Volume 58 - Número 1 Janeiro / Abril 2013 ISSN 0101-6067 ISSN 1809-3019 - on-line IRMANDADE DA SANTA CASA DE MISERICÓRDIA DE SÃO PAULO Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo Apoio: Fundação Arnaldo Vieira de Carvalho Provedor Kalil Rocha Abdalla Diretor Clínico Raimundo Raffaelli Filho Diretor Superintendente Antonio Carlos Forte Diretor – Faculdade de Ciências Médicas Valdir Golin Presidente da FAVC José Cândido de Freitas Júnior Editor Chefe Osmar Monte – Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo – São Paulo Brasil Editores Associados Pedro Paulo Chieffi - Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo – São Paulo - Brasil Carlos Sérgio Chiattone - Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo – São Paulo - Brasil Ligia A. da Silva Telles Mathias - Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo – São Paulo - Brasil Henrique Olavo de Olival Costa - Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo – São Paulo - Brasil Distribuição: Faculdades, Uni­ver­si­dades, Bibliotecas de Medi­cina e Ciências da Saúde, Depar­tamentos e Centros de Estudos dos Hospitais e Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo Acesso on line: http://www.fcmscsp.edu.br Peridiocidade: Quadrimestral Tiragem: 1.500 cópias Impressão: Neoband Soluções Gráficas Ltda. Tel.: (11) 2199-1200 Endereço para correspondência: Revista Arquivos Médicos Coordenação Editorial/Técnica Biblioteca - FCMSCSP Rua Dr. Cesário Mota Jr, 61, 2º andar – São Paulo – SP A/C.: Sonia Regina Fernandes Arevalo / Sabia Hussein Mustafa Fones (11) 3367.7735 – 3367.7815 e@mail: arquivosmedicos@fcmsantacasasp. edu.br Indexada na Base de Dados / LATINDEX (Sistema de Información em Línea para Revistas Científicas de América Latina, el Caribe, España y Portugal). Disponível no Portal de Periódicos da CAPES. Conselho Editorial Adauto José G. de Araújo (Fundação Oswaldo Cruz - Rio de Janeiro – Brasil) Adhemar Monteiro Pacheco Jr. (Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo – São Paulo - Brasil) Alessandra Linardi (Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo – São Paulo - Brasil) Ana Lonch Sabates (Universidade de Guarulhos¬ – Guarulhos - Brasil) Ana Luiza G. Pinto Navas (Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo – São Paulo - Brasil) Antonio José Gonçalves ((Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo – São Paulo - Brasil) Antonio Pedro F. Auge (Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo – São Paulo - Brasil) Carlos Alberto C. Lima (Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo – São Paulo - Brasil) Carlos Alberto Longui (Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo – São Paulo - Brasil) Carlos Alberto Malheiros (Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo – São Paulo - Brasil) Carlos Emilio Levy (Universidade Estadual de Campinas - Campinas - Brasil) Carmita Helena Najjar Abdo (Universidade de São Paulo – São Paulo - Brasil) Daniel Romero Muñoz (Universidade de São Paulo – São Paulo - Brasil) Dino Martini Filho (Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo – São Paulo - Brasil) Edson Borges Junior (Fertility Centro de Fertilização Assistida – São Paulo - Brasil) Eduardo Iacoponi (Lambeth Early Onset Services - London) Eitan N. Berezin (Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo – São Paulo - Brasil) Eliana Biondi de M.Guidoni (Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo – São Paulo - Brasil) Gil Guerra Junior (Universidade Estadual de Campinas –Campinas - Brasil) Hericka Zogbi Jorge Dias (Universidade Federal de Santa Maria – Santa Maria – Brasil) Hudson de Souza Buck (Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo – São Paulo - Brasil) Jair Guilherme dos Santos Junior (Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo – São Paulo - Brasil) José da Silva Guedes (Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo – São Paulo - Brasil) José Egídio Paulo de Oliveira (Universidade Federal do Rio de Janeiro – Rio de Janeiro - Brasil) José Humberto T. G. 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Dantas (Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo – São Paulo - Brasil) Maria do Carmo Q. Avelar (Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo – São Paulo - Brasil) Mariana da Silva Araujo (Universidade Federal de São Paulo – São Paulo - SP) Mauro José Costa Salles (Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo – São Paulo - Brasil) Nicolas Antonio Douglas Gómez (Universidade Metodista de São Paulo – São Bernardo do Campo – Brasil) Quirino Cordeiro Junior (Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo – São Paulo - Brasil) Raul Sérgio Martins Coimbra (University of California San Diego, San Diego, USA) Regina Aparecida Rosseto Guzzo (Irmandade da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo – São Paulo – Brasil) Roberto Alexandre Franken (Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo – São Paulo - Brasil) Roberto Stirbulov (Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo – São Paulo - Brasil) Rubens José Gagliardi (Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo – São Paulo - Brasil) Ruy Lyra da Silva Filho (Universidade Federal de Pernambuco – Recife - Brasil) Sandra Regina S. Sprovieri (Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo – São Paulo - Brasil) Saulo Cavalcanti da Silva (Irmandade da Santa Casa de Misericórdia de Belo Horizonte – Belo Horizonte – Brasil) Sheldon Rodrigo Botogoski (Irmandade da Santa Casa de Misericórdia de Curitiba – Curitiba – Brasil) Stevin Parreira Zung (Universidade de São Paulo – São Paulo - Brasil) Tânia Araújo Viel (Universidade de São Paulo – São Paulo - Brasil) Thomaz Augusto A. da Rocha e Silva (Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo – São Paulo - Brasil) Tsutomu Aoki (Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo – São Paulo - Brasil) Valdir Golin (Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo – São Paulo - Brasil) Vera Lucia dos Santos (Irmandade da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo – São Paulo – Brasil) Viviane Herrmann (Universidade Estadual de Campinas – Campinas - Brasil) Wagner Ricardo Montor (Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo – São Paulo - Brasil) Wilma Carvalho Neves Forte (Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo – São Paulo - Brasil) Wilson Luiz Sanvito (Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo – São Paulo - Brasil) Colaboração Coordenação Editorial/Técnica - Biblio­tecárias Sonia Regina Fernandes Arevalo Sabia Hussein Mustafa ISSN 0101-6067 ISSN 1809-3019 (on-line) v. 58, número 1 Jan/Abr 2013 ÍNDICE 1 ARTIGO ORIGINAL Estudo comparativo entre histeroscopia e ultrassonografia como métodos diagnósticos de patologias intrauterinas Evaluation of ultrasonography and hysteroscopy as diagnostic methods of intrauterine pathologies Alba Raquel Szesz Vargas, Sheldon Rodrigo Botogoski, Sônia Maria Rolim Rosa Lima, Aline Daniele Conte, Cristina Sandri Rossato, Luciana Maestri Karoleski, Marco Fiorese Benites 6 ARTIGO ORIGINAL A expressão da proteína p 27 em leiomioma e miométrio adjacente de mulheres com leiomiomatose uterina The p27 protein expression in leiomyomas and adjacent myometrium in women with uterin leiomyomatosis Vânia de Almeida, Sheldon Rodrigo Botogoski, Sônia Maria Rolim Rosa Lima, Aline Daniele Conte, Cristina Sandri Rossato, Luciana Maestri Karoleski, Marco Fiorese Benites 10 ARTIGO ORIGINAL Psicoterapia de grupo para pacientes diabéticos amputados e seus cuidadores Group psychotherapy of diabetes patients with amputations and their caretakers Márcia Gruber Franchini, Mariângela Gentil Savoia 18 ARTIGO ORIGINAL Influência de sintomas ansiosos no desempenho acadêmico de formandos de medicina Influence of anxious symptoms in academic performance of graduates of medicine in a test of medical residence Ísis Marafanti, Gilberto D’Elia, Maria Carolina Pedalino Pinheiro, Quirino Cordeiro, Tânia Correa de Toledo Ferraz Alves5 24 ARTIGO ORIGINAL Sondas de alimentação e broncopneumonias aspirativas Feeding tubes and aspiration bronchopneumonia Milton Luiz Gorzoni, Lilian de Fátima Costa Faria, Ambrósio Brandão, Francisco do Carmo, Marcelo Valente, Sueli Luciano Pires 29 ARTIGO DE REVISÃO Estimulação cerebral não-invasiva na prática clínica: atualização Non-invasive brain stimulation in clinical practice: update Vitor Breseghello Cavenaghi, Vitor Serafim, Michele Devido-Santos, Marcel Simis, Felipe Fregni, Rubens José Gagliardi5 34 ARTIGO DE REVISÃO Estimulação craniana por corrente contínua (ETCC) no tratamento de distúrbios psiquiátricos: o que sabemos até agora? Transcranial Direct Current Stimulation (tDCS) for treating psychiatric disorders: what do we know so far? Pedro Shiozawa, Mailu Enokibara da Silva, Felipe Fregni, Andre Russowsky Brunoni, Quirino Cordeiro 38 ARTIGO DE REVISÃO Notalgia parestésica: uma síndrome multidisciplinar Notalgia paresthetica: a multidisciplinary syndrome Nelson Guimarães Proença, Mariana de Figueiredo Silva 42 RELATO DE CASO Mediastinite pós-esofagectomia por megaesôfago chagásico: relato de caso Post esophagectomy mediastinitis due to chagasic megaesophagus: a case report Márcio Andrade Dias, Eduardo Ponte de Gouveia Vieira, Fernanda Alves de Oliveira, Maria Fernanda Chiera di Vasco Freitas, Ruy França de Almeida, Celso de Castro Pochini, Danilo Gagliardi 46 RELATO DE CASO Tumor de Frantz: um caso raro com características não habituais Frantz’s tumor: a rare case with rare characteristics Alexandre Dib Partezani, Guilherme Guardia Mattar, Rafael Ferreira Zatz, Tiago Riuji Ijichi, André de Moricz, Tércio De Campos, Adhemar Monteiro Pacheco Junior, Rodrigo Altenfelder Silva 50 ARTIGO HISTÓRICO Fortunato Gabriel Giannoni Milton Luiz Gorzoni , Raimundo Raffaelli Filho 54 NORMAS ARTIGO ORIGINAL Arq Med Hosp Fac Cienc Med Santa Casa São Paulo 2013; 58: 1-5. Estudo comparativo entre histeroscopia e ultrassonografia como métodos diagnósticos de patologias intrauterinas Evaluation of ultrasonography and hysteroscopy as diagnostic methods of intrauterine pathologies Alba Raquel Szesz Vargas1, Sheldon Rodrigo Botogoski2,Sônia Maria Rolim Rosa Lima3, Aline Daniele Conte4, Cristina Sandri Rossato4, Luciana Maestri Karoleski4, Marco Fiorese Benites4 Descritores: Histeroscopia, Ultrassonografia, Doenças uterinas Resumo Objetivo: comparar a eficácia do ultrassom e da histeroscopia diagnóstica como métodos propedêuticos para patologias intrauterinas. Determinar a sensibilidade, a especificidade, os valores preditivos positivos e negativos e a acurácia de ambos os métodos. Método: estudo retrospectivo com 142 mulheres que se submeteram à ultrassonografia transvaginal e à histeroscopia para avaliação da cavidade endometrial, realizado no Hospital Santa Casa de Curitiba, em que laudos de pacientes com alteração intrauterina na ultrassonografia foram avaliados pela histeroscopia diagnóstica e cirúrgica. Para todas as pacientes foi solicitada avaliação histopatológica através da biópsia dirigida do material obtido na histeroscopia. Os diagnósticos da ultrassonografia foram comparados com os respectivos diagnósticos histeroscópicos e ambos comparados às biópsias. Resultado: A média de idade foi de 52±4 anos. A ultrassonografia teve uma sensibilidade de 60,7% e uma especificidade de 89,23%. A acurácia chegou a 79,9%. A sensibilidade da histeroscopia foi de 97,84% e a especificidade foi de 91,1%. Obtivemos uma acurácia de 95,3%. Conclusão: concluímos que a histeroscopia mostrou-se com maior acurácia que a ultrassonografia como método propedêutico para patologias intrauterinas. Abstract Purpose: compare the effectiveness of ultrasound and diagnostic sensitivity, specificity, positive and negative predictive value and accuracy of the hysteroscopy and the ultrasonography. Method: a retrospective study with 142 women who underwent transvaginal ultrasound and hysteroscopy for evaluation of the endometrial cavity, conducted at Hospital Santa Casa de Curitiba, where reports of patients with intrauterine changes in ultrasonography were assessed by diagnostic and surgical hysteroscopy. For all patients histopathological evaluation was requested by directed biopsy of material obtained at hysteroscopy. The ultrasound diagnoses were compared with the respective histeroscopic diagnoses and both compared to biopsies. Result: The average age was 52±4 years. Ultrasound had a sensitivity of 60,7% and a specificity of 89,23%. The accuracy reached 79,9%. The sensitivity of hysteroscopy was 97,84% and specificity was 91,1%. We obtained an accuracy of 95,3%. Conclusion: we conclude that hysteroscopy proved to be more accurate than ultrasound as a method for intrauterine pathology. Keywords: Hysterocopy, Ultrasonography, Uterine diseases 1. Médica Residente do Serviço de Ginecologia da Santa Casa de Curitiba – Aliança Saúde – Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR) 2. Professor Adjunto do Departamento de Tocoginecologia da Universidade Federal do Paraná e Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR) 3. Professor Adjunto da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo – Departamento de Obstetrícia e Ginecologia 4. Alunos do Curso de Medicina da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR) Trabalho realizado: Serviço de Ginecologia – Santa Casa de Curitiba – Aliança Saúde – Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR) Endereço para correspondência: Sheldon Rodrigo Botogoski. Santa Casa de Curitiba – Sala de Ginecologia. Rua André de Barros, 694 – Centro – 80010-030 – Curitiba – PR – Brasil. E-mail: [email protected] Introdução O sangramento vaginal irregular é um dos principais motivos que levam as mulheres a procurarem um ginecologista; e dentro das causas de sangramento uterino anormal as mais frequentes são atrofia e lesões benignas do endométrio(1,2). Ao se deparar com a suspeita de qualquer alteração na cavidade endometrial, o clínico deve continuar a propedêutica até que se obtenha o diagnóstico final(3). O endométrio possui espessura variada, conforme a idade e a fase do ciclo menstrual, e assenta-se sobre o miométrio(3,4). Pode-se dividir em três camadas: basal, esponjosa e compacta (sendo as duas 1 Vargas ARS, Botogoski SR, Lima SMRR, Conte AD, Rossato CS, Karoleski LM, Benites MF. Estudo comparativo entre histeroscopia e ultrassonografia como métodos diagnósticos de patologias intrauterinas. Arq Med Hosp Fac Cienc Med Santa Casa São Paulo. 2013; 58: 1-5. últimas as funcionais). Durante o ciclo menstrual, o endométrio é dividido em: menstrual inicial, final da menstruação, fase proliferativa (inicial com 2 a 5mm de espessura e tardia com 6 a 7mm), ovulação (6 a 7mm), secretora (inicial com 8 a 9mm e tardio maior que 7mm), primeiros sinais menstruais e pré-menstrual imediato(5). Tanto a hiperplasia endometrial quanto o câncer de endométrio cursam, em geral, com espessamento endometrial. O método mais difundido e utilizado para o diagnóstico destas patologias é o ultrassom, pela sua ampla utilização na prática clínica, uma vez que é um exame rápido, com baixo custo e, em geral, bem tolerado pelas mulheres(6). A via de escolha para a avaliação da cavidade uterina e da espessura endometrial em mulheres após a menopausa é a vaginal(7). A espessura endometrial apresenta elevada acurácia para o diagnóstico de câncer endometrial, em especial nas mulheres após a menopausa(8). Quase todos os estudos realizados para avaliar a acurácia do exame ultrassonográfico utilizaram como ponto de corte 4 ou 5mm, limite abaixo do qual a possibilidade de se encontrar doença maligna é extremamente baixa(9). O aumento da espessura endometrial pode ser causado por pólipos endometriais, hiperplasia endometrial ou, até mesmo, carcinoma de endométrio(8). O ultrassom consegue diagnosticar pólipos, septos e miomas submucosos com elevada acurácia. Porém, a histeroscopia tem sido indicada para se confirmar e remover estas alterações(10). A histeroscopia é considerada um exame padrão-ouro na avaliação do endométrio quando se exclui a biópsia, pois permite a visualização direta da cavidade e possibilita a abordagem terapêutica das lesões(10). Após a menopausa, a histeroscopia apresenta os melhores índices de sensibilidade e especificidade na detecção de alterações endometriais(11). No presente estudo objetivou-se a comparação da acurácia da ultrassonografia e da histeroscopia no diagnóstico de patologias intrauterinas. gica e foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Pontifícia Universidade Católica do Paraná. Este Hospital recebe pacientes de Centros de Atendimento à Mulher, obedecendo à lógica do sistema de Referência e Contra-referência, que é o processo de articulação com outras instituições de saúde para o encaminhamento, transferência e recepção de pacientes. Ao chegar ao ambulatório de ginecologia a paciente já apresenta o laudo ultrassonográfico. A amostra foi homogeneizada e os exames histeroscópicos foram realizados pelo mesmo profissional do serviço de Ginecologia da Santa Casa de Curitiba – Aliança PUCPR. Foi realizada a anamnese ginecológica, exame clínico e ginecológico e avaliados os exames ultrassonográficos; caso houvesse indicação de estudo histológico do endométrio, se procedia a histeroscopia. Os dados foram inseridos em laudo sistematizado. Para a realização da histeroscopia procedeu-se a colocação do espéculo, visualização do colo uterino e pinçamento do lábio anterior com pinça de Pozzi: introduziu-se a ótica de histeroscopia no colo uterino através do orifício externo, passando-se a estudar cada segmento do canal cervical, orifício interno e cavidade uterina. Essas imagens foram avaliadas através de um monitor de alta resolução e sugerido o diagnóstico de acordo com a visualização da patologia(12). Para todas as pacientes, mesmo àquelas 6 pacientes que apresentavam ultrassom normal foi solicitada avaliação histopatológica através da biópsia dirigida do material obtido na histeroscopia. Todo o diagnóstico histopatológico foi realizado no Centro de Citologia e Patologia Paraná (CITOPAR), localizado em Curitiba, Paraná. Foram avaliados 142 laudos emitidos entre março de 2008 e maio de 2011. Foi organizada uma tabela para a identificação dos diagnósticos histeroscópicos e de ultrassonografia. Os diagnósticos da ultrassonografia foram comparados com os respectivos diagnósticos histeroscópicos e ambos comparados às biópsias. Os critérios ultrassonográficos utilizados para a caracterização das imagens foram baseados na medida da camada basal da parede anterior à posterior, no corte longitudinal, considerando: a) Espessura acima de 5mm após a menopausa sem terapia hormonal (TH); b) Espessura acima de 14mm no menacme; c) Líquido na cavidade; d) Heterogeneidade(13). De acordo com as imagens histeroscópicas, foram caracterizados: sugestivo de normalidade; imagens benignas como hipertrofias simples, hipertrofias polipoides, endometrites, pólipos, adenomiose, sinéquias, atrofia, dispositivo intrauterino (DIU) em cavidade, distrofias vasculares, septos, mioma submucoso; imagens suspeitas e natureza complexa que são imagens que mostram alteração na formação dos vasos, Métodos Estudo retrospectivo, no qual foram selecionados 150 prontuários de pacientes que apresentavam alterações endometriais visualizadas pela ultrassonografia e destes foram descartados oito prontuários pois as pacientes foram submetidas a curetagem uterina de prova. Restaram 142 prontuários no qual os laudos das pacientes com alteração intrauterina visualizadas na ultrassonografia transvaginal foram avaliadas pela histeroscopia diagnóstica e cirúrgica, sendo o padrão ouro a histologia final. O estudo foi realizado na Santa Casa de Curitiba – Aliança Saúde - PUCPR, Setor de Cirurgia Ginecoló- 2 Vargas ARS, Botogoski SR, Lima SMRR, Conte AD, Rossato CS, Karoleski LM, Benites MF. Estudo comparativo entre histeroscopia e ultrassonografia como métodos diagnósticos de patologias intrauterinas. Arq Med Hosp Fac Cienc Med Santa Casa São Paulo. 2013; 58: 1-5. da superfície, da cor e sugerem início de processo de degeneração com necrose e sangramento; hipertrofias cerebroides e atrofia cística. Foram considerados resultados em concordância positiva, quando ambos os métodos foram anormais, ou seja, as imagens encontradas eram sugestivas de patologias endometriais. Foram considerados resultados em concordância negativa quando estavam em desacordo. A ultrassonografia estava alterada e o exame histeroscópico revelava cavidade uterina sem anormalidades. O cálculo estatístico foi realizado com o programa SPSS 16.0, calculando-se sensibilidade, especificidade, valor preditivo positivo, valor preditivo negativo e acurácia dos métodos avaliados no estudo. Tabela 2 Resultados encontrados na histeroscopia Pólipo 42 29,6 Espessamento endometrial 81 57,0 Mioma submucoso 4 2,8 Sinéquias 2 1,4 Endometrite 1 0,7 Espessamento endometrial 6 + Pólipo 4,2 Total 100,0 142 91 64,1 Hipertrofia simples 12 8,5 Mioma submucoso 8 5,6 Sinéquias 5 3,5 Atrofias 13 9,2 Imagens suspeitas 1 0,7 3 2,1 142 100,0 Tabela 3 Resultados encontrados na biópsia Porcentagem 4,2 Pólipo nografia a qual evidenciou espessamento focal de endométrio. Os resultados histológicos obtidos pelas biópsias ficaram mais concordantes com os achados das histeroscopias. A tabela 3 demonstra os resultados das biópsias realizadas pós histeroscopia e envio de material para avaliação anatomopatológica. Tabela 1 Resultados encontrados na ultrassonografia transvaginal 6 6,3 Total A população estudada constituiu-se de 142 mulheres que se submeteram ao ultrassom transvaginal e à histeroscopia para avaliação da cavidade endometrial. Todas estavam no período do climatério e eram assintomáticas. A média de idade destas mulheres foi de 52±4 anos. Na tabela 1 encontramos os resultados da ultrassonografia transvaginal. Líquido na Cavidade Porcentagem 9 Hipertrofia polipoide Resultados Frequência Frequência Sugestivo de normalidade Frequência Porcentagem Normal 12 8,5 Pólipo 93 65,5 Hiperplasia simples sem atipia 7 4,9 Mioma submucoso 10 7,0 Hiperplasia Fibrosa 3 2,1 Atrofias 12 8,5 Câncer 1 0,7 Hiperplasia simples sem atipia + pólipo 4 2,8 142 100,0 Total A biópsia demonstrou 65,5% de pólipos, sendo esta a patologia mais frequente. Atrofia endometrial esteve presente em 8,5% dos exames e hiperplasia simples sem atipia em 4,9%. O caso de imagem sugestiva de câncer encontrado na histeroscopia confirmou-se na biópsia. As tabelas 4 e 5 mostram os índices diagnósticos da ultrassonografia e da histeroscopia. A ultrassonografia mostrou sensibilidade de 60,7% e uma especificidade de 89,23%. A acurácia chegou a 79,9%. A sensibilidade da histeroscopia foi de 97,84% e a especificidade foi de 91,1%. Obtivemos uma acurácia de 95,3%. Nos exames de ultrassonografia, o espessamento endometrial foi a patologia de maior incidência, 57%. Pólipo constitui o segundo lugar com 29,6% das patologias. Espessamento endometrial e pólipo uterino foram encontrados em 6% dos exames. Os achados histeroscópicos foram relativamente diferentes da ultrassonografia e encontram-se na tabela 2. Nas histeroscopias, o pólipo endometrial foi a patologia mais frequente, 64,1%. As atrofias endometriais somaram 9,2% e as hipertrofias simples 8,5%. Encontramos 1 caso de imagem suspeita de câncer de endométrio que não foi observado na ultrasso- 3 Vargas ARS, Botogoski SR, Lima SMRR, Conte AD, Rossato CS, Karoleski LM, Benites MF. Estudo comparativo entre histeroscopia e ultrassonografia como métodos diagnósticos de patologias intrauterinas. Arq Med Hosp Fac Cienc Med Santa Casa São Paulo. 2013; 58: 1-5. realizado previamente por diferentes profissionais e em diferentes equipamentos para o serviço de ginecologia endoscópica do Hospital Santa Casa de Curitiba e não foram realizados exames confirmatórios de ultrassom neste serviço. Também encontramos na literatura médica trabalhos que mostram que foram realizados exames pelo mesmo profissional e no mesmo equipamento, encontrando também baixa sensibilidade. Um estudo com mulheres após a menopausa, assintomáticas, mostrou uma sensibilidade de 59,7% e 91%, respectivamente, para o ultrassom e para a histeroscopia, assim como uma especificidade de 35,5% e 82%(20). Outro estudo apresentou para o ultrassom e para a histeroscopia uma sensibilidade de 60% e 100% e uma especificidade de 32,6% e 46,2%, respectivamente(21). Machado et al (2003)(22) ao avaliarem a acurácia da histeroscopia em pacientes após a menopausa com sangramento vaginal, demonstraram que a sensibilidade e especificidade deste método foram respectivamente 85,7% e 88,7%. Estes autores relacionam os baixos índices de diagnóstico à utilização da técnica de biópsia orientada, principalmente nos casos de miomas, neoplasias e hiperplasias endometriais(22). Alguns estudos mostram uma especificidade mais baixa do ultrassom em mulheres com sangramento após a menopausa. Um estudo com 419 mulheres mostrou sensibilidade de 95,1% e especificidade de 54,8% para o ultrassom e 96,5% e 93,6% para histeroscopia(23). Observamos 0,7% de casos de câncer no endométrio, 4,9% de hiperplasia endometrial e 64% de pólipo endometrial. Na literatura estas percentagens são semelhantes ao nosso estudo. Cepni (2005) observou 55% de pólipo endometrial, 2% de câncer de endométrio e 7% de hiperplasia endometrial; Angioni (2008) observou 41% de pólipo endometrial, 4,7% de câncer de endométrio e 18% de hiperplasia endometrial; Machtinger et al (2005)(24) obteviveram 79% de pólipos, 3% de câncer e 6,5% de hiperplasia(21,2,24). Desta maneira o presente trabalho visou trazer uma contribuição, com embasamento científico através de estudos publicados na área médica, para que o profissional da área da saúde frente a um exame de ultrassonografia que demonstre alteração endometrial, possa escolher dentro dos métodos existentes de diagnóstico e tratamento, aquele que se apresenta com melhor acurácia. Concluímos que a histeroscopia mostrou-se mais eficaz (demonstrando maior acurácia) que a ultrassonografia como método propedêutico para as patologias intrauterinas. Porem, sabemos que são exames que se complementam e que o ultrassom continua sendo um excelente método de rastreio e suspeita diagnóstica para patologias endometriais. Tabela 4 Índices diagnósticos na ultrassonografia Ultrassonografia Intervalo de confiança 95 RESULTADOS: Sensibilidade 0.607143 IC: 0.495 a 0.6959 Especificidade 0.892308 IC: 0.7433 a 0.9388 Valor preditivo positivo 0.910714 IC: 0.7963 a 0.9666 Valor preditivo negativo 0.56 IC: 0.4409 a 0.6733 Acurácia 0.799 IC: 0.6945 a 0.8266 Tabela 5 Índices diagnósticos na histeroscopia Ultrassonografia Intervalo de confiança 95 RESULTADOS: Sensibilidade 0.9784 IC: 0.8815 a 0.9771 Especificidade 0.9107 IC: 0.8517 a 0.9877 Valor preditivo positivo 0.9479 IC: 0.8770 a 0.9806 Valor preditivo negativo 0.9622 IC: 0.8591 a 0.9934 Acurácia 0.953 IC: 0.8771 a 0.9890 Discussão O ultrassom é uma ferramenta no diagnóstico das diferentes anormalidades intrauterinas, porem não permite o diagnóstico exato das doenças(14). No presente estudo observou-se que das 142 mulheres com ultrassom alterado, 6,3% apresentaram histeroscopia sugerindo normalidade, o que difere de alguns autores. Gumus et al (2008)(15), observaram que em 77 ultrassons alterados, 27% de histeroscopia foram normais e Timmermans (2008)(16) que em 170 ultrassons alterados, 47% das histeroscopias foram normais. Em nosso estudo, o ultrassom apresentou acurácia menor que a histeroscopia (79,9% e 95,3%, respectivamente) para o diagnóstico de patologias intrauterinas nestas mulheres. Na literatura também foram observados resultados semelhantes, em que a histeroscopia tem maior acurácia que o ultrassom(17-19). Observamos que o ultrassom apresentou uma sensibilidade de 60,71% e uma especificidade de 89,23%, enquanto que a histeroscopia obteve uma sensibilidade de 97,84% e uma especificidade de 91,07% para o diagnóstico das patologias intrauterinas. Notamos que a histeroscopia é muito mais sensível que o ultrassom. Essa sensibilidade baixa encontrada para o ultrassom justifica-se pelo fato de que as mulheres vieram encaminhadas da Rede Básica de Atenção à Saúde já com o exame de ultrassom 4 Vargas ARS, Botogoski SR, Lima SMRR, Conte AD, Rossato CS, Karoleski LM, Benites MF. Estudo comparativo entre histeroscopia e ultrassonografia como métodos diagnósticos de patologias intrauterinas. Arq Med Hosp Fac Cienc Med Santa Casa São Paulo. 2013; 58: 1-5. Referências Bibliográficas sampling in patients with postmenopausal bleeding. Am J Obstet Gynecol. 1990; 163:119-23. 14. Smith P, Bakos O, Heimer G, Ulmsten U. Transvaginal ultrasound for identifying endometrial abnormality. Acta Obstet Gynecol Scand. 