Estratégias de dinamização da Terapia Comunitária

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Estratégias de dinamização da Terapia Comunitária:
mobilizando o acervo cultural.
Samilla Gonçalves de Moura1
Danielle Samara Tavares de Oliveira2
Mariana Albernaz Pinheiro de Carvalho3
Vagna Cristina Leite4
RESUMO
A cultura é o complexo dos padrões de comportamento, das crenças, valores, normas,
manifestações artística etc, que proporcionam aos indivíduos sentimentos de
pertencimento e de identidade social. Em diversos contextos urbanos existem grupos
populacionais, que carecem de valores capazes de recompor sentimentos de perda de
identidade, desenraizamento e outros, que levam pessoas, famílias e comunidades a
conviverem com a violência doméstica, desesperança, indiferença e abandono, entre
outras conseqüências da decomposição dos laços vitais. Neste contexto a terapia
comunitária tem se destacado como um trabalho de referência para essas pessoas
excluídas socialmente e resgata também a participação dos valores culturais de um
grupo social e dos vínculos inter-pessoais. Assim, esse trabalho objetiva identificar as
estratégias culturais mais utilizadas pelos terapeutas nas rodas de terapia, e conhecer o
acervo cultural dos terapeutas para dinamizar os encontros da TC. Trata-se de um
estudo de natureza qualitativa, realizada no município de João Pessoa com amostra de
dez terapeutas comunitários, cujo instrumento de coleta de dados foi um questionário
previamente elaborado. Evidenciou-se que os principais recursos culturais utilizados são
músicas, dinâmicas e orações e que os recursos culturais são utilizados em menor
proporção nas fases de escolha do tema e problematização. Outros recursos citados na
literatura como jogos, danças, participação de violeiros, sanfoneiros, catequistas,
utilização de histórias, contos, fábulas, brincadeiras, são pouco ou não evidenciados e
estes devem ser valorizados para que a terapia torne-se contextualizada e proporcione ao
individuo, família e comunidade o resgate de seus valores culturais, das crenças e
identidade pessoal e social.
Palavras Chave: Terapia, Participação Comunitária, Cultura.
ABSTRACT
Culture is the complex patterns of behavior, the beliefs, values, norms, etc. art
demonstrations, which give individuals a sense of belonging and social identity. In
many urban contexts there are population groups in need of values able to revive
feelings of lost identity, roots and others, leading people, families and communities to
live with domestic violence, despair, indifference and neglect, among other
consequences of the decomposition ties vital. In this context therapy Community stands
out as a work of reference for these people socially excluded and also to recover from
the cultural values of a social group and inter-personal relationships. Thus, this study
aims to identify the cultural strategies used by most therapists in the wheels of therapy,
and know the culture collection of therapists to promote the meetings of TC. This is a
study of qualitative nature coatis-held city of João Pessoa in a sample of eight
community therapists, whose data collection instrument was a questionnaire prepared in
advance. Showed that the main cultural resources are used songs, prayers and dynamic
and that the cultural resources are used in smaller proportion in the stages of choosing
the theme and issues. Other features cited in literature as games, dances, attended by
violist, musicians, catechists, use of stories, tales, fables, jokes, are little or no evidence
and they should be valued for the therapy becomes contextualized and provide the
individual , family and community redemption of their cultural values, beliefs and the
personal and social identity.
Keywords: Terapy, Involvement Community, Culture.
CONSIDERAÇÕES INICIAIS
De acordo com o dicionário Aurélio a palavra cultura é definida como o complexo
dos padrões de comportamento, das crenças, das instituições, das manifestações
artísticas e intelectuais etc, transmitidas coletivamente e típicas de uma sociedade.
Na visão de Geertz (1989), o conceito de cultura parte da idéia de que o homem é
enredado em uma teia de significados, por ele próprio tecida e analisada. Sendo assim
segundo Barreto (2005) citado por Santos (2008) a cultura é um elemento de referência
“fundamental para a construção de nossa identidade pessoal e grupal, interferindo de
forma direta na definição do quem sou eu, quem somos nós”.
Segundo Santos (2008) mesmo assumindo vários sentidos, a cultura é constituída de
três elementos essenciais: Idéias, abstrações e comportamentos. Estes por sua vez vão
gerar os cinco componentes básicos da cultura: conhecimento, crenças, valores, normas
e símbolos.
