A INFLUENCIA DA MECANIZAÇÃO DA ATIVIDADE AGRÍCOLA NA COMPOSIÇÃO DO CUSTO DE PRODUÇÃO Eusélia Paveglio Vieira Mestre - Professora da Universidade Regional do Noroeste do Estado do RS – Unijuí Endereço: Rua José Cereta, 170 apto.104 Telefone: 55 – 3332 6307 E-mail: [email protected] Maria Margarete Baccin Brizolla Mestre - Professora da Universidade Regional do Noroeste do Estado do RS – Unijuí Endereço: Rua Bento Gonçalves, 93 – Ijuí –RS Telefone: 55 – 3332 6120 E-mail: [email protected] RESUMO Com a evolução tecnológica e a mecanização da atividade agrícola, houve uma alteração na composição dos custos de produção nesta atividade, muitos custos que antes eram insignificantes, ou outros que até não existiam, passaram a ser representativos e necessitam hoje ser cuidadosamente analisados e adequadamente classificados. Custos com mão-de-obra direta que, até pouco tempo, representavam nestas organizações significativa parcela dos custos totais de produção (mesmo que a mão-de-obra fosse familiar), atualmente, são custos reduzidos ou pouco significativos em relação ao custo total do produto. A partir das organizações estudadas, verificou-se uma queda nos custos totais de produção com a mecanização da atividade, mesmo havendo um significativo aumento nos custos de depreciação, combustível e manutenção de maquinas agrícolas. Diante disso, faz-se necessário outros estudos para verificar a variação no grau de mecanização e comparar com a variação nos custos de produção, e ainda analisar como tem sido o comportamento da mãode-obra direta em termos de variação percentual comparando com os custos de mecanização. Palavras-chaves: Custos fixos. Variáveis de produção. Mecanização. 1 INTRODUÇÃO A agricultura tem desempenhado um papel importante no desenvolvimento do país. Por meio de aspectos como geração de renda e emprego, desenvolvimento agrícola, alto grau de mecanização, alta rentabilidade e obtenção de resultados, observa-se que cada vez mais as organizações agrícolas estão adaptando-se a modernização. A atividade agrícola tem procurado, aprimorar as práticas ou sistemas de cultivo, e o gestor desta atividade carece de ferramentas que lhe permitam investir de modo a obter o maior retorno contábil, econômico e financeiro, o melhor aproveitamento de insumos e serviços com o menor impacto ecológico. A quantificação de todos os insumos e serviços que compõe o custo de produção estruturados em uma planilha de custos é uma dessas ferramentas. Junto com uma correta avaliação do comportamento dos preços de mercado e do potencial de comercialização que permite gerenciar de forma otimizada o empreendimento. 2 Além de ser uma ferramenta gerencial, a planilha de custos de produção é também subsídio para o estabelecimento de políticas de preços mínimos de comercialização e base para financiamentos e seguros. Este estudo propõe saber quais os impactos da mecanização da atividade agrícola no custo de produção. Para tanto analisou-se 9 (nove) propriedades rurais das regiões Central e Noroeste do Rio Grande do Sul, com o objetivo de identificar a influência do grau de mecanização da atividade na composição dos custos de produção de grãos. O método de pesquisa utilizado para esta abordagem classifica-se quanto aos objetivos como descritiva, quanto aos procedimento um estudo de multi casos, os quais contribuem para a compreensão de cada organização, segundo Yin (2004), multi caso é o estudo de mais de um caso (organização) e quanto a abordagem do problema qualitativa. 2 REFERENCIAL TEÓRICO 2.1 Atividade agrícola O Brasil apresenta grande potencial de crescimento para sua produção agrícola, pois conta com clima favorável que possibilita duas ou mais safras por ano; grandes extensões de áreas agricultáveis ainda não aproveitadas; disponibilidade de água; produtores e agroindústrias com bom nível tecnológico; demanda mundial por alimentos em crescimento; e, acima de tudo, um grande potencial de aumento no consumo interno. Apesar de todo esse potencial, a agricultura brasileira não vem crescendo a taxas expressivas nos últimos anos. É, portanto fundamental, para a formação das expectativas dos diversos agentes econômicos que atuam na economia brasileira, conhecer as principais restrições a um desempenho mais consistente do setor agrícola e avaliar as suas perspectivas para os próximos anos. Fazer qualquer análise prospectiva sobre a agricultura brasileira impõe que se faça antes uma abordagem sobre os caminhos e transformações pelos quais passou