1991; 70:591-4. 15. Gumus II, Keskin EA, Kiliç E, Aker A, Kalalr H, Turhan NO. Diagnostic value of hysteroscopy end hysterosonography in endometrial abnormalities in asymptomatic postmenopausal women. Arch Gynecol Obstet. 2008; 278:241-4. 16. Timmermans A, Gerritse BEM, Opmeer BC, Jansen FW, Mol BWJ. 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Método: foram incluídas nesse estudo prospectivo, randomizado, estratificado, 35 mulheres, em idade reprodutiva, recrutadas no Ambulatório de Ginecologia do Hospital Santa Casa de Curitiba, entre os anos 2009 a 2010. As mulheres foram previamente avaliadas pela história clínica, exame físico, e ultrassonografia transvaginal, sendo submetidas à histerectomia total abdominal, após falha no tratamento clínico. O estudo da expressão da proteína p27 foi realizado pelo método imunohistoquímico e a análise estatística foi obtida através de medias dos dados colhidos. Resultado: encontramos que a média de idade foi 45 anos, sendo a raça branca predominante e com sobrepeso. O volume uterino médio foi de 284,45cm3 com miométrio de eco textura heterogêneo. A localização do mioma mais encontrado foi submucoso (30%) e com tamanho médio de 4,37cm. Através do nosso estudo encontramos que a proteína p27 esta fortemente presente no miométrio (73,33%), já no leiomioma a sua expressão è menor (43,33%). Conclusão: a proteína p27 esteve mais expressa no miométrio adjacente do que no leiomioma uterino. Abstract Purpose: Verify the presence of p27 protein in uterine leiomyoma and adjacent myometrium. Method: in this prospective randomized stratified study were included 35 women of reproductive age recruited at the Clinic of Gynecology, Santa Casa de Curitiba Hospital, between the years 2009 to 2010. Women were previously assessed by clinical history, physical examination and transvaginal ultrasound and underwent total abdominal hysterectomy, after clinical treatment failure. The study of expression of p27 protein was performed by immunohistochemistry and statistical analysis was obtained using the average of data collected. Result: the average age was 45 years, with a predominantly Caucasian and overweight. The mean uterine volume was 284.45cm3 with heterogeneous echo texture of the myometrium. The location of the fibroid was the most common submucosal (30%) and average size of 4.37cm. Through our study, we found that the p27 protein is strongly present in the myometrium (73.33%); since its expression in leiomyoma is lower (43.33%). Conclusion: the p27 protein was expressed in more than adjacent myometrium in uterine leiomyoma. Keywords: Cyclin-dependent kinase inhibitor p27, Leiomyoma, Myometrium, Cell cycle 1. Médica Residente do Serviço de Ginecologia da Santa Casa de Curitiba – Aliança Saúde – Pontificia Universidade Católica do Paraná (PUCPR) 2. Professor Adjunto do Departamento de Tocoginecologia da Universidade Federal do Paraná e Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR) 3. Professor Adjunto da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo – Departamento de Obstetrícia e Ginecologia 4. Alunos do Curso de Medicina da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR) Trabalho realizado: Serviço de Ginecologia – Santa Casa de Curitiba – Aliança Saúde – Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR) Endereço para correspondência: Sheldon Rodrigo Botogoski. Santa Casa de Curitiba – Sala de Ginecologia. Rua André de Barros, 694 – Centro – 80010-030 – Curitiba – PR – Brasil. E-mail: [email protected] Introdução Leiomiomas são tumores benignos, frequentes na idade reprodutiva e formados por células de origem miometrial e contém quantidade variável de tecido conjuntivo fibroso. Os achados de ultrassom demonstram uma variabilidade de 30%, ao redor dos 35 anos de idade e de 80%, ao redor dos 50 anos de idade(1). Os fatores de risco são raça negra, menarca antes dos 11 anos de idade, historia familiar que apresenta antecedente de leiomioma em parentes de primeiro grau e índice de massa corporal (IMC) maior que 30 kg/m2.(2) Os sintomas são relacionados diretamente ao 6 Almeida V, Botogoski SR, Lima SMRR, Conte AD, Rossato CS, Karoleski LM, Benites MF. A expressão da proteína p 27 em leiomioma e miométrio adjacente de mulheres com leiomiomatose uterina. Arq Med Hosp Fac Cienc Med Santa Casa São Paulo. 2013; 58: 6-9. tamanho, ao número e a localização dos miomas e sua transformação maligna, se houver, é evento extremamente raro(3). Sua etiopatogenia ainda não é completamente conhecida. O desenvolvimento e o crescimento dos leiomiomas resultam de complexa interação entre os hormônios esteroides, fatores de crescimento, citocinas e mutações somáticas(4). Esses seguem o processo do ciclo celular, onde uma célula somática duplica seu material genético e o reparte igualmente as suas células filhas. O ciclo celular é divido em duas fases: interfase (subdividida em G1, S e G2) e mitose (M). O período que mais sofre influência de fatores extracelulares, bem como inibidores e mutações do DNA que podem bloquear a proliferação é a fase G1 da interfase. Esta fase apresenta como característica o reinício da síntese de RNA e proteínas, interrompidos na mitose, proporcionando crescimento celular(5). As atividades do ciclo celular são comandadas por ciclinas, kinases dependentes de ciclina (CDK-s) e seus inibidores(6). Os controladores positivos do ciclo celular estimulam a progressão da célula no ciclo celular e são as CDKs e as ciclinas. Já os controladores negativos inativam as funções dos controladores positivos, como as CKIs (inibidores de kinase dependente de ciclina), o complexo ubiquitina e as fosfatases. A proteína p27 é membro da família dos inibidores das quinases dependentes das ciclinas (CDKI) e ela bloqueia a transição da célula de G1 para S. Ela é considerada um potente tumor supressor e há uma relação direta entre o baixo nível de p27 e a rápida proliferação em estados benignos e muito malignos(7). No leiomioma uterino ela induz apoptose, reduzindo a viabilidade e proliferação das células leiomiomatosas(8). Este estudo prospectivo, randomizado e estratificado teve como objetivo verificar a expressão da proteína p27 em mioma e miométrio adjacente de mulheres com leiomiomatose uterina. leiomiomatose uterina em período fértil e de perimenopausa, com sintomatologia clínica, exame físico compatível e ultrassonografia transvaginal demonstrando o mioma, e mioma e miométrio adjacentes retirados através da histerectomia total abdominal e confirmados pelo estudo histopatológico. Os critérios de exclusão foram: estudo histopatológico com diagnóstico de adenomiose e miométrio escasso para estudo da expressão imunohistoquímica para p27. As mulheres do ambulatório realizaram ultrassonografia transvaginal no Hospital Santa Casa de Curitiba para confirmar a presença de leiomiomatose uterina. O exame teve como finalidade avaliar o volume uterino, através das respectivas medidas antero-posterior, longitudinal e transversa, bem como a espessura do endométrio, volume dos ovários e localização dos miomas e suas medidas. A mensuração do eco endometrial foi realizada, com a imagem congelada, no sentido anteroposterior, em secções longitudinais do útero, incluindo suas camadas endometriais, a partir da interface ecogênica da junção miométrio-endométrio, de um lado ao outro. Foi realizada medida, na maior espessura possível, desde a interface miométrio-endométrio da parede anterior do útero ate a interface miométrio-endométrio da parede posterior. Para o cálculo do volume uterino foi utilizada a regra: volume = comprimento x largura x diâmetro AP x 0.45 nos úteros de formato piriforme e x 0.52 nos outros formatos (10). O exame ainda avaliou morfologicamente os ovários e o volume ovariano através das medidas no eixo longitudinal, anteroposterior e transverso(9). Os miomas e o miométrio adjacente foram obtidos da peça cirúrgica uterina que foi retirada através da técnica cirúrgica denominada de histerectomia total abdominal. O material coletado da peça cirúrgica foi adquirido da seguinte forma: incisionada uma amostra do leiomioma com miométrio adjacente, sendo a espessura de 4 a 5 mm e dimensões não maiores que 2 cm. O tamanho padrão foi de 2 x 1,5 cm. Os blocos parafinados, relativos aos casos em estudo, foram cortados em micrótomo de parafina e os cortes de 4 micra de espessura foram estendidos em lâminas ionizados e colocados em estufa a 30ºC durante 12 horas para melhor aderência desses às lâminas. Depois de identificadas pelo anticorpo as lâminas voltaram a estufa a 60oC por 20 min e, a seguir, foram colocadas três banhos de xilol (2 minutos cada) e em três banhos de álcool em concentrações decrescentes de 95%, 70% e 50% (2 minutos cada), conforme procedimento histotecnico usual, em temperatura ambiente. A recuperação antigênica seguiu os procedimentos descritos no data-sheet do anticorpo. Foram mergulhadas em tampão CITRATO com pH 6.0 em camara de pressão PASCAL Métodos Foram incluídas neste estudo prospectivo randomizado estratificado, 35 mulheres no período reprodutivo e perimenopausa com diagnóstico de leiomiomatose uterina, que apresentavam diagnóstico de mioma uterino através da sintomatologia clínica, do exame físico e da ultrassonografia transvaginal, no período de 2009 até fevereiro de 2010 no ambulatório de patologias uterinas benignas do Hospital Santa Casa de Misericórdia de Curitiba. Destas, 30 preencheram os critérios de inclusão, com o diagnóstico de leiomiomatose sendo comprovado pela histerectomia total abdominal e estudo histopatológico. Os critérios de inclusão foram: mulheres com 7 Almeida V, Botogoski SR, Lima SMRR, Conte AD, Rossato CS, Karoleski LM, Benites MF. A expressão da proteína p 27 em leiomioma e miométrio adjacente de mulheres com leiomiomatose uterina. Arq Med Hosp Fac Cienc Med Santa Casa São Paulo. 2013; 58: 6-9. Após essas etapas, as lâminas foram lavadas em água destilada, em seguida a atividade da peroxidase endógena foi bloqueada através da imersão em peróxido de hidrogênio a 3% em metanol a 70% durante 20 minutos. Após esta etapa, as lâminas foram lavadas em água destilada e colocadas em tampão PBS pH 7,4 com TWIN 20 marca Sigma cód. P7949 para diminuir o background, foram 3 banhos de 1 minuto cada. Em seguida, os cortes foram ciclados por uma caneta hidrofóbica de marca Dako cód. S2002 para evitar que a solução com o anticorpo diluído escorresse e aplicado o anticorpo p27 (clone SX53G8) da marca DAKO cód. K004. Após 10 minutos de reação em temperatura ambiente foi aplicado o kit MACH 4 UNIVERSAL HRP-POLYME da Biocare Medical, sendo que ao fim de cada etapa as laminas foram lavadas em tampão PBS-TWIN20. A seguir foi adicionado o cromógeno DAB marca DAKO cód. K3466 por 30 segundos a 1 minuto em média. Em seguida, as laminas foram lavadas em água destilada e contracoradas em hematoxilina de Harris, azuladas em água corrente, desidratadas em álcool com contrações crescente 50%, 70%, 90% e PA e depois quatro banhos de xilol e finalmente montadas com goma de Damar da marca Proquímicos para fixação das lamínulas e posterior observação ao microscópio óptico. Utilizou-se o programa Microsoft Excel 2003 para arquivamento de informações e contagem de campos, assim como foi realizado o calculo das medias variáveis apresentado no estudo. O parâmetro empregado na imunohistoquímica da expressão da proteína p27 foi a quantidade em porcentagem das células corados e a intensidade desta coloração entre si, identificados pela coloração marrom sépia das células(11). Todas as lâminas foram analisadas no mesmo dia e por um único profissional. As analises descritivas, para as variáveis qualitativas, foram tabuladas e descritas em porcentagem. à cirurgia e 4 (13,3%) não realizaram, sendo indicada como primeira opção de tratamento a cirurgia. Na análise da ultrassonografia transvaginal foram avaliados os seguintes dados: a espessura endometrial, volume uterino, volume ovariano, eco textura do miométrio e tamanho do mioma com sua respectiva localização. A espessura media do endométrio foi de 8,83mm. O volume uterino médio foi de 284,45cm³; o volume ovariano direito médio foi de 6,015cm³ e o volume ovariano esquerdo médio foi de 6,05cm³. A eco textura miometrial demonstrou que 28 (93,3%) eram heterogêneos e os demais homogêneos. O tamanho médio do leiomioma uterino ficou na media de 4,37cm. Quanto à localização do leiomioma, 6 (20%) eram intramurais, 9 (30%) submucosos, 2 (6,66%) submucoso/subseroso, 1 (3,33%) submucoso/subseroso/intramural e 3 (10%) não foi especificada a sua localização. No método imunoistoquimico foi analisado a expressão da proteína p27 no miométrio adjacente ao leiomioma e no próprio leiomioma uterino. Ela esteve presente na amostra do miométrio em 22 (73,33%) e 7 (23,3%) se apresentaram negativo, e ainda 1 demonstrou tecido miometrial escasso. No leiomioma uterino a p27 esteve negativa em 16 (53,33%) e positiva em 14 (43,33%). Discussão O papel da p27 como um possível gene supressor de tumor tem sido apontado por vários investigadores(10). Podemos dizer que a proteína p27 em leiomioma uterino induz apoptose, reduzindo a viabilidade e a proliferação de células miomatosas(12). O estudo realizado por Ramachandran et al (2008) (8) teve como primeiro objetivo investigar a expressão da p27 no leiomioma uterino, de maneira a identificar os caminhos moleculares que podem ser importantes no desenvolvimento do leiomioma uterino. A expressão da p27 em miométrio normal levanta a questão da sua exclusividade no papel da leiomiomatose uterina. A possível razão para supressão da p27 no leiomioma uterino é atribuída pelos hormônios. Estrogênio participa na proliferação de células miomatosas e na supressão da expressão da p27, que tem sido elucidada em tecidos de câncer endometrial(8). A meta principal do estudo foi analisar a expressão da p27 no miométrio normal adjacente ao leiomioma e no leiomioma uterino. Encontramos que ela aparece no miométrio normal em 73,33% e no mioma em 43,33% Embora o tema seja controverso, mulheres com IMC aumentado tem chance maior de serem portadoras de leiomiomas em torno de 2 a 3 vezes mais que as magras(13) . Nossos dados demonstraram que a media do IMC foi 28,4 (mulheres com sobrepeso). No entanto, Resultados A média de idade das pacientes estudadas foi de 45 anos de idade. Da população em estudo, 20 (66,6%) eram branca, 8 (26,6%) negra e 2 (6,66%) parda. O número de gestações foi de 1,8 nas que relataram parto normal; 0,43 partos cesáreos, 0,4 abortamentos e uma era nulípara. O peso médio foi de 75,87kg; a altura media foi 1,62m e o índice de massa corpórea foi de 28,4. Na população analisada o principal sintoma foi metrorragia, apresentado por 21 mulheres (70%), seguido de dor tipo cólica em baixo ventra (DTCBV), apresentado por 9 mulheres (30%). Das pacientes estudadas 26(86,6%) realizaram tratamento clínico prévio 8 Almeida V, Botogoski SR, Lima SMRR, Conte AD, Rossato CS, Karoleski LM, Benites MF. A expressão da proteína p 27 em leiomioma e miométrio adjacente de mulheres com leiomiomatose uterina. Arq Med Hosp Fac Cienc Med Santa Casa São Paulo. 2013; 58: 6-9. não houve um grupo controle em nosso estudo para confirmar os dados previamente citados na literatura. A principal queixa que encontramos foi metrorragia (70%). Duarte 2000, descreveu que o excesso menstrual ocorre em 30 a 60% dos casos. A ligação casual entre leiomioma e excesso menstrual, menorragia ou hipermenorreia, parece estar relacionada à indução de anormalidades vasculares nas adjacências do tumor, inclusive no endométrio. Kupperman et al (2004)(14) realizaram um ensaio clinico randomizado que comparou a histerectomia com o tratamento medicamentoso na função sexual e na qualidade de vida das mulheres com sangramento uterino não responsivo a medroxiprogesterona. Após seis meses, a histerectomia foi superior em melhorar todos os parâmetros analisados e com seguimento mais longo metade das mulheres randomizadas para tratamento clínico solicitaram a realização da histerectomia. Nas mulheres neste estudo o tratamento clínico foi realizado na maioria dos casos (86,6%), mas não obteve resultado desejado; tendo como melhor resposta o tratamento cirúrgico(14). Na pesquisa realizada por Ramachandran et al (2008)(8) revelou que a expressão da p27 é mais predominante nas células leiomiomatosas comparadas com o tecido miometrial. Assim como, já foi relatado que a p27 esta marcadamente reduzida em tumores agressivos(8). Neste estudo, percebemos que a p27 está fortemente presente no miométrio, já no leiomioma a sua expressão é menor. Através da revisão de literatura, podemos concluir que poucos estudos foram relacionados à expressão da p27 e leiomioma uterino. Os poucos realizados demonstram a importância dessa proteína no ciclo celular bloqueando a transição de G1 para S e na leiomiomatose uterina a p27 age como um potente tumor supressor. A análise da expressão positiva da proteína p27 em nosso estudo foi menos significativa no leiomioma uterino (43,3%) do que no miométrio adjacente (73,3%). Sendo assim, esse trabalho demonstra a necessidade de realizar novos estudos para elucidar melhor o mecanismo da p27 no leiomioma uterino, assim como possibilitar novas estratégias em relação ao seu diagnóstico, terapêutica e prognóstico. Referências Bibliográficas 1. Parker WH. Etiology, symptomatology, and diagnosis of uterine myomas. Fertil Steril. 2007; 87:725-36. 2. Schwartz SM. Epidemiology of uterine leiomyomata. Clin Obstet Gynecol. 2001; 44:316-26. 3. Ozols RF, Schwartz PE, Eifel PJ. Ovarian cancer, fallopian tube carcinoma, and peritoneal carcinoma. In: DeVita Jr VT, Hellman S, Rosenberg SA, eds. Cancer: principles and practice of oncology, 6th ed. Philadelphia, Pa: Lippincott Williams & Wilkins; 2001. p.1597-632. 4. Sozen I, Arici A. 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Trabalho recebido: 02/01/2013 Trabalho aprovado: 15/04/2013 9 ARTIGO ORIGINAL Arq Med Hosp Fac Cienc Med Santa Casa São Paulo 2013; 58: 10-7. Psicoterapia de grupo para pacientes diabéticos amputados e seus cuidadores Group psychotherapy of diabetes patients with amputations and their caretakers Márcia Gruber Franchini1, Mariângela Gentil Savoia2 danças práticas, a observação clínica mostrou a importância da inserção dos cuidadores, porque são eles que dão suporte e auxílio aos pacientes, o que pode repercutir na melhora do tratamento de reabilitação. Resumo O objetivo deste artigo foi comparar as modalidades de grupos psicoterapêuticos utilizados no processo de reabilitação de pacientes amputados por diabetes tipo II. A principal variável analisada foi a inserção ou não dos cuidadores no trabalho psicoterapêutico. Participaram dessa pesquisa sete pacientes e seus cuidadores divididos em três grupos, no primeiro grupo estavam quatro pacientes e seus respectivos cuidadores, no segundo grupo três pacientes e no terceiro os cuidadores dos pacientes do segundo grupo. Foram realizadas dez sessões semanais com duração de 50 minutos. Esses encontros foram estruturados e a pesquisadora trouxe temas específicos para reflexão onde os participantes puderam expor as dificuldades relacionadas ao tratamento, à família e à sociedade, inclusive a repercussão emocional do processo pelo qual passavam. Os instrumentos utilizados foram entrevistas semidirigidas antes e depois dos encontros. Comparando as entrevistas e analisando as sessões grupais foram observados indícios de mudanças tanto nos pacientes quanto nos cuidadores, mas não entre os grupos. Nos pacientes observou-se uma maior aceitação com relação ao diabetes, a amputação e idéia da prótese, além de uma melhora no cotidiano, estado mental e no relacionamento com o cuidador. Os cuidadores também observaram mudanças no cotidiano, e melhoras no relacionamento com os pacientes. De qualquer forma, tendo em vista a repercussão nas mu- Descritores: Idoso, Cuidadores, Diabetes mellitus tipo 2/ psicologia, Amputação, Psicoterapia de grupo Abstract The present article had the aim to compare two modalities of group psychotherapy used in the rehabilitation process of type II diabetes patients with amputations. Main variable analysis concerned the insertion or no-insertion of caregivers within the psychotherapeutic group. The investigation comprised seven patients and their caregivers separated into three groups; the first one included four patients and their respective caregivers, the second group, three patients, and the third included caregivers attending the second group. The subjects participated in 10 weekly sessions with 50 minutes each. During those structured sessions, the investigator presented specific reflexion topics able to lead the participants to expose their difficulties related to treatment, family, and society, including emotional repercussions caused by their present conditions. Comparing the interviews and analyzing the group sessions were observed evidence of changes in both patients and caregivers, but not between groups. In patients showed a higher acceptance with respect to diabetes, amputation and prosthesis idea, and an improvement in daily life, mental status and relationship with the caregiver. Caregivers also observed changes in daily life, and improvements in relationships with patients. Anyway, in order to effect changes in practices, clinical observation showed the importance of the inclusion of caregivers because they are giving support and assistance to patients, which may influence the improvement of rehabilitation treatment 1. Mestre em Ciências da Saúde pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo. Diretora do Programa Alô Sênior 2. Pesquisadora do Programa Ansiedade do Instituto de Psiquiatria, Hospital das Clínicas, Faculdade de Medicina, Universidade de São Paulo (IPq-HCFMUSP IPq-HC-FMUSP). Coordenadora do Núcleo Conscientia – Estudos de Comportamento e Saúde Mental Trabalho realizado: Irmandade da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo. Centro de Reabilitação Endereço para correspondência: Mariângela Gentil Savoia. Av. Angélica 2632 cj 62 – 01228-200 - São Paulo – SP – Brasil. Fax: 3159 1225. E-mail: [email protected] Marcia Gruber Franchini. Rua Barão de Itapetininga 151 cj 52/53 – Praça da República – 01042-909 - São Paulo – SP – Brasil. E-mail: [email protected] Key words: Aged Caregivers; Diabetes mellitus, type 2; Amputation; Psychotherapy, group Introdução O diabetes mellitus (DM) é uma doença metabólica 10 Franchini MG, Savoia MG. Psicoterapia de Grupo para pacientes diabéticos amputados e seus cuidadores. Arq Med Hosp Fac Cienc Med Santa Casa São Paulo. 2013; 58: 10-7. Cummings (1992)(9) discute a relação entre um sistema de suporte ao paciente diabético e a melhoria da sua aderência ao tratamento. Afirma que pesquisas têm demonstrado que aquele que recebe tratamento psicológico e um bom suporte familiar faz melhor uso dos serviços médicos. “Oferecer apoio emocional e boa assistência, juntamente com a atividade de estimular a cooperação e a co-responsabilidade do paciente e de sua família é fundamental.” (10). Por todos os fatos levantados, a questão que surge é a necessidade da equipe de reabilitação responsável pelo indivíduo amputado ter dele uma visão global para favorecer a sua motivação e dedicação ao tratamento(11) e o desafio lançado aos profissionais de saúde é encontrar técnicas adequadas que o ajudem a aderir ao tratamento, sempre levando em consideração a relação sujeito-cuidador-instituição hospitalar. A equipe de psicologia nesta abordagem multidisciplinar tem muito a contribuir para este paciente idoso, diabético e amputado, principalmente com relação a novas propostas de intervenção(12). Portanto o presente estudo teve como objetivo comparar duas modalidades de grupos psicoterapêuticos, com e sem inclusão dos cuidadores no processo de reabilitação de pacientes idosos amputados por complicações do diabetes tipo II. complexa, multifatorial. Sua etiologia inclui fatores genéticos e/ou ambientais. O tipo II (não insulino-dependente), acomete pessoas acima de 40 e 50 anos(1), está associado a uma diminuição na sensibilidade das células de insulina e baixa na sua produção, e fortemente associado a obesidade e o sedentarismo(2). Na população brasileira, a prevalência do diabetes melittus é de 7,4%; entretanto, na população idosa, ou seja, na faixa etária acima de 60 anos, é de 17,4%. O diagnóstico do diabetes tipo I pode causar um impacto diferente do que o do diabetes tipo II no paciente e em seus familiares. Para um diabético tipo I, é essencial uma adaptação progressiva ao longo da vida. Para o diabético tipo II, é necessária uma mudança radical em hábitos já enraizados e não apenas uma adaptação progressiva(3) o que dificulta seguir as orientações dos profissionais da saúde. Quando não seguidas corretamente as instruções médicas, algumas conseqüências são inevitáveis, como a amputação de um membro(4). Em pesquisa realizada para determinar a situação funcional de pacientes submetidos à amputação de membro inferior decorrente do diabetes, após período de dois anos ou mais, Buzato et al (2001)(5) concluíram que aqueles que evoluíram para uma amputação têm baixa sobrevida e, dentre os sobreviventes, poucos têm condições clínicas para retornar a uma situação de independência. Diante desse quadro clínico, o indivíduo sofre forte impacto emocional por estar perante uma situação dolorosa. “De uma maneira análoga, a ocorrência da doença crônica na família se assemelha à adição de um novo membro, que aciona na família o processo centrípeto de socialização com a enfermidade.”(6). Esse movimento faz com que o familiar deixe de viver sua própria vida para viver a “doença” do paciente. Para Barcelo et al (2002)(7), perceber a organização desse contexto de relações contribui para que os profissionais de reabilitação possam entender melhor como o paciente se comporta. Além dessas novas forças dentro do contexto familiar, família e paciente passam a viver em um novo ambiente: o hospital. Nesse novo contexto, os sujeitos envolvidos passam a sofrer seus impactos “O doente e sua família guardam estreita relação na maneira de ser e de se comportar. Doente um de seus membros, doente também está a família. A família do paciente hospitalizado tende a funcionar como um sistema total, pelas interinfluências mútuas”(8). No ambiente hospitalar, não é só o corpo que deve ser tratado. A pessoa busca atendimento por inteiro, juntamente com a família, que também participa da doença, das internações e do seu restabelecimento. A equipe responsável se envolve e a interação profissional/paciente/família tem por objetivo captar suas dificuldades e atuar na reabilitação(8). Método Sujeitos Foram selecionados 14 sujeitos, 7 pacientes com idade entre 51 e 73 anos e 7 cuidadores entre 38 e 70 anos. Os critérios de inclusão foram: pacientes com um ou os dois membros inferiores amputados (perna ou pé), com diagnóstico de diabetes tipo II, estar em tratamento reabilitacional no Centro de Reabilitação da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo (SP), e que seus cuidadores participassem (responsáveis pela assistência diária). Como critérios de exclusão, estabeleceu-se: pacientes com sintomas de demência e/ou de depressão grave e cuidadores com sintomas de depressão grave. Os sujeitos selecionados após estarem cientes do objetivo e funcionamento do trabalho assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. Instrumentos Para avaliar a inserção dos pacientes e seus cuidadores foram aplicados os seguintes inventários: Miniexame do Estado Mental - MMSE(13)/ traduzido e validado por Bertolucci et al, 1994)(14), para avaliar sinais de demência; e Inventário de Depressão de Beck - BDI(15)/ traduzido e validado por Gorenstein, Andrade, 1996)(16), para avaliar sintomas de depressão. 11 Franchini MG, Savoia MG. Psicoterapia de Grupo para pacientes diabéticos amputados e seus cuidadores. Arq Med Hosp Fac Cienc Med Santa Casa São Paulo. 