ficha complementar filosofia.

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ALUNO:______________________________________________Nº________
SÉRIE:_______ DATA:_____/_____/_____ PROF.: EDUARDO LIMA
FICHA COMPLEMENTAR FILOSOFIA.
Filosofia e felicidade: O que é ser feliz
segundo os grandes filósofos do passado e
do presente
O que é felicidade? Provavelmente, cada
pessoa que resolver responder a esta
pergunta apresentará uma resposta própria,
pois a felicidade, num certo sentido, é algo
individual, pessoal e intransferível. Por outro
lado, há uma ideia de felicidade que
pertence
ao
senso
comum
e
é
compartilhada pela esmagadora maioria das
pessoas: felicidade é ter saúde, amor,
dinheiro suficiente, etc. Além disso, a ideia
de felicidade não é uma coisa recente. Com
certeza, ela acompanha o ser humano há
muito tempo e faz parte de sua história.
Sendo assim, é possível traçar a evolução
histórica dessa ideia, se nos debruçarmos
sobre a disciplina que sempre se dedicou a
investigar nossas ideias, de modo a definilas e esclarecê-las: a filosofia. Na verdade,
a ideia de felicidade tem grande importância
para a origem da filosofia. Ela faz parte das
primeiras reflexões filosóficas sobre ética,
que foram elaboradas na Grécia antiga.
Vamos, então, acompanhar a evolução
histórica dessa ideia fazendo uma viagem
pela história da filosofia.
A referência filosófica mais antiga de que se
dispõe sobre o tema é um fragmento de um
texto de Tales de Mileto, que viveu entre as
últimas décadas do século 7 a.C. e a
primeira metade do século 6 a.C. Segundo
ele, é feliz “quem tem corpo são e forte, boa
sorte e alma bem formada”. Vale atentar
para a expressão “boa sorte”, pois disso
dependia a felicidade na visão dos gregos
mais antigos.
Bom demônio
Em grego, felicidade se diz “eudaimonia”,
palavra que é composta do prefixo “eu”, que
significa “bom”, e de “daimon”, “demônio”,
que, para os gregos, é uma espécie de
semi-deus ou de gênio, que acompanhava
os seres humanos. Ser feliz era dispor de
um “bom demônio”, o que estava
relacionado à sorte de cada um. Quem
tivesse um “mau demônio” era fatalmente
infeliz.
Não há dúvida de que, entre os séculos 10
a.C. e 5. a.C, o pensamento grego tende a
considerar os maus demônios mais
frequentes do que os bons e apresentar
uma visão pessimista da existência
humana. Não é por acaso que os gregos
inventaram a tragédia. Uma expressão
radical desse pessimismo nos é fornecido
por um velho provérbio grego, segundo o
qual “a melhor de todas as coisas é não
nascer”.
Foi a filosofia que rompeu com essa visão
pessimista
e
procurou
estabelecer
orientações para que o homem procurasse
a felicidade. Demócrito de Abdera (aprox.
460 a.C./370 a.C.) julgava que a felicidade
era “a medida do prazer e a proporção da
vida”. Para atingi-la, o homem precisava
deixar de lado as ilusões e os desejos e
alcançar a serenidade. A filosofia era o
instrumento
que
possibilitava
esse
processo.
Virtude e justiça
Sócrates (469 a.C./399 a.C.) deu novo rumo
à compreensão da ideia de felicidade,
postulando que ela não se relacionava
apenas à satisfação dos desejos e
necessidades do corpo, pois, para ele, o
homem não era só o corpo, mas,
principalmente, a alma. Assim, a felicidade
era o bem da alma que só podia ser
atingido por meio de uma conduta virtuosa e
justa.
Para Sócrates, sofrer uma injustiça era
melhor do que praticá-la e, por isso, certo
de estar sendo justo, não se intimidou nem
diante da condenação à morte por um
tribunal
ateniense.
Cercado
pelos
discípulos, bebeu a taça de veneno que lhe
foi imposta e parecia feliz a todos os que o
assistiram em seus últimos momentos.
Entre os discípulos de Sócrates, Antístenes
(445 a.C./365 a.C.) acrescentou um toque
pessoal à ideia de felicidade de seu mestre,
considerando que o homem feliz é o homem
autossuficiente. A ideia de autossuficiência
(que, em grego, se diz “autarquia”,)
continuará diretamente vinculada à de
felicidade nos setecentos anos seguintes.
Uma função da alma
Mas o maior discípulo de Sócrates, que
efetivamente levou a especulação filosófica
adiante de onde a deixara seu mestre, foi
Platão (348 a.C./347 a.C.), o qual
considerava que todas as coisas têm sua
função. Assim, como a função do olho é ver
e a do ouvido, ouvir, a função da alma é ser
virtuosa e justa, de modo que, exercendo a
virtude e a justiça, ela obtem a felicidade.
É importante deixar claro que noções como
virtude e justiça integram uma vertente do
pensamento filosófico chamada Ética, que
se dedica à investigação dos costumes,
visando a identificar os bons e os maus.
Para Platão, a ética não estava limitada aos
negócios privados, devendo ser posta em
prática também nos negócios públicos.
Desse modo, o filósofo entendia que a
função do Estado era tornar os homens
bons e felizes.
