Um processo de elaboração após um abandono na

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Um processo de elaboração após um abandono na
adolescência
Eliane de Andrade1
A autora pretende apresentar o caso clínico de uma jovem senhora
que , após uma experiência significativa de abandono na
adolescência, desenvolve vários mecanismos de adaptação não
elaborativos em sua vida até a chegada à análise, quando, então
pode desmanchar estes mecanismos e dedicar-se ao início da
elaboração simbólica.
Joana é uma jovem senhora de 30 anos. De tipo europeu, apresenta os
traços da população do sul do Brasil. É bonita, apesar de aparentar mais idade do
que tem. Liga para a analista pelo celular e se diz bastante desesperada. Pede
consulta para aquele dia mesmo.
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Membro Efetivo da Sociedade Psicanalítica do Rio de Janeiro (SPRJ - Rio I)
Presidente do Núcleo Psicanalítico de Belo Horizonte, da SPRJ, filiada à IPA.
Professora do Instituto de Psicologia da PUC Minas, Belo Horizonte, Brasil.
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A analista se depara com uma mulher robusta, vestida de uma maneira
prática, nada se comparando à moda corrente para mulheres no país. Não é
deselegante, mas excessivamente prática, com toques hippies.
Ao entrar a paciente olha a sala longamente, buscando , talvez, qual seria o
lugar mais acertado para ela ocupar. Não se decide e tenho que orientá-la.
A primeira impressão que tenho é que Joana não queria estar ali, que foi
forçada. Ela tenta ser muito organizada na maneira como apresenta as suas
queixas, mas a impressão que continuo tendo é de que algo falha, não é
verdadeiro.
Apresenta uma queixa relativa a um desejo de separação do atual
companheiro. Explica zelosamente como pôde chegar a este desejo sendo o ele
alguém tão especial. Em alguns momentos apresenta um desespero por constatar
que aquilo que fala é paradoxal às qualidades que diz possuir o rapaz. Então
surgem diante de mim duas Joanas: uma que vê o companheiro como alguém
extremamente positivo e outra que não suporta nada deste mesmo homem. Fico
perplexa com a divisão diante de meus olhos. A própria posição esquizoparanóide! A primeira Joana chora copiosamente pelo maravilhoso homem que
ela própria está abandonando. A segunda chora pelo mal companheiro que a
abandona não sendo aquilo que ela esperava que ele fosse.
Sinto um calafrio de medo: como trabalharei com uma moça tão regredida
e cindida? Serei capaz de ajudá-la a superar o ódio que ela parece demonstrar
pelo companheiro, tornando-o um objeto perseguidor através das figuras dos
familiares dele e integrá-lo no homem que ela percebe também ter qualidades? Os
movimentos afetivos de Joana poderiam ser organizados de modo a permitirem
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uma elaboração psíquica? Seria possível dissuadí-la a abandonar aquele ponto de
fixação infantil no qual a separação entre um objeto que ela amava era diferente
do objeto que ela odiava? Poderia Joana aceitar um trabalho que não lhe
prometeria respostas imediatas?
Como se ela estivesse ouvindo meus pensamentos, me comunica que ela
estava me procurando por saber que eu tenho um trabalho com intervenção focal
nas crises. Haviam dito a ela que este tipo de trabalho também era conhecido pelo
nome de psicoterapia breve. Ela então me procurara desejosa de um tratamento
que fosse breve. Gelei na minha cadeira e pensei: nada feito. Aqui não há uma
crise pontual que deva ser tratada como foco. Temos algo antigo e muito bem
organizado que dependerá de um belo trabalho de transferência para que possa
lograr êxito.
Sem respondê-la sobre a psicoterapia breve
mostrei-lhe que havíamos
encerrado nosso tempo e que talvez fosse interessante nos vermos uma outra vez
ainda sem detalharmos se haveria ou não possibilidade de trabalharmos juntas.
Ela aceitou e me informou que ela própria já havia procurado outras psicólogas
mas que não gostara de nenhuma. Pensei, então, que a minha falta de pressa em
mostrar que poderíamos fechar um contrato lhe soara bem, como se ela fosse do
tipo que precisa saber que pode ser recusada e então ela se afeiçoa. Histérica?
