Resenha relativa ao livro: TENÓRIO, Fernando Guilherme

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Tecnologia da informação transformando as organizações e trabalho / Fernando Guilherme
Tenório. – Rio de Janeiro: Editora FGV, 2007.
216 p.
ISBN – 978-85-225-0584-5
Colaboradores: Edson Chiari Grotolli, Gilberto Malamut, Maria Cristhina de Souza Rocha,
Sérgio de Mattos Hilst.
Através de uma abordagem densa, construtiva e inovadora, o livro “Tecnologia da
informação transformando as organizações e o trabalho” trata de um tema deveras importante
para as organizações atuais, que é a flexibilização organizacional e do trabalho por meio da
Tecnologia da Informação (TI). Em um mundo globalizado, em que as organizações
necessitam alterar suas estruturas constantemente para atender a um mercado cada vez mais
volátil, os aparatos tecnológicos centrados no desenvolvimento do conhecimento são condição
sine qua non de sobrevivência nesse mercado, possibilitado pela implantação dos chamados
enterprise resource planning (ERP) ou, em português, sistemas integrados de gestão,
deixando clara a visão sistêmica que é preconizada pelo autor. Sob tal foco, outrossim, são
mostradas as relações de trabalho nesse modelo e a responsabilidade social conferida às
entidades, tudo abordado sob o enfoque brasileiro.
O organizador-autor, Fernando Guilherme Tenório, é professor titular na Escola
Brasileira de Administração Pública e de Empresas da Fundação Getúlio Vargas
(Ebape/FGV), possui pós-doutorado pela Universidad Autonoma de Barcelona, U.A.B.,
Espanha. Conta em seu currículo com uma quantidade significativa de atividades de pesquisa,
publicações e livros sobre a área de Administração. Teve, como colaboradores, mestres em
administração pela Ebape/FGV, mostrando o caráter de vanguarda que a FGV tem na
pesquisa científica sobre os mais diversos temas de administração, sempre aglutinando várias
pessoas dessa instituição de ensino em torno de projetos de pesquisa, que ajudam no
desenvolvimento empresarial brasileiro ao abordar aspectos inerentes à administração neste
país.
O livro é introduzido com uma análise histórica que mostra como o ambiente
organizacional do novo milênio chegou à atual configuração. Com isso, oferece a base
necessária à compreensão do livro, e, conseqüentemente, aumenta a capacidade interpretativa
do leitor, ajudando inclusive a se especular o que virá a seguir.
Na primeira parte do livro, objetiva-se explicar a importância da flexibilização
organizacional e da implantação dos sistemas integrados de gestão, além de expor as
conseqüências geradas pela sua implantação ou não. Alguns dos principais motivos dessa
nova configuração empresarial são a intensificação da globalização e a constante evolução
tecnológica, aumentando o grau de complexidade e velocidade dos negócios. Dessa forma, as
empresas têm buscado horizontalizar suas estruturas com o objetivo de flexibilizá-las,
permitindo que os níveis operacionais tenham mais autonomia e que possam tomar microdecisões, já que conhecem o processo produtivo e as demandas internas e externas mais que a
alta administração. Assim, as entidades se tornam mais eficazes e eficientes, resultando em
uma maior competitividade no mercado.
Ao contrário do modelo fordista/taylorista de produção, em que os operários não
tinham controle sobre o processo produtivo, na nova estrutura administrativa das instituições,
o trabalhador tem um papel fundamental. É justamente por isso que elas estão passando a
exigir um grau cada vez maior de conhecimento por parte dos empregados. Há um bom
tempo, organizações japonesas estão na vanguarda mundial, devido às suas filosofias e
técnicas de gestão, como a toyotista, kan-ban, kaisen, entre outras, que inovaram as técnicas
produtivas e meios de gerência ao focar-se no desenvolvimento tecno-científico e na intensa
qualificação dos profissionais.
A partir do pressuposto da importância dos trabalhadores nesse novo meio de gestão, é
discutível a autonomia concedida a eles, pois poderia gerar uma perda do controle por parte
da alta administração da empresa. É justamente por isso que, nesse contexto, a tecnologia da
informação é essencial, pois é ela quem preenche essa lacuna, viabiliza a troca de informações
entre todos os departamentos e facilita a manutenção da ordem na empresa, impedindo que
seus membros tomem decisões prejudiciais àquela.
Apesar de o livro abordar bem esse assunto, mostrando suas prerrogativas básicas e
quão multifacetado ele é, o autor acaba sendo repetitivo em alguns momentos, citando as
mesmas idéias durante várias passagens do livro, o que se configura como algo desnecessário,
impedindo-o de progredir e mostrar novos horizontes.
Em seguida, o livro trata do lado técnico-teórico dos ERP. A falta de habilidade da
maioria dos funcionários da empresa em lidar com os sistemas informacionais; a resistência à
nova forma de realizar seus trabalhos; o alto custo inicial; a necessidade de manter
profissionais especializados para a manutenção nos sistemas; a pressão para se atualizar
incessantemente à medida que tecnologias mais modernas vão aparecendo; e a
heterogeneidade dos processos, que gera dificuldades na integração dos mesmos, são algumas
das dificuldades geradas pela implantação desses sistemas. Porém, os benefícios advindos dos
ERP, mesmo demandando muito tempo para aparecerem, compensam o embate às barreiras
impostas. Ou seja, os sistemas integrados de gestão proporcionam às empresas alta
lucratividade em longo prazo e catalisam o seu processo de crescimento.
