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A ESQUIZOFRENIA SOB A ÓTICA HUMANISTA E EXISTENCIAL
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INTRODUÇÃO
A Organização Mundial de Saúde (OMS) considera que a doença está associada a um
desequilíbrio que afeta o indivíduo na sua totalidade, por outro lado a saúde corresponde a um
estado de completo bem-estar físico, mental e social.
A esquizofrenia é uma doença mental que se manifesta geralmente na adolescência ou
no início da idade adulta, atinge cerca de um por cento da população de ambos os sexos,
sendo encontrada no mundo inteiro em todas as raças, culturas e classes sociais.
Anteriormente chamada “demência precoce” apresenta como principal característica a
dissociação da personalidade, onde as pessoas afetadas habitam simultaneamente dois
mundos, o real e o patológico. Considerada uma doença complexa, acredita-se que sua
etiologia alia fatores de caráter somático a elementos heredo-familiares e psicossociais.
Este distúrbio altera principalmente os processos do pensamento, percepção e
afetividade, tendo como aspectos mais característicos as alucinações e delírios, transtornos de
pensamento e fala perturbação das emoções e do afeto, déficits cognitivos e avolição.
A estratégia de tratamento para a esquizofrenia possue uma variação de acordo com a
fase e com a gravidade da doença, que acarreta conseqüências de caráter individual, familiar,
social e econômico.
Neste sentido, as abordagens psicossociais tornam-se essenciais para a reabilitação dos
sujeitos afetados por essa patologia.
É dentro desta abordagem psicossocial que a Psicologia Humanista, através da
Abordagem Centrada na Pessoa desenvolve seu trabalho visando um aumento de autonomia,
realização pessoal e qualidade de vida das pessoas afetadas por essa doença.
Referindo-se ao comportamento anormal como distorções do desenvolvimento, esta
abordagem interpreta as origens da distorção de forma diferenciada, onde os comportamentos
que são rotulados como “esquizofrenia” representam a relação do indivíduo com o mundo.
O papel do terapeuta é o de facilitador. Chama-se de atitudes facilitadoras as ações que
o psicólogo realiza durante a relação de cuidado psicológico com o cliente, desta forma, as
qualidades atitudinais do terapeuta para o processo de mudança do cliente são: a congruência,
consideração positiva incondicional e compreensão empática. Colaborando assim para que o
cliente possa buscar em si próprio a sua direção.
Revista Comunicar Psicologia, 2012, Lúcia Maria de Matos Viana
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ASPECTOS TEÓRICOS SOBRE A ESQUIZOFRENIA
A esquizofrenia é conceituada como um conjunto de reações psicóticas
caracterizadas por distúrbios das relações pessoais e incapacidade de pensar e comunicar-se
com clareza (Isaacs, 1998). Este distúrbio, segundo o mesmo, altera principalmente os
processos de pensamento, percepção e efetividade.
É um transtorno mental que ocorre em cerca de 1% da população mundial, sem
diferença significativa entre os gêneros. Desde a antiguidade existem relatos de sinais e
sintomas parecidos aos que hoje denominamos de esquizofrenia, mas é somente no final do
século XVIII que se começa a valorizar os sintomas psíquicos e se inicia o interesse em
classificá-los e conceituá-los (Sadock & sadock, 2006).
A história conceitual da esquizofrenia, segundo Silva (2006) data do final do século
XIX e da descrição da demência precoce por Emil Kraepelin. Outro cientista que teve grande
influência sobre o conceito atual da esquizofrenia foi Eugen Bleuler.
Kraepelin (1856-1926) criou uma classificação de transtornos mentais que se baseava
no modelo médico, tendo como objetivo delinear a existência de doenças como etiologia,
sintomatologia, curso e resultados comuns. O mesmo distinguiu três formas de transtorno:
hebefrênica, catatônica e paranóide.
Bleuler (1857-1939) criou o termo “esquizofrenia” (esquizo=divisão, phenia=mente)
que substituiu o termo demência precoce, para pontuar a presença de uma cisma entre
pensamento, emoção e comportamento nos pacientes afetados. O mesmo autor associa a
esquizofrenia a perturbações sofridas pelo processo de associação e a uma forma peculiar de
pensar e comportar-se, que designa por autismo. Como fatores secundários consideram os
delírios, as alucinações e o comportamento catatônico (Amaro, 2005, p.56).