2013; 58: 10-7. Aos sujeitos selecionados foram utilizadas entrevistas semidirigidas com roteiro. Antes do tratamento, as questões dirigidas aos pacientes versavam sobre estratégias de enfrentamento ao diabetes tipo II e a amputação; quais as expectativas diante do grupo psicoterapêutico; qual opinião sobre a participação do cuidador no grupo; quais suas impressões sobre o relacionamento entre eles; e qual o significado da prótese em suas vidas. Quanto aos cuidadores, as questões tinham por objetivo averiguar qual o impacto da doença e da amputação no seu cotidiano; como ajudavam e se relacionavam com o paciente, quais as dificuldades encontradas nessa relação; quais as expectativas quanto ao tratamento psicológico de grupo e a respeito da prótese; como percebiam a si mesmos e ao paciente emocionalmente. Após o tratamento investigou-se a percepção de ambos (pacientes e cuidadores) nas mudanças dos aspectos: tratamento psicoterapêutico grupal, tratamento reabilitacional, mudanças no relacionamento entre ambos, dificuldades do dia-a-dia, expectativas quanto à prótese e percepção do estado emocional. psicóloga imediatamente após o término de cada encontro. Após os dez encontros foram realizadas entrevistas estruturadas. Análise dos dados Utilizou-se a análise de conteúdo, abordagem utilizada para dados em investigações com métodos qualitativos(17). As entrevistas, analisadas a partir desse enfoque, foram categorizadas por meio do conteúdo das respostas do discurso dos participantes. Essa categorização foi avaliada por um juiz independente, e a fórmula utilizada associou o resultado do juiz dividido pelo resultado da pesquisadora vezes 100. Este trabalho foi aprovado pelo Comitê de Ética da Irmandade da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo sob o nº 321/05. Resultados e Discussão A amostra reduzida refletiu a dificuldade de preencher o critério de inclusão onde os cuidadores tivessem disponibilidade de participar do tratamento. Os grupos terapêuticos foram comparados com relação ao gênero e idade. No G1 os pacientes foram 3 homens e 1 mulher que apresentaram média de idade de 61 anos e os cuidadores 3 mulheres e 1 homem com aproximadamente 60 anos e 7 meses. O G2 participaram 2 homens e 1 mulher com média de 62 anos e 3 meses e os cuidadores do G3 tinham cerca de 54 anos e 3 meses com 3 mulheres. Devido ao número de participantes pequeno, não foi possível fazer uma análise estatística paramétrica, mas pode-se observar que em relação à idade e gênero os grupos eram homogêneos. Com relação ao diagnóstico os pacientes relataram que sentiram dificuldade em aceitá-lo em decorrência não seguiram corretamente as orientações médicas, o que acabou por desencadear a amputação. Ao receberem a noticia da amputação, muitos demonstraram intenso sentimento de culpa. Nas sessões iniciais, os pacientes apresentaram dificuldade em falar sobre culpa e arrependimento, conseguindo melhor expressão após algumas sessões, quando sentiram-se mais vinculados a terapeuta e ao grupo Para os diabéticos, a amputação significa um dia-a-dia envolto em descrença, inconformismo, culpa, isolamento e vontade de morrer, permeado pela tentativa de aceitação da perda(18). Os pacientes demonstraram a existência de mecanismos de defesa a serviço da resistência, da negação, da onipotência e de atitudes persecutórias nos momentos da descoberta do diabetes e da amputação. Muitos autores expõem a presença da resistência até se alcançar o processo de aceitação da realidade. Kübler-Ross (1998)(19), por exemplo, esclarece a fase da Procedimentos O presente estudo foi realizado no Centro de Reabilitação da Santa Casa de São Paulo, com equipe multidisciplinar que tem como objetivo a reabilitação de pacientes do hospital, com problemas neuromuscoesqueléticos. Os pacientes e seus cuidadores foram selecionados durante as sessões de fisioterapia pelo fisioterapeuta. Após o término da terapia física, paciente e cuidador eram convidados pela pesquisadora, a participar da pesquisa. Foram avaliados com relação aos critérios de inclusão e exclusão e aos pacientes selecionados foi aplicada a entrevista semidirigida e posteriormente foram alocados nos grupos terapêuticos. Os sujeitos foram divididos em três grupos. O primeiro grupo, composto por quatro pacientes e seus cuidadores, totalizando oito participantes; o segundo, incluía três pacientes e o terceiro, em número de três, era formado pelos cuidadores dos pacientes do segundo grupo. Os grupos se reuniram uma vez por semana, em dez encontros, com duração de 50 minutos cada O objetivo do primeiro encontro foi estabelecer o contrato terapêutico destacando: a importância do tratamento psicológico grupal e do aproveitamento daquele espaço terapêutico;o número de sessões e o tempo de duração de cada encontro, a questão do sigilo. As sessões foram estruturadas em temas: Apresentação (1º); Diabetes (2º e 3º); Amputação (4º e 5º); Prótese (6º); Relacionamento familiar (7º); Relacionamento paciente e cuidador (8º), Tratamento (9º) e Tema Livre (10º). Os encontros foram transcritos pela 12 Franchini MG, Savoia MG. Psicoterapia de Grupo para pacientes diabéticos amputados e seus cuidadores. Arq Med Hosp Fac Cienc Med Santa Casa São Paulo. 2013; 58: 10-7. aceitação como aquela em que, após o indivíduo ter passado por estágios anteriores que ela descreve como a negação da realidade, a raiva de si e do mundo, a barganha de familiares, a depressão diante da perda, bem como a superação das resistências – poderá, por meio da exteriorização desses sentimentos, estar diante da aceitação. Com relação à amputação, as mudanças relatadas pelos pacientes foram: a aceitação da perda, a adaptação à nova realidade e o retorno às atividades cotidianas, como podemos observar nas Tabelas 1 e 2, resultados de acordo com as observações de Mello Filho (2000)(20). O autor esclarece que, diante do grupo, o indivíduo pode potencializar sua capacidade de compreensão, se deparar com a descoberta de si mesmo, dos seus limites, das suas fantasias e medos, o que o leva a pensar, refletir e discutir sobre os conteúdos expostos e o auxilia a ter uma visão mais abrangente da realidade(20). A maioria dos pacientes, antes e após os encontros grupais, ressaltou a importância da prótese, referindo-se ao desejo de voltar a andar e de ter independência. Boccolini (1990)(21) e Cavalcanti (1994)(22) compararam a amputação com a morte de uma pessoa querida. A diferença é que, quando se perde um membro do corpo, essa realidade é certificada todos os dias, diferentemente de quando se perde uma pessoa especial, a quem não se verá mais. Talvez seja por isso que, para fugir da realidade da amputação, esses pacientes ficam ansiosos por colocar a prótese, “Neste sentido, a reintegração corporal implica não apenas na incorporação da prótese à imagem corporal, mas na possibilidade de o paciente amputado aceitar-se com a prótese e sem ela, ou seja, com a ausência do membro amputado”(23). Para que isso ocorra, segundo Parkes (1970)(24), o indivíduo deve passar por algumas fases do luto: impacto ou choque pela perda; tentativa de reaver o objeto perdido ( desejo da prótese); admissão da derrota (caracterizada pelo desespero) e readaptação do paciente ao seu mundo externo e reorganização de seu mundo interno. Pôde-se observar um bom aproveitamento dos participantes, que ressaltaram aspectos positivos como aprendizagem, entendimento e amizade. Em relação ao estado emocional dos pacientes, notou-se uma mudança significativa em quatro deles, que demonstravam, antes dos encontros, uma fragilidade emocional oscilante entre negação da realidade e dependência; porém, depois dos encontros grupais, acreditaram estar controlando o medo e sentindo-se independentes. Os demais permaneceram estáveis emocionalmente. Salomão (1972)(25) ressalta que o grupo psicoterapêutico é capaz de ativar comportamentos, identidades e relação com o meio externo de forma a capacitar seus integrantes a enfrentarem as dificuldades. O relacionamento do paciente com o cuidador parecia se apresentar, inicialmente, sem necessidade de mudanças significativas; porém, após os encontros gru- Tabela 1 Resumo das entrevistas com os pacientes do grupo 1. Grupo 1 Antes da Psicoterapia Depois da Psicoterapia Mudanças de Hábitos em decorrência do Diabetes Praticas de exercícios físicos(2); tomar medicação(2) e parar de beber(1). Cautela(1); dieta/emagrecimento(2); controle(1). Amputação Desespero(2), negação(2), ideação suicida(2) e confusão mental(1). Independência(1); maior aceitação(1); retornou as atividades(1); adaptação com o andador(1). Prótese Sonho(1), autonomia(1), dificuldade(1), voltar a andar(1). Melhor para andar(2); voltou ao trabalho(1); independência(1). Tratamento Psicológico Aceitação(1), ajudar o cuidador(1), auxilio e entendimento(1), contato com outras pessoas(1), orientação(1). Bom/ Ótimo(4); aprendizagem(1); falar dos problemas(1); conhecer pessoas(1). Participação do cuidador no grupo Equilíbrio emocional(1), ajuda no enfrentamento da situação(2), dificuldades e entendimento(1). Consciente das dificuldades(1); ver problemas de outra forma(1); mais paciente(1); falar da doença(1). Relação com o cuidador Bom(2), pessoa presente(1), prestativo(1), regular(1), magoa(1), controle emocional(1) e autoritarismo(1). Melhorou(4); aceitação(1); conversa mais(1); mais paciencia(1); aprendizado(1). Estado Emocional Revolta(1), negação da realidade(2) e desespero(1). Bom/ótimo(4); melhor aceitação(2); menos ansiedade(1); segurança e independencia(1); melhorou o estado depressivo e dependente(1). (número de pacientes) As respostas dos pacientes poderiam se referir a mais de uma categoria. Nível de concordância pesquisadora e juiz foi de 82%. 13 Franchini MG, Savoia MG. Psicoterapia de Grupo para pacientes diabéticos amputados e seus cuidadores. Arq Med Hosp Fac Cienc Med Santa Casa São Paulo. 2013; 58: 10-7. Tabela 2 Resumo das entrevistas com os pacientes do grupo 2. Grupo 2 Antes da Psicoterapia Depois da Psicoterapia Mudanças de Hábitos em decorrência do Diabetes Tomar medicação(3). Conscientização(3); sem abusos(1) Amputação Tristeza(1), aceitação(1), culpa(1) e choque(1). Perceber a necessidade da prótese(1); enfrentamento e pensamento positivo(1); bem estar(1); retorno as atividades(1). Prótese Voltar a andar(2), segurança(1) e visual bonito(1). Maior independência(2); equilíbrio e segurança(1). Tratamento Psicológico Conversas(2); explicações(2) e ajuda(1). Bom/ótimo(3); entendimento e aprendizagem(2); amizades(1). Participação do cuidador no grupo Bom/ótimo(3); sentir-se melhor(1); esclarecimentos(1); controle emocional(3). Bom/ótimo(3). Relação com o cuidador Bom/ótimo(2); presente e prestativo(2); regular(1); magoa(1); autoritarismo(1); controle emocional(1). Sim(2); não pois já era bom(1); entendimento(1); tolerância(1). Estado Emocional Negação(3). Regular(2); boa(1); consegue andar(1); altos e baixos(1), difiduldade e lembrança(1). (número de pacientes) As respostas dos pacientes poderiam se referir a mais de uma categoria. Nível de concordância pesquisadora e juiz foi de 91% que essa doença já era esperada. Com seu agravamento, os cuidadores se depararam com a amputação e sofreram um impacto emocional que resultou em choque, desespero e no comportamento de “viver a vida do paciente”, devido à dedicação contínua que passaram a lhe proporcionar. A partir do momento que puderam aceitar o convite para participar do processo psicoterápico grupal, puderam experimentar um espaço ativo e relevante nesse processo(28). De acordo com Neder (1992)(29), a família geralmente encontra-se tensa, com medo e ansiosa e na maioria das vezes disposta a ajudar. Em certas situações pode agir inadequadamente, devido as diversas variáveis sócio-ambientais e emocionais envolvidas, e por isso a autora afirma que os familiares também devem ser foco de atenção nesse processo. No que diz respeito ao relacionamento com os diabéticos, a maioria negou inicialmente dificuldades nesse aspecto. Observou-se, no decorrer dos encontros, que, muitas vezes, os cuidadores não se relacionavam com os pacientes e, sim, com a doença e o tratamento, deixando de viver sua vida separada da do paciente. O grupo possibilitou aos cuidadores uma maior reflexão sobre essa postura, porque todos ressaltaram melhora no relacionamento com o paciente nos seguintes aspectos: compreensão, paciência, aceitação, independência e despreocupação. Isso corrobora o estudo de Hull* (apud Esslinger, 2003)(30) sobre à atenção que estes cuidadores de pa- pais, os pacientes acusaram melhora no entendimento, na aceitação e na tolerância, revelando que o grupo foi além da simples troca de informações entre eles. Apesar de todas as doenças crônicas exigirem certo grau de autocuidado para o bem-estar do paciente, no caso do diabético, é preciso que ele seja capaz de tomar decisões e de ser responsável pela autogestão do seu tratamento no dia-a-dia(26,27). A inserção dos familiares no tratamento foi fundamental para as mudanças observadas e relatadas pelos pacientes e cuidadores. Mello Filho (2000)(20) descreve um grupo aberto de pacientes, com diagnóstico de diabetes, do qual participavam os familiares interessados. Estes, segundo o autor, puderam auxiliar o enfermo nas mudanças de seu estilo de vida e na adesão ao tratamento. Além disso, essa interação mostrou-se importante para que a família e o doente crônico assimilassem as informações recebidas, se adaptassem a essa realidade e aprendessem a enfrentar as situações de crise. No presente estudo, o grupo psicoterapêutico foi fechado para os participantes selecionados, a presença do cuidador não era optativa e a forma de operacionalização era outra, porém mudanças semelhantes puderam ser observadas, como pode ser notado nas Tabela 3 e 4. Os cuidadores relataram que inicialmente se sentiram abalados com a descoberta da doença de seu parente próximo. Diante dessa realidade, expressaram tristeza, nervosismo, surpresa e até mesmo declararam * Hull APUD Esslinger, I. O paciente, a equipe de saúde e o cuidador: de quem é a vida, afinal? Um estudo acerca do morrer com dignidade. [Tese] Doutorado. São Paulo: Universidade de São Paulo. Instituto de Psicologia; 2003.(30) 14 Franchini MG, Savoia MG. Psicoterapia de Grupo para pacientes diabéticos amputados e seus cuidadores. Arq Med Hosp Fac Cienc Med Santa Casa São Paulo. 2013; 58: 10-7. Tabela 3 Resumo das entrevistas com os cuidadores do grupo 1. Grupo 1 Antes Depois Cuidados com as dificuldades Cuidados diários(3); viver a vida do paciente(1). Aprendizado(3); ajuda dos outros(1). Relacionamento com o paciente Bom(2); Regular(2); companheirismo(1); compreensão(1); explosivo/genioso/ nervoso(3). Maior compreensão((1); mais paciencia(1); aceitação(1); já tinha bom relacionamento(1). Participação no grupo psicoterapêutico Bom(4); aceitação do paciente(1); separação das vidas(1); ajuda dos médicos(1); conversar sobre o assunto. Expectativas superadas(3); pode ajudar(1); aprendizagem(2); conhecer pessoas(1). Prótese Independência(3); incômodo(1). Independencia(3); considerou melhor não colocar(1). Estado Emocional Consideram regular(2); ruim(1); bom(1); abalo/tristeza(2); dificuldades(1); lembranças(1); Esquece de si(1); paciência(1); readaptação da vida(1); conversa e cuida(1). Regular(4); pouco cuidado consigo(1); dificuldades(2); oscilação de humor e esquecimentos(1). Estado Emocional do paciente Bom(2); regular(1); ruim(1); força de vontade(1); negação(2). Bom/ Ótimo(4); aceitação(2); independencia(1); luta (2); menos nervosismo(1). (número de pacientes) As respostas dos cuidadores poderiam se referir a mais de uma categoria. Nível de concordância pesquisadora e juiz foi de 100% Tabela 4 Resumo das entrevistas com os cuidadores do grupo 3. Antes Depois Cuidados com as dificuldades Grupo 3 Ajuda de Deus(1); cuidados diários e ajuda dos profissionais(1); dependência, adaptação e tratamento(1). Aprendizagem(2); ajuda e percepção(1). Relacionamento com o paciente Bom/ótimo(3); medo de discriminação(1); broncas(1); melhorou após amputação(1) Melhorou(3); Mais vida própria(2); teve maior ajuda de outros parentes(1); paciência e entendimento(1). Participação no grupo psicoterapêutico Bom(2); dificuldade em falar(1); convite inesperado(1). Bom/ótimo/importante(3); expectativas superadas(2); aprendizagem(2); ajuda e percepção(1) Prótese Independência(2); incômodo(1) Importância(2); independência(1); percepção do pé(2); melhor sem(1). Estado Emocional Regular(2); bom(1); choros/abalado(2); dificuldade de sair(1); Descuido de si mesmo(1); paciência(1); readaptação(1), Regular(2); Bom(1); auxilia no tratamento(2); entendimento e aceitação(1). Estado Emocional do paciente Boa/ótima(3); gosta mais dele(1); independência(1); não reclama(1). Boa(2); Regular(1); maior independência(2); divide problemas(1); não reclama(1); negação e abusos(1) (número de pacientes) As respostas dos cuidadores poderiam se referir a mais de uma categoria. Nível de concordância pesquisadora e juiz foram de 93% cientes gravemente enfermos dispensam a si mesmos. Eles acabam colocando sua vida em segundo plano, deixam de lado a saúde pessoal, se isolam do convívio familiar e com os amigos e desenvolvem sentimento de culpa. Este último está relacionado ao desejo de que a experiência de cuidar termine, pois presumem que não permanecem o tempo necessário com o doente, que não estão suficientemente atentos às suas responsabilidades como cuidadores e que são, algumas vezes, impacientes e desatenciosos. Da mesma forma, Mello Filho, Burd (2004)(10) apontam que os familiares passam a manter uma relação com a doença e não 15 Franchini MG, Savoia MG. Psicoterapia de Grupo para pacientes diabéticos amputados e seus cuidadores. Arq Med Hosp Fac Cienc Med Santa Casa São Paulo. 2013; 58: 10-7. mais com o doente. Consultas médicas, sessões de fisioterapia, tratamentos e conversas que giram em torno de remédios são os únicos assuntos inerentes ao paciente. Não se cogita tratar-se de uma pessoa com sentimentos e necessidades que não os decorrentes da própria doença. Muitas vezes, além das dificuldades para lidar com o paciente, os cuidadores sentem dificuldade de relacionamento com a equipe de profissionais. O contato pode ser positivo, permeados por sentimentos de gratidão, credibilidade ou negativos envolvendo a inveja, a dependência, a possessividade e outras atitudes relacionadas a mecanismos de projeção por estarem falhando como cuidadores(31). Diante dessa realidade, os profissionais da área de reabilitação, devem ter uma atenção especial também com o cuidador do paciente, pois além de sua grande função quanto a continuidade do tratamento pelo paciente, eles enfrentam dificuldades emocionais e um apoio acaba por ser imprescindível(32). Os cuidadores deste estudo não relataram dificuldades para lidar com a equipe de reabilitação e isso ficou claro quando o tema tratamento, discutido durante os encontros grupais, foi abordado, no qual todos, pacientes e cuidadores, disseram manter um bom relacionamento com os profissionais. Antes do início do grupo, de modo geral, os cuidadores avaliaram o aspecto emocional dos pacientes como fragilizado. Após os encontros, constataram o quanto essa realidade era comum entre as pessoas que passavam pelos mesmos problemas. Além disso, perceberam que falar sobre o assunto era necessário para o fortalecimento emocional. Tais constatações puderam ser feitas nas entrevistas finais, quando os cuidadores ressaltaram que os pacientes estavam aceitando melhor a situação, se sentiam mais independentes, menos nervosos e, conseqüentemente, os sobrecarregavam menos. O foco das discussões se voltou para as conseqüências práticas da amputação e seus reflexos no cotidiano, sendo que, nesses aspectos, houve mudanças significativas na vida de cada um dos participantes. Da mesma forma, Simon (1994)(33) ressalta que o psicólogo atuando como elemento de ligação entre paciente e família, pode acolher o problema, oferecendo espaço para uma descarga emocional; depois esclarece e orienta, para que, a partir daí, todos possam se reorganizar. Essa idéia também é discutida por Mello Filho, Burd (2004)(10), quando esclarecem que o papel da família é o elemento principal para a aceitação da doença. O diabético de qualquer idade tende a assumir melhor sua condição se também seus familiares tiverem a mesma disposição, se colaborarem com o tratamento e encararem a questão tranqüilamente. O diálogo franco é essencial em qualquer situação e a participação do paciente deve sempre ser valorizada. Em seu trabalho, Göz et al (2005)(34) concluíram que, na medida em que se aumenta a rede de apoio social, melhora a qualidade de vida do portador do diabetes. A visão contemporânea de reabilitação, segundo Hammel (1995)(35), respalda-se em quatro conceitos básicos, que envolvem: a) a intervenção centrada no paciente; b) a ênfase no processo; c) a atuação fundamentada em um modelo que integra aspectos de autocuidado, produtividade, recreação e socialização, resultantes dos componentes físico, sociocultural, mental/emocional e filosófico/espiritual; e d) a responsabilização do cliente na resolução de problemas, estabelecimento de planos, incluindo até a orientação do meio social na execução dos cuidados. Por meio desse estudo, que mostrou a importância do cuidador no tratamento do paciente amputado por diabetes tipo II, poder-se-ia incluir o quinto conceito, que é a inserção da família no tratamento de reabilitação. Conclusões Os grupos psicoterapêuticos em que pacientes e cuidadores estiveram juntos e aqueles em que ambos estavam separados não apresentaram diferenças entre si, pois, em todos eles, foram notadas mudanças significativas no modo de lidar com o diabetes, com a amputação, com as dificuldades diárias e com as relações afetivas. De qualquer forma, tendo em vista a repercussão nas mudanças práticas, a observação clínica mostrou a importância da inserção dos cuidadores, porque são eles que dão suporte e auxílio aos pacientes, o que pode repercutir na melhora do tratamento de reabilitação. Pode-se concluir sobre a importância da inserção dos cuidadores nos grupos psicológicos, em conjunto ou separados dos pacientes. Para os serviços de psicologia, fica a sugestão de incluírem os cuidadores no tratamento psicológico do paciente, escolhendo qual a melhor modalidade de grupo, de acordo com a logística, a operacionalização e o contexto do trabalho. Referências Bibliográficas 1. 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Influência de sintomas ansiosos no desempenho acadêmico de formandos de medicina Influence of anxious symptoms in academic performance of graduates of medicine in a test of medical residence Ísis Marafanti1, Gilberto D’Elia2, Maria Carolina Pedalino Pinheiro3, Quirino Cordeiro4, Tânia Correa de Toledo Ferraz Alves5 dela em si. Conclusão: No estudo os níveis de ansiedade não se mostraram preditores do desempenho acadêmico em formandos de medicina, embora a prevalência de ansiedade moderada e grave tenha sido bastante significativa. Resumo Introdução: A ansiedade é um estado emocional que sendo em níveis normais é considerada uma propulsora do desempenho, entretanto quando em níveis patológicos pode desencadear paradoxalmente uma piora importante na performance. Objetivo: Este estudo objetivou avaliar a relação entre os níveis de ansiedade e o desempenho em uma turma do último ano da faculdade de medicina no concurso de ingresso a residência médica. Materiais e Métodos: O instrumento utilizado para avaliação dos sintomas de ansiedade foi o inventário de ansiedade de Spielberger et al em sua forma traço (IDATE-T), sendo a análise dos resultados realizada pelo teste do qui-quadrado e t-student. Resultado: Como resultados observou-se que variáveis, tal como sexo, idade, uso de medicamentos, horas de sono, tabagismo, trabalho e anos de cursinho não mostraram diferenças estatisticamente significante quando comparadas ao desempenho nas provas. Todos os alunos participantes do estudo mostraram um traço de ansiedade moderado a grave. Quando essas variáveis foram comparadas em relação ao desempenho, o grau de ansiedade não se mostrou um preditor desta performance. Discussão: Quando se considera a relação ansiedade e desempenho deve-se considerar a administração desta ansiedade (coping) e não somente os níveis Descritores: Ansiedade de desempenho, Estresse psicológico, Traço de Ansiedade, Estado de ansiedade, Estudantes de medicina Abstract Introduction: Anxiety is an emotional state that at normal levels is considered a driving performance, however when in pathological levels can paradoxically trigger significant deterioration in performance. Objective: This study aimed to evaluate the relationship between levels of anxiety and performance in a last year class of medical school in the contest of admission to medical residency. Materials and Methods: The instrument used to assess symptoms of anxiety was Spielberger’s Trait Anxiety Inventory (STAI-T), and the analysis of results were performed by chi-square and t-student. Results: The results showed that variables such as gender, age, medication use, hours of sleep, smoking, work, and years of preparatory course were not statistically significant when compared to the performance in the tests. All students participating in the study showed a trace of moderate to severe anxiety. When these variables were compared regarding to the performance, the anxiety level was not a predictor of performance itself. Discussion: When considering the relationship between anxiety and performance should consider the administration of this anxiety (coping) and not only the levels of it itself. Conclusion: In this study anxiety levels are not predictors of academic performance in medical trainees, although the prevalence of moderate or severe anxiety has been quite significant. 1. Médica residente de Psiquiatria da Irmandade Santa Casa de Misericórdia de São Paulo 2. Médico psiquiatra, professor da faculdade de Medicina do ABC 3. Médica psiquiatra, assistente da Unidade de Álcool e Drogas do Centro de Atenção Integrada à Saúde Mental da Irmandade da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo 4. Diretor do Centro de Atenção Integrada à Saúde Mental da Irmandade da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo; Professor Adjunto da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo do Departamento de Psiquiatria e Psicologia Médica 5. Médica psiquiatra, professora da Faculdade de Medicina do ABC e da Faculdade de Medicina da USP Trabalho realizado: Faculdade de Medicina do ABC Endereço para correspondência: Isis Marafanti. Rua Major Maragliano, 241 – Vila Mariana – 04017-030 - São Paulo - SP – Brasil. E-mail: [email protected] Key-words: Performance anxiety, psychological stress, Trait Anxiety, State Anxiety, Medical students Introdução A ansiedade, a despeito de ser uma vivência hu18 Marafanti I, D’Elia G, Pinheiro MCP, Cordeiro Q, Alves TCTF. Influência de sintomas ansiosos no desempenho acadêmico de formandos de medicina. Arq Med Hosp Fac Cienc Med Santa Casa São Paulo. 