nas últimas décadas. Isto porque grande parte dos problemas e soluções que se apresentam em discussão guarda uma relação direta com os avanços e atrasos contidos no âmbito das informações estruturadas para o processo de tomada de decisão, assim como produtividade, custos de produção, lucratividade e também as política agrícola passada e suas variações. O planejamento foi direcionado às mudanças demandadas pela estrutura econômica e atendia a um contexto sócio-econômico permeado por interesses diferentes que geravam divergências na execução das medidas. Gonçalves Neto (1997) afirma que é neste contexto que o Estado brasileiro procurará instaurar seu projeto modernizante para o setor agrícola e ainda que o objetivo primordial é atrelar o setor ao processo de desenvolvimento econômico, não permitindo que ele possa obstar o crescimento da economia. Para este fim, recursos são canalizados, criam-se institutos de pesquisa e de assistência técnica, estabelece-se um sistema nacional de crédito rural e incentiva-se a utilização de técnicas e insumos modernos, o que propicia a integração da agricultura ao circuito industrial (GONÇALVES NETO, 1997). Porem existe uma grande carecia de informações relacionadas a gestão interna da organização rural, informações estas que perpassam pela estruturação de controles que possibilitem conhecer exatamente os custos desta atividade, bem como os impacto que podem causar no resultado da organização. Este processo conduziu a adaptação da agricultura às necessidades do desenvolvimento econômico, permitindo que as relações sociais capitalistas adentrassem rumo ao setor agrícola brasileiro, o que resultou no desenvolvimento e sedimentação das relações capitalistas no campo por meio da instauração de suas relações técnicas e sociais de 3 produção, ocupando novas áreas agricultáveis, aumentando a produção e atendendo às necessidades do mercado interno e, principalmente, externo. Dessa forma parece claro que o investimento de capitais na agricultura brasileira a partir da década de 1960 atendia a uma exigência do setor urbano-industrial brasileiro, que, por sua vez, respondia à demanda internacional de produtos agrícolas e agro-industriais, o que envolvia, no dizer de Belik (1998), o Estado e grupos de interesses organizados. Szmrecsányi e Ramos (1997) apontam o vínculo entre as políticas agrícolas e a economia mundial afirmando que havia uma política deliberada de incentivos às exportações brasileiras centrada em bens processados, aprofundando, desta forma, a industrialização e que esta relaciona-se diretamente com a economia mundial. Para Sorj (2001), a inserção da agricultura dentro do modelo de desenvolvimento orientado pelo grande capital monopolista, que se afirma nesse período, se dará dentro das coordenadas gerais de expansão da produção agrícola para o mercado interno e externo, a fim de permitir a manutenção de baixos custos na reprodução da força de trabalho urbano e de aumentar o montante de divisa para que se mantenham as importações de insumos e maquinarias necessários para a expansão do parque industrial. A forma específica pela qual essas coordenadas se realizam na agricultura está determinada pelo padrão de acumulação industrial, centrado no desenvolvimento de um complexo agro-industrial liderado pelas grandes empresas estrangeiras e pela correlação de forças sociais no campo, totalmente favoráveis aos grandes proprietários. Na opinião de Delgado (1997) o que houve foi um pacto agrário modernizante e conservador, que permitira a integração técnica da indústria com a agricultura. A articulação da agricultura e indústria, por meio dos incentivos destinados aos investimentos de capital no setor agrícola, teve no crédito agrícola, durante a década de 1970, o elemento principal. Quando fala-se em agricultura, fala-se não somente em produção de alimento e fornecimento de matéria-prima, mas principalmente em desenvolvimento, pois tudo o que é produzido pela atividade agrícola resulta em benefícios para a população de um modo geral. Crepaldi (1998), afirma que a agricultura representa toda a atividade de exploração da terra, seja ela o cultivo de lavouras e florestas ou a criação de animais, com vistas à obtenção de produtos que venham a satisfazer às necessidades humanas, onde a .agricultura deve desempenhar os seguintes papéis no processo de desenvolvimento: a) produzir alimentos baratos e de boa qualidade; b) produzir matéria-prima para a indústria; c) pela exportação, trazer dinheiro