Surgimento do Islã e fatores que ajudaram a interromper a

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Surgimento do Islã e fatores que ajudaram a interromper a expansão muçulmana
por toda Europa
Charles Pires Neves*
Resumo: Este artigo objetiva opinar sobre a maneira como o Islã se ergueu, propagou e conquistou a
península arábica, chegando às “portas da Europa”. Dentre os fatores que evitou a conquista da Europa
pelos mesmos, podemos fazer alguns destaques, como os povos Francos, sob o comando de Carlos
Martel que evitou a queda da Europa Ocidental e dos Povos Khazares que evitou a penetração na Europa
através da Europa Oriental, bem como os Montes Pirineus e a cadeia montanhosa do Cáucaso, que
também contribuíram para impedir essa avalanche árabe surgida a partir do século VII, de conquistar o
velho continente.
Palavras Chave: Islã, expansão, barreiras, Europa.
Inicialmente podemos afirmar que no início do século VI e início do século
VII, os Impérios Bizantinos e Sassanidas travaram longas guerras, que aos poucos foram
minando as condições e causando desinteresse para as terras que hoje chamamos de
“Crescente Fértil” e para que os mesmos ampliassem seus domínios sua capacidade de
manter-se à frente dos Impérios. Nessa faixa de terra existiam comunidades nômades
que tinham sua liderança em função dos oásis.
Por volta do ano de 570, nasceu em numa tribo de coraixitas, tribo essa
composta por mercadores, o organizador da base do islamismo, Maomé. Duramente
perseguido pelos acasos do destino, tendo perdido seu pai antes de nascer, ainda criança
perdeu sua mãe e seu avô, passando a ser criado por um tio.
Assim, na primeira fase de sua vida ele foi um mercador que manteve
contato e comercializou com as tribos da região, passando a se tornar conhecido e ter
projeção a partir do seu casamento com uma viúva chamada Cadija.
Segundo a história, quando tinha cerca de 40 anos Maomé ao perambular
por entre as montanhas de Meca, normalmente fazendo jejuns e meditando, recebeu a
visita do anjo Gabriel que o convidou para ser o disseminador das palavras de Deus,
sendo o seu Profeta na terra. Tendo a sua esposa e a família como seus os primeiros
seguidores, e posteriormente o grupo coraixitas, ao concordar e apoiar as suas palavras.
Tendo esse pequeno número de seguidores, Maomé passou a divulgar palavras e
pregações que acreditava ter vindo do anjo e passou a ter cada vez mais e mais
seguidores.
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*Aluno do curso de História – Licenciatura, da Universidade Estadual Vale do Aracaú - Aracaju/SE
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Passando a contrariar interesses, por causa das suas pregações Maomé foi
obrigado a se mudar para Yathrib, conhecida como Medina, em 622, fato esse
conhecido como Hégira. A partir daí Maomé passou a acumular poder que começou a
espalhar-se cada vez mais pela região.
A partir da morte do profeta Maomé, por volta do ano 632 é que podemos
afirmar que tem início à expansão árabe, já que seus sucessores, inicialmente, para
manter a unidade tiveram que conquistar e esmagar alguns descontentes.
Sobre a expansão árabe, Jacques Herman em Guia da História Universal escreve:
“Os califas, soberanos políticos e religiosas, da dinastia dos Omíadas
governam o império árabe de 658 a 750; sucede-lhes, de 750 a 1258, a
dinastia dos Abassidas. Este período é assinalado por numerosas
conquistas. O império árabe estende-se desde a Espanha até a África
do Norte, do mar Vermelho ao mar Cáspio e do Turquestão ao mar de
Omã.” (1981, p.83)
A partir de 642, saindo do Egito tropas militares árabes passaram a se
deslocar em direção ao norte da África, tendo em 670 fundado a cidade de Al-Cairouan
que passou a servir como base de apóio para incursões militares mais distantes.
As primeiras incursões militares árabes à região, entre 642 e 669, partiram
do Egito e ocorreram mais por iniciativas locais do que propriamente por uma estratégia
do califado central. No entanto, quando a sede do califado transferiu-se de Medina para
Damasco, os omíadas reconheceram a importância de dominar o Mediterrâneo, o que
exigia um esforço militar conjunto sobre o norte da África. Em 670, um exército árabe,
chefiado por Uqba ibn Nafi, fundou a cidade de Al-Cairouan, cerca de 160 km ao sul do
que hoje é a cidade de Túnis, que passou a servir de base para operações militares mais
distantes.