Na segunda sessão Joana chega mais calma e diz que saiu muito melhor
da sessão anterior. Acha que precisa ter "clareza" , palavra que ela passará a
utilizar em todas as sessões, do que está fazendo e do que está sentindo. Quer
saber como é o tratamento e se pode ser breve. Entendo aí que ela já sabia que
minha resposta seria negativa mas antes de respondê-la pergunto-lhe sobre sua
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família de origem. É, então, que fico sabendo que Joana tem uma longa história
de dramas.
Ela é a mais velha de três irmãos, sendo a última mulher e o do meio um
rapaz. Quando contava seis anos sua mãe apareceu seriamente enferma, assim
permanecendo até os dezesseis anos de Joana. Morre quando a moça completa
esta idade, depois de dolorosa e longa agonia. Joana se lembra que a mãe lhe
contara, mas não se lembra quando, que o pai traíra a mãe e logo depois a
doença aparecera. Joana pensa se lembrar que vira a mãe se preparando para
abandonar o pai. Depois duvida que pudesse ter uma lembrança de "tão tenra
infância" ( palavras dela). Ela não sabe se por compaixão ou se por outro motivo,
o pai abandona a relação extra-conjugal e dedica-se à esposa. Entretanto Joana é
convidada a participar desta dedicação parental, tendo que abandonar seus
interesses infantis.
Joana narra longamente seu martírio junto à mãe. É ela quem tem que dar
banho na mãe, quem tem que lhe cortar os cabelos, quem tem que viajar com o
pai no carro ao lado dele para a mãe ir de avião para os tratamentos distantes,
quem tem que coordenar a família, a despensa, os gastos, os irmãos. Finalmente,
após os dez anos de agonia da mãe, quando falece, o marido se casa com a
melhor amiga da mãe, que já freqüentava a casa deles. E casa-se no mesmo dia
em que ocorrera o casamento da mãe de Joana. Isto funciona como um grande
choque para Joana, que começa a desenvolver um grande asco por seu pai.
Contava então com dezesseis anos.
Começo a pensar que agora já tenho elementos para compreender um
pouco a regressão e a dificuldades de organização dos sentimentos de Joana.
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Começo a pensar que eu não tinha nada a oferecer-lhe a não ser , psicanálise.
Digo isto a ela, que se assusta muitíssimo. A impressão que ela me dá é de que
ficou tonta e vai cair. Ela chega a balançar o corpo quando repete, "psicanálise"?!.
Eu agüardo que ela possa me perguntar ou dizer algo, mas ela se limita a me fitar.
Então diz: mas isto significa que eu tenho que vir aqui mais de uma vez por
semana? Frente à minha resposta afirmativa ela diz que precisa pensar. Que não
sabe se quer ficar com ou compromisso longo, com um compromisso sério.
Arrisco-me dizendo-lhe que era possível que ela quisesse me dizer que se separa
naquele momento do companheiro e que não gostaria de ter outro companheiro(a)
tão cedo, mas que ao mesmo tempo todo o choro e sofrimento dela me davam a
impressão de que ela queria muito alguém que ela pudesse sentir que estava
realmente muito próximo dela. Ela chora, suspira e diz: é verdade.
Joana começa uma análise de quatro vezes por semana.
Primeiras noções da não elaboração
Na Interpretação dos Sonhos (1900) Freud propõe que a elaboração
secundária é identificada ao pensamento de vigília. Joana me recorda isto a toda
hora. Ela propõe para si mesma, para sobreviver ao segundo casamento do pai
com a melhor amiga da mãe, que se tornará vigil. Acredita piamente que pode
controlar tudo e que tudo lhe será possível e previsível.
Logo após o segundo casamento, o pai abandona Joana e os irmãos. Parte
para uma cidade de outra região do país para viver com sua nova esposa,
deixando os filhos do primeiro casamento à própria sorte. A mais nova , tendo
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quatorze anos, é a primeira a se empregar. Joana e o irmão demoram um pouco
mais a se darem conta de que estão órfãos de pai e mãe. Quando finalmente o
percebem, conseguem terminar seus estudos e partem , cada um para um estado
diferente. Joana passa a ter uma relação virtual com seus irmãos. Numa de suas
visitas ao pai, conhece um rapaz na cidade onde ele mora e se apaixona. Dá início
então a uma relação de dez anos com este rapaz.
