Aplicação de marcadores de ancestralidade no controle genômico

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UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARÁ
INSTITUTO DE CIÊNCIAS BIOLÓGICAS
FACULDADE DE BIOMEDICINA
DÉBORA CHRISTINA RICARDO DE OLIVEIRA FERNANDES
APLICAÇÃO DE MARCADORES DE ANCESTRALIDADE NO
CONTROLE GENÔMICO EM UMA INVESTIGAÇÃO SOBRE
RESPOSTA FARMACOGENÉTICA À ISONIAZIDA EM PACIENTES
PORTADORES DE TUBERCULOSE NO ESTADO DO PARÁ
BELÉM
2010
DÉBORA CHRISTINA RICARDO DE OLIVEIRA FERNANDES
APLICAÇÃO DE MARCADORES DE ANCESTRALIDADE NO
CONTRLOLE GENÔMICO EM UMA INVESTIGAÇÃO SOBRE
RESPOSTA FARMACOGENÉTICA À ISONIAZIDA EM PACIENTES
PORTADORES DE TUBERCULOSE DO ESTADO DO PARÁ
Trabalho de Conclusão de
Curso
apresentado
à
Faculdade de Biomedicina da
Universidade Federal do Pará,
como requisito parcial para a
obtenção do grau de Bacharel
em Biomedicina.
Orientador: Profº Dr Sidney Emanuel Batista dos Santos
BELÉM
2010
DÉBORA CHRISTINA RICARDO DE OLIVEIRA FERNANDES
APLICAÇÃO DE MARCADORES DE ANCESTRALIDADE NO
CONTRLOLE GENÔMICO EM UMA INVESTIGAÇÃO SOBRE
RESPOSTA FARMACOGENÉTICA À ISONIAZIDA EM PACIENTES
PORTADORES DE TUBERCULOSE DO ESTADO DO PARÁ
Trabalho de Conclusão de Curso
apresentado à Faculdade de
Biomedicina
da
Universidade
Federal do Pará, como requisito
parcial para a obtenção do grau de
Bacharel
em
Biomedicina,
aprovado
com
o
conceito
__________________.
Belém (PA), 06 de dezembro de 2010.
Banca Examinadora:
____________________________________
Profº. Dr. Sidney Emanuel Batista dos Santos
ICB – UFPA - (orientador)
_____________________________________
Profª Drª. Andrea Kely Campos Ribeiro dos Santos
ICB-UFPA
_____________________________________
Profº. Dr. Rommel Mario Rodríguez Burbano
ICB-UFPA
______________________________________
Profª Drª Greice de Lemos Cardoso – suplente
ICB-UFPA
i
“Dedico este trabalho a pessoa mais
maravilhosa e amorosa do mundo,
minha mãe, que sempre esteve ao meu
lado e me apoiou em todos os
momentos da minha vida, me dando
muita força e garra para alcançar com
honestidade os meus objetivos.”
ii
AGRADECIMENTO
Agradeço a Deus que me iluminou durante estes quatros anos de caminhada, por
toda força e garra que me forneceu, nos momentos mais difíceis, que não foram poucos,
sempre tive a certeza de que Ele estava ao meu lado.
A todos que contribuíram diretamente ou indiretamente para a realização deste
trabalho.
Imensamente ao meu orientador Profº. Dr. Sidney Santos, por todas as
oportunidades fornecidas nesses anos de faculdade, por todos os apoios, incentivos, por todas
as aulas, por todas as “chamadas de atenção”, tudo ajudou bastante na minha formação. À
Profª Drª. Andrea Santos e ao Profº. Dr. João Guerreiro por incansáveis dúvidas tirada, por
toda atenção e oportunidade de começar o meu primeiro estágio no laboratório.
Ao “meu orientador, meu amigo” Profº. Ms. Ney Santos por tudo que me ajudou,
ensinou, apoiou, incentivou, por todas as explicações (que não foram poucas) e por todas as
aulas. Obrigada por toda sua amizade, carinho e preocupação em todos os momentos de
minha vida. Sua ajuda foi indispensável para a realização deste trabalho.
Ao PIBIC/CNPq pela bolsa de Iniciação Científica, que durante três anos, me deu
apoio financeiro que foi necessário para ajudar no decorrer da minha formação.
A todos os meus amigos do Laboratório Genética Humana e Médica (LGHM) por
sempre estarem comigo, fazendo meus dias mais alegres em um clima agradável e tranqüilo
de muita amizade.
A todos os meus professores e amigos que estiveram ao meu lado nestes longos e
inesquecíveis quatro anos, principalmente as minhas amigas de turma (amigas do G7), por
todos os momentos de estudos, diversão e tristezas que passamos juntas.
À minha grande e unida família! À todas as minhas tias por todos os conselhos,
apoios, carinhos e palavras de incentivos. Por todos os momentos bons e ruins que sempre
passamos juntas, sempre muito unidas e amorosas. E imensamente à minha madrinha por todo
apoio, ajuda, amor e carinho de segunda mãe em todos os momentos de minha vida. A todos
os meus primos-irmãos, que sempre me divertiram muito, obrigada por todo carinho, amor e
companheirismo de todos. Ao meu pai e meu irmão por estarem presentes em minha vida.
Amo muito vocês!
Agradeço em especial à minha MÃE por tudo! Por todo o amor único e
incondicional e por sempre está ao meu lado quando preciso. Obrigada por esta vida, pelos
iii
ensinamentos, pela dedicação quase que exclusiva, pelas brigas e puxões de orelha na hora
certa, pela confiança, força e carinho. É o meu tudo, a minha vida! Amo-te mãezinha!
Aos meus avos por todo carinho, preocupação e atenção comigo. Especialmente
ao meu pai-avô por tudo que realizou em minha vida. É a minha fortaleza o alicerce da nossa
casa, suas palavras calmas e tranqüilas sempre me confortando e apoiando em todos os
momentos. Obrigado por sempre estarem comigo, vocês foram e sempre serão essenciais e
indispensáveis em minha vida. Amo muito vocês!
Agradeço também a um anjo, que nossa família ganhou de presente. Kaique, meu
eterno primo amado, por todos os momentos de alegria, maravilhosos que vivi ao seu lado,
sempre que estava triste, bastava ver um sorriso teu para o meu dia ficar mais alegre.
Ensinaste e despertaste os mais puros e verdadeiros de todos os sentimentos, o amor, a
humildade e a paciência em todos nós. Obrigada por ter existido em minha vida, tenho a
certeza que sempre vai cuidar e me proteger. Pra sempre te amarei.
iv
SUMÁRIO
LISTA DE FIGURAS E TABELAS ...................................................................
vi
LISTA DE ABREVIATURAS, SIGLAS OU SÍMBOLOS ..................................
vii
RESUMO ..........................................................................................................
viii
1. INTRODUÇÃO ..............................................................................................
1
1.1 CONSIDERAÇÕES GERAIS ......................................................................
1
1.2 CLÍNICA DA TUBERCULOSE ....................................................................
3
1.2.1 Tuberculose Pulmonar (TB) ..................................................................
3
1.2.2 Tuberculose Extrapulmonar (TEP) .......................................................
3
1.3 DIAGNÓSTICO DA TUBERCULOSE .........................................................
4
1.4 EPIDEMIOLOGIA DA TUBERCULOSE ......................................................
4
1.5 TRATAMENTO DA TUBERCULOSE ..........................................................
7
1.5.1 Efeitos Adversos aos Fármacos Antituberculose ..............................
8
1.6 FARMACOGENÉTICA ................................................................................
10
1.6.1 Farmacogenética da Isoniazida ............................................................
11
1.7 CONTROLE GENÔMICO DA ANCESTRALIDADE, NOS PACIENTES
PORTADORES DA TUBERCULOSE (INDEL) .................................................