A ligação entre ética e política estará ainda
mais definida na obra do mais importante
discípulo de Platão, Aristóteles (384
a.C./322 a.C.), o qual dedicou todo um livro
à questão da felicidade: a “Ética a
Nicômaco” (que é o nome de seu filho, para
quem o livro foi escrito). Amigo de Platão,
mas, em suas próprias palavras, “mais
amigo da verdade”, Aristóteles criticou o
idealismo do mestre, reconhecendo a
necessidade de elementos básicos, como a
boa saúde, a liberdade (em vez da
escravidão)
e
uma
boa
situação
socioeconômica para alguém ser feliz.
Felicidade intelectual
Por outro lado, a partir de uma série de
raciocínios que têm como base o fato de o
homem ser um animal racional, Aristóteles
conclui que a maior virtude de nossa “alma
racional” é o exercício do pensamento, pelo
quê, segundo ele, a felicidade chega a se
identificar com a atividade pensante do
filósofo, a qual, inclusive, aproxima o ser
humano da divindade.
Sem perder de vista a aplicação prática de
suas ideias, Aristóteles considera a política
como uma extensão da ética e, nesse
sentido, para ele também é uma função do
Estado criar condições para o cidadão ser
feliz. O Estado que o filósofo tinha em
mente, porém, era a “polis” grega, que,
naquele momento, estava deixando de
existir, com o surgimento do império de
Alexandre o Grande.
Depois de Alexandre, no mundo grego ou
helênico, desenvolveram-se três escolas
filosóficas que vão se estender até o fim do
Império romano, as chamadas filosofias
helenísticas. Todas elas, por caminhos
diferentes, chegam a conclusão de que,
para ser feliz, o homem deve ser não só
autossuficiente, mas desenvolver uma
atitude de indiferença, de impassibilidade,
em relação a tudo ao seu redor. A
felicidade, para eles, era a “apatia”, palavra
que, naquela época, não tinha o sentido
patológico que tem hoje.
Prazer e salvação da alma
Entre os filósofos do mundo helênico, podese citar Epicuro (341 a.C./271 a.C.), para
deixar claro que essa ideia de “apatia” não
significa abdicar ao prazer. O prazer era
essencial à felicidade para Epicuro, cuja
filosofia também é conhecida pelo nome de
hedonismo (em grego “hedone” quer dizer
“prazer”). Mas ele deixa claro, numa carta a
um discípulo, que não se refere ao prazer
“dos dissolutos e dos crápulas” e sim ao da
impassibilidade que liberta de desejos e
necessidades.
Com o fim do mundo helênico e o advento
da Idade Média, a felicidade desapareceu
do
horizonte
da
filosofia.
Estando
relacionada à vida do homem neste mundo,
ela não interessou aos filósofos cristãos
como Agostinho de Hipona (354 d.C./430
d.C.), Anselmo de Canterbury (1033/1109)
ou Tomás de Aquino (1225/1274), todos
santos da Igreja católica. Para a filosofia
cristã, mais do que a felicidade, o que conta
é a salvação da alma.
Os filósofos voltaram a se debruçar sobre o
tema na Idade Moderna. John Locke
(1632/1704) e Leibniz (1646/1716), na
virada dos séculos 17 e 18, identificaram a
felicidade com o prazer, um “prazer
duradouro”. Alguns décadas depois, o
filósofo
iluminista
Immanuel
Kant
(1724/1804), na obra “Crítica da razão
prática” definiu a felicidade como “a
condição do ser racional no mundo, para
quem, ao longo da vida, tudo acontece de
acordo com o seu desejo e vontade”.
a ele a obra “A conquista da felicidade”,
usando o método da investigação lógica
para concluir que é necessário alimentar
uma multiplicidade de interesses e de
relações com as coisas e com os outros
homens para ser feliz. Para ele, em síntese,
a felicidade é a eliminação do egocentrismo.
Mais recentemente, em 1989, o filósofo
espanhol Julián Marías também dedicou ao
tema um livro notável, “A felicidade
humana”, em que estuda a história dessa
ideia, da Antiguidade aos nossos dias,
ressaltando que a ausência da reflexão
filosófica sobre a felicidade no mundo
contemporâneo talvez seja um sintoma de
como esse mesmo mundo anda muito
infeliz.
Bibliografia
Abbagnano, Nicola - "Dicionário de
Filosofia", Martis Fontes, São Paulo, 2000.
Berti, Enrico - "No princípio era
maravilha", Loyola, São Paulo, 2010.
a
Direito do homem
No entanto, para Kant, como a felicidade se
coloca no âmbito do prazer e do desejo, ela
nada tem a ver com a Ética e, portanto, não
é um tema que interesse à investigação
filosófica. Sua argumentação foi tão
convincente que, a partir dele, a felicidade
desapareceu da obra das escolas filosóficas
que o sucederam.
Mesmo assim, não se pode deixar de
mencionar que, no mundo de língua inglesa,
na mesma época de Kant, a ideia de
felicidade ganhou lugar de destaque no
pensamento político e buscá-la passou a
ser considerada um “direito do homem”,
como está consignado na Constituição dos
Estados Unidos da América, que data de
1787 e foi redigida sob a influência do
Iluminismo.
Egocentrismo e infelicidade
É também no âmbito da filosofia anglosaxônica, no século 20, que se encontra
uma nova reflexão sobre nosso assunto. O
inglês Bertrand Russell (1872/1970) dedicou
Marías, Julián - "A felicidade humana", Duas
Cidades, São Paulo, 1989.
Antonio Carlos Olivieri é jornalista e escritor.
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