Diante destas concepções entendemos que a cultura é tudo aquilo que não é
natural, ou seja, que não nasce com o homem e sim é de forma simbólica constituída e
adquirida pelo inter-relacionamento humano e inclui aspectos tangíveis, como os
símbolos, objetos, e aspectos intangíveis, as crenças, valores, idéias, e estes
proporcionam aos indivíduos sentimentos de pertencimento e de identidade social que
são repassados pelos povos de geração em geração.
1
Enfermeira da Atenção Básica do Distrito Sanitário II. Especialista em Auditoria em Serviços de Saúde
pela CPBEX. Membro do Grupo de Pesquisa em Saúde Mental Comunitária do PPGENF da
Universidade Federal da Paraíba. Membro do Comitê de Prevenção da Mortalidade Materna e Infantil de
João Pessoa.
2
Enfermeira. Aluna Programa de Pós-Graduação em Enfermagem da Universidade Federal da ParaíbaUFPB. Membro do Grupo de Pesquisa em Saúde Mental Comunitária do PPGENF da Universidade
Federal da Paraíba. E-mail: [email protected]
3
Enfermeira. Aluna Programa de Pós-Graduação em Enfermagem da Universidade Federal da ParaíbaUFPB. Membro do Grupo de Pesquisa em Saúde Mental Comunitária do PPGENF da Universidade
Federal da Paraíba. E-mail: [email protected]
4
Enfermeira. Prof. de Enfermagem, pela Escola de Enfermagem Nova Esperança. Membro do Grupo de
Pesquisa em Saúde Mental Comunitária do PPGENF da Universidade Federal da Paraíba. E-mail:
[email protected]
Segundo Ferreira (2008) atualmente evidencia-se a grande necessidade de se
trabalhar com grupos populacionais que em contextos urbanos, de origem migratória,
carecem de valores capazes de recompor sentimentos de perda de identidade
desenraizamento e outros que levam pessoas, famílias e comunidades a conviverem com
a violência doméstica, desesperança, indiferença
e abandono, entre outras
conseqüências da decomposição dos laços vitais que unem os indivíduos na trama
cotidiana.
Nesse sentido a Terapia Comunitária (TC) tem se destacado por ser um trabalho
terapêutico de referência para os excluídos da sociedade e tem permitido agregar os
“sem-rumo e perdidos”, tendo aberto um espaço de expressão para os que sofrem.
(BARRETO, 2005). Na ideologia do mesmo autor citado a TC resgata também a
participação dos valores culturais de um grupo social e dos vínculos inter-pessoais e
sociais que unem, fortalecem e fazem o homem desse grupo descobrir o sentido de
pertencimento à humanidade.
A terapia comunitária é um espaço aberto a todas as pessoas, onde ocorre à troca
de experiências de vida de forma horizontal e circular, visando o alivio do sofrimento
humano, ou seja, na TC não há detenção de conhecimento por parte de um profissional
especializado, e sim ocorre à partilha de experiências entre os participantes sobre as
principais situações inquietantes pelas quais todos nos vivenciamos no nosso dia-dia, é a
troca desses conhecimentos que permite a adoção de estratégias para superação dos
desafios e dificuldades do cotidiano, valorizando assim o saber popular.
A TC destaca-se como um instrumento que nos permite construir redes sociais
solidárias de promoção da vida e mobiliza os recursos e as competências dos
indivíduos, das famílias e das comunidades, sendo atualmente uma tecnologia de
cuidados em saúde mental que vem se expandindo em todo o território nacional, com a
finalidade de prevenção do adoecimento.
Na TC procura-se suscitar a dimensão terapêutica do próprio grupo valorizando
a herança cultural dos nossos antepassados indígenas, africanos, orientais, europeus,
bem como o saber produzido pela experiência de cada um. (BARRETO, 2005)
Dentre os objetivos da TC podemos destacar a ênfase em reforçar a dinâmica
interna de cada individuo, para que este possa descobrir seus valores, suas
potencialidades e tornar-se mais autônomo e menos dependente, o reforço da autoestima individual e coletiva, a valorização do papel da família e da rede de relações que
ela estabelece com o seu meio, a suscitação em cada pessoa, família e grupo social, de
seus sentimentos de união e identificação com seus valores culturais, a promoção e
valorização das instituições e práticas culturais tradicionais guardiãs da identidade
cultural etc. (BARRETO, 2005).