No ano de 711, Tarik ibn Ziyad, um general liberto e governador da faixa
ocidental do Magrebe, venceu o visigodo Rodrigo, rei de Espanha. Desembarcando na
Espanha, junto a um enorme rochedo, que tomou o nome de Jabal-i-Tariq, mais tarde
ocidentalizado para Gibraltar, indo sempre em direção ao norte. Em 712, uma nova leva
de árabes chegou à região, quando grande parte da Espanha central, Portugal e partes da
Itália já tinham sido ocupadas. Seguiram-se as conquistas de Medina, Sidônia, Sevilha e
Mérida. Os árabes estabeleceram uma nova capital em Córdoba, às margens do rio
Guadalquivir.
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Na Espanha conseguiram se firmar sem contudo conseguir ampliar mais os
seus domínios, fato esse se deu, também em virtude da existência dos Pireneus que são
uma cordilheira montanhosa no sudoeste da Europa cujos montes formam uma fronteira
natural entre a França e a Espanha, separando a Península Ibérica da França, e
estendem-se por aproximadamente 430 km, desde o Golfo da Biscaía, no oceano
Atlântico, até o cabo de Creus (extremo oriental da Espanha continental), no mar
Mediterrâneo. Essa barreira natural impossibilitou o avanço por essa região, já que ela
forma a fronteira franco-espanhola.
Assim, após conseguirem se firmar em terras espanholas, os árabes
continuaram no sentido norte em direção a atual França, inicialmente em 721, quando
foram rechaçados pelo Odo, o Grande. Quando em 732 teve um embate que
praticamente colocou um ponto final a expansão árabe nessa direção. O chefe dos
Godos,
que dominavam
essa região, ao perceber que iria agüentar dessa vez os
invasores árabes, principalmente após perder na batalha do rio Garone, recorreu ao
auxílio de Carlos Martel, que por sua vez condicionou a ajuda aos Godos, desde que ele
fosse reconhecido como seu soberano.
A Batalha entre o exército de Carlos e os árabes aconteceu entre Tours e
Poitiers, em 732. Nessa batalha, os muçulmanos chegaram a penetrar nas defesas de
Carlos Martel, porém o bloqueio foi refeito e os mesmos não conseguiram adentrar-se.
Já no terceiro dia da batalha, o líder muçulmano Abdul Rahman foi ferido mortalmente.
Assim os muçulmanos sem seu líder e distante de sua capital, optaram por retirar-se do
campo de batalha pela noite. Nessa batalha, Carlos Martel utilizou a cavalaria pesada,
servindo como tropa de choque com longas lanças para deter a infantaria árabe. Já que
nessa época a técnica dos árabes consistia em utilizar os seus cavaleiros rompendo a
linha defensiva inimiga, causando o caos, para os seus guerreiros a pé penetrarem nas
linhas inimigas.
Nessa mesma época existia na Europa Oriental, na região entre o Cáucaso e
o Volga, que fica entre as terras à época ocupada pelos Árabes e a Europa, um povo
judeu denominado Khazar. Povo esse que muito pouco se tem e se conhece sobre a sua
história. Até pelo motivos de os mesmos terem vivido seu esplendor em territórios que
posteriormente teve como novos dominantes países com economias dito “comunistas”
cujos regimes tem em comum em não divulgar para o mundo fatos relacionados com
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sua região. Porém, falar sobre os Kazares é tão importante quanto às ações que os
mesmos realizaram ao reterem o avanço árabe em direção à Europa, pois, conforme
KOESTLER (2005,
p. 16 ), “é o fato de que tropas khazares contiveram de maneira eficaz
a avalanche árabe, mesmo durante seu período mais devastador, impedindo, assim a conquista
do Lesta Europeu pelo muçulmanos.”
Assim como na Espanha, essa região entre a Asia e a Europa é como se
fosse uma fronteira natural, já que a cordilheira do Cáucaso é uma cadeia de montanhas
longa de 1200 km entre o Mar Negro e o Mar Cáspio, freqüentemente considerada o
limite do extremo sudeste da Europa, formando uma das divisas com a Ásia. Forma
duas cadeias distintas: o Grande e o Pequeno Cáucaso. Segundo KOESTLER (2005,
p. 29) “o Cáucaso representava um obstáculo natural impressionante, porém não mais
instransponível que os Pirineus: podia ser atravessado pelo passo de Dariel ou
contornado pelo desfiladeiro Darband, ao longo da costa do Mar Cáspio”.