Joana consegue se formar no terceiro grau. Encontra emprego na terra
onde vivia com os pais e seu namorado permanece na cidade em que o pai está
vivendo. Depois de algum tempo separados geograficamente o rapaz a convida a
viverem juntos, o que ela aceita. Para sua surpresa a proposta do rapaz incluía a
mãe e o pai dele na mesma casa. Mesmo assim Joana passa a viver com o rapaz,
na cidade em que o pai reside.
No conceito de elaboração psíquica temos que levar em conta a
possibilidade de compreensão de uma experiência vivida. Na ausência desta
compreensão temos o sintoma. Freud (ibidem) diz: "é próprio de nosso
pensamento de vigília estabelecer ordem nesse material, nele estruturar relações
e fazê-lo conformar-se a nossas expectativas de um todo inteligível." O que era
inteligível para Joana? Como compreender um pai que se casa com a "melhor
amiga" da esposa morta? E na mesma data do primeiro casamento? Como
compreender um pai que se vai, deixando filhos de 17,16 e 14 anos ao próprio
destino?
Joana criou uma série de sistemas de ordenação do mundo para sobreviver
a todo este caos. Tornou-se uma espécie de ecologista de toda hora, em que tudo
se aproveita, inclusive as relações. Desenvolveu um senso de democracia
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universal, em que todos são iguais e ninguém é superior a ninguém nem em
afetos, nem em hierarquia. Criou uma fé absoluta em mezinhas e chás,
substituindo qualquer relação com o sistema convencional de saúde. E, ainda por
cima, desenvolveu técnicas de lazer baseadas em cultura primitivas, de difícil
alcance na cidade em que vivemos.
Parecia-me que Joana precisava manter a mentalidade crédula e infantil
que a própria mãe possuíra. Esta, no auge de sua doença, deslocava-se a
distâncias de mais de 3.000 km para curas espirituais.
Então me vinha a impressão de que Joana não tinha conseguido evoluir na
sua elaboração secundária. Toda sua vida estava se transformando em um
exercício violento de manutenção daquela mãe primitiva dentro dela, único objeto
bom que ela conhecera. Assim, tentava um alargamento do campo de visão da
mãe, fantasiosamente, talvez para suportar a hostilidade do mundo.
O trauma estava ali. Nada tinha sido elaborado de maneira mais adulta. Ela
não compreendera o que lhe acontecera. Então reproduzia o que vivia com o atual
companheiro.
Joana iniciava suas sessões sempre dizendo: "eu pensei tal e tal assunto e
aí resolvi te dizer que eu queria vir aqui para ter clareza sobre tais e tais
situações." Ela sempre falava por um tempo de aproximadamente vinte minutos se
eu não a interrompesse, sem parar. Neste tempo ela se desesperava, me agredia,
achava que tudo na vida dela iria sempre de mal a pior. Lembrava-se do
companheiro que estava deixando como algo maravilhoso e jurava amá-lo sobre
tudo e todos. Em seguida caía em convulsivo pranto demonstrando uma exaustão
enorme que também me alcançava. Daí o companheiro era transformado no
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próprio diabo, causando-lhe desapontamentos incomensuráveis. Pensava eu:
nenhuma elaboração psíquica. Pura repetição. Então, cautelosamente, eu
propunha que ela me ouvisse descrever como eu estava ouvindo seu mundo
interno. Ela mal me permitia começar a falar, de tantas queixas que tinha para
fazer.
Como fazer o paciente elaborar?
A cada sessão eu percebia que Joana me oferecia um cálice cheio até a
borda das suas dores. Não me dava espaço para começar a falar, não fazia
pausas e emendava um assunto no outro como se não quisesse que eu a
ajudasse. Eu pensava: como vou abordar o assunto que ela traz, ou os assuntos,
pois eram tantos que me era quase impossível me ater a um fio condutor na
sessão.
Optei então pela descrição daquilo que eu via no mundo interno dela,
mostrando que eu deveria deixar a temática "urgente" que ela trazia em cada
sessão para um plano fantasiado. Eu tinham muito medo desta estratégia, pois me
parecia que ela se irritaria comigo e diria que eu realmente não a ajudava. Mas fui
assim, indicando o que ela me fazia sentir.
Após cada fala minha Joana respondia algo parecido com "puxa, mas isto é
horrível! Como alguém pode ser assim? Quando foi que eu comecei a fazer isto? "
Outras vezes ela dizia: "nossa, mas isso é muito infantil da minha parte! É muito
feio ser assim!"