Com a introdução da palavra esquizofrenia, inicia-se uma nova concepção dessa
perturbação mental que passa a ser definida pelo tipo e sintoma.
Bleuler concentrou-se em sinais e sintomas que consideraram fundamentais e
primários e enfatizou a dissociação de funções mentais como a característica essencial do
transtorno. Para o mesmo, a esquizofrenia não era uma doença unitária, mas um grupo de
esquizofrenias, que inclui múltiplos transtornos com características clínicas comuns.
Os três primeiros subtipos clássicos (demência paranóide, hebefrenia e catatonia) eram
descritos como doenças separadas até que Kraepelin juntou-as sob o nome de demência
precoce. Juntamente com a esquizofrenia simples, introduzida por Bleuler, os subtipos
paranóide, hebefrênico e catatônico de Kraepelin formaram o grupo de esquizofrenias de
Bleuler (Silva, 2006). A partir das conceituações e estudos desses dois psiquiatras firmou-se o
estudo dessa doença. Nesse sentido há ainda o psiquiatra Kurt Schneider, que definiu alguns
sintomas considerados muito importantes para o diagnóstico da doença, Louzã (1995 como
citado em Pinho, 2008).
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Definida atualmente por Pinho (2008) como uma doença mental grave, a esquizofrenia
é caracterizada por uma perturbação da personalidade, perda da capacidade para interferir na
realidade, alucinações, delírios, pensamento anormal e alteração do funcionamento social e
laboral.
No mesmo entendimento, Gerrig e Zimbardo (2005 como citado em Versola, 2010)
também apontam um transtorno esquizofrênico como uma forma grave de psicopatologia, na
qual a personalidade parece se desintegrar, onde os processos psicológicos básicos do
pensamento e da percepção são distorcidos, e as emoções são entorpecidas.
De acordo com a Associação Brasileira de Psiquiatria (2005) os transtornos
esquizofrênicos se caracterizam em geral, por distorções características do pensamento e da
percepção, e também por inadequação dos afetos. Freqüentemente o indivíduo com
esquizofrenia mantém clara sua consciência e sua capacidade intelectual.
Diante do exposto, a esquizofrenia traz ao paciente um prejuízo grave que é capaz de
interferir amplamente na capacidade de atender as exigências da vida e da realidade. Ou seja,
acarreta prejuízos ocupacionais, nas relações interpessoais e familiares.
A partir do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-IV, 2002,
p.305), a esquizofrenia apresenta:
No mínimo dois dos seguintes quesitos, cada qual presente por uma porção
significativa de tempo durante o período de um mês (ou menos, se tratados com
sucesso): (1) delírios; (2) alucinações; (3) discurso desorganizado (p.ex., freqüente
descarrilamento ou incoerência); (4) comportamento amplamente desorganizado ou
catatônico; (5) sintomas negativos, isto é, embotamento afetivo, alogia ou abulia.
Diversas hipóteses e descobertas surgiram na tentativa de se encontrar uma explicação
para a origem da esquizofrenia, contudo, nenhuma delas consegue responder as dúvidas que
ainda subsistem sobre as possíveis causas da doença. Porém, sabe-se que se trata de uma
doença universal, ocorrendo em todos os povos e culturas.
De acordo algumas pesquisas, pode-se considerar que sua etiologia reside
principalmente em fatores biológicos, porém ainda subsistem muitas dúvidas reforçando-se a
idéia de uma etiologia multifatorial.
Entretanto surgiram diversas teorias para explicar as causas e sintomas da doença. A
teoria genética, teorias neuroquímicas, a hipótese dopaminérgica, distúrbio do
neurodesenvolvimento, alterações estruturais, teorias psicológicas, dentre outras.
Nas palavras de Pull (2005 como citado em Versola, 2010) a esquizofrenia é um
transtorno de etiologia desconhecida. Sendo assim, é possível observar que as causas da
esquizofrenia são ainda desconhecidas. Porém, há consenso em atribuir a desorganização da
personalidade, verificada na esquizofrenia, à interação de variáveis culturais, psicológicas e
biológicas.