para o país; e d) dar condições dignas de vida para o trabalhador rural. Já Marion (2000), divide as atividades agrícolas em dois grades grupos: Culturas hortícola e forrageira: cereais (feijão, soja, arroz, milho, trigo, aveia...); hortaliças (verduras, tomate, pimentão...); tubérculos (batata, mandioca, cenoura...); plantas oleaginosas (mamona, amendoim, menta...);especiarias (cravo, canela...); fibras (algodão, pinho...); e floricultura, forragens, plantas industriais. E Arboricultura: florestamento (eucalipto, pinho...); pomares (manga, laranja, maçã...); evinhedos, olivais, seringais etc. Diante de tais informações, percebe-se que a agricultura tem por finalidade produzir alimentos e matérias-primas necessárias para satisfazer as necessidades de uma população cada vez mais crescente. Esta atividade caracteriza-se pelas culturas temporárias e permanentes. 2.2 Mecanização na atividade agrícola e a Composição dos Custos de Produção A produção agrícola desenvolve-se em um processo sucessivo de tomadas de decisão pelo produtor, que necessita escolher quando e como realizar os procedimentos recomendados pela pesquisa ou técnicos, podendo ainda optar pela execução ou não de determinadas atividades. Muitas vezes, a decisão de aplicar as técnicas apropriadas ou recomendadas, 4 visando ganhos superiores, requer investimentos (FETT, 2000). O investimento, segundo Galesne, Fensterseifer e Lamb (1999), consiste em uma empresa comprometer ou imobilizar capital, sob diversas formas, a fim de manter ou melhorar sua situação econômica. De acordo com os mesmos autores, a decisão de investir, invariavelmente, comporta risco. A Ciência Contábil interage nesse contexto, gerenciando os objetivos de desempenho, assim como o custo beneficio da mecanização agrícola participando e influenciando diretamente as estratégias de competitividade pela melhor eficácia e produtividade. A modernização da atividade agrícola esta relacionada, a investimentos em máquinas, equipamentos e dispositivos que ajudam a produção a transformar materiais, informações e consumidores, de forma a agregar valor e atingir os objetivos de produtividade e lucratividade. Segundo Vieira (2005) estas inovações no processo de produção têm reflexos diretos na composição dos custos de produção repercutindo no sistema de custos da propriedade. Itens de custos que em outros tempos eram significativos em termos de valores, hoje podem se apresentar sem maior importância. Outros itens que antes inexistiam ou eram insignificantes, passam a ser fundamentais na composição do custo total de produção. Ressalta-se que são várias as publicações que trazem a idéia de que com a revolução tecnológica foram reduzidos os custos diretos (variável) e conseqüentemente aumentados os custos indiretos (muitos deles classificados como fixos). Mas por outro lado na atividade agrícola estes custos de depreciação, seguros, manutenção ... podem ser classificados como custos variáveis, desde que sejam determinados o tempo de utilização das maquinas e equipamentos em cada atividade desde o plantio ate a colheita do grão. É neste contexto que se propôs pesquisar e estudar os efeitos da mecanização na composição dos custos de produção da atividade rural, principalmente tratando dos custos que decorrem da mecanização, entre eles, depreciação, mão-de-obra indireta, seguros, pesquisa & desenvolvimento, manutenção, entre outros. Alguns estudiosos, como Cogan (1995), Brimson (1996), Nakagawa (1994) classificam estes como custos indiretos e relatam que ocorreu uma inversão dos custos de produção na composição do custo total, destacando principalmente a substituição dos custos diretos, basicamente mão-de-obra direta, pelos custos indiretos de produção. Outros como Koliver (1987), Leone (1997), Horngren, Foste e Datar (1999) questionam que para classificar os custos em diretos e indiretos, primeiro deve-se respeitar o objeto de custo, o causador do custo, isso faz com que muitos custos decorrentes da tecnologia, mecanização, podem ser classificados como custos diretos, ocasionando opiniões divergentes. Essas diferentes formas de pensar fizeram com que surgisse a necessidade de buscar no campo empírico, a forma de classificação dos custos nas empresas que estão operando com alto nível de automação. Com relação a mecanização, Ching (1995) explica que é importante considerar que o perfil de custos das empresas mudaram nas últimas décadas. O custo com mão-de-obra direta diminuiu drasticamente e deve estar ao redor