Sociodramas Construtivistas da AIDS nos Colégios

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PROGRAMA DE AJUDA HUMANITÁRIA
EMDR/ROTARY/ FIESC/SESI
VALE DO ITAJAÍ
2009
10. IMPENSÁVEL
Livro: THE UNTHINKABLE- WHO SURVIVES WHEN DISASTER SRIKES- AND WHY
Autora:Amanda Ripley
Editora Globo 2008.
Tradução/ Resumo: Poliana Zampieri
“A vida fica parecendo metal derretido.”
Em 1917, um cargueiro francês chamado Mont Blanc saiu do porto de Halifax, na Nova Escócia,
carregando mais de 5.600 toneladas de explosivos, inclusive TNT. O grande navio Imo, da Bélgica,
acidentalmente bateu na proa do Mont Blanc. Cerca de vinte minutos depois da colisão, o Mont Blanc
explodiu.
Muitos dos piores desastres na história começaram de modo bastante modesto. Um acidente levou
a outro, até que uma linha defeituosa se abriu na civilização.
O padre e estudioso anglicano Samuel Henry Prince, que estava perto do porto, correu para ajudar.
Algumas pessoas tiveram alucinações. Por que os pais não conseguiam reconhecer os próprios filhos
no hospital e especialmente no necrotério?
Para sua dissertação de doutorado na Universidade de Columbia, ele desconstruiu a explosão de
Halifax. Catastrophe and Social Change [Catástrofe e mudança social], publicado em 1920, foi a primeira
análise sistemática do comportamento humano durante uma calamidade. “A vida fica parecendo metal
derretido”, escreveu ele. ”Velhos costumes desmoronam e a instabilidade impera.”
Ele encarava as calamidades como oportunidades, e não apenas, como diz, “uma série de
vicissitudes que misericordiosamente levam um dia a uma calamidade final.”
Citação de Santo Agostinho: “Essa catástrofe horrorosa não é o final, mas o início. A história não
termina assim. Este é o modo como seus capítulos começam.”
Imagino o que eu faria se...
Nossas personalidades diante dos desastres podem ser bem diferentes do que esperamos.
“World Trade Center Survivor´s Network” [Rede dos sobreviventes do World Trade Center], um dos
primeiros e o maior grupo de apoio.
As pessoas tinham uma programação.
Pessoas em naufrágios, desastres de aviões e inundações, todas pareciam passar por uma
misteriosa metamorfose. O que estaria acontecendo nos nossos cérebros para nos fazer executar tantas
coisas inesperadas? Estávamos culturalmente condicionados a arriscar nossa vida em naufrágios?
A partir de uma perspectiva fisiológica, a vida diária é cheia de pequenos treinamentos para
desastres.
A palavra desastre, do latim dis (longe) e astrum (estrelas), pode ser traduzida como “má-estrela”.
As pessoas comuns só aparecem na equação como vítimas, o que é uma pena. Porque as pessoas
comuns são as pessoas mais importantes numa cena de desastre, sempre.
Em 1992, uma série de explosões em esgotos causadas por vazamento de gás se propagou por
Guadalajara, a segunda maior cidade do México. Trezentas pessoas morreram e cerca de 5 mil casas foram
abaixo. Mas logo no início, antes de mais ninguém, as pessoas comuns estavam na cena, salvando-se umas
as outras.
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Só quando acontece uma calamidade é que as pessoas comuns se dão conta de como são
importantes.
Nosso comportamento de sobrevivência pode ser explicado pela evolução. Evoluímos para fugir de
predadores, não de prédios que chegam a quatrocentos metros de altura. Será que a tecnologia
simplesmente ultrapassou nossos mecanismos de sobrevivência?
Há dois tipos de evolução: o tipo genético e o tipo cultural. Os dois moldam o nosso
comportamento, e o tipo cultural ficou muito mais rápido. Agora temos muitos modos de criar “instintos”:
podemos aprender a melhorar ou piorar. Podemos transmitir tradições sobre como lidar com riscos
modernos, do mesmo modo como transmitimos a linguagem.
Do mesmo modo como nos tornamos interdependentes, tornamo-nos mais distanciados de nossos
vizinhos e costumes. Isso é uma quebra da nossa história evolutiva. Os seres humanos e nossos ancestrais
evolutivos passaram a maior parte dos últimos muitos milhões de anos vivendo em pequenos grupos de
parentes. Evoluímos ao transmitis nossos genes e nossa sabedoria de geração a geração. Mas, hoje, os tipos
de elo social que nos protegiam das ameaças foram negligenciados. No lugar deles, pusemos nova
tecnologia, que só funciona durante parte do tempo.
Em maio de 1960, o maior terremoto jamais medido atingiu o litoral do Chile, matando mil pessoas.
Sirenes de tsunamis roçaram dez horas antes de a ilha ser atingida. A maior parte das pessoas que ouviram
a sirene não foi evacuada. Eles não sabiam bem o que aquele barulho significava. A tecnologia estava
presente, mas o costume, não. Naquele dia morreu no Havaí um total de 61 pessoas.
Tradicionalmente, a palavra desastre se refere a uma calamidade súbita, causando grande perda de
vidas ou patrimônio.
Os acidentes são previsíveis, mas a sobrevivência a eles, não. Ninguém pode prometer a ninguém
um plano de fuga.
Precisamos conseguir conhecer nossa personalidade mais antiga, a que assume o controle durante
uma crise e que até aparece de modo fugaz em nossas vidas diárias.