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Percebi então que havia um conteúdo que assolava a mente de Joana e
que ela tinha que despejar em mim, logo no início de cada sessão. Ela começou a
se acostumar com as minhas interrupções à fala dela
- pois tinham que ser
interrupções - e sempre se defendia depois que eu apresentava a maneira como
eu estava vendo o que se passava.
Entretanto em várias sessões a paciente saía ainda chorando. Era um
choro muito sentido e copioso. Em uma determinada sessão ela me pergunta
porque eu tinha que terminar a sessão exatamente na hora. Aproveitei para dizerlhe que no dia seguinte teríamos outra sessão e que ela poderia voltar, pois as
coisas não se rompiam quando as pessoas tinham que se separar. Que dentro de
nós duas continuaria a existir a análise. No dia seguinte ela chegou dizendo que
escutara algo muito estranho de mim na véspera, mas que ficara pensando
naquilo. Já devíamos estar com quatro meses de análise quando esta sessão se
deu. Joana propôs-se a pensar sobre o fato de que ela acreditava que tudo que
ela sentia era trágico, como foi trágica a morte de sua mãe. Por isso sentia que
qualquer separação era inexorável e eterna.
Pude então mostrar-lhe que nós duas estávamos juntas há quatro meses.
Ela se assustou muito. Então se riu e disse: "e olha, eu achei que ia fazer um
tratamento breve!"
Na sessão seguinte, Joana trouxe um sonho.
Recordar, repetir, elaborar
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Joana não sabia do que se esquecia. Tinha uma lembrança clara de que a
mãe sofrera ( lembrança óbvia para alguém com doença progressiva e fatal) mas
encobria a lembrança da vida conjugal ruim dos pais.
Ao encontrar na cidade em que o pai residia um rapaz interessado por ela,
Joana viu a possibilidade de restaurar o pai, apagando o abandono deste. O rapaz
com quem Joana passou a viver possui a ótima qualidade para ela de lhe ser fiel.
Isto também corrigia a angústia que sentira pela infidelidade do pai à mãe em vida
e pós morte. O companheiro de Joana então, era o pai corrigido, perfeito, e a mãe,
uma vez que estava sempre disposto a ficar perto de Joana.
Esta relação, no meu entender, durou muito mais do que deveria: a
paciente não senti nenhuma atração sexual pelo companheiro.
Entretanto Joana apresenta-o nas sessões, a mim, como o par perfeito.
Sente-se enormemente culpada por não conseguir desejá-lo. Pinta-o como um
homem ideal, cavalheiro, trabalhador, interessadíssimo sexualmente nela.
As sessões vão caminhando. Joana não falta e é muito pontual. Em um
determinado momento consigo comunicar a ela que ma parecia que o
companheiro tinha aparecido na vida dela exatamente quando ela estava saindo
da adolescência e entrando na vida adulta. E que ele lhe oferecera uma família,
onde é possível que, inconscientemente, ela tivesse fantasiado terminar sua
infância e adolescência. E que me parecia possível que aquela separação que se
apresentava, nada mais fosse do que a concretização deste término. Me parecia
que seria possível que ela estivesse podendo ver o companheiro com menor grau
de idealização.
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Joana resiste muito ainda. Chora demais e não acredita que terá outro
namorado. Pensa que uma mulher sem homem é uma planta seca e que ela vai
ficar assim. Acha que eu a estou levando a aceitar ser uma mulher sem homem.
Interpreto-lhe os ataques mas eles continuam. Duvida ferozmente de mim e
até acha que eu não gosto de homens.
Em várias sessões me pego suspirando e balançando a cabeça como seu
eu também estivesse incrédula daquele tratamento.
Joana repete. É isto. Repete comigo o que não entende: os ataques, o
teatro histérico quando se sente desesperançada, o medo de vinculação, a
certeza de que somente ela poderá se ajudar.
Cansaço e irritação me tomam em várias sessões. Mostro à paciente que
ela parece querer veementemente me transmitir seu desengano sobre tudo e
todos. Sua descrença de que haja algo bom no mundo de dentro dela e no de fora
também. Assim, eu também não poderia ser um objeto bom, mas algo que a
manteria num funcionamento sempre igual toda a vida. Mostro-lhe que desta
forma ela questiona minha competência como psicanalista, me condenando
também a um mundo ruim onde nada muda para melhor.
