1 Curso de Pedagogia Artigo de Revisão

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Curso de Pedagogia
Artigo de Revisão
RUBEM ALVES: A PEDAGOGIA DO AFETO E DA PAIXÃO PELO EDUCAR
RUBEM ALVES: THE PEDAGOGY OF AFFECTION AND PASSION FOR THE EDUCATE
Ivonice Pereira Gonçalves Lemos1, Kelly Cristina Silva dos Reis1, Maria Júlia B. de Holanda2
1 Alunas do Curso de Pedagogia
2 Professora Mestre do Curso de Pedagogia
Resumo
O presente artigo foi elaborado com o objetivo de conclusão de curso. Sob o titulo de: “Rubem Alves: A
Pedagogia do Afeto e da Paixão pelo Educar”, apresentado para a obtenção do grau de licenciatura em
Pedagogia. A pesquisa aborda e estuda como é possível educar dentro do contexto do afeto e da paixão na
educação infantil a partir da perspectiva do educador Rubem Alves. É de cunho bibliográfico, modelo artigo
de revisão e tem embasamento em escritores e educadores da atualidade que tratam de temas
relacionados à afetividade e educação. A pesquisa volta-se para considerações sobre esse tema, fazendo
uma análise da construção da afetividade no processo educativo e realizando um estudo que relaciona a
afetividade ao desenvolvimento integral do aluno.
Palavras-chave: Rubem Alves; Pedagogia; Afeto; Paixão; Educação.
Abstract
Introduction: This article was prepared from the completion of course work "Rubem Alves: The Pedagogy of
Affection and Passion for Educate," presented to obtain the degree in Pedagogy. The survey covers and
studies how is possible to educate in the context of affection and passion in early childhood education from
the Rubem Alves educator's perspective. The research is bibliographic nature, review article model and has
grounding in the present writers and educators dealing with issues related to affection and education. The
search turns to consideration of this issue by making an affection of the construction of the analysis in the
educational process and conducting a study that relates affection to the full development of the student.
Keywords: Rubem Alves; Pedagogy; Affection; Passion Education.
Contato: [email protected]; [email protected]
Introdução
entre educadores e professores.
A pesquisa a seguir trata-se de um
estudo acadêmico que teve como objetivo
principal analisar a possibilidade de se
educar com a presença do afeto e da paixão
no contexto pedagógico da Educação Infantil,
e até onde estes fatores contribuem para a
formação do aluno dentro da perspectiva do
escritor e educador Rubem Alves.
O escritor realizou um paralelo entre o
perfil profissional de cada um, o relacionando
ao modelo educacional estabelecido e criado
para cada um deles. Também travamos um
breve paralelo sobre a analogia que o autor
fazia sobre culinária e educação, ou como
ele mesmo denominava a arte do “saber e
sabor”.
Também foi realizada uma breve
abordagem biográfica sobre Rubem Alves e
suas principais contribuições pedagógicas no
contexto educacional, uma vez que
utilizamos como principal objeto de estudo as
suas definições, concepções e ideias sobre
educação, afeto e paixão pela educação.
Esta pesquisa segue como eixo
norteador e coloca em questão, como é
Dentro desse contexto de afetividade e
paixão no ambiente escolar também
trazemos as definições de Rubem Alves
quanto às diferenças observadas e
criteriosamente mencionadas pelo autor
possível educar dentro do contexto do afeto e da
paixão na educação infantil? Diante do exposto, a
pesquisa teve como objetivos: Objetivo Geral:
Analisar a possibilidade de se educar dentro
do contexto do afeto e da paixão na
educação infantil a partir da perspectiva do
educador e escritor Rubem Alves. E os
objetivos
específicos:
Identificar
a
contribuição do educador Rubem Alves a
partir da perspectiva do afeto e da paixão;
Analisar os conceitos de educação, afeto e
1
paixão no contexto pedagógico; Reconhecer
a relação entre afeto, paixão e o ato de
educar no universo escolar.
Para a execução deste trabalho
adotou-se a natureza de artigo resumo de
assunto,
contendo
assim,
pesquisa
bibliográfica elaborada a partir de livros,
artigos
científicos,
vídeos,
textos,
fichamentos de artigos e resumos.