Cientistas que estudam as reações do cérebro ao medo já sabem que partes do cérebro se acendem
sob estresse.
O ARCO DA SOBREVIVÊNCIA
Em todos os tipos de desastres percorremos três fases.
A primeira fase é a negação. A duração da negação vai depender em ampla escala de como
calculamos o risco.
Uma vez ultrapassado o choque inicial da fase de negação, passamos para a deliberação, a segunda
fase do arco de sobrevivência. Sabemos que alguma coisa está terrivelmente errada, mas não sambemos
como lidar com isso. Que decisão tomamos? A
primeira coisa é compreender que nada é normal. Pensamos e percebemos as coisas de modo
diferente.
“Há ocasiões em que ter medo é bom”, disse Ésquilo. “Ele deve manter seu lugar atendo no controle
do coração.”
Terceira fase do arco de sobrevivência: o momento decisivo. Aceitamos o fato de que estamos em
perigo; deliberamos as nossas opções.
Muitas pessoas, se não a maior parte delas, tendem a desligar inteiramente em um desastre, bem o
contrário do pânico. Ecas amolecem e parecem perder toda a capacidade de atenção. Mas a paralisia delas
pode ser estratégica.
Não há um roteiro púnico nessas situações.
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O que acontece conosco em uma calamidade? E por que alguns de nós se saem muito melhor que
outros?
PARTE UM: NEGAÇÃO
Por que as pessoas se movimentavam com tamanha lentidão?
“Isso pode acontecer outra vez.” E alguém disse, “um raio nunca cai duas vezes no mesmo lugar.”
Natinal Fire Academy [academia nacional de incêndios]. Os instrutores na escola são bombeiros
veteranos que testemunharam praticamente todas as formas concebíveis de comportamento humano em
incêndios.
Disse que viu essa curiosa espécie de diferença o tempo todo.
Guylène Proulx, do Conselho Nacional de Pesquisa do Canadá. “O comportamento humano, de fato,
no incêndio, é um tanto diferente do cenário de pânico. O que se observa regularmente é uma reação
letárgica.” Em geral as pessoas ficam calmas em incêndios, desconsideram ou atrasam as reações.
O riso ou o silêncio são manifestações claras de negação, do mesmo modo que a demora.
Temos uma tendência a acreditar que tudo está bem porque, bem, quase sempre esteve até agora.
Os psicólogos chamam essa tendência de “viés de normalidade”. O cérebro humano identifica padrões. Usa
informações do passado para compreender o que está acontecendo no presente e prever o futuro.
Somos lentos para reconhecer exceções.
Não importa o que um homem fardado nos diga, não importa quão estridente seja o alarme,
conferimos uns com os outros. Esse ritual de milling, de reações circulares a partir de movimentos fortuitos
e confusos entre as pessoas, faz parte da segunda fase, a deliberação.
Nesse momento, é justo dizer que o milling é um processo útil que pode demorar um tempo
doloroso para se completar.
Esse processo de pegar coisas é comum em situações de vida ou morte. Tendo de enfrentar o vazio,
queremos estar preparados com o máximo de suprimentos possível. E, junto com o viés de normalidade,
encontramos conforto nos nossos hábitos normais. ( Em um levantamento de 1.444 sobreviventes depois
dos ataques, 40% disseram que recolheram coisas antes de sair.)
Os incêndios provocados pelos ataques de 11/9 foram os mais letais da história norte-americana,
matando 2.666 pessoas.
Desde a construção do primeiro arranha-céu em Chicago, em 1885, esses monumentos à
engenharia humana têm sido projetados sem muita consideração pelo modo como os seres humanos de
fato se comportam. Nunca se exigiu das pessoas que trabalham em arranha-céus que participem com
regularidade de exercícios de evacuação, que poderiam melhorar drasticamente os tempos da fuga. Quando
há exercícios, as pessoas tendem a considerá-los perda de tempo. Elas superestimam o funcionamento do
cérebro delas durante uma crise real.
As multidões em geral ficam muito silenciosas e dóceis em uma calamidade verdadeira.
As massas não toleram comportamento de pânico irracional. Em geral, as pessoas permanecem
disciplinadas e gentis, muito mais gentis do que seriam em um dia normal.
Vítimas de desastres muitas vezes oscilam entre compreensão horripilante e submissão mecânica.
Os psicólogos chamam isso de “dissociação”. Em geral, essa palavra é empregada para descrever o modo
como as crianças se distanciam da violência física ou sexual. Mas acontece também em situações de vida ou
morte. Pode ser uma estratégia para lidar com a situação, uma forma produtiva e extrema de negação, num
certo sentido.
A negação pode ser incrivelmente ágil.
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Nada se imprime com tanta eficiência no cérebro como o medo. Determinados detalhes de eventos
de vida ou morte ficam conosco pelo resto da vida, como cicatrizes na nossa consciência. Podem causar
problemas debilitantes. Podem exigir anos de terapia para serem reparados. Mas, como a maior parte dos
comportamentos em calamidades, podem também ser úteis. Estão lá para nos proteger da possibilidade de
entrarmos na mesma situação outra vez.
O congelamento é tão comum quanto a fuga no repertório de reações humanas a desastres. Mas é
também uma reação fascinante, complicada. Tem significado morte certa para muitos milhares de pessoas
ao longo dos séculos.
A negação tanto a retardou, distraindo-a com falsas esperanças, quanto a manteve em movimento,
acalmando-a.
