Principais Desafios Para o Século XXI

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Principais Desafios Para o Século XXI
(Principal Challenges for the 21st Century)
Marcelo Roque da Silva1
[email protected]
Frequentemente ouve-se clichês como “o planeta está mudando”, ou que “temos de nos
adaptar às mudanças do século XXI”. Mas a minha opinião é que, se por um lado nós, seres
humanos, permanecemos quase sempre os mesmos em essência – preocupados basicamente
com nosso poder aquisitivo e (inconscientemente) com a procriação da espécie –, o mundo
tem de fato mudado, em boa parte para pior, e devido justamente a essas duas “preocupações”
humanas básicas supracitadas.
Eu não me incluo entre aqueles que acreditam ser possível modificar significativamente a
humanidade em sua essência, mas ainda assim a mim permanece incerto se é ou não possível
modificar as conseqüências nefastas de tal essência, ou seja, de certos atos humanos.
Dentre estas eu me ateria mais especificamente às concernentes ao nosso sistema econômico
que, caso analisado de forma ampla, sofre influência não só da política, nacional e
internacional, como também de nossas relações interpessoais, das quais a de maior relevância
para o assunto aqui abordado é a que implica em procriação, conforme veremos a seguir.
Afirmei acima que nossa espécie tendeu sempre a apresentar um comportamento semelhante,
mas ao iniciarmos este século XXI seremos possivelmente obrigados a enfrentar problemas
mais graves em relação aos que viemos a conhecer até então. Dentre eles, o mais conhecido é
o climático, também chamado de aquecimento global: segundo todos os cientistas sérios
nosso planeta está gradativamente se aquecendo devido à ação humana, principalmente a
relacionada de forma direta à produção econômica (DALY e FARLEY, 2004).
Para citar apenas uma prova cabal, e a meu ver suficiente (haveria muitas outras caso
necessário), do aquecimento global, atravessar o Ártico por navios é hoje possível, pela
primeira vez em registro, devido ao derretimento do Círculo Polar Ártico a taxas ainda
maiores que as anteriormente previstas. As nefastas conseqüências do aquecimento global nós
já começamos a sentir, mas as piores estão, infelizmente, reservadas para a segunda metade
do século.
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Professor da Universidade Metodista de SP, Economista e Mestre em Administração
E-mail: [email protected]
ReFAE – Revista da Faculdade de Administração e Economia
Caso deixemos de lado os aspectos essenciais e eventualmente “pré-programados” do
comportamento humano, a maior dificuldade existente em se combater o aquecimento global
é certamente econômica. Reside no simples fato de nossas sociedades/economias serem
viciadas em crescimento, sendo, consequentemente, “obrigadas” a aumentar de forma
constante, e ao maior nível possível, sua produção e consumo de bens e serviços. É
desnecessário mencionar o quanto esse comportamento impacta profunda, direta e
negativamente sobre o meio ambiente planetário (SAMUELSON, 2006). Quanto a isso, é
fundamental levarmos em consideração que:
O fato desconfortável, ignorado e negado por ambos os lados do debate ambiental, é que um estilo
de vida intensivo em energia, do tipo que as partes ricas do mundo desfrutam, não pode ser
estendido para uma população humana de 9 ou 10 bilhões, o nível previsto pelos estudos da ONU
para a metade deste século (GRAY, 2008).
Entretanto, o aquecimento global, por mais aterrorizante que sejam seus efeitos, não é tudo. A
ele faz-se necessário acrescentar outros problemas, tão ou mais graves para nós: o
demográfico e o alimentar.
De acordo com estimativas científicas confiáveis, o planeta comportaria sem maiores danos
ambientais uma população de no máximo 2 a 3 bilhões de pessoas. Porém, contamos hoje
com quase 7 bilhões, e crescendo. A cada ano, o saldo de nascimentos e mortes acrescenta ao
planeta aproximadamente 80 milhões de novos seres humanos – o correspondente a toda
população do México, por exemplo e, conforme assinalado acima, seremos algo entre 9 a 10
bilhões em 2050. Não é difícil imaginar os efeitos disso sobre o aquecimento global (JOWIT,
2007).
