao sabor das
oscilações da balança política do regime parlamentar, o que impedia a
continuidade administrativa.
No breve espaço de tempo entre o primeiro número d’A Flecha em 14 de
março de 1879 e a última edição, em 25 de outubro de 1880, a província do
Maranhão teve nada menos que quatro presidentes: José Caetano Vaz Junior,
que havia assumido em novembro de 1878; dr. Luis de Oliveira Lins Vasconcelos,
em setembro de 1879, substituído em maio de 1880 pelo Barão de Grajaú; e em
julho de 1880, foi a vez do dr. Cincinato Pinto Silva, que governou até novembro
do mesmo ano.
Na vida política do período, o poder oscilava entre partidários dos liberais e
dos conservadores, o que não queria dizer necessariamente que os que
pertenciam a um ou outro grupamento o faziam por convicção. A verdadeira
influência, na verdade, era a das famílias que dominavam a cena política e tinham
nos partidos meros instrumentos para satisfação de suas aspirações e interesses
pessoais.
Fazer política na corte ou na província era, de uma forma ou de outra, estar
sempre correndo o risco de ser retratado pelo lápis impiedoso e arguto de João
Afonso Nascimento
Em 1879, a sociedade maranhense via-se às voltas com os políticos
incapazes, com eleições marcadas pela fraude e violência, com representantes
incompetentes que propugnavam leis esdrúxulas.
A Flecha resolveu então colaborar com os deputados e apresentou algumas
idéias para que fossem discutidas nas sessões. São idéias menos perigosas no
que concerne aos destinos da província e dos cidadãos. Idéias capazes de manter
os ilustres parlamentares que tanto gostavam de instituir impostos, ocupados por
algum tempo .
IDÉIAS
Uma vez que a Assembléia Provincial empenha-se por melhorar o
estado de cousas, lembramos-lhe os seguintes impostos novos:
1º - Quem abrir o chapéo de sol do lado da sombra 1$500 de cada
vez
2º - Quem escorregar na rua e não cair, 320
3º - Quem assignar o Publicador Maranhense, o dobro do que
pagar pela assignatura.
4º - Quem ler o dito Publicador, 2$800 de cada vez.
5º - Quem deixar suas occupações para assistir das galerias as
sessões da Assembléia, 500 reis por dia
6º - Quem acreditar na lábias do cônego Mourão 80 reis
7º - Quem conhecer o compadre Lourenço, 200 reis
8º - Quem disser que ser deputado não é bom, 5$000 reis.
Politiqueiro. (A FLECHA, março de 1880, p. 259).
Ao tratar da sangria aos cofres públicos, sob o dúbio pseudônimo de
“Reconfesso”, que pode ser interpretado como “réu confesso” ou como confessar
mais uma vez, um dos colaboradores publicou um poema com o título de “Glosa”,
palavra com vários significados, que vão de nota explicativa, comentário,
interpretação, a censura, crítica, cancelamento ou recusa de um orçamento, por
ilegal ou indevido.
GLOSA
Não se tratando do caso
Do centeio e da ergotina,
Embora a velha rotina
Autorize as mamadeiras
Gloso a entrega dos cobres
Com que a província exhaurida
Em ves de comprar a vida
Colhe apenas...frioleiras
Proteste, embora o capricho
De quem julga o parlamento
A porta do...ajuntamento
Onde as novelas se geram
É de mais! Alem dos dias
Em que só lavaram roupa
Nem ao thesouro se poupa
Os que nada fizeram. (A FLECHA, nº XXII, novembro de 1879, p.
171).
Numa demonstração de acurado senso de humor e finíssima ironia, o poema
citado é estampado na página 171. Este é, já em 1832, o artigo do Código Penal
inscrito no título que que trata “dos crimes contra o Thesouro Publico e
Propriedade Publica”, especificamente o de Peculato (Código Criminal do Imperio
do Brasil, 1831, p. 211).
“Os reis governam pela vontade de Deus. [...] A
maçonaria é uma seita perniciosa”
Quando em 1864 o Papa Pio IX promulgou a encíclica “Quanta Cura”,
acompanhada do anexo “Syllabus” - a bula cujo objetivo era fortalecer o papado e
criar uma verdadeira muralha entre católicos e maçons - perseguindo e
demonizando esses últimos e proibindo os católicos de freqüentarem as
obediências6, foi inevitável que a referida bula se tornasse o centro de inúmeras
discussões, principalmente porque o documento atingia a própria família real
brasileira, que possuía vários maçons entre seus integrantes.
O fortalecimento da Igreja tornou-se possível graças ao movimento nessa
direção pelo ultramontanhismo, que, atribuindo ao papa um poder excepcional
sobre os fiéis no que tange à fé e ao comportamento, procurava restabelecer o
poder papal sobre os cleros nacionais, muito comprometido pelo regime de
padroado, um secular privilégio dos reis de Portugal mantido pela monarquia
brasileira através da constituição de 1824. Esse regime concedia ao imperador o
poder de criar e prover o preenchimento dos cargos eclesiásticos mais
importantes, restando ao Vaticano somente uma confirmação posterior. Com isto,
os bispos, por exemplo, eram nomeados pelo governo e não pela hierarquia
eclesiástica.