Avaliar a dualidade da negação.
Ela pode ser intensa, mesmo na presença de fumaça e chamas.
A maior parte das nossas reações a calamidades, a negação também pode salvar a vida.
A negação criou antolhos para p cérebro dela, deixando-a ver apenas o que ela precisava
ver.
No dia 9 de setembro de 1965, o furacão Betsy chegou à Louisiana com ventos de até
200km/h. Na parte leste de Nova Orleans.
PONTOS CEGOS
É verdade que quanto mais recursos se tem, mais escolhas há em relação a como e para
onde ir.
“o que de fato conta para a diferença é no que as pessoas acreditam.”
Avaliamos riscos literalmente centenas de vezes por dia, em geral bem, muitas vezes de
modo inconsciente. Para calamidades mais previsíveis, a primeira fase do modo de pensar em
desastre, na realidade, se inicia com o cálculo. Começamos a avaliar o risco antes mesmo de o
desastre acontecer. Estamos fazendo isso neste mesmo instante. Decidimos onde morar e que tipo
de seguro comprar, exatamente como processamos todos os tipos de riscos no dia-a-dia: usamos
capacetes para andar de bicicleta ou não. Afivelamos os cintos de segurança, fumamos um cigarro
e deixamos nossos filhos ficarem fora de casa até meia-noite. Ou não.
As vítimas do Katrina não eram desproporcionalmente pobres; eram desproporcionalmente
velhas. Três quartos dos mortos tinham mais de sessenta anos, de acordo com a análise Knight
Ridder. Metade tinha mais de 75 anos.
O SILÊNCIO DO RISCO
Sua maior probabilidade é morrer de quê? Pense um pouco: dado o seu perfil, o que você
realmente acha que o vai matar?
Os fatos dependem da idade, da genética, estilo de vida, localização e mil outros fatores,é
claro. Mas, seguem aqui as principais causas de morte nos EUA:
1. Doenças cardíacas
2. Câncer
3. Derrame
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Nos anos 1970 e 1980, dois psicólogos Daniel Kahneman e Amos Tversky publicaram uma
série de artigos revolucionários sobre a tomada de decisão humana. Eles explicaram que as
pessoas se baseiam em atalhos emocionais, chamados “heurística”, para fazer as escolhas. Quanto
maior a incerteza, mais atalhos. E os atalhos, embora muito úteis, levam a uma enorme quantidade
de erros previsíveis.
Hoje, as pessoas que estudam tomada de decisão concordam que os seres humanos não
são racionais. “não saímos por aí como avaliadores de risco – fazendo cálculos, multiplicando
probabilidades. Isso já foi refutado”, diz Paul Slovic, professor de psicologia na Universidade de
Oregon e um dos mais respeitados especialistas em riscos o mundo. Ao contrário, as pessoas se
baseiam em dois sistemas diferentes: o intuitivo e o analítico. O sistema intuitivo é automático,
rápido, emocional e muitíssimo influenciado por experiências e imagens.
Nossa fórmula para risco, em especial quando se trata de desastres, quanse nunca parece
muito racional.
Risco = probabilidade x conseqüência
Risco = probabilidade x conseqüência x medo/otimisto
Medo. É raro um rótulo usado por cientistas se ajustar muito bem à emoção que ele
descreve. Representa todos os nossos temores evolutivos, esperanças, lições, preconceitos e
distorções embrulhados em um obscuro fator x.
O medo tem uma equação própria. Cada fator na equação poderia aumentar ou reduzir s
sensação de medo, dependendo da situação.
Medo = descontrole + desconhecimento + imaginação + sofrimento + escala de destruição +
injustiça
HIERARQUIA DOS TEMORES
“Os perigos têm personalidades”, diz Paulo Slovic, o especialista em risco, “mais ou menos
como as pessoas”.
Alguns dos desastres mais comuns são os menos temidos.
Pessoas mais velhas não gostam de abandonar suas casas.
Os aposentados e pessoas acima de setenta anos eram os que menos probabilidade tinham
de deixar o local.
Mesmo que tivessem bons meios de sair, em geral, as pessoas mais velhas não gostam de
mudanças.
CONFIANÇA EXCESSIVA
As pessoas têm confiança excessiva com relação a dirigir na água, mesmo sendo
bombardeadas com avisos oficiais para não o fazer.
Um estudo da Universidade de Pittsburgh mostrou que os homens têm muito maios
probabilidade de dirigir na água alta que as mulheres – e, portanto, têm maior probabilidade de
morrer durante o processo.
Mesmo em tempos de calma, tendemos à arrogância.
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As pessoas tendem a achar que são superiores. Os psicólogos chamam isso de “Efeito Lake
Wobegon” – por causa de uma cidade fictícia inventada pelo radialista Garrison Keillor, que a
descreveu como um lugar “no qual as mulheres são fortes, os homens, bonitões, e todas as
crianças estão acima da média”.
O neurologista Antônio Damásio, 1970, na Faculdade de Medicina da Universidade de Iowa.
Pacientes com danos no lobo pré-frontal exibiam combinação de indecisão e falta de
emoção. Sentimentos irracionais.
Emoções e sentimentos não eram impedimentos para o raciocínio; eles eram integrantes
dele. “a razão pode não ser tão pura quanto muitos de nós achamos ou desejamos que seja”,
escreveu. “Na melhor das hipóteses, os sentimentos nos apontam a direção adequada, levam-nos
para o lugar
apropriado em um espaço de tomada de decisão, onde podemos pôr os instrumentos da
lógica em bom uso.