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Numerosos sinais e sintomas foram sendo descritos para definir a sua caracterização
clínica e separá-la de outros transtornos.
Tipos e Sintomas da esquizofrenia
Os primeiros sinais e sintomas da doença aparecem mais comumente durante a
adolescência ou início da idade adulta. O quadro mais freqüente de acordo alguns autores
inicia-se de forma indiciosa, com sintomas e padrões pouco específicos, incluindo perda de
energia, iniciativa e interesse, humor depressivo, isolamento, comportamento inadequado,
negligência com a aparência pessoal e higiene podem surgir e permanecer por algumas
semanas e até meses antes do aparecimento de sintomas mais específicos da doença.
Atualmente diversos autores que abordam essa psicopatologia, baseiam-se em um dos
dois sistemas de classificação da doença, o da Organização Mundial de Saúde – CID-10, e o
segundo protagonizado pela Associação Americana de Psiquiatria –DSM-IV.
Segundo o DSM-IV (2002) a esquizofrenia é uma mistura de sinais e sintomas
característicos (positivos e negativos), que persistem pelo período mínimo de seis meses e
deve incluir pelo menos dois dos sintomas positivos no período de um mês. Esses sintomas
característicos podem ser conceitualizados enquadrando-se em duas categorias: positivos e
negativos.
Os Sintomas positivos incluem: distorções ou exageros do raciocínio lógico,
conteúdos do pensamento (delírios, interpretações equivocada das informações, que podem
surgir perigo ou dano. Delírios persecutórios, bizarros e de identidade. Distorções ou exageros
da percepção (alucinações, ouvir vozes sem um estímulo). Geralmente são vozes pejorativas
que depreciam, humilham, ordenam, ameaçam e duas ou mais vozes conversando entre si ou
comentando os pensamentos ou o comportamento do indivíduo. Manifestações
comportamentais (impulsividade, comportamentos bizarros, catatônicos e agitação). Os
delírios e as alucinações são classificados como representante de um contexto psicótico.
Já os sintomas negativos incluem:
Alogia (empobrecimento da linguagem e do pensamento); embotamento afetivo
(diminuição na habilidade de expressar-se emocionalmente); anedonia (inabilidade
de expressar prazer, perda de interesse pela interação social); avolição (diminuição
da vontade); autonegligência; lentificação psicomotora. (DSM-IV, 2002, pp.304307).
A esse respeito Pinho (2008) destaca que os sintomas negativos são freqüentes na
esquizofrenia, porém são difíceis de avaliar, uma vez que ocorre na normalidade, são
inespecíficos, e podem ser devido a uma diversidade de outros fatores. Importante ressaltar
que os sintomas depressivos também acompanham as várias fases da doença.
Critérios semelhantes são estabelecidos na Classificação Internacional das Doenças
(CID-10, 1993, p.85):
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F20- Esquizofrenia- Os transtornos esquizofrênicos são caracterizados, em geral, por
distorções fundamentais e características do pensamento e da percepção e por afeto
inadequado ou embotado. A consciência clara e a capacidade intelectual estão
usualmente mantidas, embora certos déficits cognitivos possam surgir no curso do
tempo. A perturbação envolve as funções mais básicas que dão à pessoa normal um
senso de individualidade, unicidade e de direção de si mesmo. Os pensamentos,
sentimentos e atos mais íntimos são sentidos como conhecidos ou partilhados por
outros e podem se desenvolver delírios explicativos, a ponto de que forças naturais
ou 'sobrenaturais trabalham de forma a influenciar os pensamentos e as ações do
indivíduo atingido, de forma que são bizarras. O paciente pode ver a si próprio como
pivô de tudo o que acontece. As alucinações, especialmente auditivas, são comuns e
podem comentar sobre o comportamento ou os pensamentos do paciente. A
percepção é freqüentemente perturbada de outras formas: cores ou sons.
Com o objetivo de uma definição melhor da esquizofrenia foram realizadas divisões
clínicas ou também designadas subtipos da esquizofrenia, principalmente segundo a natureza
dos sintomas apresentados pelos pacientes, embora as implicações dos subtipos em relação ao
prognóstico e tratamento sejam variáveis.