12
2. JUSTIFICATIVA ............................................................................................
17
3. OBJETIVOS ..................................................................................................
19
3.1 OBJETIVO GERAL .....................................................................................
19
3.2 OBJETIVOS ESPECÍFICOS .......................................................................
19
4. MATERIAL E MÉTODOS .............................................................................
20
4.1 AMOSTRA ...................................................................................................
20
4.2 ASPECTOS ÉTICOS ..................................................................................
20
4.3 OBTENÇÃO DAS AMOSTRAS DE SANGUE ............................................
21
4.4 EXTRAÇÃO DE DNA ....................................................................................
21
4.5 QUANTIFICAÇÃO DO DNA .........................................................................
21
4.6 GENOTIPAGEM .............................................................................................
21
4.7 ANÁLISES ESTATÍSTICAS .........................................................................
25
5. RESULTADOS ...................................................................................................
26
5.1 CONTROLE GENÔMICO DA ANCESTRALIDADE EM INDIVÍDUOS COM
E SEM HEPATOTOXICIDADE ................................................................
26
v
5.2 CONTROLE DO EFEITO DA ETNIDADE NOS INDIVÍDUOS COM E SEM
HEPATOTOXICIDADE ...............................................................................
28
6. DISCUSSÃO .......................................................................................................
31
7. CONCLUSÃO ....................................................................................................
35
8. REFERÊNCIAS ..................................................................................................
36
9. DOCUMENTOS ELETRÔNICOS .................................................................
41
vi
LISTA DE FIGURAS E TABELAS
Figura 1 - Taxa de incidência de casos notificados de tuberculose no ano de
2007, nos estados do Brasil ............................................................................
7
Figura 2 - Caminho de metabolização da INH com participação das enzimas
NAT2, CYP2E1 e GSTM1 ...............................................................................
12
Figura 3 - Genotipagem conjunta de 16 marcadores de ancestralidade Européia
investigados …...................................................................................
22
Figura 4 - Genotipagem conjunta de 16 marcadores de ancestralidade Indígena
investigados …....................................................................................
23
Figura 5 - Genotipagem conjunta de 16 marcadores de ancestralidade Africano
investigados ….....................................................................................
24
Figura 6 - Distribuição de estimativas individual. Os vértices do triângulo
representam as populações parentais. Os círculos em cores ao centro do triângulo
descrevem os indivíduos com e sem hepatotoxicidade ...................
27
Figura 7 - Distribuição da ancestralidade do INDEL Europeu no grupo de pacientes
com e sem hepatotoxicidade. Cada grupo é representado por uma caixa, divididos em
parte superior e inferior separados por uma linha mediana, assim a caixa contém em
suas partes metade (50%) dos escores da distribuição. As linhas verticais fora da
caixa, tanto a maior quanto a menor, estão dentro do intervalo de 1,5 . O círculo
aberto
representa
os
valores
extremos
...............................................................................................
30
Tabela 1 - Estimativa da taxa de tuberculose no ano de 2007, em diferentes
países ...............................................................................................................
6
Tabela 2 - Dosagem dos fármacos antituberculose e as reações adversas
mais comuns ...................................................................................................
10
Tabela 3 - Distribuição das estimativas globais de ancestralidade estratificando
pacientes com e sem hepatotoxicidade ....................................
28
Tabela 4 - Modelos de regressão logística controlando o efeito da etnicidade
29
vii
LISTA DE ABREVIATURAS, SIGLAS OU SÍMBOLOS
 - Estima coeficiente
AIDS – Síndrome da imunodeficiência adquirida
ALT - Alanina-aminotransferase
AST - Aspartato-aminotransferase
BAAR - Bacilo álcool-ácido resistentes
CO2 – Gás carbônico
CYP2E1- Citocromo P450 oxidase
CYP3A4 - Citocromo P450 oxidase
df - Grau de liberdade
DNA - Ácido desoxirribonucléico
EDTA - Ácido etilenodiamino tetra-acético
FST - Índice de fixação de Wright
GSTM1 - Glutationa S-transferase M1
HIV - Vírus da Imunodeficiência Humana
HUJBB – Hospital Universitário João de Barros Barreto
IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
IC - Intervalo de Confiança
INDEL - Inserção/deleção
INH – Isoniazida
MDR – Resistentes a múltiplas drogas
MIAs - Marcadores Informativos de Ancestralidade
Mtb – Mycobacterium Tuberculosis
NAT2 - N-acetiltransferase 2
OMS - Organização Mundial da Saúde
OR - Odds ratio (risco relativo)
O2 - Oxigênio
PCR - Reação em cadeia da polimerase
RNA – Ácido ribonucléico
SE - Erro Padrão
TB – Tuberculose
TEB – Tuberculose extrapulmonar
WHO – Organização Mundial da Saúde
viii
RESUMO
A tuberculose é uma das principais causas de morte no mundo, sendo responsável
por cerca de 1,8 milhões de óbitos por ano em diferentes partes do mundo. A
hepatotoxicidade causada pelo uso de medicamentos anti-tuberculose tem a maior taxa de
mortalidade no mundo causada pelo emprego de fármacos nos tratamentos de diferentes
enfermidades. Em investigações do tipo caso-controle os resultados podem ser mal
interpretados em função da existência de uma estratificação populacional não identificada,
entre os dois grupos investigados. Este fato é particularmente importante quando as
investigações são realizadas em populações miscigenadas, como é o caso da maioria da
população brasileira. Neste trabalho foi empregado um painel de 48 Marcadores (bialélicos do
tipo INDEL- Inserção e Deleção de pequenos fragmentos de DNA) Informativos de
Ancestralidade, para estabelecer o controle genômico de ancestralidade, em uma amostra de
135 pacientes portadores de tuberculose do Estado do Pará, todos eles tratados com o fármaco
Isoniazida. Estes pacientes foram agrupados segundo a resposta medicamentosa ao
tratamento: i) Grupo I, formado por pacientes que desenvolveram hepatotoxicidade
medicamentosa (118 indivíduos) e; Grupo II, formado por pacientes que não desenvolveram
hepatotoxicidade medicamentosa, quando condicionados ao mesmo tratamento (17
indivíduos). Todas análises foram realizadas empregando a técnica de PCR multiplex (os 48
sistemas são genotipados em três reações de PCR, seguidas de eletroforese capilar). As
análises estatísticas relativas à subestruturação populacional foram realizadas empregando-se
o programa STRUCTURE V e para a regressão logística foi usado o programa SPSS 14.0. Os
resultados mostraram que o efeito étnico foi significativo em especial para ancestralidade
européia (P=0,034), mostrando que existe subestruturação populacional entre as amostras
analisadas para esta etnia. Quando as três etnias foram incluídas nas análises (Europeu,
Africano e Ameríndio) o efeito dos genes investigados apresentou uma significância com
risco relativo elevado (P=0,023; 95% IC1,2-18,5;OR=4,79). O modelo que incluiu apenas a
variável etnicidade européia foi significativo para a associação dos genes relacionados com a
metabolização do INH com hepatopatia medicamentosa (P=0,046; 95%IC1,02-11,43;
OR=3,41). Concluímos que o controle genômico foi efetivamente importante para a presente
investigação uma vez que foram encontradas diferenças significativas em relação à etnicidade
entre os pacientes com e sem hepatotoxicidade.
Palavras chave: Tuberculose, INDEL e Hepatotoxicidade.
1
1. INTRODUÇÃO
1.1 CONSIDERAÇÕES GERAIS:
A tuberculose (TB) é uma doença infecto-contagiosa causada pelo bacilo
álcool ácido resistente (BAAR) Mycobacterium tuberculosis e transmitida pelas vias
aéreas, podendo acometer tanto o homem quanto os animais. A infecção e
manifestação de sintomas dependem de todos os fatores biológicos intrínsecos e
extrínsecos ao hospedeiro como o tempo de exposição do indivíduo sadio à fonte de
infecção, do índice bacilar desta fonte e da resposta imune do hospedeiro
(Fundação Nacional de Saúde, FUNASA, 2002).
A presença do bacilo da tuberculose no hospedeiro induz a uma reação
tissular que provoca a formação de tubérculos típicos (granulomas celulares
epitelióides), advindo daí o nome da nosologia (Leão, 2004).