Assim sendo, tudo o que é exposto no livro corrobora para a idéia de que é
fundamental implantar tais sistemas numa empresa que visa a permanecer muito tempo no
mercado. Para fundamentar mais sua argumentação, uma pesquisa feita pela FGV é
apresentada, juntamente com o método de coleta de dados e as conclusões que podem ser
tiradas. Esse aspecto se configura como algo bastante positivo para a construção do livro, pois
evidencia que este foi feito a partir de um profundo estudo do assunto, através de diversos
métodos.
Já na segunda parte do livro, o autor aprofunda-se no tema, abordando como a
flexibilização organizacional está transformando as relações de trabalho, que estão tendendo a
se tornar flexíveis também, e apresenta a atual situação da qualidade de vida no trabalho no
Brasil. Mostra claramente como eles estão relacionados e enumera os pontos positivos e
negativos de tal flexibilização.
Nesta parte da obra, foca-se em analisar a flexibilização no trabalho no caso específico
do Brasil, mostrando inicialmente o histórico das relações trabalhistas em nosso país, às vezes
o comparando com o de outros países; ao contrário da primeira, que analisa de um modo mais
amplo a flexibilização organizacional. Compulsoriamente, a flexibilização da relação de
emprego tem de ser intermediada por alterações constitucionais, deixando clarividente a
importância do setor público para viabilizar mudanças ou acréscimos nas atuais relações de
trabalho.
Entretanto, chega-se a um ponto crítico: deve-se ou não flexibilizar as relações de
trabalho? O setor privado defende que isso é vital para aumentar a competitividade de seus
produtos no mercado nacional e internacional, já que minimiza custos e maximiza a
produtividade das empresas. Porém, apesar de ser bastante lucrativo para as entidades,
configura-se, na prática, como uma perda na qualidade de vida do trabalhador, ao diminuir a
quantidade de seus direitos e aumentar excessivamente a quantidade de trabalho para quem
está empregado, além de elevar o nível de desemprego.
Ou seja, apesar de as relações fixas de trabalho serem dispendiosas para as empresas,
são essenciais para uma melhoria da sociedade como um todo, já que garantem o bem-estar de
seus cidadãos, tendo o Estado o papel fundamental de assegurar isso. Mas é importante, até
certo ponto, que haja uma flexibilização para potencializar a competitividade dos produtos
brasileiros no mercado internacional, desde que ela não prejudique o trabalhador.
Felizmente, a qualidade de vida no trabalho no Brasil vem melhorando, tendo como
divisores de águas a Constituição de 1988, que garante inúmeros direitos para a classe
trabalhadora, e a adesão do Brasil às convenções da Organização Internacional do Trabalho
(OIT). Com isso, o que for decido nessas convenções pode ser aplicado juridicamente no
Brasil, colaborando com a melhoria das condições de trabalho no país, seguindo as tendências
internacionais, como é o caso da Norma AS 8000 que já está regulamentada e adequada de
acordo à nossa constituição.
Todavia, devido à grande instabilidade e competitividade do mercado, as empresas se
aproveitam dos fracos sindicatos e da grande quantidade de mão-de-obra desempregada para
estabelecer relações de trabalho que melhor lhes convêm, ou seja, muito mais flexíveis,
reduzindo consideravelmente a qualidade de vida no trabalho e do trabalhador.
Ao analisar esse quadro, o livro defende que a responsabilidade social deve ser
priorizada pelas empresas, visto que agrega valor ao produto, aumentando, portanto, sua
competitividade, mesmo que esteja a um preço superior ao da concorrência. E a tendência
mundial é uma intensa valorização de atitudes que preconizem o bem-estar da sociedade, já
que os mercados consumidores estão se tornando cada vez mais exigentes, principalmente os
dos países desenvolvidos, dando sempre preferência ao consumo dos produtos das empresas
que demonstram isso.
Em seguida, são apresentadas duas pesquisas. Na primeira, são mostrados os efeitos
das relações de trabalho na qualidade de vida no trabalho e verifica-se, na segunda, até que
ponto o exercício da cidadania seria uma realidade cotidiana dentro de empresas brasileiras.
Essa abordagem prática do assunto ajuda muito à compreensão do livro e mostra que os
conceitos expostos têm aplicabilidade em empresas globalizadas.
O autor cita muito o posicionamento de outros estudiosos sobre os temas tratados no
livro, sendo que às vezes se limita a expor tais posicionamentos. Mas dependendo do ponto de
vista, isso deixa de ser um aspecto negativo e torna-se um ponto importante, pois em um
único livro o leitor pode ter acesso ao que vários autores pensam a respeito de diversos
assuntos, tendo ao seu alcance linhas de raciocínio divergentes. Também cita bastante suas
obras precedentes, tendo-se a impressão de que o livro é uma mera extensão delas.
Assim, conclui-se que, de um modo geral, o livro ajuda muito à compreensão da atual
situação das organizações e indica diretrizes para que elas possam se adaptar às atuais
tendências do mercado, sem que prejudiquem os trabalhadores e a sociedade. O diferencial
dessa obra em relação às outras sobre o mesmo tema é a abordagem humana dada ao assunto,
opondo-se às demais obras misantropas que se encontram no mercado. Deixa bem claro que
os sistemas informacionais são essenciais às empresas contemporâneas, mas que não se pode
esquecer que a qualidade de vida e o bem-estar social devem ser o foco da empresa e não a
maximização desumana do lucro.
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