a lingua: um instrumento de fala, de identidade pessoal e social

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Bacharelado e Licenciatura em Letras • UEMS/Campo Grande
Mestrado em Letras • UEMS / Campo Grande
ISSN: 2178-1486 • Volume 2 • Número 2 • novembro 2012
A LINGUA: UM INSTRUMENTO DE FALA, DE IDENTIDADE
PESSOAL E SOCIAL
Geane Lopes Francisco Araújo (PPGLetras – UEMS)
[email protected]
Silmara Silveira Lemes Sampaio de Queiróz (PPGLetras – UEMS)
[email protected]
Elza Sabino da Silva Bueno (UEMS)
[email protected]
RESUMO: No decorrer da colonização do Brasil, a mistura de raças foi dando origem à mistura de
diferentes línguas, com isso o povo brasileiro foi construindo sua linguagem, refletindo através dela a
identificação, a diferenciação de cada comunidade e também a inserção do indivíduo em diferentes
agrupamentos, estratos sociais, faixas etárias, gêneros e graus de escolaridade, sofrendo assim, várias
influências e discriminações quanto a maneira de falar. Para melhor compreensão, este artigo irá enfatizar
o tema: Língua, Sociedade, Variedades linguísticas e Preconceito linguístico com o objetivo de mostrar
como ocorreu esse processo de variação. O presente trabalho é resultado de uma pesquisa bibliográfica,
com base em estudo realizado em sala de aula.
PALAVRAS-CHAVE: Língua. Identidade. Sociedade. Preconceito linguístico.
ABSTRACT: During the colonization of Brazil, the mixture of races was giving rise to mixture of
different languages, so the Brazilian people was building his language, reflecting it through the
identification and differentiation of each community and also the insertion of the individual in different
groupings, social strata, age groups, genders and educational levels, suffering so many influences and
discrimination as a way of speaking. To better understand this article will emphasize the theme:
Language. Company. Linguistic varieties. Linguistic bias, in order to show society as it did this process of
linguistic variation. The present work is the result of a literature review and will be made based on the
study in the classroom.
KEYWORDS: Language - identity - society - linguistic bias
INTRODUÇÃO
Onde quer que exista um povo, território, país, nação ou outro qualquer lugar,
sempre estará presente uma determinada língua que representará uma diversidade
linguística e, para tanto, utilizará o principal fundamento da linguagem, a comunicação.
Um processo de grande importância entre as sociedades, pois apresenta em sua essência
um sistema chamado de signos vocais e linguísticos, ou seja, a língua. É através desses
signos que o falante dispõe de possibilidades para se comunicar, podendo optar por
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diversas variações ocorrentes dentro de um processo histórico da linguagem de uma
sociedade, retratando aspectos pessoais, valores regionais e econômicos, que se
destacam como um intercâmbio entre as variações. A língua é um sistema de
possibilidades que oferece em contrapartida, um grande número de regras, combinações
e substituições sem que haja a alteração e nem o comprometimento da unidade
linguística, ou seja, utilizar várias formas ou expressões para dizer a mesma coisa que
apresentam o mesmo sentido, o que chamamos de variação linguística.
Dessa maneira, os falantes de uma determinada língua, exercem aspectos
diferentes dos demais, haja vista que nenhum falar é do mesmo modo que o outro, o que
caracteriza as variações existentes.
PRESSUPOSTOS TEÓRICO-METODOLÓGICOS
Qualquer língua é definida com um sistema de signos vocais, visuais utilizados
como meio de comunicação por um grupo social ou comunidade. Esta concepção e o
processo de comunicação (a linguagem) é a base do estudo linguístico.