Tendo como base o DSM-IV (2002), os subtipos de esquizofrenia são definidos pela
sintomatologia predominante à época da avaliação feita ao paciente diagnosticado
esquizofrênico. Sendo assim, a apresentação do diagnóstico pode incluir sintomas
característicos de mais de um subtipo. Atualmente são considerados os seguintes subtipos de
esquizofrenia: tipo paranóide, tipo desorganizado, tipo catatônico, tipo indiferenciado e tipo
residual.
Referindo-se a prevenção, Amaro (2005) aponta três níveis de intervenção. A
prevenção primária, que busca diminuir a incidência e atuar no nível dos fatores responsáveis
pela doença; a prevenção secundária que tem como função reconduzir o doente ao seu estado
de normalidade psíquica e diminuir a prevalência; e a prevenção terciária que tem como
objetivo minimizar os efeitos da perturbação.
Vale citar que conforme Afonso (2002) o diagnóstico da esquizofrenia, só pode ser
realizado pelas manifestações clínicas da doença, uma vez que não é possível efetuá-lo por
meio de exames laboratoriais ou imagiológicos.
Fenomenologia e Existencialismo: Psicopatologia e Diagnóstico
O patológico é aquilo que deteriora e ameaça tanto a vida quanto a existência,
limitando-as em suas atividades e capacidades originárias. Assim, vida e existência estão
numa constante interdependência; a existência se torna psicopatológica quando nega mistifica
e aliena seu ser mais próprio: sua liberdade, suas possibilidades, sua realização mesma. O
psicopatológico não é algo externo ao indivíduo, é a própria existência que se perde e degrada
(Romero, 2010).
A aplicação do método fenomenológico exige, em primeiro lugar, a vontade de ater-se
aos fenômenos mesmos, deixando de lado qualquer pressuposto e toda idéia preconcebida.
“Essa exigência metódica implica que precisamos deixar que os fenômenos falem por si
mesmos sem encaixá-los de imediato na bitola de nossa teoria prévia” (Romero, 2010, p. 53).
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Embora não desconsidere o aspecto objetivo, a descrição fenomenológica se centraliza
na experiência vivida pelo sujeito. Tenta captar o acontecer experiencial tal como o sujeito o
manifesta por sua expressão verbal ou escrita, objetiva ou subjetiva. Pela fenomenologia
tentamos indagar os modos de manifestar-se de um determinado fenômeno, examinando em
seguida o significado e sentido que esse fenômeno possa comportar, tal como ele é apreendido
pela análise reflexiva.
A fenomenologia, no entanto, não aspira apenas fazer uma descrição dos objetos
intencionais que constituem a experiência originária da consciência; propõe-se também
estabelecer a essência dos fenômenos. Nas múltiplas e variadas manifestações de um
fenômeno, sempre podemos detectar um núcleo comum e um significado que percorrem e
unificam essa variedade fenomenológica; é o que denominamos a essência do fenômeno
(Romero, 1997).
Ainda citando o mesmo autor, temos que considerar o caráter intencional do fenômeno
psíquico. O mental não é algo que acontece apenas dentro da cabeça, sem maior relação com
o mundo fora. Pelo contrário, o mental está inteiramente direcionado para o mundo; é o
mundo refletido, de certa maneira, numa determinada pessoa. Uma vivência não é uma
experiência puramente objetiva; toda vivência é uma forma de relação que o sujeito estabelece
com os diversos objetos que constituem seu mundo. Buscar a compreensão do significado que
esse mundo particular tem para cada sujeito, por meio da descrição minuciosa de suas
vivências, é, portanto, o principal objetivo do método fenomenológico.
O homem como ser no mundo é uma das dimensões existenciais apontadas por
Heidegger. Com relação a este aspecto Heidegger explica que homem e mundo invocam-se
mutuamente, um não existe sem o outro. Isso significa que o mundo é uma realidade
puramente humana. O indivíduo está inserido completamente nessa realidade. Sair dessa
realidade é perder as características próprias do ser humano. Tudo o que nos acontece
subjetivamente se relaciona com algo que está ai, no mundo (Barbosa, 1998).