2013; 58: 18-23. mana e universal ainda não possui uma conceituação exata. Ela tende a ser percebida como uma emoção caracterizada por um alerta tenso e fisicamente cansativo, associada geralmente a um perigo ou emergência iminente e inevitável, embora não necessariamente evidente(1). No estudo da ansiedade, encontramos dois conceitos distintos: a ansiedade-estado e a ansiedade-traço. A primeira é aquele referente a um estado emocional temporário, caracterizado por sentimentos subjetivos de tensão que podem variar em magnitude ao longo do tempo. Já a ansiedade-traço é a que se refere a uma disposição pessoal e portanto, relativamente estável, em responder com ansiedade a situações críticas, assim como uma tendência a perceber um maior número de situações como ameaçadoras(2). Por ser um estado emocional com componentes psicológicos e fisiológicos dentro da normalidade das funções humanas ela tem um papel fundamental como propulsora do desempenho. Entretanto, pode ser considerada patológica quando não é proporcional à situação que a desencadeia, interfere negativamente no desempenho ou quando não se direciona a um objeto específico(1). Assim sendo, a ansiedade, que é uma função propulsora de um melhor desempenho, quando em níveis patológicos pode desencadear paradoxalmente uma piora importante na performance. A prevalência dos transtornos mentais na população é extremamente alta. Em estudo de campo realizado na cidade de São Paulo, foram entrevistadas 1.464 pessoas com 18 ou mais anos de idade, utilizando como instrumento o CIDI 1.1, gerando diagnósticos de acordo com o CID-10. Em torno de 45,9% da amostra apresentou pelo menos um diagnóstico de transtorno mental ao longo da vida (RR 1,6), sendo 12,5% para transtorno ansioso (RR 1,0), com maior risco no sexo feminino (RR 1,6 IC 95% 1,2 – 2,1)(3). De fato, além dos transtornos serem muito frequentes, os sintomas ansiosos também estão entre os mais comuns, sendo possível encontrá-los em qualquer pessoa em determinados períodos de sua existência(1). Entretanto, alguns estudos afirmam que os estudantes de medicina possuem um nível mais elevado de ansiedade quando comparados a população geral. Várias características do curso médico foram descritos como fatores estressantes tais como o contato com pacientes graves, as dificuldades do internato, a quantidade de material a ser estudado em curto espaço de tempo e as avaliações periódicas(4). Estudos demonstram que estudantes de medicina experimentam alterações nos níveis de ansiedade ao longo das fases do curso, principalmente nas diferenças entre os anos básicos e o internato(5). Uma revisão de literatura de 2011 encontrou 7 artigos brasileiros que investigaram ansiedade em estudantes de medicina, basicamente transversais e nenhum multicentrico. Nestes observaram que a maioria dos pesquisadores concordou que este sintoma são bastante prevalentes duante a formação médica(6). A relação entre ansiedade e desempenho foi investigada por Coes em uma amostra de 352 alunos entre vestibulandos repetentes (209) e não repetentes (143) de um determinado curso pré-vestibular. Foi verificada uma relação altamente significante entre ansiedade e desempenho entre os sujeitos repetentes. Os resultados desse estudo revelaram que os sujeitos com experiência de fracasso são mais ansiosos do que aqueles sem experiências no vestibular, mas, por outro lado, são academicamente melhor preparados, como indicam seus escores nos vestibulares simulados vestibular(7). A Residência Médica constitui uma modalidade de ensino de pós-graduação, destinada a médicos formados, sob a forma de cursos de especialização e caracteriza-se por treinamento em serviço, com regime de tempo e dedicação integral sob a orientação de profissionais médicos de elevada qualificação ética e profissional. Bem é sabido que a residência é um período de estresse e de sobrecarga de trabalho(8), porém poucos estudos abordam o período de ansiedade que vive os estudantes de medicina do último ano diante da dificuldade das provas de ingresso na residência médica. A seleção para participar do programa de residência médica varia entre cada serviço, mas em São Paulo geralmente é composto por meio de um concurso com duas, ou três fases, sendo a primeira delas uma prova composta por questões de múltiplas escolhas, divididas entre as 5 grandes áreas da Medicina: Clínica Médica, Cirurgia Geral, Pediatria, Ginecologia e Obstetrícia e Medicina Preventiva. A segunda fase, quando o concurso possui, é a prova prática e por fim tem-se a entrevista e a análise do currículo do candidato. A pressão para que o médico seja cada vez mais especializado e o número reduzido de bolsas de residência em relação ao número de médicos que se formam a cada ano, faz com que o aluno do último ano de medicina sinta-se cada vez mais preocupado quanto ao seu futuro profissional. Entretanto, não foi encontrado nenhum estudo que avaliasse a relação ansiedade/desempenho dentro do contexto da prova de residência. Desse modo, a presente investigação tem como objetivo avaliar a relação entre ansiedade e desempenho no aluno do sexto ano de medicina no concurso para ingresso na residência médica. Materiais e Métodos Trata-se de um estudo, no qual alunos do sexto ano matriculados na Faculdade de Medicina do ABC, 19 Marafanti I, D’Elia G, Pinheiro MCP, Cordeiro Q, Alves TCTF. Influência de sintomas ansiosos no desempenho acadêmico de formandos de medicina. Arq Med Hosp Fac Cienc Med Santa Casa São Paulo. 2013; 58: 18-23. Resultados e que preencheram os critérios de inclusão, foram avaliados quanto ao traço de ansiedade e comparados no que tange à aprovação no concurso de Residência Médica da Faculdade de Medicina do ABC realizados no ano de 2010. Foram incluídos no estudo, os alunos do último ano que prestaram o concurso de Residência Médica nessa instituição e que concordaram em participar do trabalho, após terem lido e assinado o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. O instrumento utilizado para avaliação dos sintomas de ansiedade foi o inventário de ansiedade de Spielberger et al(9) em sua forma traço (IDATE-T), que consiste em 20 afirmações, com intensidades de 1 a 4 (1- quase nunca, 2- às vezes, 3- frequentemente, 4quase sempre) que exploram sensações de bem-estar, de cansaço, vontade de chorar, desejo de ser feliz, de decidir, de descansar, de sentir-se calmo, de resolver problemas, de preocupar-se, de sentir-se feliz, deixar-se afetar, autoconfiança, segurança, evitar crises e problemas, sentir-se deprimido, satisfeito, preocupar-se, de levar desapontamentos a sério, de estabilidade e de perturbar-se. Os valores de referências utilizados foram: menor que 33 pontos para ansiedade baixa, entre 33 e 49 para ansiedade média e maior que 49 para ansiedade alta. A análise estatística foi realizada com o programa SPSS versão 16.0, tendo como base o cálculo do risco relativo baseado na seguinte hipótese nula: H0 = alunos com traços ansiosos têm o mesmo desempenho no concurso de residências médica que o estudante que não apresenta alterações; H1 = alunos com traços ansiosos têm pior desempenho no concurso de residência médica que o estudante que não apresenta alterações. Foi utilizado o teste do qui-quadrado e t-Student para avaliar diferenças entre os grupos e subgrupos, e o valor de p<0,05 foi considerado como estatisticamente significante. As variáveis foram classificadas, quanto à continuidade, em contínuas ou discretas, sendo que estas foram, por sua vez, classificadas em nominais ou ordinais. As medidas de tendência central e de dispersão das variáveis contínuas foram descritas, respectivamente, pela média e desvio padrão. O questionário foi aplicado no mês de Outubro de 2011, dois meses, portanto, antes do concurso à Residência Médica a ser realizado. Haviam 97 alunos matriculados no sexto ano da faculdade de medicina do ABC no período em que foi realizado o estudo. Destes, 28 não quiseram responder e dois foram excluídos por não terem prestado a prova de residência médica. Dos 67 entrevistados, 22 (32,8%) eram do sexo masculino e 45 (67,2%) eram do sexo feminino. A idade variou de 23 a 32 anos, com a média de idade de 25,6 e um “desvio padrão” de 1,8 anos. Na amostra, 59 moravam com seus familiares e sete não moravam, sendo que um não respondeu. 18 indivíduos tinham ou pai ou mãe ou ambos médicos, 14 trabalhavam, 65 faziam cursinho preparatório para prova de Residência. Desses últimos, 10 fizeram cursinho por menos de um ano, 40 fizeram por um ano e 11 fizeram mais de um ano (4 não responderam por quanto tempo estudaram no cursinho). As horas de estudos semanais variaram de duas horas até 50 horas, com uma média de 17,3 e um desvio padrão de 11,9. Em relação ao sono, dos 67 alunos, 22 dormiam menos que seis horas, 42 entre 6 e oito horas e três mais de 8 horas em média por dia. Dos 67 alunos, 30 pretendiam ir para o Exército, 22 alunos responderam que praticavam exercício físico regularmente, 38 alunos responderam que namoravam, seis responderam que fazem tratamento para algum diagnóstico psiquiátrico, porém nenhum dos seis descreveu para qual transtorno. Em relação à medicação, 25 alunos responderam que tomam algum tipo de medicação variando entre antidepressivos, anticoncepcionais orais, hormônio tireoidiano, corticóide, homeopáticos e finasterida. Apenas dois alunos responderam ser tabagistas, ambos com menos de 10 cigarros/dia. Dos 67 alunos incluídos, 57 (85%) foram considerados com ansiedade moderada e 10 (15%) com ansiedade grave, não tendo nenhum aluno sido considerado com ansiedade leve. Quando se avaliou cada variável, tal como sexo, idade, uso de medicamentos, horas de sono, tabagismo, trabalho e anos de cursinho comparativamente com o desempenho nas avaliações da prova de residência da FMABC, nenhuma destas mostrou diferença estatisticamente significante. Ao comparar o grupo que apresentou ansiedade moderada e o grupo com ansiedade grave em relação ao desempenho, também não houve diferença estatisticamente significante. Aspectos Éticos Discussão O presente estudo foi submetido e aprovado pelo comitê de ética em pesquisa da Faculdade de Medicina do ABC sob o processo nº 160/2010. Uma revisão sobre os aspectos gerais das escalas de avaliação de ansiedade mostrou que a escala de auto- 20 Marafanti I, D’Elia G, Pinheiro MCP, Cordeiro Q, Alves TCTF. Influência de sintomas ansiosos no desempenho acadêmico de formandos de medicina. Arq Med Hosp Fac Cienc Med Santa Casa São Paulo. 2013; 58: 18-23. Tabela 1 Características sociodemográfica e clínicas do alunos do sexto ano de medicina respondentes dos questionários. Característica Sexo Tipo Número de alunos Porcentagem Feminino N = 45 67,2% Masculino N = 22 32,8 % Sim N = 59 88,0% Morar com familiares Não N=7 10,4% Não respondeu N=1 1,6% Não N=9 13,4% Pais médicos Trabalha ( alguma atividade remunerativa) Faz cursinho preparatório para a prova de residência Sono 26,9% 20,9% Não N = 53 79,1% Sim N = 65 97% Não N=2 3% N = 22 32,8% Entre 6 e 8 horas N = 42 62,7% Mais de 8 horas N=3 4,4% Sim N = 22 32,8% Não N = 45 67,2% Sim N = 38 56,7% Não N = 29 43,3% Sim N=6 8,9% Não N = 61 91,1% Não N = 65 97,1% Sim (< 10 cigarros/dia) N=2 2,9% (>10 cigarros/dia) N=0 0% Namora atualmente Tratamento psiquiátrico Um estudo realizado na Faculdade de Medicina do ABC que avaliou os traços de ansiedade entre os estudantes de Medicina demonstrou que 80% (481) dos estudantes das seis séries do ensino médico que responderam ao questionário IDATE-T, 20,1% deles marcaram mais de 49 pontos, sugerindo a ocorrência de traços de ansiedade alta, e 79,9% marcaram entre 33 e 49 pontos sugerindo ansiedade média. Nenhum estudante marcou menos de 33 pontos (traços de ansiedade leve). O maior porcentual de traço de ansiedade alta foi encontrado no sexto ano (26,8%) e o menor, no terceiro ano (11,6%)(11). Dados estes que estão de acordo com os resultados apresentados pelo nosso estudo, no qual 15% dos respondentes tiveram uma pontuação sugestiva de ansiedade alta e 85% com ansiedade moderada e nenhum estudante com ansiedade leve. Outra questão importante de ser ressaltada é o grande número de alunos (32,8%) que referem dormir menos de 6 horas por noite. Isto por si só poderia ser um fator preditor de desempenho. Segundo estudo realizado na Santa Casa de São Paulo com residentes que passavam a noite de plantão e que realizavam Tabela 2 Avaliação dos sintomas de ansiedade dos alunos do sexto ano de medicina antes da prova de ingresso à residência médica segundo o inventário de ansiedade de Spielberger em sua forma traço (IDATE-T)2 Grau de ansiedade N = 18 N = 14 < 6 horas Prática regular de exercícios físicos Tabagista Sim Sim Número de alunos Porcentagem Ansiedade leve N=0 0% Ansiedade moderada N = 57 85% Ansiedade grave N = 10 15% -avaliação IDATE-T, na sua versão traduzida e validada para o português de 1979, parece ser a mais adequada para investigar a relação ansiedade-desempenho, uma vez que possui a propriedade de mensurar traços de ansiedade relativamente estáveis, isto é, que não variam de acordo com as tensões situacionais, medindo diferenças individuais estáveis que permanecem latentes até serem ativadas por uma determinada situação, reforçando a nossa opção por este instrumento de avaliação de ansiedade no presente estudo(2,3,9,10). 21 Marafanti I, D’Elia G, Pinheiro MCP, Cordeiro Q, Alves TCTF. Influência de sintomas ansiosos no desempenho acadêmico de formandos de medicina. Arq Med Hosp Fac Cienc Med Santa Casa São Paulo. 2013; 58: 18-23. bateria de testes neuropsicológicos, a alteração do sono influenciou no desempenho cognitivo(8). Neste nosso estudo quando as variáveis de ansiedade foram comparadas em relação ao desempenho, não se mostrou um preditor das performances. Dessa forma, sugere-se que o que possa ser um preditor do desempenho não é a ansiedade em si, uma vez que todos os alunos mostraram pelo menos um traço moderado dela, mas sim a maneira como esta é gerenciada. Em psicologia utiliza-se o termo coping como o conjunto de estratégias cognitivas e comportamentais desenvolvidas pelo sujeito para lidar com as exigências internas e externas que são avaliadas como excessivas ou as reações emocionais a essas exigências. Assim sendo, a despeito de alto nível de ansiedade, o indivíduo que tiver um bom coping pode lidar melhor com determinada situação que outro com ansiedade moderada, porém sem destreza em manejar o estresse(12). Um outro estudo brasileiro avaliou além dos níveis de ansiedade, como o nosso, também as fontes e estratégias de enfrentamento de estresse psicológico entre estudantes de Medicina. O estudo foi realizado por meio da aplicação de cinco questionários, anônimos e de auto-preenchimento, aplicados em 599 alunos. Os resultados indicaram que a população estudantil tem percentuais maiores de estresse que a população em geral, com 7,6% com sintomas depressivos, e 20% de ansiedade, especialmente os estudantes do gênero feminino. As principais fontes de estresse foram lidar com o estudo (28,7%) e a falta de laser (20,6%) e as matérias mais estressantes foram Anatomia (23,5%) e Cirurgia (12,1%)(13). Uma revisão na literatura sobre ansiedade e depressão em alunos de medicina mostrou que o número de sintomas de depressão e ansiedade, combinado à carga de estudos e treinamento obsessivo, pode determinar alguns mecanismos doentes de compensação, criando estratégias inadequadas de enfrentamento de dificuldades (coping stress), dessa forma, o estudante pode desenvolver atitudes ou estratégias de enfrentamento, como, por exemplo, fantasiar (queda de rendimento), buscar alívio (uso de substâncias) ou fugir(6). A escola médica deveria estar preparada para ajudar o estudante de medicina no gerenciamento do estresse e de estratégias que o preparassem para lidar com a pressão vivenciada no dia-a-dia acadêmico e profissional. Tendo esta preocupação em foco, as escolas médicas deveriam agir cuidando mais do estudante de Medicina, respeitando-o, escutando-o, ajudando-o e dando suporte psicológico e pedagógico de forma geral e em especial àqueles que passam por dificuldades(14). Entre os benefícios percebidos por estudantes participantes de programas de manejo de estresse na escola médica estão: o aumento da função imunológi- ca, diminuição de sintomas de depressão e ansiedade, aumento da espiritualidade e da empatia, elevação do conhecimento sobre terapias alternativas para referenciá-las futuramente, aumento do conhecimento sobre os efeitos do estresse e maior uso de habilidades positivas para lidar com ele(15). Importante ressaltar ainda que como a amostra do presente estudo foi pequena, não se pode descartar a presença de erro do tipo 2 ou β. Devido à escassez de estudos na literatura sobre o tema ansiedade como preditora de desempenho acadêmico em estudantes de medicina, sugere-se que mais estudos sejam realizados dentro dessa temática, porém com amostras maiores para que possamos saber a real associação entre essas variáveis, assim como a avaliação do gerenciamento da ansiedade. Conclusão No presente estudo a ansiedade não se mostrou preditora do desempenho acadêmico em formandos de medicina, embora a prevalência de ansiedade moderada e grave tenha sido bastante significativa. Provavelmente a maneira como a ansiedade é gerenciada (coping) possa ser mais importante que o nível da ansiedade em si, para correlacionar a performance do estudante de medicina frente ao concurso de residência médica. Estudos que avaliem o gerenciamento do estresse poderiam ser de grande valia para verificar como lidar com a ansiedade em um grupo que está de fato passando por um período de pressão, tal como os estudantes do último ano de medicina. Referências Bibliográficas 1. Andrade LHSG, Gorestein C. Aspectos gerais das escalas de avaliação de ansiedade. Rev Psiquiatr Clin. (São Paulo). 1998; 25: 285-90. 2. Spielberger CD, Gorsuch RL,Lushene RE. Manual for the StateTrait Anxiety Inventory. Palo Alto, CA: Consulting Psychologists Press; 1970. 3. 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Attention and memory of medical residents after 22 Marafanti I, D’Elia G, Pinheiro MCP, Cordeiro Q, Alves TCTF. Influência de sintomas ansiosos no desempenho acadêmico de formandos de medicina. Arq Med Hosp Fac Cienc Med Santa Casa São Paulo. 2013; 58: 18-23. a night on call: a cross-sectional study. Clinics. 2011;66:505-8. 9. Andreatini R, Seabra ML. A estabilidade do IDATE-traço: avaliação após cinco anos. Rev ABP-APAL; 1993;15:21-5. 10. Biaggio AMB, Natalício L. Manual para o Inventário de Ansiedade Traço-Estado (IDATE). Rio de Janeiro: Centro Editor de Psicologia Aplicada-CEPA; 1979. 11. Baldassin SP, Martins LC, Andrade A G. Traços de ansiedade entre estudantes de medicina. Arq Med ABC. 2006; 31:27-3. 12. Mosley TH Jr, Perrin SG, Neral SM, Dubbert PM, Grothues CA, Pinto BM. Stress, coping and well-being among third-year medical students. Acad Med. 1994;69:765-7 13. Baldassin SP. Níveis, fontes e estratégias de enfrentamento de estresse psicológico entre estudantes de Medicina. Tese (Dissertação). São Paulo: Universidade de São Paulo; 2003. 14. Zonta R, Robles ACC, Grosseman S. Estratégias de enfrentamento do estresse desenvolvidas por estudantes de Medicina da Universidade Federal de Santa Catarina. Rev Bras Educ Med. 2006; 30:147-53. 15. Shapiro SL, Shapiro DE, Schwartz GE. Stress management in medical education: a review of the literature. Acad Med. 2000; 75:748-59. Trabalho recebido: 02/04/2013 Trabalho aprovado: 19/04/2013 23 ARTIGO ORIGINAL Arq Med Hosp Fac Cienc Med Santa Casa São Paulo 2013; 58: 24-8. Sondas de alimentação e broncopneumonias aspirativas Feeding tubes and aspiration bronchopneumonia Milton Luiz Gorzoni1, Lilian de Fátima Costa Faria2, Ambrósio Brandão2, Francisco do Carmo2, Marcelo Valente2, Sueli Luciano Pires3 pelo padrão de assistência de enfermagem desenvolvida na ILPI analisada. Fato este merecedor de replicação para sua confirmação como ação preventiva à redução de custo com antibióticos em ILPI. Resumo Broncopneumonias aspirativas (BCP) são comuns em uso de sondas de alimentação (SA): sondas nasogástricas (SNG), enterais (SNE) ou gastrostomia (GST). Técnicas adequadas na administração de dietas reduzem essa associação. Qual seria a incidência média de BCP nesse pacientes e haveria diferença de incidência anual de BCP entre as modalidades de SA? Objetivos: Determinar a incidência média e anual de BCP em sondados crônicos. Casuística e método: Análise de prontuários de internados em instituição de longa permanência para idosos (ILPI) e em uso de SA há mais de 3 meses. Critérios clínicos de BCP de Mehr e colaboradores (2001) definiram os casos positivos. Dividiu-se a casuística em 2 grupos: I - SNG e II - SNE/GST. Comparou-se os 2 grupos em internados com ou sem BCP por idade (<70 anos e ≥70 anos), sexo, tipo de SA (grupos I e II) e tempo do uso de sonda (<24 meses e ≥24 meses). Resultados: 15 mulheres e 14 homens (64,5 ± 13,9 anos). Sondados há 51,0 ± 44,0 meses (17 SNG, 9 SNE, 3 GST), 0,9 ±1,6 BCP/paciente. Não houve significância estatística quanto ao sexo, idade, tipo ou período de SA. Conclusões: Baixo índice de BCP no uso crônico de SA, sem significância estatística quanto ao tipo de SA ou tempo de uso. Justifica-se o observado Descritores: Pneumonia aspirativa, Nutrição parental, Instituição de longa permanência para idosos Abstract Bronchopneumonia (BCP) are common in use of feeding tubes (FT): nasogastric tubes (NGT), enteral (NET) or gastrostomy (GST). Proper techniques in administering diets reduce this association. What would be the average incidence of BCP in this patients? Would be no difference in the annual incidence of BCP between modes of FT? Objectives: To determine the incidence and average annual BCP in chronically catheterized patients. Methods: Analysis of records of inpatients in long-term institution for the elderly (LTIE) and use of FT for more than three months. Clinical criteria for BCP by Mehr and colleagues (2001). The sample was divided into 2 groups: I - NGT and II - NET/GST. We compared the two groups admitted with or without BCP by age (<70 and ³ 70 years), sex, type FT (groups I and II) and time of use of the probe (<24 months and ³ 24 months). Results: 15 women and 14 men (64.5 ± 13.9 years). Probed for 51.0 ± 44.0 months (17 NGT, 9 NET, 3 GST), 0.9 ± 1.6 BCP / patient. There was no statistical significance regarding gender, age, type or length of FT. Conclusions: Low index BCP in chronic use of FT , no statistical significance regarding the type of FT or time of use. Justified by the observed pattern of the nursing care provided in LTIE analyzed. A fact worthy of replication for confirmation as a preventive action to reduce the cost of antibiotics in LTIE. 1. Professor Adjunto da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo – Departamento de Clínica Médica 2. Médico Assistente do Hospital Geriátrico e de Convalescentes Dom Pedro II da Irmandade da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo 3. Professor Instrutor da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo Departamento de Clínica Médicas e Diretora Técnica do Hospital Geriátrico e de Convalescentes Dom Pedro II da Irmandade da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo Trabalho realizado: Hospital Geriátrico e de Convalescentes Dom Pedro II da Irmandade da Santa Casa de Misericódia de São Paulo Endereço para correspondência: Milton Luiz Gorzoni. Departamento de Clínica Médica da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo. Rua Doutor Cesário Motta Júnior, 112 – Vila Buarque – 01221-020 – São Paulo – SP – Brasil. Fone: (011)21767300. FAX: (011)5589-9408. E-Mail: [email protected] Conflito de interesses: Não há Comitê de Ética em Pesquisa da Irmandade da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo: Projeto n°039/09 Keywords: Pneumonia, Aspiration; Parenteral Nutrition; Homes for the Aged Introdução Indica-se rotineiramente sondas de alimentação (SA) em pacientes com disfagia grave com o objetivo de prevenir broncoaspirações(1-3). Por outro lado, a associação entre broncopneumonias aspirativas (BCP) e 24 Gorzoni ML, Faria LFC, Brandão A, Carmo F, Valente M, Pires SL. Sondas de alimentação e broncopneumonias aspirativas. Arq Med Hosp Fac Cienc Med Santa Casa São Paulo. 2013; 58: 24-8. SA é observada frequentemente na prática clínica(1,2,4,5). Técnicas adequadas na administração de dietas reduzem essa associação(6,7). Qual seria a incidência média de BCP em pacientes com SA em instituição de longa permanência para idosos (ILPI)? Haveria diferença de incidência anual de BCP entre as modalidades de sondagem alimentar (sondas nasogástricas [SNG], enterais [SNE] ou gastrostomia [GST]) nesses pacientes? Pesquisa no portal http://www.scielo.br, em 03/08/2012 e com os unitermos “sondas”, alimentação, “broncopneumonias”, “idosos”, “institucionalizados” localizou poucas citações(8-12). A associação dos unitermos “idosos” e “broncopneumonias” apresentou dois artigos(8,9), ambos realizados na mesma Instituição do presente estudo (Irmandade da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo - ISCMSP), sendo o primeiro(8) sobre avaliação da mortalidade em ILPI pertencente à ISCMSP e o segundo(9) sobre morbidade e mortalidade após revascularização do miocárdio sem circulação extracorpórea. Os dois trabalhos relataram broncopneumonias como complicações frequentes e causas de óbitos, sem observações sobre sondas de alimentação(8,9). As outras três publicações(10-12), localizadas por intermédio dos unitermos “sondas” e “alimentação” referem-se a revisão do uso de GST percutânea endoscópica(10), formulação de dietas enterais artesanais(11) e de representações sociais sobre a alimentação em sondados hospitalizados(12). À exceção da revisão sobre GST(10), que comenta sobre BCP como complicação maior do procedimento, não ocorreram outras observações sobre a associação de SA e BCP. Outra pesquisa, na mesma data e no portal http:// www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed, utilizando os unitermos feeding tubes, bronchopneumonia, elderly e Brazil encontrou poucos estudos brasileiros entre os artigos indexados com referências a broncoaspiração e/ou a broncopneumonia aspirativa(4,7,13). Duas das referências(4,13) relacionavam-se a revisões sobre sondas de alimentação e a terceira relatava em sua casuística um caso de aspiração pulmonar(7). Justifica-se assim, o presente estudo que mantém as perguntas referidas no seu parágrafo inicial sobre a incidência média de BCP em sondados crônicos internados em ILPI brasileira e sobre diferenças de incidência entre as modalidades de SA. O objetivo é determinar a incidência média e anual de BCP em sondados crônicos internados em ILPI. Avaliar incidência anual de BCP entre as modalidades de sondagem alimentar (sondas nasogástricas [SNG], enterais [SNE] ou gastrostomia [GST]) nesses pacientes. da ISCMSP, visto ser este local ILPI de 450 leitos com prontuários padronizados e supervisionados por comissão específica para isto. Possui também unidade para pacientes de alta dependência onde percentual significativo necessita de SA para manutenção de nutrição adequada. Definiu-se como sondado crônico os pacientes em uso da SA há mais de três meses. Justifica-se essa definição pela dinâmica do Setor de Fonoaudiologia do HGCDPII que considera o distúrbio de deglutição como crônico após esse período de tentativa de reabilitação fonoaudiológica. Merece observação que o conceito de sondados crônicos, na literatura consultada, não é uniforme embora convergente para o período de um mês(3,5,10,14). Considerou-se que o critério local (HGCDPII) permitiria análise de casuística mais caracterizada como sondados crônicos. Igualmente, definiu-se como broncopneumonia quadro clínico que preenchia os critérios clínicos de Mehr et al.(15) (2001) para infecções do trato respiratório baixo (Quadro 1). Analisou-se assim, prontuários de internados nessa ILPI e em uso de SA há mais de três meses. Dividiu-se a casuística encontrada dois grupos: I SNG e II - SNE/GST. Comparou-se os dois grupos subdividindo-os em internados com ou sem BCP por idade (<70 anos e ≥70 anos), sexo, tipo de SA (grupos I e II) e tempo do uso de sonda (<24 meses e ≥24 meses). A análise estatística utilizou qui-quadrado (teste de Yates corrigido ou teste exato de Fisher), com valor de significância (alfa) de 5,0%. Considerando-se a incidência média de BCP entre 40 a 30% da população estudada (29 pacientes), estimou-se casuística entre 27 e 28 internados com valor significativo quanto aos resultados. O presente estudo faz parte do Projeto N° 039/09 aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa em Seres Humanos da instituição onde foi realizado. Resultados Casuística de 15 mulheres e 14 homens (64,5 ± 13,9 anos). Sondados há 51,0 ± 44,0 meses (17 SNG, 9 SNE, 3 GST), 0,9 ±1,6 BCP/paciente (25 BCP/29 pacientes) ou 0,2 BCP/ano de SA. A presente casuística apresentou 17 pacientes sem BCP em períodos de 4 a 173 meses com SA (média de 60,5 ± 50,6 meses), sendo 7 mulheres e 9 homens com idade média de 60,4 ± 14,6 anos. Os outros 13 pacientes, com antecedentes de BCP, as tiveram em períodos entre 6 a 109 meses em uso de SA (média de 39,4 ± 32,5 meses), sendo 8 mulheres e 5 homens e com idade média de 39,4 ± 32,5 anos. Excetuando-se dois casos (2 BCP/6 meses e 1 BCP/9 meses de SA), os outros pacientes que apresentaram BCP eram sondados há mais de 12 meses, Casuística e Método Realizou-se o presente estudo no Hospital Geriátrico e de Convalescentes Dom Pedro II (HGCDPII) 25 Gorzoni ML, Faria LFC, Brandão A, Carmo F, Valente M, Pires SL. Sondas de alimentação e broncopneumonias aspirativas. Arq Med Hosp Fac Cienc Med Santa Casa São Paulo. 2013; 58: 24-8. Quadro 1. Critérios clínicos de Mehr et al.(15) para infecções do trato respiratório baixo. Pneumonia (BCP) = 2 critérios: 1. Raio -X tórax imagem BCP ou provável BCP 2. ≥2 sintomas e sinais Box. Traqueobronquite (TQBT) = 3 critérios: 1. Sem raio-x tórax e/ou critérios de BCP. 2. ≥3 sintomas e sinais Box. 3. DPOC ou ICC = critérios (1) + (2) + ≥38,0°C BCP ou TQBT. BCP = Pneumonia DPOC = Doença pulmonar obstrutiva crônica TQBT = Traqueobronquite ICC = Insuficiência cardíaca congestiva Box - Sinais e sintomas em infecções do trato respiratório baixo (5 + 3) Tosse aguda ou mudança de padrão (aumento) Secreção brônquica aguda ou mudança de padrão (aumento) Febre ≥38,0°C Dor torácica pleurítica Ausculta pulmonar ruídos adventícios inexistentes anteriormente ou mudança de padrão(↑) ≥1 indicadores de mudança ou desconforto respiratório (1) respiração superficial (aguda ou ↑), (2) freqüência respiratória >25/min., (3) delirium ou piora da dependência física em AVDs Índice preditor de mortalidade em institucionalizados - Variáveis e valores + pontuação Uréia mg% Pontos Leucócitos mil/mm³ Pontos Pulso bts/min Pontos IMC kg/m² Pontos ≤ 16 0 ≤ 14 0 ≤ 72 0 > 31 0 16,1- 27 1 14,1- 24 1 73- 102 1 25,1- 31 1 27,1- 38 2 > 24 2 103-132 2 19.1- 25 2 N.absoluto linfócitos - > 132 3 13,1- 19 3 Sexo - ≤ 13 4 38,1- 49 3 49,1- 60 4 60,1- 71 5 > 800 0 Mulher 0 AVDs - >71 6 ≤ 800 1 Homem 1 0 0 1-2 1 3-4 2 Humor pior >90dias Total Não 0 Sim 2 - bts/min = batimentos/minuto - - IMC = índice de massa corpórea AVDs = Atividades da vida diária (1) Vestir-se + (2) Continência + (3) Locomover-se + (4) Alimentar-se = ≤ 4 Fonte: Mehr DR et al. 286(19):2427, 2001 (15) - Predicting mortality in nursing home residents with lower respiratory tract infection. JAMA. 26 Gorzoni ML, Faria LFC, Brandão A, Carmo F, Valente M, Pires SL. Sondas de alimentação e broncopneumonias aspirativas. Arq Med Hosp Fac Cienc Med Santa Casa São Paulo. 