Damásio: o modo de as pessoas melhorarem no julgamento de risco era não evitar a
emoção – ou afastá-la -, mas capitalizá-la. O medo, controlado de modo adequado, pode salvar
nossa vida.
Dennis Mileti estudou como alertar as pessoas contra ameaças como furacões e
terremotos. Hoje, mora no deserto da Califórnia.
Em julho de 2006, na reunião de cúpula sobre calamidades organizada na Universidade do
Colorado, em Boulder, Mileti se apresentou em um painel intitulado “Comportamento em
calamidades”. “Quantas pessoas vocês precisam ver encurraladas nos telhados antes de lhes
dizermos a que altura podem atingir as águas da inundação, até que ponto a terra irá tremer?
Quantos cidadãos vão precisar morrer para fazermos isso? É preciso adaptar culturalmente um
sistema de alertas para tsunamis.”
“Sabemos exatamente onde os grandes desastres vão ocorrer”, diz ele, sorrindo. “Mas os
indivíduos subinterpretam o risco. O público descarta inteiramente os eventos pouco prováveis e
perigosos. O indivíduo pensa: não vai ser com este avião, este ônibus, desta vez.”
No caso de uma descompressão, a gente só tem quinze segundos antes de perder a
consciência. Cerca de metade dos passageiros tenta levar sua bagagem em uma contingência de
abandono do avião, mesmo que os comissários tenham mandado deixar tudo para trás. “Levar
bagagens custará vidas”.
A confiança é o elemento básico para qualquer sistema de avisos eficiente.
É importante não assoberbar as pessoas com uma advertência que seja assustadora
demais. “Algumas vezes é difícil conseguir que as pessoas façam planejamento para o pior caso,
porque o pior caso é muito ruim. As pessoas simplesmente deixam isso de lado”.
Em Vanuatu, no leste da Austrália, os residentes de uma parte remota da Ilha Pentecostes
não têm acesso às amenidades modernas. Uma vez por semana eles conseguem assistir à TV.
Depois de um terremoto em Papua Nova Guiné, em 1998, o caminhão da TV mostrou um vídeo da
Unesco sobre como sobreviver a um tsunami. Em 1999, os ilhéus sentiram a terra tremer,
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exatamente como no vídeo, e correram para ao locais altos. Trinta minutos mais tarde, uma onda
gigante inundou a cidade. Mas apenas três pessoas, em quinhentas, morreram.
Os melhores alertas são como os melhores anúncios: consistentes, facilmente
compreendidos, específicos, repetidos freqüentemente, pessoais, acurados e direcionados. Os
alertas devem dizer às pessoas o que fazer.
Imagens repetidamente absorventes de desastres na TV podem ser particularmente
prejudiciais. Depois do 11/9, estudos mostram que quanto mais horas de cobertura os adultos e as
crianças assistiam, mais estressados ficavam.
Mesmo quando as pessoas realmente compreendem os riscos, isso não significa que farão
escolhas de baixo risco.
A FISIOLOGIA DO MEDO
Como a gente se sente ao enfrentar a morte? O que acontece no nosso cérebro quando o
chão cede sob os nossos pés? O medo guia as suas reações e todas as estações do arco de
sobrevivência. O medo, em geral, está no seu auge assim que compreendemos o perigo que
estamos enfrentando.
“O medo é fundamental”, diz o especialista em cérebro, Joseph LeDoux. “Há gatilhos-chave
no ambiente que o ativarão, e reações bem elaboradas o ajudarão a lidar com ele. Essas coisas se
firmaram através de zilhões de anos de evolução.”
Diego Asencio, embaixador dos Estados Unidos, estava em uma festa na Colômbia quando
houve um tiroteio. Ele conseguia escutar o som das balas batendo na parede atrás de si. Os
terroristas fizeram mais de coinqüenta cativos – um dos maiores grupos de reféns diplomatas na
história.
A primeira regra do medo é que ele é primitivo.
Se Asencio reagiu como a maior parte das pessoas, a química no sangue dele literalmente
mudou, para que pudesse coagular mais facilmente. Ao mesmo tempo, os vasos sanguíneos
contraíram para que sangrasse menos, caso fosse ferido. A pressão arterial e os batimentos
cardíacos dispararam. E uma grande quantidade de hormônios – em particular hidrocortisona e
adrenalina – inundaram-lhe o sistema, dando aos grandes músculos motores um tipo de reforço
biônico.
O corpo humano tem recursos limitados. O cérebro deve resolver o que vai priorizar e o que
vai abandonar. Nossos músculos se retesam e ficam prontos. Nosso corpo cria seus analgésicos
naturais. Mas nossa capacidade de raciocínio e percepção do ambiente dica deteriorada. A
hidrocortisona interfere com a parte do cérebro que lida com o pensamento complexo.
Todos os sentidos ficam profundamente alterados.
A amígdala, centro do circuito do medo humano, localizada profundamente dentro dos
lobos temporais do cérebro, aprende a respeito do perigo de dois jeitos. Já vimos o primeiro, que o
neurocientista LeDoux chama de “estrada baixa”: os ouvidos do Ascencio enviam um sinal
diretamente à amígdala para acionar a reação do sistema nervoso simpático. A estrada baixa é “um
sistema rápido e de processamento sujo”, como escreve LeDoux em seu excelente livro, O cérebro
emocional.