Segundo Gil (1999), a pesquisa
bibliográfica é elaborada com base em
material já publicado com o objetivo de
analisar posições diversas em relação a
determinado assunto. (1999, p. 115).
A pesquisa foi subdividida em alguns
tópicos. A princípio fez-se uma breve
definição dos conceitos aqui abordados,
educação, afeto e paixão no contexto
pedagógico a partir de uma conceituação
sobre a perspectiva de Rubem Alves.
Quanto à metodologia para a execução
foram selecionados para a elaboração deste
trabalho diferentes textos e artigos, a
Constituição Federal, e diferentes dicionários
para a definição de significados etimológicos
das palavras aqui citadas e conceituadas.
Quanto aos objetivos essa pesquisa foi
realizada de maneira exploratória, ou seja, a
partir de um levantamento bibliográfico, tendo
como referencial o problema pesquisado e a
análise de seus respectivos resultados.
Dessa forma, esse estudo visa
proporcionar um maior conhecimento para o
pesquisador acerca do assunto, a fim de que
esse possa formular problemas mais
precisos ou criar hipóteses que possam ser
pesquisadas por estudos posteriores (GIL,
1999, p. 43).
A pesquisa exploratória, segundo
Lakatos e Marconi (1991, p. 43) visa
proporcionar uma visão geral de um
determinado fato, do tipo aproximativo.
aspectos fundamentais do desenvolvimento
da aprendizagem dentre eles a afetividade.
É necessário que se faça uma análise
de alguns aspectos relevantes sobre a possibilidade de se educar com a presença do
afeto e da paixão, e de que maneira estes
fatores contribuem para o crescimento cognitivo do aluno, entendendo que os aspectos
afetivos estão intrinsicamente relacionados
ao processo de aquisição do conhecimento e
como estes perpassam o processo educativo.
Esta pesquisa veio justamente investigar até onde esse envolvimento influencia o
trabalho do professor. Como afirma Rubem
Alves (2010), a presença do afeto e da paixão do educador em sala de aula não só
influência os alunos como interfere significativamente no seu desenvolvimento e produção.
Mas, é relevante, também, investigar
até onde iria essa relação analógica entre
afeto e educação e se nossos professores
realmente sabem lidar com essa realidade
presente. Tendo em vista todas essas prerrogativas é que abordamos a presença do
afeto e da paixão do educador no ambiente
educacional.
Sabe-se que atualmente o estudo sobre a presença da afetividade tem se tornado
objeto de estudo de diferentes autores e de
diversas áreas do conhecimento (CUNHA,
2008, p. 184).
Portanto, nessa perspectiva intentou-se
ainda, investigar e comparar alguns pontos
de vistas de diferentes autores a respeito da
afetividade e da paixão no contexto pedagógico.
Rubem Alves: Um educador Humano
Em relação aos objetivos, a pesquisa
buscou a importância da afetividade no
ambiente escolar de maneira contextualizada
sobre a perspectiva de diferentes autores,
mas, principalmente, de acordo com o
pensamento pedagógico do escritor e
educador Rubem Alves.
Rubem Alves nasceu no dia 15 de setembro de 1933, em Boa Esperança, sul de
Minas Gerais. Foi Teólogo, educador, escritor e psicanalista. Mudou-se em 1945 com
sua família para o Rio de Janeiro. Criado em
uma família de origem protestante, acabou
tornando-se pastor. Entre os anos de 1953 e
1957 cursou Teologia no Seminário Presbiteriano de Campinas, São Paulo.
Por meio da realização dessa pesquisa
buscamos abordar a relação da afetividade
no contexto escolar considerando alguns
Em 1958 mudou-se para a cidade de
Lavras, Minas Gerais, onde foi pastor até
meados de 1963. Nesse mesmo ano foi es-
2
tudar em Nova York, retornando em 1964,
com o titulo de Mestre em Teologia, pela
Union Theological Seminary. Em 1968, viajou
para os Estados Unidos, onde cursou doutorado em filosofia na Princeton Theological
Seminary.
esse é o objetivo da educação, criar a alegria
de pensar” (p. 38). O escritor propôs, ainda,
um novo tipo de professor: “É aquele que
não ensina nada, não é professor de matemática, de história, de geografia. É um professor de espantos” (ALVES, 2001b, p. 57).