As rodas de terapia são conduzidas por terapeutas comunitários, onde em cada
sessão há um terapeuta e um co-terapeuta que auxilia o primeiro no decorrer da mesma.
Segundo Barreto (2005) o terapeuta comunitário não deve assumir papel de especialista,
e sim trabalhar o sofrimento das pessoas, estimular a partilha, resgatar e valorizar o
saber produzido pela experiência de vida de cada um, e possibilitar a construções de
redes de apoio.
Na visão de Grandesso, (2008) o respeito do terapeuta pela diversidade cultural e
pela multiplicidade de contextos com seus saberes locais implica numa terapia
construída a partir da aceitação da responsabilidade social do terapeuta, legitimando os
direitos humanos de bem estar e de exercício da livre escolha.
Para a autora acima citada essa postura coloca-se como imperativa,
considerando-se as diversidades territoriais, a miscigenação cultural, étnica, religiosa e
social de nosso país. Contextos como este, exigem práticas locais, como a terapia
comunitária, trabalhando com camadas de populações econômica e culturalmente
carentes.
De acordo com Waldergrave (1989) apud Grandesso (2008), o terapeuta e as
práticas de terapia que não tratam das redes de significado cultural de maneiras
informadas são racistas, mesmo que não intencionalmente. Isto porque segundo o autor
tendem a predominar os valores das classes que controlam as instituições.
Barreto (2005) enfatiza que o terapeuta comunitário deve entender que nem toda
cultura, nem todo saber tem sido valorizados como deveriam. O autor diz que o
terapeuta só será bom se este conseguir lidar com a diferença, sem querer “coloniza-la”.
É preciso admitir que a riqueza está na diferença e que cada um é rico naquilo que o
outro é pobre.
Na concepção de Barreto (2005) para que haja a transformação de comunidades
de excluídos e para proporcionar que estes se integrem, e descubram seus valores como
pessoas, os valores que a cultura oferece como recursos que foram destruídos pelo
colonizador e continuam sendo por outras formas de colonização, temos que ajudá-las
nesta descoberta, temos que ajudá-las a verbalizar suas sensações e emoções,
transformando-as em pensamento transformador. A partir daí, os excluídos poderão ser
sujeitos da história e, não mais meras vítimas e expectadores.
A TC apóia-se em algumas bases teóricas, entre elas a antropologia cultural, que
chama a atenção para a importância da cultura como referencial a partir do qual cada
membro de um grupo se baseia, retira sua habilidade para pensar, avaliar e discernir
valores, e fazer suas opções no cotidiano; (SILVA, 2008).
Segundo Santos (2008) na antropologia, o estudo da cultura se confunde com a
própria Antropologia e vai explicar os significantes dos atos simbólicos, ou o conjunto
destes, através da análise do discurso social, construindo uma estrutura conceitual e
elucidativa do papel da cultura na vida humana.
A antropologia cultural é colocada como eixo epistemológico da TC, por ser uma
terapia sistêmica, de construção social e ainda pela valorização no discorrer das rodas de
TC das manifestações culturais de cada povo, e para que se tenha um conhecimento das
dimensões culturais e suas manifestações é necessário que o terapeuta utilize a pesquisa
antropológica para construção de uma terapia estruturada e contextualizada com os
valores culturais de cada grupo, para a garantia do sucesso de tal tecnologia de
cuidados.
As rodas de TC se desenvolvem em cinco etapas ou fases: Acolhimento, Escolha do
tema, Contextualização, Problematização, Rituais de agregação. No acolhimento o
terapeuta deve sempre lembrar aos participantes algumas regras necessárias para o bom
andamento das rodas de terapia. Essas regras incluem fazer silêncio, não dá conselhos,
não julgar, falar de si, propor músicas, poemas, contos, histórias, fábulas, paródia que
tenham relação com o tema em questão durante a qualquer fase da roda de TC.
De acordo com a regra referente às manifestações culturais, estas podem ser
exaltadas em qualquer momento da sessão de TC, quer seja pelo terapeuta ou por
qualquer participante da roda. Barreto (2005) ressalta a importância de o terapeuta
identificar e convidar pessoas para formar uma equipe de animação, com violeiros,
sanfoneiros, grupos musicais folclóricos, além de catequistas que podem enriquecer a
terapia com música alegria e momentos de espiritualidade. Ele sugere também que
durante o acolhimento é interessante incluir e adaptar elementos da cultura local.