A tuberculose é uma das principais causas de morte no mundo, sendo
responsável por cerca de 1,8 milhões de óbitos por ano em diferentes partes do
mundo. A hepatotoxicidade causada pelo uso de medicamentos anti-tuberculose
ocorre em função do emprego de fármacos inadequados nos tratamentos de
diferentes enfermidades (Global tuberculosis control- WHO, Report 2009).
É conhecido o fato de que muitos indivíduos que chegam a ter contato
com o bacilo causador de tuberculose manifestam os sintomas clínicos da doença
(Leão, 2004). Entretanto, estima-se que um terço da população mundial apresenta
formas latentes da tuberculose. Entende-se por forma latente aquela em que o
indivíduo é portador do bacilo, mas não tem manifestação clínica da doença
(Raviglioni, 1995). De forma inversa, em muitos casos os indivíduos chegam a
desenvolver manifestações clínicas graves decorrentes da infecção pelo bacilo da
tuberculose, apresentando uma evolução clínica gradualmente crônica que, se não
tratada convenientemente, pode evoluir para o óbito (Leão, 2004).
Com a epidemia da AIDS, a infecção por Mycobacterium tuberculosis
(Mtb) aumentou o fator de risco de mortalidade em indivíduos co-infectados com HIV
2
(vírus da imunodeficiência humana). Somado a esse cenário, aproximadamente 50
milhões de pessoas são infectadas com cepas de Mtb resistentes a múltiplas drogas
(MDR). Este conjunto de fatores levou a OMS, em 1995, a declarar a TB como uma
emergência sanitária mundial (OMS, 2006).
Apesar de apresentar ocorrência mundial, a distribuição geográfica da
prevalência de tuberculose é grandemente influenciada pela situação sócioeconômica das diferentes áreas do globo. Por este motivo, nos países
desenvolvidos, onde os padrões de vida são elevados e as condições de
saneamento e de saúde pública são controladas a contento, a incidência e a
mortalidade da tuberculose diminuíram de forma significativa. O mesmo não
acontece
em
países
menos
desenvolvidos
(ou
mesmo
em
países
em
desenvolvimento) onde apenas a mortalidade mostrou nítido declínio, em função do
progresso da quimioterapia (administração de fármacos). Nesses países, a condição
inadequada de saneamento básico e de acesso à saúde pública de qualidade não
permitem a redução da taxa de incidência da tuberculose (Guia de vigilância
epidemiológica, 2004).
Existem achados a respeito das manifestações clínicas da tuberculose,
em grupos populacionais antepassados. Relatos arqueológicos encontraram
evidências de tuberculose espinhal em esqueletos que datam de 8000 A.C. e de
5000 A.C encontrados em um cemitério neolítico próximo a Heidelberg, na
Alemanha. A tuberculose foi descrita por diferentes filósofos e pensadores ao longo
da história da humanidade, como Homero (900 A.C.), Heródoto (450 A.C.) e
Hipocrates (400 A.C.).
A hipótese mais corrente da entrada do bacilo da tuberculose no Brasil,
sugere que o mesmo tenha sido introduzido pelos colonizadores e jesuítas, no
período logo após o descobrimento (Sant´Anna, 1985). Até as primeiras décadas do
século XX, a mortalidade de pacientes portadores de tuberculose era muito elevada
por todo o mundo. Na segunda metade desse século, após o advento dos
quimioterápicos, com a introdução da Estreptomicina, em 1940, e da Isoniazida em
1950, foi possível consolidar uma base moderna de quimioterapia, o que reduziu
consideravelmente a mortalidade por tuberculose.
3
Dados retirados de publicações da Organização Mundial de Saúde (World
Health Organization - WHO, 2009) relatam o aparecimento, somente no ano de
2007, de 9,27 milhões de novos casos da doença, em 196 diferentes países. Estimase que neste mesmo ano, a tuberculose foi responsável por cerca de 1,8 milhões de
mortes no mundo. Estima-se, ainda que o número total de pessoas portadoras de
tuberculose chegou próximo de 13,7 milhões, entre os anos de 1990 e 2007(Global
tuberculosis control - WHO, Report 2009).
1.2 CLÍNICA DA TUBERCULOSE
Existem diversos tipos de tuberculose, definidos em função dos diferentes
órgãos que os bacilos afetam, sendo que cada uma das infecções caracterizada por
um grupo de manifestações clínicas que podem ser muito diferentes entre si.
1.2.1 Tuberculose Pulmonar (TB)
A tuberculose pulmonar é a forma mais frequente tanto entre adultos
(90% de todos os casos), quanto nas crianças (75% dos casos). Esta doença
apresenta manifestações clínicas que evoluem gradativamente com o tempo. Em
fases mais avançadas é possível identificar um conjunto de manifestações clínicas
que envolvem desde febre diária, tosse, dor torácica, dispnéia, sudorese, hemólise,
além de emagrecimento, astenia e hipóxia (Leão, 2004).
1.2.2 Tuberculose Extrapulmonar (TEP)
A forma dita extrapulmonar é caracterizada pela infecção que afeta
isoladamente um órgão em particular, sem disseminação para outros órgãos ou
sistemas, apesar da infecção ter como ―porta de entrada‖ quase sempre os pulmões
(Capone et al., 2002).
As
formas
mais
frequêntes
de
tuberculose
extrapulmomar
são:
tuberculose pleural, tuberculose ganglionar, tuberculose meníngea, e tuberculose
osteoarticular. A forma de tuberculose miliar é caracterizada por ser extrapulmonar,
entretanto apresenta disseminação do bacilo pelo organismo (Capone et al., 2002).
4
1.3 DIAGNÓSTICO DA TUBERCULOSE
Além do diagnóstico clínico, diferentes exames laboratoriais podem
auxiliar na identificação da infecção pelo bacilo da tuberculose.
Os principais
exames laboratoriais utilizados para diagnosticar a tuberculose são: bacteriológico;
radiológico;
prova
tuberculínica;
histopatológico;
e
exames
específicos
complementares (FUNASA, 2002).
A pesquisa bacteriológica é considerada fundamental, tanto para o
diagnóstico como para o controle de tratamento. A investigação bacteriológica
envolve, entre outros exames: i) o exame microscópico direto do escarro, que é um
método fundamental e que deve ser empregado em todos os casos de suspeita de
tuberculose pulmonar; ii) cultura para micobactéria. Este tipo de cultura é indicado
para os suspeitos de tuberculose pulmonar persistente, que se mostram negativos
ao exame direto e para o diagnóstico de formas extrapulmonares, como
meningoencefálica, renal, pleural, óssea ou ganglionar. A cultura também é indicada
nos casos de suspeita de resistência bacteriana aos fármacos, seguida do teste de
sensibilidade; iii) exames radiológicos; iv) prova tuberculínica; v) exames
histopatológicos; vi) hemocultura; vii) teste da detecção da produção de CO2; viii)
detecção de consumo de O2; ix) testes sorológicos e x) técnicas de biologia
molecular (FUNASA, 2002).
1.4 EPIDEMIOLOGIA DA TUBERCULOSE
A Organização Mundial de Saúde (2009) apresentou dados sobre a
incidência da tuberculose em 196 países entre os anos de 1990 a 2007. Os dados
apontam para a existência de cerca de 13,7 milhões de casos em todo o mundo.
Destes, mais de 9,6 milhões tinham diagnóstico concluído através do teste de
escarro positivo para BAAR. O número estimado de mortes causadas pela
tuberculose em todo mundo é muito elevado, em torno de dois milhões por ano
(WHO, 2009).
5
De todo o continente americano, o Brasil é o único que faz parte do grupo
de 22 países que concentram 80% dos casos de tuberculose (Tabela 1). Devido ao
elevado número populacional, o Brasil apresenta o maior índice de casos de
tuberculose de toda a América do Sul (114 mil casos em 2007; média de 90 mil
casos novos por ano). Entretanto, seus indicadores relativos são os menores em
relação aos outros países sul-americanos.