De volta ao Brasil em 1970, Rubem Alves foi professor emérito de filosofia na Universidade de Campinas (UNICAMP). Nos
anos 80, tornou-se psicanalista através da
Sociedade Paulista de Psicanalise. Passou a
escrever para grandes jornais sobre comportamento e psicologia.
O objetivo da educação segundo Alves
(2005) não é ensinar coisas porque as coisas
já estão na internet e nos livros, por todos os
lugares, o papel do professor é ensinar o
aluno a pensar provocando sua curiosidade,
induzi-lo a “ter fome de aprender”. Segundo
Rubem Alves o professor é aquele que instiga, problematiza, inspira e liberta.
Rubem Alves também foi membro da
Academia Campinense de Letras além de
autor de diversos livros sobre filosofia, teologia, psicologia e educação. Também colaborou durante anos escrevendo artigos sobre
religião e educação na Folha de São Paulo.
Alves também tinha suas preferências
literárias nas quais ele se inspirava dentre
essas estão, seu filosofo “preferido” Nietzsche, os escritores T.S. Eliot, Albert Camus,
Guimarães Rosa, Saramago, Barthes, Fernando Pessoa e Adélia Prado.
Dentre suas inúmeras obras literárias
inclusive algumas delas aqui citadas utilizadas para a construção desse projeto, destacam-se: Conversas com quem gosta de ensinar, O desejo de ensinar e a arte de aprender, A pedagogia dos caracóis, Histórias de
quem gosta de ensinar, A alegria de ensinar,
Por uma educação Romântica, Concerto
para corpo e alma, Ao professor, com todo o
meu carinho, e Ostra feliz não faz perola,
dentre outras obras do autor.
Alves foi um escritor, mas como ele
mesmo se denominava acima de tudo educador. Um educador revolucionário, preocupado principalmente com os métodos e formação de professores. Alves era um ávido
critico do sistema burocrático e excludente
escolar.
Sobre a paixão pela educação Rubem
Alves dizia que educar não é ensinar matemática, física, química, geografia ou português, pois
essas coisas podem ser aprendidas nos livros e
nos computadores dispensam a presença de
um educador. Sobre isso diz: “Educar é outra
coisa. A primeira tarefa da educação é ensinar
a ver” (ALVES, 2002, p. 18).
Segundo Alves, (2000), as escolas devem ensinar a criança a pensar. “Para mim
Segundo o educador a missão do professor não é dar respostas prontas, mas
conduzir o aluno a pensar e imaginar, de
modo que o mesmo torne-se o principal sujeito de seu aprendizado. “A missão do professor é provocar a inteligência, é provocar o
espanto, é provocar a curiosidade” (ALVES,
2001a, p. 22).
Rubem Alves sempre exerceu um particular gosto pela gastronomia principalmente
depois de sua aposentadoria quando investiu
seu tempo em um restaurante. Alves admirava a arte de cozinhar e acreditava por vezes
ter sido alguma espécie de cozinheiro em
alguma vida passada.
Ele tinha um verdadeiro fascínio pelas
panelas, pelo fogo, pelos temperos e por
toda a bruxaria que acontece nas cozinhas,
como ele mesmo definia a arte de cozinhar.
Rubem Alves (2010) fazia referências a
filmes amados por ele que abordavam o
mundo da gastronomia, dentre estes filmes o
primeiro da lista nas preferências do autor
era “A festa de Babete”, seguido por “Como
Água para chocolate” e “Escola dos sabores”. Ambos têm como pano de fundo o
mundo da culinária e da gastronomia.
Em seu fascínio pelo mundo dos sabores, Alves dizia que, a cozinheira de suas
fantasias nada tinha a ver com as de hoje,
ditas por ele “modernas”. Rubem Alves denominava a cozinha atual muito prática rápida e funcional, o que segundo o autor dispensava as preliminares de espiar, cheirar,
beliscar, provar. Sobre isso, Alves (2004)
dizia: “quero voltar à cozinha lenta e erótica,
um lugar onde a química esta mais próxima
da vida e do prazer” (ALVES, 2010, p. 35).