Os árabes bem que tentaram penetrar nessa parte da Europa por diversas
vezes pelo desfiladeiro Darband, chegando diversas vezes em território khazar, sendo
sempre impelidos a recuarem por causa da defesa khazar. A última vez, ainda segundo
KOESTLER (2005, p. 29) “em 652, numa grande batalha em que a artilharia fora
utilizada por ambas as partes (catapultas e balistas). Tombaram mais de quatro mil
árabes, junto com seu comandante, Abd ar Rahman ibn Rabiah”.
A importância dos Khazares para o mundo ocidental foi vital para o
ocidente, segundo DUNLOP, da Universidade de Columbia, uma sumidade em história dos
khazares, in Artur Koestler:
“O país dos Kazhares (...) estava naturalmente no meio do caminho
do avanço árabe. As tropas do califado, que marchavam para o norte
por entre as ruínas dos dois impérios , varrendo tudo o que estava à
sua frente, chegaram, alguns anos depois da morte de Maomé (632),
à grande barreira rochosa do Cáucaso. Uma vez atravessada essa
barreira, o caminho para a Europa Oriental lhes estaria franqueado.
O acaso fez com que, no Cáucaso , os árabes encontrassem a
resistência de um poderio militar organizado, que efetivamente os
impediu de estender suas conquistas naquela direção. As guerras
entre Árabes e Khazares, que duraram mais de cem anos , revestemse de uma importância história toda especial , embora sejam muito
pouco conhecidas. . Enquanto os Francos de Carlos Martel invertiam
o destino da invasão árabe na planície de Tours, mais ou menos na
mesma época a ameaça que pairava sobre o Leste Europeu era
igualmente aguda (...) E, do outro lado da Europa,os gloriosos
muçulmanos foram barrados pelas forças do reino Kazar (...) Não
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fossem os Kazhares ao norte do Cáucaso, é pouco provável que
Bizâncio – bastão oriental da civilização européia – pudesse ter
resistido à invasão árabe. E a história do Cristianismo e a do
Islamismo poderiam ter sido completamente diferentes daquelas que
hoje conhecemos.” (2005, p.16 ),
Outro fator que impediu o avanço árabe foi que a sua expansão para o ocidente gerou
uma divisão de poder entre os grandes espaços de dominação muçulmana, em que
mantiveram a unidade religiosa, porém a política foi fracionada em três grandes eixos de
poder; a Península Arábica da dinastia Honrada, com capital em Damasco; o norte da
África, onde a dinastia dos Fatimidas (até 909), sendo substituída pelos Almorávidas; e
a Península Ibérica que iniciou sob domínio Omíada, posteriormente Almorávidas e
Almôadas, entre os séculos XII e XIII . Sobre as dinastias árabes, MAGNOLI, Demétrio
assinala:
“A própria expansão muçulmana tem momentos de crise (geradas por
fracionamentos internos como a substituição de uma dinastia no
poder por outra) alternados como momentos de renovada unidade
(quando califas hábeis conseguem reunificar as facções e conduzi-las
contra os cristãos), alternâncias cujos reflexos seriam sentidos nas
vitórias ou derrotas cristãs frente ao Islã.” (2006, p.105)
Possivelmente se não houvessem barreiras que impedissem a propagação
árabe, sejam elas decorrentes da geografia, da persistência e da força de outros povos ou
até mesmo da divisão política entre eles, poderíamos na atualidade ter um mundo
diferente do que vivemos, pois ao invés da existência de parlamentos em ditos países
democráticos na Europa, teríamos que conviver, inclusive em alguns casos, com clãs
familiares atuando como verdadeiros donos das terras e seguindo tradições islamitas, em
detrimento do catolicismo e até mesmo do pluralismo religioso existente.
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BIBLIOGRAFIA
KOESTLER, Artur. Os Khazares a 13ª tribo e as origens do judaismo moderno. Rio de
Janeiro: Relume Dumará, 2005.
HOURANI, Albert. Uma história dos povos árabes. São Paulo: Companhia das Letras,
2006.
MAGNOLI, Demétrio. História das guerras. 3ª. Ed. São Paulo: Contexto, 2006.
HERMAN, Jacques. Guia de história universal. São Paulo: Fontes.
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