Sociologia educacional

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“Querer, saber e poder são requisitos da ação racional. Para o saber, apenas, dirige-se
o nosso trabalho; e nem tudo que se pode conhecer, a respeito da educação, nos
concerne. Ao lado da sociologia educacional marcham tanto a filosofia, como outras
ciências empíricas e, ainda, investigações diretamente voltadas para a prática. A
filosofia, como pensamento puro, define as nossas decisões e revela os fundamentos
mais gerais dos nossos objetivos concretos. O que queremos, a qualquer momento, é
um dado isolado e sem sentido, enquanto não o entendermos como faceta da orientação
dada à nossa vida inteira. Essa orientação, por sua vez, decorre da nossa visão do
mundo e da posição do homem nela e brota, portanto, em última análise, de concepções
metafísicas. Esclarecer a estas, deduzir delas o modelo ideal do homem perfeito e das
suas ações, é filosofar. Interpretar a realidade da educação e das circunstâncias em
que se educa, à luz de tal compreensão de fins últimos, é filosofia da educação.
Este pensamento puro visa, no entanto, a modificar a realidade. Pedimos a luz da razão
para podermos melhorá-la e, querendo ser eficazes, precisamos traduzir a filosofia
numa pedagogia. A esta, como a uma ‘teoria prática’ (Durkheim), cabe elaborar um
sistema coerente de medidas, pelas quais os objetivos filosoficamente estabelecidos
possam ser atingidos com a maior perfeição possível. Normas de ação devem ser
deduzidas dos postulados absolutos e dos propósitos deles decorrentes numa situação
concreta. A arte de educar sempre envolve uma consciência vaga, pelo menos, de
objetivos e meios. Ela pode passar-se sem reflexão sistemática numa sociedade estável,
cuja cultura contém todos os padrões de procedimentos necessários, aprovados pela
experiência de gerações. Numa sociedade em mudança, a experiência passada não
resolve todos os problemas do dia, presente, mas a intuição pode bastar para nortear a
ação de educadores perspicazes; quando, porém, a mudança se acelera e, mormente,
quando a sociedade é tão complexa que nenhum educador pode ter uma visão completa
dela, uma grande massa de educadores e, mesmo, aqueles indivíduos privilegiados
procuram diretrizes que somente a reflexão pedagógica, lúcida e sistemática, pode
proporcionar.
Às ciências empíricas recorrem tanto a filosofia da educação como a pedagogia.
Aquela necessita de conhecimentos comprovados da realidade ao procurar interpretála. Os objetivos absolutos, que ela deduz de pressupostos metafísicos, manifestam-se em
metas concretas, variáveis, segundo o estado atual de cada sociedade, o qual deve ser
observado e analisado objetivamente; só o que se conhece, tal como realmente é, pode
ser julgado diante daquilo que deveria ser. A pedagogia, por sua vez, depende da
compreensão dos processos psíquicos e sociais para orientá-los. Normas, por ela
estabelecidas, serão operantes, na medida em que se refiram a comportamento real ou
possível de educadores e educandos.
A sociologia investiga a ordem que rege as relações humanas. Avizinha-se de duas
outras disciplinas, relevantes para os estudos da educação: da história e da psicologia.
Aquela procura compreender o desenrolar dos acontecimentos passados em
determinada sociedade, na sua individualidade única, contribuindo, se for o caso, para
a interpretação do seu estado atual. A sociologia distingue-se dela pela tendência
sistematizadora e generalizadora; na medida em que utiliza fatos passados, busca neles
as regularidades, verificáveis mediante comparação, e suscetíveis de serem tidas como
supratemporais. A psicologia, por sua vez, focaliza o indivíduo; estuda a estrutura dos
organismos no que se refere ao seu comportamento e à ação exercida sobre ele, por
influências ambientais; indica ao pedagogo os meios pelos quais a educação pode
beneficiar o desenvolvimento da personalidade. As componentes sociais do ambiente
interessam-lhe como fatores do comportamento individual, enquanto que para a
sociologia constituem o próprio campo de pesquisa.
O termo ‘educação’ é daqueles usados correntemente com significado algo vago.
Precisá-lo implica em definir e circunscrever o objeto das nossas cogitações e deve,
por conseguinte, ser a nossa primeira preocupação. Ao tentar fazê-lo, não pretendemos
negar a validade de outras definições, quando estabelecidas para finalidades diferentes
das nossas. As palavras não possuem significado intrínseco; são símbolos
convencionais; e como o pensamento científico frequentemente avança em áreas ainda
não exploradas pelo idioma, ocorrem-lhe distinções novas, às quais um rótulo deve ser
posto, tomado, à falta de alternativa, do acervo já existente do vocabulário. Nestas
condições, algumas palavras vêm a adquirir significados múltiplos, sendo importante
que o sentido, pretendido num determinado contexto, seja claramente enunciado. Tanto
a sociologia como a pedagogia vêem-se constantemente diante de tais situações,
lamentáveis, porque as variações de significado de uma mesma palavra provocam malentendidos, mas assim mesmo inevitáveis”.
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