No Brasil, a crise instalada entre a igreja católica e a monarquia, ficou
conhecida como “questão religiosa” , “questão epíscopo maçônica”
ou mais
simplemente “questão dos bispos” e foi deflagrada após a aprovação da Lei do
ventre-livre, em 1871, proposta pelo Visconde do Rio Branco que era Grão-Mestre
da maçonaria. Quando da aprovação da lei, o padre Almeida Martins saudou o
Visconde do Rio Branco, numa loja maçônica. A igreja puniu o sacerdote por esta
afronta.
D. Antonio Cândido de Alvarenga era o novo bispo de São Luís do
Maranhão, e desde que chegara em junho de 1878, atacara com grande
veemência o relaxamento dos costumes do clero maranhense.
Em suas pregações, D. Antonio não poupava os maçons, os liberais, os
positivistas. Estes tinham que defender suas idéias e lutar contra a ignorância de
uma sociedade onde a proporção de analfabetos não diminuía com o passar dos
anos, permanecendo a mesma de há dez anos.
Os jornalistas d’A Flecha tampouco o poupavam. Aluisio Azevedo, sob o
codinome Pitrybi, sempre encontrava ocasião para espicaçar o bispo.
Para os jornalistas que estavam na frente de combate na época, não faltava
assunto para se contraporem ao poder clerical. A idéia de separação entre a Igreja
e o Estado, a secularização dos cemitérios, o casamento civil, tudo era explorado
nas tribunas dos jornais para a difusão da, como chamavam, ideologia de Comte.
Os positivistas tinham como base de apoio os jornais “O País” e “Diário do
Maranhão” os dois maiores em circulação. Estavam também presentes n’A
Flecha, a primeira tribuna anticlerical da província.
Mas, diferentemente dos outros jornais, n’A Flecha os jornalistas utilizavam
de sua verve para fazer, em cada pequena nota um exercício de humor, nem
sempre sutil, mas quase sempre carregado de mordacidade. Como em
“Flechadas”,
“Dizem que um professor por ocasião da grande descarga electrica
que desabou ha dias sobre esta cidade, longe de aproveitar esse
ensejo para ensinar mais alguma cousa aos seus alumnos,
mandou-os ajoelhar em grupo, resar o Magnificat e queimar palha
benta.
Isto é que é illustração (A Flecha, nº VIII, maio de 1879, p. 63).
D. Antonio Alvarenga recrutara para suas fileiras um dos sacerdotes mais
ativos durante o conflito religioso em Belém, o cônego João Tolentino Guedelha
de Mourão e a ele foi confiado o cargo de vigário geral e diretor do seminário. O
cônego, tão logo foi anunciada sua vinda para o Maranhão, tornou-se alvo dos
anticlericais.
As disputas com o clero maranhense eram um constante exercício intelectual
e humorístico para os redatores do jornal. Exercício que muitas vezes extrapolava
as notas sarcásticas, de duplos sentidos ou mesmo as ilustrações com referências
ou mensagens cifradas. O redator que assina com o pseudônimo de
“Alvarenguinha”, compôs umas quadrinhas em “homenagem” ao cônego. O
poema utiliza o recurso da onomatopéia, quando nos versos imita o toque festivo
dos sinos, compondo uma alegre cançoneta, intitulada
“REPIQUE”
“Digue – digue - digue “Digue – digue – dão!
Chegou o precioso
Cônego Mourão
“Digue – digue – digue
“Digue – digue – dem!
Tão fino como elle
O Maranhão não tem!
“Digue – digue – digue –
“Digue – digue – dim
Do bispo a inteligência
Vae surgir emfim!
“Digue – digue – digue –
“Digue – digue – dom
Traz-nos o que é justo
Amável, santo e bom!
“Digue – digue – digue
“Digue – digue – dum!
No clero maranhense
Assim não há nenhum! (Id. Ibid)
Conclusão
O grupo que concebeu e realizou A Flecha tinha em mente fazer um jornal
que mesclasse a crítica aos costumes da população da província – entenda-se
aqui, costumes em sua acepção mais ampla – à idéia de novidade, que era fazer
um jornal ilustrado, contando com o talento de João Afonso, artista, escritor e
professor de desenho; de Aluísio Azevedo, também artista, embora não tenha
colaborado com desenhos para o jornal, mas, fundamentalmente jornalista e
escritor; e de outros colaboradores que tinham no jornalismo sua arena para
contenda com os poderes constituídos.
A Flecha foi essa arena e através dela os jornalistas dispararam suas setas na
direção dos políticos, do clero, dos serviços públicos, da cultura.
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