Nesse sentido a TC trabalha com o resgate de nossas raízes culturais, através de
manifestações como a música, as histórias, os provérbios, os contos, as fábulas, orações
entre outros, pois a cultura dentro da TC é vista como elemento indispensável para
construção de nossa identidade pessoal e social e de sentimentos de pertencimento à
humanidade, dessa forma tais recursos proporcionam a agregação de valores e
possibilita ao cidadão o resgate de sua identidade .
É dentro dessa perspectiva da grande importância dos recursos culturais como
elemento indispensável para o alcance dos pressupostos da TC, que esse estudo tem por
objetivo: identificar as estratégias culturais mais utilizadas pelos terapeutas nas rodas de
terapia, e conhecer o acervo cultural dos terapeutas para dinamizar os encontros da TC.
CONSIDERAÇÕES METODOLÓGICAS
Trata-se de uma pesquisa de campo do tipo descritiva com abordagem
predominantemente qualitativa. Foi realizada, no município de João Pessoa, o qual
conta atualmente com 180 Unidades de Saúde da Família, das quais 43 realizam a
terapia comunitária. O município foi escolhido porque nele existem 113 terapeutas
comunitários que foram formados desde 2007 e que realizam a terapia comunitária. As
terapias são realizadas em diversos locais, como: associação de moradores, escolas,
igrejas e também nas próprias USF. Os locais freqüentados foram nas Unidades de
Saúde da Família, CAP´S (Centro de Atenção Psicossocial), e associação de moradores
de bairro.
Fizeram parte do estudo, dez terapeutas comunitários do município de João
Pessoa. Foram incluídos aqueles que ao serem informados sobre os objetivos da
pesquisa, aceitaram ser indagados livremente sobre aspectos relevantes para este estudo.
Utilizou-se a técnica de entrevista estruturada, a partir de um questionário com
perguntas previamente elaboradas. O questionário estava composto por seis perguntas,
objetivas e subjetivas visando maiores esclarecimentos sobre os recursos culturais que
já vem sendo utilizados nas rodas de TC como forma de dinamizar os encontros.
Foi utilizado ainda um diário de campo onde houve o registro de outras
informações de interesse para aprofundamento do conhecimento acerca do objeto do
estudo, quando as pesquisadoras tiveram a oportunidade de participar das rodas de TC.
A análise dos dados foi desenvolvida durante toda a coleta de dados, através de
teorizações progressivas com base na literatura pertinente. A intenção foi a de verificar
a consistência das informações dadas e a confirmabilidade, conforme sugere Alves
Mazzotti e Gewandsznajder (1999). Para tanto a pesquisadora esteve atenta as
informações dada pelos entrevistados e fez a opção de participar das rodas de Terapia
para confirmar tais informações. Os dados discursivos obtidos nas entrevistas são
tratados a seguir, obedecendo-se a triangulação: visão dos entrevistados, dos autores da
literatura estudada e da própria pesquisadora. Foi feita uma comparação entre o que diz
o manual do terapeuta comunitário produzido pelo criador da Terapia Comunitária,
Adalberto de Paula Barreto e a prática dos terapeutas. Este manual foi tomado como
parâmetro, pois, ele é a literatura base dos terapeutas comunitários. Assim para cada
passo da terapia foram feitas observações pertinentes àquele momento específico.