3
O escritor que nasceu no interior de
Minas desde muito pequeno achava o conforto da cozinha vazia e acolhedora o útero
da casa como ele mesmo dizia, é o lugar
onde a vida cresce e o prazer acontece. Alves (2005) dizia: “São os cheiros de fumaça,
da gordura queimada, do pão de queijo que
cresce no forno, dos temperos que transubstanciam os gostos, profundos dentro do nariz
e do cérebro, até o lugar onde mora a alma”
(ALVES, 2012, p. 07).
O escritor mineiro de Boa Esperança
chegava a citar os cozinheiros como referências aos professores dizendo: “Pensei então
se não haveria algo que os professores pudessem aprender com os cozinheiros” (ALVES, 2004, p. 37). O educador sugere uma
Filosofia Culinária da Educação com base
naqueles que preparam as coisas boas e
ensinam os sabores.
O escritor ao fazer essa analogia quis
dizer que os professores ao ensinarem seus
alunos pudessem levar a magia e o encanto
do mundo dos sabores para o mundo do saber. Alves denominava a cozinha um lugar
de saber e sabor. Para Alves (2010), “Palavras que não transmitem saber, mas atentam
para um sabor. O que importa está para além
da palavra. É indizível” (ALVES, 2010, p. 17).
Dai sua ideia de uma Filosofia Culinária
da Educação1. Seguindo esse ideal Alves
(2005) declarou: “É preciso aprender a degustar com todos os sentidos”. Com isso,
“Nas suas origens saber e sabor são a mesma coisa” (ALVES, 2005, p. 47).
Para o escritor a aprendizagem acontece
quando nos defrontamos com um desafio, um
problema no qual não conseguimos resolver,
segundo o autor esse tipo de situação favorece
e estimula o pensamento. Para Alves (2001b),
“Educar não é ensinar respostas educar é ensinar a pensar” (2001b, p. 60).
Rubem Alves na sua época de colunista escreveu alguns artigos a respeito de assuntos culinários e gastronômicos dentre
eles o artigo “A cozinha da casa de Rubem
Alves2”.
O escritor também declara nesse artigo
seu encanto e preferência pelo fogão à le1
Rubem Alves. Sabor do Saber. Publicado na Folha de
São Paulo, em 27 de Set 2005, p. 22.
2
Publicado pelo Correio Popular, Caderno C, 19 Mar
2000.
nha, não é de se admirar tamanho fascínio,
já que o escritor mineiro de Boa Esperança
não nega suas origens quando diz: “O fogão
de lenha nos faz voltar às residências de
outrora, as residências abandonadas, mas
que são, em nossos devaneios, fielmente
habitadas” (ALVES, 2000, p. 9). Alves (2000)
faz uma referência a Adélia Prado quando
diz: “A alma mineira vive de saudades”
(2000, p. 55).
O autor faz diferentes analogias entre o
prazer de cozinhar o relacionando a arte de
educar. Sobre isso diz: “Adélia Prado me ensina pedagogia. Diz ela: Não quero faca nem
queijo; quero é fome" (2012, p. 14). De acordo
com Rubem Alves o professor é aquele que
seduz seu aluno, que desperta no mesmo a
“fome”, o desejo de aprender, e continua ressaltando que as coisas memorizadas sem amor
desaparecem. E referenciando Adélia Prado
(2005) completa: “Aquilo que a memoria ama
fica eterno” (2005, p. 89).
Rubem Alves declarava que o saber é
algo construído e constituído de razão e sentido "Saber por saber isso é inumano” (Alves,
2000, p. 74). O educador comparava à tarefa
do professor a mesma da cozinheira, provocar a fome no aluno. “É a fome que põe em
funcionamento o aparelho pensador. Fome é
afeto. O pensamento nasce do afeto, nasce
da fome” (ALVES, 2000, p. 44). Assim segundo o educador “toda experiência de aprendizagem se inicia com uma experiência afetiva”
(ALVES, 2005, p. 52).
Conceitos de Educação, afeto e paixão no contexto pedagógico
A seguir fazemos uma breve explanação entre as definições de educação, afeto e
paixão sob a perspectiva de diferentes autores inclusive Rubem Alves.