de 15%. Em direção oposta, os custos indiretos (overhead), incluindo aí os custos de tecnologia (automação nas fábricas e escritórios), têm crescido. Para mais de 60% do setor produtivo, neste caso a atividade rural a relação dos custos indiretos sobre os custos totais é de até 30%. A justificativa para essa afirmação, baseia-se na idéia de que, na medida em que aumenta a participação dos ativos de produção, notadamente o imobilizado técnico, tende a aumentar os custos classificados como indiretos. Isso por que aumentam as cargas de depreciação, de mão-de-obra indireta, com manutenção, seguros, pesquisa, energia, ou seja, todos os custos decorrentes da automação. Os efeitos do aumento desses custos na atividade agrícola resultam em maior custo de produção relacionado ao uso de maquinas e equipamentos, os quais de acordo com o método 5 de custeio adotado, fazem parte dos custos variáveis, uma vez que seus valores são determinados de acordo com o tempo utilizado para o desempenho de cada atividade na produção de grãos. 2.3 Classificação dos Custos em Fixos e Variáveis A automação da produção agrícola, ocorrida nas últimas décadas, proporcionou algumas mudanças na estrutura dos custos dos produtos das organizações rurais, especialmente quando se fala da composição dos custos de produção, que de forma simplificada são compostos de insumos diretos, mão-de-obra direta e custos indiretos de fabricação, estes classificados em fixos e variáveis. Nessa linha de pensamento, muitos autores da área Contábil, discutem a redução dos custos com mão-de-obra e a evolução dos custos com depreciação e manutenção de máquinas, principalmente quando se fala da substituição da mão-de-obra direta por custos oriundos da modernização da atividade agrícola, os chamados custos de mecanização da atividade, destacando-se aqueles com as depreciações, seguros, combustíveis e manutenção. Kraemer (2000) em relação a composição dos custos de produção comenta que os tradicionais componentes do custo do produto, ou seja, materiais, mão-de-obra e custos indiretos de fabricação, tiveram alteradas suas participações no custo total. Em alguns casos, o item mão-de-obra direta deixa de ser relevante em termos de custos em relação aos demais componentes do custo do produto. Em compensação, os custos com depreciação, combustíveis e manutenção de máquinas passaram, a representar o segundo principal componente do custo de produção na atividade rural perdendo para os insumos consumidos na produção. Muitos estudos classificam qualquer custo, que não seja com mão-de-obra direta e insumos de produção, como custos fixos, deixando-se de analisar o causador do custo. Entre estes outros itens de custos, quando bem analisados, alguns podem ser identificados de forma clara com o nível de produção, deixando com isso de ser um custo fixo e passando a ser considerado como itens de custo variável por natureza. Pode-se dizer, que um custo é variável ou fixo quando se relaciona o item de custo ao volume de produção da atividade que está sendo custeado. A maior questão com relação a custos é saber quais os que variam a media que varia o nível de produção e quais os que permanecem fixo independente do mesmo. Para Horngren, Foster e Datar (1999, p.21) custo fixo “é um custo que não se altera em montante apesar de alterações num direcionador de custos”. Padoveze (2003, p.318) comenta que: “apesar da possibilidade de classificarmos uma série de gastos como custos fixos, é importante ressaltar que qualquer custo é sujeito a mudanças. Mas os que tendem a se manter constantes nas alterações do volume das atividades operacionais são tidos como custos fixos”. Segundo Padoveze (2003) os custos variáveis são os custos e despesas cujo montante em unidades monetárias varia na proporção direta das variações do nível de atividade. Um custo é variável se ele realmente acompanhar a proporção da atividade com que ele é relacionado. Um custo variável é aquele que se pode medir em relação a variação do nível de produção. Assim, a mão-de-obra direta, quando contratada para determinado volume de produção, é fixa em relação àquele volume, mas direta em relação ao produto, uma vez que podemos medir os esforços feitos para cada unidade de produção. O mesmo autor ainda faz observações com relação a custos variáveis em relação à produção e variáveis em relação às atividades. Com relação à produção observa que torna-se como base a quantidade de produto final produzido para se fazer a análise do