Um dos fatores que determina a vida em sociedade é a linguagem, que por sua
vez está relacionada à forma como o indivíduo interage, retratando o comportamento e a
cultura pertinentes à comunidade a qual ele pertence. Sendo assim, a língua é um
instrumento de fala, no entanto, o seu uso representa também um veículo identitário e
até na mesma comunidade, ela é heterogênea, visto que pode sofrer variações devido à
faixa etária, o sexo, a classe social do falante, entre outros fatores
Essa diversidade é notável em nossa língua portuguesa, que apesar de ser a
língua oficial de nosso país, apresenta grandes variações linguísticas, pois é fácil
identificar não só pelo sotaque, mas também pelo vocabulário, quando uma pessoa
pertence à região nordeste ou sul, por exemplo, como diz Martelotta (2009, p.19):
Cada grupo social tem um comportamento que lhe é peculiar e
isso vai manifestar também na maneira de falar de seus
representantes: os cariocas não falam como os gaúchos ou como
os mineiros e, do mesmo modo, indivíduos pertencentes a um
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grupo social menos favorecido têm características de fala
distintas dos indivíduos de classe favorecidas.
A língua, principalmente a oral, é o primeiro contato que a criança adquire com
a mãe e a família, e essa aquisição representa reconhecer-se como uma espécie. Vale
ressaltar que os surdos-mudos não apresentam esse recurso, mas nem por isso podem
ser discriminados, haja vista que dispõem de uma linguagem visual que lhes permite
comunicar-se com as pessoas e que atualmente, a linguagem de sinais (libras) é
considerada uma língua que também sofre variações, como as regionais, por exemplo.
As variações são respeitadas pela linguística, já que as considera um mecanismo
normal da própria língua, uma vez que isso pode ocorrer na pronúncia, no vocabulário
ou na sintaxe, considerando todas as línguas importantes. É o esclarece Martelotta (op.
cit.) “A linguística considera, pois, que nenhuma língua é intrinsicamente melhor ou
pior que outra, uma vez que todo sistema linguístico é capaz de expressar
adequadamente a cultura do povo que a fala” (p.20).
Como vimos, a fala é essencial para o ser humano, como meio de comunicação,
e a forma como a utiliza pode determinar o seu crescimento cultural e social. Mesmo
que o indivíduo disponha de uma escolaridade média para conseguir um emprego,
muito das vezes, o que determina isso é a entrevista, onde também será avaliada a sua
competência oral, sendo assim, fica claro que a escrita é importante, mas reconhecer os
signos linguísticos e saber usá-los fluentemente, também tem o seu valor e é na fala que
a linguística tem um interesse especial, pois segundo Martelotta (2009), é nesse meio
que a linguagem se manifesta de modo mais natural.
Em 1960, William Labov passou a estudar a língua empregada por falantes
comuns em seus contextos sociais e descobriu que era adequada, pois era compreendida
pela comunidade, a partir daí, deu grande contribuição para os estudos linguísticos,
defendendo que a língua estava relacionada à sociedade, dando origem à
Sociolinguística, disciplina que se ocupa da variação e da mudança linguística, as
relacionando ao contexto de uso concreto da língua em situações reais de comunicação.
Como sabemos tudo na vida sofre mudanças, até mesmo um ser inanimado
como a pedra, pode mudar seu formato, sua cor, se estiver exposta ao vento e à chuva, e
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o próprio ser humano muda com o tempo, não só a fisionomia, como o seu estilo
(moda), as suas preferências e até a sua ideologia. A língua não é diferente, pois sofre
mudanças decorrentes de fatores sociais, políticos e do próprio tempo.
Quando conversamos com uma pessoa, pelo seu vocabulário é fácil notar a sua
origem, se está utilizando palavras atuais, não que as palavras ou expressões morram,
mas muitas, apesar de serem considerados vocábulos de nossa língua, caem em desuso.
Se alguém perguntar a um jovem qual é a sua graça, provavelmente ele não saberá
responder, pois vive em uma época diferente e dispõe de um acervo vocabular e
linguístico também diferentes.
A respeito dessa evolução, afirma Labov (apud MONTEIRO, 2000, p. 16-17):
A função da língua de estabelecer contatos sociais e o papel social por ela
desempenhado de transmitir informações sobre o falante constitui uma prova
cabal de que existe uma íntima relação entre língua e sociedade (...). A
própria língua como sistema acompanha de perto a evolução da sociedade e
reflete de certo modo os padrões de comportamento, que variam em função
do tempo e do espaço.