Dentre os países do continente americano, o Brasil e o Peru são
responsáveis por cerca de 50% de todos os casos de tuberculose. A média anual de
casos dessa doença em território nacional é de cerca 90 a 95 mil casos, incluindo
casos novos e de recidiva no tratamento. A mortalidade causada pela tuberculose no
Brasil é muito elevada, em torno de 4,5 mil óbitos por ano (Ministério da Saúde,
2007).
O Ministério da Saúde estima que cerca de 50 milhões de brasileiros são
portadores de tuberculose, considerando tanto indivíduos portadores da tuberculose
na forma latente, quanto na forma ativa causadora da doença.
6
Tabela 1: Estimativa da taxa de tuberculose no ano de 2007, em diferentes países.
Fonte: Global tuberculosis control, report 2009 – WHO
A incidência de tuberculose notificada no Brasil, entre os estados
brasileiros demonstra uma distribuição irregular da doença mesmo dentro das
diferentes regiões geográficas (Figura 1). A região Norte apresenta maior taxa de
incidência da tuberculose, seguido das regiões Sudeste, Nordeste, Sul e CentroOeste.
Especificamente na região Norte, o Ministério da Saúde registrou durante
o ano de 2007 um total de 45 novos casos para cada 100.000 habitantes. Desses, o
estado do Pará manteve a taxa de incidência da região: de 45,7 novos casos por
100.000 habitantes. A região Norte apresenta taxa de incidência de tuberculose
superior a média brasileira que é de 38,2 para cada 100.000 habitantes; este fato
evidencia a importância da implementação de políticas de saúde publica nesta
região, visando conter o avanço da tuberculose.
7
Figura 1: Taxa de incidência de casos notificados de tuberculose no ano de 2007, nos estados do
Brasil. Fonte: MS / SVS / SINAN e IBGE, 2009.
1.5 TRATAMENTO DA TUBERCULOSE
O tratamento atual da tuberculose comumente empregado na rede de
saúde pública do Brasil envolve ação de seis diferentes tipos de fármacos:
Estreptomicina (S), Rifampicina (R), Isoniazida (H), Etambutol (E), Pirazinamida (Z) e
Etionamida (Et) (Ministério da Saúde, 2009).
Os fármacos considerados de primeira linha no combate à tuberculose,
são: Isoniazida, Rifampicina, Pirazinamida e Etambutol, enquanto que os fármacos
de segunda linha são Estreptomicina e Etionamida. Os efeitos positivos da
combinação de fármacos para o tratamento da tuberculose são fundamentados na
biologia dos agentes infecciosos. Esses bacilos são seres de aerobiose estrita, com
8
crescimento lento e proporção variada de populações mutantes, que podem se
multiplicar em um período de até 20 horas. Nessa situação, a combinação dos
fármacos administrados é necessária para evitar o surgimento de colônias de
bactérias mutantes, resistentes à ação de um fármaco unitário (Ministério da Saúde,
2009).
O Ministério da Saúde (2009) estipulou diversos esquemas de tratamento
que padronizam os fármacos e as dosagens utilizadas em cada fase de tratamento
da tuberculose, em toda a rede pública do país.
Em todos os esquemas de tratamento da tuberculose devem-se levar em
consideração os grupos de alto risco ao desenvolvimento de toxicidade. Este grupo
é constituído por pessoas com mais de 60 anos, alcoólatras, pacientes soro
positivos para o HIV, indivíduos que fazem uso concomitante de fármacos
anticonvulsivos e por pessoas que manifestam alterações hepáticas, independente
da causa dessas alterações (Ministério da Saúde, 2009).
1.5.1
Efeitos Adversos aos Fármacos Antituberculose
A WHO (2009) define reação adversa a medicamentos como: ―qualquer
efeito prejudicial ou indesejável, não intencional, que aparece após a administração
de um medicamento em doses normalmente utilizadas no homem para a profilaxia, o
diagnóstico e o tratamento de uma enfermidade‖.
É possível identificar na literatura especializada uma série de descrições
pormenorizadas a respeito dos efeitos adversos da administração de medicamentos
de combate à tuberculose (Peloquin, 2002; 2004). O aparecimento de diferentes
efeitos adversos e a intensidade das manifestações desses efeitos pode sofrer
variações de indivíduo para indivíduo, em decorrência da administração de
diferentes tipos de fármacos. Fontes da FUNASA (2002) indicam que os efeitos
adversos mais brandos ao tratamento da tuberculose ocorrem entre 5 e 20% dos
pacientes enquanto que sintomas mais graves dos efeitos ocorrem entre 2 e 8% dos
pacientes que se submetem a um dos esquemas de tratamento.
9
Dentre os efeitos adversos mais graves destaca-se a hepatotoxicidade
caracterizada por danos no fígado, causados em geral pela ação indesejada de
medicamentos. Segundo o Guia da Vigilância Epidemiológica de 2004 do Ministério
da Saúde, a hepatotoxicidade é caracterizada por critérios clínicos, tais como:
náuseas, vômito, dor abdominal ou icterícia; e por alterações nas provas hepáticas
AST (Aspartato-aminotransferase), ALT (Alanina-aminotransferase), Bilirrubina total
e Creatinina.
Em todo o mundo, a toxicidade causada pelo tratamento com fármacos
antituberculose está associada com elevadas taxas de morbidade, mortalidade e,
além disso, está envolvida com o aumento de custos durante o tratamento
(Ingelman-Sundberg, 2001; Lundkvist, 2004; Teixeira, 2007).
A Isoniazida (INH) é considerada um medicamento de primeira linha no
combate a tuberculose. Este fármaco tem ação sobre a síntese de lipídios, de ácidos
nucléicos e de ácido micólico (ácido que está presente na parede celular das
micobactérias, de uma maneira geral) e que pode interferir no processo de glicólise
da bactéria. A atividade bacteriostática atua impedindo a divisão celular das
bactérias durante a multiplicação das mesmas e a atividade bactericida tem ação
somente sobre células em fase de crescimento ativo (www.chemistrydaily.com
(2009)).
A Isoniazida é bem absorvida através do trato digestivo e excretada na
urina após a inativação pelo fígado. A meia vida da INH é longa logo após o
nascimento, mas é reduzida logo na primeira infância. No adulto, a meia vida do
fármaco é curta, entre duas a cinco horas.
A Isoniazida foi isolada pela primeira vez em 1912. Seu efeito
bacteriostático contra a Mycobacterium tuberculosis foi descoberto mais tarde, em
1952. Ela é ativa contra o bacilo tanto no meio intracelular como no meio
extracelular. No tratamento de pacientes com tuberculose, se a Isoniazida for
administrada isoladamente pode levar ao desenvolvimento de resistência ao
fármaco, de modo que ela deve ser sempre administrada em conjunto com outros
medicamentos (Rang et al., 2001).
10
Os efeitos adversos relatados em diferentes publicações, associados com
o uso da INH são: a hepatotoxicidade, erupções cutâneas alérgicas, febre,
alterações hematológicas, sintomas artríticos, vasculite, alguns tipos de câncer e
problemas no sistema nervoso central e periférico (Kita et al., 2001; Shakya et al.,
2005; Shaaf et al., 2005; Shimizu et al., 2005; Upton et al., 2001; Sandy et al., 2005;
Fernandes et al., 2003; Donald et al., 2004).
Uma das formas mais recorrentes das reações adversas por efeito da
Isoniazida é a hepatotoxicidade, caracterizada por lesões hepáticas que se
manifestam na forma de hepatite ou anormalidades do fígado . Portadores de HIV,
tratados com Isoniazida contra a tuberculose, apresentam comumente uma reação
de hipersensibilidade de pele (Fernandes et al., 2003; Shakya et al.,2005).
Estima-se que cerca de 5% dos pacientes tratados com Isoniazida
apresentem efeitos adversos ao tratamento. Na Tabela 2 está apresentada de forma
resumida a dosagem utilizada dos diferentes fármacos, normalmente empregados
para o tratamento de tuberculose, bem como alguns de seus efeitos adversos.
Tabela 2: Dosagem dos fármacos antituberculose e as reações adversas mais
comuns.