Vale salientar que esta pesquisa obedeceu às normas e diretrizes previstas na
Resolução 196/96 que regulamenta as pesquisas com seres humanos, sendo aprovada
pelo Comitê de Ética em Pesquisa do Centro de Ciências da Saúde da Universidade
Federal da Paraíba com número de protocolo 0042. Cada sujeito assinou ao termo de
consentimento livre e esclarecido, o qual informou sobre objetivos do estudo e direitos
da pessoa que está sendo objeto da investigação. Sendo em número de duas cópias uma
ficou com a pesquisadora e outra com o entrevistado.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Seguindo os passos da Terapia o primeiro momento a ser observado foi o
acolhimento, onde se fala sobre o objetivo e as regras da TC. Foi observado e indagado
ao terapeuta se o mesmo sempre lembra da regra referente aos aspectos culturais, ou
seja: Entre uma fala e outra, qualquer participante do grupo pode interromper a reunião
para sugerir uma música, seja de alguma religião ou popular, que tenha alguma ligação
com o tema em discussão, ou lembrar um provérbio que ilustre a situação, ou até
mesmo, contar uma piada que esteja no contexto. (BARRETO, 2005)
Todos os entrevistados responderam que sempre é lembrada essa regra em todos os
encontros na fase de acolhimento, demonstrando a significativa importância que os
terapeutas dão aos recursos culturais, pois de acordo com Barreto (2005) na TC a
cultura deve ser vista como um recurso que deve ser reconhecido, valorizado,
mobilizado e articulado de forma complementar com outros conhecimentos, pois
somente assim pode-se somar multiplicar nossos potenciais de crescimento e resolução
de nossos problemas sociais.
Todos os terapeutas participantes acham que esses recursos lúdicos contribuem para
o sucesso da terapia, na medida em que atrai as pessoas para as rodas de terapia, faz
com que os participantes se tornem mais desinibidos e assim expressem melhor o
problema pessoal que está acontecendo no momento.
Enfatizam que tais recursos trazem alegria e minimiza as tensões, gera a
sensibilização das pessoas, promove integração interpessoal e dinamização da rodas
quebrando a monotonia. Isso pode ser observado através dos seguintes justificativas dos
terapeutas:
“Os recursos lúdicos dinamizam os encontros, as pessoas vêm
aos encontros e procuram pelas dinâmicas, ou sentem falta delas
e pedem aos terapeutas que as realizem.”
“Contribui para o retorno e aumenta o interesse pela roda de
terapia”
Observou-se que os principais recursos culturais utilizados na rodas de terapia como
forma de dinamizar os encontros por ordem de suas fases são:
a) Fase de acolhimento:
Durante a fase de acolhimento as dinâmicas foram realizadas em todas as terapias
freqüentadas pelo estudo. Esse recurso é utilizado pelos terapeutas com vários objetivos,
entre os quais foram citados: 1. promover a atenção dos participantes, para que eles
façam uma melhor escuta em relação às experiências trocadas durante as rodas; 2. Para
promover uma melhor forma de expressão entre os participantes; 3. Para proporcionar
uma melhor integração e aquecimento grupal.
Segundo Barreto (2005) o co-terapeuta deverá propor uma dinâmica interativa. É
sempre aconselhável finalizar o acolhimento propondo uma atividade recreativa com
música, gestos, movimentos que possibilitem as pessoas se falarem, se abraçarem,
sendo importante incluir e adaptar elementos da cultura local. Segundo o mesmo autor
esta atividade é para deixar o grupo bem à vontade, descontraído.
As músicas foram utilizadas todos dos encontros na referida fase, e incluem aquelas
já existentes no CD da terapia, ou qualquer outra música regional ou nacional, e também
as religiosas (cristãs). Evidenciou-se que em algumas terapias esse recurso é escolhido
de acordo com a época do ano, a exemplo do Natal onde são utilizadas as músicas de
reflexão, São João onde se utiliza músicas juninas etc.
Segundo Leite, et al (2008) A música é uma ferramenta na TC, podendo ter
algumas funções: Acolher o grupo, aquecimento (colocar em situação de fala), acolher a
dor, celebrar a alegria, catalisar as falas do grupo, estimular a capacidade de resiliência,
resignificação, propiciar a sensação de pertencimento e inclusão (no grupo ou
sociedade).
As principais músicas utilizadas nessa fase foram:
Seja bem vindo ô lê, lê , vem dançar vem, vou lançar, Eu agora vou, A alegria, Que
bom encontrar você, Eu preciso de você etc.
“Seja bem-vindo, ô lê lê
Seja bem-vinda ola lá /
Paz e bem pra você
Que veio participar”
Tais músicas têm o objetivo de promover a integração do grupo, dá as boas vindas, e
acolher aos participantes, nesse sentido, as músicas eram apropriadas para fase de
acolhimento. Ao mesmo tempo a música serve nesta fase como instrumento para
desinibi-los, através do cantar e do dançar , onde todas as pessoas participam, deixando
o ambiente mais descontraído e alegre.