Essa afirmação difere do pensamento do linguista Ferdinand de Saussure (1989),
pois para ele a linguística tem por único e verdadeiro objeto a língua considerada em si
mesma e por si mesma, pois a língua é elaborada pela comunidade e é somente nela que
ela é social.
Utilizar a língua e suas variantes informal ou padrão é um ato normal dentro da
comunicação, mas como vimos, a fala representa a identidade cultural e social da pessoa
e por esse motivo deve ser usada adequadamente, o que não impede o uso de nenhuma
das variantes em seu devido contexto. No que se refere à língua portuguesa, iniciou-se
desde a colonização e da formação da sociedade brasileira, cujo processo revela
aspectos importantes na formação da nossa língua, que se espalharam por todas as
partes do nosso território, ocorrendo uma junção da cultura dos portugueses vindos ao
Brasil, das características e conhecimentos dos povos indígenas e ainda os aspectos
relevantes dos negros trazidos para o Brasil que já dispunham de certo conhecimento da
língua portuguesa adquiridos em outras colônias portuguesas no continente asiático.
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Segundo Le Page (1980), todo ato de fala é um ato de identidade. A linguagem é
o índice por excelência da identidade e as escolhas linguísticas são processos
inconscientes que o falante realiza associado às múltiplas dimensões constitutivas da
identidade social e aos múltiplos papéis sociais que o usuário assume na comunidade de
fala, mas o que determina a escolha de uma ou outra variedade é a situação concreta de
comunicação. Porém, o autor destaca que o ato da fala está diretamente relacionado à
sociedade em que vive a pessoa e no contato com os demais falantes de uma
determinada língua e comunidade.
Lemos Monteiro (2008) enfatiza que comunidade linguística e comunidade de
fala nem sempre são equivalentes: Madrid e Caracas, por exemplo, participam da
mesma comunidade linguística, porém são comunidades de fala distintas, justamente
porque não compartilham de uma série de atitudes linguísticas com relação a algumas
variedades e, consequentemente, diferem nas regras de uso. O exemplo é elucidativo e
sugere que se possa dizer o mesmo em relação ao português falado no Brasil e em
Portugal, ou seja, embora tanto os brasileiros quanto os portugueses façam parte de uma
única comunidade linguística, distinguem-se quanto ás regras e atitudes face ao uso do
idioma. A presença de uma grande variedade linguística resulta de fatores
principalmente socais e econômicos. Martelotta (2009, p.148) nos comprova essa
afirmação:
Labov pesquisou o referido fenômeno em três lojas de departamento de nova
York: uma freqüentada pela classe alta, outra pela média, e a terceira
freqüentada pela classe baixa. Induziu os empregados a proferir as palavras
fouth (numeral quarto) e floor (piso, andar) como resposta á sua pergunta
sobre em que andar se encontrariam produtos que lhe interessavam. Observese que a consoante r aparece em dois contextos diferentes: posição pósvocálica final e posição pós vocálica não final. Labov descobriu que a
preservação da vibrante ocorria com maior frequência na loja de classe alta e
média do que na loja de classe mais baixa, revelando que a pronúncia do r
pós vocálico é considerada de prestígio.
No decorrer do processo histórico do Brasil, o português falado pelas classes
mais favorecidas socialmente tem sido a variedade mais valorizada até os dias de hoje.
Dentre as variações, a língua padrão é a mais aceita como representação do país.
Quando essa variedade de língua é eleita para atuar como padrão, ela ganha alta
condição social, o que se pode classificar como status, passando a ser elemento de
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dominação sobre as demais variedades linguísticas existentes, que passam a ser
“inferiores” socialmente que as demais, graças a uma maneira preconceituosa, das
regras impostas pela gramática, fazendo da linguagem padrão, uma linguagem única.
A linguística, área de estudo científica da linguagem em seu aspecto falado e
escrito considera que toda língua expressa a cultura do povo que a fala, e respeita
qualquer variação que ela apresente, isso porque é natural as variações de pronúncia, de
vocabulário e de sintaxe e interligada à variação da língua está a variação sociocultural,
destacando-se os usos diferenciados por faixas etárias, como os das crianças, dos jovens
e dos idosos, o que se consolida no posicionamento de Possenti (1996) “As diferenças
mais importantes entre os dialetos estão menos ligadas à variação dos recursos gramaticais e
mais à avaliação social que uma sociedade faz dos dialetos.