Sabemos que atualmente existem várias definições e conceitos de educação
(ANTUNES, 2000, p. 184). Essas são abordadas por diferentes autores e teorias. Mas
geralmente essas vertentes possuem uma
peculiar semelhança entre si, em especial os
conceitos para educar que colocam o individuo como o sujeito da aprendizagem e a
educação como sendo um processo transformador, o qual insere e integra o sujeito
com o seu meio.
4
A respeito da definição de educação
segundo o dicionário Houaiss (2001, p. 514)
pode-se classificar como: 1. Processo que
visa o desenvolvimento harmónico do ser
humano nos seus aspectos intelectual, moral
e físico e a sua inserção na sociedade; 2.
Processo de aquisição de conhecimentos e
aptidões; 3. Instrução.
Já o conceito etimológico da palavra
educação segundo o Dicionário Etimológico
Cunha (1982) tem origem latina nos seguintes termos: Educere, que significa conduzir
ou Educare que significa a ação de instruir,
guiar, formar (1982, p.112).
A educação é considerada um direito
pleno do cidadão. Reduzindo o termo a sua
função essencial podemos conceituar educação como sendo um processo de reflexão e
assimilação integral do indivíduo e da sociedade. Partindo dessa perspectiva Kant
(1727- 1804), diz que, “o ser humano só se
torna verdadeiramente humano pela educação” (1996, p. 14).
Na nossa sociedade atual a educação
é considerada um direito humano essencial.
A Constituição Federal (1988) diz em seu Art.
205.
A educação, direito de todos e dever do Estado e da família, será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho
(1988, p. 41).
O afeto ou afetividade é compreendido
sob a perspectiva de diferentes vertentes,
principalmente entre a filosófica, psicológica
e pedagógica. Pretendemos nessa breve
definição do termo, abordá-la sob a perspectiva pedagógica. Começamos pela definição
da palavra afeto segundo o Dicionário Etimológico Cunha (1982), a palavra afeto vem do
latim "affectur" (afetar, tocar) está intimamente ligada à palavra afetividade que tem conotação de apego, carinho (1982, p.118).
Segundo a caracterização do dicionário
Houaiss (2001, p. 541), afeto teria sua denominação atribuída a um sentimento de
carinho, amor e ternura, estima ou afeição
por algo ou alguém. A palavra Afetividade é
um termo que deriva da palavra Afeto algo
ligado ao estado psicológico que permite ao
ser humano manifestar seus sentimentos e
emoções.
Quando falamos de afetividade e amor
na educação temos a contribuição de renomados autores que justificam essa ideia.
Sobre isso, Freire diz:
Educação é um ato de amor, a relação pedagógica quando perpassada pela afetividade e pela amorosidade oportuniza o desenvolvimento da educação como prática
de liberdade e de humanização (FREIRE,
1987, p.79-80).
Partindo do pressuposto teórico de
Freire (1987), Rubem Alves diz que ainda
hoje muito se confunde a questão da afetividade no contexto educacional sobre isso o
educador alerta: “Não confundir afeto com
beijinhos e carinhos”. (ALVES, 2005, p. 53).
Alves em “Conversas com quem gosta
de ensinar” (1980, p. 85), afirmava ser de
extrema importância o estudo e pesquisa das
relações entre afeto e educação no contexto
escolar. A respeito da afetividade, afirmava
que esta deve ser incorporada na prática
pedagógica e mais especificamente que o
afeto deve ser inserido na educação como
forma de expandir as capacidades educativas e produtoras do conhecimento.
Segundo Alves (2002), o afeto deve ser
entendido como um incentivo ao aluno para
que este se sinta motivado por meio da mudança de postura do professor. Mas, para
que isso aconteça efetivamente, é preciso
que se entenda o aluno como um ser intelectual e afetivo, capaz de pensar e sentir simultaneamente.
É necessário reconhecer que a afetividade é parte essencial do processo de desenvolvimento da aprendizagem estando
esta intimamente ligada à capacidade cognitiva do aluno. Sobre isso Nóvoa3 diz:
O afeto é um elemento central de qualquer
processo de aprendizagem. Não é possível
aprender sem uma dimensão de risco, de
passagem do desconhecido para o conhecido, de esforço pessoal, de aventura. E
tudo isso necessita de um suporte afetivo,
de uma rede de afetos (2003, p.25).
