Doença Pulmonar Avançada x Uso de oxigênio em viagens aéreas Maria Christina Lombardi de Oliveira Machado Introdução As novas terapêuticas para doença pulmonar avançada (DPA) conseguiram melhorar tanto a qualidade de vida destes pacientes que atualmente eles estão se aventurando a fazer viagens aéreas. Além disto, alguns pacientes com DPA na fase mais tardia podem também necessitar de avaliações médicas mais especificas sobre sua doença em centros especializados, às vezes distantes do seu local de origem. Estas viagens são importantes, porque podem trazer grandes benefícios a estes pacientes, como a indicação de transplante pulmonar, cirurgia redutora de volume, ou uma segunda opinião médica especializada. As complicações médicas atribuídas às viagens aéreas são raras. Entretanto, existe uma forte tendência para que o número de passageiros sob risco de sofrer estas complicações aumente no futuro, principalmente pelo aumento da população de idosos no mundo todo. Atualmente 10% das emergências durante os vôos são causadas por doenças pulmonares, na sua maioria decorrentes de hipoxemia durante os vôos. Uma solicitação prévia para o uso de oxigênio a bordo pode ser extremamente benéfica nestes casos, apesar de que certos pacientes não seguem as orientações médicas mesmo após terem sido orientados. Alguns médicos também não costumam prescrever oxigênio suplementar durante viagens aéreas para pacientes com DPA, apesar de serem informados que seus pacientes estariam programando viajar de avião. Existe um consenso que indivíduos com pressão parcial de oxigênio arterial (PaO2) maior que 70 mmHg ao nível do mar não necessitam de oxigênio suplementar durante viagens aéreas, a menos que a capacidade vital forcada (CVF) na espirometria seja menor que 50% do valor predito, ou que sua capacidade de exercício esteja muito limitada (incapacidade de andar 50 metros no plano ou de subir as escadas do avião). Indivíduos com PaO2 <70 mmHg ao nível do mar, com pouca mobilidade ou com CVF< 50% do predito devem ser avaliados quanto à necessidade de oxigênio suplementar durante os vôos. Idealmente eles devem ser submetidos a um teste de simulação de hipóxia na altitude, mas isto ainda não é possível no Brasil. Uma alternativa para se prever o grau de hipóxia na altitude seria usar a equação de predição, que utiliza a PaO2 obtida na gasometria em ar ambiente e o volume expiratório forçado no primeiro segundo (VEF1) obtido pela espirometria, sempre após a otimização do tratamento medicamentoso, ambos durante doença estável e o mais próximo possível da viagem. Equações de predição : PaO2 predita na altitude de 8000 pés = 0,519 x PaO2 + 11.855 x VEF1 – 1.760 ou PaO2 predita na altitude de 8000 pés = 0,453 x PaO2 + 0,386 x (VEF1 % predito) + 2.440 Se a equação de predição indicar uma PaO2 < 50-55 mmHg, então devemos prescrever 2L/min de oxigênio suplementar por cânula nasal, durante o vôo. Se o paciente já apresentar hipoxemia ao nível do mar e estiver usando oxigenoterapia domiciliar prolongada, então recomenda-se que se acrescente 2 L de oxigênio a dose anteriormente prescrita, para uso durante o vôo. Para que o paciente receba uma prescrição adequada de O2 suplementar durante sua viagem aérea, é necessário que haja perfeita integração entre o médico prescritor, a companhia aérea e a empresa que fornece o oxigênio. Em verdade, para que isto ocorra, ainda necessitamos de regras ou linhas mestras que incluam avaliação compulsória e especializada do paciente antes da viagem, validação de protocolos específicos que contenham recomendações sobre a prescrição de oxigênio durante as viagens aéreas, revisão das leis federais que facilitem o fornecimento de oxigênio sem interrupções desde a partida até o destino final, e finalmente mais estudos futuros sobre emergências médicas durante os vôos. Dicas para os pacientes planejarem suas viagens aéreas Os pacientes com DPA que estão programando viajar de avião precisam saber antecipadamente que podem ocorrer alterações na sua respiração durante estas viagens. As seguintes informações sobre os efeitos do vôo na respiração são importantes. A pressão barométrica