Fonte: Chan & Iseman, 2002.
1.6 FARMACOGENÉTICA
A farmacogenética estuda o efeito individualizado de variações genéticas
em resposta aos medicamentos. A provável origem do termo farmacogenética data
11
de 1902, com o pesquisador Archibald Garrod, que realizou estudos sobre a
metabolização de diversos fármacos (Meyer, 2004). Entretanto, somente no ano de
1950 foi possível determinar quais variações genéticas estavam associadas a
diferentes respostas a medicamentos.
Desde o início, em meados do século passado, o objetivo das pesquisas
em farmacogenética era buscar uma terapia individualizada para maximizar a
eficácia dos medicamentos e minimizar os efeitos colaterais associados à utilização
destes. Mais recentemente, uma nova linha de ação tem sido desenvolvida, a
farmacogenômica, a qual considera que o efeito farmacológico de um fármaco
depende da interação de diferentes genes envolvidos na metabolização deste
medicamento (Weinshilboum & Wang, 2004).
1.6.1 Farmacogenética da Isoniazida
O mecanismo de metabolização da INH envolve principalmente as
enzimas: N-acetiltransferase 2 (NAT2), que participa com processos de acetilação;
Citocromo P450 oxidase (CYP2E1), envolvido no mecanismo de oxidação e a
Glutationa S-transferase M1 (GSTM1), que faz a detoxificação deste fármaco (Figura
2).
12
Figura 2: Caminho de metabolização da INH com participação das enzimas NAT2, CYP2E1 e GSTM.
Fonte: Modificado de Roy et al., 2008.
Diferentes investigações na literatura indicam que o desenvolvimento de
hepatotoxicidade medicamentosa causada por administração da Isoniazida em
pacientes com tuberculose estão associadas às variações genéticas nos genes
NAT2 (Upton et al., 2001; Kita et al., 2001; Fernandez – Villar et al., 2003; Sandy et
al., 2005; Donald et al., 2004; Huang et al., 2002); CYP2E1 (Roy et al., 2008; Huang
et al., 2003; Fukino et al., 2008; Cho et al., 2007) e GSTM1 (Roy et al., 2008;
Fukino et al., 2008; Sun et al., 2008).
Segundo Roy et.al. (2008), apesar de os polimorfismos presentes no gene
NAT2 serem os mais extensivamente investigados como candidatos ideais para
explicar o desenvolvimento da hepatopatia medicamentosa, as variantes genéticas
nos genes CYP2E1 e GSTM1 podem contribuir efetivamente para o aparecimento
desta manifestação clínica.
13
1.7 CONTROLE
GENÔMICO
DA
ANCESTRALIDADE,
NOS
PACIENTES
PORTADORES DA TUBERCULOSE (INDEL).
As principais causas de morbidez e de mortalidade humana no mundo
podem ser atribuídas às doenças prevalentes em sociedades contemporâneas,
como as doenças cardiovasculares, câncer, tuberculose, diabetes, obesidade,
doenças psiquiátricas e doenças inflamatórias. Todas essas originadas pela
combinação de múltiplos fatores ambientais e genéticos. A descoberta de
características genéticas associadas a essas doenças pode permitir o avanço de
novos conhecimentos a respeito da patogênese, do diagnóstico e do tratamento das
mesmas (Santos et.al., 2009).
Nos últimos anos, várias pesquisas têm obtido sucesso na tentativa de
identificar variantes (formas alélicas) responsáveis por doenças monogênicas,
atribuídas a um único locus, a partir da investigação de regiões cromossômicas
identificadas previamente em estudos de ligação, em populações miscigenadas. Por
outro lado, o sucesso desse tipo de investigação ocorre em uma taxa menor, quando
se tenta localizar variantes genéticas responsáveis por doenças complexas de
herança quantitativa, possivelmente em função do fato de que cada variante
contribui apenas com uma pequena parte para o risco do desenvolvimento dessas
doenças (The International Hap Map Consortium, 2003 – www.hapmap.org).
A identificação de genes e de suas formas alternativas, responsáveis por
efeitos adversos em resposta aos fármacos, pode ser muito útil no estabelecimento
de políticas de saúde publica e no desenho e interpretação de ensaios clínicos. A
existência de diferenças interétnicas em relação a variabilidade encontrada em
genes envolvidos na resposta aos fármacos, pode ser um fator importante para a
interpretação errônea dos resultados. Em investigações do tipo caso/controle, os
resultados podem ser mal interpretados em função da existência de uma
estratificação populacional, não identificada, entre os dois grupos investigados. Este
fato é particularmente importante quando as investigações são realizadas em
populações miscigenadas em um passado relativamente recente, como é o caso da
maioria da população brasileira (Santos et.al., 2009).
14
Apesar da notória importância desse tipo de investigação, os resultados
de associações entre marcadores genéticos específicos, formas alélicas variantes e
determinados traços populacionais, doenças complexas, por exemplo, podem ser
mal interpretados em função da existência de uma subestruturação populacional ou
estratificação populacional, não identificada na população investigada (Edwin et al.,
2000; Köhler & Bickeböller, 2005; Tang et al., 2005).
Uma das formas mais eficientes de controle de fatores que podem gerar
associações espúrias em estudos de traços qualitativos e quantitativos, como o caso
da estratificação populacional, é o emprego de análises centradas na investigação
de familiares dos portadores do traço investigado. Com base nesta premissa, muitos
revisores e editores de revistas exigem, para a publicação, que associações
genéticas identificadas em estudos populacionais do tipo caso-controle, sejam
confirmadas em investigações envolvendo familiares dos portadores do traço.
(Thomson, 1995; Allison, 1997).
Na prática, as investigações baseadas em grupos de familiares têm
limitações muito sérias: i) amostras com um número significativo de pacientes são
difíceis de reunir, especialmente entre aquelas doenças de manifestação tardia; ii)
estas amostras permitem informações menos precisas sobre possíveis associações,
quando comparadas às investigações baseadas em caso-controle, com amostra de
tamanho equivalente (Morton & Collins, 1998); iii) embora irmandades possam ser
empregadas como controles, quando os pais não estiverem disponíveis , este tipo
de investigação é ainda mais ineficiente, do ponto de vista estatístico (Spielman &
Ewens, 1998).
Deste modo, com relação ao custo beneficio, pode ser muito mais
parcimonioso investir tempo e recursos, humanos e patrimoniais, na tentativa de
controlar possíveis efeitos ligados à estratificação populacional do que escolher um
tipo de investigação muito mais laboriosa e que, além disso, podem envolver
objeções de enfoque ético, casos específicos do envolvimento de parentes de
afetados (Shriver et al., 2003).
15
Em geral, a estratificação populacional existe quando a população em
questão é constituída pela mistura de diferentes grupos de populações, europeus e
africanos, por exemplo, e que normalmente são denominadas de subpopulações e
quando a proporção de mistura, definida como a proporção do genoma que teve
origem em cada subpopulação, varia entre indivíduos (Shriver et al., 2003).
A estratificação discreta de subpopulações é um caso especial dentro
desse modelo geral, no qual a proporção de mistura de cada indivíduo é
especificada com valores entre 0 e 1. Se o risco de desenvolver a doença, o traço
sob investigação varia com a proporção da mistura, associações espúrias podem ser
encontradas com o genótipo de qualquer locus, desde que as frequências alélicas
desse locus específico também sejam diferentes entre as subpopulações. Um
exemplo recente de associação espúria, foi o da associação do câncer de próstata
com o polimorfismo CYP3A4 entre negros americanos (Kittles et al., 2002).
De forma resumida, o princípio que rege as análises de subestruturação
populacional diz que em uma população na qual proporções de mistura variam entre
os indivíduos que a compõem e na qual as frequências alélicas de um determinado
marcador variam entre as diferentes subpopulações ancestrais, poderá haver
associações entre alelos de loci não ligados, isto é, alelos não ligados tendem a
serem herdados conjuntamente muito mais em função da ancestralidade. Esta é a
base do que se convencionou chamar de associação decorrente de subestruturação
(Pritchard et al., 2000; Pritchard e Donnelly, 2001).