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O córtex reconheceu o som como tiros e enviou uma mensagem mais sutil para a amígdala.
Essa é a “estrada alta”. É uma descrição mais acurada do que aconteceu, mas também é mais
lenta.
Quanto maior o tempo que tivermos para reagir a uma ameaça, mais podemos recrutar as
capacidades mais sofisticadas do cérebro.
Com o risco acontece a mesma coisa que ocorre com o medo: as emoções sobrepujam a
razão. “As emoções monopolizam os recursos do cérebro”, diz LeDoux. “Existe um motivo para
isso: se você está de cara com uma fera sedenta de sangue, você não quer que sua atenção
diminua.”
Sob pressão extrema, o corpo abandona algumas funções não essenciais, como a digestão,
e a salivação, e, algumas vezes, o controle da bexiga e do esfíncter.
Asencio passou pela experiência de outra reação clássica: a desaceleração do tempo.
“Tempo e espaço ficam inteiramente desconexos”, escreveu ele mais tarde.
O curioso sentimento de distanciamento, chamado de “dissociação”, pode parecer sutil. Em
um estudo com 115 policiais envolvidos em sérios tiroteios, 90% relataram ter sentido algum tipo
de sintoma dissociativo – de dormência a perda de atenção, e problemas de memória. Levada ao
extremo, a dissociação pode tomar forma de uma experiência fora do corpo. É quando as pessoas
descrevem-se como se estivessem olhando para si próprias de cima.
Como todos os mecanismos de defesa, a dissociação cobra um preço. Uma série de estudos
descobriu que, quanto maior a dissociação durante a crise, mais difícil será a recuperação da
pessoa que sobrevive.
MERGULHO PELA TOCA DO COELHO
Em situações de vida ou morte, as pessoas adquirem determinados poderes, ao mesmo
tempo em que perdem outros. Asencio descobriu que, de repente, ele tinha uma visão cristalina,
levando seus oftalmologistas a baixarem temporariamente o grau de seus óculos. Outras pessoas,
a maioria, ficam com visão em túnel. O campo de visão se estreita cerca de 70% de modo que, em
alguns casos, elas parecem estar espiando pelo buraco da fechadura e perdem a noção de
qualquer coisa que aconteça na periferia. A maior parte das pessoas adquire um tipo de audição
em túnel. De modo estranho, determinados sons se tornam abafados; outros ficam mais altos do
que na realidade são.
Os hormônios do estresse são como drogas alucinógenas. Quase ninguém passa por uma
provocação essas sem experimentar algum tipo de realidade alterada.
Uma as distorções mais fascinantes é a estranha diminuição na velocidade do tempo. A
distorção do tempo é tão comum que os cientistas têm um nome para isso: taquipsia, vinda do
grego, “velocidade da mente”.
Por que o tempo parece ir mais devagar em momentos de terror? O que estará
acontecendo em nosso cérebro?
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David Eagleman, neurocientista, trabalha no Baylor University College of Medicine, em
Houston, onde passa um tempo enorme tentando recriar aquela queda em câmera lenta. “Estou
tentando descobrir como o cérebro representa o tempo”, diz ele. Todos os voluntários realmente
se sentiram como se estivessem em câmera lenta. “Todo mundo relatou que foram os três
segundos mais longos de sua vida”, diz Eagleman.
Em uma situação amedrontadora, a gente recruta outras partes do cérebro, como a
amígdala, para formular a memória. “E como elas são formuladas de forma mais rica, parece que
demoram mais.” Em outras palavras, o trauma cria uma impressão tão marcante no nosso cérebro
que, em retrospecto, parece que tudo aconteceu em câmera lenta.
ZONA DE SOBREVIVÊNCIA
A primeira defesa do corpo é estrutural. A amígdala aciona uma antiga dança de
sobrevivência, e isso é difícil de mudar. Mas temos uma fantástica segunda defesa: aprendemos
pela experiência. “Quanto mais preparado você for, mais vai se sentir sob controle e menos medo
vai ter.”
O medo é negociável.
“O modo como uma pessoa vai reagir terá alguma coisa a ver com sua genética, mas
também está relacionado à soma total de suas experiências de vida – que são basicamente treino.”
As pessoas que sabiam onde ficavam as escadas no World Trade Center tinham menor
probabilidade de ficar feridas ou ter problemas de saúde a longo prazo.
Assim como os atletas têm uma “zona” na qual eles alcançam o desempenho máximo, o
mesmo acontece com as pessoas comuns. As zonas de todas as pessoas parecem uma curva em
sino: primeiro, o estresse nos faz funcionar melhor; mas se ele for demais, começa a produzir
resultados cada vez piores. Além de um ponto de inflexão crítico, começamos a falhar
inteiramente.
As pessoas têm melhor desempenho quando seus batimentos cardíacos estão entre 115 e
145 por minuto (em repouso, a velocidade é em geral cerca de 75 batimentos por minuto). Nessa
velocidade, as pessoas tendem a reagir rapidamente, ver com clareza e dominar habilidades
motoras complexas (como dirigir, por exemplo).
Contudo, além de cerca de 145 batimentos por minuto, as pessoas começam a piorar. A voz
começa a tremer, talvez porque o sangue tenha se concentrado no centro do corpo, desligando o
complexo controle motor da laringe e deixando o rosto pálido e as mãos desajeitadas. A visão, a
audição e a percepção de profundidade podem também começar a declinar. Se o estresse se
intensificar, as pessoas em geral vão experimentar alguma amnésia depois do trauma.