3
NÓVOA em entrevista para Revista Pedagógica
PÁTIO (2003, p.25).
5
Chegamos aqui ao ponto crucial dessa
breve conceituação de afeto e afetividade.
Como interesse maior iremos abordar a relação entre afeto e educação, principalmente,
segundo Rubem Alves.
Sabe-se que a afetividade exerce uma
função essencial no processo de ensino e
aprendizagem do ser humano, sendo a afetividade um componente presente em todas
as situações da vida e estando essa, diretamente vinculada ao desenvolvimento cognitivo. Chalita (2013), em uma de suas crônicas
intitulada “Educar é um ato de coragem e
afeto”4 diz: “Afeto, porque educar é um ato de
amor ao próximo e si a mesmo. Quem educa
não apenas ensina como, permanentemente,
aprende” (2010, p. 19).
Alves (2000) nos demonstra através de
seus pensamentos de forma incontestável
que o afeto pode ser incorporado na educação e na prática pedagógica do professor,
pois este uma vez incorporado amplia as
possibilidades de produção do conhecimento
e de aprendizagem. Alves (2005), diz: “Por
causa do afeto a gente é capaz inclusive de
aprender a comer jiló” (2005, p. 114).
Novas formas de se educar e se entender o processo de aquisição do conhecimento estão fazendo parte do contexto dos
educadores preocupados em compreender
até que ponto os laços afetivos estabelecidos
entre alunos e professores influenciam no
processo de aquisição do conhecimento
(FREIRE, 1987, p. 94).
Freire (1996), de quem Rubem Alves
foi amigo e admirador afirma que não há separação entre seriedade docente e afetividade, e que ambos devem caminhar juntos. Ou
seja, o autor enfatiza que necessariamente
deve haver um vinculo afetivo no processo
educacional corroborando assim com o pensamento Alveniano.
Ainda sobre isso, Alves, (2010), diz que
o intelecto e o afeto não podem ser vistos de
maneira isoladas, ou seja, estão mutualmente interligados.
4
Gabriel Chalita Publicado no Jornal A Tribuna –
Santos (2013, p.19).
Relação afeto, paixão e educação no universo escolar
De acordo com a definição do Dicionário Etimológico Cunha (1982), a palavra paixão vem do latim ‘Passione’ e é um termo
aplicado a um sentimento muito forte em
relação a uma pessoa, objeto ou tema. De
acordo com o seu significado no dicionário
paixão é uma emoção intensa convincente,
um entusiasmo ou um desejo sobre qualquer
coisa. O termo também é aplicado com frequência para determinar um vívido interesse
ou admiração por um ideal, causa ou atividade (1982, p. 53).
Alves (2005), também defendia um
ideal de educação dos sentidos, dizia que a
educação se concretiza a partir da utilização
de todos os sentidos do corpo. Alves (2001a,
p. 58) diz que: “a primeira função da educação é ensinar a ver, educar o olhar é a arte
por excelência”. O educador também nos
adverte sobre a carência do desenvolvimento
das sensibilidades nas escolas.
Para Alves (2002), “Sem a educação
da sensibilidade, todas as habilidades são
tolas e sem sentido” (2002, p. 98). Portanto,
é necessário sensibilidade para perceber a
importância e a relação entre afetividade e
educação, Rubem Alves foi um assíduo atribuidor de sentidos a educação e inúmeras
vezes inovou nesse contexto através de seus
livros e crônicas voltados a para a área.
O pensamento pedagógico de Rubem
Alves a respeito do afeto segundo Reis
(2000):
Traz diversos sinais de uma poética romântica: valoriza mais o afeto, do que o raciocínio logico; valoriza mais a imaginação, do
que as informações (2007, p. 68).
Também sobre isso Alves (2010), declara indissociável a presença do afeto e do
amor no ato de se educar e caracteriza particularmente a diferença entre os dois.
Segundo Alves professor é profissão,
algo indefinido interiormente, educador ao
contrário segundo ele não seria uma profissão, mas, uma espécie de vocação e continua dizendo, que “toda vocação nasce de um
grande amor, de uma grande esperança”
(ALVES, 2000 p. 59).