Na reflexão de Heidegger (1997 como citado em Tenório, 2009) o ser no mundo pode
ser desmembrado em três partes: o “ser”, o “mundo” e o “em”. O mundo em que o ser é, o
quem é no mundo, e o modo de ser-em-si-mesmo. A mundaneidade (materialidade) só se
deixa caracterizar mediante a compreensão do ser para quem existe um mundo, o ser que éno-mundo, por sua vez, só se revela a partir de sua “morada” (o mundo), e a relação de ser-em
pressupõe a compreensão dos termos que se relacionam no modo do “em”. O homem não “é”
primeiramente para depois criar relações com um mundo, ele é homem na exata medida de
seu ser-em, isto é, na exata medida em que possui um mundo ou abre o sentido de um mundo.
Não há sentimento, comportamento ou qualquer outro modo de ser de uma pessoa que
exista isoladamente como um fenômeno “em si”. Neste sentido, a perspectiva ontológica
compreende um sintoma ou síndrome não como uma coisa individual, mas como um estilo de
ser no mundo, uma postura total, e que como tal pode ser encontrado em vários domínios da
atividade humana.
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O sintoma enquanto estilo de ser é um modo do ser-aí impregnado de uma
determinada experiência. A abordagem existencial, portanto opera a partir da compreensão do
mundo como o indivíduo se instalou na estrutura do ser no mundo. Um sintoma pode ser
compreendido como um estilo de ser no mundo, no modo que ele se dá existencialmente. De
acordo com Merleau-Ponty (1908-1961) o campo fenomenal da experiência vivida, da
inserção no mundo, é aquele que dá sentido a existência de certos fatos objetivos isolados.
O conceito “existencial” preconizado por dar significa o ser si mesmo do homem à
medida que está relacionado não com o si mesmo individual, mas com o ser e a relação com o
ser.
Assim, encontrar a compreensão do significado que esse mundo particular tem para
cada sujeito através de suas vivências, é o principal objetivo do método fenomenológico E
compreender é estabelecer as relações de sentido que uma vivência possa explicar.
De acordo com Penha (1982 como citado em Tenório, 2009) uma psicologia de base
existencial-fenomenológico é relacional e intersubjetivo, ou seja, confirma a prioridade na
relação com o outro na constituição do sujeito. Isso significa que no início do
desenvolvimento, durante boa parte da infância, o indivíduo esteve subordinado aos domínios
dos cuidadores. Contudo, para que ocorra um desenvolvimento saudável e uma constituição da
individualidade, é necessário que ocorra um desenvolvimento saudável é necessário que
ocorra uma progressiva superação dessa primazia do outro, implicando num longo processo de
autoconsciência e questionamento de si mesmo e do mundo em que se encontra inserido.
Assim sendo, o aspecto relacional da existência humana, assume um papel
determinante na constituição de um desenvolvimento saudável ou patológico, afirma a autora.
De acordo com o pensamento de Kierkegaard nas palavras de Penha (1982 como
citado em Tenório, 2009) nenhum princípio, sistema ou idéia geral pode dar conta de explicar
ou descrever a realidade humana, a vivência particular de cada pessoa. Assim, o pensamento
abstrato só pode compreender o concreto abstratamente, enquanto o pensamento centrado no
indivíduo objetiva compreender concretamente o abstrato, apreendê-lo em sua singularidade,
captá-lo em sua manifestação subjetiva. A realidade é o que surge a consciência, a
subjetividade é a realidade. A própria realidade é aquela que o indivíduo tem maior
conhecimento.
Esses pressupostos existencialistas tornam-se essenciais na construção da postura do
psicólogo e dos objetivos de um processo diagnóstico.
Contrapondo as outras orientações, o existencialismo não se preocupa em classificar a
patologia, não tenta explicar e enquadrar o indivíduo, através da rotulação.
Para Erthal (1989), não se trata de adaptar uma teoria a um indivíduo que apresenta
conflitos delimitados, mas, busca-se compreender a desordem de conduta de um indivíduo a
partir dele mesmo, através de seus sentimentos, sensações emoções, enfim, de tudo que por
ela é vivenciado. A pessoa no processo diagnóstico deve ser apreendida como sendo um
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fenômeno único e como tal respeitada em sua totalidade, não deve ser avaliada segundo
normas e padrões de comportamentos pré-estabelecidos, pois a vivência dessa pessoa é sua
própria explicação, sendo ela a melhor interprete de si mesma.