Todo mundo é diferente. A variação dos desempenhos se altera dependendo do indivíduo.
VISÃO EM TÚNEL
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Quanto mais estressados eles ficavam, menos enxergavam. E o problema ia além da visão; à
medida que o estresse aumentava, eles tendiam a ficar mentalmente obcecados com um aspecto
dos dados, excluindo todos os demais.
COMO AMPLIAR O CÉREBRO
A reação humana do susto é algo que possuímos desde o útero. Os primeiros 150
milissegundos da reação de susto começam com uma reação muito pequena, mas confiável.
Piscamos. Piscar tem um objetivo útil – protege os olhos de danos. Enquanto isso, nossa cabeça e
torso automaticamente se inclinam para frente, e os braços se dobram no cotovelo – posicionando
o corpo para lutar, agachar-se ou fugir. Num instante, as mãos começam a se apertar em punho –
gerando cerca de 4 kg por metro quadrado de pressão em adultos.
COMBATA O LAMAZE
Há meios mais simples para treinar a reação ao medo. Uma das táticas mais
surpreendentes no mundo, ensinada com toda seriedade a alguns dos homens mais assustadores,
brandindo armas, é a respiração. É o mesmo conceito básico ensinado na ioga e em aulas de parto
sem dor: inspire contando até 4; segure contando até 4; expire contando até 4; segure contando
até 4; comece outra vez. Só isso.
Este método o ajuda a se manter calmo, evitando a hiperventilação ou pânico. Tudo
começa a acontecer em câmera lenta.
Como pode alguma coisa tão simples ser tão eficaz? A respiração é uma das poucas ações
que residem tanto no sistema nervoso somático (controlado conscientemente) quanto no sistema
autônomo (que inclui os batimentos cardíacos e outras ações as quais não temos fácil acesso).
Então, a respiração é uma ponte entre as duas. Ao diminuir conscientemente o ritmo da
respiração,
conseguimos reduzir a reação primeira de medo que, de outro modo, assumiria o controle.
Existe um maravilhoso estudo científico que mostra como a respiração ritmada e a atenção
plena podem na verdade alterar a topografia do cérebro. Sara Lazar, da Faculdade de Medicina de
Harvard, escaneou o cérebro de vinte pessoas que meditavam 40 minutos por dia; ao comparar as
imagens com o de pessoas que não meditam, de mesma idade e tipo de ambiente, encontrou uma
diferença bastante significativa. Os que meditavam tinham 5% do tecido cerebral mais espesso em
partes do córtex pré-frontal, que são estimulados durante a meditação – ou seja, os centros que
lidam com a regulação das emoções, atenção e memória funcional, partes essas que ajudam a
controlar o estresse.
As pessoas que meditam, como os policiais que respiram fundo, podem ter encontrado uma
forma de evoluir essencialmente além da reação humana básica de medo.
O riso, como a respiração, reduz o nível de nossa excitação moral. Traz, além disso, o
benefício de nos fazer sentir mais no controle da situação. Estudos têm demonstrado com
freqüência que as pessoas apresentam melhor desempenho sob estresse se acharem que podem
lidar com ele. A autoconfiança, em outras palavras, pode salvar sua vida. “A arma isolada mais
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potente e um plano mental do que você vai fazer em determinadas crises. E um comprometimento
absoluto com ele, por Deus, se a crise vier a acontecer”.
O CAPTURADOR DE REFÉNS
Os reféns podem de fato ser atores muito úteis. Nem sempre se desfazem como vítimas
indefesas. Nem necessariamente caem presas da chamada síndrome de Estocolmo, pela qual os
reféns se tornam perversamente leais a seus captores. A síndrome de Estocolmo recebeu este
nome após um assalto a banco na cidade de Estocolmo, em 1973, no qual os reféns acabaram
defendendo seus captores, raramente acontece na vida real.
COMO MANTER A CALMA
Há pessoas que os psicólogos chamam de “aterrorizados extremos” – pessoas que têm uma
tendência a viver em estado de intensa ansiedade; mas existe uma calma ao lado do medo.
O PERFIL DE UM SOBREVIVENTE
Não há formas de se prever o comportamento sob estresse extremo. As pessoas que são
líderes ou incapazes, num dia normal no escritório, não se comportam necessariamente da mesma
maneira em uma crise.
Há também a cruel realidade da física; pessoas obesas se movem com mais lentidão e
precisam de maior espaço, de modo que têm maior dificuldade de fugir. No 11/9 as pessoas com
baixa capacidade física tinham uma probabilidade 3 vezes maior de se ferirem ao deixar o WTC.
Os homens, em geral, se arriscam mais; a mulheres tendem a ser mais cautelosas. Segundo
Susan Cutter, da Universidade da Carolina do Sul, as mulheres não se porão em risco ou as suas
famílias.
A equação do medo é diferente para homens e mulheres; quase todos os levantamentos
feitos sobre percepção de risco chegam à conclusão de que as mulheres se preocupam mais com
quase tudo – da poluição às armas portáteis. As mulheres são fisicamente mais fracas e
tradicionalmente mais responsáveis por cuidar dos outros; talvez elas tenham de se preocupar
mais.
Um pequeno subgrupo de cerca de 30% dos homens brancos vêem muito pouco risco na
maior parte das ameaças. Eles criam grande parte das diferenças de gênero e raça por si mesmos.
Tinham mais probabilidade que qualquer outro grupo de discordar da afirmação de que as pessoas
deveriam ser tratadas de forma mais igualitária.