comportamento 6 do custo. É a visão clássica do custo variável.o exemplo mais significativo é o consumo de materiais da estrutura de produção. Com relação à atividade, observa que eventualmente, um custo ou gasto relacionado a máquinas ou equipamentos pode não ser variável em relação à quantidade de produto final produzido ou vendido e ter o comportamento de um custo fixo. Porém, relacionando-o com uma outra atividade, como n caso da atividade agrícola, ele pode vir a ser considerado variável em relação a atividade No caso específico da depreciação, parte de seu custo é decorrente de máquinas e equipamentos utilizados na produção e geralmente é classificado como custo fixo dependendo do método para calculo utilizado. No entanto, na atividade agrícola é possível determinar o tempo de utilização de cada máquina e equipamento, podendo ser classificado com custo variável todos os custos relacionados a estes, ou seja, os custos de depreciação, combustível e manutenção. Além dessa classificação, a depreciação pode em alguns casos, ainda ser classificada como custo fixo, quando se compara o seu comportamento diante das mudanças nas quantidades produzidas, isso quando se utiliza o cálculo da depreciação linear de taxa fixa, considerado como o método fiscal. O grau de separação dos custos em fixos e variáveis determina a qualidade do sistema de apropriação dos custos e somente após a fixação destes conceitos é que se analisam os demais elementos caracterizadores dos sistemas. Para a depreciação, a questão é mais complexa, sendo que na maioria das entidades ela é classificada como custo fixo, porque, normalmente nos sistemas de custos das entidade, se utiliza a mesma fórmula de cálculo para fins fiscais, não havendo preocupação de se utilizar outras alternativas de cálculo para fins gerenciais. Como por exemplo usar o tempo de vida útil real do equipamento ao invés de usar taxas determinadas, ou, usar taxas de depreciação em bens que estão contabilmente depreciados, mas que ainda mantém sua produção e que tenham valor de mercado. Neste caso, é necessário algum tipo de identificação para se chegar a apropriação final, levando-se sempre em consideração a análise do custo e do benefício, mediante o emprego de diferentes sistemas de custeio, no qual o entendimento de cada um é questão fundamental para a alocação dos custos aos objetos de custos. Além disso, surge o fato de existir diversos tipos de custos de depreciação, como das instalações, dos equipamentos, de veículos e outros bens. Por muito tempo a mão-de-obra direta foi um dos fatores mais importante na formação do custo do produto, como também, o fator básico de rateio, a mudança dificulta a alocação dos custos aos produtos, mas a preocupação e a atenção maior do Contador de custos está em identificar o objeto de custo, ou seja, em função do quê o item de custo surgiu. Neste sentido a identificação e a classificação dos custos, em fixos e variáveis, é determinante para o cálculo do custo do produto, e isso, independente da participação dos custos fixos em relação ao custo total, sendo que continua existindo a necessidade de critérios de alocação e ou de distribuição aos produtos. 2.4 Custos de Produção e sua Relação com o Objeto de Custo Um elemento comum entre as empresas globalizadas é a mudança significativa no ambiente de produção, caracterizada pelo crescimento da automação e computadorização dos processos, redução dos níveis de mão-de-obra, crescimento da atenção ao produto e ao planejamento da produção e diminuição no ciclo de vida dos bens. Neste sentido, o setor agrícola vivencia tais transformações, para De Rocchi (1995) é fato conhecido a crescente substituição do trabalho humano, representado pela mão-de-obra direta, pela atuação de 7 equipamentos altamente sofisticados e automatizados, particularmente em alguns ramos da indústria de transformação, do setor terciário, assim como no setor agrícola. Neste tipo de atividade produtiva, o custo final é composto, preponderantemente por custos originados dos insumos utilizados na produção e na posse, utilização e conservação de bens duráveis (depreciações, juros sobre o capital investido, prêmios de seguros, gastos com combustíveis, manutenção e conservação). Em tais casos, a unidade de obra indicada é o custo da hora máquina. As grandes organizações estão adotando cada vez mais as filosofias de produção como o just-in-time, kanban, ou seja, o uso de máquinas e equipamentos cada vez mais sofisticados com tecnologias