É então, para surpresa minha, que a própria Joana se dá conta de que
repete. Tenho a impressão de que afundei na cadeira, de alívio.
Mas , como não há bonança por muito tempo na nossa lida, Joana começa
a me inquirir como é que este tratamento funciona. Como é que nós duas ali,
falando simplesmente, poderíamos levá-la "a ter clareza sobre coisas que estavam
dentro dela e ela mesma desconhecia?" Chega e me perguntar: "você tem certeza
de que este tratamento funciona?" E como se ela tivesse lido o texto de Freud
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(1914), me diz que "tem vergonha do tratamento e o esconde de todos". Chega a
dizer que "quatro vezes por semana é coisa de doido!"
Vejo que a compulsão à repetição está se tornando consciente. Uso minha
contratransferência para indicar isto a ela e então, ela ri.
Será que alcançamos uma elaboração?
Acredito que Joana descobriu-se acompanhada. Começa a dar sinais nas
falas de que se preocupa com o tanto que me apresenta um material confuso e
repetitivo.
Mostro-lhe incessantemente que tais preocupações servem ao medo de eu
julgá-la, condená-la e até de desistir dela. Por isto lhe proponho que se tranqüilize
pois eu sabia conduzir o meu trabalho.
Neste ínterim ela vem encontrando-se com o ex-companheiro. A cada
encontro
ocorre
uma
reconstrução
do
ideal
de
homem
sobre
ele.
Interessantemente, passa a sentir-se atraída sexualmente por ele. Num
determinado dia, no entanto, ele se atrasa para um encontro e , quando chega,
está bêbado.
Na sessão apresenta um novo tipo de raiva: a raiva de algo que ela já
sabia. Vários defeitos dele podem ser ventilados, então, comigo.
Começa então o desmanche da idealização do rapaz.
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Joana começa a poder trazer para a análise assuntos do trabalho, de
pendências econômicas familiares, de amizades e até das roupas que usa.
Teorizando
A compulsão à repetição tendo sido vista, permite à paciente entender as
dificuldades que cria, inconscientemente, na análise e na vida.
Muito atuativa no início, quase sempre ligando para o telefone celular da
analista todos os finais de semana, Joana vai cedendo os acting-outs para a
possibilidade de falar mais com a analista, chegando a pedir seis sessões em
algumas semanas. Desta forma diminui também a impulsividade que lhe fazia
buscar companhias bastante inadeqüadas para minimizar seu sentimento de
solidão.
A recomendação de Freud (1914) de que tratemos a doença como uma
força atual é facilmente sentida na contra-transferência. Em muitos momentos o
tratamento da paciente me exauria, exatamente como ela devia se sentir exausta
frente a tantos abandonos e tentativas de tamponá-los, vida afora. Também
deveria ser assim que ela impregnava as pessoas com as quais vivia, criando um
clima de eterna insatisfação. À medida que análise avança, a paciente vai se
tornando cônscia de que uma relação está se estabelecendo entre nós, relação
não social mas que lhe dá o sentimento de acompanhamento e de maternagem.
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Os sonhos começam a ficar mais freqüentes e as sessões começam a
produzir insights.
Gostaria de poder trazer mais material das sessões, mas as regras de
apresentação dificultam.
Podemos apontar um trabalho futuro sobre a atualidade do pedido de
restrição feito por Freud em Recordar, repetir, elaborar (1914) aos pacientes.
Referências Bibliográficas
1) FREUD, S. (1900 - 1901) A Elaboração dos sonhos, II parte. Standard Edition
das Obras Completas de Sigmund Freud, vol XII. Rio de Janeiro: Imago
Editora.
2)
(1914) Recordar, repetir, elaborar. Standard Edition das Obras
Completas de Sigmund Freud, vol XII. Rio de Janeiro: Imago Editora.
3) MIJOLLA, A . (2002) Dicionário internacional de psicanálise. Rio de Janeiro:
Imago.
4) KLEIN, M. (1947) Contribuições à psicanálise. São Paulo: Editora Mestre Jou.
5) SEGAL, H. ( 1964) Introduction to the work of Melanie Klein. London: William
Heinemann.
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