O autor destaca que a grande concentração das variedades está aplicada no
cotidiano das pessoas por conta de suas condições sociais e não ao fato das aplicações
gramaticais.
Os jovens em busca de sua identidade costumam criar formas próprias de
expressão, transformando o significado dos termos ou criando uma sintaxe própria e a
essa variação está ligada a histórica que trata de enfatizar os fatos diacrônicos no
decorrer do processo linguístico. Assim, entre os jovens temos as tribos dos surfistas,
dos skatistas, das patricinhas, e assim por diante. Conforme nos afirma Monteiro (2008,
p.113):
As primeiras experiências lingüísticas da criança, na fase dos dois a três anos
de idade, se produzem principalmente pelo exemplo dos pais. Mas, a partir
dos quatros anos até aos treze anos, aproximadamente, os padrões de fala
passam a ser modelados pelo grupo de seus colegas de brincadeiras. Tudo
leva a crer que neste período é quando se sedimentam as formas automáticas
de produção lingüística: como regra, quaisquer hábitos adquiridos depois
desta fase são mantidos por controles auditivos e articulatórios.
A variação por sexo se mostra nos termos utilizados por homens e mulheres. Por
exemplo, o uso do diminutivo é mais comum na fala da mulher do que na do homem. O
homem se preocupa em não empregar uma terminologia feminina, mais afetiva, por
conta da avaliação social imposta pela sociedade em geral. Monteiro (2008, p.127)
ressalta que:
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O papel das mulheres no processo de mudança lingüística já foi demonstrado
em diversas investigações empiricas. Labov (1972) menciona, entre outros, a
célebre descoberta de Gauchat, segundo a qual o emprego de formas
inovadoras aparece com maior freqüência entre as mulheres do que entre os
homens. Refere-se também ás pesquisas que ele próprio realizou, em geral
evidenciando que a variável sexo não pode ser deixada de lado na análise da
mudança.
Em todos os casos, deve se está atento à discriminação provocada pelo uso de
variantes e como cada variante representa um grupo social, é comum as variantes de
grupos com menos destaque político, social e econômico serem desprestigiadas. Com
isso, surge o preconceito linguístico, as pessoas são julgadas pela fala e escrita que
apresentam. Segundo Monteiro (2008, p.65):
Um dos preconceitos mais fortes numa sociedade de classes é o que se
instaura nos usos da linguagem. Se o falante é um camponês ou mora numa
favela, se é analfabeto ou de baixo nível de escolaridade, é lógico que sua
maneira de falar não será a mesma que a das pessoas que se situam no ápice
da pirâmide social. Em todos os níveis lingüísticos se manifesta essa
distância: na fonologia, no léxico, na sintaxe. Ele provalvelmente usará
formas como vrido, pranta, expilicar e musga ou construções do tipo nós
veve, ele viu eu, eu se danei etc. E, com isso, é mais discriminado ainda pela
sociedade.
Esse preconceito, essa negação constante da sociedade, do ensino da escola que
tem buscado consertar a língua do aluno também é abordado por Bagno (1999, p.40):
O preconceito linguístico se baseia na crença de que só existe uma única
língua portuguesa digna deste nome e que seria a língua ensinada nas escolas,
explicada nas gramáticas e catalogada nos dicionários. Qualquer
manifestação linguística que escape desse triângulo escola-gramáticadicionário é considerada, sob a ótica do preconceito linguístico, “errada”,
feia, estropiada, rudimentar, deficiente, e não é raro a gente ouvir que “isso
não é português”.