Diversas publicações mais recentes (Hoggart et al., 2003; Montana e
Pritchhard, 2004; McKeigue, 2005) tem demonstrado que já estão disponíveis várias
metodologias, tanto métodos laboratoriais como estatísticos que permitem mensurar
com precisão a proporção de mistura individual e, por conseguinte, contornar a
questão da subestruturação populacional nos diversos experimentos do tipo casocontrole. O princípio geral que rege essas análises é que se as subpopulações
ancestrais que formaram a população total são conhecidas; se as frequências
alélicas dentro de cada uma subpopulação são conhecidas, dentre um painel de loci
marcadores de ancestralidade, então a proporção de mistura de cada indivíduo pode
16
ser mensurada a partir dos genótipos apresentados (Elston, 1971; Chakraborty,
1975).
Desse modo, com uma amostra de indivíduos genotipados para vários
loci de marcadores de ancestralidade é possível estimar a proporção de mistura de
cada indivíduo e com isso evitar os efeitos da, assim denominada, associação
decorrente de subestruturação populacional, no mesmo tempo em que permite
obter-se uma estimativa muito mais acurada do processo de miscigenação que
ocorreu naquela população sobre investigação.
Desta maneira é importante empregar tecnologias capazes de realizar
um controle genômico entre casos e controles, quantificando individualmente a
proporção de mistura entre as populações ancestrais, logo corrigir o provável efeito
do subestruturamento populacional na amostra investigada.
Uma ferramenta importante que pode ser empregada nestas análises
são os Marcadores Informativos de Ancestralidade (MIAs), também chamados de
―marcadores população-específicos‖ (Parra et al., 2003).
Para atingir o objetivo proposto, o presente trabalho utilizará 48 INDEL
(inserção/deleção)
marcadores
informativos
de
ancestralidade
previamente
desenvolvidos capazes de se estimar com precisão a mistura individual e global
interétnica em populações miscigenadas com diferentes grupos étnicos. Estes
marcadores de ancestralidade foram desenvolvidos para este fim e estão descritos
no artigo de Santos et al., 2009.
17
2. JUSTIFICATIVA
Diversos estudos genéticos no mundo adotam a metodologia caso –
controle para se investigar se uma variante genética pode estar associada a uma
determinada doença (Hoggart et al., 2003; Montana & Pritchhard, 2004; McKeigue,
2005). Esse tipo de análise apresenta grande importância na investigação de uma
patologia seja por predizer um resultado (estudos de susceptibilidade genética) ou
por ajudar a definir melhor qual terapia utilizar em cada paciente portador de
determinada patologia (estudos de farmacogenética) (Suarez-Kutz, 2005).
O desenvolvimento de pesquisas em farmacogenética iniciará uma nova
era na medicina. Estabelecendo o conceito de uma terapia individualizada, onde o
fármaco certo é administrado na dose certa para o paciente correto, pois a redução
dos efeitos adversos além de serem alcançadas pela seleção do melhor fármaco e a
melhor dose para aqueles pacientes que têm metabolização deficiente, poderá ainda
abrir as portas para a pesquisa e o desenvolvimento de novos alvos terapêuticos,
que não sejam metabolizados por determinada enzima ou Via (Fiegenbaum & Hutz,
2006).
Esse tipo de investigação está sujeita a erros se não forem controladas
todas as variáveis relativas ao modelo de comparação entre casos e controle. Esse
fato é importante quando essas análises são realizadas em populações
miscigenedas, como é o caso da maioria da população brasileira (Hoggart et al.,
2003; McKeigue, 2005). Neste contexto se enquadra a variação individual de
ancestralidade.
O controle genômico é particularmente importante nas amostras
investigadas, pois foi estimado na população do Norte brasileiro um elevado grau de
subestruturamento populacional que justifica a utilização deste controle em estudos
de associação com doenças (Santos et.al., 2009).
Uma
publicação
de
Santos
(Comunicação
Pessoal)
submetida
recentemente avaliou o efeito da associação dos genes NAT2/CYP2E1 para o
desenvolvimento de hepatotoxicidade em amostras de tuberculose da região Norte
18
do Brasil. O efeito conjunto de ambos os genes observado foi significativo
(P=0,0121) na terapêutica com INH.
O presente projeto pretende investigar se a utilização dos Marcadores
Informativos de Ancestralidade são influentes no estudo farmacogenético da
isoniazida.
O presente estudo torna-se relevante para evidenciar a importância de se
controlar o efeito da subestruturação populacional em investigações do tipo caso –
controle principalmente na região norte do Brasil.
Deve-se destacar que o presente projeto é inovador sobre o ponto de
vista que pretende controlar o efeito da ancestralidade genômica em estudos de
associação entre genes e doenças em populações miscigenadas brasileiras (Santos
et.al., 2009).
19
3. OBJETIVOS
3.1 OBJETIVO GERAL:
Aplicar um conjunto multiplex de marcadores de ancestralidade já
previamente desenvolvido
em um estudo de farmacogenética da isoniazida no
estado do Pará. Utilizar os marcadores INDEL como método de controle genômico
para o pareamento de ancestralidade individual entre caso-controle em estudo de
associação de genes candidatos a doenças complexas (farmacogenética).
3.2 OBJETIVOS ESPECÍFICOS:
- Estimar a ancestralidade global dos pacientes portadores de
tuberculose.
- Estimar a ancestralidade individual de cada paciente participante da
investigação.
- Utilizar as ancestralidades individuais obtidas para controlar o efeito
desta na associação dos genes NAT2 e CYP2E1 para a hepatotoxicidade.
- Aplicação desse conjunto multiplex de polimorfismos do tipo INDEL para
realizar o controle genômico de ancestralidade individual para estudos caso-controle
em projetos de farmacogenética da tuberculose, na tentativa de eliminar possíveis
influências de subestruturação populacional sobre os resultados com polimorfismos
genéticos já identificados.
20
4. MATERIAL E MÉTODOS
4.1 AMOSTRA
Neste trabalho empregou-se um painel de 48 Marcadores (bialélicos do
tipo INDEL- Inserção e Deleção de pequenos fragmentos de DNA) Informativos de
Ancestralidade, para estabelecer o controle genômico de ancestralidade, em uma
amostra de 135 pacientes diagnosticados com tuberculose, residentes no Estado do
Pára, Brasil, atendidos no Hospital Universitário João de Barros Barreto (HUJBB)
durante o período de 2006 a 2008, todos eles tratados com o fármaco Isoniazida.
Os indivíduos foram selecionados depois da confirmação da infecção,
realizada
através
dos
exames
clínicos,
bacteriológico,
radiológico,
prova
tuberculínica, histopatológico e específicos complementares (FUNASA, 2002). Os
dados clínicos foram obtidos por informações de prontuário.
Estes pacientes foram agrupados segundo a resposta medicamentosa ao
tratamento: i) Grupo I, formado por pacientes que desenvolveram hepatotoxicidade
medicamentosa (17 indivíduos) e; Grupo II, formado por pacientes que não
desenvolveram hepatotoxicidade medicamentosa, quando condicionados ao mesmo
tratamento (118 indivíduos).
Ambas as amostras foram controladas por diferentes fatores que são
considerados de risco à toxicidade de drogas, como idade elevada, alcoolistas,
infecção pelo HIV, uso concomitantes de drogas (principalmente anticonvulsivantes)
e hepatopatias crônicas.
4.2 ASPECTOS ÉTICOS
Os indivíduos foram devidamente esclarecidos a respeito da pesquisa e
assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, o qual permite o uso de
suas alíquotas de sangue e de seus dados clínicos, em nível de prontuário. O
presente estudo foi aprovado no Comitê de Ética do Hospital Universitário João de
Barros Barreto sob protocolo nº 350507.
21
4.3 OBTENÇÃO DAS AMOSTRAS DE SANGUE
De cada indivíduo foram obtidos 5mL de sangue venoso colhido de veia
periférica , em sistema de coleta a vácuo, utilizando EDTA como anticoagulante.