diminui com a altitude. Assim que o avião decola ao nível do mar, a pressão interna da cabine se eleva para compensar a diminuição na pressão barométrica fora da cabine da aeronave. No momento que a pressão barométrica da cabine diminui, a pressão parcial do oxigênio também diminui dentro do avião. A maioria dos indivíduos que necessitam usar oxigênio suplementar durante o vôo toleram muito bem a viagem de avião durante longos percursos sem complicações. Recomenda-se que o paciente com DPA sempre consulte seu médico antes de viajar. Não existem regras padronizadas ou regulamentadas pelo governo sobre pacientes que necessitam oxigênio suplementar durante viagens de avião. As informações sobre o uso de oxigênio durante o vôo devem ser reconfirmadas antes da partida do avião. O paciente também precisa saber que os agentes de viagem provavelmente não possuem grandes experiências de como lidar com usuários de oxigênio. Recomenda-se que o médico do paciente converse preferencialmente com alguém do departamento médico da companhia aérea antes da viagem. As informações específicas necessárias para o embarque variam conforme a companhia aérea, mas em geral os critérios são os mesmos: 1. As companhias aéreas não permitem ao paciente levar seu próprio oxigênio a bordo para usá-lo durante o vôo. A Empresa Brasileira de Aviação (EMBRAER) proíbe o uso de equipamentos de oxigênio em aeronaves comerciais, a não ser que não sejam fornecidos pela própria companhia aérea. A EMBRAER permite que as empresas aéreas forneçam oxigênio para os passageiros que o necessitam, mas nem todas o fornecem. É recomendado que o paciente pesquise antecipadamente o custo do oxigênio durante o vôo com as empresas que escolheu, por que os preços podem variar muito. Além disso, algumas empresas aéreas permitem que o paciente leve sua bolsa de oxigênio portátil como bagagem, mas somente SE ELA ESTIVER VAZIA. 2. 3. 4. 5. Portanto, é necessário verificar antecipadamente todas as informações sobre como viajar com oxigênio com a empresa de transporte aéreo escolhida. As empresas aéreas pedem uma prescrição ou uma carta feita por médico para liberar o uso de oxigênio durante o vôo. O paciente deve providenciar várias cópias desta prescrição ou carta, que deve conter a necessidade de oxigênio em litros por minutos e em alguns casos, uma declaração do médico que o paciente é capaz de automanejar o oxigênio. Algumas empresas aéreas também solicitam que a prescrição médica contenha o diagnóstico, as medicações em uso e o nome e telefone do médico prescritor. Ocasionalmente, o departamento médico da empresa aérea também pode querer se comunicar com o médico antes do embarque do paciente no avião. As empresas aéreas precisam ser notificadas quando um passageiro precisar de oxigênio suplementar durante o vôo com antecedência de 24 a 72 horas ou mais. Algumas empresas aéreas não fornecem oxigênio suplementar durante os vôos, a não ser durante situações de emergência. O único recurso nesta situação é escolher outra empresa que o forneça. Recomenda-se que o paciente faça um vôo sem escalas; se necessário solicite com antecedência uma cadeira de rodas; alimente-se com refeições leves, evite bebidas alcoólicas ou gasosas como refrigerantes; sente-se em assento próximo ao lavatório; leve seu cateter nasal com vários metros de extensão para se locomover dentro da aeronave usando oxigênio e coloque as medicações de rotina assim como as de emergência na bagagem de mão. Referências Bibliográficas 1- Stoller JK. Oxygen and air travel. Respir Care 2000;45(2):214-221. 2- Gong H Jr, Tashkin DP, Lee EY, Simmons MS. Hypoxia-altitude simulation test. Evaluation of patients with chronic airway obstruction. Am Rev Resp Dis 1984; 130(6): 980-986. 3- Cummins RO,Chapman PJ, Chamberlain DA, Schubach JA, Litwin PE. In-fight deaths during commercial air travelers. How big is the problem? JAMA 1988;259(13): 1983-1988. 4- Stoller JK. Travel for the technology-dependent individual. Resp Care 1994;39(4):347-360. 5- Cocker RK, Partridge MR. Assessing the risk of hypoxia in flight: the need for more rational guidelines. Eur Resp J 2000; 15(1):128-130.