O homem magro - Livraria Cultura

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O homem magro
Todo corpo é vulnerável ao tempo, ao fogo, aos objetos cortantes, aos vírus, aos maus-tratos alheios, aos maus-tratos próprios, às balas, aos insetos, à vergonha.
A festa é para poucas pessoas, quase todas conhecidas umas
das outras. E eles são um casal feio. Ele, além de feio, é tímido, sem jeito, sem iniciativa. A mulher quer dançar e ele vai
dançar. E ele dançar significa, consiste em, imóvel, mexer quase imperceptivelmente os pés para os lados, uns poucos centímetros, enquanto os antebraços se sustentam vagamente em
ângulo de mais ou menos 45 graus em relação ao braço. A cara
parada, um meio sorriso. Ele parece uma espécie de morto, um
anticorpo, um anti-homem, quase-corpo, um quase. Incompleto, parece. Mas esse homem que nem parece, esse homem
feio que tem uma mulher feia, que faz um trabalho burocrático
com dedicação mediana, esse homem ainda assim habita um
corpo, e esse corpo é capaz de.
Um dia ele está no banco e há um assalto. Quase não há
violência e tudo se dá sem traumas, parece. A única agressão
é exatamente a ele. Entre uma dúzia de pessoas, entre homens
e mulheres, um ladrão escolhe o homem feio para dar uma
porrada. Sem gravidade, a porrada. Não deixa marca.
No banho, o homem tímido lava a cabeça que levou o cascudo. Olha para baixo e enxerga a mesma magreza de todo
dia. Percorre a distância do banheiro à sala em apenas dois
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dos seus passos curtos. As pernas espetadas para fora do short.
Mais dois dos seus passos acanhados, e ele já está diante da
mulher no sofá, quase encobrindo a televisão. A mulher do
homem feio é feia, mas não é magra nem tímida. Ela olha para
ele e por esse olho ele sabe que ela sabe do cascudo. Ela sabe do
cascudo, sim, mas sabe também que aquele homem feio que
levou o cascudo é o seu homem. No quarto, escuro, sob cobertas — e era quente a noite —, o corpo magro do homem feio e
tímido tem um espasmo, vibra num espasmo só, acolhido entre aquela mulher dele. Acolhido entre. Aquela mulher. Dele.
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