avançadas, no processo produtivo. Esta mudança traz alterações significativas para o controle contábil, uma vez que em tempos passados, o controle de custos era planejado para um período de produção em que a mão-de-obra direta, juntamente com os insumos de produção quase sempre eram os componentes mais significativos dos custos de produção. Nakagawa (1994) relata que as tecnologias avançadas de produção, ao mesmo tempo, que revolucionam os processos de produção no nível de chão de fábrica, provocam, simultaneamente, sensíveis alterações nos padrões de comportamento dos custos. Ao mesmo tempo em que a incidência em custos com mão-de-obra direta vem decrescendo, os custos de depreciação, combustível e manutenção, vem aumentando sensivelmente. Esse entendimento não pode ser considerado como universal e fazer com ele generalizações, pois essa correlação depende do tipo de atividade, bem como do nível de automação e das particularidades da atividade produtiva, uma vez que a representatividade dos custos decorre da classificação preliminar em custos fixos e variáveis, levando-se em consideração o objeto de custo, isso com a finalidade de que a classificação seja a mais real possível. Já no que tange a forma como as organizações rurais, se organizam e administram o trabalho e de como qualificam sua mão-de-obra é um fator importante, juntamente com as inovações tecnológicas, para a obtenção dos ganhos qualitativos e produtivos. Neste sentido, Silva Jr (2000) relata que as inovações são mais amplas, e englobam inclusive novas formas de comportamento, de comunicação entre os trabalhadores, de organização do trabalho, que sejam qualitativamente distintas das formas já conhecidas, desde que resultem em ganho de qualidade ou produtividade 2.5 Sistemas de Custos na Atividade Rural Conforme definem Santos, Marion e Segatti (2002, p. 33) “Sistema de custos é um conjunto de procedimentos administrativos que registra, de forma sistemática e contínua, a efetiva remuneração dos fatores de produção empregados nos serviços rurais”. Para tais autores, os objetivos básicos do Sistema de Custos na atividade rural, consistem em: a – Auxiliar a administração na organização e controle da unidade de produção, relevando ao administrador as atividades de menor custo, as mais lucrativas, as operações de maior ou menor custo e as vantagens de substituir umas pelas outras; b – Permitir uma correta valorização dos estoques para a apuração dos resultados obtidos em cada cultivo ou criação; c – Oferecer bases consistentes e confiáveis para projeção dos resultados e auxiliar o processo de planejamento rural, principalmente quando o administrador precisa decidir o que plantar e como plantar; d – Orientar os órgãos públicos e privados na fixação de políticas públicas, como garantia desejada, estabelecimento de limites de crédito, etc. 8 Entende-se que o sistema de custos da atividade rural deve assumir caráter de geração de informações gerenciais, para o melhor controle da propriedade, fornecendo instrumentos que permitam avaliar o real desempenho de cada atividade. O sistema deve oferecer ao administrador dados úteis para a tomada de decisão e permitir o apontamento de gastos desnecessários que possam reduzir a lucratividade de expressão. 3 ANÁLISE DOS RESULTADOS NO ESTUDO MULTICAOS 3.1 A influência do Grau de Mecanização nos custos de Produção do Objeto de estudo A elaboração de uma metodologia adequada e a correta alimentação do sistema permitem que mudanças na tecnologia e nos sistemas produtivos sejam rapidamente computadas e seu impacto, avaliado. Com o intuito de demonstrar os impactos gerados pelo aumento da mecanização nos custos de produção da atividade agrícola, foram estudadas nove organizações rurais em diferentes locais no Estado do Rio Grande do Sul, mais especificamente nas regiões Central e Noroeste as quais foram classificadas em pequeno, médio e grande porte, sendo organizadas de acordo com o grau de mecanização de modo a permitir a resposta da questão de pesquisa. Quadro 01: Custo de Produção por hectare PORTE Grande Médio Pequeno EMPRESA A 1200 ha B 1600 ha C 1400.ha D 750 ha E 450.ha F 350 há G 150 ha H 100 ha I 200 há SOJA Sc. 17,79 18,80 24,85 13,89 17,11 20,84 13,61 16,50 34,99 CUSTO DE PRODUÇÃO POR HECTARE E VARIAÇÃO MILHO TRIGO AVEIA ANO % Sc. % Sc. % Sc. % 43,91 22,29 2003 5,65 44,63 1,63 33,15 48,75 2003 32,17 44,24 -0,90 32,15 -0,96 13,62 2005 43,80 27,62 2004 23,20 28,89 4,60 12,61 2005 21,85 30,10 4,19 8,39 1,04 2006 33,43 