Outros recursos utilizados foram os jogos populares folclóricos, jogos educativos e
orações que foram citados como recursos utilizados por dois terapeutas entrevistados,
porém não foram presenciados.
Para Monteiro (1994) citado por Arvati et al (2008) a essência dos Jogos reside na
capacidade de estimular a espontaneidade. No momento do jogo surge o sentido de
liberdade a qual permite ao homem viajar pelo mundo da imaginação e, através dele,
recriar, descobrir novas formas de atuação. Nas atividades de jogo se luta se representa,
se imagina, liberta-se das armaduras sociais e se sensibiliza a autora ainda ressalta que o
jogo é desprovido de censura ou crítica, oferece, ao mesmo tempo, tensão e alegria.
De acordo com um relato de experiência de Arvati et al (2008) sobre a inserção de
jogos e brincadeiras na TC, estes facilitaram a comunicação grupal e a interação entre o
sentir, o pensar e o agir, a dimensão lúdica possibilitou o relaxamento e o gripo criou
um clima de respeito, liberdade e segurança e podem ser inseridos em qualquer etapa da
TC.
b) Fase de Escolha do Tema:
Nessa fase foram evidenciados poucos recursos culturais, em duas das terapias
freqüentadas utilizaram dinâmicas com desenhos, onde cada participante desenhava as
situações da vida cotidiana que lhe estavam incomodando, e em uma das terapias foi
citado a utilização de provérbios “ditados populares” para estimular as pessoas se
expressarem, porém não foi presenciado.
Segundo Leite, et al (2005) Os provérbios são representantes da cultura de um
povo, das suas histórias, da sua memória, é o resultado de uma longa experiência de
vida, representando a sabedoria de um povo.
c) Fase de contextualização:
Na referida fase evidenciamos que em quatro das rodas de TC freqüentadas
nenhum recurso cultural foi utilizado, e a música foi utilizada nos outros quatro dos
encontros visitados.
As músicas são geralmente cantadas pelos participantes nessa fase, quando
alguma pessoa se emociona, ou quando alguém lembra de uma música relacionada com
o tema em questão. Nesse sentido a música tem variadas finalidades como, oferecer
apoio e consolo nos momentos em que as pessoas se emocionam e choram, ou até trazer
uma mudança no ângulo de visão daquela pessoa que está dando seu depoimento etc.
Na visão de Leite et al (2008) a música associada à fala do individuo pode ajudar a
organizar o mundo da fala e da auto-imagem de quem está falando do seu sofrimento.
Já de acordo com Petrini (2008) Na TC, a “cura” ocorre pela palavra partilhada ou
pela emoção vivida. Muitas vezes essa partilha é cantada, pois brota de um sentimento,
ou tenta nomeá-lo, fato que nem sempre é possível, devido à impossibilidade da palavra
em explicar tudo. Por sua vez, a Arte e a Música encontram formas de diálogo quando
a palavra é incapaz de traduzir.
As principais músicas utilizadas foram:
Encosta tua cabecinha no meu ombro e chora
“Encosta tua cabecinha no meu ombro e chora,
E conta logo tuas magoas todas para mim,
Quem chora no meu ombro eu juro que não vai embora
Que não vai embora
“Porque gosta de mim”... (Paulo Borges)
Segura na mão de Deus:
“ Segura na mão de Deus,
segura na mão de Deus,
pois ela, ela te sustentará
não temas segue adiante
E não olhes para trás
Segura na mão de Deus e vai...”
A Paródia foi utilizada em um dos encontros, sendo esse recurso sugerido pelos
participantes de acordo com o tema em questão. A parodia citada foi de superação e
criada pela participante em cima da música “Pra não dizer que não falei das flores”.
(Geraldo Vandré)
d) Fase de Problematização:
Nessa fase em seis das TC visitadas não foi utilizado nenhum recurso cultural
pelos terapeutas como forma de dinamizar o encontro. Em uma das rodas de TC houve
sugestões de músicas pelos participantes, e em uma os terapeutas disseram utilizar
provérbios, contos de superação e fábulas, porém não foram presenciados.
e) Rituais de agregação:
As músicas foram utilizadas em todas as rodas de TC visitadas na fase de agregação,
dentre essas músicas as mais utilizadas são as religiosas e músicas do CD da TC. As
orações foram realizadas em quatro das rodas visitadas. Músicas religiosas e orações
são utilizadas para a abençoar a pessoa que teve seu tema escolhido assim como
também todos os participantes da roda.
