NEUROCIÊNCIA: A NOVA TECNOLOGIA DE

ARTIGO RESUMIDO DE INICIAÇÃO CIENTÍFICA
Faculdade de Educação - Universidade de São Paulo
NEUROCIÊNCIA: A NOVA TECNOLOGIA DE PODER DA
EDUCAÇÃO?
Resumo:
A pesquisa discute a entrada do uso da neurociência na educação, esta pensada como uma
nova tecnologia de poder que permite a governamentalidade, assim como foi e é a psicologia,
fenômeno observado por Rose (1998). A pergunta investigada é: “A educação busca resolver
quais problemas com a ajuda da neurociência?”. Para tal, foi feita a análise dos exemplares da
revista nova escola on-line das edições dos anos de 2011, 2012 e o primeiro semestre de
2013, a partir da discussão teórica.
Abstract:
This research is about the recent uses of neuroscience in the education field, considering
neuroscience as a power technology that alouds a kind of governmentality, the same as
psychology was and still is for education, as Rose (1998) concluded. Our most important
question is: “Which issues does education wants to solve with neuroscience’s help?”. Thus
we’ve analyzed all the Nova Escola’s magazines on-line in the period of 2011 to the first
semester of 2013 besides their special editions between 2011 and 2012.
Autores: Taís Kozlakowski Patrício; Cintya Regina Ribeiro
[email protected]; [email protected]
(FEUSP - Pedagogia)
Orientação: Profa. Dra. Cintya Regina Ribeiro
São Paulo, 2014
INTRODUÇÃO
A pesquisa aqui apresentada investiga o uso da neurociência como uma tecnologia de
poder da educação, da mesma forma que se sabe que é a psicologia, mas admitida como
“mais científica” do que esta. Para tal, no primeiro momento da pesquisa foi feito um
levantamento bibliográfico e uma discussão teórica a partir de leituras dos autores Michel
Foucault, Nikolas Rose, Francisco Ortega e o neurocientista Antônio Damásio. A partir dessas
leituras, a concepção sobre o que a neurociência representa foi ampliada. Percebemos que a
mesma faz parte de um movimento maior de subjetivação, que não é apenas representado
pelo cérebro, mas pelo corpo como um todo, incluindo, aqui, o cérebro. Assim, a subjetivação
somática, o biological-self, o neurochemical-self são conceitos sustentados pela ciência que
estuda a vida: a biologia.
A continuação da pesquisa consistiu em analisar edições da revista Nova Escola no
período de 2011 até o segundo semestre de 2013 disponíveis on-line no site da revista a partir
da discussão teórica feita no primeiro momento da pesquisa.
OBJETIVOS
O objetivo dessa pesquisa é compreender a neurociência como uma tecnologia,
investigando nas revistas Nova Escola o modo como aparece o discurso sobre tal tecnologia.
Para tal, objetivamos responder à pergunta: “A educação busca resolver quais problemas com
a ajuda da neurociência?”.
MATERIAIS E MÉTODOS
Os materiais teóricos utilizados para a investigação foram os textos e/ou livros de
Michel Foucault, Nikolas Rose, Francisco Ortega, Antonio Damásio, Denise Bernuzzi de
Sant’Anna, Michele Cukiert e Léia Priszulnik. Os materiais empíricos utilizados foram as 25
edições on-line da revista Nova Escola de 2011, 2012 e do primeiro semestre de 2013 e as
edições on-line das 11 edições especiais da mesma revista publicadas em 2011 e 2012. Para a
análise das revistas foi feita a leitura das reportagens, com aprofundamento naquelas que
possuíam as tecnologias buscadas, de modo a estabelecer relações entre os discursos
encontrados e a discussão teórica.
RESULTADOS
A pesquisa apresenta duas linhas principais em sua discussão teórica. Na primeira,
apresentamos o pensamento de Foucault. Na segunda, discutimos sobre a atualidade de um
de seus conceitos, o de biopoder. As leituras dos textos de Foucault proporcionam uma visão
diferenciada sobre a neurociência; esta não é tida como uma Verdade, transcendental,
imutável, por ser científica, mas um efeito de verdade determinado pelo seu momento histórico
e a sua conjuntura, um conhecimento inventado, com uma origem, uma força, um vetor. Tratase de uma tecnologia de poder que proporciona uma governamentalidade por criar um tipo de
subjetividade que por sua vez permite o governo de si e dos outros. Portanto, explicita-se a
importância de se fazer a crítica, no sentido apresentado pelo autor, para que se permitam
novas formas de pensamento.