36,60 2006 21,21 2004 112,06 71,66 114,35 2006 Fonte: Autor Para esta pesquisa foram selecionadas organizações objetos de estudo em conclusão de curso nos períodos de 2003 a 2006, as quais como já mencionado, foram organizadas em três grupos distintos, pequeno, médio e grande porte. Dentro de cada porte foi identificado o grau de mecanização do maior para o menor. Os custos de produção de cada cultura foram determinados a partir do custeio variável e estão representados em sacas de cada cultura, para a determinação do custo em sacas foram buscados os valores dos custos junto aos trabalhos, assim como o valor de vendas por saca para cada cultura. Entende-se que esta é uma possibilidade de minimizar as distorções de um período para o outro. Ainda observa-se no quadro numero 1 a variação dos custos em percentual, tal comparação foi efetuada dentro de cada porte. Observando o primeiro grupo, (organizações rurais de grande porte de acordo com a classificação dada) verifica-se que houve um aumento nos custos de produção da soja da Empresa A (menor grau de mecanização dentro do grande porte), para a Empresa B em 5,65% (cinco virgula sessenta e cinco por cento), já da Empresa B para a C a varia cão foi ainda maior, sendo de 32,17% (trinta e dois virgula dezessete por cento). Para o milho aumento de A para B foi de 1,63% (um virgula sessenta e três por cento) e de B para C houve queda no custo de produção de 0,90% (zero virgula noventa cento). Para o trigo o aumento de A para B 9 foi de 48,75% (quarenta e oito virgula setenta e cinco por cento) e de B para B uma queda em 0,96% (zero virgula noventa e seis por cento). Analisando o segundo grupo (empresas de médio porte), houve um acréscimo no custo de produção da soja da Empresa D para a E em 23,20% (vinte e três virgula vinte por cento) e de E para F em 21,85% (vinte e um virgula oitenta e cinco por cento). Para o milho não houve comparação, pois dentre as empresas estudas no período, uma só o cultivou. Para o trigo o aumento no custo de produção de D para E foi de 4,60% (quatro virgula sessenta por cento) e de E para F de 4,19% (quatro virgula dezenove por cento), sobre o cultivo de aveia a comparação foi efetuada entre E e F, havendo uma variação positiva de 1,04% (um virgula zero quatro por cento), já que a Empresa D não produziu tal cultura durante o período estudado. No terceiro grupo (empresas de pequeno porte), constatou-se que os custos para produzir soja aumentaram em 21,21% (vinte e um virgula vinte e um por cento) de G para H e de 112,06% (Cento e doze virgula zero seis por cento) de H para I. Observando os custos de produção do milho verifica-se que houve um aumento de G para I (uma vez que a Empresa H não produziu) em 114,35% (cento e quatorze virgula trinta e cinco por cento), representando um expressivo aumento nos custos de produção a empresa I, vale ressaltar que esta empresa possui o menor grau de mecanização. Neste grupo somente uma organização produziu trigo, não sendo possível comparação e aveia não houve produção. A partir do estudo verificou-se que na atividade agrícola, apesar de os custos com depreciação, combustível e manutenção de maquinas, aumentarem com a mecanização, no geral os custos de produção diminuíram, por haver uma queda significativa nos custos com mão-de-obra. Desta forma entende-se que a medida que aumentar o grau de mecanização dentro do mesmo porte os custos de produção diminuem A partir do estudo estruturou-se um quadro com a composição dos custos de produção, para tanto foram obtidos os dados junto as 09 (nove) organizações objeto de estudo, onde os valores em reais foram convertido em sacas de cada cultura o qual será demonstrado no quadro número 02. Quadro 02: Custos de produção por hectare em saca Soja Insumos Hora/máquina MO Total dos custos Milho Insumos Hora/máquina MO Total dos custos Trigo Insumos Hora/máquina MO Total dos custos Aveia Insumos Hora/máquina MO Total dos custos Fonte: O Autor Custo Sc. 17,83 2,20 0,38 20,41 % 87,35 10,77 1,88 100,00 39,28 5,13 0,22 44,63 88,01% 11,50 0,49 100,00 29,32 3,34 0,49 33,15 88,45 10,07 1,48 100,00 9,05 6,72 0,55 16,32 59,80 36,60 3,60 100,00 10 Como visto no quadro anterior, para a produção de soja, trigo e milho a composição dos custos de produção é semelhante, os insumos representam em torno de 88% (oitenta e oito por cento), os custos da hora maquina trabalhada representam entre 10% e 11,5% (dez e onze virgula cinco por cento) e a mão-de-obra representa em torno de 0,5% a 2% (zero