2013; 58: 24-8. Discussão com incidências individuais entre 1 BCP/12 meses a 8 BCP/37 meses (incidência de 0,6 BCP/ano de SA). Ocorreram 15 BCP entre os 17 pacientes em uso de SNG (incidência de 0,23 BCP/ano de SA), sete BCP entre os nove internados com SNE (incidência de 0,16 BCP/ano de SA) e três BCP em três gastrostomizados (incidência de 0,22 BCP/ano de SA). Não houve significância estatística quanto ao sexo, idade, tipo ou período de SA (Tabela1). A relação efetiva entre SA e BCP é controversa, visto que SA são indicadas para prevenir broncoaspirações e em contrapartida, possuem potencial de desencadear aspirações brônquicas(1-5). Dentro da literatura consultada, poucos estudos analisaram essa relação em sondados crônicos internados em ILPI(5,15). Há relatos dessa relação em sondados agudos situados em outros locais como enfermarias e unidades de tratamento intensivo(1,2,7,14). Cabe a observação de que estima-se o uso de SA em 5,8 a 34,0% dos pacientes internados em ILPI(3,6,15). O percentual de casos analisados na presente casuística (29 pacientes) no total de leitos do HGCDPII (450) - 6,4% - encontra-se próximo ao valor estimado - 5,8% - de norte americanos sondados em ILPI(6). Discute-se na prática clínica se o tipo de SA e sua locação alteraria o risco de BCP em sondados. Considera-se habitualmente que as de maior risco seriam as SNG devido a vários fatores: (1) perda da integridade anatômica dos esfíncteres esofagianos, (2) dessensibilização de reflexos em laringe, (3) aumento do pH gástrico com colonização bacteriana nas secreções estomacais, (4) migração de bactérias pela SNG e colonização faringeana(4). SA locadas após a primeira porção do duodeno aparentemente reduzem a incidência de BCP em seus usuários1, justificando incidência menor de BCP em SNE e incidência aproximadamente igual entre SNG e GST no presente estudo. Curiosamente, mesmo com apenas três pacientes com GST, o valor da incidência anual de BCP foi equivalente a outro estudo consultado(5). Fica como observação final que, após instalação definitiva de SA, cabe aos profissionais da saúde que assistem a esses pacientes cuidados e técnicas adequadas à administração de dietas enterais e com as próprias SA(6). Supõem-se de que a baixa incidência de BCP em sondados crônicos na ILPI avaliada decorra de protocolos e atitudes adequadas por parte do seu corpo de enfermagem. Este detalhe será objeto de análise mais detalhada em estudo futuro, visto não constar como objetivo do presente trabalho. Tabela 1 Características da casuística estudada de usuários crônicos de sondas de alimentação e incidência anual de broncopneumonias. Meses em Idade Tipo Número ILPI com Gênero (anos) de SA de BCP SA Feminino 76 SNG 4 Feminino 73 SNE 1 15 Feminino 72 SNG 3 26 Feminino 80 SNE 2 6 Masculino 68 SNG 1 48 Feminino 73 SNG 34 Feminino 76 SNG 7 Masculino 51 SNG 79 Feminino 69 SNE 29 Feminino 61 SNG 1 12 Masculino 64 SNG 1 9 Masculino 61 GST 2 33 Feminino 74 SNG 51 Feminino 58 SNE 2 43 Feminino 50 SNG 49 Masculino 45 SNG 8 37 Masculino 57 SNG 62 Masculino 38 SNE 48 Masculino 33 SNG 55 Masculino 79 SNE 1 103 Masculino 43 SNE 168 Masculino 67 SNG 173 Masculino 48 GST 102 Masculino 74 SNG 33 Masculino 73 SNG 5 Feminino 85 SNG 1 109 Feminino 79 SNE 1 40 Feminino 80 GST 1 31 Feminino 64 SNE 69 Média 64,5 0,9 51,0 Desvio ± 13,9 ± 1,6 ± 44,0 Padrão Conclusões A presente casuística apresentou baixo índice de BCP no uso crônico de SA, não tendo ocorrido significância estatística quanto ao tipo de SA ou tempo de uso. Pode-se justificar o observado pelo padrão de assistência de enfermagem desenvolvida na ILPI analisada. Fato este merecedor de replicação para sua confirmação como ação preventiva voltada à redução de custo com antibióticos e/ou desenvolvimento de flora bacteriana multirresistente em ILPI. Não houve significância estatística quanto ao sexo, idade, tipo ou período de SA. SA - Sondas de alimentação; BCP – Broncopneumonias; ILPI - Instituição de longa permanência para idosos; SNG - Sonda nasogástrica; SNE - Sonda nasoenteral; GST – Gastrostomia. 27 Gorzoni ML, Faria LFC, Brandão A, Carmo F, Valente M, Pires SL. Sondas de alimentação e broncopneumonias aspirativas. Arq Med Hosp Fac Cienc Med Santa Casa São Paulo. 2013; 58: 24-8. Referências Bibliográficas 9. Pinto e Silva AMR, Campagnucci VP, Pereira WL, Rosa RF, Franken RA, Gandra SMA, et al. Revascularização do miocárdio sem circulação extracorpórea em idosos: análise da morbidade e da mortalidade. Rev Bras Cir Cardiovasc. 2008; 23:40-5. 10. Minicucci MF, Silva GF, Matsui M, Inoue RMT, Zornoff LAM, Matsubara LS, et al. 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Effects of continuous versus bolus infusion of enteral nutrition in critical patients. Rev Hosp Clín Fac Med S Paulo. 2003; 58:9-14. 8. Gorzoni ML, Pires SL. Óbitos em instituição asilar. Rev Assoc Med Bras. 2011; 57:333-7. Trabalho recebido: 04/04/2013 Trabalho aprovado: 22/04/2013 28 ARTIGO DE REVISÃO Arq Med Hosp Fac Cienc Med Santa Casa São Paulo 2013; 58: 29-33. Estimulação cerebral não-invasiva na prática clínica: atualização Non-invasive brain stimulation in clinical practice: update Vitor Breseghello Cavenaghi1, Vitor Serafim1, Michele Devido-Santos2, Marcel Simis3, Felipe Fregni4, Rubens José Gagliardi5 necessário a realização de mais estudos para a compreensão e adequação das técnicas na prática clínica. Resumo As técnicas de estimulação cerebral não-invasivas, sobretudo a estimulação magnética transcraniana (EMT) e a estimulação transcraniana por corrente contínua (ETCC), têm chamado a atenção de pesquisadores e profissionais da área da saúde, fato demonstrado pelo expressivo aumento no número de publicações sobre o assunto nos últimos anos. O objetivo deste artigo é, portanto, apresentar uma atualização sobre estimulação cerebral não-invasiva a partir de uma revisão e discussão utilizando artigos indexados no Medline, publicações do Conselho Federal de Medicina (CFM) e Food and Drug Administration (FDA). Experimentalmente tanto a EMT quanto a ETCC têm sido usadas para o tratamento de doenças neuropsiquiátricas como a doença de Parkinson, epilepsia, dor neuropática, demências, depressão, sequelas de acidente vascular cerebral (AVC), esquizofrenia e mapeamento cirúrgico. Recentemente o CFM reconheceu o uso clínico da EMT em casos de depressão, alucinações auditivas de esquizofrenias e para o mapeamento cerebral cirúrgico (Resolução no 1.986, de 22 de março de 2012). A EMT e a ETCC apresentam potencial para o tratamento de desordens neurológicas e psiquiátricas, justificando e fazendo Descritores: Estimulação magnética transcraniana, Estimulação elétrica, neuropsiquiatria, Medicina física, Equipamentos e provisões Abstract Non-invasive brains stimulation techniques, mainly transcranial magnetic stimulation (TMS) and transcranial direct current stimulation (tDCS) have been calling the attention of researchers and health care professionals as we can see by the expressive increase in the number of publications on this subject over the past few years. On that account the aim of this article is to provide an update about non-invasive brain stimulation by reviewing and discussing articles indexed in Medline, Conselho Federal de Medicina (CFM) and Food and Drug Administration (FDA) publications. Experimentally TMS and tDCS have been studied in the treatment of neuropsychiatric diseases such as Parkinson, epilepsy, pain, dementia, depression, stroke, schizophrenia and brain mapping. Lately, the CFM recognized the clinical use of TMS in cases of depression, auditory hallucinations in schizophrenia and brain mapping for surgeries (Resolution no 1.986, march 22, 2012). TMS and tDCS have a potential for the treatment of neurological and psychiatric diseases, justifying and making necessary the conduction of more studies to the understanding and adequacy of these techniques to the clinical practice. 1. Acadêmico do 3º Ano do Curso de Graduação em Medicina da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo 2. Professora Instrutora da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo. Curso de Graduação em Fonoaudiologia 3. Fellow Researcher da Harvard Medical School e doutorando da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo 4. Professor Associado e Diretor do Laboratory of Neuromodulation, Spaulding Rehabilitation Hospital, Harvard Medical School 5. Professor titular da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo. Departamento de Clínica Médica Trabalho realizado: Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo. Departamento de Clínica Médica. Ambulatório de Neurologia Endereço para correspondência: Vitor Breseghello Cavenaghi. Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo, Ambulatório de Neurologia. Rua Cesário Mota Júnior, 112, Vila Buarque - 01221-020 - Sao Paulo, SP – Brasil. Telefone: (11) 2176-7232. E-mail: [email protected] Key-words: Transcranial magnetic stimulation, Electric stimulation, Neuropsychiatry, Physical medicine, equipment and supplies Introdução A estimulação cerebral não-invasiva inclui, sobretudo, duas técnicas: a estimulação magnética transcraniana (EMT) e a estimulação transcraniana por corrente contínua (ETCC). A EMT é uma técnica de estimulação cerebral não-invasiva que funciona a partir do posicionamento de uma bobina sobre o crânio do 29 Cavenaghi VB, Serafim V, Devido-Santos M, Simis M, Fregni F, Gagliardi RJ. Estimulação cerebral não-invasiva na prática clínica: atualização. Arq Med Hosp Fac Cienc Med Santa Casa São Paulo. 2013; 58: 29-33. de da corrente elétrica gerada(1). A EMT pode ser utilizada em pulso magnético único ou como sequência de pulsos de frequência pré-determinada, sendo essa última forma denominada estimulação magnética transcraniana repetitiva (EMTr). Assim, é possível modificar a excitabilidade cortical, estimulando os neurônios, quando a frequência é maior que 1 Hz, ou inibindo-os, quando a frequência é menor que 1 Hz(9, 10). Experimentalmente tem sido usada para o tratamento de doenças neuropsiquiátricas como a doença de Parkinson(11), epilepsia(12,13), dor neuropática(14), demência(15), depressão(16,17), além das sequelas de acidente vascular cerebral (AVC)(18,19), esquizofrenia(20,21) e mapeamento cirúrgico(22). O número de pesquisas envolvendo a EMT vem crescendo a cada ano, o que reflete no número de artigos publicados e indexados no Medline (Gráfico 1). sujeito alvo no local correspondente à região cortical de interesse(1). As primeiras publicações indexadas no Medline em EMT são de 1987 e recentemente o interesse pela técnica tem aumentado em virtude dos resultados apresentados em experimentos resultando no reconhecimento pelo Conselho Federal de Medicina (CFM) para uso clínico em depressão, alucinações auditivas de esquizofrenias e para o mapeamento cerebral cirúrgico(2). Enquanto na ETCC são utilizados dois eletrodos (um cátodo e um anodo) e um gerador alimentado por bateria para a aplicação de uma corrente contínua de amplitude de até 2mA no escalpo, de acordo com a região e estímulos objetivados(3). O primeiro estudo em ETCC foi conduzido em 1998(4) e o interesse pela técnica e o baixo custo para a sua realização tem levado ao seu uso experimental em diferentes áreas da neurologia e psiquiatria. Tanto na EMT quanto na ETCC diferentes regiões do cérebro podem ser estimuladas ou inibidas, a nível cortical, podendo ter repercussões subcorticais, envolvendo vias glutamatérgicas e fator neurotrófico derivado de cérebro (BDNF)(5), e efeitos de modulação cerebral, gerando, a nível neuronal, potenciação de longa duração (LTP) ou depressão delonga duração (LTD)(6). Em decorrência do crescente interesse da comunidade científica pelas técnicas de EMT e ETCC e do recente reconhecimento da EMT pelo CFM para uso clínico o objetivo deste artigo é apresentar uma atualização sobre EMT e ETCC. Gráfico 1 - Número de trabalhos publicado por ano indexados no Medline (de 2007 a 2011). Palavra-chave utilizada: transcranial magnetic stimulation. Método Apresentação de atualização sobre ETCC e EMT fazendo uso de artigos indexados no Medline, regulamentações do CFM e Food and Drug Administration (FDA). No tratamento de depressão maior resistente, com falha em terapia medicamentosa, 301 pacientes participaram de estudo placebo-controlado e receberam EMTr ou estimulação placebo, apresentaram resultados positivos, estatisticamente relevantes e duradouros após 24 semanas de acompanhamento aqueles que receberam a EMTr(16). Recentemente, em 2012, também se verificou que a EMTr teve impactos positivos em 18 pacientes com quadro de depressão avaliados a partir da escala da Escala de Depressão de Hamilton (p<0,001)(17). No caso da esquizofrenia com presença de alucinações auditivas, 38 pacientes receberam EMTr por 20 minutos na região têmporo-parietal, duas vezes ao dia, durante 6 dias, a uma frequência de 1Hz e 90% do potencial motor evocado e apresentaram diminuição na frequência de alucinações visuais na Escala de Hoffman(20). Bagati et al, em 2009, usaram parâmetros semelhantes, também encontraram resultados positivos avaliados a partir da Escala de Hoffman(17). EMT Na EMT a bobina posicionada sobre o escalpo do paciente, na região correspondente a porção cortical de interesse, recebe do aparelho estimulador uma corrente elétrica alternada elevada e breve, de frequência e intensidade que podem variar(1), assim a mudança na orientação da corrente elétrica dentro da bobina gera um campo magnético que atravessa o relativo isolamento da pele, osso e meninges atingindo o córtex cerebral. Esse campo magnético gera uma corrente elétrica no córtex, que se restringe a aproximadamente 3cm² e 2cm de profundidade, variando com a geometria e forma da bobina(7,8). A corrente induzida despolariza neurônios e pode gerar potenciais de ação, dependendo da orientação dos neurônios e intensida- 30 Cavenaghi VB, Serafim V, Devido-Santos M, Simis M, Fregni F, Gagliardi RJ. Estimulação cerebral não-invasiva na prática clínica: atualização. Arq Med Hosp Fac Cienc Med Santa Casa São Paulo. 2013; 58: 29-33. A EMT permite também o mapeamento somatotópico pré-cirúrgico não-invasivo e o planejamento de procedimentos invasivos, como concluiu Kantelhardt et al (2010)(18) após estudo em 5 pacientes. Isso ganha importância uma vez que a forma e a exata localização da região motora cortical correspondente a determinada região do corpo varia de indivíduo a indivíduo e ainda condições patológicas podem causar distorções na localização das regiões motoras podendo, inclusive, mudá-las para outras regiões (23). Alguns efeitos adversos também foram relatados em estudos de 2011, incluindo indução de crise convulsiva(24,25), desconforto e cefaleia(26), sendo o efeito adverso mais comum a cefaleia, e o mais grave a crise convulsiva, que varia dependendo do parâmetro de estimulação utilizado, com maior risco para EMT com pulsos repetitivos de alta frequência. Para tal situação o risco estimado é de 1,4% em pacientes epiléticos e menos de 1% para normais, a partir de dados estimados por Rossi et al em 2009(27). Atualmente a EMT é aprovada pelo FDA para uso clínico nos EUA em pacientes com quadro dedepressão maior que falharam na resposta de ao menos uma terapia antidepressiva e que não estão em uso de nenhuma medicação antidepressiva(28). mantidos no lugar por aparatos de borracha. Assim, os efeitos da ETCC dependem fundamentalmente da montagem dos eletrodos (áreas em que são posicionados) e dos parâmetros da estimulação (intensidade da corrente e duração da estimulação), e podem tanto estimular (aumentando a excitabilidade cortical), quanto inibir (diminuindo a excitabilidade cortical) regiões cerebrais de acordo com o interesse e estratégia propostos(32). Originalmente desenvolvida nos anos 1950 a ETCC tem sido recentemente redescoberta e seus efeitos investigados(33). Embora ainda não aprovada para uso terapêutico em nenhum país, pesquisas mostram que essa técnica pode ter resultados positivos para o tratamento de dores crônicas(34,35), depressão(36,37), doença de Parkinson e distonia(38,39), doença de Alzheimer(40,41), sequelas de AVC(42,43), epilepsia(44,45), entre outros. O número de publicações sobre ETCC também vem crescendo como ilustra o Gráfico 2. ETCC Outra técnica de estimulação cerebral não-invasiva que tem sido usada experimentalmente é a ETCC, capaz de modular a excitabilidade cortical usando correntes elétricas contínuas de baixa intensidade com o posicionamento de eletrodos no escalpo do paciente. Apresenta indicações terapêuticas semelhantes à EMT, no entanto tem a vantagem de ser uma técnica mais simples, portátil, de baixo custo, com controle placebo confiável e efeitos adversos raros e pouco significativos. Assim como a EMT, a ETCC é indolor e com efeitos adversos considerados leves, embora frequentes, sendo os mais comuns prurido e formigamento no local da aplicação, cefaléia, sensação de queimação e desconforto(29). Diferentemente da EMT essa não gera despolarização neuronal, sendo o risco de crise convulsiva pouco provável, não existindo relatos até o momento. Os efeitos biológicos ocorrem devido a mudanças relacionadas aos potenciais de repouso das membranas, levando a despolarização ou hiperpolarização neuronais e da polaridade aplicada: estimulação catódica diminui a excitabilidade cortical, enquanto a anódica a aumenta(30,31). Dois eletrodos esponjosos (20-35 cm2) são conectados a um gerador alimentado por baterias, capaz de gerar correntes contínuas com amplitudes de até 2 mA. Os eletrodos são então embebidos em gel condutor ou solução salina e posicionados sobre o escalpo, Gráfico 2 - Número de trabalhos publicado por ano indexados no Medline (de 2007 a 2011). Palavra-chave utilizada: trancranial direct current stimulation. Discussão Nos EUA o interesse científico e clínico da EMT tem aumentado a cada ano, sendo um dos fatores que influenciaram a aprovação pelo FDA(28). Fenômeno semelhante é esperado no Brasil, sobretudo após o reconhecimento da técnica pelo CFM(2). O que dificulta a compreensão da eficácia das técnicas de estimulação cerebral não-invasiva são os diferentes parâmetros utilizados nos estudos, tanto para a estimulação quanto para a avaliação dos resultados, bem como o número pequeno de pacientes que compõe os grupos de estudo. Mesmo os parâmetros indicados pelo CFM(2) não são uma unanimidade. Com relação aos efeitos adversos, apesar de importantes como crises convulsivas (no caso da EMT)(24,25), eles se resumem a alguns relatos na literatura, em meio a inúmeros estudos conduzidos pelo mundo. Como segurança, no entanto, o CFM restringe sua aplicação 31 Cavenaghi VB, Serafim V, Devido-Santos M, Simis M, Fregni F, Gagliardi RJ. Estimulação cerebral não-invasiva na prática clínica: atualização. Arq Med Hosp Fac Cienc Med Santa Casa São Paulo. 2013; 58: 29-33. a serviços com capacidade para manejo imediato de complicações, com a possibilidade, por exemplo, de intubação orotraqueal(2). Ainda, com relação ao desconforto e ao som emitido pelo aparelho de EMT(26), pode-se realizar o manejo e dificilmente esses fatores são impeditivos ou restritivos às essas técnicas. Com relação aos custos da EMT, apesar de o aparelho de EMT ter um custo mais elevado quando comparado ao aparelho de ETCC, em estudo comparando apenas custos de terapias aprovadas pelo FDA para o tratamento de depressão maior resistente a medicação, dentre elas eletroconvulsoterapia (ECT), EMT, estimulação do nervo vago e estimulação cerebral profunda (não aprovada pelo FDA), a EMT mostrou o menor custo(46). Aliado a isso deve se considerar que a EMT é uma técnica que não requer anestesia ou procedimento invasivo para sua realização. Em contrapartida, estudos devem ser conduzidos para se comparar o efeito a longo prazo da EMT com relação a outras terapias, e mesmo com relação à ETCC, que tem um custo menor inclusive do que a EMT. O aparelho utilizado na realização da ETCC tem um preço estimado menor do que US$100,00(47). Além disso, o aparelho pode ser utilizado em vários pacientes, portanto gastos adicionais estão relacionados com eventual manutenção e com cloreto de sódio a 0,9%, cerca de 20 ml por paciente por sessão de 20 minutos. Ainda, tendo em vista o caráter experimental de ambas as técnicas para o tratamento de muitas desorders neuro-psiquiátricas, deve ser abordada a questão ética. É importante salientar a importância da explicação do estudo para os sujeitos da pesquisa que venham a ser convidados para a aplicação da EMT ou ETCC em caráter experimental, de seus objetivos e eventuais riscos. A obtenção do termo de consentimento livre e esclarecido, aprovado por um Comitê de Ética em Pesquisa (CEP), é pré-condição para a realização dos estudos e deve ser obtido do sujeito da pesquisa, ou de seu responsável legal, com habilidade de tomar decisões antes do indivíduo ser submetido a qualquer procedimento experimental(48). Tanto a EMT como a ETCC são técnicas complexas que exigem o domínio do manuseio dos aparelhos, locais de aplicação e posicionamento de eletrodos e bobinas, intensidade, frequência, intervalo e duração da estimulação. Isso limita a velocidade da expansão da utilização dessas técnicas, uma vez que os profissionais que venham a utilizar as mesmas também devem ser experimentados nos referidos fatores. desordens neurológicas e psiquiátricas, ainda é necessária a realização de mais estudos para a compreensão e adequação das técnicas na prática clínica. Referências Bibliográficas 1. ZPascual-Leone A. Handbook of transcranial magnetic stimulation. 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Pedro Shiozawa1, Mailu Enokibara da Silva1, Felipe Fregni2, Andre Russowsky Brunoni3, Quirino Cordeiro1 Até o momento, a maior parte dos ensaios clínicos com ETCC foram realizados investigando-se a depressão, com resultados positivos e promissores. O presente artigo consiste em revisão sistemática da literatura sobre o uso da ETCC para distúrbios psiquiátricos. Resumo A Estimulação Transcutânea por Corrente Contínua (ETCC) é uma nova proposta terapêutica em rápido desenvolvimento nos últimos anos parecendo ser uma técnica promissora para o tratamento de vários distúrbios neuropsiquiátricos. Esta consiste na aplicação de uma corrente elétrica direta que flui entre dois eletrodos relativamente grandes (cátodo e ânodo). Durante a ETCC, uma corrente elétrica de baixa intensidade é aplicada através do couro cabeludo penetrando no crânio e chegando ao córtex cerebral e podendo modificar o potencial de repouso da membrana neuronal, e, por conseguinte, modular a taxa de disparo neuronal. Alguns estudos clínicos demonstraram que a ETCC pode ser eficaz em diminuir a fissura por cigarro, melhorar o desempenho cognitivo de idosos com doença de Alzheimer e diminuir a dor em pacientes com fibromialgia. Descritores: Terapia por estimulação elétrica/métodos, Estimulação magnética transcraniana, Psiquiatria Abstract Transcutaneous Direct Current Stimulation (tDCS) is a new therapeutic approach for the treatment of various neuropsychiatric disorders. This consists in applying a direct electric current that flows between two relatively large electrodes (cathode and anode). During tDCS, an electric current of low intensity is applied by penetrating the scalp and skull reaching the cerebral cortex and may modify the resting membrane potential of neurons, and therefore modulate neuronal firing rate. Some clinical studies have shown that tDCS may be effective in reducing cigarette cravings, improve cognitive performance in older adults with Alzheimer’s disease and reduce pain in patients with fibromyalgia. To date, most clinical trials have been conducted to investigate ETCC to depression, with positive and promising. This article is to systematically review the literature on the use of tDCS for psychiatric disorders. 1. Médico Psiquiatra Assistente do Centro de Atenção Integrada à Saúde Mental (CAISM) da Irmandade da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo; Coordenador do Laboratório de Neuromodulação Clínica do Centro de Atenção Integrada à Saúde Mental (CAISM) da Irmandade da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo 2. Médica Psiquiatra Assistente do Centro de Atenção Integrada à Saúde Mental (CAISM) da Irmandade da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo 3. Professor Associado da Harvard Medical School; Diretor do Laboratório de Neuromodulação do Spaulding Rehabilitation Hospital 4. Médico Psiquiatra do Centro de Pesquisa Clínica do Hospital Universitário da Universidade de São Paulo 5. Professor Adjunto da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo – Departamento de Psiquiatria e Psicologia. Diretor do Centro de Atenção Integrada à Saúde Mental (CAISM) da Irmandade da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo Trabalho realizado: Laboratório de Neuromodulação Clínica, Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo Endereço para correspondência: Pedro Shiozawa. Laboratório de Neuromodulação Clínica, Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo, Brasil. Rua Major Maragliano, 241, Vila Mariana – 0460001 – São Paulo – SP – Brasil. Fone: 34662100. E-mail: [email protected] Keywords: Electric stimulation therapy/methods, Transcranial magnetic stimulation, Psychiatry Antecedentes Estimulação Transcraniana por Corrente Contínua (ETCC) A ETCC é uma nova proposta terapêutica em rápido desenvolvimento nos últimos anos parecendo ser uma técnica promissora para o tratamento de vários distúrbios neuropsiquiátricos. Esta consiste na aplicação de uma corrente elétrica direta que flui 34 Shiozawa P, Silva ME, Fregni F, Brunoni AR, Cordeiro Q. Estimulação craniana por corrente contínua (ETCC) no tratamento de distúrbios psiquiátricos: o que sabemos até agora? Arq Med Hosp Fac Cienc Med Santa Casa São Paulo. 