Na discussão sobre a atualidade do biopoder os autores que mais a embasaram foram
Rose e Ortega. Ambos falam sobre um novo tipo de subjetividade inserida no corpo, tal como
apresentada pela biologia. Com o avanço da neurociência (de acordo com algumas visões
sobre tal ciência), a dicotomia entre corpo e mente acaba se desfazendo, uma vez que o
pensamento e os sentimentos são explicados a partir da mesma matéria que é utilizada para
explicar o corpo: células, moléculas, reações químicas etc. Além disso, a imagem que vemos e
fazemos do nosso corpo (por meio de desenhos, representações, raios-x, tomografias etc.)
produz um tipo de subjetividade, diferente daquela já apresentada pela psicologia. O corpo
passa a representar o “eu”, não mais havendo uma distância entre a alma e o corpo. Por meio
do cuidado do corpo, cuidamos diretamente do eu, do sujeito. Para Ortega, tal visualização e
representação do corpo cria um efeito de normalização.
Era esperado que na análise das entrevistas encontrássemos discursos de como
utilizar descobertas da neurociência em benefício da parte cognitiva da educação, como, por
exemplo, utilizar estudos que mostrem tecnologias para manter os alunos mais atentos, mais
focados, ou então menos cansados – discurso este que já circula. A própria revista publicou
uma entrevista com António Nóvoa (em outubro de 2012) na qual o autor aborda a
necessidade da inovação na educação por meio da utilização de novos conhecimentos
neurocientíficos e não apenas da sociologia e da psicologia. Mas foram poucas as matérias
que conferiram esse papel para a neurociência, apesar de que uma delas encontra-se na
própria capa da revista. A maioria das matérias que discutiam o desenvolvimento cognitivo
tinha como embasamento teórico especialistas da psicologia do desenvolvimento, além dos
construtivistas. Ainda, a revista publicou uma matéria atentando para alguns “neuromitos” que
poderiam comprometer a aprendizagem das crianças, desacreditando esse tipo de
conhecimento.
Nas matérias sobre o ensino de português, matemática, artes história e geografia não
foram encontrados elementos de tecnologia “bio”. Entretanto, nas matérias sobre o ensino de
educação física, ciências, e algumas vezes de educação infantil, estes estavam presentes em
vários momentos, inclusive, em alguns casos, sob o aspecto “neuro”. Nessas reportagens foi
possível observar como estava sendo construída uma subjetividade biológica para as crianças,
com um discurso defensor de uma maior “consciência corporal”. Por meio de atividades físicas,
lúdicas ou explicativas sobre o corpo humano, com imagens, vídeos etc., a criança inserida
nesse contexto discursivo passa a se enxergar dessa forma, como um biological-self. Outro
objetivo que tais reportagens apresentavam para o fator bio-neuro, era produzir nas crianças –
ao terem conhecimento sobre seus corpos e hábitos saudáveis – maior autonomia para
cuidarem de si. O imperativo da vida saudável como um bem em si era um valor dado, não
tendo sido questionado em nenhum momento. Assim como o imperativo da autonomia.
Outro problema que os saberes da neurociência, da biologia e da medicina eram
chamados a resolver remetia às situações de diagnóstico de uma patologia aliada à
necessidade de medicalização ou de outra intervenção médica/psiquiátrica. Muitas perguntas
encaminhadas à revista sobre saúde, na maioria das vezes, as quais eram respondidas por
uma psicóloga ou educadora, necessitavam da intervenção de especialistas bio, os quais eram
1
chamados para opinar. No caso da escola de Realengo , por exemplo, trazida como matéria de
capa, assumia-se, em alguns casos, a necessidade do discurso de um psiquiatra, ou seja, de
um especialista que tem uma perspectiva tanto psicológica quanto biológica e neurológica.
Além disso, em alguns momentos a revista assumia que questões de comportamento, se
fossem corretamente diagnosticadas e comprovadamente patológicas, poderiam e deveriam
ser resolvidas com medicamentos.
CONCLUSÕES
Respondendo à pergunta: “A educação busca resolver quais problemas com a ajuda da
neurociência?”, percebe-se que mais do que uma tecnologia para auxiliar os professores a
ensinarem certos conteúdos e ajudar as crianças em aspectos cognitivos, tal conhecimento
tem sido mais utilizado para criar uma consciência e autonomia de um tipo de cuidado
normatizado em relação ao seu corpo e a si mesmo nas crianças, ensinando-as a serem
biological-self. Em decorrência, tal conhecimento produz o healthism, usando um termo de
Ortega, ou seja, o valor de que a saúde é um bem em si. Além disso, tais conhecimentos na
área bio-neuro têm sido utilizados para cuidar de questões consideradas médicas, fora do
alcance da psicologia ou da pedagogia.
1
Caso ocorrido em abril de 2011 em que um ex-aluno entrou armado na antiga escola no Rio de Janeiro,
no Bairro de Realengo, atirando e matando 12 crianças.
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