Como explica Angerami (1984), O existencialismo, em sua exuberância, mostra que a
existência é um contínuo vir a ser, um sempre ainda não, com a possibilidade de um poder
ser. Desse modo, é totalmente inaceitável a rotulação do ser humano, aprisionando-o dentro
de determinadas categorias diagnósticas.
Nesta perspectiva, o psicólogo não pode apreender o mundo vivencial da pessoa a ser
diagnosticada, enquanto não suspender ou colocar entre parênteses todos seus pressupostos,
sua própria visão de mundo e conceitos, tanto quanto for humanamente exeqüível no
momento (Hycner, 1995 como citado em Tenório, 2009).
Parafraseando Augras (1986), fazer diagnóstico dentro desta perspectiva é identificar e
explicitar a forma de existência do sujeito em seu relacionamento como ambiente em
determinado momento e que feixes de significados ele constrói de si e do mundo. A adequada
descrição fenomenológica do mundo particular, singular e concreto do sujeito e de sua
situação atual tem de apoiar-se numa aproximação que procure apreendê-la em sua totalidade.
No entendimento de Costa, (1995 como citado em Tenório, 2009), da mesma forma
que o sujeito é a medida de sua própria normalidade, em cada situação, o significado será
buscado dentro daquilo que for manifestado. A objetividade desta apreensão configurada em
diagnóstico apoiar-se-á em critérios de coerência, deduzidos daquilo que se ofereceu da
história do indivíduo e das vivências presentes. A subjetividade é inevitável e o método
fenomenológico propõe que diante do reconhecimento da mesma, por parte do psicólogo, é
possível limitá-la, transformando-a em ferramenta para a compreensão do outro.
O Tratamento da esquizofrenia: Sob a ótica humanista
Sabe-se que muitos pacientes com a esquizofrenia sofrem não apenas de dificuldades
emocionais e do pensamento, mas também de falta de habilidades sociais e de uma boa
integração social. As abordagens psicossociais são necessárias para promover a reintegração
do sujeito à família e à sociedade.
No entendimento de Nunes (2000) o tratamento correto para os pacientes
esquizofrênicos é a adesão de farmacologia e das estratégias psicossociais. Não são
tratamentos antagônicos, mas complementares, na tentativa de melhorar o quadro
sintomatológico, minimizar as tensões existentes e fortalecer a parte saudável do cliente.
Fazem parte desse tratamento a terapia individual, as intervenções familiares, a terapia de
grupo e os programas específicos para a intervenção precoce.
Na mesma linha de pensamento, Afonso (2002) afirma que a esquizofrenia requer uma
abordagem terapêutica abrangente, sendo necessária uma intervenção não só ao nível
farmacológico, que permite um controle dos sintomas da doença, mas também ao nível social,
psicoterapêutico, psicoeducativo, familiar e ocupacional.
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É dentro dessa abordagem psicossocial que a psicologia humanista realiza o seu
trabalho psicoterápico através da Abordagem Centrada na Pessoa, objetivando proporcionar ao
cliente autonomia e qualidade de vida. Buscando interpretar as origens distorcidas do
desenvolvimento humano de forma diferenciada de outras teorias, onde os comportamentos da
psicopatologia que são rotulados como a “esquizofrenia” representam a relação do indivíduo
com o mundo.
A esse respeito, destacou Rogers (1959 como citado em Freire, 2000), as condições de
valor impostas ao indivíduo em suas primeiras relações interpessoais significativas levam à
formação de um auto-conceito incongruente com a sua experiência organísmica, impedindo o
processo de auto-atualização do indivíduo. Para reverter este quadro, é necessário oferecer-lhe
uma relação interpessoal permeada de consideração positiva incondicional. A experiência de
ser aceito incondicionalmente é o verdadeiro agente da mudança terapêutica, pois possibilita
ao indivíduo experienciar uma auto-consideração incondicional. Esta aceitação de si mesmo
leva a uma maior integração entre o eu e a experiência organísmica e a uma conseqüente
mudança do auto-conceito, promovendo a auto-atualização, que é objetivo último de toda
psicoterapia.