4.4 EXTRAÇÃO DE DNA
A extração de DNA foi feita segundo método descrito por Sambrook et al.,
(1989).
4.5 QUANTIFICAÇÃO DO DNA
A
determinação
da
concentração
do
DNA
foi
realizada
em
espectrofotômetro GeneQuant RNA/DNA (Pharmacia Biotech).
4.6 GENOTIPAGEM
Todas análises foram realizadas empregando a técnica de PCR multiplex
(os 48 sistemas são genotipados em três reações de PCR, seguidas de eletroforese
capilar) como descrito anteriormente por Santos et al. (2009).
Os 48 marcadores (Figuras 3, 4 e 5) foram definidos como informativos de
ancestralidades por apresentarem as seguintes características: serem distribuídos
ao longo dos cromossomos (autossômicos) e apresentarem valores médios de delta
e FST acima 0,36 e 0,31 respectivamente para as populações ancestrais
(ameríndios, europeus e africanos) (Santos et.al., 2009).
22
Figura 3: Genotipagem conjunta de 16 marcadores de ancestralidade européia investigados.
23
Figura 4: Genotipagem conjunta de 16 marcadores de ancestralidade indígena investigados.
24
Figura 5: Genotipagem conjunta de 16 marcadores de ancestralidade africana investigados.
25
4.7 ANÁLISES ESTATÍSTICAS
Análises relativas à subestruturação populacional foram realizadas
empregando-se o programa STRUCTURE V (Pritchard et al., 2000).
A análise estatística empregou também a regressão logística usando o
programa SPSS 14.0 (SPSS Ins. Chicargo, IL, USA). A análise de regressão
logística usou como variáveis dependentes a presença de hepatotoxicidade, e como
variáveis independentes foram empregadas o HIV, tabagismo, etilismo, antiretroviral,
comorbidade e ancestralidade, fatores estes que podem estar influenciando na
toxicidade ao medicamento INH.
26
5. RESULTADOS
Foram
analisados
135
pacientes
portadores
do
Mycobacterium
tuberculosis, todos eles tratados com um protocolo que inclui INH. Destes,
dezessete indivíduos (12,59% dos pacientes) apresentaram um quadro clínico de
hepatotoxicidade medicamentosa, caracterizados por critérios especificados no Guia
de Vigilância Epidemiológica de 2009, do Ministério da Saúde do Brasil, que
incluem: náuseas, vômitos, dor abdominal, icterícia e alterações das provas
hepáticas: Aspartato-aminotransferase (AST), Alanina-aminotransferase (ALT),
Bilirrubina total e Creatinina.
Os pacientes foram analisados com os 48 Marcadores Informativos de
Ancestralidade para se determinar com precisão a mistura individual e global
interétnica (controle genômico) na população, fornecendo subsídios para estimar
através de análises estatísticas (regressão logística) o controle do efeito da
etnicidade nos grupos analisados (pacientes com e sem hepatotoxicidade).
27
5.1 CONTROLE GENÔMICO DA ANCESTRALIDADE EM INDIVÍDUOS COM E
SEM HEPATOTOXICIDADE.
Figura 6: Distribuição de estimativa individual. Os vértices do triângulo representam as populações
parentais. Os círculos em cores ao centro do triângulo descrevem os indivíduos com e sem
hepatotoxicidade.
A Figura 6 foi obtida das análises de ancestralidade individual do
programa STRUCTURE V (Pritchard
evidenciam
et al., 2000). Os vértices do triângulo
as populações ancestrais (Europeus,
Africanos e Ameríndios)
previamente genotipadas (Santos et.al., 2009). As amostras de pacientes portadores
de tuberculose estratificados segundo resposta terapêutica ao INH (presença de
hepatotoxicidade) estão centralizadas no triângulo.
O
grupo
de
pacientes
sem
hepatotoxicidade
(N=118)
estão
representados na cor amarela e com hepatotoxicidade (N=17) estão na cor roxa. As
análises individuais de ancestralidade forneceram subsídios para as estimativas
globais de mistura interétinica nos grupos de pacientes e para a análise de
regressão logística (usando a etinicidade como variável dependente).
28
Tabela 3: Distribuição das estimativas globais de ancestralidade estratificando
pacientes com e sem hepatotoxicidade
Etnia
Total
N=135
Sem Hepatotoxicidade
Com Hepatotoxicidade
N=118
N=17
1
37,4%
40,6%
34,2%
0,034
1
27,3%
25,3%
29,3%
0,351
1
35,3%
34,1%
36,5%
0,416
EUROPEU
AFRICANO
INDÍGENA
Teste Man-Whitney
P
1
A Tabela 3 evidencia os valores de distribuição global de mistura
interética nos grupos de pacientes com e sem hepatotoxicidade. Os resultados da
análise de ancestralidade para todos os 135 pacientes portadores de tuberculose
foram: 37,4% de Europeus, 27,3% de Africanos e 35,3% de Indígenas.
Os resultados para o grupo de hepatopatas foram: 34,2% de
ancestralidade
Européia,
29,3%
de
ancestralidade
Africana
e
36,5%
de
ancestralidade Indígena. No grupo sem hepatotoxicidade os valores estimados
foram: 40,6% de ancestralidade Européia, 25,3% de ancestralidade Africana e
34,1% de ancestralidade Indígena.
As ancestralidades africanas e ameríndias não foram significativamente
diferentes entre os grupos de pacientes tratados com INH (P>0,05). O efeito étnico
foi significativo especificamente para ancestralidade européia (P=0,034), mostrando
que existe subestruturação populacional entre as amostras para esta etnia.
29
5.2 CONTROLE DO EFEITO DA ETINIDADE NOS INDIVÍDUOS COM E SEM
HEPATOTOXICIDADE.
Tabela 4: Modelos de regressão logística controlando o efeito da etnicidade .
Variável

S.E
Wald
DF
P
OR(95%IC)
SEM ETNIAS
1,1803
0,6088
3,7585
1
0,05
3,2553(0,9871-10,7350)
AFR/ IND/ EUR
1,5680
0,6900
5,1633
1
0,0231
4,7969(1,2405-18,5491)
AFRICANA
1,1823
0,6094
3,7639
1
0,0524
3,2618(0,9880-10,7692)
INDÍGENA
1,1831
0,6090
3,7736
1
0,0521
3,2644(0,9895-10,7699)
EUROPÉIA
1,2286
0,6166
3,9697
1
0,0463
3,4163(1,0202-11,4398)
 Estima coeficiente; IC, Intervalo de Confiança; df, O grau de liberdade, OR, odds ratio ; SE , erro
padrão
A Tabela 4 resume os resultados observados na análise de risco relativo
para os diferentes modelos de regressão logística. Os modelos estimados utilizaram
como variável dependente a hepatotoxicidade. As variáveis independentes utilizadas
em todas as análises foram: tabagismo, etilismo, e comorbidade.
A variável independente etnicidade foi excluída no primeiro modelo, o que
revelou não ser significativo o efeito dos genes NAT2 e CYP2E1 para o
desenvolvimento de hepatotoxicidade (P=0,052). Quando as três etnias foram
incluídas nas análises (Europeu, Africano e Ameríndio) o efeito dos genes
investigados apresentou uma significância com risco relativo elevado (P=0,023; 95%
IC1,2-18,5;OR=4,79).
A variável etnicidade foi desmembrada de maneira a fazer as análises
separadamente de cada grupo étnico. As análises revelaram que as etnias africana
e indígena não indicaram um efeito significativo de associação dos genes
investigados (P>0,05). O modelo que incluiu a variável etnicidade européia foi
significativo para a associação dos genes relacionados com a metabolização do INH
com hepatopatia medicamentosa (P=0,046; 95%IC1,02-11,43; OR=3,41).
30
Figura 7: Distribuição da ancestralidade do INDEL Europeu no grupo de pacientes com e sem
hepatotoxicidade. Cada grupo é representado por uma caixa, divididos em parte superior e inferior
separados por uma linha mediana, assim a caixa contém em suas partes metade (50%) dos escores
da distribuição. As linhas verticais fora da caixa, tanto a maior quanto a menor, estão dentro do
intervalo de 1,5. O círculo aberto representa os valores extremos.