2013; 58: 34-7. entre dois eletrodos relativamente grandes (cátodo e ânodo). Durante a ETCC, uma corrente elétrica de baixa intensidade é aplicada através do couro cabeludo penetrando no crânio e chegando ao córtex cerebral e podendo modificar o potencial de repouso da membrana neuronal (1,2) e, por conseguinte, modular a taxa de disparo neuronal. Outro aspecto importante da ETCC é que seus efeitos são polaridade-dependentes, ou seja, há aumento da atividade cortical com estimulação anódica e diminuição da atividade cortical com estimulação catódica(3) e esta técnica de estimulação aumenta a excitabilidade cortical sem induzir potencial de ação. Alguns estudos clínicos demonstraram que a ETCC pode, por exemplo, ser eficaz em diminuir a fissura por cigarro(4), melhorar o desempenho cognitivo de idosos com doença de Alzheimer(5) e diminuir a dor em pacientes com fibromialgia(6) . Até o momento, a maior parte dos ensaios clínicos com ETCC foram realizados investigando-se a depressão, com resultados positivos e promissores (7,8). Vale mencionar que a ETCC é uma técnica diferente da estimulação magnética transcraniana, que tem como princípio a geração de pulsos eletromagnéticos para induzir correntes elétricas no cérebro. A ETCC oferece algumas vantagens quando comparada à estimulação magnética transcraniana, por exemplo: (1) maior portabilidade: o aparelho de ETCC é pequeno e portátil, o que possibilitaria o tratamento em domicílio – aspecto de grande importância para pacientes com dificuldade de locomoção; (2) os efeitos da ETCC apresentam maior duração: 10 minutos de estimulação magnética transcraniana repetitiva pode modular a excitabilidade cortical por não mais que 10 minutos(9) enquanto uma sessão de 13 minutos de ETCC tem efeitos de excitabilidade cortical por até 2 horas(10); (3) o custo de um aparelho de ETCC (menos de mil reais) é significativamente menor do que um de estimulação magnética (por volta de cinquenta mil reais), tornando a ETCC uma opção interessante para diferentes níveis socioeconômicos. palavras-chave foram escolhidas, mesmo na ausência de termo específico (MESH) visando-se priorizar a sensibilidade sobre a especificidade. Não foram adotados limites de data para pesquisa primária. Referências complementares dentro de cada estudo encontrado, bem como opiniões de especialistas foram adicionadas com o objetivo de ampliar a pesquisa principal. Critérios de elegibilidade Foram adotados os seguintes critérios de inclusão: (1) manuscrito escrito em Inglês, Espanhol ou Português, (2) os ensaios clínicos; (3) Estudos de intervenção e (4) estudos pré-clínicos. Foram excluídos relatos de casos, cartas editoriais, comentários, entrevistas e estudos de avaliação de condições diferentes transtornos neuropsiquiátricos ou outras intervenções que não tDCS. Extração de dados As seguintes variáveis foram extraídas de acordo com uma lista de verificação estruturada previamente elaborado pelos autores: Resumo: desenho do estudo, autores, ano de publicação, resumo técnica, outros dados relevantes. Características demográficas: idade total da amostra (número), (anos), sexo (por cento das mulheres); Avaliação de transtorno mental: método para o diagnóstico (entrevista clínica, checklist estruturado) Resultados: em que descrevemos cada principais resultados do estudo. Avaliação da Qualidade Como avaliar heterogeneidade metodológica entre os estudos, foi realizada a avaliação da qualidade individual e abrangente para cada estudo, com foco em duas questões críticas metodológicas: (a) validade interna - para estudos clínicos que seguiu as diretrizes da Cochrane para avaliar o risco de viés na randomização / alocação (viés de seleção), a comparação ofuscante e controle (viés de desempenho), e avaliação dos resultados e elaboração de relatórios (vieses de medição de atrito e relatórios). (b) construto de validade - se os critérios operacionais utilizados para “transtorno mental”, e “estimulação elétrica por corrente contínua” foram adequadas, ou seja, se cada estudo efetivamente correspondia a pesquisa clínica ou pré-clínica focada na intervenção tDCS para transtornos mentais, Método Nossa revisão sistemática foi realizada de acordo com as recomendações do grupo Cochrane, conforme as diretrizes PRISMA . Revisão da literatura Análise quantitativa Prevendo que o número de estudos seria baixo (como o uso da tDCS é ainda incipiente em todo o mundo) o nosso objetivo inicial não era executar qualquer análise quantitativa, incluindo meta-análise e técnicas de meta-regressão. Em vez disso, uma revisão Revisão sistemática da Medline e Embase utilizando-se descritores específicos: “Transcranial stimulation”; “tDCS”; “Brain Polarization”; “Eletric Stimulation”; “Eletric Polarization”; “non invasive brain stimulation”; “NIBS” e “mental disorders”. As 35 Shiozawa P, Silva ME, Fregni F, Brunoni AR, Cordeiro Q. Estimulação craniana por corrente contínua (ETCC) no tratamento de distúrbios psiquiátricos: o que sabemos até agora? Arq Med Hosp Fac Cienc Med Santa Casa São Paulo. 2013; 58: 34-7. crítica das principais conclusões do estudo e dirigiu as suas limitações. sessão, em 11 pacientes com depressão. Neste estudo aberto, o cátodo foi posicionado no músculo deltóide direito, houve uma redução significativa dos sintomas depressivos em cerca de 44% em relação ao baseline. Vale salientaruma revisão sistemática e meta-análise recente(7) que avaliou 108 itens relacionados ao tratamento da depressão com ETCC. Os autores evidenciaram que ETCC ativa foi associada com uma redução na severidade dos sintomas de aproximadamente 29% e os efeitos benefícios clínicos tenderam a persistir por até 1 mês de follow-up. Os efeitos secundários mais frequentes associados à ETCC foram coceira, dor de cabeça e vermelhidão na região da estimulação. Embora comuns, os efeitos adversos foram semelhantes em ambos os grupos ativos e sham {Brunoni, efeitos colaterais} Outro Estudo de impacto foi conduzido por um grupo australiano(14) que teve por objetivo investigar a eficácia do ETCC em um ensaio duplo-cego, placebo-controlado, onde 64 participantes com depressão maior receberam ETCC anódica ativa ou simulada no córtex pré-frontal dorsolateral esquerdo (2 mA, 15 sessões divididas em 3 semanas), seguido de uma fase de 3 semanas de tratamento ativo para todos os grupos. Foram avaliados sintomas depressivos e desempenho em escalas cognitivas. Houve melhora significativa do humor no grupo ativo versus sham (p <0,05), embora nenhuma diferença nas taxas de resposta tenha sido verificada (13% em ambos os grupos). Atenção e memória de trabalho apresentaram melhora após uma única sessão de tratamento ativo, mas não para o grupo sham (p <0,05). Não houve declínio do desempenho neuropsicológico após 3-6 semanas de estimulação ativa. Resultados ETCC para o tratamento de Depressão Maior A justificativa para a utilização de ETCC para a depressão é baseado nas propriedades de aumento (ETCC anódica) e redução (catódica) da excitabilidade cortical [8], [10]. Alguns ensaios clínicos iniciais mostraram melhora significativa dos sintomas depressivos para pacientes submetidos a tratamento complementar com ETCC. Fregni et al(11) em um ensaio clínico randomizado controlado, verificaram diminuição significativa na Escala de Avaliação da Depressão de Hamilton e Inventário de Depressão de Beck após 5 dias de estimulação ativa com 1 mA e 20 min diários. A redução média na pontuação da depressão foi entre 60 e 70% para o grupo ETCC ativa em relação aos valores basais. Resultados semelhantes foram demonstrados em outro estudo com pacientes com episódios depressivos maior sem uso concomitante de antidepressivos. Os pacientes apresentaram melhora clínica após 5 dias de estimulação ativa. Um estudo mais recente buscou explorar os efeitos antidepressivos de longa duração da ETCC, os autores avaliaram um protocolo de 10 sessões de ETCC com 2mA [4]. Um total de 40 pacientes com depressão moderada a grave, sem uso de medicação antidepressiva foram incluídos e distribuídos aleatoriamente para ETCC pré-frontal (21 pacientes), occipital (9 pacientes) ou estimulação placebo (10 pacientes). Os sintomas depressivos foram avaliados antes, imediatamente após, 15 e 30 dias após a estimulação. Só os pacientes do grupo de estimulação pré-frontal apresentou redução significativa dos sintomas depressivos - cerca de 40% de redução em relação ao baseline. Os efeitos benéficos foram estáveis durante 30 dias após o término do protocolo de intervenção. Ferrucci et al(5) avaliaram pacientes com depressão grave usando duas sessões diárias de ETCC (2mA, 2o minutos por sessão), duas vezes por dia durante 5 dias consecutivos. Os autores encontraram melhora de cerca de 20% nos sintomas depressivos para o grupo ativo. Brunoni et al (8) num estudo com 31 pacientes utilizando do mesmo protocolo, encontrou resultados semelhantes para pacientes com diagnóstico de depressão bipolar, com uma redução de cerca de 18% dos sintomas clínicos. Outro estudo recente(12) demonstrou a eficácia deste mesmo protocolo em um grupo de 23 pacientes com depressão refratária, com uma redução média dos sintomas em 25%. Finalmente, Martin et al(13) realizaram sessões de ETCC consecutivamente por 20 dias, com 2mA por 20 minutos cada Depressão Bipolar Um recente estudo focado em 31 pacientes (14 com BD, 17 com MDD) [15]. Pacientes foram submetidos a um protocolo específico com ETCC 5 sessões com 20 minutos de duração cada um usando a estimulação anódica sobre o CPFDL esquerda. Todos os pacientes toleraram bem o tratamento, sem efeitos adversos. Após a sessão de tDCS quinto, sintomas depressivos em ambos os grupos de estudo diminuiu e no efeito benéfico persistiu após uma semana e um mês. Esquizofrenia Até o momento, apenas um ensaio clínico utilizou a ETCC no tratamento da Esquizofrenia em adultos. Neste, Brunelin et al(16) randomizaram 30 pacientes com alucinações auditivas persistentes para receber estimulação ativa versus simulada, com o cátodo sobre a região temporo-parietal esquerda e a o ânodo sobre 36 Shiozawa P, Silva ME, Fregni F, Brunoni AR, Cordeiro Q. Estimulação craniana por corrente contínua (ETCC) no tratamento de distúrbios psiquiátricos: o que sabemos até agora? Arq Med Hosp Fac Cienc Med Santa Casa São Paulo. 2013; 58: 34-7. o córtex dorsolateral pré-frontal esquerdo. O racional deste posicionamento foi ao mesmo tempo realizar uma neuromodulação inibitória sobre uma área hiperativa, correspondente aos sintomas positivos (alucinações auditivas) e uma neuromodulação excitatória em uma área hipoativa, correlacionada aos sintomas negativos. Com estimulação duas vezes ao dia, por 5 dias, os autores demonstraram que houve melhora dos sintomas alucinatórios (desfecho primário) logo após o término da estimulação, efeitos que se mantiveram após 1 e 3 meses de tratamento. Houve também melhora significativa dos sintomas negativos e tendência a melhoria dos sintomas positivos. Além deste importante e recente ensaio clínico, alguns estudos avaliaram o uso da ETCC na Esquizofrenia utilizando desfechos neuropsicológicos e neurofisiológicos. Por exemplo, demonstrou-se que a ETCC pode melhorar a consolidação de aprendizado implícito (mensurado pelo “teste de classificação probabilístico”) na Esquizofrenia grave, sugerindo que, em conjunto com outros estudos que demonstraram melhora da memória operacional com uso de ETCC, que a ETCC poderia interferir favoravelmente no desempenho cognitivo destes pacientes. Outros estudos investigaram parâmetros neurofisiológicos motores associando ETCC com EMT de pulso pareado evidenciando distúrbios da conectividade inter-hemisférica e da depotenciação de longo-prazo (“LTD” – long term depotentiation) motora nestes pacientes. Estes estudos demonstram a utilidade da ETCC como método investigativo da neuroplasticidade na Esquizofrenia Leone A. Transcranial direct current stimulation: a computerbased human model study. Neuroimage. 2007; 35: 1113-1124. 3. Bindman LJ, Lippold OC, Redfearn JW. The Action of Brief Polarizing Currents on the Cerebral Cortex of the Rat (1) during Current Flow and (2) in the Production of Long-Lasting afterEffects. J Physiol. 1964; 172:369-82. 4. Boggio PS, Rigonatti SP, Ribeiro RB, Myczkowski ML, Nitsche MA, Pacual-Leone A, et al. A randomized, double-blind clinical trial on the efficacy of cortical direct current stimulation for the treatment of major depression. Int J Neuropsychopharmacol. 2008; 11:249-54. 5. Ferrucci R, Mameli F, Guidi I, Mrakic-Sposta S, Vergari M, Marceglia S, et al. Transcranial direct current stimulation improves recognition memory in Alzheimer disease. Neurology. 2008; 71:493-8. 6. Roizenblatt S, Fregni F, Gimenez R, Wetzel T, Rigonatti SP, et al. Site-specific effects of transcranial direct current stimulation on sleep and pain in fibromyalgia: a randomized, sham-controlled study. Pain Pract. 2007; 7:297-306. 7. Kalu UG, Sexton CE, Loo CK, Ebmeier KP. Transcranial direct current stimulation in the treatment of major depression: a meta-analysis. Psychol Med. 2012; 42:1791-800. 8. Brunoni AR, Ferrucci R, Fregni F, Boggio PS, Priori A. Transcranial direct current stimulation for the treatment of major depressive disorder: a summary of preclinical, clinical and translational findings. Prog Neuropsychopharmacol Biol Psychiatry. 2012; 1;39:9-16. 9. Romero JR, Anschel D, Sparing R, Gangitano M, Pascual-Leone A. Subthreshold low frequency repetitive transcranial magnetic stimulation selectively decreases facilitation in the motor cortex. Clinical Neurophysiol. 2002; 113:101-7. 10. Nitsche MA, Paulus W. Sustained excitability elevations induced by transcranial DC motor cortex stimulation in humans. Neurology. 2001; 57: 1899-901. 11. Fregni F, Boggio PS, Nitsche MA, Marcolin MA, Rigonatti SP, Pascual-Leone A. Treatment of major depression with transcranial direct current stimulation. Bipolar Disord. 2006; 8:203-4. 12. Dell’Osso B, Zanoni S, Ferrucci R, Vergari M, Castellano F, D’Urso N, et al. Transcranial direct current stimulation for the outpatient treatment of poor-responder depressed patients. Eur Psychiatry. 2011; 27: 7:513-7. 13. Martin DM, Alonzo A, Mitchell PB, Sachdev P, Galvez V, Loo CK. Fronto-extracephalic transcranial direct current stimulation as a treatment for major depression: an open-label pilot study. J Affect Disord. 2011; 134:459-63. 14. Loo CK, Alonzo A, Martin D, Mitchell PB, Galvez V, Sachdev P. Transcranial direct current stimulation for depression: 3-week, randomised, shamcontrolledtrial. Br J Psychiatry. 2012; 200:52-9. 15. Brunoni AR, Ferrucci R, Bortolomasi M, Vergari M, Tadini L, Boggio PS, et al. Transcranial direct current stimulation (tDCS) in unipolar vs. bipolar depressive disorder. Prog Neuropsychopharmacol Biol Psychiatry. 2011; 35:96-101. 16. Brunelin J, Mondino M, Gassab L, Haesebaert F, Gaha L, SuaudChagny MF, et al. Examining transcranial direct-current stimulation (tDCS) as a treatment for allucinations in schizophrenia. Am J Psychiatry. 2012;169:719-24. Conclusão A ETCC tem sido uma ferramenta terapêutica progressivamente estudada para transtornos psiquiátricos. Os resultados de diferentes estudos clínicos têm mostrado evolução clínica favorável para pacientes submetidos à ETCC x placebo, com ênfase para pacientes com depressão maior e esquizofrenia. Ensaios clínicos mais amplos são necessários para o estabelecimento mais robusto desta técnica no cenário da psiquiatria atual. Referências Bibliográficas 1. Miranda PC, Lomarev M, Hallett M. Modeling the current distribution during transcranial direct current stimulation. Clin Neurophysiol. 2006; 117: 1623-9. 2. Wagner T, Fregni F, Fecteau S, Grodzinsky A, Zahn M, Pascual- Data de recebimento: 05/07/2012 Data de aprovação: 06/02/2013 37 ARTIGO DE REVISÃO Arq Med Hosp Fac Cienc Med Santa Casa São Paulo 2013; 58: 38-41. Notalgia parestésica: uma síndrome multidisciplinar Notalgia paresthetica: a multidisciplinary syndrome Nelson Guimarães Proença1, Mariana de Figueiredo Silva2 Key words: Pruritus, Paresthesia, Spine, Peripheral nerves, Nerve compression syndromes Resumo Notalgia parestésica é uma síndrome neurocutânea que envolve raízes posteriores sensitivas da medula espinal, desencadeando crises pruriginosas que levam à coçadura e consequente hiperpigmentação. Sua posição exata dentro da nosologia médica foi motivo de muitas discussões. Numerosos trabalhos publicados demonstraram algum tipo de compressão associada às raízes sensitivas como causa subjacente, como alterações degenerativas vertebrais ou acidente com trauma. Com o objetivo de contribuir para um atendimento que traga melhores possibilidades de êxito terapêutico, sugerimos cooperação multidisciplinar para adequada avaliação clínica, complementada por estudo de imagem da coluna torácica. Introdução Notalgia parestésica (NP) é, com certa frequência, motivo de consulta ao dermatologista. A posição exata deste quadro clínico, dentro da nosologia médica, tem sido motivo de muitas discussões. Nas décadas dos anos sessenta e setenta foram utilizadas denominações descritivas, como “prurido dorsal com hiperpigmentação”, “melanose dorsal pruriginosa”, ou ainda “prurido melanótico de Pierini e Borda”. Durante longo período houve tendência de considerá-la como uma das variedades clínicas da amiloidose cutânea primária, chegando a receber a denominação de “líquen amiloidótico dorsal”. A este respeito, uma contribuição que esclareceu a controvérsia foi dada por Malvido et al(1). Estes autores acompanharam, de modo prospectivo e com protocolo, 40 pacientes com prurido dorsal intenso, acompanhado de hiperpigmentação. Destes casos, 31 puderam ser seguidos pelo tempo programado. A presença de substância amilóide na derme superficial só foi demonstrada em nove pacientes. A conclusão dos autores, acertada, é de que a deposição de substância amiloide não é a causa mas, sim, a consequência do prurido. Os conceitos mudaram totalmente desde os anos 80 até o presente. Em dois trabalhos publicados em 1981, tanto Massey e Pleet(2) como Streib e Sun(3) sugeriram que algum tipo de compressão de raízes sensitivas seria a causa subjacente da NP. Em 1997, alinhando-se a este conceito, Eisenberg et al(4) descreveram o caso de um paciente que foi submetido a estudo radiológico de coluna, sendo possível diagnosticar alterações vertebrais no mesmo segmento anatômico onde se localizava a melanose pruriginosa. Nestes últimos anos vários trabalhos demonstraram que é possível observar, em muitos casos de NP, a participação das raízes nervosas sensitivas, que correspondem ao mesmo metâmero no qual se situa a alteração cutânea. Além disso, verificou-se que não se trata de apenas uma, mas sim de diferentes causas, que tem em comum o fato de interferirem com Descritores: Prurido, Parestesia, Coluna vertebral, Nervos periféricos, Síndromes de compressão nervosa Abstract Notalgia paresthetica is a neurocutaneous syndrome that involves sensory posterior roots of the spinal cord, triggering pruritic crises that lead to scratching and consequent hyperpigmentation. Its exact position on medical nosology is discussed. Numerous studies have shown some kind of compression associated with sensory roots as an underlying cause, such as degenerative spinal changes or thoracic trauma. In order to contribute to better chances of therapeutic success, we suggest multidisciplinary evaluation, associated with the orthopedic team for accurate clinical and imaging study of the thoracic spine. 1. Professor Emérito da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo. Ex-chefe da Clínica Dermatológica da Irmandade da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo 2. Médica Especializanda em Dermatologia (Terceiro Ano) da Irmandade da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo Trabalho realizado: Clínica de Dermatologia da Irmandade da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo Endereço para correspondência: Nelson Guimarães Proença. Rua Professor Artur Ramos, 241 – 10º andar – conjunto 104 – 01454-011 – São Paulo – SP – Brasil Ausência de conflitos de interesse 38 Proença NG, Silva MF. Notalgia parestésica: uma síndrome multidisciplinar. Arq Med Hosp Fac Cienc Med Santa Casa São Paulo. 2013; 58: 38-41. a integridade do nervo sensitivo periférico(5-10). Tudo isto levou a uma completa reviravolta conceitual. Atualmente, aceita-se a NP como uma síndrome neurocutânea que envolve raízes posteriores sensitivas da medula espinal, desencadeando crises pruriginosas, que levam à coçadura e consequente hiperpigmentação. São diversas as causas aventadas como possíveis provocadoras da exaltação da sensibilidade dos nervos periféricos. Vamos destacar algumas, citadas na revisão bibliográfica: alterações degenerativas vertebrais compressivas (ósseas ou dos discos); acidente com trauma vertebral; atividades físicas com esforço não suportado pela coluna vertebral; predisposição genética(3-10). Do ponto de vista anatômico, é importante destacar que o segmento metamérico afetado está situado entre a última vértebra cervical e a sexta ou a sétima vértebras torácicas. A área que se torna pruriginosa e hiperpigmentada pode ocupar todo o espaço interescapular, ou ser unilateral, ocupando apenas um dos espaços inter-escápulovertebrais. Na maioria das vezes, a NP é unilateral, mas há casos em que é bilateral e simétrica (Figura 1A). Na histopatologia é observada uma acantose irregular, com alongamento das cristas epidérmicas e presença de apoptose (Figura 1B). Na derme papilar, em alguns casos, a coloração específica mostra presença de substância amorfa, de natureza amilóide. Além dos estudos por imagem, habitualmente feitos nesta síndrome, foram também realizados estudos eletromiográficos e imunohistoquímicos. Foi evidenciada a participação exacerbada de neuropeptídeos, liberados a partir de fibras-C amielínicas, tanto epidérmicas como dérmicas. Um caso exemplar, que merece ser destacado, foi descrito por Richardson et al(5). Uma mulher com histórico de acidente automobilístico, de baixo impacto, iniciou quadro compatível com NP, após três meses. Um estudo minucioso da coluna vertebral permitiu constatar que a mesma havia adquirido uma postura anômala: escoliose para a esquerda e rotação das vértebras para a direita, ao nível de C7 a T6. A solução adotada foi o tratamento fisioterápico, para corrigir o vício de postura. Este foi bem sucedido, desde a primeira sessão. Um resultado inesperado foi a supressão, quase imediata, do prurido (vinte minutos após a primeira sessão). No Quadro I reunimos as alterações encontradas em exames de imagem, tidas como possíveis causas de NP(4,6-10). Dentre os estudos citados, é interessante destacar a investigação de Savk, Savk(6), que analisaram 43 pacientes com um total de 61 áreas pigmentares. Destes, 34 possuíam alterações degenerativas espinais e, em 28 pacientes (65,1%), estas alterações foram correspondentes ao metâmero afetado pela dermatose. Os autores consideraram que não deve se tratar de mera coincidência, mas que esta deve ser uma associação relevante. Apesar de a NP ser uma síndrome multidisciplinar, é comum que ocorram dificuldades para o encaminhamento adequado, tanto em relação ao diagnóstico etiológico, como em relação ao tratamento possível. Com o objetivo de contribuir para um atendimento multidisciplinar, que traga melhores possibilidades de êxito terapêutico, sugerimos a elaboração de um protocolo. Entre outros itens a serem discutidos, a revisão da literatura nos permite fazer as sugestões que se seguem. 1) Anamnese minuciosa, incluindo antecedentes mórbidos pessoais e familiares, atividades físicas e hábitos que possam ter desencadeado vício de postura, e ocorrência de traumas prévios. 2) Exame dermatológico, complementado por biópsia de pele. 3) Exame ortopédico da coluna cervical e da coluna torácica. 4) Tomografia da coluna cérvico-torácica. Figura 1 – (A) Notalgia Parestésica bilateral; (B) Acantose irregular com presença de células apoptóticas. 39 Proença NG, Silva MF. Notalgia parestésica: uma síndrome multidisciplinar. Arq Med Hosp Fac Cienc Med Santa Casa São Paulo. 2013; 58: 38-41. Quadro I Notalgia parestésica – Causas presumidas, encontradas em Revisão Bibliográfica Autores Referência bibliográfica Causa Presumida Eisenberg et al, 1997 4 Osteófitos na coluna vertebral de um paciente RaisonPeron et al, 1999 7 Osteoartrose em 9 de 12 pacientes analisados. Savk et al, 2000 8 Alterações degenerativas em 7 de 10 pacientes analisados. Durango et al, 2003 9 Escoliose em um paciente, e esclerose de corpos vertebrais com osteófitos em outro paciente. Savk et al, 2005 6 Alterações degenerativas e herniação do núcleo pulposo relevantes em 28 dos 43 pacientes analisados (65,1%). Alai et al, 2010 10 Estenose cervicoespinal em um paciente. 5) Ressonância nuclear da região dorsal, focada no metâmero acometido, para estudo das partes moles adjacentes às vértebras. Diversos tratamentos já foram propostos para controle dos sintomas(11). O uso tópico de capsaicina é a opção mais utilizada pelos dermatologistas(12). Outras alternativas terapêuticas usadas com certa frequência são: gabapentina(13), oxicarbamazepina(14), anestésico injetável(15) e toxina botulínica(16). Além disso, são descritas técnicas com estimulação elétrica(17,18), radiofrequência pulsada(19) e descompressão cirúrgica do nervo(20). Estudos recentes relataram casos que obtiveram melhora dos sintomas após sessões de fototerapia com UVB narrow band(21) e até mesmo com prática de exercícios físicos (22). 5. Richardson BS, Way BV, Speece AJ 3rd. Osteopathic manipulative treatment in the management of nostalgia paresthetica. J Am Osteopath Assoc. 2009; 109:605-8. 6. Savk O, Savk E. Investigation of spinal pathology in notalgia paresthetica. J Am Acad Dermatol. 2005; 52:1085-7. 7. RaisonPeyron N, Meunier L, Acevedo M, Meynadier J. Notalgia paresthetica: clinical, physiopathological and therapeutic aspects. A study of 12 cases. J Eur Acad Dermatol Venereol. 1999; 12:215-21. 8. Savk E, Savk O, Bolukbasi O, Culhaci N, Dikicioğlu E, Karaman G, et al. Notalgia paresthetica: a study on pathogenesis. Int J Dermatol. 2000; 39:754-9. 9. Durango A, Urbina M, Faria M. Notalgia parestésica: reporte de 8 casos. Dermatol Venez. 2003; 41:23-6. 10. Alai NN, Skinner HB, Nabili ST, Jeffes E, Shahrokni S, Saemi AM. Notalgia paresthetica associated with cervical spinal stenosis and cervicothoracic disk disease at C4 through C7. Cutis. 2010; 85:77-81. 11. Pérez-Pérez LC. General features and treatment of notalgia paresthetica. Skinmed. 2011; 9:353-8. 12. Gooding SM, Canter PH, Coelho HF, Boddy K, Ernst E. Systematic review of topical capsaicin in the treatment of pruritus. Int J Dermatol. 2010; 49:858-65. 13. Loosemore MP, Bordeaux JS, Bernhard JD. Gabapentin treatment for notalgia paresthetica, a common isolated peripheral sensory neuropathy. J Eur Acad Dermatol Venereol. 2007; 21:1440-1. 14. Savk E, Bolukbasi O, Akyol A, Karaman G. Open pilot study on oxcarbazepine for the treatment of notalgia paresthetica. J Am Acad Dermatol. 2001; 45:630-2. 15. Goulden V, Toomey PJ, Highet AS. Successful treatment of notalgia paresthetica with a paravertebral local anesthetic block. J Am Acad Dermatol. 1998; 38:114-6. 16. Weinfeld PK. Successful treatment of notalgia paresthetica with botulinum toxin type A. Arch Dermatol. 2007; 143:980-2. 17. Savk E, Savk O, Sendur F. Transcutaneous electrical nerve stimulation offers partial relief in notalgia paresthetica patients with a relevant spinal pathology. J Dermatol. 2007; 34:315-9. 18. Wang CK, Gowda A, Barad M, Mackey SC, Carroll IR. Serratus muscle stimulation effectively treats notalgia paresthetica caused by long thoracic nerve dysfunction: a case series. J Brachial Plex Peripher Nerve Inj. 2009; 22:17. 19. Philip CN, Candido KD, Joseph NJ, Crystal GJ. Successful treatment of meralgia paresthetica with pulsed radiofrequency of the lateral femoral cutaneous nerve. Pain Physician. 2009; 12:881-5. Conclusão Pacientes com Notalgia Parestésica são, em geral, tratados apenas sintomaticamente. Procura-se tratar o prurido, sem se fazer uma investigação mais aprofundada, a qual poderia identificar possíveis causas. Para oferecer um melhor atendimento a estes pacientes, sugerimos a organização de um Protocolo, que permita o atendimento multidisciplinar. Referências Bibliográficas 1. Malvado KA, Valente E, Vázquez MA, Della Giovanna PD, García S y Cabrera HN. Notalgia parestésica: sus vinculaciones con la amiloidosis bifásica. A propósito de 40 casos. Arch Argent Dermatol. 2001; 51: 197-204. 2. Massey EW, Pleet AB. Electromyographic evaluation of notalgia paresthetica. Neurology. 1981; 31:642. 3. Streib EW, Sun SF. Notalgia paresthetica owing to compression neuropathy: case presentation including electrodiagnostic studies. Eur Neurol. 1981; 20:64-7. 4. Eisenberg E, Barmeir E, Bergman R. Notalgia paresthetica associated with nerve root impingement. J Am Acad Dermatol. 1997; 37:998-1000. 40 Proença NG, Silva MF. Notalgia parestésica: uma síndrome multidisciplinar. Arq Med Hosp Fac Cienc Med Santa Casa São Paulo. 2013; 58: 38-41. 20. Williams EH, Rosson GD, Elsamanoudi I, Dellon AL. Surgical decompression for notalgia paresthetica: a case report. Microsurgery. 2010; 30:70-2. 21. Pérez-Pérez L, Allegue F, Fabeiro JM, Caeiro JL, Zulaica A. Notalgia paresthesica successfully treated with narrow-band UVB: report of five cases. J Eur Acad Dermatol Venereol. 2010; 24:730-2. 22. Fleischer AB, Meade TJ, Fleischer AB. Notalgia paresthetica: successful treatment with exercises. Acta Derm Venereol. 