Resta agora o último dos problemas considerados por mim como os mais desafiadores deste
século: o alimentar. Poucos fora da área econômica o conhecem a fundo. Trata-se de um
desequilíbrio estrutural entre a oferta e a demanda de alimentos a nível mundial – muita
demanda para pouca oferta, ou muitas pessoas para pouco alimento. As principais causas
desse descompasso econômico são o avanço das cidades sobre as terras agriculturáveis; o
próprio aquecimento global, que causa desertificação; e o cultivo de terras para a produção de
biocombustíveis (JUNG, HORNIG e WAGNER, 2008).
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Como sabemos, nosso planeta não irá crescer nem um centímetro além de seu tamanho atual,
isso implicando em que dificilmente obteremos uma quantidade significativa de novas terras
agriculturáveis além das já existentes, a menos que façamos uso daquelas onde há florestas.
Apenas unindo o problema 2 ao 3 (superpopulação e escassez de alimentos) já é possível
concluir que nossa situação como espécie – e particularmente como espécie relativamente
pacífica – está no mínimo em xeque: como alimentar uma população crescente com uma
quantidade de terra não-crescente (e possivelmente decrescente)? (PENTEADO, 2004).
Sim, existem ainda três grandes florestas, a Amazônica, a do Congo e a da Indonésia, mas sua
eventual utilização para agricultura colocaria em risco o clima das regiões vizinhas – e talvez
também das distantes – provavelmente ocasionando desertificação, cujo saldo final poderia
ser uma menor, e não maior, quantidade de terras agriculturáveis.
Como exemplo disso, para nosso país prevê-se que caso a Amazônia fosse utilizada para
plantio de alimentos ou criação de gado não mais choveria em São Paulo, e o restante do
Brasil sofreria diferentes graus de desertificação – imagine as conseqüências disso para nossa
Balança Comercial, só para nos fixarmos em um único aspecto dentro de um problema
caleidoscopicamente multifacetado (ROHTER, 2002).
Concluindo esta superficial e extremamente breve análise, dentre os desafios citados eu não
arriscaria apontar hoje qual trará as conseqüências mais graves ou será o mais difícil de lidar.
O mais provável é que os três se unam em um único, imenso e gravíssimo problema, de
solução praticamente impossível.
Seria correto ainda afirmar que suas soluções, caso sejam alcançadas, serão todas de natureza
global. Nenhuma nação, por mais poderosa que seja ou venha a ser será capaz de solucionálos sozinha. Amplos consensos terão de ser forjados caso queiramos até mesmo minorar seus
efeitos.
Mas, talvez surpreendentemente, apesar de tudo o que foi dito acima eu creio que haja razões
para otimismo. O homem sempre foi capaz de superar-se e encontrar saídas até para as
maiores dificuldades. No entanto, não podemos nos enganar: a cada dia que passa as
probabilidades de um futuro promissor se reduzem, tal qual a areia de uma ampulheta, e é por
isso que aqui segue um clamor para a ação imediata, principalmente para a discussão lúcida
que leve às soluções ainda não encontradas.
Boa sorte a todos nós!
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Referências
DALY, Herman E.; FARLEY, Joshua. Ecological economics: principles and applications.
Washington: Island Press, 2004. 455 p.
GRAY, John. Only science can save us from climate catastrophe. The Observer, 20 jan. 2008.
JOWIT, Juliette. No one is willing to address the accelerating growth in the world's
population. The Observer, 18 mar. 2007.
JUNG, Alexander; HORNIG, Frank; WAGNER, Wieland. The Choice between Food and
Fuel. Der Spiegel, jan. 2008.
PENTEADO, Hugo. Ecoeconomia: uma nova abordagem. São Paulo: Lazuli, 2004. 239 p.
ROHTER, Larry. Brazil's prized exports rely on slaves and scorched land, The New York
Times, 25 mar. 2002
SAMUELSON, Robert. J. Affluence and its discontents. Newsweek, mai. 2006.
Todas as traduções do autor.
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