Reconhecer as diferenças entre as variantes e o prestígio de uma sobre a outra,
saber compreendê-las como uma forma de vida da língua, é o princípio da cidadania e
de respeito à diversidade. Não há língua portuguesa certa ou errada, existem variações
de prestígios linguísticos. O segredo está em se saber adequar o ato verbal às situações
de uso; compreender qual a variedade mais adequada naquele momento com
determinadas pessoas. A norma padrão é uma variante linguística de determinado grupo
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social que impõe aos demais suas formas de uso e está intimamente ligada ao poder
econômico, político e social. A sociedade aceita que ela seja padrão e que deva ser
ensinada nas escolas e divulgada pelos meios de comunicação, mas nem sempre ocorre
um equilíbrio, pois há uma pressão social em sua defesa e manutenção.
Muitos dizem que ela preserva a nacionalidade, dicionários e gramáticas dizem o
que é certo e o que é errado no uso da língua e infelizmente as modalidades prestigiadas
muitas vezes não são conhecidas por todas as pessoas, o que faz com que elas se sintam
inferiores por não saberem competir no mesmo grau de igualdade com aqueles que as
dominam. Todos devem ter os mesmos direitos linguísticos. Foucault (1986) nos
comprova:
Absolutamente não coloco uma substância da resistência face a uma
substância do poder. Digo simplesmente, a partir do momento em que há uma
relação de poder há uma possibilidade de resistência. “Jamais somos
aprisionados pelo poder: podemos sempre modificar sua dominação e
segundo uma estratégia precisa...” "Esta resistência de que falo não é uma
substância”. Ela não é anterior ao problema que ela enfrenta; ela é coextensiva a ele e absolutamente contemporânea.
Na visão do autor acredita-se que a expressão linguística ocorre mediante a
práxis da fala, partido dos conhecimentos empíricos ou científicos, conforme o âmbito
social de cada falante da língua.
Linguisticamente, não se deve menosprezar um indivíduo devido a sua forma de
falar, mas a sociedade ainda age preconceituosamente, a começar pela escola que há
pouco tempo desconsiderava as formas linguísticas que não fossem a padrão. Apesar
das mudanças nesse sentido, cabe ao membro de qualquer comunidade linguística, usálas adequadamente, é o que complementa Bortoni- Ricardo (2005) que para operar de
maneira aceitável, um membro de uma comunidade de fala tem de aprender o que dizer
e como dizê-lo apropriadamente, a qualquer interlocutor e em quaisquer circunstâncias.
Recentemente, a escola que sempre priorizou pelo ensino da língua padrão, assumiu a
diversidade linguística brasileira e estabeleceu diretrizes aos professores em sua prática
pedagógica através dos Parâmetros Curriculares Nacionais (1999, p.31):
No ensino-aprendizagem de diferentes padrões de fala e escrita, o que se
almeja não é levar os alunos a falarem certo, mas permitir-lhes a escolha da
forma de fala a utilizar, considerando as características e condições do
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contexto de produção, ou seja, é saber adequar os recursos expressivos, a
variedade de língua e o estilo às diferentes situações comunicativas (...) a
questão não é de erro, mas de adequação às circunstâncias de uso, de
utilização adequada da linguagem.
A fala é o que une o aluno à aprendizagem e ao conhecimento e para que isto
ocorra é necessário que o aluno não tenha receio de falar a sua opinião, não basta apenas
que ele escreva, mas que forme a sua consciência crítica e saiba explorar a sua
oralidade, contudo, nesse processo, a língua não deve ser um empecilho, mas um meio
para essa acessibilidade.
Todo falante dispõe de uma competência linguística em sua língua materna,
porém muitas vezes esta forma de expressão é vista pela sociedade como uma
deficiência, pois desde a época da colonização de nosso país, a língua conferia status,
prestígio e, ainda nos dias atuais, qualquer linguagem que não esteja dentro dos padrões
da língua padrão (culta) passa a ser vista diferentemente, e tudo o que é diferente tende
a ser classificado como errado, contrário e insignificante. Dentro desses parâmetros, a
escola tem um papel importante, pois deve aproveitar a habilidade que o aluno traz
consigo, uma linguagem própria de sua comunidade para, a partir disso, aprimorar o seu
saber e propiciar-lhe uma amplitude lingüística. Sendo assim, o espaço onde ele irá
adquirir o conhecimento que ainda não possui. No entanto, segundo Bagno (2002), é de
suma importância que a escola discuta os valores sociais de uma língua,
conscientizando-o de que sua produção (escrita ou falada) estará sujeita a uma análise
social que poderá ser positiva ou negativa.