Então isso significa que é melhor se mulher, que se preocupa, do que homem, que não? Em
alguns desastres, a preocupação definitivamente ajuda, por motivar as pessoas a deixarem o local
antes de ser tarde demais.
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Em muitos países atingidos pelo tsunami em 2004, por exemplo, as mulheres não sabiam
nadar, enquanto os homens sabiam. Em quatro aldeias na Indonésia os sobreviventes masculinos
em maior número que os femininos estavam numa proporção de quase 3 para 1.
Algumas vezes as desvantagens do gênero chegam a ser constrangedoras de tão banais; no
11/9, as mulheres tinham duas vezes mais probabilidades de ficarem feridas ao deixar o prédio, de
acordo com um estudo feito pela Universidade de Columbia. O principal fator segundo o
pesquisador Robyn Gershon, “Foram os sapatos”; muitas mulheres tiraram seus sapatos de salto
alto no processo de evasão e caminharam descalças para casa. Sobreviventes relataram tropeçar
em pilhas de sapatos de salto alto nas escadas.
Os incêndios são sobretudo uma questão de dinheiro; “Nunca combati um incêndio em
casa de rico”, diz Denis Onieal, bombeiro em Nova Jersey. Os incêndios têm maior probabilidade
de acontecer em construções de qualidade inferior, onde as pessoas usam aquecedores portáteis e
nas quais os detectores de fumaça estão ausentes ou não funcionam.
O dinheiro tem mais importância que qualquer outra coisa na maior parte dos desastres; o
que é outra maneira de dizer que o local e nosso modo de vida
têm maior importância que a Mãe Natureza. Países desenvolvidos sofrem tantas catástrofes
naturais quanto os países subdesenvolvidos; a diferença está no número de mortos.
As pessoas precisam de tetos, estradas e cuidados com a saúde antes que ninharias como
personalidade e percepção de risco adquiram grande importância; e o efeito é geométrico.
“O que vai acabar determinando o estresse crônico em um evento discreto é a genética e a
personalidade, mais do que os detalhes do evento”, diz Ilan Kutz, especialista em trauma e
psiquiatra em Israel. Se todas as demais coisas óbvias (como gênero, peso e renda) forem iguais,
algumas pessoas superam as outras em desempenho, elas são simplesmente mais resistentes. O
grande mistério é por quê.
AS DIFERENÇAS MAIS FINAS
“No Vietnã, vi pessoas sofrerem extremo impacto psicológico, e elas trabalhavam como
cozinheiros. Cozinheiros! E vi soldados da infantaria que tinham enfrentado seriamente o dragão e
que davam a impressão de estar bem.”
A adaptabilidade é uma aptidão preciosa, as pessoas que a têm tendem a ter também três
vantagens subjacentes: uma crença de que conseguem influenciar eventos da vida; uma tendência
a encontrar objetos significativos na confusão da vida; e uma convicção de que podem aprender
com experiências tanto positivas como negativas. Essas crenças funcionam como um tipo de
tampão, acolchoando o golpe de qualquer catástrofe dada.
“O trauma, como a beleza, está nos olhos de quem vê”, diz George Everly Jr no Centro John
Hopkins de Prontidão em Saúde Pública.
As pessoas adaptáveis possuem confiança em abundância; alguns estudos recentes
descobriram que as pessoas que são irrealistamente confiantes tendem a se darem muitíssimo
bem em catástrofes. São pessoas que têm uma opinião mais positiva de si mesmo que os demais.
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Depois do 11/9, George Bonanno da Universidade de Columbia, descobriu um padrão
parecido entre sobreviventes que estavam no WTC ou perto dali durante os ataques; os que
tinham auto-estima elevada recuperaram-se com facilidade relativamente maior. Chegavam a
apresentar menores níveis de hidrocortisona, o hormônio do estresse, na saliva. A autoconfiança
eles era como uma vacina contra as vicissitudes da vida.
Diversos estudos descobriram que pessoas com QI mais elevado tendem a sair-se melhor
depois de um trauma; em outras palavras, aqueles adaptáveis podem ser mais inteligentes. Por
que isso? Talvez a inteligência ajude as pessoas a pensarem de modo criativo, o que pode por sua
vez levar a um maior sentido de
finalidade e controle, ou talvez a confiança que vem de um QI mais alto leve à adaptabilidade.
O aspecto mais importante é que todo mundo, independentemente do QI, pode produzir
auto-estima por meio de treinamento e experiência. É isso o que soldados e policiais vão lhe dizer,
que a confiança vem da prática. O cérebro funciona muito melhor quando já está familiarizado
com um problema, sentimo-nos mais no controle porque estamos mais no controle.
SOLDADOS DE FORÇAS ESPECIAIS NÃO SÃO NORMAIS
Ao estudar veteranos do Vietnã e Guerra do Golfo, Charles Morgan III, psiquiatra da
Universidade de Yale e diretor do laboratório de desempenho humano no Centro Nacional de
Transtorno de Estresse Pós-Traumático, notou que os que apresentavam transtorno de estresse
pós-traumático se comportavam de modo diferente dos que não apresentavam o distúrbio. Os
primeiros eram mais assustadiços, se dissociavam mais relatando que as coisas apareciam em
cores mais vivas ou se moviam em câmera lenta, mesmo na vida normal. Era como se o cérebro
deles, já tendo entrado em crise uma vez, tivesse permanecido perpetuamente preso nesse modo.