2011; 91:356-7. Trabalho recebido: 11/03/2013 Trabalho aprovado: 04/04/2013 41 RELATO DE CASO Arq Med Hosp Fac Cienc Med Santa Casa São Paulo 2013; 58: 42-5. Mediastinite pós-esofagectomia por megaesôfago chagásico: relato de caso Post esophagectomy mediastinitis due to chagasic megaesophagus: a case report Márcio Andrade Dias1, Eduardo Ponte de Gouveia Vieira1, Fernanda Alves de Oliveira1, Maria Fernanda Chiera di Vasco Freitas2, Ruy França de Almeida2, Celso de Castro Pochini2, Danilo Gagliardi3 treatments in advanced cases is esophagectomy, a procedure with anastomotic leakage and pulmonary complications as its major complications. We report a case of a patient with achalasia secondary to Chagas disease who developed progressive disphagia after being submitted to two previous procedures for achalasia. The patient underwent transhiatal esophagectomy and evolved with mediastinitis and pneumonia due to cervical anastomotic leakage secondary to necrosis of the gastric graft in the early postoperative period. The patient was promptly submitted to removal of the graft and needed further thoracotomys on demand for drainage of recurrent empyema. After recovery the patient was then submitted to esophagocoloplasty with an uneventful recovery. Anastomotic breakdown associated with mediastinal infection leads to high mortality after esophagectomy. An early diagnosis and treatment can change the patient outcome. Resumo A Doença de Chagas ainda é prevalente em países da América do Sul, em especial na forma gastrointestinal. A doença desencadeia alterações fisiológicas e anatômicas no órgão acometido. Um dos tratamentos em casos avançados de megaesôfago é a esofagectomia, cujas complicações mais frequentes são as pleuropulmonares e fístula anastomótica. Apresentamos o caso de paciente com disfagia progressiva após dois procedimentos prévios sobre o esfíncter inferior do esôfago. Pelo diagnóstico de megaesôfago avançado foi realizada esofagectomia transhiatal e reconstrução com tubo gástrico. O paciente evoluiu no pós-operatório precoce com fístula cervical secundária à necrose do estômago interposto, pneumonia e mediastinite. Foi tratado então com retirada do enxerto e toracotomias de demanda para drenagem de coleções torácicas. Apresentou boa evolução sendo posteriormente submetido à esofagocoloplastia. Mediastinite e necrose do estômago interposto são complicações graves da esofagectomia. O diagnóstico precoce e a rápida intervenção são essenciais no tratamento do paciente. Keywords: Chagas disease, Esophageal achalasia, Esophagectomy, Esophagoplasty, Mediastinitis, Endocarditis Introdução Descritores: Doença de Chagas, Acalasia esofágica, Esofagectomia, Esofagoplastia, Mediastinite, Endocardite A Doença de Chagas é causada por infecção pelo protozoário Trypanosoma cruzi, transmitido por triatomíneos. Suas principais manifestações são cardiomiopatia chagásica e a doença gastrointestinal(1). O acometimento esofágico é o mais comum. Os sintomas podem surgir em qualquer idade, mas têm maior incidência entre a terceira e quinta década da vida(2,3). Uma forma crônica se desenvolve de 10 a 20 anos após a infecção, em apenas um terço dos casos, provocando danos irreversíveis ao coração, esôfago e/ ou cólon(2,4). No megaesôfago ocorre hipertrofia da camada muscular circular do esôfago, o esfíncter esofágico inferior apresenta geralmente relaxamento diminuído e pressão de contração normal ou aumentada. Podem se desenvolver tardiamente atrofia da parede esofágica, perda do peristaltismo e dilatação do esôfago(5). O principal sintoma no megaesôfago é a disfagia, que começa para alimentos sólidos e melhora com a ingesta de líquidos, podendo evoluir até disfagia para Abstract Chagas disease in its gastrointestinal involvement is still prevalent in South America. The disease triggers physiological and subsequent anatomic changes in the affected organs, specially in the esophagus. One of the surgical 1. Acadêmico do 5º Ano do Curso de Graduação em Medicina da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo 2. Médico 2º Assistente da Irmandade da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo – Departamento de Cirurgia 3. Professor Adjunto da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo – Departamento de Cirurgia Trabalho realizado: Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo – Departamento de Cirurgia Endereço para correspondência: Danilo Gagliardi. Rua Dr. Cesário Mota jr, 112 – Vila Buarque – 01221-020 – São Paulo – SP – Brasil. E-mail: [email protected] 42 Dias MA, Vieira EPG, Oliveira FA, Freitas MFCV, Almeida RF, Pochini CC, Gagliardi D. Mediastinite pós-esofagectomia por megaesôfago chagásico: relato de caso. Arq Med Hosp Fac Cienc Med Santa Casa São Paulo. 2013; 58: 42-5. líquidos. Pode ser acompanhada de desconforto, dor retroesternal que irradia superiormente, regurgitação e, nos casos graves, aspiração intermitente que provoca tosse e pneumonia. Com a dificuldade alimentar, nos estágios finais da doença, pode haver desnutrição(2,4-6). O diagnóstico do megaesôfago chagásico é simples e feito basicamente com base no quadro clínico associado à epidemiologia positiva para doença de Chagas. Os exames radiológicos são solicitados para se avaliar o grau de comprometimento do órgão. Os exames de imagem necessários para melhor condução do caso são: radiografia de tórax, esofagograma, endoscopia e manometria esofágica(7). O tratamento do megaesôfago chagásico exige uma avaliação pré-operatória cuidadosa do paciente, pois este pode apresentar outras lesões em decorrência da doença de Chagas em outros órgãos, o que torna mandatório um exame cardíaco e colônico detalhados(3). O tratamento de escolha para o megaesôfago avançado é a esofagectomia transhiatal com reconstrução com gastroplastia vertical em tubo com anastomose cervical(8). As opções nutricionais no pós-operatório são: jejunostomia, nutrição parenteral total ou sonda nasoenteral(5). A complicação mais frequente da esofagectomia são pleuropulmonares apresentando incidência de até 60%. (9,10) A segunda mais frequente são as fístulas da anastomose esofagogástrica cervical, com incidência variando de 6% a 18% (9), que podem ser secundárias à falta de observação dos preceitos técnicos, isquemia oculta do tubo gástrico, fatores de cicatrização e desnutrição. A incidência de mediastinite varia de 0,4% a 5%. Outras complicações menos frequentes são: quilotórax, endocardite bacteriana, lesão de via aérea e de grandes vasos(9-11). Suspeitando-se de mediastinite, realizou tomografia de tórax e mediastino que confirmou o diagnóstico. Foi em seguida reoperado. Após lavagem do mediastino e ressecção do fundo e do corpo gástrico, por isquemia e necrose, desfez-se o tubo gástrico; foram drenados o mediastino e o tórax bilateralmente. Confeccionado esofagostomia cervical e jejunostomia alimentar. O paciente evoluiu com coleções torácicas bilaterais, evidenciadas em tomografia computadorizada de tórax, as quais foram drenadas no vigésimo sétimo pós-operatório e novamente no quadragésimo primeiro dia pós-operatório. Figura 1 - Tomografia computadorizada evidenciando coleções bilaterais de grande volume em tórax. Evoluiu com picos febris. Confirmou-se o diagnóstico de endocardite bacteriana na 3ª ecocardiografia transtorácica. Durante a internação o paciente apresentou hemoculturas positivas para Acinetobacter balmannii, Enterococcus SSP, Escherichia coli, Candida tropicalis. Recebeu anfotericina B, ampicilina, vancomicina, polimixina e imipenem. Apresentou melhora do quadro clínico e teve alta hospitalar pesando 38 Kg. O paciente seguiu em acompanhamento ambulatorial por onze meses para ganho ponderal. Um ano após a esofagectomia reinternou para reconstrução do trânsito alimentar. Realizou coloplastia utilizando-se como via de acesso: laparotomia, esternotomia e cervicotomia. Foi utilizado cólon direito para reconstrução com anastomose cervical e coloduodenal. Evoluiu com infecção de ferida operatória e fístula cervical tardia de baixo débito com fechamento espontâneo. Evoluindo bem, o paciente recebeu alta após um mês de internação. Relato de Caso Paciente de 28 anos, sexo masculino, natural de Espinosa (MG), com disfagia progressiva para sólidos e líquidos há dez anos, acompanhada por perda ponderal de 20 Kg. Apresenta antecedente pessoal de Doença de Chagas, diagnosticada aos seis anos de idade, e duas intervenções prévias sobre o esfíncter inferior do esôfago, para tratamento de megaesôfago. Confirmado o diagnóstico de megaesôfago avançado por manometria, optou-se pela realização de esofagectomia transhiatal e reconstrução com esofagogastroplastia transmediastinal posterior, confecção de tubo gástrico, anastomose cervical, piloroplastia e jejunostomia. O paciente evoluiu com fístula da anastomose cervical no quinto pós-operatório. Na evolução apresentou pneumonia, empiema pleural e toxemia. Discussão A forma crônica da Doença de Chagas ocorre longo período após a infestação pelo protozoário Trypanosso- 43 Dias MA, Vieira EPG, Oliveira FA, Freitas MFCV, Almeida RF, Pochini CC, Gagliardi D. Mediastinite pós-esofagectomia por megaesôfago chagásico: relato de caso. Arq Med Hosp Fac Cienc Med Santa Casa São Paulo. 2013; 58: 42-5. ma cruzi. Depois do coração, o esôfago é o órgão mais acometido. Megaesôfago chagásico tem sua etiologia relacionada à resposta imune persistente ao parasita, levando à destruição progressiva dos plexos mioentéricos esofagianos(4). A disfagia progressiva decorre da ausência de peristaltismo do esôfago levando à desnutrição que dificulta a possibilidade de tratamento adequado da doença(12). A desnutrição grave impede qualquer tipo de operação sobre o esôfago sendo necessária a correção nutricional com sonda nasoenteral ou gastrostomia no pré-operatório. O megaesôfago chagásico pode ser dividido em avançado e não avançado de acordo com a eletromanometria esofágica(13). A classificação do megaesôfago é importante na definição da melhor conduta operatória, para que o paciente apresente boa evolução. Nos casos não avançados a conduta de escolha é cardiomiotomia de Heller modificada associada à válvula antirrefluxo (Toupet, Dor ou Pinotti); no avançado, esofagectomia transhiatal, ainda sendo possível realizar outros procedimentos tipo Serra-Dória ou mucosectomia esofágica. As complicações pleuropulmonares são as mais frequentes após esofagectomias, sua incidência varia de 30% a 60%(14). Elas englobam pneumotórax, hemotórax, empiema pleural e broncopneumonia. O paciente em questão apresentou este tipo de complicação durante toda a sua evolução, o que aumentou a morbidade do caso. Seu tratamento requer identificação do quadro, antibioticoterapia, drenagens, e eventualmente toracotomias. A fístula da anastomose esofagogástrica cervical normalmente tem evolução benigna, seu fechamento é espontâneo e ocorre em média até o vigésimo primeiro dia de evolução(11), o que depende muito da condição nutricional do paciente no pós-operatório. Este paciente apresentou fístula precoce, ou seja, antes do sétimo pós-operatório, o que chama atenção para isquemia do enxerto ou falha técnica. Este tipo de fístula normalmente não sofre bloqueio, apresentando alto risco de evoluir para mediastinite. Nestes casos a atenção ao paciente deve ser grande e este deve ser submetido a exames de imagem precoces para o diagnóstico na fase inicial. A complicação mais grave da esofagectomia é, sem dúvida, a mediastinite. Por esta apresentar alta letalidade, próxima da totalidade dos casos, requer rapidez no diagnóstico e na sua condução para boa evolução do paciente(11). Classicamente ela é tratada através de bitoracotomia com drenagem ampla do mediastino e do tórax. Neste momento da evolução o paciente era um desnutrido grave, por isso, indicamos drenagens de demanda das coleções que este apresentou. Existem séries na literatura mostrando que a mortalidade nos pacientes que evoluem com me- diastinite pode chegar a 100% dos casos(15). Normalmente a mediastinite é secundária a uma necrose do estômago transposto ou falha técnica na confecção da anastomose esofagogástrica(11). O aparecimento de fístula cervical precoce, antes do quinto pós-operatório, chama atenção para a possibilidade de mediastinite. Na dúvida, o paciente deve realizar investigação com tomografia computadorizada de tórax e mediastino, exame contrastado do tubo gástrico ou ser submetido à reoperação para tratamento desta complicação(16). A precocidade no diagnóstico e intervenção possibilita boa evolução do paciente. Nos casos de mediastinite, é imprescindível a retirada do enxerto gástrico, drenagem do mediastino e ampla drenagem torácica, para alguns autores isso só é possível através da bitoracotomia. Após a retirada do órgão confecciona-se esofagostomia cervical e gastrostomia/jejunostomia alimentar(11). Nos casos de necrose gástrica a reconstrução do trânsito fica limitada à coloplastia que pode ser realizada utilizando cólon direito, transverso ou esquerdo de acordo com a preferência de cada serviço(17). A endocardite é uma etiologia a ser pensada para pacientes com febre de origem indeterminada; deve ser lembrada em pacientes com múltiplas infecções, desnutridos, longo tempo de permanência em UTI e cirurgias de grande porte(18). Para seu diagnóstico utiliza-se ecocardiografia transesofágica, que não foi possível devido esofagostomia cervical. Antibioticoterapia nestes doentes com múltiplos focos infecciosos deve se basear em culturas e normalmente no uso prolongado destes medicamentos(16). Importante definir o agente etiológico para se evitar efeitos colaterais de medicações desnecessárias. Após um quadro de mediastinite secundária à necrose do enxerto gástrico não é possível utilizar o mediastino posterior para reconstrução do trânsito, devendo-se optar pelo anterior. O uso da esternotomia não é obrigatório, porém existe a vantagem de menor índice de lesões vasculares (veia inominada, veia e artéria subclávias). Na esofagocoloplastia pode-se utilizar cólon esquerdo e transverso, tendo-se como vantagem vascularização e preservação da válvula ileocecal. A opção neste caso pelo uso do cólon direito na reconstrução do trânsito alimentar deve-se ao fato do paciente ser chagásico e o cólon esquerdo ser mais acometido do que o direito. A rápida identificação dos riscos da fístula cervical e deiscência da anastomose esofagogástrica, aventando sua hipótese diagnóstica, a investigação necessária e a aplicação medidas terapêuticas adequadas, foram responsáveis por promover um resultado favorável para este paciente. 44 Dias MA, Vieira EPG, Oliveira FA, Freitas MFCV, Almeida RF, Pochini CC, Gagliardi D. Mediastinite pós-esofagectomia por megaesôfago chagásico: relato de caso. Arq Med Hosp Fac Cienc Med Santa Casa São Paulo. 2013; 58: 42-5. Referências Bibliográficas tratamento do megaesôfago chagásico avançado: complicações pós-operatórias imediatas e fatores de risco. [Dissertação – Mestrado]. São Paulo: Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo; 2006. 12. Celano RMG, Ebram Neto J, Bottoni A, Gagliardi D. Avaliação nutricional pré-operatória dos pacientes com megaesôfago. Rev Col Bras Cir. 2007; 34:147-52. 13. Crema E, Cruvinel L, Werneck A, Oliveira R, Silva A. Correlação manométrico-radiológica e sua importância no tratamento cirúrgico do megaesôfago chagásico. Rev Soc Bras Med Trop. 2003; 36:665-9. 14. Aquino JLBd, Said MM, Leandro-Merhi VA, Ichinohe LH, Ramos JPZ, Machado JGG. Análise das complicações da esofagectomia transmediastinal no tratamento cirúrgico do megaesôfago recidivado. ABCD Arq Bras Cir Dig. 2011; 24:30-5. 15. Sexton DJ. Postoperative mediastinitis after cardiac surgery. UpToDate [Online]. Nov 2010 [Access 15 May 2011]. Available from: http://www.uptodate.com 16. Salles Filho HC, Felício PM, Domingues CS, Almeida RF, Pochini CC, Gagliardi D. Mediastinite por perfuração esofágica após procedimento de dilatação endoscópica por estenose cáustica em paciente com paralisia cerebral: relato de caso. Arq Med Hosp Fac Cienc Méd Santa Casa São Paulo. 2011; 56:43-6. 17. Aquino JLB, Said MM, Maziero D, Oliveira JMP, Leandro-Merhi VA. Reconstrução esofágica pela esofagocoloplastia no megaesôfago avançado em pacientes gastrectomizados. ABCD Arq Bras Cir Dig. 2009; 22:197-200. 18. Sexton DJ. Diagnostic approach to infective endocarditis. UpToDate [Online]. Nov 2010 [Access 24 May 2011]. Available from: http://www.uptodate.com. 1. Bern C. Chagas disease: natural history and diagnosis. UpToDate [Online]. Jul 2010 [Access 15 May 2011]. Available from: http://www.uptodate.com 2. Bern C. Epidemiology and control of Chagas disease. UpToDate [Online]. Jul 2010 [Access 15 May 2011]. Available from: http:// www.uptodate.com 3. Herbella FAM, Aquino JLB, Stefani-Nakano S, Artifon ELA, Sakai P, Crema E, et al. Treatment of achalasia: lessons learned with Chagas’ disease. Dis Esophagus. 2008; 8:461-7 4. Marin-Neto AJ, Rassi Jr A. Pathology and pathogenesis of Chagas disease. UpToDate [Online]. Jun 2010 [Access 15 May 2011]. Available from: http://www.uptodate.com 5. Bern C. Evaluation and management of gastrointestinal Chagas disease. UpToDate [Online]. Jun 2010 [Access 15 May 2011]. Available from: http://www.uptodate.com 6. Bern C. Chagas disease: management of acute disease, early chronic disease, and disease in immunocompromised hosts. UpToDate [Online]. Set 2010 [Access from15 May 2011]. Available from: http://www.uptodate.com 7. Raia AA. Megaesôfago. In: Raia AA, Zerbini EJ. Clínica cirúrgica Alípio Corrêa Neto. 4th ed. São Paulo: Sarvier; 1988. p.157-72. 8. Pinotti HW. Contribuição para o estudo da fisiopatologia do megaesôfago. [Tese – Doutorado]. São Paulo: Faculdade de Medicina – Universidade de São Paulo; 1964. 9. Fontes PRO, Kruse CK, Waechter FL, Nectoux M, Fochesato LBS, Goettert GF, et al. Fístula cervical pós-anastomose esofagogástrica: é possível diminuir a ocorrência? ABCD Arq Bras Cir Dig. 2008; 21:158-63. 10. Saad Jr R, Gandra SMA. Mediastinites Agudas. In: Rasslan S. Aspectos críticos do doente cirúrgico São Paulo: Robe; 1988. p.333-49. 11. Pochini CC. Esofagectomia transhiatal com gastroplastia como Trabalho recebido: 25/07/2011 Trabalho aprovado: 18/02/2012 45 RELATO DE CASO Arq Med Hosp Fac Cienc Med Santa Casa São Paulo 2013; 58: 46-9. Tumor de Frantz: um caso raro com características não habituais Frantz’s tumor: a rare case with rare characteristics Alexandre Dib Partezani1, Guilherme Guardia Mattar1, Rafael Ferreira Zatz1, Tiago Riuji Ijichi2, André de Moricz3, Tércio De Campos4, Adhemar Monteiro Pacheco Junior4, Rodrigo Altenfelder Silva4 is an important tool for diagnosis. Surgical resection is the recommended treatment. This is the case-report of a patient that presents uncommon characteristics of Frantz’s Tumor: despite the fact that is a woman and the treatment was surgical, she presented the symptoms in a later period of her life (56 years) and the tumor was located in pancreatic head. The goal of this report-case is to describe a rare disease with uncommon characteristics. Resumo Descrito pela primeira vez em 1959, o tumor sólido pseudopapilar do pâncreas (Tumor de Frantz), representa 0,1 a 2,7% de todos os tumores pancreáticos. É um tumor que acomete principalmente mulheres jovens, tem manifestações clínicas inespecíficas, geralmente apresenta evolução benigna e prognóstico favorável, atingindo mais a cauda pancreática. A tomografia computadorizada tem papel importante para o diagnóstico. O tratamento clássico é a ressecção cirúrgica. Este é o relato de caso de um paciente com manifestações diferentes do habitual: sexo feminino, porém começou a apresentar sintomas com 56 anos e o tumor se localizava na cabeça do pâncreas. O objetivo deste relato é mostrar um caso raro que apresenta características incomuns. Keywords: Pancreas; Pancreatic neoplasms/diagnosis; Pancreatic neoplasms/surgery; Carcinoma, papillary; Pancreatic cyst Introdução As neoplasias císticas do pâncreas abrangem um grupo heterogêneo de tumores representados pelo cistoadenoma seroso, cistoadenoma mucinoso, tumor mucinoso papilar intraductal e pelo tumor sólido pseudopapilar (Tumor de Frantz) (1). Este último corresponde de 5 a 12% das lesões deste grupo e de 0,1 a 2,7% dos tumores pancreáticos em geral(1,2). Em geral surge em mulheres jovens, com manifestações clínicas pouco específicas por vezes descobertas acidentalmente. Em sua maioria, tem evolução benigna. Discutimos aqui um caso conduzido no Departamento de Cirurgia do Hospital Central da Irmandade da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo. Descritores: Pâncreas, Neoplasias pancreáticas/diagnóstico, Neoplasias pancreáticas/cirurgia, Carcinoma papilar, Cisto pancreático Abstract First described in 1959 by Dr. Frantz, the solid pseudopapillary tumor of the pancreas (Frantz’s Tumor) represents 0,1 to 2,7% of all pancreatic tumors. It is a disease that affects preferentially young women, with nonspecific clinical manifestations, generally presenting favorable prognosis, located in the pancreatic tail. Computadorized tomography Relato de Caso M.Z.X.S., sexo feminino, 56 anos, branca, natural e procedente de São Paulo. Foi admitida em outro serviço com queixa de dor abdominal em cólica há 2 meses. Localizada em região epigástrica, irradiava-se para mesogastro, hipocôndrio direito e flanco direito. Referia melhora com analgesia simples e sem fatores de piora. Após três dias de início da dor abdominal, referiu que houve um episódio de febre não aferida. Náuseas e vômitos acompanhavam o quadro, assim como perda ponderal de 5 kg. Foram solicitados exames laboratoriais, ultrassonografia de abdome total e tomografia computadorizada de abdome e pelve. 1. Acadêmico do 5º Ano do Curso de Graduação em Medicina da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo 2. Médico Residente em Cirurgia do Aparelho Digestivo da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo 3. Professor Assistente da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo - Departamento de Cirurgia 4. Professor Adjunto da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo - Departamento de Cirurgia Trabalho realizado: Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo – Departamento de Cirurgia Endereço para correspondência: Alexandre Dib Partezani. Rua Inhambu, 902 – aptº 111 – Moema – 04520-013 – São Paulo – SP – Brasil. E-mail: [email protected] 46 Partezani AD, Mattar GG, Zatz RF, Ijichi TR, Moricz A, De Campos T, Pacheco Junior AM, Silva RA. Tumor de Frantz: um caso raro com características não habituais. Arq Med Hosp Fac Cienc Med Santa Casa São Paulo. 2013; 58: 46-9. Após o resultado foi encaminhada à Santa Casa de São Paulo. Ao exame físico, durante a admissão, apresentava-se em bom estado geral, anictérica e afebril, com IMC de 27,18. À propedêutica abdominal, percebia-se uma massa dolorosa em epigástrio e dor à palpação de hipocôndrio e flanco direito. Os exames laboratoriais apresentavam-se normais exceto por Leucócitos de 14,6 mil/mm3 sem desvios, amilase de 226U/L (valor de referência: até 148U/L), lipase de 1259U/L (valor de referência: 124 a 244U/L) e marcador tumoral CA 19,9 de 158,7U/L (valor de referência: até 38U/L). À ultrassonografia de abdome total, evidenciou-se uma volumosa massa adjacente à cabeça de pâncreas e duodeno com infiltração em planos gordurosos. A tomografia computadorizada revelou uma massa heterogênea, predominantemente sólida com algumas zonas líquidas e calcificações periféricas, estando acolada à cabeça pancreática, envolvida pelo duodeno e associada à dilatação e irregularidade do ducto de Wirsung (figura 1). Figura 2 - Achado operatório mostrando tumor sólido-cístico da cabeça do pâncreas (seta). Figura 3 - Peça cirúrgica mostrando tumor sólido-cístico da cabeça do pâncreas, juntamente com cólon direito e duodeno. Apresentava áreas de necrose e hemorragia. O tumor estava circundado por faixa de fibrose, formando pseudo-capsula. Por vezes havia invasão de parênquima pancreático. A neoplasia não comprometia a parede duodenal, a árvore biliar ou a parede do cólon. Os exames imunohistoquímicos foram positivos para Vimentina, Sinaptofisina, Receptor de Progesterona, B-Catenina e Cromogranina. As células neoplásicas foram negativas para CD 10. Dessa forma, o exame anatomopatológico confirmou o diagnóstico de tumor pseudopapilífero sólido do pâncreas (Tumor de Frantz). A paciente recebeu alta hospitalar no sétimo dia de pós-operatório sem intercorrências ou complicações, retornando ao Ambulatório de Cirurgia. Figura 1 - Tomografia computadorizada de abdome mostrando formação sólido-cística na cabeça do pâncreas (seta). Submetida à laparotomia, observou-se massa tumoral na cabeça do pâncreas de 16cm de extensão, envolvendo o duodeno e com grande invasão ao mesentério do cólon direito. Realizou-se duodenopancreatectomia e colectomia direita (figura 2). O exame anátomo-patológico evidenciou tumor de 16cm em seu maior eixo, bem circunscrito, liso externamente e aos cortes apresentava áreas lobulares esbranquiçadas com outras áreas hemorrágicas (figura 3). A microscopia revelou uma neoplasia imatura constituída por proliferação de células pequenas com discreta anaplasia, dispostas em blocos ou em torno de eixos conjuntivos hialinizados, de aspecto papilar. Discussão Descrita pela primeira vez em 1959 por Frantz, 47 Partezani AD, Mattar GG, Zatz RF, Ijichi TR, Moricz A, De Campos T, Pacheco Junior AM, Silva RA. Tumor de Frantz: um caso raro com características não habituais. Arq Med Hosp Fac Cienc Med Santa Casa São Paulo. 2013; 58: 46-9. idealmente duodenopancreatectomia com preservação do piloro (2,13). Pela baixa malignidade, a excisão completa da lesão promove um prognóstico favorável, com sobrevivência de 97% em dois anos e 95% em cinco anos. As taxas de recorrência são baixas, mas quando presentes devem ser tratadas cirurgicamente(6,7,9,11). O manejo das metástases, devido à raridade de sua ocorrência, ainda não é bem definido. Entretanto, há relatos de longa sobrevida após excisão cirúrgicas destas, tornando-se opção(2,3,6). Para lesões irresecáveis, alguns esquemas de quimioterapia e o uso da radioterapia tem sido indicado, apesar de não existir casuística suficiente para conclusões definitivas (3,7,9,13). O tumor sólido pseudopapilar do pâncreas (tumor de Frantz) caracteriza-se, macroscopicamente, por ser bem delimitado, possuir espessa cápsula e, aos cortes, apresentar área sólida na periferia, circundando um centro que pode ser necrótico com ou sem hemorragias. Podem-se evidenciar focos de calcificações. À microscopia, descreve-se, tipicamente, uma lesão de baixo índice mitótico, com células pequenas, agrupadas em áreas pseudopapilares e sólidas, com degeneração cística(5,6,7). O caso descrito tem características divergentes da literatura, principalmente a idade da paciente, que é maior que a média da literatura, e a localização na cabeça do pâncreas, ao contrário da maioria dos casos que se apresentam no corpo e na cauda do pâncreas. esta neoplasia corresponde de 0,1 a 2,7% dos tumores pancreáticos, de 5 a 12% das neoplasias císticas do pâncreas (1,2,3,4,5). Sua ocorrência vem se elevando nos últimos anos, provavelmente devido ao maior conhecimento sobre a doença e à uniformização de nomenclatura, realizada em 1996 pela Organização Mundial de Saúde, que o definiu como tumor sólido pseudopapilar do pâncreas(3,2,6,7,8). Diversos estudos relataram evidências, inclusive imunohistoquímicas, de possível origem ductal, acinar ou neural para este tumor. Pelos achados inconclusivos, a hipótese de ser originado de uma linha de células epiteliais pancreáticas primitivas multipotentes, mesmo não existindo informações conclusivas. Indentificou-se um padrão de imunofenótipo característico para o tumor de Frantz: comumente há expressão de vimentina, alfa-1 anti-tripsina, alfa-1 anti-quimiotripsina e enolase neuroespecífica(3,6,7,9). Por vezes, há expressão de sinaptofisina e receptores de progesterona (5). O tumor de Frantz apresenta predileção de ocorrência em mulheres (90%), com média de idade de 22 a 24 anos (10,11,12). O aparecimento desta neoplasia costuma ocasionar um quadro clínico inespecífico, por vezes assintomático. A maioria dos pacientes procura auxílio médico por dor epigástrica ou em hipocôndrio esquerdo, associada a uma massa palpável na região, dolorosa ou não. Náuseas e vômitos frequentemente são relatados. Devido ao crescimento lento do tumor, é incomum, porém relatado, icterícia obstrutiva e abdômen agudo hemorrágico decorrente da ruptura da neoplasia (1,2,3,5,6,7,9,13). Realiza-se o diagnóstico através da ultrassonografia e da tomografia computadorizada de abdômen, ao evidenciar massa volumosa na topografia do pâncreas, com limites nítidos, cápsula espessa, de padrão misto sólido-cístico, por vezes com calcificações ou septações internas. Pode estar localizada em qualquer segmento do pâncreas, mas, em sua maioria, são oriundas da cauda (64%)(2,5,6,7,13). É uma neoplasia de caráter benigno, costuma cursar apenas com deslocamento e compressão de estruturas adjacentes, sendo rara a invasão local. Metástases hematogênicas são eventos raros, ocorrem em até 15% dos casos, geralmente se apresentando no fígado e no peritônio, de forma sincrônica.(2,3,6,13) Marcadores tumorais pouco auxiliam o diagnóstico, uma vez que raramente estão elevados: ocasionalmente há elevações mínimas de CA19-9. (5,2). Como o tumor de Frantz apresenta comportamento benigno, somente deslocando as estruturas adjacentes, sem invadi-las, seu tratamento é operatório. Em tumores da cauda e corpo do pâncreas, as pancreatectomias distais, com preservação esplênica quando possível são indicadas. Lesões da cabeça do pâncreas são tratadas conforme o grau de extensão, Comentários finais O tumor de Frantz é uma doença que deve ser suspeitada quando frente a um paciente jovem do sexo feminino com um quadro de tumor palpável ou dor abdominal em andar superior. O diagnóstico deve ser confirmado através da tomografia computadorizada. O paciente deve então ser submetido à cirurgia para completa ressecção da lesão, para que haja perspectiva de cura da doença. Referencias Bibliográficas: 1. Coelho JCU, Valle CL, Ribas BM, Andriguetto LD, Claus CMP. Surgical treatment of cystic neoplasms of the pancreas. Arq Ggastroenterol. 