A partir dessa afirmação de Alves percebemos que é preciso um envolvimento
6
amoroso do educador com sua profissão.
Sobre isso Rubem Alves diz:
Eu me atrevo a dizer que o fantasma que
nos assusta e que nos causa pesadelos
mesmo antes de adormecer, é a absoluta
falta de amor e paixão, o absoluto enfado
das rotinas da vida do professor (ALVES,
1980, p.20).
O grande e saudoso mestre Rubem Alves em sua crônica “Sobre jequitibás e eucaliptos” já se perguntava: O que você é? Professor ou Educador? Tem-se que repensar
essa ligação subjetiva com a capacidade
profissional do educador de se envolver afetivamente com sua profissão. Dentro dessa
possível articulação entre afeto e educar
existem varias peculiaridades existentes entre ser professor e educador.
De acordo com a concepção de Alves
(1980), o educador habita um mundo em que
a interioridade faz a diferença, “em que as
pessoas se definem por suas visões, paixões, esperanças e horizontes utópicos”
(ALVES, 1980, p. 14,15).
O autor afirma que o educador é ímpar
e um possuidor nato de suas próprias ideias
e convicções independe de um sistema burocrático e alienador. Já o professor é um
funcionário que trabalha para satisfazer um
sistema, cumprir suas ordens e agir de acordo com a instituição, tornando-se assim um
reprodutor de ideais pré-estabelecidos por
um sistema comum. “Um educador, ao contrario, é um fundador de mundos, mediador
de esperanças, pastor de projetos” (ALVES,
1980, p. 26).
O escritor depois de sua aposentadoria
investiu seu tempo em um restaurante para
exercer seu particular gosto pela gastronomia. Rubem Alves faleceu em Campinas,
São Paulo, no dia 19 de julho de 2014 aos 80
anos por falência múltipla de órgãos com um
quadro de insuficiência respiratória devido a
uma pneumonia.
Seu corpo foi velado no plenário da
Câmara Municipal de Campinas, interior paulista cidade onde o escritor mineiro vivia.
Como pedido, seu corpo foi cremado em
Guarulhos e suas cinzas espalhadas sob um
pé de ipê amarelo. Como ele mesmo dizia,
“eu tive um caso de amor com a vida”.
Sobre a morte Alves (2013), dizia:
Já tive medo de morrer. Não tenho mais.
Tenho tristeza. A vida é muito boa. Mas a
morte é minha companheira. Sempre conversamos e aprendo com ela. Quem não se
torna sábio ouvindo o que a morte tem a
dizer está condenado a ser tola a vida inteira (2013, p. 14).
Rubem Alves foi um convicto sonhador,
com toda a certeza. Mas antes de tudo foi
um idealizador, um transformador e, sobretudo um revolucionário. O escritor sempre
manteve uma visão romântica e prazerosa a
respeito da educação, defendia a teoria do
“aprender com prazer”. Rubem Alves defendia a educação apaixonadaMENTE, poeticamente e acima de tudo romanticamente.
Consolidando essa perspectiva pedagógica e humanística de Rubem Alves, Reis
(2000, p. 69), diz: “Alves não está preocupado em justificar-se até mesmo porque sua
missão é de comunicar, de educar, de provocar a reflexão”.
Rubem Alves preocupava-se de maneira especial com o aluno e o processo de
aprendizado instalado nas escolas. O educador dizia que a preocupação central dentro
da escola deve ser o aluno e que o conteúdo
configura-se em mero acessório algo acidental. E afirmava sobre isso que: “Só teremos
uma educação transformada quando os professores começarem a olhar os alunos de
uma maneira diferente” (ALVES, 2012, p.
59).
Conclusão
A partir desta pesquisa foi possível entender que o processo afetivo dentro do ambiente escolar se estabelece através das
relações e por meio da interação entre professor e aluno. Portanto esse trabalho priorizou esclarecer e analisar alguns aspectos
relevantes sobre a possibilidade de se educar com a presença do afeto e da paixão, e
de que maneira estes fatores contribuem
para o crescimento cognitivo do aluno, entendendo que os aspectos afetivos estão
intrinsicamente relacionados ao processo de
aquisição do conhecimento e como estes
perpassam o processo educativo.