Segundo Barreto (2005) é neste momento final da TC que a dimensão espiritual se
manifesta de maneira significativa, onde muitos expressam seus valores, suas crenças,
recorrem a Deus, seja em forma de orações ou cânticos.
Assim o autor supracitado enfatiza que estes são valores espirituais e que reforçam a
identidade de cada um.
As Orações mais utilizadas foram:
0ração de são Francisco:
“ Senhor,fazei-me instrumento de vossa paz;
Onde houver ódio, que eu leve o amor; ...
Ó Mestre, Fazei que eu procure mais,
Consolar que ser consolado,
Compreender que ser compreendido,
Amar que ser amado,
Pois é dando que se recebe,
È perdoando que se é perdoado,
E é morrendo que se vive,
Para a vida eterna.”
Oração da Serenidade:
“Concedei-me, Senhor, a serenidade necessária para aceitar as coisas que não
posso modificar, coragem para modificar aquelas que posso e sabedoria para
distinguir umas das outras".
Pai Nosso:
“Pai Nosso que estas no Céu
Santificado seja o vosso nome
Venha a nós o vosso reino
Seja feita a vossa vontade
Assim na terra como no céu ....”
Além de todos esses recursos culturais utilizados na TC, são ainda utilizadas outras
estratégias para dinamizá-la como alongamento, exercício para relaxamento, Histórias,
realização de terapias temáticas, composição de paródias e realização das rodas de TC
na própria comunidade quando o número de participantes diminuem nos encontros, tais
recursos foram citados pelos terapeutas entrevistados.
Outro importante dado de grande relevância para o estudo refere-se ao fato de que
todos os terapeutas comunitários entrevistados acreditam na importância de se conhecer
a cultura da comunidade onde são desenvolvidas as sessões de TC, para melhor realizar
as fases de contextualização, a construção da palavra-chave e a problematização.
Segundo Santos (2008) em seus estudos sobre a Antropologia cultural na TC analisa
que é clara a necessidade de o terapeuta comunitário conhecer a cultura da comunidade
onde desenvolve as sessões de TC, pois possibilita ao terapeuta comunitário obter as
ferramentas possíveis de permitir e colocar em prática as sessões, fazendo uma terapia
contextualizada e significativa para todos os participantes.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Com esse estudo evidenciou-se que os principais recursos culturais como
músicas e dinâmicas relatados na literatura estão sendo praticados nas rodas de terapia
visitadas, porém observou-se que os recursos são utilizados em menor proporção nas
fases de escolha do tema e problematização, sendo que outros recursos como jogos,
danças, participação de violeiros, sanfoneiros, catequistas, utilização de histórias,
contos, fábulas, brincadeiras que relatados na literatura são pouco ou não utilizados, e
estes devem ser mais valorizados pelos terapeutas, para que a terapia torne-se mais
contextualizada e adequada às raízes culturais de cada grupo, garantindo assim o
sucesso da mesma.
As músicas eram cantadas em momentos oportunos e contribuíram para a
dinamização dos encontros, seja no acolhimento ou em um momento de grande emoção
com o objetivo de consolo. As dinâmicas utilizadas também contribuíram para o
sucesso das rodas de TC, pois estimulavam as pessoas a falarem, e se expressarem
melhor diante das outras, possibilitando um melhor relação inter-grupal.
Com esse estudo pode-se compreender a importância da cultura e dos recursos
culturais como elemento indispensável para adquirirmos nossa identidade pessoal e
social, o fortalecimento desta nos proporciona o resgate com nossas raízes e nos trás
sentimentos de pertencimento a determinado povo. A inserção dos recursos culturais na
TC só vem a contribuir para a consolidação e sucesso da mesma, no sentido de resgatar
e fortalecer nossos valores, saberes, competências individuais e comunitárias, e nossa
identidade pessoal e social.
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http://74.125.113.132/search?q=cache:YZ2THiva_CgJ:www.epidemioufpel.org.br/proesf/cadglas/ne_glas2/experiencias%2520municipais/joao%2520pessoa%2520%2520terapia%2520comunitaria.ppt+terapia+comunitaria&hl=pt-BR&ct=clnk&cd=5&gl=br>
Acesso em: 02.nov. 2008
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