virgula cinco e dois por cento), considerando o que diz Ching (1995), onde coloca que os custos de mão-de-obra ficava em 15% (quinze por cento), para o estudo a representação da mão-de-obra em relação ao total dos custos de produção ainda é menor. Em relação as demais culturas estudadas a aveia tem alteração na composição dos custos ficando os insumos 59,80% (cinqüenta e nove virgula oitenta por cento), os custos de hora máquina trabalhada de 36,60% (trinta e seis virgula sessenta por cento) e a mão-de-obra em 3,60% (três virgula sessenta por cento). Chama-se atenção ainda, que mesmo no caso da aveia que a mão-de-obra tem participação maior nos custos de produção, observa-se que é menor que a afirmação de Ching (1995), em que os custos de mão-de-obra ficava em 15% (quinze por cento). 4 CONCLUSÃO Com a mecanização da atividade agrícola surgiram custos que antes não existiam e outros passaram a ter maior representatividade. Dentre eles, a depreciação, a mão-de-obra especializada, os custos com energia, os serviços de terceiros, seguros, manutenção de máquinas, entre outros. Na discussão das mudanças no comportamento dos custos, verifica-se que o perfil da mão-de-obra nas organizações pesquisadas, difere muito daquele de empresas que não incorporaram novas tecnologias em seus processos produtivos, e a cada inovação de tecnológica, surge a necessidade de remanejamento e treinamento de pessoas. Tudo isso tem efeito no custo com mão-de-obra e máquinas em geral, sendo que a relação existente entre fixa e variável, depende da relação com o nível de produção, que num primeiro momento, nesta relação pode ser tanto fixa quanto variável, e considerando os custos com depreciação, adotando o cálculo a partir das horas trabalhadas, combustível e manutenção de máquinas, uma vez determinado o tempo na execução de cada atividade no processo produtivo e que pelo método de custeio adotado para estabelecer os custos de produção das empresas estudadas é o variável é possível calcular o custo da hora maquina trabalhada, assim como o custo de mão-de-obra e insumos utilizados, estabelecendo desta forma a partir do custeio variável o custo de produção. Dentre os custos que são classificados como fixos, as empresas pesquisadas apresentam os custos decorrentes da depreciação da estrutura física de apoio, outros custos como seguros mão-de-obra do pessoal de suporte a atividade como os serviços administrativos, gerência, vendas e outros. Este custo tem diferentes participações na composição do custo total das empresas. Neste estudo as distorções do custo de produção por hectare entre as organizações objeto de pesquisa são minimizadas, uma vez que o método de custeio e a forma de cálculo da hora máquina e mão-de-obra trabalhada é a mesma, sendo possível verificar os impactos ocorridos a partir do grau de mecanização de cada organização. Comparando a literatura técnica com o que é aplicado nas empresas na classificação dos custos, pode-se dizer com certa tranqüilidade que os custos de produção apresentam redução considerável a medida que aumenta o grau de mecanização, em função da relação aumento dos custos hora máquina trabalhada e redução da mão-de-obra na. Ressalta-se ainda que na composição dos custos de produção da atividade agrícola, para as empresas estudadas 11 os custos de produção representam menos de um terço (entre 0,5% e 2% para soja, trigo e milho e 3,6% para a aveia), comparado com a literatura estudada. Chama-se atenção ainda, para o fato de que é necessário outros estudos, para analisar a correlação existente em termos de variação percentual na queda dos custos de produção e o percentual de aumento do grau de mecanização, tal comportamento não foi estudado, uma vez que o objeto de estudo se deu a partir da classificação das organizações de acordo com o grau de mecanização, porem não foi calculado o percentual de evolução da mecanização em relação a variação dos custos de produção. 5 BIBLIOGRAFIA BELIK, Waltter Estado, grupos de interesse e formulação de políticas para a agropecuária brasileira. Revista de economia e sociologia rural. SOBER, 1998 (jan/mar), v.36, nº1, p.0933. BRIMSON, James. A. Contabilidade por atividades. Trad. Antônio Carneiro. 1 ed. São Paulo: Atlas, 1996. CHING, Hay. Y. Gestão Baseada em Custeio por Atividades. 1 ed. São Paulo: Atlas, 1995. COGAN, Samuel. Activity-Based Costing (ABC): A poderosa estratégia empresarial. 2. ed. São Paulo: Pioneira, 1995. 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