A Figura 7 exemplifica a distribuição dos grupos com e sem
hepatotoxicidade em função da etnicidade européia. Os resultados mostraram que a
ancestralidade Européia foi
mais
frequente no grupo de pacientes sem
hepatotocixidade, mostrando diferenças significativas (Man- Whitney teste P=0,034).
31
6. DISCUSSÃO
A presente investigação utilizou um painel de 48 marcadores de
ancestralidade, capaz de identificar com precisão e menor erro estatístico o
subestruturamento populacional em grupos miscigenados.
Diferentemente
de
estudos
anteriores,
que
empregavam
SNPs
informativos de ancestralidade (Shriver et al., 2003, Yang et al., 2005; Reiner et al.,
2005; Benn-Torres et al. 2008; Halder et al., 2008), todos os marcadores utilizados
nesta investigação são inserções/deleções de pequenos fragmentos de DNA
(INDEL). Uma abordagem semelhante desenvolvida por Bastos Rodrigues et.al.
(2006), utilizou 40 polimorfismos INDELs, com o propósito de fazer inferências sobre
estrutura genética em populações humanas. Entretanto, nesse trabalho optou-se por
utilizar marcadores de elevada heterozigosidade entre populações européias, em
vez de empregar marcadores informativos de ancestralidade como foram utilizados
na presente investigação.
Foram utilizados números de marcadores compatíveis com os estimado
na literatura, que pudessem fornecer informações no processo de identificação de
populações geograficamente distintas (Turakulov & Easteal, 2003; Bamshad et al.,
2003; Bastos-Rodrigues et al., 2006). A capacidade do presente painel de estimar
ancestralidade é similar a encontrada em outros trabalhos (Yang et. al., 2005; Halder
et al., 2008; Shriver et al., 2003; Reiner et al., 2005; Benn-Torres et al., 2008).
O controle da ancestralidade foi de fundamental importância para
consolidar as análises de associação de polimorfismos genéticos (gene NAT2 e
CYP2E1) no desenvolvimento de hepatotoxicidade medicamentosa ao INH.
Em relação ao Brasil este modelo de investigação se torna mais
importante em função do elevado grau de miscigenação da população Brasileira.
(Suarez-Kutz, 2005; Callegari-Jacques et al., 2003). Em um estudo realizado por
Santos et.al. (2009) foi possível identificar na população de Belém-PA, um elevado
32
grau de subestruturamento populacional que justifica realizar o controle genômico de
ancestralidade em estudos de associação nessa população.
Diferentes trabalhos no mundo relatam a importância de se controlar
ancestralidade em estudos de associação de uma variante alélica em relação a uma
determinada patologia (Zembrzuski et.al., 2006; Keene et.al., 2008; Hinds et.al.,
2004).
De igual forma, estudos de farmacogenética devem estabelecer
metodologias para evitar inferências errôneas decorrentes de substruturação
populacional (Suarez-Kutz, 2005). Principalmente no que se refere á grupos
miscigenados como é o caso das populações brasileiras, que apresentam uma
elevada flutuação em genes de resposta farmacogenética (Suarez-Kutz, 2005).
Comparando nossos resultados obtidos através da estimativa global da
ancestralidade média para o total de pacientes portadores de tuberculose entre
dados obtidos de um artigo de Santos et al.,2009, os dados obtidos neste estudo
revelaram uma contribuição significativamente diferente (P=0,002) entre as
ancestralidades para indivíduos portadores de tuberculose e a população de BelémPA, respectivamente: Européia (37,4% X 61,4%), Africanos (27,3% X 11,7%) e
Indígenas (35,3% X 26,9%).
Esses resultados evidenciaram uma perda de contribuição Européia e
uma elevação das ancestralidades Ameríndias e Africanas para a o grupo de
indivíduos portadores de tuberculose em relação às estimativas encontradas para
população norte do Brasil (Santos et.al., 2009).
O modelo proposto para se explicar este evento observado seria de uma
seleção direcional para ancestralidades ameríndias e africanas com base na
patologia da tuberculose. Dessa forma observou-se uma elevação da contribuição
ameríndia e africana para indivíduos portadores de Mycobacterium tuberculosis em
função de características social e econômica vinculada a esta doença.
33
Segundo o Guia de vigilância epidemiológica (2004), apesar de
apresentar ocorrência mundial, a distribuição geográfica da prevalência de
tuberculose é grandemente influenciada pela situação sócio-econômica das
diferentes áreas do globo. Em países menos desenvolvidos (ou mesmo em países
em desenvolvimento) a condição inadequada de saneamento básico e de acesso à
saúde pública de qualidade não permitem a redução da taxa de incidência da
tuberculose. Dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) em 2003
indicaram uma disparidade da pobreza com relação às populações Africanas e
Indígenas.
Em relação ao presente trabalho, o resultado encontrado em uma
primeira análise, a qual não controlou a substruturação populacional da amostra,
não mostrou uma associação dos genes investigados com hepatotoxicidade. Nossos
resultados quando foi realizado o controle genômico o efeito dos genes investigados
apresentou uma significância com risco relativo elevado (P=0,023; 95% IC1,218,5;OR=4,79), mostrando que o painel de 48 marcadores genéticos proporcionam
uma ferramenta poderosa para a corrigir efeitos da estratificação em estudos caso
controle na população brasileira.
Os resultados do presente estudo se assemelha a estudos realizados por
Luo et al. (2005) e Kittles et al. (2002) nos quais foi realizado o controle genômico
em estudos de associação entre os genes investigados e patologias (câncer). Dessa
maneira foi possível corrigir o provável efeito do subestruturamento populacional nas
amostras investigada.
Este resultado pode ser atribuído principalmente a elevada diferença
interétnica dos marcadores investigados nos genes NAT2 e CYP2E1. Desta forma o
controle genômico se mostrou importante para se controlar um efeito de
subestruturação populacional em estudos de associação. Santos (Comunicação
Pessoal).
34
Contudo, os resultados obtidos no presente trabalho revelaram que
somente a ancestralidade européia (P=0,0463) foi significativamente importante para
se realizar o controle genômico em estudos caso-controle para terapia com
isoniazida.
Particularmente para este estudo as etnias africanas (p=0,0524) e
ameríndias (P=0,0521) isoladamente não se revelaram importantes estatisticamente
para controlar o efeito da subestruturação. Porém, é importante destacar que para
futuros estudos de associação caso-controle e necessário investigar os efeitos de
conjunto de todas as etnias.
35
7. CONCLUSÃO
O controle genômico foi efetivamente importante para a presente
investigação uma vez que foram encontradas diferenças significativas em relação à
etnicidade entre os pacientes com e sem hepatotoxicidade.
Os dados gerados nessas populações forneceram subsídios para realizar
o controle genômico da ancestralidade em investigações caso-controle. O controle
da ancestralidade foi de fundamental importância para consolidar as análises de
associação de polimorfismos genéticos (gene NAT2 e CYP2E1) no desenvolvimento
de hepatotoxicidade medicamentosa ao INH entre os pacientes com e sem
hepatotoxicidade.
Esta investigação foi a primeira na literatura mundial a realizar o controle
genômico da ancestralidade para investigação de estudos caso controle de
farmacogenética da isoniazida.
Fica evidente para estudos de associação a necessidade de realizar-se o
controle
genômico
da
ancestralidade,
principalmente
em
populações
que
apresentam elevadas taxas de mistura interétnica com grupos populacionais
Ancestrais (africanos, europeus e ameríndios), como é o caso das populações da
região Norte do Brasil.
A farmacogenética deve ser baseada em diferenças individuais genéticas
e não em diferenças interétnicas de frequências dos polimorfismos ligados a rota de
metabolização de fármacos. Essas variações interétnicas são particularmente
influentes em populações que sofrem elevados graus de subestruturamento
populacional.
36
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