O cliente deve ser o centro do tratamento, afirma a mesma, não se enfatizando a
doença, mas a existência do doente, que é sujeito em potencial. Desta forma, as intermináveis
classificações dos distúrbios psíquicos a partir de seus "sintomas" tornam-se irrelevantes do
ponto de vista terapêutico. Não há necessidade de supor a existência de "doenças mentais"
subjacentes aos fenômenos psíquicos considerados "anormais" ou "desajustados", nem de
classificar ou diagnosticar o indivíduo para selecionar técnicas terapêuticas específicas. Toda
terapia bem-sucedida é uma relação interpessoal caracterizada pela aceitação, empatia e
genuinidade.
Psicoterapia é um relacionamento psicológico entre uma pessoa ou pessoas,
designadas como clientes, cujo desenvolvimento da auto-atualização tenha sido
bloqueado ou impedido pela ausência de bons relacionamentos interpessoais; e uma
pessoa, designada como o terapeuta, que provê tal relacionamento. (Patterson &
Hidore, 1997, p.xiii, como citado em Freire, 2000).
A tarefa de um trabalho terapêutico é primeira, observar como se arquiteta o universo
do sujeito em seus múltiplos relacionamentos para em seguida, verificar o que é possível
mudar para torná-lo mais habitável.
Desta forma a Psicologia Humanista, como lembra Boainain Jr. (s.d.) busca
principalmente, assumir o compromisso de ajudar o homem a se transformar, a ser mais
humano, a tornar-se plenamente humano. Para esta abordagem, o objetivo de qualquer
tratamento pode ser expresso numa frase quase redundante: Levar a pessoa a ser ela mesma.
Proporcionar ao cliente a obtenção de um existir autêntico, autoconsciente, verdadeiro,
congruente e natural, sem divisões internas.
Sob o ponto de vista de Erthal (1989) uma visão de homem como um ser em busca
constante de si mesmo, que vive em contínuo processo de vir-a-ser e que apresenta uma
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tendência natural para se desenvolver. Uma visão positiva de homem e das suas
potencialidades.
Através de uma análise fenomenológica da experiência da doença como é vivenciada
pelo paciente, o terapeuta busca os significados dentro daquilo que ele manifesta e apreende o
sentido explicitado. No entendimento de Forghieri (1993 como citado em Valle, 2004), ele
deve buscar adentrar no existir da pessoa, para descobrir além das palavras e dos gestos, o
sentido que se encontra contido na sua comunicação. Assim, pode chegar a uma compreensão
do seu modo de existir nessa situação, e a partir dessa compreensão é possível propor ações e
cuidados apropriados.
Na perspectiva do cuidar, Critelli (1981, p.70, como citado em Valle, 2004) o
terapeuta é um ser com o outro, no sentido de solicitude, enquanto consideração e paciência.
Essa forma de cuidar é libertador, entregando o cliente a sua própria transparência e
responsabilidade para ser livre para si.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
O desenvolvimento de cada um através de sua trajetória com o mundo e consigo
mesmo faz com que cada indivíduo seja único. Cada ser é um complexo diversificado onde os
aspectos emocionais e sociais estão em sintonia, formando um ser com suas próprias
individualidades, e entender a subjetividade dentro dessa visão proporciona maior
entendimento do outro.
Os estudos e as ciências atual concordam na idéia de que somos seres
predominantemente relacionais, constituídos nas relações, e que o adoecimento está atrelado à
relação do homem com o mundo.
Conforme discorremos, a psicopatologia não dá conta da totalidade da existência
humana, tão pouco se refere ao adoecimento como um malogro do ser na tentativa de alcançar
uma forma idiossincrática de unidade, como afirma (Romero, 2010).
Na concepção da abordagem humanista, a preocupação principal é o cliente,
Concentrar-se no como e no porque da condição do individuo vai resultar em tudo, exceto a
coisa mais importante que é a pessoa em si. Por isso, terapeutas humanistas tendem a retirar
aos esquemas diagnósticos com DSM que se destinam a caracterizar as pessoas de maneira
restrita, servindo mais para estigmatizar e menos para ajudar.
Para nós humanistas, cura não é solucionar problemas, mas entrar em contato com a
tendência atualizante que cada um tem dentro de si, através de uma relação genuína,
congruente, ou seja, uma atitude amorosa para com a relação, acreditando em nós mesmos, no
outro e no mundo.
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REFERÊNCIAS
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