Chegavam a ter no sangue níveis mais altos de determinados hormônios de estresse que outras
pessoas – o cérebro, o sangue e a personalidade haviam se alterado pelo trauma.
Os soldados das forças especiais eram quimicamente diferentes; ao analisar-lhes o sangue,
Morgan constatou que estes produziam uma quantidade significativamente maior de uma
substância chamada “neuropeptídeo Y”, um composto que ajuda a permanecer concentrado em
tarefas sob estresse, entre outros.
Comprovou-se que o hormônio ocitocina, liberado nas mães depois do parto e também
disponível sob a forma sintética, acalma o núcleo de medo do cérebro e promove confiança.
A dissociação nem sempre é algo ruim; uma forma extrema de dissociação pode na verdade
ser um antigo mecanismo de sobrevivência. Há diferentes tipos de adaptabilidade, quando
dissociamos as partes do nosso cérebro que lidam com o mapeamento espacial, a memória em
ação e a concentração começam a falhar.
Normalmente, traumas anteriores predizem pior desempenho sob tensão. Era uma espécie
de paradoxo: em um grupo de pessoas o trauma leva a um desmonte, em outros parecia instalar
mecanismos de estratégia para lidar com o trauma.
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OS GÊMEOS THOMPSON
Em meados de 1990, os cientistas descobriram que as pessoas com transtorno de estresse
pós-traumático não apenas se comportam de modo diferente, o cérebro deles é realmente
diferente. O hipocampo, localizado profundamente dentro do cérebro, perto da amígdala, é um
pouco menor em pessoas com o transtorno; e este está intimamente envolvido com o aprendizado
e a memória, e nos ajuda a decidir se alguma coisa é segura ou não. A maior parte dos cientistas
supunha que o trauma tinha encolhido o hipocampo dessas pessoas.
O psicólogo Marc Gilbertson e seus colegas no Veterans Administration Medical Center em
Manchester, New Hampshire, queriam estudar o cérebro humano antes e depois do trauma e
acreditam que o hipocampo está envolvido na dissociação.
O hipocampo menor parecia ser anterior ao trauma. Determinadas pessoas apresentavam
um risco maior de desenvolver transtorno de estresse pós-traumático antes mesmo de ir para o
Vietnã. Podemos deduzir que certas pessoas provavelmente terão maior dificuldade em processar
o medo durante uma catástrofe – e de se recuperarem do trauma mais tarde.
O hipocampo é apenas um fator na extensa equação para o transtorno de estresse pós-traumático.
Outras coisas também têm importância, enfatiza Gilbertson. A quantidade de trauma, o grau de
apoio que a família dá à vítima – todas essas coisas podem compor ou conter a avaria de maneira
intensa. O sofrimento se acumula, como dívida.
MEU CÉREBRO POSTO A NU
Há dois hipocampos no nosso cérebro, um de cada lado.
Se a topografia do nosso cérebro e a química do nosso sangue têm efeitos tão significativos
em nossa capacidade de lidar com o medo, então quantas escolhas isso nos deixa para
melhorarmos? Será que sempre entramos em catástrofes já marcados com uma probabilidade prédeterminada? Certamente outras coisas têm maior importância – como as experiências que
tivemos durante a nossa vida e as pessoas que estão lutando pela sobrevivência ao nosso lado.
DESEMPENHO NO INCÊNDIO DO BEVERLY HILLS SUPPER CLUB
“As pessoas morrem do mesmo modo como vivem”, observa o sociólogo de catástrofes Lee
Clarke, “com amigos, entes queridos e colegas, em comunidades”.
A genética e a experiência podem tornar determinadas pessoas mais ou menos avessas a
riscos – ou adaptáveis. Mas catástrofes acontecem a massas de pessoas, não a indivíduos. Vítimas
de catástrofes são membros de um grupo, queiram ou não. E todos nós nos comportamos em
grupo de modo diferente do que agimos quando sozinhos.
No dia 18 de abril de 1906, o psicólogo William James foi acordado em seu apartamento, na
Universidade de Stanford, por uma sacudida violenta. Como escreveu mais tarde, em seu ensaio
intitulado “Sobre alguns efeitos mentais do terremoto”. Uma vez cessadas as “sacudidelas”, James
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procurou outras pessoas. “Acima de tudo, havia um desejo irresistível de falar a respeito do tremor
e de trocar experiências.”
No 11/9, pelo menos 70% dos sobreviventes falaram com outra pessoa antes de tentar sair,
como descobriu um estudo realizado pelo governo federal. Deram milhares de telefonemas,
checaram a TV e as páginas de notícias da internet, e enviaram e-mails para amigos e família.
Em uma catástrofe, estranhos param de ser estranhos, John Drury, psicólogo social da
Universidade de Sussex, no Reino Unido, analisou o comportamento de grupo em uma ampla gama
de desastres – de naufrágios de navios a debandadas em estádios. Ele supôs que grupos com uma
conexão em comum (como torcidas de futebol) se comportariam de modo diferente dos estranhos
anônimos. Mas o próprio desastre criava um elo instantâneo entre as pessoas. “Mesmo que eles
começassem bastante fragmentados, uniam-se e mostravam um enorme grau de solidariedade”,
esclarece Drury.
A definição exata da identidade de grupo é: seres humanos em geral não gostam de ir
contra o consenso do grupo. Então os membros do grupo terão de dar duro para minimizar o
conflito. A dissidência é desconfortável.
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