2010; 47:135-40. 2. Resende V, Braga CA, Garcia EC. Pancreatectomia distal com preservação do baço em tumor sólido pseudopapilar do pâncreas (tumor de Frantz): relato de caso. Rev Med Minas Gerais. 2011; 21:218-22. 3. 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Também contava casos de seu consultório. Como eram relatos da prática clínica são casos que permanecem atuais no contexto da relação médico-paciente. Deixou saudades, como pessoa, profissional e professor e merece o que será comentado a seguir. publicada nos jornais da época como grande avanço no campo da obstetrícia. Jovem médico Durante os anos 20 não havia ainda o processo de residência médica, cabendo ao jovem médico decidir onde e como praticar sua profissão. Dr. Giannoni tentou inicialmente trabalhar no interior do estado, sendo recebido na estação de trem pelas autoridades e a banda de música local. Relatava que ia a cavalo consultar pacientes nas fazendas da região, muitas vezes parando cavalo ao lado de outro cavalo e fazendo a consulta “em cima da sela”. Contava que nessas circunstâncias atendeu certa vez, pai com uma criança pequena em estágio terminal de alguma das doenças intratáveis naquela época. Pede o pai que, se não havia o que fazer pela criança, que Dr. Giannoni pelo menos a medicasse para que não sofresse. Apiedado pelo apelo e pela situação, prescreveu um simples analgésico. Semanas depois, também cavalgando, encontrou novamente o mesmo pai que lhe veio agradecer o remédio prescrito que, de tão bom, matou o menino na terceira dose! O caso era utilizado como exemplo de que pacientes e familiares, muitas vezes na simplicidade do meio rural, podem interpretar equivocadamente o gesto médico. Formação profissional Paulista do interior do estado, foi estudar na então Faculdade de Medicina da Praia Vermelha (hoje Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ), formando-se em 1927. Perguntado por que não estudou no que atualmente é a Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), respondeu que, naquela época, “a escola não gozava de boa fama”! Interno de Miguel Couto, contava que o Professor Couto encerrava seu consultório tarde da noite e, em uma delas, foi abordado por um senhor que tentou “filar” uma consulta em plena rua. Miguel Couto não titubeou, pediu ao “paciente” que fechasse os olhos e abrisse a boca, aproveitado o momento para escapar dele! Comentava também sobre a primeira cesariana da Maternidade das Laranjeiras, com incisão uterina longitudinal, provocando a necessidade de histerectomia em seqüência ao parto. Dizia que a notícia foi A 6ª. Medicina de Homens Procurando melhorar sua qualidade profissional, resolveu vir para a cidade de São Paulo, onde montou consultório no bairro da Lapa (aberto até seus 89 anos de idade!) e se tornar médico voluntário na 6ª Medicina (Enfermaria) de Homens, chefiada pelo Professor Celestino Bourroul. Professor Bourroul era citado com muito carinho pelo Dr. Giannoni. Não pela chefia ou por ter sido Diretor da FMUSP, mas como pessoa, professor e médico. Homem afável, calmo e profundamente religioso, chefiava um grupo de médicos voluntários, visto que naquela época a Santa Casa não dispunha de verba para remunerá-los. Isto gerava fatos curiosos como o hábito de chegar na enfermaria o mais cedo possível para haver tempo hábil durante o dia para trabalhar em outros locais. Certa manhã, Prof. Bourroul também chegou cedo e observou que seus assistentes entravam pelas janelas 1. Professor Adjunto da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo. Departamento de Clínica Médica 2. Professor Assistente da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo. Departamento de Clínica Médica Trabalho realizado: Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo. Departamento de Clínica Médica Endereço para correspondência: Milton Luiz Gorzoni. Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo, Departamento de Clínica Médica. Rua Dr. Cesário Motta Jr., 61 - Santa Cecília - 01221-020 - Sao Paulo, SP – Brasil. Telefone: (11) 21767300. E_mail: [email protected] 50 Gorzoni ML, Raffaelli Filho R. Fortunato Gabriel Giannoni. Arq Med Hosp Fac Cienc Med Santa Casa São Paulo. 2013; 58: 50-3. da 6ª Medicina de Homens. Perguntando a eles a razão dessa atitude, explicaram que a responsável pela enfermaria só abria a porta dela mais tarde. Prof. Bourroul não titubeou, com o auxilio dos outros médicos entrou também por umas das janelas. A responsável rapidamente apareceu e disse ao Professor que se ele a tivesse chamada, ela abriria a porta. A resposta dele foi que, se ela podia abrir a porta para ele, deveria abri-la a todos! Nesse grupo de voluntários havia médicos que não alardeavam seu trabalho (muitas vezes árduo) e outros que simulavam trabalhar demais e nada faziam, procurando apenas o “título” de médico voluntário da Santa Casa de São Paulo. Certa ocasião, ao entrar com grande alarde na enfermaria, um desses médicos que simulavam trabalhar, deparou-se com o Professor Bourroul que perguntou sobre o “doentinho” do leito número tal (era a forma do Professor se referir aos pacientes). Prontamente o outro médico respondeu que o paciente estava bem, Professor Bourroul comentou que sobre certo aspecto o “doentinho” estava realmente muito bem, visto que há três dias ele conversava com Jesus! (estava morto e sem evolução clínica). Com esse padrão de chefia com elegância, Professor Bourroul convidou o outro médico a se retirar da 6ª. Medicina de Homens e não mais retornar. As relações entre os médicos desse grupo provocaram histórias curiosas como a da comparação entre o de maior conhecimento técnico com pouco movimento em seu consultório e o de formação mediana mas com consultório lotado diariamente. O primeiro médico perguntou ao Professor Bourroul por que o outro assistente tinha tantos pacientes. O Professor respondeu: “passe visita com ele por uma semana que você vai descobrir”. Qual não foi a surpresa do mais apto sobre uma qualidade médica que ele, provavelmente pela vaidade, estava deixando de praticar: humanidade. O segundo médico, a todos os paciente tinha palavras de conforto e/ou de esperança. Essa era a diferença entre eles. Época com poucos recursos tecnológicos, nesse período do Século XX os médicos se distinguiam pela qualidade e precisão do exame clínico. Há duas histórias curiosas sobre isso. A primeira é a do assistente que se gabava de auscultar corretamente qualquer cardiopatia. Outros médicos da enfermaria resolveram pregar-lhe uma peça. Convenceram um paciente a não rir ou falar algo revelador da brincadeira que consistiu em colocar uma mosca viva na cavidade sobre o diafragma do estetoscópio. Ao entrar na enfermaria o assistente encontrou vários médicos ao redor desse paciente, sérios e comentando que nunca tinham auscultado semelhantes sons cardíacos. Procurando mostrar serviço e de fazer jus a sua fama de bom auscultador, pediu o estetoscópio (com a mosca) e iniciou sua ausculta, ficando progressivamente pálido e suando até admitir que também não sabia que doença cardíaca produziria sons tão bizarros. Após risada geral, abriram o diafragma, deixaram a mosca sair, ouviram vários impropérios do assistente mas, dias depois, a amizade e a camaradagem entre eles voltou ao normal. A segunda história é sobre o melhor examinador de abdome do grupo. Raramente errava os diagnósticos, notadamente os cirúrgicos. Interessados em aprender com ele algum detalhe de sua técnica de palpação abdominal, o restante desse grupo de voluntários pediu que dissesse ou ensinasse como desenvolvera essa incrível precisão diagnóstica. A resposta foi: “Não sei, é pelo jeitão do abdome”. Dom intrínseco, impossível ensinar. Docente Dr. Giannoni montava para cada turma de alunos um “caderninho” com foto e dados pessoais de todos. Dizia ser a melhor forma de se lembrar de seus alunos presentes e passados. Gostava de justificar esse hábito com outra história do Professor Celestino Bourroul. Contava que na época de docente do Professor Bourroul (anos 30 e 40), o exame final era público, oral e com pontos sorteados pelo aluno na hora do exame. Os estudantes compareciam em massa na expectativa de avaliar os tipos de pontos do exame e, eventualmente, aprender algo nas argüições que antecederiam as suas. Durante um desses exames orais e públicos, certo aluno saiu-se muito mal no ponto sorteado e Professor Bourroul pediu que ele sorteasse outro ponto, visto que tinha sido aplicado e participante das atividades da enfermaria durante o ano letivo. Nervoso e com a audiência emitindo risos e comentários em voz baixa, novamente não conseguiu responder corretamente ao segundo ponto sorteado. Professor Bourroul, em sua famosa calma, solicitou ao aluno que explanasse sobre algum tema clínico que tivesse maior conhecimento e segurança. Outra vez, provavelmente pelo local e pela exposição pública, nenhuma resposta adequada foi apresentada. Suspirando, Professor Bourroul disse publicamente ao aluno “vou aprová-lo pela sua dedicação para com os doentes mas, com uma condição: que você me envie um porta-retratos com uma fotografia sua que vou colocar no criado-mudo ao lado da minha cama”. Tomado de surpresa o aluno perguntou por quê da fotografia e Professor Bourroul respondeu que, se em alguma noite passasse mal, ele diria: “chame um médico, qualquer um menos o da foto”! Esse “caderninho” ficava sob a responsabilidade de um aluno que recebia a designação de “secretário”. Aluno este escolhido pelo Dr. Giannoni. Todos que exerceram essa função, tiveram a oportunidade do 51 Gorzoni ML, Raffaelli Filho R. Fortunato Gabriel Giannoni. Arq Med Hosp Fac Cienc Med Santa Casa São Paulo. 2013; 58: 50-3. convívio mais próximo com o Professor e a de ouvir mais histórias dele. Um privilégio inesquecível. Ao ensinar o que denominava ficha médica (anamnese), Dr. Giannoni sempre dizia que nenhum dado era irrelevante. Usava como exemplo a primeira linha do prontuário médico: identificação e/ou nome. Contava que conhecera (nos anos 30) um rapaz que se chamava Zorobabel, nome bizarro em qualquer época e sem justificativa aparente, visto que normalmente há algum motivo para o prenome de cada pessoa. Tempos depois, ao cruzar o Viaduto do Chá, observou uma aglomeração humana ao redor de um homem de pé sobre o parapeito do Viaduto. Reconhecendo esse homem como o pai do Zorobabel, chegou mais perto para ver o que estava ocorrendo e verificou que ele estava leiloando o Viaduto do Chá! Procurando impedir que o pai do Zorobabel caísse do parapeito, Dr. Giannoni deu um lance, o que provocou murmúrios entre as pessoas do tipo “um segundo louco apareceu!”. Obviamente, ninguém apresentou outro lance e o Viaduto foi vendido para o Dr. Giannoni que rapidamente disse àquele senhor: “desce daí para passarmos a escritura”. Levado à Santa Casa, constatou-se que era portador de neurolues, eventual explicação para o estranho nome de seu filho. Trazia doentes à sala de aula e sentavam (ele e paciente) voltados um ao outro e de frente para os alunos. Ensinava assim a técnica da anamnese e como se portar com o paciente. Algo inesquecível. Como também seu estetoscópio (que mandou fazer naquela época) com duas auriculetas. Alegria nas aulas em ouvir sons cardíacos junto ao Professor e terror nos exames quando pedia para dizer que som era aquele no levantar de seu dedo. As provas e exames de Propedêutica nunca foram fáceis. Diz uma história das primeiras turmas de alunos da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo que certo aluno, temeroso da prova prática, passou o fim-de-semana literalmente decorando o exame físico de todos os internados nas enfermarias do Departamento de Medicina (DM). Mas, extremamente ansioso em sua argüição, quando o Professor pediu que auscultasse o paciente, relatou toda a ausculta cardíaca com as auriculetas de seu estetoscópio em volta do pescoço e não em seus ouvidos! Terminou sua prova prática em outra enfermaria, fora do DM. sala e chamava “o seguinte” e todos avançavam uma cadeira a mais para perto da porta daquela sala. Este padrão de atendimento produziu fatos pitorescos como o de um dia de consultório abarrotado de pacientes. Ao chamar “o seguinte”, levantou-se um senhor com olheiras, aspecto de noites mal dormidas, coxeando e produzindo um som metálico ao deambular. Procurando não gastar muito tempo na anamnese e sem que o paciente tivesse tempo de se queixar, Dr. Giannoni falou: “já sei qual é seu problema, o senhor teve a perna amputada e não dorme por que mesmo assim ela dói (dor no membro fantasma)”. Arregalando os olhos, o paciente perguntou ao Dr. Giannoni se ele era médico espírita! Dessas histórias sobre seu consultório, a que provocava certo ceticismo entre os alunos era a do “diagnóstico pela janela”. Contava que um rapaz empregado do estabelecimento comercial ao lado da janela de sua sala, varria a calçada todo dia e durante a limpeza coçava a região anal periodicamente. Vendo isto, chamou o rapaz à janela e prescreveu medicação para Oxiúros o que solucionou o prurido anal dele. A confirmação da veracidade do “diagnóstico pela janela” surgiu quando um aluno da Faculdade de Medicina do ABC (onde também lecionou entre 1975 e 1981) apresentou-se como filho do rapaz da calçada e relatou a veracidade da prescrição. Dr. Giannoni transbordou de alegria e pediu que contássemos aos ex-alunos sobre o ocorrido. Outras histórias Exercer o ofício da medicina da Santa Casa de São Paulo é um privilégio de difícil definição em palavras, torna-se algo com um quê de paixão e de alegria. Dr. Walter Scatolini dizia que a Santa Casa era como cachaça, viciava. Dr. Giannoni viveu décadas entre seus muros centenários e colecionou histórias curiosas como a dos dois radiologistas onde um conseguiu fechar acordo com convênio médico que o outro pretendia conseguir para seu gabinete radiológico. Certo dia, esses dois médicos encontraram-se por acaso em frente da Capela do Hospital Central e iniciaram discussão que terminou em luta com socos e pontapés. Isto diante de parte do corpo clínico do Hospital. Um desses radiologistas, mais franzino, apanhou feio do outro e ficaram sem se falar por um ano. Após esse período, todos que testemunharam o ocorrido entre eles, foram convidados a comparecer à frente da Capela em determinado dia e hora para assistir à revanche da briga anterior. Qual não foi a surpresa de que o franzino estudara jiu-jitsu (arte marcial), vencendo a segunda luta. Terminada a contenda, ambos fizeram as pazes, retornando a amizade anterior pelo resto de suas vidas. Consultório Seu consultório sempre foi no bairro da Lapa e com “agenda aberta”, ou seja, ao chegar na sala de espera o paciente perguntava quantos estavam esperando para ser consultados e, conforme o número, aguardava ou voltava mais tarde. Dr. Giannoni abria a porta de sua 52 Gorzoni ML, Raffaelli Filho R. Fortunato Gabriel Giannoni. Arq Med Hosp Fac Cienc Med Santa Casa São Paulo. 2013; 58: 50-3. Quando falava sobre o início da antibioticoterapia, por intermédio da penicilina, seus olhos brilhavam. Isto motiva o relato de situação não contada mas vivida por ele e por quem escreve esse sumário. Respeito pela qualidade profissional e amizade sincera define o relacionamento entre Dr. Giannoni e Dr. Walter E. Maffei, anátomo patologista de renome e membro do corpo clínico da Santa Casa de São Paulo. Dr. Maffei defendia o não uso de antibióticos, chamando-os de “anti coisinhas” mas, em certa ocasião, sua esposa apresentou quadro de broncopneumonia e Dr. Giannoni prescreveu antibióticos a ela. Comparece Dr. Maffei à sala do Dr. Giannoni (na enfermaria DM1) e pergunta de pé e na porta se sua esposa estava com pneumonia e se na prescrição havia antibióticos. Dr. Giannoni, calma e cautelosamente, diz que sim. Dr. Maffei responde que, mesmo respeitando sua conduta como médico de sua esposa, que ficasse claro que ele não concordava com ela!. Virou-se e foi embora. Esse episódio não abalou a amizade deles e demonstrou o respeito profissional que havia entre os dois. Anteriormente a vários métodos de imagem (ultrassonografia, tomografia computadorizada e ressonância nuclear magnética) quem resolvia dúvidas propedêuticas - do tipo: baço ou rim? - no Departamento de Medicina era o próprio Dr. Giannoni. Chegava-se a apostar quem estava correto, sendo a palavra final a dele. Pode parecer exagero esse comentário sobre sua acurácia no exame clínico mas, ao ser solicitado a avaliar pai de outro médico do Departamento, chamou esse colega de lado e lhe disse que seu pai tinha um tumor do tamanho de uma nós moscada no ângulo esplênico do colón. Confirmou-se o tumor e seu tamanho na cirurgia realizada logo após o diagnóstico. Saudades Homenageado em várias ocasiões e por várias Turmas, destacam-se a de Paraninfo pela 5ª. Turma da Faculdade de Medicina do ABC (1978) e a de Patrono da 17ª. Turma da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo (1984). Convidado a proferir a aula final do Curso de Graduação dessa última Turma, fez-se de rogado mas aceitou. Os próprios alunos o trouxeram de sua casa para o que hoje são os Anfiteatros Emílio Athiê e Paulo Ayrosa Galvão (naquele período, chamava-se Anfiteatro do 4º. Ano), acompanhando-o à entrada no Anfiteatro onde foi ovacionado de pé pelos presentes. Falando de improviso, deixou ali lições sobre o seu amor à medicina, à docência e à Santa Casa de São Paulo. Ao término de sua aula, durante os cumprimentos dos presentes, perguntou se não “falara muita bobagem”, ou seja, estava avaliando suas funções cognitivas! Professor Emérito da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo, Chefe de Clínica da Irmandade da Santa Casa de Misericórdia da São Paulo, deixa saudades de quem teve o prazer de ter sido seu aluno e/ou seu assistente. Trabalho recebido: 16/02/2013 Trabalho aprovado: 20/02/2013 53 Instruções aos Autores 1.A Revista Arquivos Médicos dos Hospitais e da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo, ISSN 0101-6067; ISSN 1809-3019 (on-line), fundada em 1954, é uma publicação quadrimestral, com a finalidade de publicar a produção científica dos Hospitais e da Faculdade da Santa Casa e as publicações de outras Instituições. Cada artigo ou trabalho entregue à publicação será submetido à prévia avaliação de dois (2) revisores indicados pelos Editores, mantendo-se sigilosa a identidade do(s) autor(es) e revisor(es).Os comentários serão devolvidos aos autores para modificações no texto ou justificativas de sua manutenção. Somente após aprovação final dos editores e revisores, os trabalhos serão encaminhados para publicação. O Conselho Editorial se reserva o direito de não se responsabilizar pelas afirmações ou opiniões inseridas nos artigos publicados. 2. Os artigos deverão ser destinados exclusivamente à Revista Arquivos Médicos dos Hospitais e da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo, não será permitida a sua apresentação simultânea a outro periódico, desta forma, o artigo enviado deverá ser acompanhado de carta assinada por todos os autores, autorizando sua publicação, declarando que o mesmo é inédito e que não foi, ou está sendo submetido à publicação em outro periódico, transferindo os direitos autorais à Revista, sendo vedada a reprodução parcial ou total dos mesmos, em qualquer meio de divulgação, impresso ou eletrônico, sem a autorização prévia do Editor Chefe da Revista. A Revista receberá artigos no idioma português, espanhol e inglês. INFORMAÇÕES GERAIS: - Declaração de Conflito de Interesse, quando pertinente. A Declaração de Conflito de Interesses, segundo Resolução do Conselho Federal de Medicina n° 1595/2000, veda que em artigo científico seja feita promoção ou propaganda de quaisquer produtos ou equipamentos comerciais - Deverá constar a carta ou número do protocolo da aprovação do estudo envolvendo seres humanos ou animais, pelo CEP da Instituição onde foi realizado o trabalho - Informações sobre eventuais fontes de auxílio à pesquisa - Os ensaios clínicos submetidos à publicação devem ter o registro em uma base de dados de ensaios clínicos. A Revista “Arquivos Médicos” adota a exigência do Registro Brasileiro de Ensaios Clínicos (ReBEC) (http://www. ensaiosclinicos.gov.br/) ou do Comitê Internacional de Editores de Revistas Médicas (ICMJE) (http://www.icmje.org/clin_trialup.htm) de registro prévio dos ensaios clínicos (estudos experimentais randomizados) em plataforma que atenda os critérios elaborados pelas duas organizações citadas. O número do registro do ensaio clínico deverá constar em Materiais e Métodos. - Os autores serão notificados do andamento do artigo até a sua conclusão final. A Revista aceitará publicações de caráter clínico ou experimental como Artigo original, Ensaios Clínicos, Artigo de atualização, Artigo de revisão, Relato de caso, Artigo histórico, Editorial, Carta ao Editor, Resumos de trabalhos científicos 3. PREPARO DO ARTIGO: Os trabalhos enviados para publicação deverão obedecer os seguintes critérios: - Cada artigo deve conter de 1 a 10 laudas, incluindo ilustrações e tabelas, referências bibliográficas, fonte Times New Roman, corpo 12 e espaço duplo; - Cada artigo deverá ser acompanhado de 01(cópia) e um CD, sendo: 01 cópia com a página de identificação, contendo: a) título do artigo, em português (ou espanhol) e inglês, que deverá ser conciso, porém informativo; b) nome completo de cada autor e afiliação institucional; c) nome do Departamento e Instituição aos quais o trabalho deve ser atribuído; d) nome, endereço, fax e e@mail do autor responsável e a quem deve ser encaminhada correspondência; e) Declaração isenção e de conflito de interesse; f) artigo que envolva pesquisa com seres humanos ou animais, deverá constar carta ou número do protocolo de aprovação do trabalho pelo Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) da Instituição em que o trabalho foi realizado; g) para os artigos de pesquisa clínica, a afirmação de que todos os sujeitos envolvidos estão de acordo e que consentiram a realização da pesquisa e a divulgação de seus resultados de acordo com a Resolução 196/96 do Conselho Nacional de Saúde; h) Pesquisa de levantamento de prontuários ou documentos de uma Instituição deverá ter a menção da aprovação do CEP fontes de auxílio à pesquisa; g) Fontes de Auxílio à pesquisa - Resumo: O Resumo não excederá a 250 palavras para os artigos originais, deve ser feito na forma estruturada com: Objetivo, Métodos, Resultados e Conclusões. Para as demais categorias, o resumo não deve ser estruturado. Artigo histórico não deve ser feito resumo. - Abstract: Versão em língua inglesa, correspondente ao Resumo. - Descritores/Keywords: Descritores (ao final do resumo), Key Words (ao final do Abstract), no máximo 6 (seis), seguindo-se o DECS – Descritores em Ciências da Saúde (BIREME). ARTIGO ORIGINAL: Trabalho destinado a divulgar resultados de pesquisa original inédita, de aspectos experimentais ou observacionais, inclui análise descritiva ou interferências de dados próprios. Estão incluídos nesta categoria os ensaios clínicos. Constará das seguintes seções: Resumo, Abstract, Introdução, Material e Métodos (Deverá constar a carta ou número do protocolo da aprovação do estudo envolvendo seres humanos ou animais, pelo CEP da Instituição onde foi realizado o trabalho; descrever a metodologia estatística empregada), Resultados, Discussão, Agradecimentos e Referências bibliográficas. ARTIGO DE REVISÃO: Trabalho que constitui de avaliação crítica e sistemática da literatura sobre um assunto específico referente a trabalhos já publicados anteriormente em periódicos científicos. Constará das seguintes seções: Resumo, Abstract, Introdução; Conclusão, Referências bibliográficas 54 ARTIGO DE ATUALIZAÇÃO: Trabalho destinado a descrever informações atuais sobre tema de interesse para determinada especialidade, uma nova técnica ou método. Constará das seguintes seções: Resumo, Abstract, Introdução (breve histórico do tema; estado atual de conhecimento e as razões do trabalho, métodos de estudo), Conclusão, Referências bibliográficas EDITORIAL: Uma declaração de opiniões, crenças e políticas do editor de uma revista. Matérias de responsabilidade dos Editores da Revista, estes, poderão convidar uma autoridade para escrevê-lo. Limite de duas páginas. RELATO DE CASO: Trabalho que apresenta dados descritivos de um ou mais casos clínicos, explorando um método ou problemas através de um exemplo. Os relatos de casos aceitos para publicação serão de grande interesse ou raros. Constará das seguintes seções: Introdução (breve histórico do tema), descrição do caso, Discussão, Comentários finais e referências bibliográficas ARTIGO HISTÓRICO: Relato ou descrição de eventos ou circunstâncias significantes referentes a um determinado campo de estudo. CARTA AO EDITOR: Destinada a comentários de leitores sobre os artigos publicados anteriormente na revista, expressando concordância ou não sobre o assunto abordado. Os autores do artigo citado serão convidados a responder. RESUMOS (TRABALHOS CIENTÍFICOS – PIBIC/CNPq, Eventos Científicos, etc.): Dependendo da quantidade deste material, será publicado em suplementos. CITAÇÃO DE AUTORES: Deve ser obrigatória no corpo do texto. No sistema numérico, proposto pelos editores de periódicos científicos internacionais denominado “Vancouver Style”, as citações são indicadas numericamente na seqüência que aparecem no texto. - Citação Numérica: as citações são indicadas numericamente em expoente ou sobrescrito, entre parênteses, seguindo a sequência numérica das citações, na sequência que aparecem no texto.Quando houver mais de uma citação no parágrafo, as citações são indicadas no meio ou no final do texto, citando-se o número de cada uma das citações; se forem sequenciais, deverão ser separadas por hífen; se forem aleatórias, deverão ser separadas por vírgula. Ex: O papel dos enterococos é polêmico(1-5) embora se saiba que E.coli e B.fragilis contribuam ... Diversos estudos sugerem que um escore de mais de 10 pontos representa uma doença grave(3,7,10,25). 4. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: As referências serão baseadas no formato denominado “Vancouver Style”, os títulos de periódicos deverão ser abreviados de acordo com o “List of Journal Indexed Medicus, da National Library of Medicine”, devem constar apenas as citadas no texto e ordenadas de acordo com a citação numérica. Para todas as referências citar até seis autores, acima de sis, citar os seis primeiros seguidos da expressão et al. EXEMPLOS DE REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: LIVRO NO TODO Piato S. Urgências em obstetrícia. São Paulo: Artes Médicas; 2004. 437p. CAPITULOS OU PARTES DE LIVROS Andrade OVB, Coates V, Corrêa MM, Ribeiro Neto JPM, Medeiros EB, Brezolin NL, et al. Tubulopatias crônicas. In: Toporovski J, Mello VR, Perrone HC, Martini Filho D. Nefrologia pediátrica. São Paulo: Sarvier; 1991. p.299-326. ARTIGOS DE PERIÓDICOS Malheiros CA, Rodrigues FCM, Rahal F. Câncer gástrico e metástases. Operar?. Rev Assoc Med Bras. 2001; 47:95-6. TESE Alonso FJ F. Sífilis adquirida na infância. Tese (Mestrado). São Paulo: Escola Paulista de Medicina; 1984. EVENTOS CIENTÍFICOS (CONGRESSOS, SEMINÁRIOS, SIMPÓSIOS, ETC) Coates MVG. Evolução histórica da medicina do adolescente. In: 1º Congresso Nacional. A Saúde do Adolescente, 1991; Rio de Janeiro. Conferência. Rio de Janeiro: Academia Nacional de Medicina; 1991. p. 24-7. AUTORES CORPORATIVOS (ÓRGÃOS GOVERNAMENTAIS, ASSOCIAÇÕES, ETC.) Brasil. Ministério da Saúde. Coordenação de Saúde da Criança e do Adolescente. Tratamento de pneumonia em hospitais de pequeno e médio porte. Brasília (DF): Ministério da Saúde; 1997. DOCUMENTOS EM SUPORTE ELETRÔNICO ARTIGOS DE PERIÓDICOS (ON LINE) Murade ECM, Hungria Neto JS, Avanzi O. Estudo da relação e da importância entre a semiologia clínica, tomografia axial computadorizada e eletroneuromiografia nas radiculopatias lombares. Acta Ortop Bras. [periódico online] 2002; [citado 18 maio 2004] ; 10:18-25. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo. php?script=sci_arttext&pid=S1413-78522002000400003&lng=pt&nrm=iso 5. A solicitação de separatas de artigos já publicados será atendida mediante prévio contato com o Conselho Editorial da Revista Envio dos artigos · Os artigos deverão ser encaminhados para: Revista Arquivos Médicos Coordenação Editorial/Técnica Biblioteca - FCMSCSP Rua Dr. Cesário Mota Jr, 61, 2º andar – São Paulo – SP A/C.: Sonia Regina Fernandes Arevalo / Sabia Hussein Mustafa Fones (11) 3367.7735 – 3367.7815 e@mail: [email protected]