Sabe-se que é comprovado que o afeto
se constitui em um dos elementos centrais
do processo de aquisição do conhecimento
7
estando esta vinculada a situações do cotidiano e da aprendizagem. No decorrer da pesquisa citamos alguns pensadores que discorrem acerca da importância da afetividade no
contexto escolar como Paulo Freire, Gabriel
Chalita e Antônio Nóvoa. Contudo, a base da
nossa pesquisa teve como foco Rubem Alves, levando em consideração suas ideias e
convicções no que diz respeito à afetividade
e a sua paixão pela educação.
A afetividade exerce uma função essencial no processo de ensino e aprendizagem do ser humano, sendo a afetividade um
componente presente em todas as situações
da vida e estando essa, diretamente vinculada ao desenvolvimento cognitivo. A afetividade no contexto pedagógico da Educação
Infantil exerce grande importância no ambiente escolar desde que seja trabalhada de
maneira contextualizada e integrada. O trabalho pedagógico a partir da perspectiva
afetiva deverá enxergar o aluno em todos os
seus aspectos considerando assim seu desenvolvimento cognitivo, emocional e afetivo.
O afeto necessita ser incorporado na
educação e na prática pedagógica do professor, pois este uma vez incorporado amplia as
possibilidades de produção do conhecimento
e de aprendizagem. Os aspectos afetivos
estão intrinsicamente relacionados ao processo de aquisição do conhecimento fundamentais para o desenvolvimento da aprendizagem.
Esta pesquisa veio justamente abordar
até onde esses aspectos influenciam o trabalho do professor e a conduta do aluno. Rubem Alves dizia que a presença do afeto e da
paixão do educador em sala de aula não só a
influenciam os alunos como também interferem significativamente no seu desenvolvimento e produção. Afirmava ser de extrema
importância o estudo e pesquisa das relações entre afeto e educação no contexto
escolar. A respeito da afetividade, pautava
que esta deve ser incorporada na prática
pedagógica e mais especificamente que o
afeto deve ser inserido na educação como
forma de expandir as capacidades educativas e produtoras do conhecimento.
aluno como um ser intelectual e afetivo, capaz de pensar e sentir simultaneamente. É
necessário reconhecer que a afetividade é
parte essencial do processo de desenvolvimento da aprendizagem estando esta intimamente ligada à capacidade cognitiva do
aluno.
Portanto, é necessário sensibilidade
para perceber a importância e a relação entre afetividade e educação, Rubem Alves foi
um assíduo atribuidor de sentidos a educação declara indissociável a presença do afeto
e do amor no ato de se educar.
Consideramos muito a possibilidade de
ao iniciar essa pesquisa, tentarmos transmitir
ao leitor o máximo possível sobre nosso
principal objeto de pesquisa e assunto: O
escritor e educador Rubem Alves. Mas, agora que chegamos ao fim, percebemos que
apenas o essencial ficou. Seria impossível e
pretensioso de nossa parte querer resumir
aqui 80 anos de vida e historia de Rubem
Alves em um sucinto artigo. Dessa forma,
chegamos aqui à conclusão e finalização de
nosso trabalho, com todas as dificuldades
que tivemos ao decorrer dessa jornada, porém, todas elas necessárias para que possamos valorizar tudo aquilo que fazemos e
obtemos. Esta pesquisa é um sonho realizado. Obrigada por tê-lo lido.
Agradecimentos
Deixamos aqui registrado nossa eterna
gratidão, carinho e respeito por nossa querida Orientadora Maria Julia B. de Holanda.
Agradecemos, sobretudo, pelo carinho, atenção, suporte, orientação e incentivo constantes.
Agradecemos também ao corpo docente dessa instituição que contribuiu e nos
oportunizou a realização desse sonho e
nossa eterna gratidão e ternura as nossas
avaliadoras presentes aqui esta noite. Albaniza de Cácia Bispo e Edlamar Clauss. E a
todos que direta ou indiretamente fizeram
parte de nossa formação, nosso muito obrigada!!!
O afeto deve ser entendido como um
incentivo ao aluno para que este se sinta
motivado por meio da mudança de postura
do professor. Mas, para que isso aconteça
efetivamente, é preciso que se entenda o
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Referências
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