Vale ressaltar que as variações não empobrecem a língua, mas as torna ainda
mais rica, e desprezar, ignorar uma variação, seja ela, formal, informal ou até vulgar
como nas origens da língua portuguesa (Portugal), não acrescentará em nada para com a
aprendizagem e para a educação de forma geral, porque a escola não é a única
responsável pela “redenção”, pela transformação da educação, visto que nosso país,
mesmo sendo atualmente um país emergente, apresenta índices abaixo da média, pois os
problemas educacionais como aborda a sociolinguística são causados por fatores sociais
e não linguísticos.
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Partindo do princípio que a língua está relacionada diretamente à sociedade, é
necessário ter apenas não só um diploma, mas, competências linguísticas. Não podemos
ignorar que ela é um instrumento importante para ascensão, mudança de vida e para
tanto, a escola deve esclarecer, orientar e capacitar seus alunos a respeito dessa
realidade. É o que alerta Bortoni-Ricardo (2004, p.9):
Como bem sabemos, nas disputas do mercado linguístico, diferença é
deficiência. Por isso, cabe à escola levar os alunos a se apoderar também das
regras linguísticas que gozam de prestígio, a enriquecer o seu repertório
linguístico, de modo a permitir a eles o acesso pleno à maior gama possível
de recursos para que possam adquirir uma competência comunicativa cada
vez mais ampla e diversificada – sem que ainda isso implique a
desvalorização de sua própria variedade linguística, adquirida nas relações
sociais dentro de sua comunidade.
Portanto, utilizar a língua e suas variações como um instrumento de fala, como
sua identidade e como representação de sua sociedade é uma escolha cabível
unicamente ao falante, podendo ser utilizada por familiaridade, consciência crítica ou
por prestígio social.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Com base em tudo que foi aqui apresentado, pode-se dizer que jamais será
possível um processo de aprendizagem sem que haja variedades, pois esta é a raiz de
nossa sociedade. Dessa maneira, deve-se pensar que a educação sempre enriquecerá a
linguagem de um povo, de qualquer sociedade e que esse crescimento não esbarre em
diferenças sociais e econômicas, pois a cultura de um povo está na construção da
sociedade em conjunto.
Que cada indivíduo deixe o preconceito linguístico, respeite as variações
linguísticas existentes em seu meio social, já que cada um tem suas particularidades e
que a escola continue a ensinar a língua padrão, mas previna-se, tome cuidado para que
o aluno não perca sua essência linguística, pois a linguagem faz da realização do
indivíduo que, para sentir-se pleno precisa interagir, e isso só é possível quando
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acontece o respeito às particularidades, o bom senso e consequentemente a
aprendizagem, o crescimento pessoal, social e cultural, não só de uma pessoa, mas de
uma comunidade, de uma nação.
REFERÊNCIAS
BAGNO, Marcos. Preconceito Linguístico: o que é, como se faz. São Paulo: Loyola,
1999.
BORTONI-RICARDO, Stella Maris. Educação em língua materna: a sociolinguística
em sala de aula. São Paulo: Parábola, 2004.
FOUCAULT, Michel. Microfísica do Poder. Rio de Janeiro: Graal, 1986.
PCN. Parâmetros Curriculares Nacionais: Ensino Fundamental: Ministério da
Educação, 1999.
POSSENTI, Sírio. Por que (não) ensinar gramática na escola. Campinas, SP: ALB –
Mercado de Letras, 1996.
MARTELOTTA, Mário Eduardo. Linguística In: Manual de Linguística. São Paulo:
Contexto, 2009.
MONTEIRO, José Lemos. A variação linguística. In: para compreender Labov.
Petrópolis – RJ; Vozes, 2008.
SAUSSURE, Ferdinand de. Curso de linguística geral. São Paulo: Cultrix, 1989.
Recebido Para Publicação em 19 de setembro de 2012.
Aprovado Para Publicação em 23 de novembro de 2012.
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